O desafio da reportagem é recuperar o olhar do espanto, diz Eliane Brum

Fabio Pontes | 16/10/2017 às 11:16
Amazônia Real

“Bons repórteres são bons escutadores da realidade. O mais difícil é justamente aprender a escutar com todos os sentidos”, a frase é da jornalista, escritora e documentarista Eliane Brum ao falar sobre o jornalismo e a importância da escuta na reportagem durante eventos que participou, no último dia 6, em comemoração aos quatro anos de fundação da agência de jornalismo independente Amazônia Real, em Manaus.

A jornalista proferiu a palestra “Escuta e Transgressão: a reportagem como documento da história em movimento”, no mini-auditório da Escola Superior de Artes e Turismo (Esat), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Também lançou a segunda edição do livro “O Olho da Rua”, na Banca do Largo São Sebastião, no entorno do Teatro Amazonas.

“Eu tenho muito medo de jornalistas que acreditam pairar acima da realidade, capaz de uma total isenção porque essa ilusão da imparcialidade total faz com que não tome as precauções necessárias, não tome as precauções sobre si mesmo para que possa chegar o mais perto da verdade, já que não existe uma verdade só e nunca conseguimos alcançar totalmente as verdades múltiplas”, afirmou Eliane.

Para ela, o papel do jornalista no exercício da função não é o de “apaziguar o leitor, mas o de incomodá-lo”. “O desafio da reportagem é recuperar o olhar do espanto”, disse.

Manaus, AM 06/20/2017 - Palestra da jornalista,documentaris e escritora Eliane Brum no miniauditório da Escola Superior de Artes e Turis mo (ESAT) da Universidade do Estado do Amazonas UEA, promovida pela Agência de Jornalismo Independente Amazônia Real pelos seus 4 ano e criada pelas jornalistas Kátia Brasil e Elaíze Farias. A professora Dra Lucia ne Páscoa, coordenadora do Programa de Pós Graduação em Letras e Artes (PPGLA-UEA) falou na abertura do evento. (Foto Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Fotos: Alberto César Araújo/Amazônia Real

No livro “O Olho da Rua”, reeditado e ampliado pela editora Arquipélago, Eliane publica dez grandes reportagens feitas na primeira década do século 21. Para cada uma delas há um texto que revela a história dentro da história, ao narrar os bastidores a partir dos dilemas, das descobertas e também das dores a que se lança uma repórter disposta a se interrogar sobre sua própria jornada.

Mediada pela jornalista Elaíze Farias, cofundadora da Amazônia Real, a palestra “Escuta e Transgressão: a reportagem como documento da história em movimento” de Eliane Brum contou com a presença da coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Letras e Artes (PPGLA), professora Luciane Páscoa, e de um público de cerca de 60 pessoas, entre coordenadores de cursos de jornalismo, jornalistas, estudantes e convidados da agência.

Com quase 30 anos de profissão, a gaúcha Eliane Brum foi repórter do jornal “Zero Hora”, de Porto Alegre (RS), e repórter especial da revista “Época”, em São Paulo. Atualmente assina uma coluna quinzenal no “El País”, que é publicada em português e em espanhol.

Escrever sobre a Amazônia e desde a Amazônia, tirando da invisibilidade as suas populações e diversidade. Assim definiu a jornalista Eliane Brum sobre o trabalho desenvolvido pela agência de jornalismo independente e investigativo Amazônia Real. “A Amazônia Real desenvolve um trabalho fascinante de tirar as Amazônias do invisível”, disse.

Na palestra, Eliane Brum falou sobre a tendência de parte da imprensa de buscar no sensacionalismo policial, que busca sempre qualificar os personagens num lugar-comum, de fortalecer a “desumanização” de ambas as partes: vítimas e criminosos.

“As pessoas não são um substantivo: monstro, bandidos, vítima, etc. As pessoas são pessoas e o jornalismo precisa combater a desumanização para não falsificar a vida. Qualquer desumanização, especialmente as mais difíceis.”

Na análise de Eliane Brum, desfazer essas formas de jornalismo só será possível com o aperfeiçoamento da capacidade de se escutar as fontes – e o escutar no sentido mais amplo da palavra.

“Sem o instrumento da escuta, sem despir-se de si, não seria possível escutar um pedófilo de criança, por exemplo. E a gente precisa escutar, não para absolver ou condenar porque jornalista não é juiz, embora alguns pensem que são”, disse.

Manaus, AM 06/20/2017 - Palestra da jornalista,documentaris e escritora Eliane Brum no miniauditório da Escola Superior de Artes e Turis mo (ESAT) da Universidade do Estado do Amazonas UEA, promovida pela Agência de Jornalismo Independente Amazônia Real pelos seus 4 ano e criada pelas jornalistas Kátia Brasil e Elaíze Farias. A professora Dra Lucia ne Páscoa, coordenadora do Programa de Pós Graduação em Letras e Artes (PPGLA-UEA) falou na abertura do evento. (Foto Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Eliane Brum diz que sem essa escuta feita com todos os sentidos o jornalista não terá a capacidade de produzir uma boa reportagem. Sem aprender a escutar, diz ela, o jornalista pode ter um dia ou três meses para fazer uma reportagem, que não fará diferença. Pode atravessar o mundo literalmente, mas simbolicamente não saiu do lugar, porque vai apenas levar seus conceitos e preconceitos para passear de avião.

“Há uma dificuldade tremenda em escutar. Todo mundo quer falar, mas ninguém quer escutar.”

Além de jornalista e escritora, Eliane Brum codirigiu quatro documentários, entre eles, “Laerte-se” (Netflix, 2017). Desde o final dos anos 1990, ela faz reportagens em diferentes regiões da Amazônia. Há 13 anos, acompanha populações ribeirinhas na região da bacia do Xingu, no Pará. Em 2011, passou a acompanhar pessoas e comunidades atingidas pela hidrelétrica de Belo Monte.

Eliane Brum acompanhou de perto o drama de centenas de famílias ribeirinhas que foram expulsas de suas casas por causa da inundação da barragem da usina. A essas pessoas ela deu o nome de “refugiados dentro de seu próprio país”.

“Eles foram reduzidos do território do próprio corpo. Tudo o que diz respeito à memória deles virou água, virou liquido.”

Os dramas vividos por essas pessoas estão entre as histórias incluídas no documentário independente “Eu +1: uma jornada de saúde mental na Amazônia”, dirigido por Eliane Brum, e financiado pela internet como parte do Projeto Clínica de Cuidado/Refugiados de Belo Monte.

Manaus, AM 06/20/2017 - Palestra da jornalista,documentaris e escritora Eliane Brum no miniauditório da Escola Superior de Artes e Turis mo (ESAT) da Universidade do Estado do Amazonas UEA, promovida pela Agência de Jornalismo Independente Amazônia Real pelos seus 4 ano e criada pelas jornalistas Kátia Brasil e Elaíze Farias. A professora Dra Lucia ne Páscoa, coordenadora do Programa de Pós Graduação em Letras e Artes (PPGLA-UEA) falou na abertura do evento. (Foto Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Manaus, AM 06/20/2017 - Palestra da jornalista,documentaris e escritora Eliane Brum no miniauditório da Escola Superior de Artes e Turis mo (ESAT) da Universidade do Estado do Amazonas UEA, promovida pela Agência de Jornalismo Independente Amazônia Real pelos seus 4 ano e criada pelas jornalistas Kátia Brasil e Elaíze Farias. A professora Dra Lucia ne Páscoa, coordenadora do Programa de Pós Graduação em Letras e Artes (PPGLA-UEA) falou na abertura do evento. (Foto Alberto César Araújo/Amazônia Real)

 

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‘O centro do Brasil é a Amazônia’, afirma a jornalista Eliane Brum

entrevista acritica

Rosiel Mendonça
rosiel@acritica.com
A Crítica
05/10/2017 às 20:15 – Atualizado em 06/10/2017 às 00:10

Escritora gaúcha lança em Manaus a nova edição do livro “O olho da rua”, com dez grandes reportagens

A escuta é a principal ferramenta usada por Eliane Brum em suas reportagens. “Em geral bato na porta das pessoas e, sempre que possível, não faço a primeira pergunta”, costuma dizer a jornalista e documentarista gaúcha. O resultado desse exercício pode ser conferido no livro “O olho da rua: uma repórter em busca da literatura da vida real”, que ela lança na Banca do Largo São Sebastião nesta sexta-feira, a partir das 18h.

capa olho ruaReeditada pela Arquipélago e ampliada pela autora, a obra reúne dez grandes reportagens feitas ao longo da primeira década deste século, em diferentes lugares do Brasil. A vinda da jornalista para Manaus e a noite de autógrafos são uma iniciativa da agência Amazônia Real, que completa quatro anos de dedicação ao jornalismo independente e investigativo na região.

Este é, aliás, um lugar caro a Eliane, que escreve sobre a Amazônia desde os anos 90. “Desde então, sempre achei difícil falar da Amazônia no singular. Me parece que são muitas as Amazônias, cada uma com a sua singularidade, todas extraordinárias”, comenta. “Nos últimos anos ficou claro que é preciso deslocar o lugar do centro no Brasil. O centro não é Rio-São Paulo-Brasília. O centro é a Amazônia. Por várias razões e porque em tempos de mudança climática causada por ação humana, a floresta se tornou ainda mais estratégica para a própria sobrevivência da nossa espécie e de todas as espécies vivas. E, ainda assim, segue tão ameaçada. Não é preciso ser um especialista para imaginar o que acontecerá com o planeta sem a floresta”.

Apesar de ter feito reportagens em todos os estados da Amazônia Legal, ela admite que conhece apenas uma porção da região, e espera fazer com que seus leitores também descubram sua realidade, sua gente e suas contradições. “Hoje, a floresta é defendida, quase na solidão, pelos mais frágeis: povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e pequenos camponeses. E muitos deles têm sido assassinados por defenderem a floresta. E essa é uma luta que deveria engajar a todos. É por isso que eu sempre volto. Para contar essas histórias de luta e de resistência de uns poucos pela vida de todos”.

Reflexões e posfácio

A nova edição de “O olho da rua” chega quase uma década depois do lançamento da primeira. De lá para cá, com o distanciamento que o tempo permite, Eliane Brum ampliou a sua visão sobre as reportagens publicadas. “Para cada uma delas, faço uma reflexão profunda sobre como foi fazer aquela reportagem: dificuldades, dilemas, descobertas, dores… Acho importante compartilhar os bastidores, o caminho pelo qual se chegou até aquela reportagem e refletir sobre minhas escolhas”, afirma.

Segundo ela, foi nesse ponto que o livro ganhou novas linhas. “Acrescentei algumas reflexões que se tornaram mais claras para mim nos últimos anos, porque tento me manter sempre desacomodada e aprendendo. E há também um posfácio inédito, em que conto os dois grandes impasses recentes que tive com a reportagem e com a palavra escrita e que me marcaram profundamente”.

Três perguntas para Eliane Brum

eliane entrevistaA grande reportagem é o que mantém o viço do jornalismo em tempos um tanto confusos para a profissão?

Ao mesmo tempo que são tempos duros para o jornalismo, que vive sua própria crise dentro da crise maior do país, acredito que o jornalismo nunca foi tão necessário. E espero que a sociedade perceba isso enquanto ainda é tempo. Mas cada vez que uma matéria de jornal se parece com um post no Facebook, o jornalismo desce um degrau a mais rumo à irrelevância. Por isso é tão importante fortalecer o jornalismo independente. Acredito que não há democracia forte sem imprensa forte.

Tenho me dedicado a grandes reportagens nestes últimos quase 20 anos e acho que elas são fundamentais, porque para contar algumas histórias é necessário tempo e dedicação exclusiva. Investigar com responsabilidade é um trabalho árduo e demorado. Não há jornal de fato grande, com relevância, se não investir em grandes reportagens. Mas também acredito muito na reportagem do dia a dia, que fiz por mais de dez anos e considero importantíssima, porque é ela que documenta a história cotidiana. E acho que é possível contar grandes histórias no jornalismo diário, desde que o repórter esteja disposto a olhar para ver e a escutar o que a realidade conta. Algumas das que considero minhas melhores reportagens foram feitas no jornalismo diário.

Hoje, o que também me angustia é que, com a crise da imprensa, tantas histórias estejam deixando de ser contadas, seja em grandes reportagens, seja nas pequenas grandes histórias do cotidiano. E, assim, várias porções de Brasis jamais serão contadas, estão perdidas para sempre. E isso impacta os destino do país e empobrece a vida de todos. Parte do papel da imprensa é produzir memória sobre a história do hoje, a história em movimento. E, infelizmente, por tantas razões, há hoje uma grande produção de desmemória. É fundamental resistir aos apagamentos e cada jornalista tem um papel intransferível neste desafio.

Você diz que o audiovisual é uma forma de escrever com imagens. Tem outro projeto em vista depois de “Laerte-se” [documentário sobre a cartunista Laerte]?

Acabamos de lançar um documentário muito singelo, que está disponível no YouTube, chamado: “Eu+1: uma jornada de saúde mental na Amazônia”. Numa das minhas viagens à região impactada pela hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, no Pará, hoje minha principal área de atuação na Amazônia, escutei um ribeirinho chamado João Pereira da Silva, que havia sido expulso da sua ilha e teve sua casa incendiada pela Norte Energia, a empresa concessionária de Belo Monte. Ao saber que perdia tudo e que não tinha mais forças para reconstruir o que perdera, suas pernas travaram, e ele perdeu a fala no escritório da empresa. Depois se descobriria que ele teve um AVC. Quando conseguiu recuperar a voz e parte do movimento das pernas, ele decidiu se matar em sacrifício na ilha queimada. Mas foi impedido pela família. Perguntei a ele o porquê da decisão de se sacrificar. E ele disse: “Quero que o mundo saiba que Belo Monte me matou”. Quando o escutei, percebi que para ele e para tantos era preciso de uma outra escuta, diferente da escuta jornalística, porque essas pessoas estavam completamente traumatizadas e não conseguiriam reinventar a vida e mesmo seguir lutando por justiça sem tratamento.

Voltei para São Paulo e fui bater em várias portas de psicanalistas que admirava e de entidades psicanalíticas. E se iniciou um grupo, coordenado por Ilana Katz e Christian Dunker, psicanalistas ligados à Universidade de São Paulo (USP), e por mim. Através de uma vaquinha na internet, por meio da plataforma Catarse, conseguimos realizar três viagens e dois cursos de preparação para levar 14 profissionais de saúde mental voluntários para Altamira, em janeiro deste ano. Eles ficaram lá por duas semanas e realizaram 171 sessões com ribeirinhos expulsos em situação de sofrimento profundo. Disso resultará também um documento sobre o sofrimento da população ribeirinha atingida que ficará disponível na internet. O documentário “Eu+1” registra essa experiência a partir da percepção da equipe, para que quem sabe ela inspire outros projetos e outras reflexões.

Que outras histórias gostaria de contar?

Eu sempre tenho muitos projetos. E um dos mais queridos é um documentário sobre uma das histórias de amor mais bonitas que vi na vida. Não amor romântico, mas amor que transcende as definições. Mas ainda vou demorar para realizar esse projeto, porque preciso me afastar e ficar em paz para realizá-lo. E não me parece que teremos paz tão cedo neste País.

Escuta sensível

Encontros da Revista E/Sesc São Paulo
Postado em 30/05/2017 

Nem jornalista, nem escritora ou documentarista; Eliane Brum define-se mesmo como uma “escutadora”. As histórias que conta carregam uma escolha política: têm como foco aqueles que não costumam ser protagonistas, como indígenas, moradores de rua e sem-teto. Colunista do jornal El País desde 2013, Eliane já trabalhou também no jornal Zero Hora e na revista Época. Desde 2004, acompanha histórias de pessoas atingidas pela construção da hidrelétrica de Belo Monte, na região do Xingu, na Amazônia. Entre seus livros de não ficção, estão A Vida que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, 2006), O Olho da Rua (Globo, 2008) e Meus Desacontecimentos (Leya Casa da Palavra, 2014). Além disso, codirigiu os documentários Uma História Severina (2005), Gretchen Filme Estrada (2010) e Laerte-se (2017). A seguir, trechos do depoimento da jornalista, no qual ela fala sobre jornalismo e a sensibilidade por trás de um trabalho de reportagem.

 

 

 

Escolhas

A minha escolha mais profunda, que está em toda a minha expressão, é o compromisso com aqueles que estão à margem da narrativa, porque acho que não existe nada mais brutal do que não ser contado na história. Foi isso que sempre me moveu.

Hoje, em que é possível medir a audiência, vejo que o que escrevo sobre Belo Monte tem menos audiência do que o que outras coisas que escrevo, assim como temas sobre moradores de rua, sem-teto, indígenas. Esse, para mim, é o motivo de escrever mais e não menos. Essa é uma escolha política que não se baseia na audiência.

Pacto de confiança

Antes de sair de casa, sempre me faço uma pergunta: se eu estivesse no lugar dessa outra pessoa, abriria a porta para uma repórter? Se a minha resposta for não, eu não saio de casa, e se alguém me diz que não quer falar comigo, eu não insisto, porque acho que ninguém é obrigado a falar com ninguém.

Quando alguém abre a porta da casa para te contar uma história, tem ali um pacto muito profundo. Não posso trair essa pessoa. Um entrevistado meu jamais ouviu que algo saiu de um jeito porque o editor mexeu e não pude fazer nada. A responsabilidade é minha, porque esse pacto é comigo e eu é que vou lutar pela voz dessa pessoa para levar aos leitores uma reportagem que contemple a complexidade da realidade.

Há um pacto de confiança nesse tipo de reportagem, é muito grande alguém se contar para o outro, e por isso tenho que ter esse respeito pela palavra do outro. Pela palavra exata, não pelo sinônimo, e por essa escuta, que é o grande instrumento da reportagem.
Por exemplo, acompanhei os últimos 115 dias de uma mulher que morreu de um câncer incurável, e durante esse tempo falei com ela praticamente todos os dias. Em nenhum momento ela pronunciou a palavra câncer. Se eu tivesse perguntado como ela lidava com o câncer, não saberia disso e não entenderia o que foi para ela viver a morte.

Entrevistas

Às vezes me perguntam como arranco as coisas das pessoas, mas não arranco nada. Para mim, arrancar é o contrário do que um repórter deve fazer. As pessoas me contam ou não me contam. Para o tipo de reportagens que faço, em geral bato na porta das pessoas e, sempre que possível, não faço a primeira pergunta.

Acho que a primeira pergunta fala mais de mim do que das pessoas, fala mais do que quero saber, e talvez não do que elas iriam me contar. A primeira pergunta é também uma forma de controle, e ser repórter é perder o controle em um certo momento, para poder alcançar o outro. Então, sempre que posso, eu digo apenas “me conta”, e é muito surpreendente por onde as pessoas começam a contar uma história.

Desabitar-se

Sempre descrevo a reportagem como se desabitar para ser habitado pelo outro. É um movimento de se despir de si, de seus preconceitos, da sua visão de mundo, do seu julgamento, para alcançar o mundo do outro e o mundo que é o outro, para depois empreender o caminho de volta, o que não é nada fácil. Você não volta dessa experiência impunemente, é profundo. Sempre que volto de uma reportagem, não consigo falar sobre isso, só consigo falar depois que ela vira palavra fora de mim, que é outro processo.

O que assegura que vou ser habitada pelo outro, o que é sempre uma busca e jamais por completo, é a escuta que se faz com todos os sentidos. Eu me apresento como uma escutadora, acho que é o que melhor me define como repórter. É uma escuta do dito, do não dito, do silêncio, da hesitação, dos quadros na parede, dos móveis, das texturas, das cores, dos sons, que não são palavras. É uma escuta ampla. Interfiro muito pouco nas minhas entrevistas, gravo e vou anotando tudo o que vai acontecendo no ambiente, de modo que eu consiga reconstituir aquilo que vivi e que escutei. Não conheço instrumento melhor para alcançar o outro ou para chegar o mais perto possível do que a escuta.

 

 

“Só tem credibilidade quem investiga, checa e se importa com a precisão”

eliane em zh abre

Por RODRIGO LOPES/Zero Hora – “Sou uma escutadeira que escreve. Repórter desde 1988, documentarista desde 2005, ficcionista desde 2011.” Assim, em eterna mutação, quase sempre em transição, Eliane Brum se define, em seu site desacontecimentos.com. Uma das mais premiadas jornalistas do país, natural de Ijuí, ela trabalhou 11 anos como repórter de ZH e 10 na revista Época. Desde 2010, atua como freelancer. Tem se dedicado muito à internet, com textos para os jornais El País e The Guardian sobre temas polêmicos. Para debater sobre o futuro – e o presente – do jornalismo, Eliane, 49 anos, é a primeira convidada de 2016 do evento Em Pauta ZH – Debates sobre Jornalismo. O encontro será na próxima quarta-feira, às 19h30min, para convidados. Nesta semana, a jornalista concedeu a seguinte entrevista por e-mail.

A crise política e econômica do país coincide com a preocupação sobre como financiar e manter o jornalismo. Veículos tradicionais estão em xeque, e a imprensa alternativa ganha a confiança momentânea das pessoas, mas não mantém atenção a longo prazo. Como você analisa o jornalismo atual e o futuro?

O jornalismo vive uma crise do modelo de negócios há vários anos, desde que a internet mudou o mundo e também a forma como as pessoas têm acesso, produzem e se relacionam com a informação. Nas manifestações de junho de 2013, ficou claro que, no Brasil, essa crise da imprensa era também uma crise de credibilidade. Parte da população, em especial os mais jovens, não se sentia representada pelos políticos e partidos tradicionais, mas também não se sentia representada pela mídia tradicional. Iniciativas como Mídia Ninja foram decisivas para que a população tivesse acesso a outras narrativas sobre os protestos, feitas a partir das ruas, já que, em certos momentos, parte dos jornalistas da imprensa tradicional só conseguiu cobrir as manifestações de helicóptero ou do alto dos prédios. A crise política é um momento crucial para o Brasil – e também para a imprensa. Essa dupla crise vivida pela imprensa, a do modelo de negócios e a da credibilidade, ganhou contornos mais visíveis neste momento histórico. A imprensa tem um papel fundamental numa democracia. E a imprensa brasileira, em especial o impresso, que sempre foi relacionado a uma narrativa de maior profundidade, está muito frágil. As redações estão muito menores, com suas equipes reduzidas. As demissões, em geral, atingiram os jornalistas mais experientes, que seriam imprescindíveis neste momento, porque entendem sua responsabilidade, assim como as armadilhas que precisam evitar cair num momento tão delicado, com tantas pressões e cascas de banana pelo caminho. São também estes que seriam mais capazes de fazer a resistência internamente, já que toda redação é um campo de conflitos. Essas ausências e essa fragilidade se fazem sentir claramente neste momento em que o tempo no Brasil está acelerado. Dias atrás, escrevi um artigo para o jornal britânico The Guardian e explicava que, no Brasil, uma pessoa assistia à posse do Lula como ministro, ia ao banheiro e, ao voltar, a nomeação já tinha sido cassada por um juiz de primeira instância. Como fazer bom jornalismo diante desta velocidade? Cabe à imprensa contextualizar, com responsabilidade e sem histeria, o que está acontecendo. Cabe, especialmente, fazer reportagem, seu grande diferencial como narradora da história em movimento. Há pouca reportagem de fato na cobertura da crise e da Operação Lava-Jato. Há mais o que autores como o jornalista Solano Nascimento chamam de “jornalismo sobre investigações”, muito diferente de “jornalismo de investigação”. A imprensa se baseia no que é vazado pela Polícia Federal, pelo Ministério Público Federal e pelo juiz Sergio Moro. E não em suas próprias investigações, com raras e honrosas exceções. Esse lugar de mera reprodutora do que convém para investigadores vazar ou divulgar, às vezes sem checagem ou crítica, é perigoso: a imprensa fica vulnerável a manipulações. E o leitor corre risco de ser mal informado, com graves consequências para a sociedade. Ao mesmo tempo, com os sites dos jornais precisando ser abastecidos, há muita pressa. E é difícil fazer bom jornalismo com pressa. Assim, também podemos testemunhar alguns jornais e noticiários de TV “comprando”, ou mesmo aderindo a versões, e apresentando-as como verdade. E, pior do que isso, apresentando-as como a verdade inteira. Acho que setores da imprensa brasileira terão que dar muitas explicações para a História sobre o seu papel na atual crise. Ou a imprensa se mostra à altura do momento ou será cobrada por isso no futuro. Junta-se a isso uma crise de credibilidade que só cresce entre parcelas da população e temos um momento muito delicado para o jornalismo. A crise política atual mostra também o quanto é frágil uma democracia sem uma imprensa forte e responsável, consciente do seu papel histórico de documentar a sua época com honestidade.

Como conciliar a produção frenética de informações em tempo real com a necessidade de imersão em reportagens de qualidade?

Para te responder, preciso contextualizar um pouco. Durante o século 20, a imprensa foi a narradora hegemônica do seu tempo. A partir da internet, a imprensa deixou de ter essa posição confortável. A imprensa, desde especialmente a segunda década deste século 21, só será uma narradora importante sobre o seu tempo, sobre o que chamo de história em movimento, se souber valorizar a reportagem, o grande diferencial do jornalismo sobre outras narrativas. Ainda se faz grande reportagem no Brasil. Muito menos do que seria necessário, mas ainda existe. Tanto na imprensa que agora é chamada de “tradicional” como na “alternativa”. O que me parece que sofreu mais com a crise do modelo de negócios é a cobertura cotidiana. Esta é a tragédia maior da imprensa, e, portanto, da sociedade. A cobertura cotidiana é cada vez mais precária, rasa e fragmentada. Vivemos um momento histórico difícil, duro, mas também fascinante. Mas os Brasis, porque não existe um Brasil só, não estão sendo contados cotidianamente pela imprensa. Há enormes porções descobertas, narrativas que nunca serão escritas, capítulos inteiros perdidos. Acho isso doloroso. Uma catástrofe literalmente silenciosa. Para ficar mais claro, podemos pensar num exemplo. Nenhum veículo cobriu cotidianamente a usina hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, a maior obra do setor elétrico do país. Mais de R$ 30 bilhões em jogo, a maior parte deles vinda do BNDES, e nenhum veículo, grande ou pequeno, cobriu cotidianamente a construção, com suas vastas implicações e violações de direitos. Na ditadura militar, com toda a censura que existia, se cobria melhor a Amazônia do que hoje, na democracia. A hidrelétrica de Tucuruí teve cobertura cotidiana. Belo Monte, não. Houve algumas grandes reportagens, mas não houve cotidiano. E essa ausência da imprensa teve consequências gravíssimas que só agora começam a se tornar mais claras. No que se refere à questão da velocidade, é importante dizer que não cabe à imprensa ocupar o lugar das redes sociais. Cada vez que uma matéria se parece mais com um post no Facebook, o jornalismo despenca mais um degrau rumo à irrelevância. Se não há reportagem, para que imprensa? Meu vizinho faz ótimos posts no Facebook, mas o que ele faz não é jornalismo. O problema é parte da imprensa fazer posts como o meu vizinho e apresentar isso como reportagem. Acho que é um grande erro sacrificar pilares do jornalismo como a investigação, a precisão e a checagem rigorosa para ganhar alguns minutos de vantagem. Que vitória é essa se o que fica é justamente mais e mais irrelevância, que vai custar a história? Como leitora, não leio o mais rápido, eu leio o que tem credibilidade. E só tem credibilidade aquele que sabemos que investiga, checa e se importa com a precisão. Isso vale para a matéria cotidiana, vale para a grande reportagem. Se não se obedece aos critérios do que é jornalismo, é simples: não é jornalismo. Então, não me parece que seja questão apenas da aceleração do tempo, trazida pela internet. O problema é bem maior. É triste que alguns veículos tradicionais estejam enterrando a sua história para competir com posts de redes sociais. A única competição que vale a pena para o jornalismo é a que se dá em torno da qualidade, da profundidade e da credibilidade do conteúdo.

Como financiar o jornalismo sem comprometer algo crucial para a credibilidade da reportagem: a independência e a transparência?

Esta é uma resposta que ainda precisa ser construída. O bom jornalismo custa caro. Reportagem custa caro. É preciso, às vezes, ficar semanas num arquivo, sem nenhum glamour, engolindo pó, para encontrar uma primeira pista para uma investigação. E, às vezes, essas semanas não dão em nada. Assim como é preciso pagar gente experiente que seja capaz de entender para onde olhar, assim como entender o que vê. Repórteres mais velhos, que possam formar a geração seguinte. Essa geração, a que formava a geração seguinte, foi deletada das redações porque custava mais caro. É preciso trazê-la de volta. Há no Brasil vários modelos convivendo, mas ainda não encontramos um modelo que garanta a independência e a total transparência. A maior parte das novas iniciativas tem modelos colaborativos e não lucrativos, como por exemplo A Pública e a Repórter Brasil, agências de reportagem que têm feito um trabalho competente. Nestes casos, as grandes reportagens são financiadas por fundações internacionais. Há também experiências pontuais com crowdfunding (financiamento coletivo via doações do público na internet). Mas esses modelos também têm limites. Acho que a melhor maneira, a mais transparente, a que realmente garantiria independência, seria o financiamento pelo público. Seria preciso formar um leitor que considere importante ter uma imprensa competente e que se disponha a pagar por informação de qualidade e de profundidade. Faço parte dos jornalistas que sonham que a reportagem possa ser paga com um clique. Literalmente um clique, não pode ser mais complicado do que isso. E que esse clique pague o salário do repórter e os custos da próxima reportagem. Por exemplo: uma reportagem ou artigo ou entrevista que tenha 30 mil acessos, o que é totalmente viável, a R$ 1 por acesso. Mas isso ainda precisa ser construído junto com a sociedade, com este novo leitor. O que posso afirmar é que, nesta construção, é preciso resgatar algo fundamental que, em grande parte, se perdeu: a separação Estado-Igreja – ou editorial-comercial. A imprensa precisa ser “laica”. O editorial não pode estar contaminado pelo financiamento. Hoje, em grande parte dos casos, está. Já é bem complicado que esteja contaminado. Tudo fica pior ainda porque nem sempre isso é contado ao leitor. Quando o editorial está contaminado pelo financiamento, a reportagem já fica sob suspeição desde o início. Seja qual for a saída, é preciso que ela garanta a separação Estado-Igreja.

Você publicou seis livros – cinco de não ficção e um romance – e também escreveu crônicas e contos. Como se dá essa transição do jornalismo, que lida com fatos reais, para a ficção?

Costumo descrever a reportagem como um movimento profundo. E bem difícil de fazer, que cobra um preço alto de quem a ela se arrisca. Como se sabe, a reportagem se faz na rua, com os pés enfiados na lama dos acontecimentos. Antes de ir para a rua concreta, porém, é preciso atravessar a rua de si mesmo. É preciso fazer esse movimento profundo que consiste em se desabitar de si para ser habitado pelo mundo do outro – ou pelo mundo que é o outro. Desabitar-se de si no sentido de se despir das suas visões de mundo, de seus preconceitos, de seus julgamentos, de uma determinada forma de ser e de estar no mundo, para se deixar habitar por uma outra experiência. E, depois, empreender o caminho de volta, o que não é nada fácil. Se um repórter não faz este movimento, em vez de escrever sobre um outro escreverá apenas sobre si mesmo. É claro que esse movimento jamais é completo, mas é o que nos leva mais perto da complexidade dessa outra experiência, das tantas verdades, porque nunca há uma só verdade, e também das tantas contradições e nuances. Se um repórter não atravessa a rua de si mesmo, pode ir até o outro lado do mundo e passar um ano lá, que vai voltar escrevendo sobre o que já sabia antes de partir, porque de fato não partiu nem retornou, mas sim permaneceu simbolicamente no mesmo lugar. Já o movimento da ficção é semelhante, mas com o sentido inverso. Na ficção é preciso ter a ousadia de se deixar possuir pelos outros que vivem nas nossas profundezas abissais. Ou, dito de outro modo, se deixar possuir pelos outros de si. Costumo dizer que a ficção é feita no mesmo lugar em que vivem aqueles peixes cegos, fantasmagóricos, que a gente vê nos documentários da National Geographic. Gosto muito de ficção de terror e também de ficção científica. Escrevendo meu romance descobri duas coisas: a primeira é que não há nada mais aterrorizante do que ser possuído por si mesmo. A segunda é que há realidades que só a ficção suporta. Ou há realidades que precisam ser inventadas para serem contadas.

O que dá mais satisfação: reportagem ou ficção?

A reportagem. Não me importo com a felicidade. A felicidade, para mim, diz respeito ao mundo do consumo. Me interesso pela alegria, essa experiência complexa, rara, que diz respeito também à resistência. É quando faço reportagem que tenho alegria. Mesmo quando o que experimento e testemunho é devastador, sinto que estou onde deveria estar. Escutar as pessoas, coisa que um repórter faz com todos os sentidos, me dá profunda alegria. É na rua que eu me sinto em casa.

Em um de seus textos mais recentes, você escreveu que considera a polarização ¿mais uma falsificação entre tantas neste momento conturbado do país¿. Por outro lado, assistimos a discussões inflamadas, com pessoas destilando ódio. Como as vozes mais ponderadas podem ser ouvidas em meio a posições tão extremadas?

Como ser ouvido, não sei. Mas acredito que é preciso seguir dizendo. E é preciso seguir dizendo sem gritar. Quem grita não ouve nem quer ouvir. Gritar como forma de se mover no mundo é um ato extremamente autoritário, porque silencia a voz do outro. E, silenciando a voz do outro, mata-se o outro simbolicamente. O espaço público precisa voltar a ser o espaço da alteridade. Precisamos conviver com os diferentes e com as diferenças. Precisamos voltar a nos interessar por ouvir. Precisamos voltar a conversar. Nesse texto que você cita, escrevo que, diante da brutal descrença nos políticos e nos partidos, podemos perceber algo paradoxal: uma vontade feroz de crença. Isso é bem perigoso. Na política, mesmo os crentes precisam ser ateus. Precisamos nos mover na política pela razão, não pela fé. Mover-se pela razão implica escutar e duvidar, do que nos é dado rapidamente a ver e também de nossas certezas. Implica responsabilizar-se pelas próprias escolhas. No caso da imprensa, é preciso voltar a perguntar, voltar a fazer muitas perguntas, e resistir à tentação das conclusões rápidas demais, peremptórias demais. A adesão pela fé, na esfera da política, só nos traz messianismos, tenha o messias a cara que tiver. É mais fácil cultuar um messias, seja ele quem for. Mas somos nós que precisamos achar um jeito de construir um país, o que dá muito mais trabalho. E não vamos conseguir fazer isso gritando. Nem nos colocando como a encarnação do bem – e os que pensam diferente como a encarnação do mal. Precisamos refletir mais sobre um traço da cultura brasileira, um traço que atravessa a nossa história. Somos um país de linchadores. Em vez de justiça, vingança. É fundamental que, neste momento histórico tão delicado, lutemos por justiça e repudiemos a vingança. Do contrário, nada de realmente profundo mudará no Brasil.

Os movimentos feministas têm alcançado maior visibilidade, com campanhas como #meuprimeiroassedio e “Vai ter shortinho sim!”. Mas também crescem as reações conservadoras: o Congresso aprovou projeto que impõe mais restrições ao aborto. Como avalia esse cenário?

Temos vivido tempos extremamente duros. A política que me anima é esta, a de campanhas como #meuprimeiroassedio, assim como movimentos dos estudantes das escolas públicas de São Paulo. Porque isso também é política, é gente fazendo política e ocupando o espaço público politicamente. São um alento, uma prova de que algo se move em meio a esta aparente paralisia. Ao mesmo tempo, temos o Congresso mais conservador desde a redemocratização. E também um Congresso extremamente corrupto. Para este Congresso, em especial para a chamada Bancada BBB (Boi, Bala e Bíblia), o corpo das mulheres é moeda de chantagem. Milhares de brasileiras, a maioria delas jovens e negras, morrem todos os anos por abortos malfeitos e clandestinos, porque não há interesse em discutir seriamente a descriminalização. Não há interesse porque é preciso manter o aborto como moeda eleitoral e de barganhas. Na prática, como qualquer um que não seja hipócrita sabe, o aborto é liberado no Brasil para quem pode pagar. Só é crime para as mais pobres. E também por isso, porque “só” mata as mais pobres, a maioria delas negras, é possível manter o aborto como moeda de chantagem. Insisto nisso, porque o aborto é também uma questão de classe e de raça no Brasil. Diz respeito à desigualdade e ao racismo, duas de nossas fraturas maiores. Por isso, precisamos ser muito gratos a essas mulheres mais jovens que estão levando a luta pela autonomia sobre os seus corpos, sobre suas vidas adiante. Elas devolvem a beleza da política que está sendo reduzida e enxovalhada neste Congresso que chantageia com a vida das mulheres.

PARA LER

Primeiro dos seis livros de Eliane, O Avesso da Lenda, refez, 70 anos depois, os 25 mil quilômetros da Coluna Prestes: “Considero minha reportagem fundadora. Foi quando descobri não o Brasil, mas os Brasis”. No seguinte, reuniu textos da série A Vida que Ninguém Vê: “É nela que consigo me definir e me assumir como uma repórter de desacontecimentos”. O Olho da Rua mostra bastidores de suas reportagens, e Uma Duas, seu romance, é uma trama de ódio e afeto entre mãe e filha. A Menina Quebrada traz crônicas e artigos, e meus desacontecimentos revisita suas memórias de infância. Sua reportagem mais premiada é O Povo do Meio, fundamental para a criação da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, no Pará: “Fui a primeira jornalista a chegar até lá num momento em que eles estavam ameaçados de morte pelos grileiros e não eram reconhecidos pelo país oficial”.

PARA VER

Eliane é codiretora e corroteirista de dois documentários. Uma História Severina (2005) acompanha a luta de Severina, uma pernambucana pobre e analfabeta, para interromper a gestação de seu bebê anencéfalo. Gretchen Filme Estrada (2010) narra a última turnê e a primeira campanha política da rainha do rebolado, que, em 2008, candidatou-se à prefeita da Ilha de Itamaracá (PE) pela coligação PPS-PV.

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