Brasil, (des)gobernado por Twitter

Bolsonaro já mostrou que fará qualquer coisa para manter sua popularidade ativa e, assim, permanecer no poder. Poderia ser uma contradição. Afinal, se a situação do Brasil não melhorar, não há popularidade que se sustente. Bolsonaro, porém, faz parte de um fenômeno mais amplo: as escolhas são determinadas pela fé, não pela razão. É o mesmo mecanismo que faz com que as pessoas acreditem, em 2019, que a Terra é plana, que o mundo está ameaçado pelo “comunismo” e que, como garante o chanceler de Bolsonaro, o aquecimento global é um complô de esquerda.

As eleições e o cotidiano têm sido determinados por uma interpretação religiosa da realidade. A adesão pela fé é um fenômeno mais amplo e não necessariamente ligado a um credo, já que há muitos ateus que se comportam como crentes. Na época em que a verdade passou a ser uma escolha pessoal, porém, como fazer a democracia valer?

Foto: Andressa Anholete/Getty Images (Reprodução do El País Madri)

Jair Bolsonaro (Foto: Andressa Anholete/Getty Images /Reprodução do El País Madri)

Al tomar decisiones basándose en los gritos en las redes sociales, Jair Bolsonaro corrompe la democracia

Leia na minha coluna no El País de Madri (em espanhol)

Leia na minha coluna no El País (em português)

Os “malucos” sapateiam no palco

Nas últimas décadas existiu um consenso de que, diante dos absurdos que eram ditos nas redes e em outros espaços, a melhor estratégia era não responder. Contestar pessoas claramente mal intencionadas e intelectualmente desonestas, em sua busca furiosa por fama, seria legitimá-las como interlocutor, dando crédito ao que diziam. E, assim, servir de escada para que ganhassem mais visibilidade. A frase popular que expressa essa ideia é: “Não bata palmas para maluco dançar”. A eleição de Donald Trump, de outros populistas de extrema-direita e agora de Jair Bolsonaro revelou que este foi um equívoco que vai custar muito caro.

O que se deixou de perceber é que, com a internet, os “malucos” já tinham um palco nas redes sociais e no YouTube, assim como a capacidade de multiplicá-lo sem serem perturbados no WhatsApp. As falsas teorias que inventavam eram lidas como se fossem sérias e confiáveis. Os palcos haviam mudado de lugar e os “malucos” dançaram sem serem confrontados com fatos nem incomodados por ideias. As palmas só aumentavam de volume enquanto os ilustrados torciam o nariz ou esboçavam sorrisos de superior ironia.

Os “malucos” não só dançaram, como sapatearam. Em seguida, passaram a afirmar seus pensamentos como “verdades” – e verdades únicas. O próximo passo foi conquistar o poder. Hoje os “malucos” não só ocupam os palcos mais centrais como têm o poder atômico de explodir o mundo, como Trump, ou acabar com a Amazônia, como Bolsonaro.

Bolsonaro ao lado do futuro chanceler Ernesto Araújo (Fot: Joédson Alves/ Reprodução do El País)

Bolsonaro ao lado do futuro chanceler Ernesto Araújo (Foto: Joédson Alves/ Reprodução do El País)

Os “malucos” sapateiam no palco

Aqueles que não eram levados a sério hoje têm poder atômico e também o de destruir a Amazônia

Leia na minha coluna no El País

Aos indecisos, aos que se anulam, aos que preferem não

Quando o que está em jogo é a própria democracia, votar em branco, anular o voto ou não votar está fora do campo das possibilidades. Votar em branco, anular o voto ou deixar de votar não é posição neste momento, mas omissão. E omissão é um tipo de ação. Neste momento, o pior tipo de ação possível.

(Minha carta àqueles que ainda são capazes de escutar para além do ódio que interdita as palavras)

Fernando Haddad, candidato à Presidência. Foto: ANDRE PENNER/AP (Reprodução do El País)

Fernando Haddad, candidato à Presidência. Foto: ANDRE PENNER/AP (Reprodução do El País)

O maior delírio vivido hoje no Brasil é o da “normalidade”

Leia no El País

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