ECA do B

As crianças negras e pobres do Brasil só são achadas por bala perdida porque não sabem ler o verdadeiro Estatuto da Criança e do Adolescente

Se as crianças negras e pobres tivessem aprendido a ler, não ficariam interrompendo o tráfego com seus corpinhos escuros. Mas vão para escolas públicas bem equipadas, em prédios planejados, cercados por jardins e quadras de esporte, com professores bem pagos e preparados, em tempo integral, alimentadas com comida nutritiva e balanceada, e nem assim conseguem ler direito. Só desperdiçam os impostos pagos por pessoas de bem, como eu. Preferem ficar em seus barracos sufocantes, em ruas esburacadas e sem árvores, por mau gosto. Impressionante o mau gosto das crianças pobres e negras, uma coisa que vem de berço, mesmo, basta ver como se vestem mal. Por isso, não compreendem o Estatuto da Criança e do Adolescente. Não a bobajada aprovada nos anos 90, por aquele monte de babacas que ficam choramingando até hoje porque a ditadura torturou e matou uns milhares de comunistas. Matou foi pouco! Estou falando do verdadeiro Estatuto da Criança e do Adolescente, o que não foi feito por gente que ficou desperdiçando anos estudando para proteger direitos humanos de bandidinhos. Como se crianças negras e pobres fossem humanas! Estou falando do ECA que vale, o das ruas, a lei na prática, mesmo. O outro, o oficial, é só pra botar na biblioteca daqueles intelectualoides de esquerda, pra encherem aquela boca mole de porcaria politicamente correta e se exibirem em reunião da ONU. Se os moleques soubessem ler e soubessem o seu lugar, estariam aí, vivos, pra ficar chapinhando no esgoto, como gostam. Como não tenho estômago pra sujeira na via pública, resolvi sistematizar a lei em vigor e fazer o manual de 2015, versão atualizada, para ver se param de emporcalhar o chão com seus miolos. Uma coisa bem didática, bem simples, pra que mesmo uma raça inferior consiga entender. Vou botar nome em cada uma delas, pra ver se fica mais fácil de entrar nessas cabecinhas cheias de maconha. Tipo, lembra do caso, associa com a lei, não faz merda, tudo resolvido. Como no ano que vem tem Olimpíada e não quero que os gringos pensem que aqui não tem lei, me restringi ao Rio de Janeiro. Se cada um fizer a sua parte pra higienizar a cidade, o Brasil ainda pode brilhar:

1) Lei Herinaldo: criança preta não pode correr na rua

Para que criança vai correr, me diz? Não tem nada que correr. Onze anos de idade e correndo? Vai trabalhar! O policial se assusta com aquele corpinho escuro e mirrado vindo na sua direção e atira. Pronto, a bala acha. Aconteceu agora, na semana passada, com o Herinaldo. Peraí, preciso rir um pouco. Ah, onde esses pobres acham esses nomes? Herinaldo, vê bem se alguém tem futuro com um nome desses. O Herinaldo correu, levou bala. Bum, um tiro no peito. Dizem que estava indo comprar uma bolinha de pingue-pongue. Sei! Desde quando preto sabe jogar pingue-pongue? Tava era indo comprar fumo na boca. Ou era aviãozinho. E era viadinho o moleque. Em vez de lidar com a situação como homem, ficou gritando: “Quero a minha mãe!”. Afe. O que importa é que por causa dessa falta de atenção do Herinaldo, meu SUV ficou parado no trânsito. Favelado adora trancar rua, deve ser por inveja de quem tem carro. Em vez de ensinarem aos seus abortos que criança pobre não pode correr, fazem protesto. Brasileiro é muito subdesenvolvido, mesmo. Eita país que não vai pra frente. Por sorte a PM distribuiu umas bombas de gás e botou a macacada pra correr. Deu pra chegar pro jantar a tempo, mas foi por pouco. E a Rosinete faz uma comida muito boa, essa é uma negra de alma branca, praticamente da família. Depois vi no Balanço Geral o apresentador entrevistando a mãe do estropício. O jornalista foi na veia mesmo. Onde a senhora tava quando aconteceu? A mulher disse que tava cuidando de um idoso, vê bem. Em vez de cuidar do filho, mantê-lo em casa, tava batendo perna na casa dos outros. Disse que trabalhando, mas vá saber o que essa gente anda fazendo! Depois o repórter perguntou se o Herinaldo era metido com tráfico. A mãe negou, mas na cara que era. Se não fosse, tava correndo por quê? Por acaso criança de 11 anos corre na rua?

Uso: a aplicação mais recente da lei número 1 do ECA do B ocorreu em 23 de Setembro de 2015. Herinaldo Vinicius Santana, de 11 anos, levou um tiro no peito, no Caju, zona portuária do Rio de Janeiro.

Tá com pena? Leva pra casa!

2) Lei Cristian: adolescente preto não pode jogar futebol

Para que jogar futebol? Vê bem o que um sonso desses têm na cabeça. Se o moleque tem 13 anos e mora num favelão cheio de traficantes, vai fazer o quê? Jogar futebol? Não! Vai ficar trancado no barraco, sei lá, vendo Netflix na TV ou jogando no tablet, já que não gosta de estudar. Não se gabaram tanto que viraram Classe C, comprando TV de tela plana bem grande? Então, aproveita. Faz 40 graus dentro de casa? Toma um banho de hidromassagem pra baixar os hormônios! Mas não, o projeto de bandido pensa que é o Neymar e vai lá jogar futebol. Desde quando moleque joga futebol no Brasil? Aí a polícia tá lá, fazendo o seu serviço, atrás de um animal que tinha matado um PM, um pai de família, um trabalhador, e uma bala acaba achando o moleque. É culpa de quem? Da polícia? Só na cabeça de bagre desses direitos humanos. Se o moleque tivesse trabalhando numa hora dessas, não tinha acontecido nada. Mas não, tava lá, jogando futebol, antes do meio-dia. Tem deputado de esquerda aí dizendo que quando ouviu os tiros o moleque até parou pra ajudar uma idosa a se proteger. Ah, tá, agora virou santo. O fato é: como é que a polícia vai botar ordem na bagaça com esses vagabundos no meio do caminho? E a mãe do moleque? Fazendo teatro no enterro: “Meu filho, acorda, meu filho, acorda…”. Patético, por acaso a mulher não consegue juntar o tico e o teco e perceber que aquele ali já tava no inferno? É só um, pra que tanto escândalo? Do jeito que é esse povo deve ter mais uns 13 pretinhos em casa, tudo da mesma laia, que é pra ter bastante Bolsa Família. Mas aí a pobraiada protesta, mais confusão. Aquela Anistia Internacional, que deveria estar lá na Síria, cuidando daqueles meninos branquinhos, faz nota falando em “lógica de guerra”. Que guerra? É lei. ECA do B pra limpar o Brasil! Jogou futebol em hora errada, a bala acha. Simples assim. Quer que eu desenhe?

Uso: a aplicação conhecida mais recente da lei número 2 do ECA do B foi em 8 de Setembro de 2015. Cristian Soares Andrade, de 13 anos, foi baleado e morto na região de Manguinhos, no Rio de Janeiro.

Tá com pena? Leva pra casa!

3) Lei Jesus: criança pobre não pode ficar sentada na frente de casa

O que é que um moleque de 10 anos tem na cabeça pra se sentar no batente da porta de casa se mora numa das favelas do Complexo do Alemão? Não, sério, me diz. Nada, não tem nada na cabeça. Ou melhor, não tinha. Agora tem uma bala. Os policiais lá, fazendo o seu trabalho, que é matar bandido, e o moleque lá, atrapalhando a operação. Aí a mãe, mais uma tipinha daquelas, começa a berrar com o policial. Se a mulher fica fazendo arruaça, o agente da lei tem mesmo é de apontar a arma pra ela. Vai aguentar calado, que nem mulherzinha? Aí a vagabunda grita: “Pode me matar! Pode me matar que você já acabou com a minha vida!”. Mulher é um bicho histérico mesmo, né? E essas aí, de favela, então, bem mostram que nasceram no esgoto. Sou eu, que tenho cabeça quente, já dou logo um tiro e aproveito pra enterrar mãe e filho na mesma cova, que o cemitério já não tá dando mais conta daquela plantação de pretos a meio palmo do chão. Se aquela uma não estivesse aboletada no sofá vendo televisão, tinha reparado que o filho tava sentado onde não devia. Ou porta de casa é lugar de uma criança se sentar pra brincar? Mas não, tá lá, distraída com novela ou alguma outra bobagem, e depois faz aquela choradeira. “Quando eu vi, uma parte do crânio do meu filho tava na sala”. Se tivesse cuidado, não estaria, simples assim. Disse que trabalha como doméstica…. Tava fazendo o que em casa num final de tarde, então? E mais pobre interrompendo o trânsito pra fazer protesto. Mais direitos humanos enchendo o saco. Esse país tá ficando inviável. Se eu não fosse tão patriota, ia logo pra Miami e até votava no Donald Trump, um homem que vai botar as coisas no lugar depois de desinfetar a Casa Branca daquela negrada. Mas, não, sou do Brasil, com muito orgulho, e vou fazer a minha parte pra varrer essa pretaiada daqui. Sem contar que, e eu não tenho medo de dizer, eu falo a verdade mesmo, na cara de quem precisar: se esse moleque não tivesse levado um tiro, mais dois anos e já era bandido. A mãe falou que queria ser bombeiro. Aham. Dois anos no máximo e já era aviãozinho. Se ia morrer de qualquer jeito, pelo menos morreu sem ter feito mal pra nenhum cidadão de bem. Nesse caso não é bala perdida nem achada: é bala preventiva.

Uso: A última aplicação conhecida da lei número 3 do ECA do B ocorreu em 2 de abril de 2015. Eduardo de Jesus Ferreira, de 10 anos, foi baleado na cabeça, na porta da sua casa, no conjunto de favelas do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro.

Tá com pena? Leva pra casa!

4) Lei Alan: adolescente pobre não pode brincar com celular

Esse aí é outro caso de óbvio ululante. Mas como a gente precisa explicar tudo, vamos lá. Três moleques brincando com um celular numa favela, em cima de bicicletas. O que um policial pensa? Tão fazendo coisa errada, claro. Com certeza as bicicletas são roubadas e o celular também. Aí um deles corre. O que um policial bom faz? Atira, claro. E não vai atirar pra aleijar, que não é um homem cruel, atira logo pra matar, que o Estado não tá podendo arcar com tanto benefício por invalidez assim. Aliás, é o sonho dessa gente. Ter um filho aleijado pela polícia pra ficar mamando nas tetas do Estado sem precisar trabalhar. Aí o moleque cai. O policial, bem educado, pergunta pro amigo que ficou vivo: “Por que vocês estavam correndo?”. O moleque, um desses vendedores de chá mate que ficam assediando os turistas na praia, diz: “A gente tava brincando, senhor”. Pronto, os direitos humanos fazem um escarcéu com essa frase, vai até parar em jornal estrangeiro. Por isso que não pode ter celular na mão de preto. Começam a se achar gente e ficam gravando tudo. Tou aqui, pensando se não é melhor fazer logo um parágrafo extra pra essa lei, proibindo preto e pobre de usar celular. A ver.

Uso: A última aplicação conhecida da lei número 4 do ECA do B ocorreu em 20 de fevereiro de 2015. Alan de Souza Lima, de 15 anos, foi morto pela polícia na favela da Palmeirinha, em Honório Gurgel, subúrbio do Rio de Janeiro.

Tá com pena? Leva pra casa!

5) Lei de Circulação de PP: Pobre e Preto de menor não pode pegar ônibus para ir às praias da Zona Sul

Nessa aí nem botei um nome, porque os marginalzinhos são tantos que a lista ia ter quilômetros. Quem gosta de lei comprida é intelectual. O ECA do B é simples, branco no preto. Em cima do preto! Qualquer mané consegue entender. O cara entra num ônibus com nenhum dinheiro no bolso, mal vestido ou até sem camisa, o que calor nenhum justifica, lá na PQP onde ele mora, e quer ir pras praias da Zona Sul do Rio de Janeiro. Vai fazer o que lá? Arrastão, obviamente. Aí vem aquele papinho de que é uma minoria que faz arrastão, que o resto da pretaiada só quer se divertir na praia. Tenha dó. Mesmo que seja, como vai saber? Não dizem sempre que tem de prevenir o crime? Então, taí. Se não é a polícia, é pessoa de bem como eu que tem de fazer a justiça valer. Levo filho, sobrinho, tudo uns meninos fortes, de academia, menino bom, e tiro essa molecada pelo pescoço de dentro do coletivo. Jogamos tudo lá, de volta à cloaca de onde nunca deveriam ter saído. Depois tomamos um banho de álcool zulu pra descontaminar. O que é que preto tem pra fazer no Leblon, Ipanema, Copacabana, me diga? Nada! No máximo vender um coco, um biscoito Globo, mas assim, controlado, número restrito. Vai querer tomar banho de mar, jogar um vôlei, curtir? É muita falta de ferro no lombo. Desde quando a senzala pega praia? Mesmo que os moleques não assaltem, vão estragar o cartão-postal do Rio com aquelas caras achatadas. Gringo vem aqui gastar seus dólares pra ver garota de Ipanema, loirinha, olho azul. E as mulatas lá naquele outro lugar que a gente sabe bem onde é e pra que serve. Se cada um soubesse o seu lugar, aliás, tava tudo resolvido. O problema do Brasil hoje é que as criaturas não sabem mais o seu lugar. Mas a gente explica pra elas, bem direitinho, numa chave de pescoço, colaborando com o trabalho da polícia, que já não dá mais conta de tanto pobre querendo pegar praia. Preto sai, branco fica. Inverti o nome daquele filme! Pessoalmente, inclusive, eu faria um parágrafo único aqui nesta lei número 5: ônibus pra pobre sair da favela só se for pra trabalhar. O cara mostra a carteira de trabalho registrada pra um policial, na porta do 474, e pode embarcar, com carimbo pra sair e carimbo pra voltar, assinado pelo patrão. Horário determinado, tudo ali certinho, na ponta do lápis, como se diz. Fora daí, se o negão for pego zanzando na Zona Sul, cadeia nele. Nessa aí preciso tirar o chapéu pros paulistas. Não gosto muito de paulista, mas eles sabem fazer as coisas direito quando querem. Não teve lá aquele, como é o nome mesmo? Ah, sim, Rolezinho, só preto pra inventar um nome tão idiota. Então. A ralé queria passear no shopping. E em bando, como se fosse moda adolescente andar em grupo. Polícia neles! Mais de três moleques pretos num shopping é assalto e pronto. Volta pra favela! Vai querer usar grife? Te enxerga, mané! Não tem grife que limpe a tua cara preta, não tem tênis de marca que te faça ficar igual a nós. Repressão neles e tudo resolvido. No Rio o povo de bem também sabe resolver as coisas, esse final de semana foi uma beleza. Revista na pobraiada!

Uso: a mais recente aplicação da Lei de Circulação de PP foi nesse último final de semana, mas pode estar sendo usada agora mesmo. Lei que brasileiro concorda é que nem gripe, pega na hora e se espalha.

Tá com pena? Leva pra casa!

E aqui encerro o ECA do B, um conjunto de cinco leis simples, claras e objetivas. Espero ter colaborado para tranquilizar os turistas que virão para a Olimpíada 2016 ver nossas belezas, conhecer o nosso povo cordial e as maravilhas da nossa terra alegre e hospitaleira. Como é mesmo o lema da Olimpíada mesmo? “Somos Todos Brasil!!!” Uhú!

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O texto acima foi escrito a partir dos fatos reais ocorridos neste ano no Rio de Janeiro e de uma pesquisa sobre os comentários postados nos sites e redes sociais sobre esses fatos, por aqueles que se apresentavam como “cidadãos de bem” ou termos similares. Criar esse texto na primeira pessoa, juntando numa só voz os principais argumentos em circulação, foi uma tentativa de tornar esse discurso de ódio visível. Não da forma habitual, já banalizada, mas a partir do seu deslocamento para um lugar onde ele é estranho. E, assim, produzir estranhamento e incômodo.

Ao deslocar esse discurso de ódio, colocando-o neste espaço, talvez se torne mais difícil banalizar o horror que sai da boca de brasileiros nas ruas virtuais e reais, com espantosa facilidade. Também fica mais complicado aceitar como liberdade de expressão um discurso que legitima um Estado que age acima da Lei, ao criminalizar pobres e negros, naturalizando as suas mortes e a violação de seus direitos pelas forças de segurança pública que também deveriam protegê-los. Enquanto o Estatuto da Criança e do Adolescente é a legislação criticada por setores da sociedade e nunca implementada por completo, o ECA do B é a lei não escrita, mas entranhada no sistema e assumida pelas polícias e por parte da população, a lei fora da lei que rege a prática cotidiana do país.

Dizem que anunciar a ironia estraga a ironia. Até um tempo atrás, eu concordaria de imediato com essa afirmação. Não mais. Hoje, é preciso avisar, porque como já aconteceu com outros colunistas, há quem se identifique tanto com esse discurso que vai fazer dele uma leitura literal e acreditar que eu finalmente “vi a luz”. Para essas pessoas, assim como para seus pares, o que é denúncia se converterá em defesa do ódio e do racismo e do linchamento e da execução. E assim será replicada. Não posso correr esse risco em tempos tão agudos. Usando os instrumentos da ironia e da paródia, busco denunciar quem acredita nesse discurso e o dissemina. Se você se identificou com o texto, é também você que estou denunciando. E talvez uma das frases seja a reprodução de um dos seus comentários na internet. Neste caso, espero que tenha restado algo vivo em você para que tenha a chance de se envergonhar.
Esses quatro meninos foram assassinados no Rio de Janeiro só neste ano de 2015: correndo, brincando, jogando futebol, sentado na porta da casa. E estes foram apenas os que viraram notícia na imprensa. Herinaldo, Alan, Cristian, Jesus. A imagem do corpinho do menino sírio carregado para a praia pelas ondas do Mediterrâneo obrigou a Europa a enxergar a tragédia daqueles que fugiam da guerra em busca de refúgio. E, ao enxergar, comprometer-se com essa dor. Implicar-se. O choque de humanidade teve impacto político.

A imagem do corpo arrebentado à bala de Herinaldo, Christian, Jesus e Alan, porém, parece não ter força para impedir a continuidade do genocídio das crianças e jovens negros e pobres no Brasil. Seus corpos são esvaziados de humanidade e viram objetos, restos cotidianos que já não provocam espanto, para além dos mesmos de sempre. No máximo protestos das comunidades, recebidos a bombas de gás pela polícia e com demonstrações de irritação pelos motoristas, que não querem corpos de criança atrapalhando o tráfego.

Fico pensando: em que praia os pequenos corpos desses brasileiros precisam chegar para serem vistos? Nas praias da Zona Sul carioca já sei que não adianta.

 

(Publicado no El País em 28 de setembro de 2015)

 

O morto que denunciou o repórter

Uma interrogação sobre o não fato e a não notícia que estabelecem o não valor da vida daqueles que um tipo de jornalismo se autoriza a desumanizar

 

— Você é maior ou menor? —o repórter de TV pergunta para um garoto deitado na rua, o rosto no asfalto e as mãos algemadas atrás das costas.

— Menor —responde o garoto.

— Quantos anos?

— 16.
— E você? —o repórter pergunta para o outro garoto, nas mesmas condições.

— 16.

— Vocês moram onde?

Eles respondem.

— Dezesseis anos os dois. Aqui tem mais outro. Vamos saber dele aqui também. (Coloca o microfone perto da boca do rapaz.) Você tem quantos anos?

Silêncio.

O repórter cutuca as costas do jovem com um dedo.

Silêncio.

— Esse aqui parece que tá ferido. Esse aqui, Bareta, (risadinha) por incrível que pareça fui entrevistar um cara que já tá morto (risadinha). Tá aqui, esse morreu. Tá aqui, morreu aqui agora. A gente não tem ainda a documentação dele pra saber se é menor ou maior.

Esta é a transcrição de um vídeo que virou notícia em portais brasileiros e internacionais no fim de maio. A notícia era o que foi definido como “mico” ou “gafe” do repórter do programa “Tolerância Zero”, da TV Atalaia, uma afiliada da TV Record, em Sergipe. Os textos explicam, com mais ou menos detalhes, que os três jovens tinham pegado o carro de um cliente num pequeno posto de lavagem de veículos, assaltado uma mercearia, batido em vários carros durante a perseguição policial e trocado tiros com os policiais. O cenário era um bairro pobre, periférico, com ruas de chão batido. A notícia era o bizarro: o repórter que não percebeu que o jovem estava morto e tentou entrevistá-lo. E, como esta era a notícia, o vídeo de mais de 9 minutos, com a matéria completa, foi postado nos portais com versões de cerca de 1 minuto ou menos, recortando a cena da “entrevista com o morto”.

Mesmo este recorte poderia ter provocado algumas questões. A primeira: por que a seriedade da morte de alguém é ignorada e o que é identificado como “fato”, passível de virar “notícia”, é apenas o “mico” do repórter? A segunda: por que, entre tantas perguntas possíveis, inclusive sobre como tudo aconteceu, o repórter escolhe só fazer três perguntas aos garotos imobilizados no chão: “Você é maior ou menor?”; “Qual é a sua idade?”; “Onde você mora?”. O repórter escolhe perguntar sobre idade e sobre território. Por quê?

Neste momento, o legislativo brasileiro discute a redução da maioridade penal. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), já anunciou que pretende levar a proposta, de reduzir de 18 para 16 anos a idade de responsabilidade penal, para votação no plenário até o final de junho. Cunha, que com o apoio da chamada bancada BBB (Bala, Boi e Bíblia), tem colocado os projetos mais conservadores na pauta do Congresso, também declarou que vai propor a realização de um referendo sobre o tema. Neste momento, organizações nacionais e internacionais ligadas aos direitos humanos e aos direitos da infância e da adolescência, ex-ministros de Direitos Humanos e até artistas de várias áreas se mobilizam para mostrar que a aprovação desta Proposta de Emenda Constitucional seria um retrocesso que não reduziria a criminalidade e violaria ainda mais os direitos dos adolescentes. Assim, a pergunta sobre a idade, pelo repórter, poderia facilmente suscitar alguma interrogação. Tanto quanto a do território —“Onde vocês moram?”— poderia indicar a necessidade do repórter de expor a que estrato da sociedade pertencem os suspeitos de assalto.

Que alquimia política e social faz com que a morte de alguns se torne “natural”, a ponto de o fato, e então a notícia, ser o “mico” do repórter?” Um repórter entrevistar um morto não é mesmo algo banal. Pode provocar várias questões, a começar pelo que faz um repórter de programa policial não reconhecer um morto quando está diante de um, tão acostumado está a ver corpos submetidos no chão e a submetê-los com seu microfone. Mas por que essas questões foram apagadas e o episódio se tornou apenas “curioso” ou “bizarro” ou “ridículo”? Se este morto no chão fosse branco, vestido com roupas caras, numa área “nobre” de Aracaju, estas ainda seriam as perguntas do repórter? E esta morte ainda seria um não fato? Se a resposta sobre o território de origem dos garotos imobilizados fosse um endereço de classe média, a “gafe” do repórter ainda seria a notícia sobre a notícia? Se fosse um jovem rico, as imagens do seu corpo estirado ainda seriam exibidas, reproduzidas e replicadas sem nenhum clamor sobre o desrespeito com o morto e com aqueles que o amam?

A notícia sobre a notícia, os olhos sobre os olhos, é o “mico” do repórter. Em alguns portais, ela foi postada nas editorias de “entretenimento” ou “TV” ou “diversão”. Podemos concluir, então, que há mortos que viram entretenimento. Para chegar ao vídeo de 1 minuto ou menos foi preciso que alguém assistisse ao vídeo completo, o de mais de 9 minutos. E, então, escolhesse e recortasse a parte considerada “notícia”. Ou o “fato” que merecia virar “notícia” dentro da matéria do “Tolerância Zero”, o nome do programa já bastante sugestivo.

É preciso agora compreender o que não era fato e o que não era notícia para aqueles que tomaram essa decisão. O que ficou de fora desse recorte.

Antes de mostrar a matéria, as cenas, o apresentador do programa “Tolerância Zero”, Otoniel Rodrigues Amado, mais conhecido como “Bareta”, “policial civil, radialista e apresentador”, avisa que vai “mostrar a realidade que vive esse país hoje”. E valoriza o que será mostrado, dizendo que é “exclusivo”. Em seguida vem a matéria completa. Nela, o repórter parabeniza a polícia quatro vezes pelo “trabalho rápido” —uma antes de entrevistar o morto, outras três depois. Os três jovens no chão são dados como assaltantes e chamados apenas de “elementos”, sendo que um deles “foi a óbito”. A versão da polícia é a única ouvida.

Assim que percebe que tentou entrevistar um morto, o repórter dá uma risadinha aparentemente constrangida. Mas segue em frente e não se preocupa mais com o “elemento que foi a óbito”, já que ele não pode confirmar se era “menor” ou “maior”. Mostra o porta-malas do carro e afirma que o que ali está foi roubado. E continua: “Dá pra gente ver que tem pacote de cigarro aqui dentro, uma bolsa…”. Se detém sobre o buraco de bala no vidro da frente, no lado do motorista, que atingiu a viatura policial. O repórter afirma ter sido um tiro dado pelos assaltantes. Dá bastante ênfase à possibilidade de um policial morrer: “Pra vocês que tão em casa nos assistindo, é bom ver o perigo que um policial passa”.

No início da matéria, o repórter pergunta a um policial se os três estavam armados. O policial diz que “aparentemente sim”. Mesmo sem a certeza, o repórter afirma que houve “troca de tiros”. Na sequência, ele menciona que a polícia “está à procura da arma”. Logo depois, ele mostra um revólver na mão de um policial: “Olha o tamanho do 38…”. E dá a entender que foi a arma usada no assalto. Dá mais dois parabéns aos policiais: “Parabéns pelo trabalho rápido que vocês fizeram. Dá para perceber que são elementos perigosos, porque não pararam e atiraram na polícia. Aí, Bareta, parabenizar a polícia”. A câmera mostra mais uma vez o rapaz morto. “Tá aqui um dos elementos que morreu aqui na troca de tiros”. Por fim, dá parabéns à polícia pela quarta vez: “Parabéns!”. E então passa para o entrevistador: “Jurandir Araújo, direto do Japãozinho, para o Tolerância Zero”.

Tudo isso ficou de fora do recorte feito pelos portais que noticiaram o “mico” do repórter. Não causou espanto. E, assim naturalizado, não foi reconhecido como “fato” ou como “notícia”. A “gafe” poderia ter sido usada como mote para apontar os demais buracos da reportagem, que culminaram com a entrevista com o morto. Neste caso, haveria jornalismo crítico sobre a cobertura desse tipo de programa de TV e suas implicações. Mas essa parte foi ignorada. E por quê?

O que poderíamos estranhar para compreender o que levou o repórter a tentar entrevistar um morto: 1) a versão da polícia sobre os acontecimentos é a única ouvida; mesmo para os suspeitos vivos, que são tratados do começo ao fim como culpados, as únicas perguntas se referem à idade (para estabelecer se eram “maior” ou “menor”) e ao território (lugar de moradia); 2) o repórter não apresenta provas para afirmar que: os três eram assaltantes, a arma era a usada no crime e pertencia a eles, o tiro que atingiu o vidro da viatura policial tinha saído desta arma, que estaria na mão de um dos três. Mesmo assim, faz todas essas afirmações de forma categórica. Ainda que tudo fosse comprovado no futuro, no momento da matéria o repórter não apresenta essas provas. O episódio tinha acabado de acontecer e a investigação, se ocorreu, estaria apenas começando; 3) o repórter prefere usar a palavra “elemento” para se referir ao morto e aos detidos, escolhendo não usar palavras que os humanizassem, como “jovem”, “garoto”, “homem” etc ; 4) não há nenhuma preocupação em investigar as circunstâncias da morte do jovem; mas há uma grande preocupação em mostrar o perigo que a polícia correu. Ou seja: o morto não é importante; os que poderiam ter morrido, sim. A letalidade concreta da polícia, já que ele mesmo afirma que o rapaz foi morto numa troca de tiros, não é uma questão; a letalidade hipotética, sim. O fato torna-se o não fato.

Valeria a pena perguntar ainda: pelo que, exatamente, o repórter parabeniza a polícia quatro vezes?

Alguns —ou até muitos— podem argumentar que “esse tipo de jornalismo é assim mesmo, não há por que se espantar”. Bem, se é assim mesmo, é preciso lembrar que esse mau jornalismo é praticado em vários programas como este, assistidos diariamente por milhões de brasileiros, que formam sua opinião a partir de “reportagens” como esta. Assim como pautam sua vida a partir da convicção sobre o que ali é apresentado como “realidade”. Também é preciso jamais se esquecer que esse tipo de jornalismo é praticado em TVs que são concessões públicas.

Mas há mais que ficou de fora do recorte que repercutiu em diversos portais dentro e fora do Brasil.

O repórter, que é chamado pelo apresentador de “Cavernoso”, sai de cena. A imagem é de novo o estúdio. “Bareta”, o apresentador, assume. Se a tentativa do repórter de entrevistar um morto chamou sua atenção ou virou conversa nos bastidores, não se sabe. No ar, ele ignora o episódio. Começa dando parabéns à equipe de reportagem “por um flagrante destes”. Algumas imagens são repetidas. O apresentador informa que “o carro tinha três elementos, dois menores e um maior, o maior foi a óbito”. Comenta as imagens dizendo que bateram em vários carros antes de a polícia detê-los. Então afirma: “Quer dizer, eles tavam procurando o que eles acharam. Um foi pro capeta e os outros dois em cana, os dois menores. Quem procura acha. Taí o trabalho da polícia. Quero parabenizar a polícia por uma ação perigosa dessas, uma ação perigosa, onde poderia sair um policial em óbito também”.

O apresentador termina o bloco com um discurso. Nele, incentiva a população a pressionar os políticos para aprovar o projeto de redução da maioridade penal de 18 para 16 anos:

— Pra vocês verem como tão as coisas. Tem dois menores desses aí presos (imagem dos garotos algemados, estirados no chão), olha o carro do cliente como é que ficou (imagem do carro), ó os dois aí (imagem dos garotos), daqui a pouco vão pro Cenam (Centro de Atendimento ao Menor), aí fazem um motim, fogem, aí acabou e tudo bem, e o cara aí. A história é essa. Tá desse tipo aí, ninguém aguenta mais impunidade. Espero que essa lei chegue logo, que essa lei seja aprovada pelo povo brasileiro. Não é pelos políticos, não, é pelo povo. O povo quer menor respondendo. Acabou.  Dezesseis anos respondendo. Pra que a gente bote na cadeia, pra que, se não vai melhorar, pelo menos vão responder. Ah, mas se vai dar jeito, não sei. Tem mulher de 16 anos que dá de mamar, já criou uma família, não é não? Com 16 anos faz filho, ele vota, não é? Por que não pode responder pelo crime que pratica? O povo brasileiro deve cobrar dos políticos que seja aprovada essa lei que bote esses menores a partir de 16 anos na justiça, que ele responda pelo lado que ele praticou. A historia é essa. Não é? Acabar com essa ousadia desses vagabundos. Parabéns à Polícia Militar pelo trabalho, pela ação. Podia ter sido um policial ali morto com um tiro na cabeça. Esse aí foi a óbito aí (imagem do jovem morto). Quem vai pagar o prejuízo do carro? A família não tem nem condições. A história é essa. Fica por isso mesmo, né, Lígia (falando com a produtora e diretora do programa, que não aparece em cena). A coisa nesse país fica por isso. Você viu a CBF, sucesso da CBF, tudo preso. Rapaz, eu nunca vi um país com tanta corrupção como esse país é. Eu sou a favor de um paredão. E aquela justiça de prrrrrrrrrrrrrrrrrr (faz barulho de fuzilamento). Pá Pá Pá. Caiu tudo. Paga a bala, viu. Enterra os bichinhos lá. Até logo.

bandido

Para quem deu a notícia sobre a notícia, o discurso do apresentador também não causou espanto. Entre os vários estranhamentos que poderiam ter surgido está o de que, para defender a redução da maioridade penal, o apresentador afirma que os adolescentes não respondem pelos crimes que praticam. Quando a realidade é bem diferente, já que as medidas socioeducativas estabelecidas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), inclusive com restrição de liberdade, são previstas para adolescentes a partir dos 12 anos. São frequentes, aliás, as denúncias de violação de direitos básicos nas instituições que abrigam adolescentes em conflito com a lei, muitas delas prisões disfarçadas. Pesquisadores dessa área têm repetido que o que falta não é punição, mas as medidas, também previstas em lei, que tornem possível para os adolescentes encontrar alternativas para uma vida fora do crime. Bem no início, o apresentador diz que os três “elementos” estavam “procurando o que acharam”, “um foi pro capeta e os outros dois em cana, os dois menores”. Depois, prefere se esquecer disso e vender a ideia da “impunidade”.

Para reforçar a defesa da redução da maioridade penal, o próprio apresentador julga os garotos que aparecem na reportagem e os condena como assaltantes. Faz também um exercício de futurologia, ao dizer que se amotinarão e ficarão livres, com o objetivo de convencer a população de que o problema da violência no Brasil é a “impunidade” de adolescentes infratores. Mesmo afirmando que não sabe se “vai melhorar” ou se “vai dar jeito”, defende a necessidade de botar os adolescentes “na cadeia”, sem mencionar o alto índice de reincidência verificado no sistema prisional, superlotado e já superando o meio milhão de presos adultos. Em nome da justiça, o apresentador e policial defende a vingança.

Para produzir a realidade desejada é preciso não informar, mas desinformar. E também ocultar: ao dar como certo um motim e uma fuga para os vivos, ao lamentar os “prejuízos do carro” em vez da perda humana, que não reconhece como perda, ao valorizar a morte que não aconteceu, que seria a de um policial, oculta-se a violência maior. Não o suposto assalto, mas o morto. O fato é o homem morto, mas o jornalismo é invocado tanto para ocultar o fato quanto para negar a humanidade.

A reportagem exibida antes serve para legitimar o discurso que o apresentador dará em seguida. É assim que tudo se fecha, da primeira pergunta, para os vivos e para o morto, de qual é a idade, se “menor” ou “maior”. O jornalismo é posto a serviço dessa alquimia de transmutação: a farsa torna-se “verdade”. Do público se exige crença, não crítica. Adesão, em vez de interrogação. Certeza, no lugar de dúvida. Paralisia, não movimento. Muito barulho para nada mudar. É assim que surge o mito dos “apresentadores que dizem MESMO o que pensam, têm a coragem de falar TUDO”.  Confunde-se aí grito com conteúdo, boçalidade com bravura, sem nenhuma indagação sobre seus senhores. Em nome da justiça berrada, temos testemunhado repórteres e apresentadores infringirem a lei que dizem defender sem que nada aconteça. A indignação vazia, destituída de conteúdo e de consistência, programada para que a boiada continue com o passo sincronizado rumo ao matadouro.

Essa desinformação calculada é colocada a serviço da produção de realidade: uma maioria a favor da redução da maioridade penal por várias razões, mas também porque é convencida —e gosta da comodidade de ser convencida— de que o problema da violência no Brasil são adolescentes criminosos e impunes. Segundo a última pesquisa do Datafolha, 87% da população adulta do Brasil é a favor da redução da maioridade penal.

Não há espanto de que um apresentador, em uma TV aberta, concessão do Estado, no horário do almoço, defenda o “paredão”. E simule um fuzilamento. Isso não se torna a notícia sobre a notícia, produzida por um jornalismo que se considera melhor do que o apresentado. Isso não espanta a sociedade nem as instituições. O importante é a tentativa de entrevistar o morto.

Qual é a história, tomando emprestado um dos jargões do apresentador do “Tolerância Zero”?

O silêncio do morto. Este morto não é tratado nem pela notícia, nem pela notícia sobre a notícia, como um homem. A ele não cabe nenhuma interrogação humanizadora, nem na notícia nem na notícia sobre a notícia. O morto não tem nome nem história. O morto só tem corpo. É o corpo a única barreira encontrada pelo microfone colocado na sua cara, pelo dedo do repórter que o cutuca.

Sua morte é o não fato. Ainda assim, o silêncio torna-se barreira e potência. É o silêncio que quebra com a sequência farsesca do roteiro e denuncia o repórter, ainda que a denúncia que faz seja decodificada por outros fazedores de notícias apenas como “mico” ou como “gafe”. Mas o silêncio persiste. Diante dele, há que se contornar o corpo, no concreto e no simbólico. Contornar para que ele continue invisível. Há um morto na cena do crime. Mas, esvaziado de humanidade, ninguém parece reconhecê-lo.

É preciso fazer cotidianamente a disputa dos fatos, a disputa do que é notícia, em todas as ruas deste país. Se este é o “mundo cão”, contado pelo “jornalismo lixo”, em que lugar estão aqueles que apenas se omitem e aumentam a altura dos muros para não se contaminar?

O cão mais perigoso é o que acredita ser um homem.

(Publicado no El País em 08/06/2015)

 

Como se fabricam crianças loucas

Os manicômios não são passado, são presente. Uma pesquisa realizada no hospital psiquiátrico Pinel, em São Paulo, mostra que, mesmo depois das novas diretrizes da política de saúde mental no Brasil, crianças e adolescentes continuaram a ser trancados por longos períodos, muitas vezes sem diagnóstico que justificasse a internação, a mando da Justiça. Conheça a história de Raquel: 1807 dias de confinamento. E de José: 1271 dias de segregação. Ambos tiveram sua loucura fabricada na primeira década deste século

 

Em uma noite de novembro de 2007, a psicóloga Flávia Blikstein escutou de uma menina duas perguntas. E descobriu que não tinha respostas. Flávia trabalhava num Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) infantil, em São Paulo, e encontrava-se na ambulância para levar a garota para sua primeira internação psiquiátrica. Maria, como aqui será chamada, tinha 14 anos. Era negra, alta e magra. Falava pouco, frases curtas. Gostava de brincar de boneca e de desenhar. Às vezes pintava as unhas, arrumava o cabelo, anunciando a adolescência. Maria se molhava o tempo todo, em pequenos rituais. Abria a torneira, fazia uma conchinha com as mãos e molhava os pés, as pernas, os braços. Fazia isso em qualquer lugar, causando vergonha à mãe. Talvez Maria estivesse esculpindo com a água os limites do próprio corpo. Quando fez a primeira pergunta à Flávia, ela ainda tinha as pontas dos dedos úmidas, e o seu olhar também era molhado:

– Por que eu vou ficar aqui?

Flávia descobriu que não tinha resposta.

Maria fez então a segunda pergunta:

– Quem tá aí? Quem vai dormir no quarto comigo?

Flávia descobriu que não tinha resposta também para essa. Não tinha resposta porque, ao contrário do que costuma acontecer quando crianças e adolescentes nos mostram a face do abismo, ela tinha escutado as perguntas. Escutado mesmo. A “menina louca” tinha indagado sobre a estrutura do Estado e da sociedade que a obrigava a dar o primeiro passo para dentro de uma instituição psiquiátrica. Talvez Maria intuísse que esse passo poderia ser longo. Talvez Maria adivinhasse que os dentes do sistema estavam à sua espera, logo ali.

Flávia abraçou Maria. E pediu desculpas por não saber responder. Maria entrou, carregando olhos molhados e pontos de interrogação.

O que Maria perguntou à Flávia, perguntou a todos nós: por que, no século 21, crianças e adolescentes brasileiros, a maioria filhos de famílias pobres, continuam a ter suas vidas mastigadas num hospital psiquiátrico. A “criança louca” fez aos normais a pergunta mais lúcida: por que a condenavam a uma existência de manicômio. A habitar um mundo de dor, vagando entre paredes, desvestindo a si mesma para vestir um uniforme, sem direito ao desejo. Por que lhe negavam a humanidade tão cedo.

Flávia não pôde esquecer as perguntas, menos ainda a sua falta de respostas. Dedicou-se a buscá-las. Encontrou-as no arquivo do Núcleo da Infância e da Adolescência (NIA) do Centro de Atenção Integrada em Saúde Mental (CAISM) Philippe Pinel. O Pinel é uma das instituições de referência para internação de crianças e adolescentes com problemas mentais no estado de São Paulo. Flávia sabia que aquilo que se costuma chamar de arquivo morto era bem vivo. Então, botou-o para falar. Fechou-se na pequena sala bordada de estantes durante todos os sábados de um ano inteiro. Analisou 451 casos, correspondentes a 611 internações ocorridas entre janeiro de 2005 e dezembro de 2009. Destes, 79% das crianças e adolescentes haviam sido internados apenas uma vez. Os 21% restantes tiveram de duas a sete reinternações. Alguns casos, que continuaram a voltar ao Pinel, ela acompanhou também nos anos de 2010 e 2011. Flávia queria saber qual era o percurso que levava crianças e adolescentes ao hospital psiquiátrico como primeira providência – e não como exceção pontual e por tempo determinado.

O arquivo do Pinel ficava logo abaixo da enfermaria das crianças e adolescentes. Enquanto pesquisava, Flávia podia ouvir os gritos. Percebeu, porém, que mais do que gritos havia um silêncio longo. Um silêncio, nas suas palavras, “estranho e profundo, um silêncio que não imaginamos num lugar cheio de crianças e adolescentes”. Dentro do arquivo, não. Os prontuários contavam histórias. Ainda que a voz de meninos e meninas ressoasse mais nas ausências, nas entrelinhas, os prontuários diziam de infâncias aniquiladas numa vida de manicômio. E mostravam por que caminhos a fabricação de crianças loucas é uma verdade profunda do Brasil. Flávia chamava o arquivo de “sala das almas”. E as almas falavam.

Duas crianças, que se transformaram em adolescentes no hospital psiquiátrico, contaram histórias que poderiam ilustrar livros escabrosos sobre os manicômios do passado, mas que se passaram na primeira década desse século. Aqui, elas serão chamadas de José e de Raquel. José permaneceu confinado por 1271 dias – ou três anos e cinco meses. Raquel, por 1807 dias. Ficou trancada dos 11 aos 16 anos – e de lá foi transferida para outra instituição psiquiátrica. José e Raquel estavam segregados no Pinel, a mando da Justiça, sob reiterados protestos da equipe técnica. Foram depositados como coisas no Pinel porque ainda é este o destino dado a crianças como eles no Brasil.

Por quê?

É preciso prestar muita atenção às respostas que Flávia encontrou. Sua escuta de três mil horas dentro do arquivo transformou-se numa dissertação de mestrado em psicologia social na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Somando-se a trabalhos fundamentais de outros pesquisadores do tema, tanto em São Paulo como em vários estados do Brasil, a investigação mostra por que os manicômios persistem apesar das diretrizes da política de saúde mental e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A Lei nº 10.216, de 2001, orientada pela reforma psiquiátrica, prioriza o atendimento em rede, em serviços inseridos na comunidade, perto da família, e determina que a internação só pode ocorrer depois de esgotados todos os recursos extra-hospitalares. Não é o que acontece em casos demais.

“Medievais”, “desumanos” e “criminosos”. Essas são algumas das palavras usadas para definir os hospícios desde que a luta antimanicomial se intensificou a partir do final dos anos 1970 e conquistou avanços significativos nesse século. A pesquisa mostra, porém, que mesmo instituições e profissionais que tentam fazer diferente são seguidamente vencidos pelas engrenagens e pela escassez de serviços públicos de base. Na prática, ainda hoje, é de manicômio e de vida manicomial que se trata em uma parte significativa dos casos, uma realidade só possível pelo descaso quase absoluto da sociedade com o destino dessas crianças, em geral filhas de famílias pobres. Ao fazer o arquivo morto falar, Flávia constrói respostas que precisam ser escutadas se quisermos, de fato, estancar o crime de fabricar crianças loucas – e, muitas vezes, também o de conseguir enlouquecê-las.

Raquel nasceu em 1994. A mãe estava presa por tráfico de drogas, não porque era chefe de uma organização criminosa, mas porque vendia uma pequena quantidade para sustentar seu próprio vício. Esse destino é comum nos presídios do país, é também gerador de órfãos de mães vivas. Pobre demais para dar conta dela, a avó colocou Raquel num abrigo aos cinco anos. A menina é de imediato descrita como “agressiva”. E, por esse motivo, é afastada das outras crianças. Passa a morar com o que se chama de “mãe social”, isolada numa casa nos fundos do abrigo. A escolha, como mostra Flávia, evidencia que, desde sempre, a resposta à agressividade de Raquel é a exclusão. Obviamente, também não deu certo. De abrigo em abrigo, Raquel virou aquela que “não dava certo” em abrigo nenhum.

Talvez valesse a pena perguntar se a agressividade, ao se olhar para o contexto e as circunstâncias, não era o principal traço de sanidade de Raquel. Mas o direito à história é o primeiro a ser arrancado das “crianças loucas”. Ela já tinha quase tantos rótulos quanto anos de vida: filha de presidiária, abandonada, agressiva, não dá certo… Raquel só era vista por estigmas e fragmentos.

Negra como Maria, ela foi internada pela primeira vez em 2005, aos 11 anos. Entrou no sistema por ordem da Justiça. Antes de seguirmos o seu destino, é crucial entender as duas formas de entrada nas instituições psiquiátricas, identificadas pela pesquisa. Nelas se encontra uma das chaves para compreender a fabricação das crianças loucas no Brasil atual. Assim como os caminhos pelos quais é mantida viva a função histórica dos manicômios como lugar de segregação daqueles que são decodificados como perigosos para a ordem social, ainda que sejam apenas pobres e abandonados.

Em pouco mais da metade dos casos – 55% – o pedido de internação psiquiátrica foi feito por familiares e por diferentes serviços da rede de saúde. Nos outros 45%, crianças e adolescentes foram internados por ordem judicial. Estes são os dois caminhos de entrada nos hospitais psiquiátricos. A pesquisa mostrou, porém, algumas diferenças fundamentais para compreender o problema: no período pesquisado, a Justiça internou mais cedo, por mais tempo e mais vezes. A maioria dos casos era de adolescentes, mas as crianças respondiam por 20% das internações por ordem judicial. Pela via da rede de saúde, menos de 6% eram crianças. Por ordem judicial, o tempo médio de internação era quase o dobro (55 dias contra 30). A Justiça também foi responsável por 92% das internações com duração maior do que 150 dias. Entre os 14 casos que sofreram internações de quatro a sete vezes, 12 tinham sido confinados por ordem judicial.

Entre eles, Raquel. Dos 11 aos 16 anos, ela foi internada seis vezes no Pinel. A queixa da primeira vez: “Paciente institucionalizada há oito meses (nome de outro hospital), com transtorno de comportamento, heteroagressiva (agressividade dirigida a terceiros), em tratamento ambulatorial pouco resolutivo”. Depois de seis dias, o Pinel deu alta e a menina foi encaminhada a um abrigo. Oito dias mais tarde, ela foi novamente internada por ordem judicial: “Paciente portadora de transtorno de conduta grave. Uma vez no abrigo, voltou a ficar agressiva. Crítica seriamente comprometida, ameaçadora”. Outros 19 dias de internação, e o Pinel pediu à justiça que ela tivesse alta. Passada uma semana, o pedido foi atendido, e ela voltou ao abrigo. Mais três dias e Raquel de novo foi internada no Pinel por ordem judicial: “Ao retornar ao abrigo volta a apresentar quadro importante de liberação de agressividade e falta de controle de impulsos”. Raquel ficou trancada no Pinel por 1004 dias.

Nessas três primeiras vezes, tornou-se evidente que a justiça internava e o hospital liberava, porque não havia razão para manter Raquel confinada. Documentos anexados ao prontuário mostram que a direção da instituição enviou diversos relatórios à justiça, tanto informando da alta médica da paciente quanto pedindo encaminhamento a um abrigo e tratamento ambulatorial. Num dos documentos, a direção afirma: “Nosso hospital está fazendo o papel de Abrigo para esses adolescentes. Sabedores dessa ilegalidade pedimos com urgência uma resolução para esse problema”. E, em outro ofício: “Atualmente a adolescente continua residindo na enfermaria para tratamento de pacientes agudos, encontra-se longe da escola e com enormes prejuízos psicológicos e sociais”.

A cada três meses, o Pinel mandou ofícios à justiça. Só foi atendido depois de quase dois anos e nove meses. Mas a vida de Raquel fora do hospital durou apenas uma semana. Mais uma vez ela foi internada na instituição. O motivo: “Evolui com episódios recorrentes de agressividade, fugas necessitando atendimento em unidades de emergência. Há dois dias em acompanhamento no CAPS sem aderência ao tratamento”. Depois de mais 413 dias de internação, Raquel fugiu do hospital. Voltou espontaneamente dois dias mais tarde. Para onde mais ela iria, já que o longo período de confinamento esgarçou ainda mais os frágeis vínculos familiares e a impediu de criar novos?

Raquel permaneceu internada mais 244 dias, antes de ser encaminhada a outro abrigo. Quinze dias fora do hospital, e a justiça mandou-a de volta: “Jogou fora seus remédios, quebrou o vidro da brinquedoteca, feriu-se, pegou o telefone para se enforcar e fugiu para uma cidade vizinha dizendo que ia procurar seus avós”.
Na sexta vez, está registrado no prontuário: “A paciente verbaliza que a maior dificuldade que enfrentou no retorno ao abrigo foi uma sensação de inadequação na convivência com adolescentes sem problemas psiquiátricos; infelizmente, criou-se um vínculo inadequado iatrogênico (provocado pela própria prática médica) de segurança com o ambiente de internação, o que se configura como Hospitalismo”.

Em outras palavras. Raquel não sabia mais viver fora do hospital psiquiátrico, seus vínculos estavam dentro da instituição. Se tinha a algum afeto, era ali. Era no hospital que ela sabia como se comportar, identificava uma rotina, fazia amigos entre outras crianças e adolescentes como ela ou realmente doentes. Considerava profissionais de saúde como parentes. E, mais tarde se saberia, quebrava coisas e agredia pessoas quando era mandada para o abrigo porque sabia que assim voltaria àquele que era o único lugar parecido com um lar que tivera na vida.

Nessa época, a direção do Pinel mandou mais um ofício à justiça: “Aproveito a oportunidade para dizer da indignação dessa equipe técnica que, por diversas vezes, acionou o judiciário solicitando a desinternação desses adolescentes que, na ocasião, precisavam apenas de um abrigo para moradia e dar continuidade ao atendimento ambulatorial, tendo assim seu direito constituído”.

No total, Raquel ficou trancada no Pinel cinco anos. Sublinha-se: sem necessidade. Sua vida cabe em três caixas do arquivo. Mas esse não foi o fim de sua trajetória manicomial. Em 2010, aos 16 anos, ela foi transferida para outro hospital psiquiátrico.

O diagnóstico que sustentou a condenação de Raquel a uma vida manicomial é bastante revelador: “transtorno de conduta”. Segundo a Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID), “os transtornos de conduta são caracterizados por padrões persistentes de conduta dissocial, agressiva ou desafiante. Tal comportamento deve comportar grandes violações das expectativas sociais próprias à idade da criança; deve haver mais do que as travessuras infantis ou a rebeldia do adolescente e se trata de um padrão duradouro de comportamento (seis meses ou mais)”. Essa “patologia”, assim como outras que compõem a CID, é contestada por parte dos psiquiatras, psicanalistas e psicólogos, assim como por profissionais de outros campos do conhecimento. Mas, ainda que se aceite que essa doença de fato existe, o tratamento recomendado é inserção comunitária – e não asilamento.

Em sua investigação, Flávia mostrou que o diagnóstico de “transtorno de conduta” tem sido usado de modo generalizado – e quase displicente – para justificar internações em hospitais psiquiátricos. Tanto na internação pela via da rede de saúde como na internação por ordem judicial, o principal diagnóstico é esquizofrenia. Mas o “transtorno de conduta” tem aumentado. Numa comparação com uma pesquisa anterior, na qual Julia Hatakeyama Joia analisou os prontuários do Pinel entre fevereiro de 2001 e agosto de 2005, Flávia constatou que os chamados “transtornos do comportamento e transtornos emocionais” – dos quais “transtornos de conduta” correspondem a 75% dos casos – cresceram como motivo de confinamento. Em 2002, eram causa de 5,26% das internações. Passaram para 7,14% em 2005. E alcançaram 15,2% das ocorrências em 2009. “Em muitos casos, é diagnosticado em crianças com episódios de descontrole e agressividade, sem que exista uma análise sobre sua história e contexto de vida”, afirma a psicóloga. Outro dado comparativo de extrema relevância é que, entre 2001 e 2004, a proporção de internações no Pinel por ordem judicial era de 23% do total. De 2005 a 2009 saltou para 45%.

O “transtorno de conduta” é bem mais recorrente na internação por ordem judicial do que na internação pela via da rede de saúde. É o diagnóstico de um quarto das internações com duração maior do que 150 dias e por mais de um terço dos casos de crianças e adolescentes internados de quatro a sete vezes. É o rótulo de Raquel – e também o de José. Meninos representam quase 80% das crianças e adolescentes internados, um dado cujas razões precisam ainda ser melhor compreendidas.

José tinha 10 anos quando deu o primeiro passo para dentro do Pinel, por ordem judicial. Tinha passado, segundo o relatório da instituição, por “maus tratos, negligências e privação afetiva”. Apresentou “comportamentos desafiadores e transgressores, o que resultou em rejeição e abandono familiar, principalmente de sua mãe”. A mãe decidiu entregá-lo para o pai, na Bahia. No dia da viagem, José recusou-se a ir. Ele não queria se separar da mãe. Para não ser obrigado a viajar, por duas vezes tentou se jogar diante dos carros, na rua. A “crise de agitação” levou à sua primeira internação. A duração: 623 dias.

Quando teve alta, José foi encaminhado a um abrigo. Permaneceu apenas três dias antes de ser internado novamente. Dessa vez, ficou trancado por 255 dias. José fugiu. Para onde? Para a casa de mãe. Mais uma internação, por “agitação psicomotora com intensa heteroagressividade, baixa tolerância à frustração, sem crítica, e risco de vida”. Dessa vez, ficou 84 dias na instituição antes de fugir novamente. Para onde? Para a casa da mãe. Na quarta e última internação, ele permaneceu 309 dias no Pinel. Foi então encaminhado para um abrigo. De onde fugiu. Para a Bahia, em busca de um lugar e de um afeto.

No total, José ficou 1271 dias trancado no Pinel: três anos e cinco meses. Sobre José e Raquel, a equipe técnica do hospital enviou um ofício à Justiça, em 2008: “(…) Estão em alta médica, mas permanecem nesta enfermaria psiquiátrica para tratamento de pacientes com transtornos mentais agudos, privadas de ter uma vida digna, por não terem retaguarda familiar e não existirem vagas em abrigos”. Sobre esse destino, Flávia afirma: “As internações são motivadas por uma combinação complexa, que resulta numa situação de vulnerabilidade. A resposta da internação psiquiátrica, além de redutora de complexidade, é ela mesma produtora de maior sofrimento. A internação por ordem judicial revela uma concepção sobre a infância e a adolescência pautadas no medo e no perigo. Propõe uma resposta única a todas as situações, sem considerar diferenças, singularidades e contextos. Reduz crianças e adolescentes ao status de paciente psiquiátrico perigoso, produzindo sua cronificação”. É assim que se fabricam crianças loucas.

Vale a pergunta: fugir pode ter sido um ato de sanidade de José, na tentativa de não ser enlouquecido? De algum modo, apesar de tudo e de todos, ele parece acreditar que existe um lugar para ele, um lugar com afeto. José, Raquel e Maria nos mostram que não há desamparo maior do que o de uma criança num manicômio. Ninguém está mais sozinho nesse mundo do que José, Raquel e Maria. Expostos a uma sociedade que, além de não protegê-los, os enlouquece. Eles fogem, como José, eles quebram tudo, como Raquel, eles fazem perguntas, como Maria. Mas estão sozinhos. E cada um de seus atos de resistência é mais um carimbo de sua suposta loucura num arquivo morto.

Ao analisar os prontuários, Flávia conseguiu identificar claramente as diferenças entre a internação via rede de saúde e a internação por ordem judicial. Essas são conclusões cruciais do trabalho, porque apontam o que funciona e o que não funciona, apontam saídas. Na rede de saúde, a maior parte dos encaminhamentos é feita pela emergência de hospitais, o que não é o melhor percurso. Apenas 8% são enviados para internação por Unidades Básicas de Saúde ou por CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) infantil, que deveriam ser a porta de entrada para crianças e adolescentes com sintomas de doenças mentais. Esses dados demostram a falta desses serviços, causando desamparo na população que necessita de assistência pelo SUS. Em vez de começarem o tratamento pela rede básica, inserida na comunidade, o iniciam pelo fim e por aquilo que é uma exceção necessária num mínimo de casos: a internação. A hipótese de Flávia é de que, se houvesse mais serviços comunitários de saúde mental, como está previsto na legislação, é provável que a necessidade de internação fosse bem menor. Em vez do hospital psiquiátrico, uma rede articulada, com investimento maior em equipes de saúde mental, na capacitação e implantação do Programa de Saúde da Família e de centros de atenção psicossocial. “A patologização das crianças em situação de vulnerabilidade social evidencia a precariedade da rede de atenção e cuidado, e também a insuficiente articulação entre as políticas públicas nos campos da educação, saúde, habitação e lazer”, afirma.

A diferença é clara na análise dos dados. Nos casos encaminhados pelos Centros de Atenção Psicossocial, a média de dias de internação é mais baixa do que pelos outros caminhos. Quando crianças e adolescentes são cuidados pelos CAPS depois da alta, apenas 3% são reinternados. “Isso mostra que os serviços comunitários funcionam, mas são em número insuficiente”, afirma Flávia. “Nos pacientes encaminhados pela rede de saúde, o hospital funciona como enfermaria de crise. A maioria é de adolescentes de 15 a 17 anos, em seu primeiro surto psicótico, que são cuidados e liberados. Já na internação por via judicial, o hospital funciona como instituição de asilamento.”

O desafio exposto pela pesquisa é também o de completar a reforma psiquiátrica no Brasil. Crianças e adolescentes, segundo a legislação, devem ser tratados dentro da comunidade, junto à família, sem afastamento da escola. A doença, se de fato existe, deve ser compreendida como uma das várias características – e não como a verdade única sobre aquela criança e adolescente. Mesmo a internação, se for necessária, deve ser entendida como uma parte da história – e não como a história inteira. A internação é um momento, não um destino.

Flávia permanecia das 10h até as 21h de cada sábado na sala das almas do Pinel. Numa noite, estava tão mergulhada nos prontuários que se esqueceu da hora e se atrasou para sair. O guarda do portão recusou-se a deixá-la ir. Eram as regras. Ele não estava ali para pensar sobre elas, mas para cumpri-las. E Flávia soube o que era estar entre muros – e não ser escutada. Depois de um tempo que pareceu largo demais, Flávia conseguiu provar que era uma psicóloga, fazendo um trabalho de pós-graduação para a PUC. Acredita que o fato de ser branca, loira e de olhos azuis possa ter ajudado na sua “soltura”. Mas, ao abrir o portão, o segurança alertou: “Na próxima vez, fica”. Por um momento, trêmula, Flávia teve uma tênue aproximação do que sentiram Raquel, José e Maria, apenas três entre as centenas de “crianças loucas” fabricadas nesse século.

Ao final de sua estadia no arquivo morto que ela descobriu ser vivo, Flávia finalmente tinha as respostas para Maria.

1) Por que eu vou ficar aqui?

– Porque as instituições que compõem a rede de atendimento à criança e ao adolescente trabalham de forma desintegrada e não conseguem atender às suas necessidades.

2) Quem tá aí? Quem vai dormir no quarto comigo?

– As crianças e os adolescentes que tiveram seus destinos produzidos ativamente pela desresponsabilização e pelo abandono.

Maria perguntou. Flávia escutou. Escutou de fato não quando a ouviu, mas quando fez o movimento de buscar as respostas. Elas estão aí, mas só provocarão mudança se o Estado, os governos e a sociedade as escutarem. Se nós as escutarmos. É, afinal, de escuta que se trata.

Flávia desconhece o paradeiro de José. Raquel foi libertada ao completar 18 anos. Mas o que há para Raquel depois do que fizemos com ela? É possível, é moral, é decente dizer à Raquel: vá estudar, vá trabalhar, vá construir uma vida? “É uma marca tão profunda que pessoas como Raquel, mesmo saindo da instituição, continuam institucionalizadas”, diz Flávia. “A institucionalização parece uma grande máquina que suga a potência humana, criando seres humanos sem desejo. A institucionalização é a patologia mais grave da saúde mental.”

Aos 19 anos, Raquel hoje perambula pelas ruas e albergues de São Paulo, ao redor das instituições. Às vezes declara-se “louca” e é internada por curtos períodos. Raquel sempre pergunta pelo seu melhor amigo:

– Onde está José?

(Publicado no El País em 17/03/2014)

Crime sem sangue

O desabafo de um professor sobre a violência cotidiana da escola pública – onde parte dos adolescentes não sabe ler nem escrever

Rodrigo Ciríaco é professor da rede pública de São Paulo. Não custa lembrar, o estado mais rico do país. Os pais de Rodrigo, que completa 30 anos em maio, tinham uma lanchonete na Vila Rui Barbosa, na Zona Leste de São Paulo. Ciríaco cursou a escola pública, parte dela no período da noite para trabalhar durante o dia. Dos 14 anos em diante foi office-boy, mensageiro, auxiliar de escritório, operador de telemarketing, agitador de festas com videokê, vendedor de livros, estagiário em bibliotecas e educador social de rua. Contrariou as estatísticas ao conseguir entrar em uma das melhores universidades públicas do país: é formado em História pela Universidade de São Paulo (USP). Contrariou também as estatísticas familiares, ao se tornar o primeiro a cursar o ensino superior. Decidiu ser professor da escola pública por acreditar que deveria retribuir o investimento do Estado na sua educação. E também, mas principalmente, por desejar ser um instrumento de transformação de vidas. Tem pagado um custo alto por manter esta convicção.

Parte de sua experiência como professor de escola pública foi transformada em literatura no livro de contos Te pego lá fora (Edições Toró). É lá que está a incrível história da aluna que virou placa – tão incrível quanto invisível, como são as placas humanas da cidade, sobre as quais ele nos contará mais adiante. Educador, escritor, ativista cultural, Ciríaco passou as últimas férias em Berlim, a convite da pesquisadora Ingrid Hapke, da Universidade de Hamburgo, para fazer o lançamento do seu livro em “A Livraria”, casa especializada em literatura luso-afro-brasileira.

Seu livro foi assim apresentado aos alemães: “Escritos de vingança, dor e justiça de um professor que não aceita perder alunos para o tráfico e para a miséria, ver o preconceito camuflado para baixo de carteiras e nem abaixa a cabeça para diretores incompetentes e sistemas educacionais falidos. Contra tudo isto, usa a sua principal arma: a caneta”. Neste ano, Ciríaco integrou o grupo de autores da antologia de contos brasileiros, publicada na França e lançada em Paris no último 14 de março pela editora Paula Anacaona, com o sugestivo nome de Je suis Favela (Eu sou favela).

Ao voltar ao Brasil e às atividades na Escola Estadual Jornalista Francisco Mesquita, no Jardim Verônia, na região de Ermelino Matarazzo, na Zona Leste da capital paulista, Ciríaco voltou a lutar contra uma combinação sempre muito difícil de lidar: indignação e impotência. Com base no IDESP (Índice de Desenvolvimento da Educação de São Paulo), sua escola foi considerada uma das piores no nono ano do ensino fundamental: é a segunda pior entre as unidades de ensino da capital e a oitava pior entre os 3.695 colégios da rede estadual. Ciríaco, que realiza várias atividades educacionais extraclasse por sua conta e risco, tampouco foi contemplado no programa de bônus do governo.

Para dar 21 horas-aula semanais, ele ganha em torno de R$ 1.400 brutos. No dia em que soube que seus esforços não tiveram nenhum reconhecimento, faltou. Prejudicou apenas os alunos, sempre a parte mais fraca. Ciríaco admite a falha, mas afirma ter se sentido incapaz de enfrentar a sala de aula. Estava tomado pela solidão de quem escolhe o caminho mais difícil.

Na semana passada ele escreveu um texto intitulado “Desabafo” em seu blog (www.efeito-colateral.blogspot.com). Ao ler o relato, decidi procurá-lo para propor uma entrevista. Eu já o conhecia de encontros esporádicos em saraus de poesias e outros eventos da periferia de São Paulo. Também já conhecia seu livro. Ciríaco aceitou, mesmo correndo o risco de sofrer represálias. Professores podem ter problemas ao falar sobre sua vivência nas escolas paulistas – falar nem sempre é permitido.

Esta é uma conversa sobre educação e escola pública, em minha opinião o assunto mais relevante deste momento histórico vivido pelo Brasil. É também uma conversa sobre ideais e sobre perdas, sobre fraqueza e força, sobre cair e levantar para tentar mais uma vez. E sobre as contradições vividas por um professor às voltas com sua própria humanidade. É, principalmente, um debate sobre desigualdade e sobre a violência que mata sem sangue.

Esta entrevista já estava em curso quando Wellington Menezes de Oliveira matou 12 crianças numa escola em Realengo, no Rio. Optamos por não abordar o tema em nossa conversa. Sem informações suficientes, correríamos o risco de fazer inferências apressadas num momento em que o respeito à complexidade dos fatos é fundamental. Preferimos manter nosso foco na violência cotidiana e invisível, que, como professor, Rodrigo Ciríaco conhece bem. A única relação que eu me atreveria a fazer, diante de um caso tão terrível quanto singular como foi o do Realengo, é de que foi na escola que Wellington decidiu cometer seu massacre – assim como é a escola o palco de muitas das infelizmente tradicionais chacinas americanas. Já li muitas análises sobre o porquê da escolha da escola como lugar de assassinatos em massa. Mas acho que por aí há mais para pensarmos.

Se você não tem filhos na escola pública, não dê um suspiro aliviado e passe adiante. O tema desta entrevista tem tudo a ver com você, comigo. Se você não tem filhos, também tem tudo a ver com você, comigo. Pensar a escola pública, para além dos muros que para alguns são instransponíveis – e para outros um conforto – é uma tarefa de todos nós. Pelo menos de todos que têm vergonha. E que conseguem alcançar, ainda que de longe, a humilhação que um adolescente sente por estar no final do ensino fundamental sem saber ler nem escrever. É desde tipo de crime, comum e jamais punido, que falamos aqui.

Por que você escolheu ser professor da escola pública?
Rodrigo Ciríaco – A minha opção em ser professor de escola pública veio desde o momento em que escolhi ser professor. Por ter estudado toda a minha vida em uma escola estadual, por ter feito uma universidade pública, acreditava que tinha uma certa “obrigação” de devolver à sociedade tudo o que eu havia recebido, o investimento que havia sido feito em mim. Este foi um dos motivos. O outro é por acreditar que a escola pública gratuita é um verdadeiro espaço de transformação possível da sociedade em que vivemos. Um dos espaços. Não acontecem mudanças apenas pela escola, como sabemos. É preciso políticas públicas e eficazes de emprego, saúde, segurança, moradia e distribuição de renda. Deixar toda essa responsabilidade para a escola seria demais. E o abandono, as políticas públicas ineficazes, sempre me incomodaram, e muito. Me tornei professor porque tinha vontade de contribuir para que esse quadro fosse alterado.

Como são a sua escola e seus alunos?
Ciríaco – Desde que fui efetivado estou trabalhando na mesma escola. Hoje, ainda é difícil trabalhar por lá, mas já foi ainda mais. No começo, nos anos de 2006 e 2007, além dos problemas pedagógicos e administrativos, tínhamos sérios problemas de infra-estrutura. Das 18 salas de aula, nove delas alagavam, enchiam de água todo início do ano. Muitas outras tinham infiltrações, buracos na parede e no teto. Lousas aos pedaços. Além disso, o sistema de eletricidade era obsoleto – e ainda é. Vivia sobrecarregado, queimando computadores e lâmpadas. Houve alguns momentos em que tivemos problemas de curto-circuito. Não possuíamos uma diversidade de recursos pedagógicos, como sala de informática ou multimídia e laboratório. E a diretora era extremamente ausente, não cumprindo com suas obrigações profissionais.

Acredito que estudar e dar aulas em uma escola fisicamente aos pedaços é um tipo de violência contra professores, funcionários e alunos. Como isso é percebido dentro da escola e de que maneira afeta a comunidade?
Ciríaco – Eu acho que o estigma de a “escola pública ser ruim” já colou de uma maneira tão impregnada na sociedade e, principalmente, nas pessoas que vivem nas comunidades periféricas, que ficou banalizado. As pessoas muitas vezes não se dão conta de que aquilo é uma violência. Ou mesmo se sujeitam muitas vezes, sem acreditar na força da mobilização política e popular para transformar esse quadro. Isso tem um efeito muito negativo para os alunos, ainda que inconscientemente. Gosto muito de uma frase do Paulo Freire que dizia que o “ético tem muito a ver com o estético”. Quando se estuda numa escola caindo aos pedaços, é difícil ter ânimo, acreditar até que aquilo ali pode lhe propiciar algo de bom. Isso pensando nos alunos.

No caso dos professores, esse sentimento de indignação fica muito claro. Mas eu acho que não somos uma classe muito unida, principalmente em tornos dos problemas centrais da educação – e não apenas da corporação. Há uma indignação, crescente, visível, principalmente nas salas dos professores, nas reuniões pedagógicas, mas é uma revolta que não encontra uma válvula de escape política, que não se transforma em mobilização e em uma luta forte por mudanças.

E claro que isso não é desculpa, não justifica, mas influencia sim diretamente na qualidade de ensino. Na motivação. Até porque, muitas vezes, o professor não consegue se ocupar apenas das questões pedagógicas que lhe são pertinentes. Tem de dar conta de resolver problemas de falta de materiais, de estruturas precárias, de ausência de apoio e suporte pedagógico. O educador, na rede pública, não consegue ser apenas professor. Tem que ser uma espécie de faz-tudo, disponibilizar até recursos próprios para suprir deficiências que o Estado deveria resolver.

Nunca houve uma proposta de mutirão, por parte da comunidade, para melhorar a escola?
Ciríaco – Algumas vezes foram propostos, mas nunca deu muito certo, não vingou. Eu já cheguei a ir à escola, aos finais de semana, com alguns professores e pais, para fazer a instalação de ventiladores e outros pequenos consertos para melhorar o nosso dia a dia, mas foram coisas pontuais. A apropriação da comunidade, pela escola, na minha região e na minha unidade escolar especificamente é um projeto que está ainda distante. Tem ainda de ser construído. E tem de ser um projeto bancado pela escola como um todo: profissionais, diretores, funcionários. Daí, entra um outro problema: em geral, há muita rotatividade destes profissionais. Nos anos em que estou na escola, já tivemos três diretores diferentes e mais de oito vice-diretores distintos. O corpo de professores e funcionários efetivos é pequeno, acaba sendo muito rotativo. Fica difícil estabelecer grandes vínculos e perpetuá-los.

“Na escola privada, como cliente/consumidor, o aluno tem mais direitos do que na pública, em que é ‘apenas’ cidadão”

A escola pública foi abandonada pela classe média. E isso não deixa de ser uma violência. Por que você acha que isso aconteceu? E como esta violência é sentida, na medida em que os alunos sabem que sua escola é pior do que aquela frequentada por quem tem mais dinheiro?
Ciríaco – Acredito que o abandono da escola pública pelas elites e pela classe média tenha acontecido por conta de uma visão individualista que as pessoas têm sobre a vida em sociedade. Nesta visão o que se ignora é justamente a responsabilidade de viver em sociedade. O que vale é o “salve-se quem puder”. Aos poucos, deixa-se de considerar o outro em suas decisões. Então, se a qualidade de ensino da escola do meu filho está caindo e parece muito complicado reunir os outros pais para discutir sobre essas questões, acionar os órgãos democráticos de reflexão como o Conselho de Escola, a APM (Associação de Pais e Mestres), entre outras medidas, e eu tenho condições financeiras, o que eu faço? Eu retiro o meu filho da escola pública e coloco-o em uma instituição particular de ensino. Ao estabelecer uma relação de cliente/consumidor eu tenho mais “direitos” e respostas do que naquela em que eu era “apenas” cidadão.

Não é curioso que as pessoas tenham mais condições de reivindicar como consumidores, no que se refere à educação, do que como cidadãos que trabalham e pagam seus impostos? Como você vê esta distorção?
Ciríaco – É uma distorção cruel e violenta típica da sociedade capitalista em que vivemos e, como dizem os Racionais, “você vale o que tem”. E é bem isso. Há tempos que o Ter é mais importante, mais valorizado do que o Ser, apesar do discurso, da Constituição dizer o contrário. Em tese, somos todos “iguais perante a lei”, mas sabemos que na prática dinheiro é sinônimo de poder. E quem tem, pode mais. Não é algo que eu acredito, mas é como eu vejo. E no caso do “aluno/consumidor/cliente”, é mais fácil para ele reivindicar coisas, pois entra numa simples questão: ele têm escolha. O dinheiro lhe abre essa possibilidade. Se a escola particular não está atendendo às necessidades do educando, às reclamações dos pais, eles simplesmente vão lá, tiram o filho daquele colégio e matriculam em outro. No caso do cidadão que depende do Estado para ter minimamente os seus direitos sociais garantidos, essa lógica não entra. Não existe. É a lógica do “pegar ou pegar”. Não se pode nem pensar em largar, afinal é difícil muitas vezes conseguir vagas em escolas públicas. E quando existem reclamações por parte dos pais, nas Diretorias de Ensino, na Secretaria de Educação, entram no bolo das reclamações que existem contra instituições do Estado. Parece que acabam caindo em um limbo, num buraco negro do esquecimento. Principalmente se não houver uma mobilização, se for uma reclamação individual. É como se aqueles que dependem do Estado não tivessem o direito de reclamar. É aceitar o que está lá e pronto. Os direitos sociais no Brasil não são vistos como direitos, e sim como favores. E se eu faço um favor, você tem de aceitar. De bom grado e pronto.

Se existe um projeto político de educação no Brasil, e ele existe, apenas não é admitido, é o de fazer a escola pública não funcionar”

Como você vê a violência velada da escola privada, que me parece permear a relação entre alunos, pais e professores? Acho que se discute muito pouco sobre a violência da escola privada. No máximo, se fala sobre os sofrimentos infligidos aos alunos mais frágeis, o tal do bullying.
Ciríaco – A violência da escola particular não é muito debatida ou sentida, acredito, entre os alunos. Não é algo que está em pauta, em discussão, cotidianamente. Essa violência aparece, muitas vezes, quando é trazida por professores que trabalham em ambos os lugares, e que, em casos de indisciplina ou outros problemas, fazem comparações entre a instituição particular e a escola pública, colocando a privada – e seus respectivos alunos – como melhores, mais preparados do que os da escola pública. Esta comparação, feita muitas vezes por um profissional de educação, costuma ser recorrente, e de extrema agressividade moral.

O que me incomoda muito é ver políticos, empresários, banqueiros construindo ONGs e dizendo que são “todos pela educação”. E, quando você vai ver, seus filhos estudam em colégios particulares caríssimos. E a mensalidade de um deles é, muitas vezes, um valor maior que o salário de um professor de escola pública. Acho de um cinismo, de uma hipocrisia e de uma crueldade muito grande. Eu, particularmente, vou acreditar que somos, realmente, “todos pela educação”, quando eu ver os filhos destes que têm uma condição financeira extremamente favorável se sentarem no mesmo banco, junto à mesma carteira, que o dos filhos de trabalhadores e trabalhadoras das comunidades e periferias do país. Quando juntos enfrentarem as mesmas questões, as mesmas dificuldades de falta de professores e de material didático adequado. “Ser solidário é correr o mesmo risco”. A frase é de Che Guevara e eu gosto muito. Porque é fácil ser solidário dizendo: “Vá lá fazer, eu te apoio”. Se apoia mesmo, entra junto na luta. De cabeça, de verdade, não apenas com palavras, com projetos que fazem intervenções pontuais, que não questionam a raiz, a base do problema, que são as políticas públicas de educação. Porque se existe um projeto político de educação no Brasil, e ele existe, apenas não é admitido, é aquele de fazer a escola pública não funcionar. Deixá-la abandonada, aos prantos, como uma criança assustada, sem amparo, atenção e carinho.

A diversidade de experiências deveria ser um dos instrumentos mais importantes da educação. No Brasil, a desigualdade reproduzida e multiplicada pelo sistema de ensino, que oferece uma escola ruim para os mais pobres e uma escola um pouco melhor para a classe média e os mais ricos, eliminou este instrumento pedagógico. E acho que até hoje não há nenhuma avaliação das consequências deste apartheid educacional em todas as outras relações sociais. Você, que testemunha o apartheid de dentro da escola pública, como vê este fenômeno?
Ciríaco – Acho que para os alunos das classes populares, isso gera muitas vezes uma falta de perspectivas, de olhar e enxergar outras possibilidades, novos horizontes. Tempos atrás, eu estava falando sobre Iluminismo, Montesquieu, “O espírito das leis”, e perguntei para os alunos quem ali pretendia fazer Direito. Em três salas, apenas um aluno levantou a mão. Perguntei ainda quem queria fazer as profissões mais “reconhecidas”, socialmente falando, como Medicina, Engenharia… Mais um ou outro levantou a mão. E não é por não conhecerem essas profissões, é por não acreditar que é possível. Por não terem referências próximas, em seu bairro ou escola mesmo, de alunos ou pais de alunos que chegaram lá, estudaram, fizeram esses cursos. A desigualdade nas relações mina a diversidade. Até de sonhos, de possibilidades.

Sempre se enxerga a escola pública como um espaço violento. Como você classificaria os diversos tipos de violência? E como você os enxerga?
Ciríaco – Sim, a escola pública é um local violento. Principalmente quando se fala de uma violência institucional, que atinge todos os profissionais envolvidos na educação – e não apenas os estudantes. Os profissionais pelos baixíssimos salários, a falta de reajustes, planos de carreira, valorização profissional, o não reconhecimento de algumas doenças adquiridas por conta do trabalho, o acúmulo de funções. Fatores que, aos poucos, vão desmotivando e minando os sonhos, vontades, desejos de transformação através da educação dos mais esperançosos educadores. Pois é muito difícil permanecer no front se você não tem reconhecimento, apoio, incentivo e, principalmente, se você não consegue observar avanços, resultados positivos de seu trabalho. É muita energia gasta, aparentemente, para nada.

Mas você parece resistir… Como você faz para resistir e continuar tentando ser um bom professor contra todas as adversidades e um sistema que praticamente lhe empurra para o mau desempenho?
Ciríaco – De verdade, eu não sei o que faço para resistir. No fundo, acredito que sou um sobrevivente e que não entrego os pontos, não desisto das coisas facilmente. Mas, o que eu procuro fazer é tentar, no meio de isso tudo, descobrir o que me promove alegria, o que me traz sorrisos, o que me faz ter um friozinho no estômago, esse brilho nos olhos, ainda que seja de vez em quando. E isso eu descobri com “Os Mesquiteiros” (grupo de teatro que criou na escola, com os alunos, aos sábados). Lá, eu consegui chegar a um estágio, uma proximidade, uma cumplicidade com aqueles jovens e adolescentes que eu não encontro na sala de aula. Fazemos, criamos, estudamos, vamos juntos a outros lugares além da escola, como saraus, teatros, centros culturais. Protegemos e acolhemos uns aos outros. Brigamos e sofremos juntos. Ali foi o primeiro espaço que encontrei, dentro da escola, em que eu pude perceber que não estava sozinho, que eu podia contar com alguém para compartilhar dores, sonhos, esperanças. Encontrei pessoas dispostas a brigar comigo, e não me senti mais tão sozinho. Ainda que, todos os dias, quando estou dentro da sala de aula, eu esteja sozinho. E, muitas vezes, tenha de lidar sozinho com várias questões. Mas, quando estou com eles, trabalhando com eles, eu não me sinto sozinho. É por isso talvez que eu resista. Por eles. Por eles terem acreditado em mim e, quando eu fraquejo, me dou quase por vencido, penso que não posso decepcioná-los. Que tenho de ser grato e retribuir aquele favor, que é um gesto de amor, mesmo. É por este grupo, por estes alunos, principalmente, que eu ainda resisto. Se eu não tivesse esse apoio, esse aconchego, já teria feito as minhas malas e partido.

“Violência é ter alunos nas séries avançadas do ensino fundamental e mesmo no médio que são analfabetos funcionais. Isto é um crime”

Você fala de uma relação que é amorosa, mesmo. E é de respeito. De respeito próprio – e pelo outro. O oposto do que estávamos falando antes, sobre a imagem de violência colada na escola pública – e também na sua escola. Como a violência é sentida e decodificada pelos seus alunos?
Ciríaco – Quando os estudantes me falam sobre violência sempre me vem a imagem de alguns alunos, que estão em séries avançadas do ensino fundamental, algumas vezes até do ensino médio, e não aprenderam a ler e a escrever corretamente. Isto é um crime. Muitos já passaram – e continuam passando – pelas minhas mãos e é uma sensação desesperadora. Primeiro, porque não tive em minha formação o papel de “alfabetizador”, então sinto imensas dificuldades para trabalhar com isso. E, segundo, porque quando você se dispõe a enfrentar esse problema, precisa deixar de lado um pouco os outros trinta e poucos alunos que estão ali na sala, contando com você. Então, a existência de estudantes analfabetos – funcionais ou não – em séries avançadas do ensino, é uma das violências mais gritantes e cruéis que existe dentro da escola pública. E, infelizmente, há muitos.

Como esses alunos analfabetos, mas em séries avançadas, se sentem? Deve ser terrível…
Ciríaco – Normalmente os alunos ou “explodem” ou “implodem”. No caso de “implodirem”, muitas vezes ficam quietos, fechados, numa postura difícil de estabelecer vínculo, contato. Tentam camuflar aquela situação, sentem-se humilhados: imagine, trabalhar questões que envolvem alfabetização em quintas ou sextas-séries, ao lado de alunos que já têm autonomia, que conseguem fazer sozinhos muitas atividades. É uma situação constrangedora até mesmo para os colegas. Quando eu sento ao lado de um destes alunos, tentando ajudá-lo, sempre vem algum outro que quer perguntar alguma coisa, tirar uma dúvida, e fica ali, perplexo diante do colega, tentando entender ou questionar: “Como assim, então é verdade? Você não sabe ler e escrever mesmo!”. É um constrangimento muito grande.

E existem os que “explodem”. São aqueles alunos que acabam tendo vários problemas de indisciplina. Ou por não verem sentido nenhum naquele trabalho, naquela atividade na qual ele não se reconhece, da qual não faz parte, ou por ter que se “garantir”, brilhar, ser destaque, ter atenção de alguma maneira. Ainda que seja de uma maneira provocativa, tumultuando a sala, prejudicando a si e aos demais colegas.

Lembro da história de um destes alunos que explodiram. Está até retratada em um poema que escrevi. O aluno era extremamente indisciplinado, não ficava sentado em sua cadeira, circulava em demasia pela sala, era de certa forma agressivo com os colegas. Tinha uma dificuldade de concentração, de ficar parado para desenvolver atividades. Depois de muito conversar e ter paciência e esperar, consegui quebrar um pouco esse “espírito de rebeldia”.

Mas, no dia de uma prova, em que ele não conseguia desenvolver algumas questões mais básicas, ele chorou. Amassou a prova. Desamassou. Entregou, pediu de volta. Por fim, rasgou e saiu, derrubando os materiais, empurrando as carteiras dos colegas. Pouco tempo depois, teve um problema de indisciplina, no qual xingou a responsável pela cantina, “passou” as mãos em uma menina. Foi feito um Conselho de Escola e, devido ao histórico, o aluno foi convidado a se retirar daquela escola. E aquele Conselho em especial foi terrível, malharam feio a mãe e o menino. Eu mesmo tive de me posicionar, no sentido de relatar o que houve, em algumas das minhas aulas, o que o prejudicou ainda mais.

Para mim, foi muito angustiante porque quando coloquei em pauta o fato de ele não saber ler nem escrever, isso não foi seriamente considerado. Levado em conta como um dos motivos para tamanha revolta. E o menino foi transferido. Ou melhor, o “problema” foi empurrado para outro lugar. Porque, infelizmente, na maior parte das vezes o que se faz é isso: não se encara o problema, se joga para outro. Nem que seja para debaixo do tapete do outro.

E o pior é que ninguém responde por este crime. Quantas vezes a gente escuta em tom pejorativo sobre um adolescente: “Ele sempre foi indisciplinado, tanto que foi expulso da escola. Esse aí não tem jeito”. Mas, em algum momento, este aluno e sua mãe, cuja história você relatou, apostaram na escola, apostaram no Estado. Fizeram o melhor que puderam e foram traídos. E como a maioria dos alunos, mesmo os que conseguem acompanhar as aulas, percebe a violência?
Ciríaco – A escola possui problemas que vão de uma conduta excessivamente agressiva por parte de alguns alunos – e de alguns professores também, é importante frisar – a questões como a inserção de drogas lícitas e ilícitas. Mas, sinceramente, não vejo a questão das drogas como um grande problema. Pode se tornar um grande problema na medida em que a unidade escolar não possui uma organização e administração eficientes, num contexto em que há falta de funcionários, que abre espaço para uma sensação de permissividade excessiva que transforma a escola quase que em “terra de ninguém”. Acredito que ainda exista sim uma tolerância para muitas coisas que acontecem dentro do espaço escolar. Ou existia, até este fato que aconteceu no Realengo, no Rio.

Mas, tendo em vista a violência explosiva e muitas vezes descontrolada da sociedade em que vivemos, as escolas ainda são lugares relativamente seguros. O que é importante é que haja regras claras de funcionamento deste espaço, organização e fiscalização. Por exemplo: ter um controle de quem entra e sai da escola. Os alunos não podem ficar circulando em grupos pelos corredores, sem acompanhamento, na hora que quiserem, por quanto tempo quiserem, como muitas vezes acontece. Não podem ocupar espaços ociosos da escola sozinhos, sem o acompanhamento de um educador. Não podem eles ditar as regras de como funciona, do que se faz na escola. Se eles percebem que têm essa liberdade, que para mim é excessiva, abusos vão ocorrer. Alguns vão passar dos limites. E daí a responsabilidade é apenas deles?

“Muitas vezes o professor é criminalizado por questionar o que está errado. Esta foi talvez a maior violência que sofri na escola”

Quais foram as situações mais difíceis que você, como professor, enfrentou em sala de aula? Qual foi a maior violência que sofreu?
Ciríaco – Um dos problemas mais difíceis, como eu já disse, é a questão da existência de alunos não alfabetizados ou com uma alfabetização precária, deficiente, limitados à escrita do nome e de pequenas palavras, os chamados “analfabetos-funcionais”. Ter alunos com essas limitações em sala é quase que desesperador. Primeiro por ter dificuldades em ajudá-los. Segundo, que pela maneira como estão organizadas as salas, em média com 35 alunos ou mais, dificulta e praticamente impossibilita um trabalho individualizado. Daí, entramos em outra situação que nos traz muitos problemas: o grande número de alunos em sala. A grande dificuldade é como fazer para dar atenção, colaborar com esses alunos, quando metade deles – ou até mais – não possui autonomia para realizar muitas das atividades propostas, por uma formação deficitária. Simplesmente não dão conta de fazerem sozinhos. Eles necessitam de uma atenção particular, muitas vezes individualizada. O problema é que, quando se está com um, todos os outros ficam à deriva.

Agora, a violência maior que eu já sofri não foi em sala de aula, mas decorrente dela. Tem a ver com a falta de apoio, de amparo mesmo ao professor em suas questões pedagógicas e profissionais. O fato de muitas vezes você não ter para quem expor, falar sobre os problemas, ou quando tem e você fala, questiona, problematiza, não encontra respaldo, resposta para as questões apontadas. Ou pior: você é de certa forma criminalizado pelas questões apontadas.

Como assim, “criminalizado”?
Ciríaco – Uso o termo “criminalizado” porque quando o Educador, o Funcionário Público procura relatar, expor a situação em que se encontra, muitas vezes pode ser acusado de estar violando o Estatuto do Funcionalismo Público. E, assim, pode sofrer uma sanção, um processo administrativo. Para mim, isso é uma forma de criminalizar um direito legítimo, garantido em Constituição: a liberdade de expressão. Mas parece que, em alguns casos, o Estatuto, que é uma Lei redigida em 1968, no auge do período militar, tem mais valor do que a própria Constituição.

Então, essa indiferença para com os problemas da escola – que muitas vezes não é apenas do Estado, mas da sociedade ou ainda da repressão que te impele a não falar, não questionar – está entre as maiores violências que sofri como professor.

Você poderia dar um exemplo?
Ciríaco – Muitas vezes vivi situações insuportáveis, como certa vez em que a escola estava com várias salas deterioradas, infiltrações, paredes esburacadas, lousas emboloradas, risco de o teto cair, risco de pane no sistema elétrico. Enfim, uma ausência de direção, abandono total e, quando buscamos a Diretoria de Ensino, o que escutamos foi: “Providências foram tomadas, tem de esperar”. Quando buscamos a imprensa, o que ouvimos foi: “Mas isso é normal, muitas escolas são assim”. Quer dizer, o extraordinário torna-se ordinário, comum, e você não tem para quem falar, pois quem poderia fazer algo não te escuta, nada faz. É como dar murro em ponta de faca: uma hora cansa.

“Quando há uma situação de descontrole, respondo com meu silêncio. Fico ali parado, meio pateta, apenas observando os alunos”

Você poderia contar uma história que o transformou?
Ciríaco – São muitas. Boas e ruins. Uma delas aconteceu há quatro anos, com uma quinta-série que era muito difícil de trabalhar, tinha problemas muito grandes de indisciplina, principalmente porque havia muitos alunos não alfabetizados e outro grande número de analfabetos-funcionais. Eles não conseguiam acompanhar a maneira pela qual eu preparava minhas aulas e, por outro lado, eu não conseguia elaborar atividades que atendesse a toda aquela diversidade de alunos que havia em sala, em níveis diferentes de aprendizagem.

Outro problema era que os alunos tinham uma conduta muito agressiva entre si, muitas vezes se batiam, se socavam por pequenas discussões, quase não havia o diálogo. E num momento de descontrole, de indisciplina generalizada, quando eu já havia pedido várias vezes para alunos diferentes ficarem em silêncio, eu gritei enfaticamente com um deles para “calar a boca”. E o menino não arredou pé. Respondeu à altura. Gritou comigo também, dizendo que ele não tinha pai para gritar com ele e nem mandá-lo calar a boca e “quem eu estava pensando que era” para fazer isso.

Foi uma situação inusitada, pois em seguida a sala ficou em silêncio. Na hora eu fiquei com muita raiva, mas depois percebi que não foi legal o que eu fiz. Até porque naquele momento eu perdi esse aluno, e só consegui resgatar uma relação de diálogo com ele três anos depois. Mas o que percebi realmente é que não se combate uma “agressão” com mais agressividade. Não se pode querer apagar o fogo com gasolina.

Isso ficou marcado em mim. Hoje em dia, quando há uma situação de descontrole, indisciplina em sala, eu procuro responder com o meu silêncio. Fico ali, meio pateta, parado, em frente à sala, apenas observando os alunos. Algumas vezes demora dois, três, cinco minutos, mas eu consigo o meu silêncio. Problematizo sobre aquela situação. E além de eu não me desgastar tanto, acho que eu tenho mais respeito dos alunos por isso. É muito difícil, algumas vezes a indisciplina pode chegar a um nível agressivo, desrespeitoso com o educador. Ele se sente tentado a responder na mesma moeda, mas eu procuro evitar esse tipo de reação. A experiência me mostrou que não é o melhor caminho.

Você denunciou em seu blog que foi perseguido em sua escola no ano passado e que chegou a sofrer assédio moral. Como foi isso?
Ciríaco – Bom, tudo começou quando, em 27 de agosto de 2010, escrevi em meu blog um texto intitulado “Mente em Ebulição”, na qual fiz a exposição de algumas questões que estavam acontecendo em minha escola. Questões que não sentia espaço para dialogar, discutir dentro do ambiente escolar. Questões que julguei pertinente que as pessoas conhecessem, tivessem acesso. Então, coloquei no blog. Isso foi numa sexta-feira. Na semana seguinte, quando fui trabalhar, percebi os olhares atravessados de alguns professores, pessoas que demonstraram estar magoadas com o que eu disse. Quando entrei em uma sala, fui interpelado por uma aluna que me questionou porque eu havia chamado os alunos da escola de “nóias, vagabundos, drogados”. Respondi que nunca havia falado isso. Ela disse que era o comentário que estava rolando “boca-solta” em toda a escola. Lembrei do meu blog. Expus o que havia escrito: que estava cansado da imagem que tínhamos, pela qual éramos conhecidos até então, cansado de sermos vistos daquela maneira. Cansado de não termos uma escola reconhecidamente com qualidade. De estarmos no IDESP (Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo) entre as 10 piores da Diretoria de Ensino. E de vários outros pontos. Pois bem. Tive que me justificar em várias salas. Explicar a minha versão dos fatos. Inclusive para a mãe de uma aluna que apareceu na escola, aos gritos, me questionando por que eu havia dito tudo isso. Que era uma falta de respeito com sua filha, com os alunos, com os professores daquela escola.

Depois eu fiquei sabendo que um professor da escola havia lido o texto no meu blog, imprimido e, não sei se por maldade ou por outros motivos, espalhou a notícia pelos quatro cantos da escola. Mas dizendo que eu havia xingado, falado mal dos alunos. Ou seja, além de mentir, ele estava desviando o foco dos principais assuntos abordados em meu texto.

O texto chegou até a Diretoria de Ensino. E a supervisora, responsável pela minha escola, foi até lá conversar comigo. Chamou-me na sala da direção, junto com o vice-diretor. Estava com o texto impresso. Não perguntou os motivos pelos quais eu havia escrito. Já foi direto perguntando: “Por que eu havia chamado os alunos de nóias, vagabundos e…”. Aproveitei que ela estava com o texto em mãos e afirmei, novamente, que nunca havia escrito aquilo. Mostrei para ela, textualmente o que havia dito. Que aquela afirmação que ela havia feito estava errada.

Ela não se mostrou satisfeita com a minha explicação, apesar de ter o texto em mãos. Questionou por que eu havia colocado no blog a informação de que a direção anterior da escola havia deixado um rombo de R$ 16.000, assunto discutido em reunião do Conselho da Escola na semana anterior. Perguntei se era mentira, ela confirmou que não. Então eu disse que não via nenhum problema em divulgar essa informação. O problema não era divulgar, mas sim o desvio de recursos públicos ter acontecido. Falar sobre o acontecido é muito menos grave do que o acontecido propriamente dito.

Ela me informou sobre o Estatuto do Funcionalismo Público, de 1968, período da ditadura militar, que inibe funcionários de expor, falar sobre alguns assuntos. Informei que conhecia o Estatuto, mas que não concordava com ele, que as pessoas tinham o direito de ter acesso a esta informação. Enfim, o objetivo dela não era dialogar sobre todos os problemas que eu havia levantado no texto do blog, não era tentar entender o que acontecia, mas sim questionar o porquê da minha exposição dos fatos. Em resumo, ela foi ali para colocar panos quentes na situação, afirmar que eu não poderia ter tido aquela conduta, principalmente com algumas palavras que usei no blog – e nisso eu concordo, usei palavras duras, escritas no calor da hora. Em nenhum momento houve qualquer espécie de diálogo sobre os problemas citados.

Nos dias que se seguiram, havia um mal-estar muito grande entre mim e os professores, assim como com alguns alunos. A minha reputação estava manchada. Eu havia sido o professor que tinha “xingado os alunos da escola”. Essa difamação colou, e foram poucos os que me defenderam. De todas as coisas citadas – denúncia de desvio de dinheiro, problemas no projeto pedagógico da escola, questões administrativas – nada disso foi discutido. A questão era apenas a suposta “agressão” verbal feita via blog contra os alunos.

Depois deste episódio, fui retirado da sala de aula em outros três momentos para comparecer à direção para conversar sobre o assunto. Estava se tornando uma situação constrangedora: eu lá dando aula, vinha a inspetora me informar que a diretora estava me aguardando para conversar comigo. Eu tinha de sair de sala para dar explicações. Novamente, expliquei o que estava claramente escrito. A direção expôs a sua opinião, questionando a minha conduta no blog e na escola. Falou-se novamente sobre o Estatuto do Funcionalismo Público, e até mesmo sobre o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), já que eu publicara no blog fotos de alunos em atividades como o Sarau (de poesias, realizado uma vez por mês e aberto à comunidade) – que em nenhum momento expõe depreciativamente as crianças e adolescentes. Mesmo assim, foi dito que eu poderia ser inclusive penalizado pelo ECA. Explicou também que havia a possibilidade de abertura de um processo administrativo, o que acabou não acontecendo. Foi sugerido também, por integrantes da Diretoria de Ensino, que eu tirasse uma licença “extra-ofício”, tendo em vista que os motivos para tal manifestação e descontentamento com a situação da escola se deviam ao fato de eu estar estressado – ou com problemas emocionais e psicológicos.

Não tirei a referida licença, continuei trabalhando, mas foram dias muito difíceis. Sentia-me isolado, rejeitado por colegas, desprezado por alguns alunos, humilhado. Como se não houvesse espaço ali para mim. Como se eu fosse o único a estar descontente com uma escola que tinha um perfeito controle e funcionamento. E que não havia razões para questionamento. Bem, o resultado do IDESP demonstrou que eu, com toda a minha indignação e descontentamento, não estava tão errado. E eles, não tão certos.

“Como professor eu me sinto um lixo ao ver minha escola entre as piores”

O IDESP de 2010, divulgado há pouco, mostrou que sua escola está entre as piores da rede pública estadual de São Paulo. O que você sente como professor? E como isso repercute entre os alunos?
Ciríaco – Como professor eu me sinto um lixo. Principalmente por estar há cinco anos na mesma unidade escolar e não ter conseguido colaborar efetivamente para a alteração desse quadro, que não é de hoje. Esse é um sentimento muito claro. O que me consola é saber que procuro fazer o melhor, coloco à prova minha capacidade intelectual, física e mental, chegando em alguns momentos ao esgotamento. E que não compartilho dessa responsabilidade sozinho. Ela se relaciona a diversos outros fatores.
Conversei com os alunos de algumas salas sobre esses números. Houve surpresa, risada, espanto e indignação. Tentei tirar uma postura positiva do episódio, dizendo que eu não os vejo entre os piores alunos da cidade. Do estado. E que tínhamos plena capacidade e condições de superar aqueles números. E isso foi acordado entre todos. Fizemos um novo contrato pedagógico entre nós no sentido de haver um esforço e atenção maior para que esse quadro seja revertido, esse número superado, o que não é algo muito difícil.

A minha revolta com a divulgação desses dados é que são apenas números, sem uma análise profunda de todo o contexto que os envolvem. Alunos e professores são responsabilizados, de uma maneira muito agressiva, cruel, como se fôssemos incompetentes, incapazes. Mas ninguém discute, por exemplo, que no mesmo ano avaliado, nessa minha escola, ficamos sem o suporte pedagógico de um Coordenador por oito meses. Que durante quase o mesmo período não tivemos reuniões de HTPC (Horário de Trabalho Pedagógico Coletivo) por conta da ausência deste Coordenador. Que a Direção não realizou – ou não pôde fazer – este trabalho, pois estava colocando em ordem as contas não pagas da escola para voltar a receber recursos do Estado. O que foi um problema, pois se cobriu um buraco destapando outro. Que os professores não tinham suporte, espaço, apoio para discutir seus problemas. E isso tudo por oito meses. Qual escola consegue um bom desempenho se não há um acompanhamento, um respaldo pedagógico ao seu grupo de professores? Mas os números não contabilizam isso. São apenas números. Ignora-se a história, o contexto escolar. O conteúdo por trás dos números não interessa.

Os pais de seus alunos se envolvem de alguma forma na educação dos filhos? Eles conseguem participar e fazer reivindicações? Como você os percebe?
Ciríaco – Infelizmente, vejo que apenas uma pequena parte se envolve na educação formal dos filhos. O que é um problema, já que os pais, a comunidade, são parceiros importantes para o bom funcionamento da escola, para sua imagem e desenvolvimento educacional. Eu acho que isso acontece por um lado pela dificuldade em entender como funciona a escola, os meios de participação. Outro problema é a questão “tempo”. Muitos possuem trabalhos que dificultam ou impossibilitam essa presença mais marcante na escola. Por outro lado, penso que precisamos ter mecanismos mais eficazes de expor não apenas a importância da participação dos pais, da família na escola, mas também estratégias para trazê-los até a escola, com informações mais claras, criando uma forma de divulgação mais eficiente que realmente os alcance.

O fato de as famílias serem pobres, com pais que muito possivelmente estudaram pouco, sendo analfabetos ou pelo menos analfabetos funcionais, colabora para esta falta de participação? Ainda existe aquela história de que diretor e professores são autoridades inquestionáveis para estas famílias, como se acreditava no passado? Pergunto isso para tentar compreender se existe uma percepção consciente ou inconsciente, como pais, de que não teriam o direito de questionar a qualidade da escola, já que sempre viveram à margem da educação… E o quanto isso pesa…
Ciríaco – Sim, existe isso. É verdade que há muitos pais esclarecidos, que quando não têm suas reivindicações atendidas tentam procurar outras instâncias, como a Diretoria de Ensino. Mas estes são minoria. A maior parte acaba aceitando a autoridade da Escola/Estado como indiscutível. E mesmo aqueles que furam esse bloqueio, esse sistema, muitas vezes agem individualmente. Isso facilita para que o Estado ignore, passe por cima dessas questões.

Por que a escola pública é tão ruim? Não só a sua, mas a educação pública no geral. E, no seu caso, estamos falando da cidade e do estado mais rico do país…
Ciríaco – A escola pública não é ruim, ela está ruim. Pensando somente no Estado de São Paulo é uma questão que merece uma atenção muito profunda, tendo em vista que temos no governo, há 17 anos, o mesmo partido político. Ou seja, houve tempo suficiente para ter sido realizada uma grande transformação na educação pública estadual. Mas o problema já parte daí: nunca houve, e isso afirmo com total convicção, uma política de Estado, uma política pública deste atual partido para a educação. O que houve, sempre, foram políticas de “mandato”, pensadas de quatro em quatro anos. Muitas vezes mal planejadas e que historicamente não contaram com a participação de profissionais da educação que convivem com a realidade do dia a dia das escolas. Esse é um dos principais problemas.

Apesar de ser o mesmo partido, a cada mandato, a cada governo, muda-se o Secretário de Educação e juntamente com ele todas as diretrizes, a linha adotada. Quer dizer, cada um procura fazer à sua maneira. Não existe um projeto a médio e longo prazo que reflita sobre a educação. Além disso, não se pode falar em educação sem falar em valorização dos profissionais envolvidos, investimento e, principalmente, planejamento, organização e fiscalização desses investimentos. Aliás, este último é tão ou mais importante do que os outros. Muitas vezes eu me questiono se não há dinheiro suficiente para a educação ou se o dinheiro não chega: vai para o ralo ou para o bolso de algumas pessoas.

“Eu aprendi que todo estudante é possível. Que talvez não seja possível mudar o mundo, mas é possível mudar a minha escola”

Apesar de todas as dificuldades, você realiza projetos literários e artísticos, dentro e fora de sua escola, que só existem por sua própria iniciativa. Conte um pouco sobre eles…
Ciríaco – Neste ano estou trabalhando com alunos das sétimas e oitavas séries (oitavo e nono ano) do ensino fundamental II. Tenho uma carga de 21 horas/aula por semana, que me paga em torno de R$ 1.400 bruto por mês. Trabalho de terça a sexta, no período da manhã. Às quartas e sextas, das 13h às 16h, desenvolvo uma oficina de literatura e fotografia, junto com uma amiga, Mônica Cardim, no SESC Santo André. Deixei a segunda-feira em aberto para dedicar-me apenas à preparação das aulas, correção de provas, trabalhos, enfim, atividades não remuneradas pelo Estado, mas necessárias ao ofício da educação. Trabalho entre seis e oito horas na segunda-feira, desenvolvendo essas atividades.

O projeto “Literatura (é) Possível” existe há cinco anos. Veio de um desejo de compartilhar a paixão pelos livros, pela literatura, com os meus alunos. A idéia é muito simples: aproximar jovens e adolescentes da literatura de uma maneira lúdica, prazerosa, divertida e crítica. A maneira que encontrei de fazer isso foi realizando saraus mensais, dentro da sala de aula, em que convidava escritores para irem até a escola desenvolverem uma atividade, um bate-papo com os alunos. Afinal de contas, a minha paixão pela literatura veio principalmente desse contato mais próximo com os poetas e escritores, principalmente os da Literatura Periférica. Em cinco anos de projeto, fiz mais de 12 encontros literários, levando até a minha unidade escolar nomes como Sérgio Vaz, Sacolinha, Alessandro Buzo, Marcelino Freire, Akins Kinte, Elizandra Souza, Allan da Rosa, Carlos Galdino, entre outros.

O projeto sempre foi desenvolvido com recursos próprios. Nos saraus muitas vezes levava meus livros. Nos Encontros Literários sempre fiz questão de dar uma colaboração mínima – quase simbólica – aos meus convidados, tirando dinheiro do meu bolso. Em 2009, para ampliar o alcance do projeto, comecei a desenvolver uma oficina de teatro, junto com a de literatura. E deu muito certo. Consegui formar um grupo, um coletivo, chamado de “Os Mesquiteiros”, que está há dois anos comigo. Trabalhamos aos sábados, na escola, das 10h às 14h30. Já realizamos a apresentação de dois espetáculos lítero-teatrais – adaptação de contos e poemas para os palcos – em 2009 e 2010.

Em 2010, por conta da dificuldade de continuar bancando o projeto sem apoio ou financiamento, o inscrevi no Programa VAI da prefeitura e fomos contemplados. Com os recursos, conseguimos remunerar o meu trabalho e o de três alunas – R$ 420 para mim, por 40 horas mensais, e R$ 200 para casa uma delas, por 20 horas mensais. Além disso, compramos equipamentos, materiais cênicos e pedagógicos, produzimos um fanzine, a oficina de literatura e teatro e saraus mensais, agora abertos à comunidade do Jardim Verônia, no Ermelino Matarazzo, realizados dentro da escola todo último sábado de cada mês. O único, dos vários saraus realizados em São Paulo, que é feito regularmente dentro de uma escola. Neste mês de maio vamos completar um ano de sarau e fomos novamente contemplados pelo Programa VAI. Com exceção de mim, todos os integrantes que organizam o Sarau são jovens e adolescentes da escola e da comunidade. Eu sou praticamente o único adulto entre a rapa toda.

O que você aprendeu sendo professor de escola pública?
Ciríaco – Eu aprendi que todos aqueles estudantes que ali estão são capazes. São possíveis. Eu aprendi que talvez eu não consiga mudar o mundo. Mas que é possível mudar a minha escola. E que em primeiro lugar, eu preciso sempre mudar a mim mesmo. Procurar melhorar. Eu aprendi também que apenas a escola não é capaz de promover a transformação da sociedade, principalmente se não houver ações políticas que encarem de frente problemas como a desigualdade social, a má distribuição de renda de nosso país. Considerar que apenas a educação é a salvação de todos os problemas é simplificar uma questão que é muito mais complexa. E colocar uma pressão, uma responsabilidade sobre a escola pública que ela não pode atender, não pode cumprir.

Eu aprendi que são poucas as pessoas que realmente valorizam o papel do professor. Há uma admiração romântica sobre o “professor de escola pública”: “Nossa, parabéns, sei que é muito difícil o trabalho. Parabéns, você é guerreiro”. Mas há um trabalho muito pouco eficaz, tanto por parte da sociedade quanto por parte do governo que demonstre, na prática, o reconhecimento e o valor que este professor tem.

Por que você continua sendo professor?
Ciríaco – Porque eu gosto do que faço. Eu faço por mim, principalmente. Porque eu gosto de estar com essa molecada. Compartilhar seus sonhos, angústias, medos. Dividir os meus também. Acreditar neles. Porque quando eu acredito neles, eles acreditam em mim também. E simplesmente porque deixar de ser professor significaria abandoná-los. E, para mim, é muito difícil pensar nisso. Porque eu sei o que é esse abandono. Eu sei o que é você gritar e não ter quem o escute, ou pior: ter pessoas ouvindo e ignorando o que você diz. Eu conheço a dor da indiferença, do esquecimento. E eu sei que é algo muito doloroso, difícil de conviver, de superar.

Qual é a sua experiência com o abandono, com a falta de escuta e o desamparo? Esta que o leva a não abandonar seus alunos.
Ciríaco – Já passei muitas dificuldades por conta da escola. Muitas vezes, quando tinha alguns problemas relacionados principalmente à dificuldade de aprendizagem dos alunos, não conseguia ir para casa e simplesmente desligar. Apertar o botãozinho do “off” e esquecer. Eu lido com pessoas, eu lido diariamente com vidas, não funciona assim. Então, ficava digerindo aquele assunto no meu estômago e na minha cabeça por horas e horas, apesar de estar esgotado. Chegava a ficar pregado, de madrugada, com os olhos abertos, sem conseguir dormir. Até duas, três da manhã, tendo de acordar logo em seguida e voltar à escola.

Já tive vários problemas físicos por questões emocionais relacionadas à escola, aqueles que são chamados de psicossomáticos: dores de estômago, dores nos ombros, dores na nuca e de cabeça. Em muitas situações, tive abalos emocionais diante de situações em que eu não conseguia visualizar soluções, não via nenhuma luz no túnel. O que acontecia eram crises de angústia, de desespero, principalmente em tardes de domingo, quando pensava que na segunda-feira tinha de trabalhar. E eu queria ir trabalhar, eu precisava ir trabalhar, mas simplesmente não conseguia, por não saber o que fazer. Como agir. Por não ter para onde e para quem correr.

Nestes momentos, eu ficava trancado, dentro do quarto, angustiado. Não conseguia simplesmente me levantar e ir. Já aconteceu várias vezes de eu fazer um esforço, às vezes sobre-humano e sair de casa, ir em direção à escola e, quando estava quase chegando à porta, passar batido. Ir embora. Não entrar. Outras vezes coloquei em dúvida a minha capacidade intelectual, profissional e pedagógica. Faltei, não fui à escola por considerar que não era um bom profissional, que talvez fosse melhor outro assumir minhas aulas, ele faria melhor do que eu.

E ainda em outros momentos a indignação, a revolta era tamanha que eu simplesmente não ia por pensar em abandoná-la. Por entrar em crise sobre se era aquilo mesmo que eu queria continuar a fazer. Tive uma destas crises recentemente. No dia 29 de março, o Estado divulgou os “premiados” com o Bônus. E eu fui um dos milhares de professores que não recebeu nada, nenhum incentivo. Nem mesmo um obrigado. Pelo contrário. Fui, de certa maneira, “punido” pelo fato de que a minha escola estava em uma situação tão gritante na Avaliação.

Acontece que a política de “Bônus” é uma falácia, ela quer premiar os “avanços” conseguidos na educação, mas não valoriza individualmente o trabalho, o empenho do professor. Ela estimula um sentimento quase de competição entre a rede, estilo “vamos ver quem é melhor”, e tira do foco as questões urgentes e gritantes envolvidas no tema Educação. Sem contar que há muitos casos de fraudes nas provas, manipulação, divulgados na mídia. E foi muito revoltante ver profissionais que trabalham na mesma escola que eu, que dão aulas para turmas semelhantes, ganhar valores que vão a duas, quase três vezes o seu salário. E eu nada. Tendo o mesmo empenho – ou ainda maior – que o de muitos colegas. É como você trabalhar numa empresa, realizar a mesma função que todos, mas, no final do ano, a chefia “parabeniza” apenas alguns pelos resultados. Não questiono o mérito desses profissionais que ganharam o Bônus. Mas me sinto no mesmo direito de ter uma remuneração justa e digna pelo trabalho que faço.

Diante disso, não consegui trabalhar no dia seguinte, 30 de março, nem em 1º de abril. Simplesmente fiquei em casa, estudando, organizando projetos pessoais, indignado e humilhado. Refletindo sobre como deveria me posicionar diante disso. Faltei, prejudiquei meus alunos e terei estes dias descontados na folha de pagamento. Mas ok, eu precisava fazer isso, este “ato de protesto”. Ainda que quase mudo, pateta e ridículo.

Hoje em dia faço acompanhamento terapêutico, para tentar lidar um pouco melhor com essas questões. É complicado, primeiro porque é caro: o valor da hora terapêutica é mais de dez vezes o valor que ganho por hora-aula. E segundo, porque não há terapia que resolva a sua cabeça se você quer transformar a situação escolar em que você vive, mas não encontra caminhos, soluções viáveis para isso.

Uma coisa que me ajudou muito a lidar com essas questões no início da carreira foi a produção do meu livro, Te pego lá fora (Edições Toró). É um livro muito duro, expõe a escola através de uma visão crua, nua. Não há muito espaço para romantismo no livro, na visão sobre a escola. Mas ele é resultado de um processo violento que vivo lá dentro. A idéia do livro era um pouco a de chocar as pessoas. Até porque eu sou colocado diariamente em choque com essa violência: de não ver as coisas caminharem, de não ver os caminhos brilharem. De não encontrar alternativas. Faz tempo que a escola deixou de ser o lugar dos sonhos, da esperança, do futuro. Hoje ela é o lugar muitas vezes do abandono. Um verdadeiro depósito de gente. Uma terra de ninguém.

“Como a menina-placa, muitos adolescentes das periferias abandonam a escola por não verem perspectiva atrativa no futuro”

Lembro de um texto que você publicou no seu livro sobre uma “menina-placa”. Me impressionou muito. Você poderia contar esta história? O que ela diz sobre o nosso tema?
Ciríaco – A história da menina-placa foi inspirada em uma aluna que deixou a escola para trabalhar – como placa. Ela tinha por volta de 13 anos, estava na sexta-série, tinha muitas dificuldades de aprendizagem, era indisciplinada, mas eu conseguia dialogar, estabelecer uma boa relação com ela. Até que um dia ela sumiu da escola. Ninguém mais sabia dela.

Cerca de um mês depois, quando eu estava na escola, a vi andando pelas redondezas durante o período da noite. Parei, fui até ela para conversar. A menina disse que havia conseguido o emprego, estava trabalhando como “placa” – estas garotas que divulgam condomínios de luxo segurando placas por horas e horas na rua – e que não dava mais para estudar. Tentei problematizar a questão, falar sobre os problemas de abandonar a escola, mas ela disse que a escolha já estava feita. Era aquilo.

Acho que esta história tem a ver com o nosso tema para refletirmos que a escola, apesar de ser extremamente importante para as transformações, as mudanças que a nossa sociedade precisa, não será a única a fazer isso se agir sozinha. É preciso atacar o problema em várias frentes, principalmente no que se refere à questão da distribuição da renda, de garantir possibilidades mínimas e dignas para as pessoas viverem, poderem estudar e por aí vai. Porque ainda é muito recorrente, nas periferias, meninos e meninas adolescentes que abandonam a escola ou fazem apenas uma parte dela porque têm de trabalhar para ajudar em casa, cuidar dos irmãos. E a situação é ainda pior quando muitos alunos deixam a escola para entrar na vida do crime, são cooptados pelo tráfico de drogas. E isso acontece por não verem nenhuma perspectiva atrativa distante, no futuro, e por verem a possibilidade de ganho real imediato.

Infelizmente, depois de cinco anos em que estou na escola, conheço muitos casos de alunos que abandonaram os estudos e foram para o mundão: estão aí, nas ruas, nas esquinas, portas das escolas e biqueiras, fazendo o comércio ilegal, ganhando mais do que seus pais e responsáveis, mas colocando em risco algo muito precioso: o seu futuro. A história da menina-placa foi uma das histórias deste tipo. Há muitas outras. Em sua maioria sem finais felizes.

(Publicado na Revista Época em 11/04/2011)

A guria dos 7

Sobre o desamparo de ser criança e viver na rua

23.973 crianças vivendo nas ruas de 75 cidades brasileiras com mais de 300 mil habitantes. Os números foram divulgados na semana passada pelo jornalista Bruno Paes Manso, do jornal Estadão, e são resultado de um censo nacional encomendado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH) e pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável (Idesp). Pelo menos 63% destes meninos e meninas chegaram às ruas por causa de brigas em casa. A pesquisa mostra que 72,8% se identificam como pardos ou morenos e negros, e 71,8% são do sexo masculino. Apenas 6,7% concluíram o ensino fundamental. O censo deverá ser usado para a construção de uma política nacional.

Eu lembro, porque trabalhava como repórter nessa área, de que no final dos anos 90 havia 192 meninos de rua na capital gaúcha. Cento e noventa e dois. E ninguém soube o que fazer com eles. E se multiplicaram. Lembro, antes disso, de quando fui cobrir uma coletiva na prefeitura de Porto Alegre numa manhã de 1993 e encontrei no caminho garotos saindo dos bueiros do centro da cidade. Eram 12 e dormiam nos esgotos. A reportagem publicada no jornal Zero Hora repercutiu dentro e fora do país, e a foto ganhou o Prêmio Esso naquele ano. A prefeitura mandou fechar os bueiros e pouco mais. Lembro de quando já vivia em São Paulo e o repórter Carlos Etchichury, de ZH, investigou o paradeiro destes meninos dez anos depois. Ao localizar nove deles, descobriu que quatro estavam mortos.

Como repórteres nós mostramos, apontamos, denunciamos. É a nossa parte. E às vezes – muitas vezes – nada acontece. Fico contente que tenha sido feito um censo nacional de meninos e meninas de rua para que se possa enfrentar o problema com o necessário conhecimento da realidade. Mas me pergunto: por que só depois de 20 anos da criação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o tempo de uma geração de rua morrer antes de se tornar adulta? E por que só agora, após oito anos de Lula e outros oito anos de FHC, talvez seja debatida e construída uma política pública integrada para dar conta dessa realidade?

Mesmo sem censo, há muito basta andar pelas grandes cidades – e também pelas pequenas e médias – para desconfiar que estivesse na ordem dos milhares o número de crianças de rua. Por que nunca se tornou uma questão urgente de fato para qualquer governo, em todas as instâncias? E por que boa parte de nós acha suficiente fechar o vidro do carro e colocar insulfilm para não ser alcançado pelo olhar destas crianças?

Até hoje não vi essa tragédia ser tratada com a seriedade e a urgência necessárias em nenhum nível de governo, por nenhum partido. Existiram alguns programas e políticas nas últimas décadas, a partir do trabalho e da pressão da sociedade organizada, mas estiveram longe de se tornarem centrais e suficientes. Espero que, desta vez, as ações – muito mais do que as boas intenções – provem que o enfrentamento do problema é prioridade.

Porque, quando se é uma criança na rua, o tempo é escasso. A violência espreita do minuto seguinte. O número encontrado pelo censo só não é maior porque nas ruas meninos e meninas morrem com facilidade assombrosa. Os enredos de suas vidas interrompidas são contados no jornal Boca de Rua e Boquinha, de Porto Alegre, da ONG ALICE, feito por jovens e crianças sem teto da capital gaúcha. Há dez anos o jornal é um testemunho deste drama: muitos dos que registraram sua vida ali hoje estão mortos. E aquele que hoje denuncia o assassinato de um colega teme virar notícia amanhã.

Quero aqui contar uma história pessoal, que me ajudou a compreender o desamparo que é ser criança e viver na rua, exposta ao mundo. Acredito que é preciso fazer o exercício de vestir a pele do outro para alcançar o significado da tragédia que só é nossa na medida em que é do outro – e que é nossa exatamente porque é do outro. Depois de adulta, eu faço esse exercício por decisão racional, como já escrevi aqui em textos anteriores. E o faço com o cuidado de não perder pedaços vitais no caminho. Mas na história que vou contar eu não tive essa escolha. Fui enfiada na pele do outro à força.

Ijuí, a cidade gaúcha onde eu nasci e vivi até os 17 anos, não está na lista do censo nacional das crianças de rua. Tem hoje menos de 80 mil habitantes, mais do que na minha infância. Naquele domingo de 1975 fazia sol, eu lembro bem. Pedi à minha mãe para ir ao cinema na matinê. Naquele tempo, havia dois cinemas em Ijuí. Um passava pornochanchadas e bangue-bangue (a relação até hoje me parece das mais interessantes), e o outro exibia os filmes, digamos, de família. Para crianças, a única possibilidade eram as matinês de sábado e domingo. Eu adorava cinema, mas meus pais e irmãos já tinham outros planos. Não era comum uma menina ir sozinha ao cinema, mas também não era impossível. Eu tinha nove anos.

A sessão acabou às 16h, e eu voltei para casa. Algo como quatro quarteirões. Toquei a campainha muitas e muitas vezes. Nada. Meus pais imaginaram que eu compreenderia que tinham precisado sair e iria à casa da minha tia, a duas quadras de distância. Na minha cabeça a coisa se passava diferente: era óbvio que em algum momento alguém abriria a porta e me resgataria da rua. Então esperei.

Ainda hoje sou capaz de me ver com exatidão, aos nove anos, enfiada no meu melhor vestido, azul com flores coloridas bordadas no peito e saia de preguinhas. A rua da minha casa era comercial, e a nossa era praticamente a única casa. Ao lado havia uma construção e em frente um terreno baldio. Aos domingos, as ruas da cidade eram desertas. Eu os vi chegando e pensei em correr, mas já não dava tempo. Acho que nem conseguiria porque me sentia algemada ao chão. Eram três crianças de rua. Dois meninos e uma menina de pele morena numa cidade de colonização europeia. E me cercaram.

Estou lá agora. Há um menino menor, de uns 7 ou 8 anos, e um maior, de uns 11 ou 12. A menina parece ter a minha idade. Os três me apontam seringas com agulhas certamente recolhidas do lixo das farmácias. Dizem muitas coisas. Que vão me furar, que vão me machucar. Que se me derem uma injeção eu vou morrer. Que devo dar a eles tudo o que tenho. E o que tenho são 7 cruzeiros amassados na minha carteira, o troco do cinema.

Eu dou. Mas eles não vão embora. Eles querem mais. Continuam me aterrorizando e dizendo que querem tudo o que tenho. Eu olho para a menina do meu tamanho que me aponta sua arma. Ela não tem um vestido. Ela só tem a parte de baixo de um vestido, algo que naquela época se chamava de anágua. Branca e velha e meio transparente. Eu posso sentir a sexualidade precoce dela. E sinto que o que eles querem de mim é algo que vai me matar de outro jeito. E por sorte alguém passa na esquina, do outro lado da avenida, e eles fogem.

Fiquei ali, paralisada por um momento. E depois, sim, corri até a casa da minha tia. E cheguei lá coberta de manchas vermelhas por todo o corpo. Uma reação emocional que teria pelo resto da minha vida, até hoje. Daquele domingo em diante, eu me tornei “a guria dos 7”. Eles me esperavam na porta do colégio e me perseguiam pelas ruas gritando meu novo título.

Contei à minha família sobre o assalto com seringas, até porque cheguei à casa da minha tia em estado de choque, mas não contei que era perseguida depois. Na minha infância não se falava em trauma. Nós éramos mais ou menos consolados, e a vida seguia sem muito espaço para dramas. Fazia parte do processo educativo aprender a resolver os próprios problemas desde cedo. Me virei como pude. Depois de algumas semanas de terror, minhas colegas de escola me ajudaram a enfrentá-los, e os três pararam de me esperar na porta do colégio.

Mas Ijuí era uma cidade pequena. E só muito mais tarde compreendi que havia criado uma relação de espelho com a menina de rua. Nós acompanhávamos a vida uma da outra sem jamais termos nos falado novamente. Apenas nos cruzando pelas esquinas do centro. E nos olhando de longe. Foi ao testemunhar seu destino ano após ano – e compará-lo ao meu – que compreendi o que é desigualdade. A mais abjeta delas, a de origem. Compreendi que ela tinha me tirado 7 reais e a inocência, mas que a nossa queda de braço ela já tinha perdido ao nascer.

Em nossa relação silenciosa e secreta, no início eu sentia por ela um ódio intestino. A menina encarnava a minha humilhação, os meus piores temores e a causa dos desmaios que passei a ter a cada vez que via uma agulha e dos quais só consegui me livrar depois de adulta. Mas sempre que nos cruzávamos ela estava pior. E seu olhar agora não era mais desafiador nem jocoso, mas envergonhado e acuado. Eu crescia protegida – e ela era mastigada pela rua.

A última vez que a vi nós tínhamos uns 15 anos. Eu usava uma trança e levava alguma coisa para a minha avó, que morava perto da praça. Era início da noite de um dia de semana. Ela estava lá numa esquina, menos vestida do que no dia em que nos conhecemos, e um homem ria e passava a mão no seu peito. Eu olhei para ela, e ela baixou os olhos.

Nunca mais nos vimos. Eu não sei o seu nome, e é grande a probabilidade de que ela esteja morta. Mulheres de classe média como eu tentam aprender a envelhecer. Mulheres como ela tentam não morrer antes dos 20. Pode ser que hoje ela só viva em mim – e a memória é a única vida que eu posso lhe dar.

Conto esta história aqui porque compreendi algo que posso compartilhar. Naquele momento, aos nove anos, aqueles meninos de rua me colocaram, à força, na pele deles. Naqueles minutos eternos em que me ameaçaram de morte com seringas e agulhas, eu vivi exatamente o desamparo não de um, mas de todos os seus dias. Na rua, diante de uma casa onde eu não podia entrar, sem uma família que me protegesse. Para mim, era apenas um instante. Para eles era a vida inteira.

Naquele domingo de 1975, a menina desnudada em uma anágua, ainda que com uma seringa na mão, era eu. Ela me enfiou na marra no seu lugar. E, de certo modo, parte de mim nunca mais deixou a sua pele. E eu vi, nós duas vimos, o que aconteceu comigo. E o que aconteceu com ela. A diferença de nossos destinos se desenrolando num enredo mudo nas ruas da cidade pequena.

Se você chegou até aqui, talvez tenha uma ideia mais próxima do que sente cada uma destas quase 24 mil crianças que neste exato momento estão nas ruas, expostas à violência do mundo apenas com suas peles e as armas que eventualmente conseguem. E que, no final, de nada servem. Porque já foram derrotadas muito antes. Estas crianças não têm o tempo das reuniões, da política e das boas intenções para esperar. Os dentes do mundo estão sobre seus corpos. E acredite. Não há nada pior – nada – do que ser criança e viver (e morrer) no desamparo.

(Publicado na Revista Época em 28/02/2011)

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