Qual é a sua história?

A forma como você conta a sua vida muda a própria vida

Eu sempre me senti como Cheherazade, a moça esperta das mil e uma noites. Não porque sou esperta, mas porque de algum modo sempre soube que contar histórias me salvava de perder não a cabeça, como era o caso de Cheherazade, mas de perder a mim mesma. Quando era muito pequena e ainda não sabia ler, imaginava histórias para escapar do medo do escuro. Contava para mim mesma na minha cama de bebê crescido. Quando entrei na escola, imaginava enredos que me carregavam para além das crueldades infantis que me aterrorizavam tanto ou mais que os monstros noturnos. Quando cresci virei jornalista e passei a contar histórias reais para poder viver. Sempre soube que contar histórias me salvava da versão adulta do medo do escuro. Agora, que sou gente grande, contar histórias ordena o caos da vida, me dá sentido e identidade.

Ao tornar-me uma narradora de vidas fui aprendendo algo determinante para o curso da minha existência. Toda vida é uma invenção própria. Não que ela não seja feita de fatos, de dados concretos, de eventos incontroláveis. O que é absolutamente uma criação própria é a forma como cada um olha para a sua vida.

De fato, há uma só existência. Mas são várias as possibilidades de narrativas desta mesma existência. Um mesmo episódio, por exemplo, vivido por você e por sua mãe, será contado de maneira às vezes totalmente diversa por você e por ela. E ninguém estará mentindo. Da mesma forma, o mesmo fato vivido por você poderá ser narrado de formas opostas por você mesmo, em momentos diferentes da sua vida. E você estará sendo verdadeiro em ambas as ocasiões.

Isso não significa distorcer o que acontece ou aconteceu. Apenas que há muitas possibilidades de olhar para o que acontece ou aconteceu. Há muitas verdades possíveis. E é a escolha de como olhar para os eventos (ou a falta deles) de sua vida que vai determinar a própria vida. Ou seja: ao escolher como olhar para sua vida você escolhe quem você é.

Quando olho para trás, para os 43 anos transcorridos da minha vida, posso vê-la como um filme de terror. Durante muito tempo era assim que eu via a sequência de episódios que me constituía. E vivia envenenada por isso. Aos poucos, eu mesma fui enjoando dessa narrativa. Cansei do papel de mulher atormentada que havia sido destroçada pelos moinhos de Cartola. Resumindo: eu me via como uma heroína de romance clássico. Comecei a perceber que era heroína de folhetim de banca de revista. E não gostei muito da queda de hierarquia na literatura mundial.

Hoje, olho para a mesmíssima sequência encadeada de episódios como uma vida com alguns pesadelos e tropeços, mas com muita diversão e intensidade também. Uma vida, enfim, misturada, com um pouco de tudo como são as vidas, e que me trouxe até aqui e ainda me levará a muitos lugares. E até olho para aquela personagem grandiloquente que eu era com ternura.

O que aconteceu? Descobri que o poder de contar minha história está em mim. É meu. Sou eu que decido quais são os pontos culminantes, os ápices da minha existência, ao olhar para o passado e escolher o que vai dar sentido ao presente e somar no futuro. Da mesma forma que um roteirista de cinema sabe que é preciso mesclar silêncios, drama, diálogos inteligentes, conversas banais, respiro cômico e também esquecimentos. E são os cortes no momento da edição que vão garantir o ritmo do filme.

Hoje não tenho a menor paciência com gente de 40 anos – ou mesmo de 20 ou 30 – que continua culpando a mãe, o pai ou as agruras da infância por tudo o que pensa que deveria ter conquistado e não conquistou. Ou gente que culpa o chefe ou a suposta falta de oportunidades por tudo o que deveria ser profissionalmente e não é. Sua história é medíocre por culpa do mundo, parece que a pessoa não tem nada a ver com isso. Só estava passando quando virou personagem de um conto do vigário.

Gente assim gasta a vida repetindo a mesma ladainha, contando a mesma história para si mesmo – e para os outros. É um disco quebrado. Como a vida vai mudar se o dono da história só enxerga um enredo possível? Ao observar esse tipo de personagem percebi que, na verdade, ele não quer mudar. Só diz que quer – e afirma não conseguir por fatos externos à sua vontade.

A história é chata, dá sono no meio, mas é segura. Gente assim morre de medo do desconhecido. Prefere uma existência de vítima do mundo a se arriscar a enxergar-se de outro modo. Há um momento em que é preciso se responsabilizar pela vida, por contar sua história. Ou ficar para sempre refém de versões alheias sobre a nossa existência.

Quem me ensinou que a vida pode ser reinventada a qualquer momento foram as pessoas que, nos últimos 21 anos, me contaram suas histórias. Quando escrevia uma coluna semanal chamada A Vida Que Ninguém Vê, que depois virou livro, conheci um homem que ilustra como ninguém essa ideia. Vanderlei era o seu nome. Ele era aquele tipo de gente que costumamos reduzir à personagem folclórico.

Muito pobre e um tanto estropiado, todo ano ele aparecia na Expointer, a maior feira agropecuária do Rio Grande do Sul, com um cabo de vassoura. Dizia que o cabo de vassoura era seu cavalo de raça. Passava pela inspeção veterinária, cumpria os trâmites burocráticos. E lá ficava cavalgando pelos campos da exposição. Os “normais” da feira achavam muita graça, tanta que até alimentavam-no e deixavam que dormisse por ali. Vanderlei era o louquinho da Expointer.

Um dia, na busca de gente para contar histórias, emparelhei meu cavalo com o dele. Perguntei: “Vanderlei, você é louco?”. E começamos a conversar. A certa altura ele disse: “Você acha que eu não sei que meu cavalo é um cabo de vassoura? Mas pensa, raciocina (e batia a mão fechada na cabeça). Eu nunca vou ter um cavalo de verdade. Você não acha melhor eu acreditar que o cabo de vassoura é um cavalo?”. Só me restou o silêncio. Se ele era louco, eu era o quê?

Vanderlei desejava tanto um cavalo que deu patas, crinas, carne, ossos e sangue a um cabo de vassoura. Reinventou sua vida da maneira que lhe foi possível. Com a infinita liberdade conquistada, para Vanderlei tanto fazia se era um cavalo ou um cabo de vassoura. Tornara-se capaz de entregar-se ao galope desenfreado de um pampa imaginário. Afinal, quem diz o que é um cavalo ou o que é um cabo de vassoura?

Ele é um exemplo radical de reinvenção da vida. Nem todos, porém, são capazes de enxergar com a larga liberdade de Vanderlei. Nem todos viveram todas as suas faltas. O que podemos é escolher se vamos olhar com generosidade para a nossa vida – e para a vida do outro – ou vamos gastá-la inteira nos lamuriando de nossa pouca sorte.

Na semana passada, nesta coluna, contei a história de algumas pessoas cegas que conheci – e que me ajudaram a enxergar. Uma delas era Leniro Alves, que poderia chorar com cada tropeço literal de sua existência cheia de obstáculos concretos. Leniro prefere rir de seus escorregões e gafes. Escolheu como quer olhar para sua deficiência visual. Em vez de escolher ser cego dos olhos e de alma, preferiu aprender a ver de outro jeito com as possibilidades que tinha.

Como olhar para a própria vida é uma escolha que não depende nem de escolaridade nem de classe social. Até mesmo o mendigo da esquina pode optar se prefere aceitar o olhar alheio, que o coloca no mesmo nível do cocô de cachorro achatado no meio-fio, ou se prefere virar escritor das ruas, como fez Tião Nicomedes, uma outra história que já contei aqui.

Qualquer um pode escolher como olhar para si mesmo. Todo homem e toda mulher contêm em si pelo menos dois espelhos: um deles o reflete como silhueta sem rosto definido, manchado na multidão, destituído de importância; o outro o revela único, singular, um evento histórico irrepetível. É o mesmo homem ou mulher que pode olhar apenas para o chão e se identificar com a meleca que cola nos seus sapatos ou olhar para cima e se reconhecer na matéria das estrelas.

Ambas as identificações são fatos comprovados pela ciência. Basta escolher em que espelho prefere se reconhecer. Parece-me no mínimo curioso que uma parte considerável das pessoas escolhe se identificar com a meleca. E viver de acordo.

De certo modo, temos todos a escolha de ser Cheherazade, a moça esperta das mil e uma noites, que decidiu contar histórias para manter a narrativa da sua própria. Ou podemos ser todas as moças não muito espertas que perderam a cabeça antes dela porque deixaram que o sultão decidisse o fim da sua história.

(Publicado na Revista Época em 26/10/2009)

A cega era eu

Descobri que para ler o mundo não é preciso ver

Às 15h21 de quarta-feira recebi um e-mail que não era um e-mail, mas uma passagem para uma dimensão desconhecida. Pelo menos para mim. Leniro Alves contava que tinha me ouvido em uma entrevista na CBN e, desde então, começara a ler minhas reportagens. Gostava porque lhe parecia que eu passava “muita sinceridade naquilo que escrevia”. Fiquei toda contente, como sempre fico quando alguém diz que minha escrita ecoa em sua vida. Agradeci. Leniro contou então que leu um jornal pela primeira vez aos 40 anos. Que hoje, aos 50 e poucos, só lamenta não ter podido se deliciar com as entrevistas do Pasquim quando tinha 20 e tantos. Agora, ainda que os jornais e revistas não facilitem muito, ele lê de tudo – e também essa coluna.

Leniro é cego. Ele lê graças a um programa de computador, com sintetizador de voz, criado no Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro por um Professor, assim com maiúscula, chamado Antonio Borges. Ao encontrar um aluno cego, Marcelo Pimentel, na sua sala da disciplina de computação gráfica, Antonio descobriu que precisava inventar algo que tornasse possível aos deficientes visuais ter acesso ao computador e à internet. Isso era início dos anos 90 e, naquele momento, as opções existentes eram bastante precárias. Antonio criou um programa chamado Dosvox, que permite aos cegos acessar a internet, ler e escrever, mandar e receber e-mails, participar de chats e trocar ideias como qualquer um que pode ver. Essa história está bem contada no seguinte endereço: http://intervox.nce.ufrj.br/dosvox/historico.htm. Vale muito a pena dar uma passada por lá.

Até então, cegos como Leniro viviam num universo restrito. Muito pouco era convertido ao braille. E, se um cego escrevesse em braille, seria lido apenas entre cegos. Também havia as fitas cassetes, com a gravação de livros lidos em voz alta. Mas era sempre a leitura de um outro. E continuavam sendo poucos os livros disponíveis em fitas. Jornais e revistas, em geral só podiam ser alcançados se alguém se oferecesse para ler em voz alta. A internet era inacessível. E o mundo, muito pequeno. E pouco permeável.

Eu nunca tinha parado para enxergar o mundo de Leniro. Ali, a cega era eu. Essa coluna é o começo de minha aventura pelo mundo dos que veem diferente.

Começamos a conversar por e-mail. Fiz uma pergunta atrás da outra. Fazia tempo que não me sentia tão criança ao olhar para uma realidade nova. De novo, eu estava na fase dos porquês. Só faltou perguntar de onde vinham os bebês… Acho até que importunei o Leniro com minhas perguntas seriadas.

Como é o teclado? O que você sente? É uma voz que fala com você quando eu escrevo? Leniro teve muita paciência comigo: “Eliane, minha relação com a palavra escrita é a da busca da própria intimidade. Como é bom a gente se encontrar num Machado de Assis… Não deixe de vivenciar um pouco desse mundo, que é muito mais rico do que pode parecer inicialmente. Ele é bem mais engraçado do que dramático, entende? Bem mais positivo do que a gente em princípio pensa que é. O importante não é nem a reportagem, mas o que se pode apreender do ponto de vista humano”.

Muitos anos atrás, eu ainda trabalhava no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, quando me despacharam para cobrir um eclipse do sol. Eu era uma das muitas repórteres que se espalharam pela cidade para trazer histórias do eclipse. Quando você trabalha em um jornal diário, às vezes precisa se desdobrar muito para trazer uma boa história. O que vou contar?, pensava eu, empunhando uma radiografia para proteger os olhos enquanto caminhava pelas ruas do centro da capital gaúcha. Oquei, a lua vai engolir o sol por um minuto, as pessoas vão fazer ahhhhhhhhh, e, como elas, eu vou achar lindo. Mas qual é a história?

Então eu vi uma cega. Toquei na mão dela e pedi: “Deixa eu ficar com você na hora do eclipse?”. Ela deixou. Foi tudo muito rápido. Ela nunca tinha visto o sol, nunca tinha visto a lua, nunca tinha visto as estrelas ou o céu azul. Ela nunca tinha visto a si mesma.

De mãos dadas com ela, descobri que ela enxergava tudo isso, só que de outro modo. Quando a lua cobriu totalmente o sol, ela disse: “Estou sentindo um frio diferente”. Era isso. Ela via o eclipse. E via de um jeito que eu jamais poderia.

O tempo passou e eu esqueci dessa história. Ao conhecer Leniro, essa memória voltou. Assim como a de outra reportagem em que passei 24 horas na Rua da Praia, a mais mítica de Porto Alegre. No fim da tarde, vi dois cegos conversando na esquina com suas bengalas. Parei ao lado, me identifiquei e fiquei por ali. Depois de algum tempo, acho que me esqueceram. Continuei ouvindo o que falavam. A conversa não seria surpreendente se não fossem cegos. Mas eram cegos. (O que será que eu imaginava? Que estivessem discutindo a crítica da razão pura de Kant, apenas por que eram cegos e não tinham nada de melhor para conversar?)

Pois então. Eles só falavam de mulher! A certa altura, não me contive e perguntei: “Mas como vocês enxergam essa mulherada toda?”. Eles me explicaram. E a explicação era muito boa, mas esqueci. Faz bem mais de uma década.

Agora, finalmente, graças à aparição de Leniro na minha vida, percebi que olhar para a deficiência apenas como a falta de algo, de um sentido, não é toda a verdade. Não só não é toda a verdade, como é um modo pobre de enxergar. Dentro de mim, surgiu algo novo: o reconhecimento de um mundo diverso, com possibilidades diversas. Como a de ver um eclipse como “um frio diferente”.

Não é curioso que tenha sido um cego a ampliar o meu olhar?

Foi isso que Leniro tentou me dizer ao afirmar que é um mundo rico. Ele passou o final de semana no encontro anual do Dosvox, em Fortaleza. Nele, os usuários discutem o programa e ele sai de lá aprimorado. Graças ao Dosvox, todo dia uma amiga que vê pode enviar um clipping de notícias, reportagens, artigos e colunas garimpados na internet para um grupo de cerca de 50 cegos, ex-alunos do Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro. É assim que essa coluna chega a eles. “O que era só papel mudo agora é palavra viva”, explicou essa mulher especial.

Para um cego, desbravar a internet se assemelha a uma daquelas viagens dos grandes navegadores do passado. Os sites pouco se preocupam em ser acessíveis para quem não pode ver e há monstros marinhos escondidos logo ali. Para os cegos, uma mudaça de layout é uma tempestade daquelas capazes de virar o barco. Pesquisando na internet sobre o tema, encontrei a página pessoal da educadora cega Elisabet Dias de Sá. Em um dos textos, assim ela explica a epopéia: “Guardadas as devidas proporções, navegar na web é como aventurar-se pelas ruas e avenidas da cidade guiada por uma bengala, exposta ao perigo e a toda sorte de riscos decorrentes dos obstáculos, suspensos ou ao rés do chão, espalhados pelas vias públicas”. Quem quiser ler mais, o endereço é: http://www.bancodeescola.com.

Em minha própria incursão por esse novo mundo, conheci nos últimos dias uma cega que compra livros, escaneia, corrige e envia para o grupo de amigos, para que todos possam alcançar a literatura pelo computador. Nem consegui esperar os e-mails. Tive de ligar para ela. “Quantos anos você tem?”, perguntou-me ela. “Quarenta e três”, disse eu. “Pela voz, achei que você era mais nova”, disse ela. “É essa maldita voz de criança que eu tenho”, disse eu. “Não, é suave. Agora, quando eu ler seus textos, vou lembrar da sua voz”, disse ela, generosa.

Conhecemo-nos pelas nossas vozes, numa ponte telefônica São Paulo-Rio de Janeiro. Ela explicou que, com esse programa, o Dosvox, cada um pode ler no seu ritmo. Mais lento, mais devagar. Pode parar, voltar, avançar. As letras são transformadas em voz. Há até um pequeno número de vozes, masculinas e femininas, para escolher. O computador é normal, os cegos conseguem usar o teclado porque fazem curso de datilografia. E o programa permite que leiam aquilo que escrevem. Podem até ler letra a letra, se quiserem. Tipo: escrevem “a” e o computador diz “a”. Como ela coloca em volume baixo, essa voz repetindo as letras não incomoda. Assim, ela pode corrigir eventuais erros. Os cegos leem e escrevem pela voz, acessada pelo teclado.

Ela compra livros, passa um scanner que transforma cada página de papel em página digital e aí, com o programa, corrige eventuais erros e envia para o grupo de amigos. Cada livro exige pelo menos uma semana para se tornar “um trabalho bem feito”, explica. Só tem disponíveis as horas depois do expediente no Tribunal de Justiça do Rio, onde é funcionária concursada. Ela queria muito que os editores concordassem em vender os livros digitalizados, já que todas as editoras têm as obras guardadas em um arquivo do computador. Antes de virar papel, os livros são digitais. Assim, ninguém precisaria depender da sorte de ter uma amiga bacana como ela para ler não só os últimos lançamentos, mas também toda a bibliografia que por séculos ficou exilada do mundo dos cegos.

Cega de nascença, ela nunca viu. “Não enxergo escuro ou claro. É um vazio”, explica. Essa é a experiência dela. Não existem dois cegos com a mesma vivência do mundo. Cada um encontra o seu modo de lidar com uma vida sem imagens. E como são seus sonhos?, insisti. “São sons, são sentimentos”, ela diz. Senti-me cega no mundo dela. Como é um sonho sem imagens? Ou, pelo menos, sem as imagens como eu as compreendo?

Conversamos sobre O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupery. Foi ele quem disse: “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”. Ela adora O Pequeno Príncipe, eu também. E nenhuma de nós foi miss. Percebi, porém, que o meu Pequeno Príncipe é como o da maioria. Quando alguém pronuncia “Pequeno Príncipe”, aciona uma tecla do meu cérebro que me devolve aquela imagem clássica do menino loirinho, diáfano, com seu manto verde. Mas esta é a imagem do ilustrador, não é a minha, nem a sua. Mesmo que eu quisesse, não conseguiria me livrar dessa ideia. O Pequeno Príncipe de minha nova amiga é só dela.

Como você imagina o Pequeno Príncipe?, perguntei. “Me vem aquela passagem de que somos responsáveis por quem cativamos”. Para ela vem um sentimento, algo que ecoa nela. O pôr-do-sol vermelho descrito nos romances é também algo só dela, assim como o eclipse foi “um frio diferente” para a cega com quem fiquei de mãos dadas por um minuto compartilhado das nossas vidas, em que conectamos a diferença de nossos mundos.

Acho que há vários modos de ser cego. Aqueles com quem converso nessa coluna têm uma deficiência visual – orgânica, concreta. Mas criaram outras maneiras de se conectar ao mundo, outras formas de enxergar. O mais triste é quando nosso sistema visual funciona perfeitamente, mas só enxergamos o óbvio, o que nos foi dado para ver, o que estamos condicionados a ver. Quando acordamos, a cada manhã, e as cenas da nossa vida se repetem como se assistíssemos sempre ao mesmo filme. Às vezes, choramos diante da tela não por emoção, mas pela falta dela. O filme é chato, mas sabemos o que vai acontecer em cada cena. É chato, mas é seguro. Em nome da segurança, abrimos mão de experimentar novos enredos. Tememos nos arriscar à possibilidade do diferente. Temos tanto medo que fechamos os olhos ao espanto do mundo.

Acho que ser cego é não ver o mundo do outro. Estar fechado ao que é diferente de nós. Isso vale para qualquer outro, para qualquer mundo. Nem sei dizer o quanto meu universo se ampliou ao ser vista por Leniro. A vida é sempre surpreendente quando não temos medo dela: foi preciso que os cegos me vissem para que eu os enxergasse. E, depois deles, tornei-me menos cega.

————————————————————————————————-

Para quem quiser iniciar seu próprio ensaio sobre a cegueira, sugiro começar por um texto de Leniro. Sim, por que Leniro não apenas lê no computador – ele também escreve crônicas e poesias. E escreve com muito humor. Leniro não só lê e escreve, como consegue rir da sua impossibilidade mecânica de ver com os olhos. E ser capaz de rir de si mesmo é sempre uma grande virtude. Nesse texto ele conta de sua iniciação na internet – e de seu primeiro encontro literalmente às cegas. Imperdível. Fiquei me coçando de vontade de contar essa história aqui na coluna, mas eu jamais conseguiria escrever com tanta graça. Confira:
http://www.bancodeescola.com/leniro.htm.

(Publicado na Revista Época em 19/10/2009)

“Eu sou média”

O que acontece quando você percebe que não será uma celebridade no mundo?

Uma noite dessas fui jantar com uma grande amiga. Temos aquele tipo de amizade que resiste aos desencontros da vida, à falta de tempo, às diferenças todas. Lá pela metade da garrafa de vinho, ela me disse: “Sabe, eu aceitei que sou média. E isso para mim foi uma enorme libertação”. Não lembro do que falávamos. Era isso o que ela queria me dizer, era isso o que importava. Eu abri a boca para dizer que ela não era média coisa nenhuma. Mas fechei antes de cometer essa bobagem. Tentar convencê-la de que não era “média”, ali, naquele momento, seria violar o presente que ela estava me dando. Chegar a essa conclusão havia lhe custado um naco da existência. Admiti-la para mais alguém além de si mesma era de uma enorme coragem. E era grande a confiança com que ela me honrava ao me escolher para essa confissão.

Mais tarde, mais um tanto da garrafa de vinho, seu rosto se iluminou todo, os olhos brilharam, e ela disse: “Quem olha para mim, só vê o comum em mim. Mas, Eliane, dentro de mim há um mundo rico”.

Essa conversa foi um dos momentos belos da minha vida. Já o guardei na minha caixinha invisível de memórias impalpáveis. Desde então, essa noite não me sai da cabeça. Tenho uma outra amiga que se bate cotidianamente com a ideia de que é “média”. E entende isso como um fracasso. Ela, que quis tanto quase tudo, beira os 40 sem ter conseguido. Nada que eu diga a ela a convence de que há outros modos de medir a existência. Então ela sofre. E nada do que faz está à altura de suas grandes esperanças sobre si mesma. Nunca estará. Deixou que sua vida fosse medida pelo que está sempre além, sempre fora.

Não acho que ela é a única. E acho uma pena que tanta gente sangre com isso. Pensei então em entrevistar minha amiga, a que está em paz com sua “medianidade”. Ela que, só ao se aceitar como “média”, foi capaz de descobrir a grandeza que mora dentro dela e não vai para a capa das revistas de celebridades.

Minha amiga topou. Pediu para não ser identificada porque costuma se chocar com o despudor com que as pessoas – eu incluída – se expõem na internet. Compartilha sua experiência, mas sem sair do seu cantinho. Aí está a nossa conversa para a coluna.

Eu: Você me disse que a virada da sua vida aconteceu no momento em que você aceitou que é média. Como foi isso?

Ela: Aos 35 anos, minha vida andava atrapalhada. Achei que precisava dar uma ordem naquilo tudo. Comecei a fazer terapia e a vasculhar tudo o que me chateava, avaliar o que tinha e o que ainda precisava ou queria atingir. Acho que todos, num momento da vida, fazem um balanço, e foi isso que fiz. Depois deste, já passei por outros processos semelhantes de avaliação, buscando priorizar o que vale mesmo a pena. Nesse processo, eu tentava me conhecer melhor, revirando meus sentimentos e questionando muitos dos meus conceitos e das verdades que me cercavam. Lutava muito contra mim mesma por querer corresponder a uma demanda de destaque. Não sei bem de onde vinha aquilo tudo, pois nunca fui cobrada claramente. Acho que eu me exigia esse desempenho e não aceitava o lugar-comum. Naquele período de minha vida, envolvida por essa busca de destaque, negava toda qualidade, competência ou conquista. No dia em que consegui me conciliar com minha condição de pessoa mediana, acho que me tornei uma pessoa melhor. Tirei um peso de minha vida. Não precisava mais ser celebridade, nem provar talento algum.

Eu: Mas o que é “ser média”? Média segundo o parâmetro de quem, média em quê? Você não acha que “ser média” é um embuste de uma sociedade construída sobre os valores do consumo?

Ela: Sou mediana porque levo uma vida comum, sem notabilidade, obras reconhecidas ou talentos premiados. Sou reconhecida apenas pela família e pelos amigos.

Eu: Você acha que há uma pressão para que as pessoas pensem que precisam ser excepcionais para que suas vidas valham a pena, segundo um critério determinado histórica e culturalmente como o que é excepcional?
Ela: Acho que sim. Queria que me explicassem porque as pessoas, quando não conseguem se destacar – porque nem todos serão célebres –, são tomadas pelos sentimentos de frustração e de desvalia. Quem disse que devemos nos conformar e nos adequar aos padrões estabelecidos de atuação, de beleza e de comportamento?

Eu: Por que aceitar “ser média” foi uma espécie de libertação? Você me pareceu tão bem consigo mesma, tão em paz, quando me contou isso…

Ela: Eu vivi em conflito durante muito tempo, até ter uma noção exata da minha dimensão. Para aceitar essa condição mediana, foi preciso que percebesse minhas qualidades e habilidades, assim como minhas limitações. Foi preciso me conhecer melhor para poder tirar proveito dessas habilidades e limitações. Acho que funcionou assim: não sou uma celebridade, mas também não sou uma porcaria.

Eu: Aceitar “ser média” libertou você também para descobrir outras partes não mensuráveis de si mesma? Eu achei muito lindo quando você falou que há um mundo largo dentro de você…

Ela: É difícil definir, mas penso que todas as pessoas, mesmo as comuns, têm um mundo interior muito rico e muito pouco reconhecido. Aceitando essa condição de ser médio, nos libertamos de um esforço e gasto de energia que passam a ser canalizados para outras descobertas. E estas são descobertas que podem gerar muito prazer, mesmo não sendo fruto de atos grandiosos.

Ela não disse isso. Mas eu, que a conheço há tanto tempo, testemunhei essa transformação, sem saber que era construída por essa descoberta. E por essa aceitação. Minha amiga percebeu que é uma mãe maravilhosa e se tornou uma chefe que é amada pelos subordinados, ao conseguir revelar o que cada um deles tem de melhor e único. Devagar, foram se extinguindo nela os traços de amargura e talvez por isso ela tenha uma pele quase sem rugas depois dos 50 anos, sem nunca ter usado cremes nem feito qualquer cirurgia plástica. E num domingo ensolarado descobriu que gostava de cozinhar e se transformou na senhora das especiarias. Como os acontecimentos causam mudanças em cadeia, a profunda descoberta da minha amiga colocou em mim alguns quilos aparentes.

Todos nós temos grandes expectativas sobre nossa passagem pelo mundo. E não me parece que devemos deixar de tê-las. A sabedoria consiste em compreender que é preciso medir a grandeza com nossa própria fita métrica. Se nos tornamos reféns de algo que hoje é determinante na nossa época, por exemplo, que é o reconhecimento da importância de alguém pela quantidade de aparições na mídia, estamos perdidos. Render-se a uma determinação ditada pelo mercado é tão destrutivo como passar a vida tentando agradar a um pai opressor e para sempre insatisfeito, como vejo tanta gente. Em ambos os casos, estaremos sempre aquém, sempre em falta. E, mesmo quem vive sob os holofotes, vive em pânico porque não sabe por quanto tempo conseguirá manter as luzes sobre si.

Mas de que luzes precisamos para viver? E a quem queremos agradar? Quem e o que importam de verdade? Essa reconciliação é o que nos leva de fato à vida adulta, no que ela tem de melhor. Acredito que crescemos quando conseguimos nos apropriar da medida com que avaliamos nossa existência, nosso estar no mundo. Ninguém tem de ser isso ou aquilo, ninguém “tem de” nada. Quem disse que tem? É preciso duvidar sempre das determinações externas a nós – tanto quanto das internas. Por que mesmo eu quero isso? é sempre uma boa pergunta.

Minha amiga só se transformou em uma chefe capaz de ajudar a transformar para melhor a vida de quem trabalhava com ela quando se reconciliou com suas próprias expectativas, quando descobriu em si uma grandeza que era de outra ordem. Só se tornou uma mãe capaz de libertar os filhos para viver seus próprios tropeços e acertos (e não os dela) quando se apaziguou consigo mesma. E, surpresa das surpresas, descobriu que era talentosa numa área, a cozinha, onde até então não via nenhum valor. Ao descobrir-se cozinheira, não pensou em empreender uma nova maratona, desta vez na tentativa de virar uma chef e fazer um programa de TV. Já estava sábia o suficiente para exultar de alegria ao acabar (humpft) com a boa forma de suas amigas mais queridas.

Como minha amiga e como todo mundo, eu também acalentei grandes esperanças sobre minha própria existência. Depois do fracasso da minha carreira de astronauta, desejei ser escritora. Acho que ser escritora é o que quis desde que peguei o primeiro livro na mão e consegui decifrá-lo. É claro que eu não queria apenas escrever um livro de entretenimento, um pulp fiction ou coisa parecida. Naquele tempo, pré-Tarantino, pulp fiction não era grande coisa. Eu escreveria, obviamente, a maior obra-prima da humanidade. Meu primeiro livro já nasceria um clássico. Eu reinventaria a linguagem e ditaria novos parâmetros para a literatura. Depois de mim, Proust e Joyce estariam reduzidos ao rodapé do cânone.

Não é divertido? Acreditem, eu rio muito. E até me enterneço. No meu quarto amarelo, lá em Ijuí, eu fiz o seguinte plano. Emily Brontë escreveu O Morro dos Ventos Uivantes aos 19 anos. Logo, eu deveria escrever minha masterpiece aos 17, no máximo 18. Pois não é que os 18 anos passaram e eu estava mais ocupada com fraldas e com beijos na boca? Bem, eu já não seria tão precoce assim, mas me conformei. Afinal, minha obra seria tão acachapante, tão revolucionária, que mesmo aos 20 e poucos eu seria considerada um prodígio. E os 20 passaram, assim como os 30, e lá vou eu aumentando cada vez mais os “e tantos” dos 40.

Juro para vocês: até não muito tempo atrás eu sempre tinha na manga algum escritor que tinha começado um pouco depois da idade que eu tinha no momento – e arrasado. Eu gastava meu tempo procurando essas referências. Então li em algum lugar que o argentino Ernesto Sabato escrevera seu primeiro romance, O Túnel, aos 76 anos. Essa informação me garantiu a paz por muitos anos. Pensava: se eu estiver viva até lá, já vou ter rido muito disso tudo.

Pois não é que a informação estava totalmente errada? Sabato publicou seu primeiro romance aos 37 anos. Por sorte, quando eu finalmente fui checar a informação, eu já ria muito disso tudo. E nem pensei em correr atrás de alguém que tivesse publicado seu primeiro romance aos 100 anos. Ufa. (E não é que – acabo de descobrir – Emily Brontë publicou O Morro dos Ventos Uivantes aos 29 anos – e não aos 19, como eu passei a vida inteira acreditando e suspirando? Não que faça alguma diferença… Whatever.).

Não desisti de um dia escrever um romance, não. Acho mesmo que ele está mais perto, agora que eu me absolvi de escrever a grande obra da literatura mundial. Mas foi só depois de me apropriar da medida da minha vida que me descobri estonteantemente feliz como repórter, como contadora de histórias reais. Quando finalmente escrever um romance de ficção, ele só será possível porque vivi mais de duas décadas embriagada de histórias absurdamente reais e gente de carne, osso e nervos. E só será possível porque deverá estar à altura apenas de mim mesma. Só precisarei ser fiel à minha própria voz.

Porque é esta, afinal, a grande aventura da vida. Desvelar a nossa singularidade, o extraordinário de cada um de nós – descobrir a voz que é só nossa. Mesmo que essa descoberta não se torne jamais uma capa de revista. O importante é que seja um segredo nosso, um bem precioso e sem valor monetário, que guardamos entre uma dobra e outra da alma para viver com furiosa verdade esse milagre que é a vida humana.

Redescubro agora, escrevendo para vocês, de pijama e descabelada, esparramada no sofá azul da minha sala, na manhã de domingo, entre uma cuia de chimarrão e outro: adoro escrever essa coluna! Adoro! E o mais bacana nessa relação que a gente estabelece aqui é que essa conversa continua. Esse texto continuará sendo escrito não mais por mim, mas por vocês, nos comentários que virão. Essa é a mágica da internet. O texto começa e nunca termina, numa multiplicidade de vozes que o vão transformando em novas possibilidades, segundo quem acrescenta seu verbo e seu ponto. E assim uma conversa que começou noites antes, entre duas mulheres em torno de uma garrafa de vinho e uma amizade profunda, se amplia e ganha outros significados, segundo a experiência compartilhada de cada um. E não poucas vezes sou eu que me encanto, aprendo e agradeço.

Isso é grande, médio ou pequeno? Como disse minha amiga “média”, dentro de mim mora uma vida larga.

(Publicado na Revista Época em 12/10/2009)

Gentileza gera gentileza

A mais subestimada das virtudes humanas faz muita falta no mundo

Vivo num prédio em que boa parte das pessoas não dá bom dia. Nem mesmo um grunhido. Nada. Fora o resto. Na semana passada, abrimos o porta-malas do carro para retirar as compras do supermercado, bem ao lado do elevador. Duas mulheres puxaram a porta antes que conseguíssemos alcançá-la, para não ter de dividir o elevador. Puxaram a porta, porque se ela tivesse fechado naturalmente teria dado tempo de entrarmos. Dá para acreditar? Claro que dá. Volta e meia cruzo no pátio, indo ou vindo, com gente que vai ou vem – e abaixa rapidamente a cabeça para não cruzar os olhos e, então, ser obrigada a me cumprimentar. Essas pessoas não me conhecem, nem sabem se sou bacana ou chata, logo, não é pessoal. Até o zelador, cujas atribuições incluem dar bom dia, só cumprimenta quando está de bom-humor.

Então, aconteceu.

Aquele vizinho, em especial, me irritava muito, porque ignorava solenemente meus sonoros bom-dia e boa-noite. Ele simplesmente passava por mim – e por todo mundo – numa marcha militar, olhos fixos em alguma movimentação de tropas no campo adversário. Eu voltava da minha aula de pilates, na manhã de quarta-feira, toda alongada e saltitante, quando o vi avançando em passadas largas na minha direção. “Bom dia!”, eu disse. Nada. Grilos. Cri, cri, cri.

Aquilo me irritou muito. Mas muito mesmo. Não pensei. Simplesmente me virei, marchei mais rápido do que ele, postei-me na sua frente e gritei: “Bom dia! É importante dar bom dia para as pessoas!”. Ele ficou totalmente desconcertado. E o resto eu não vi, porque marchei direto para o elevador, num passo tão marcial como o dele.

Foi uma cena totalmente absurda. Eu fui absurda. Até é possível reivindicar boa educação – embora seja cada vez mais difícil. Mas é impossível exigir gentileza. E não é nada gentil obrigar alguém a ser gentil. Eu fui o oposto de gentil gritando diante do homem que ele deveria ser gentil.

Mas o episódio serviu para que eu pensasse nessa virtude tão subestimada em nosso mundo. Gentileza parece algo menor, descartável. Em alguns casos, até meio otário. Ou fora de moda. Até para escrever essa coluna me pareceu prosaico demais. Pensei: vão achar que estou sem assunto. Então, decidi correr o risco de soar piegas.

“Gentileza gera gentileza”, o título da coluna, foi tomado emprestado dele, o próprio Gentileza. Se você não o conhece, vá atrás de sua história. Garanto, vai ganhar o dia. Eu mesma, na minha ignorância, só sabia que Gentileza havia sido um poeta das ruas que escrevia pelas pilastras do Rio de Janeiro, um pouco maluco, meio folclórico, um tanto extraordinário. E que um dia foi tema