A espetacular Copa de 2014

Nessa Copa de 2014, no Brasil, acompanhei a seleção brasileira a convite da Folha de S. Paulo. Foi minha estreia, como repórter, no futebol e na Copa. No total, foram 12 reportagens no jornal impresso, na contracapa do Caderno da Copa, e outras sete matérias menores, no site. Às vezes apenas pequenas cenas, entre a Granja Comary, em Teresópolis (RJ), e as várias cidades em que o Brasil jogou: São Paulo, Brasília (duas vezes), Fortaleza (duas vezes) e Belo Horizonte (duas vezes). Estive também na partida final, entre Argentina e Alemanha, no Maracanã, no Rio de Janeiro. Escrevi ainda dois artigos na minha coluna quinzenal de opinião no El País. Nessa trajetória vertiginosa, busquei cobrir a seleção fazendo o que acredito ser o papel de um jornalista, independentemente da área em que atua, que é produzir documento histórico sobre a sua época.

Meu desafio era contar a seleção, numa Copa no Brasil, pelas margens. Dividi meu trabalho de reportagem em duas linhas narrativas. Chamo a primeira de “brasilidades”, na qual procuro compreender o futebol e o Brasil de 2014 a partir do olhar e das tensões de brasileiros menos visíveis.

Na segunda, conto as relações da corte e da torcida no entorno da seleção. Meu foco, nesse caso, é a produção do espetáculo no futebol de mercado – e os momentos sublimes em que a vida escapa, reconvertendo o produto em homem, ou “denunciando-o” como homem. A grande perda de colocar o espetáculo no lugar da realidade, ou a publicidade no lugar do jornalismo, como aconteceu vezes demais, é que o espetáculo é imensamente inferior à realidade. A realidade foi espetacular, o espetáculo foi medíocre.

Essa foi uma Copa extraordinária. Não só pela qualidade dos jogos das seleções de vários países, mas, especialmente, pela derrota monumental da seleção brasileira. Como se sabe, a vitória tem muito pouca graça na literatura e no cinema, o mais rico é sempre a derrota. Na reportagem, acredito que vale o mesmo princípio. Há muito para escrever sobre a seleção brasileira nessa Copa fabulosa, com tantos sentidos ainda por serem decifrados, tantas histórias à espera de quem as conte. Apenas começamos.

No meu caso, esse conjunto de reportagens assume o risco de narrar enquanto o jogo está sendo jogado, o que é, ao mesmo tempo, a dificuldade e a graça do jornalismo. Acredito que agora há o desafio de aprofundar essa narrativa, a das várias realidades desse épico trágico, com o distanciamento necessário. E devolver o extraordinário à vida.

Ao futebol.

FOLHA DE S.PAULO

BRASILIDADES

Deus e outros nomes
Os helicópteros zuniam no céu, sinal de que o ônibus da seleção brasileira voltava à Granja Comary depois de um dia de folga. Há sempre alguém lá em cima zelando pelo time do Felipão com bastante barulho. Lá embaixo, no estádio do Teresópolis Futebol Clube, Pretão, Lennon e William também acreditam, no domingo e a cada dia, que alguém zela por eles lá do alto, ainda que sem alarde. Nem sempre entendem bem o que o todo-poderoso planeja. Deus, como o futebol, segundo o seu entendimento, se movimenta por acasos, por sinais enigmáticos. Exibe caprichos de bola. É especialmente caprichoso com o Teresópolis: o time não ganha um jogo desde 2011.

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O complexo de vira-lata, em prosa e latido
Olhando bem fundo nos olhos dela, castanho-escuros, quase pretos, não se adivinha nenhum complexo. Um psicanalista poderia perceber uns laivos de histeria na insistência de latir nas chegadas e nas saídas, como se marcando sua condição de titular na casa da periferia de Osasco, na Grande São Paulo. Há também a alegria triste que assinala aqueles que pressentem a queda logo ali e talvez por isso ela se equilibre com tanto afinco em pernas de Garrincha, só que quatro. De complexo de vira-lata, porém, ela não demonstra padecer. Pantera tem 83 centímetros do rabo ao focinho e a aparência inconfundível do mais puro DNA mestiço. Parece indiferente à incongruência entre nome e coisa nomeada. É a vantagem do vira-lata. Sem identidade gravada em pedra pela tradição, pode inventar-se e reinventar-se. Até mesmo como pantera.

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Fortaleza no pé: Garoto dribla a morte e joga Copa das crianças de rua
Quando pergunto a ele sobre o passado e o futuro, Vinicius Marcos Pinheiro Ferreira diz: “Não conto o tempo”. Por que não? “Não conto. Eu não conto a alegria e não conto a tristeza. Tenho o tempo que estou na vida.” É um outro conceito, o do Brasil dos meninos sem tempo. Aos 15 anos, ele arranca cada dia do impossível, e o dia é tudo o que tem. Talvez inteiro, talvez não. Onde ele vive, no Canindezinho, favela do Bom Jardim, em Fortaleza, a bala interrompe a existência num segundo. A seleção brasileira joga hoje na cidade de Vinicius para fazer gols e vencer. Vinicius também é da seleção brasileira, mas a dos garotos que jogaram em abril a Copa do Mundo das Crianças de Rua. Vinicius faz gol de placa todo dia. Seu golaço é acordar vivo.

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Endereço: Brasil
A cigana Daiane Rocha sonha tanto com os gols da seleção no jogo contra Camarões quanto com a repetição de um gesto. Daiane espera que os moradores ao redor do acampamento, na cidade-satélite de Santa Maria, no Distrito Federal, olhem para ela e torçam com ela, reconhecendo-a como brasileira. A primeira vez que isso aconteceu foi na abertura da Copa do Mundo, quando o Brasil venceu a Croácia. Os 65 ciganos comemoraram cada um dos três gols e dançaram na vitória. Do outro lado da rua, os moradores, que até então os haviam rechaçado, torceram com eles, riram com eles, levantaram os braços em sinal de vitória. Ao sentir-se reconhecida como igual, Daiane chorou. Era um milagre do futebol.

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O PM e o militante
Em dia de jogo Brasil x Chile, no Mineirão, em Belo Horizonte, Steevan Oliveira e Luiz Fernando Vasconcelos acordam com propósitos diferentes. Steevan vai vestir a farda de policial militar para agir na “prevenção de confrontos”. Ele integra a tropa de choque da Polícia Militar mineira, faz a ronda com cães. Luiz é uma das lideranças dos protestos anti-Copa. Vai vestir sua camiseta contra a Fifa e denunciar “a apropriação do espaço público por uma entidade privada”. O movimento em que Luiz atua defende o fim da PM. O tenente Steevan quer ser PM a vida inteira. Eles representam duas forças que estão nas ruas na Copa no Brasil de 2014.

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Quando o futebol é travessia: um homem, um país
No bolso do paletó, o colombiano Carlos Maurício Durán Domínguez, 52 anos, promete esconder um gorro com as cores do seu país. Ele prepara-se para recepcionar o presidente, Juan Manuel Santos, que decretou “tarde cívica” e anunciou um bate-volta para assistir ao jogo Brasil x Colômbia, no Castelão. “Se a Colômbia fizer gol, vou colocar o gorro na cabeça rapidinho”, garante. “Me deu sorte nos outros jogos.” Quem o conhece não duvida que o gorro estará lá, fazendo volume no terno chique, primeiro. E, depois, enfiado no cocuruto.

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O ESPETÁCULO, A CORTE E A TORCIDA

O espetáculo começa só depois que o homem comum deixa o palco
“Ichi! Ni! San! Shi! Go!”
É Cleto Pinto, 60 anos. Falando um a cinco em japonês.
Antes de cada entrevista coletiva na Granja Comary, em Teresópolis, ele está lá para garantir que nenhum ruído, nem mesmo um chiado cabotino, empane a sabedoria, o brilho, da palavra de cada jogador. Sem ele, nenhum deles poderia dizer para as TVs e rádios do Brasil inteiro, do mundo, coisas como “cada jogo é um jogo” ou “seleção é batucada, batucada é seleção”. Durante pelo menos 30 minutos, Cleto se posta diante do microfone, no palco, e fala, para que todos possam testar se o áudio está perfeito. Poderia repetir apenas “alô, alô, testando” ou “um, dois, três, quatro, cinco”. Mas não. Cleto se prepara. Planeja. Estuda. Investiga. Entra no palco como um homem imbuído de um papel histórico. Ainda que ninguém grave ou transmita o que ele diz, ainda que ele seja um antes.

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Se quiser entender a torcida, siga a câmera
Cada portão para impedir o acesso do povo à Granja Comary é mais difícil de passar do que o outro. Na entrada principal, são cinco barreiras. Seis, se contar a da imprensa, que fica na lateral, e só permite assistir ao treino. Apenas uma minoria muito persistente vence a primeira. Ou amigos de moradores do condomínio de classe média alta. O pedreiro Antonio dos Santos Junior, 26, pertence à minoria muito persistente. Ele levou dez dias para conseguir passar pelas duas primeiras barreiras. Conseguiu graças a uma moradora penalizada, que não suportava mais vê-lo ali, com um chapéu de pontas verde-amarelo na cabeça. Colocou-o dentro do carro. Dali em diante, Antonio estava por sua própria conta. E os porteiros mais avançados são implacáveis. Antonio e outro torcedor, este vestido de anjo, tentaram desesperadamente passar pelos seguranças que guardam a terceira barreira. Nada. Tiveram de retroceder. Voltar duas barreiras atrás é mais que tragédia, é o limbo.

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Zona controlada
A zona mista é como um brete de bois. Para quem não está familiarizado com a terminologia rural, brete é um cercado para onde os animais são conduzidos, à força, para serem castrados, vacinados, descornados, marcados ou mesmo abatidos. Há uma versão desses currais dentro de cada estádio da Copa. Assim que a partida acaba, os jornalistas que têm senha para entrar na zona mista correm para lá. As senhas são distribuídas pela Fifa, sempre limitadas e disputadas. Depois do banho e das rezas, a maioria do time entra no brete, um jogador seguido do outro. Mas, ao contrário dos bois, esses touros milionários, DNA futebolístico apurado, não vão para o sacrifício. A imagem cabe mais a nós, jornalistas. Quando as estrelas da seleção despontam lá no início, há uma espécie de estouro da boiada, só que em território confinado. Cotoveladas e pisões no pé fazem parte da rotina, para que se consiga botar o gravador ou o microfone mais perto da boca do craque. Não é incomum sair dessa refrega com hematomas.

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Deus e o diabo na terra do gol
O futebol cumpriu sua mágica de produzir acontecimento e acaso. Na Copa de 2014, a seleção brasileira criou um drama com os pés, salgou de lágrimas as chuteiras. Chega hoje ao Mineirão para disputar a semifinal contra a Alemanha em amarelo épico. Sem seu craque maior, sem seu capitão. Se vencer os alemães, será a apoteose, a realização de um destino. Se perder, em parte já está absolvida. Em qualquer roteiro onde há deus e diabo, o bicho humano está à deriva. E nessa trajetória há muito deus e o “diabo”, que andava faltoso, foi criado há pouco, na pele do colombiano Zúñiga, usando os joelhos para roubar do Brasil Neymar e a glória. De diabo o colombiano, que só fez entrar duro num jogo duro, não tem nada, mas esse sempre foi um personagem que só pode cumprir seu papel quando propositalmente mal compreendido. Com deus e diabo a narrativa fica mais mítica.

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O Brasil do eu acredito
“Eu acredito, eu acredito.” Uma pequena parte da torcida brasileira ainda repetia o bordão depois de a seleção brasileira já ter levado uma goleada dos alemães no Mineirão. Era uma pequena grande cena. A realidade se impunha como o inacreditável, as bolas iam estourando na rede brasileira como ficção, quem não tinha deixado o estádio olhava para o campo tomado pela anestesia que assinala a tragédia. A inversão da expectativa é tão avassaladora que passa a ser interpretada como irrealidade, num estado delirante, em que qualquer gesto parece destinado ao nada. A goleada era da Alemanha no Brasil, mas era ainda mais profundo do que isso: era realidade 7×1 pensamento mágico. Um? Não. Zero.

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O insustentável peso da camisa
Acabou. Mas quando? Nos 7×1, na goleada histórica da Alemanha no Mineirão? Ou no Mané Garrincha, em Brasília, o nome do estádio que é apenas mais uma ironia a revelar a distância entre o gênio que pensava com os pés e os pés que se estranhavam com a bola, como se quisessem se livrar dela o mais rapidamente possível, na disputa com os holandeses. Ou neste domingo (13), a ausência do Brasil no Maracanã como uma presença.

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CENAS E MOMENTOS

Comunidade pobre ao redor do Castelão assistiu à ‘elite’ desfilar
“Você viu o corredor?”, pergunta Michele Sancho, 28 anos, professora universitária. “Me senti muito mal.”
Michele se referia ao longo corredor por onde ela e a família, junto com outros milhares de torcedores, passaram para entrar no Castelão, em Fortaleza, para assistir ao Brasil jogar contra o México. Mais de uma centena de metros em linha reta, atravessando a comunidade pobre que se debruçava sobre a grade na tentativa de vender alguma coisa ou só “ver como as pessoas se vestem”. Michele escreve uma dissertação de mestrado sobre o “Conceito Constitucional da Dignidade Coletiva”. “Vi minha dissertação ir embora ao passar por aquele corredor.”

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A bunda do Hulk
“Hulk, deixa eu apertar a sua bunda.”
Esse era o cartaz exibido – com orgulho – pela estudante Ana Caroline Côrtes, 13 anos, na entrada da Granja Comary, neste domingo. Ela veio de Nova Iguaçu, a mais de 60 quilômetros de Teresópolis, para levantar o cartaz. Para as câmeras de TV, já que o ônibus com os jogadores, como de hábito, passou em segundos pelos torcedores que há horas esperavam na chuva. As câmeras já deixam Ana Caroline bem contente.

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Sem casa, na casa da seleção
Na arquibancada da Granja Comary havia a dor de 100 mortos e mais de 20 desaparecidos. É o que perderam as 50 crianças e 30 adultos que tiveram permissão para assistir ao treino da seleção brasileira. São vítimas da tragédia de 12 de janeiro de 2011, em que as chuvas e o descaso do poder público mataram centenas. Logo na chegada da seleção a Teresópolis, ainda antes do início da Copa, Flávio Antonio da Silva, 35 anos, da Associação das Vítimas das Chuvas de Teresópolis, fez um protesto na entrada da Granja: botou uma camisa da seleção e pintou o rosto e o corpo de lama: “Aqui não é só a casa da seleção. É também a casa das vítimas”. Nesta quarta-feira (25), as vítimas tiveram permissão para entrar na casa da seleção. Mas continuam sem casa.

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Neymar, o carneiro
Tá fácil fazer selfie com Neymar Jr na entrada do Castelão. Seu Juvenal Ribeiro dos Santos, 70 anos, preparou seu carneiro para dia de gala. Logo de manhã ele tomou banho. “Com xampu, o mesmo que o meu.” Qual? “O mais baratinho.” Depois, Neymar Jr envergou a camisa 10. Veio trotando, em boa forma, ao lado da carrocinha do seu Juvenal.

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Torcedores veem jogo pela TV, dentro do Castelão, após terem o ingresso furtado
Carlos Castro, 48 anos, comprou o ingresso para as quartas de final no Castelão, em Fortaleza, ainda no primeiro sorteio. Apostou no Brasil. Quando o ingresso chegou em casa, escondeu na estante de livros, atrás de compêndios de medicina. “Aqui nesses monstrengos ninguém vai mexer”, concluiu. E esperou. Na véspera do jogo, fez plantão na maternidade, como neonatologista. Chegou em casa às 7h da manhã desta sexta-feira (4) e não pôde dormir. “Estava muito ansioso, não tinha jeito.” Tirou o ingresso do esconderijo e partiu para o estádio. No caminho, na companhia de outros dois médicos, comentou: “É surreal o que estamos vivendo. Um jogo decisivo da Copa, com o Brasil, no Castelão!”. Quando botou a mão no bolso, já subindo as escadas do estádio, Carlos desmoronou: o ingresso não estava mais lá.

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EL PAÍS

Dilma, a vaia e o feminino
Eu estava no estádio do Itaquerão, na abertura da Copa do Mundo, e ouvi as vaias e a torcida xingando: “Ei, Dilma, vai tomar no cu”. Não posso afirmar onde as vaias começaram, essa me parece uma certeza muito difícil de garantir num estádio de futebol. Concordo, em parte, com os que alegam que estádios são lugares de palavrões, basta lembrar das mães dos juízes. Mas também discordo, em parte, porque o público da Copa é totalmente diverso do torcedor típico, aquele que vai ver o seu time jogar como uma rotina tão presente na vida quanto trabalhar e namorar. Na Copa, o público é outro, leva para dentro das “arenas” outra expectativa e outra relação com o futebol. Mandar uma pessoa tomar no cu, qualquer pessoa e não só a presidente, é não só grosseiro, como violento. O Brasil é uma sociedade violenta, para muito além da tipificada no Código Penal. Essa violência atravessa o cotidiano. Dito isso, há algo que me incomoda nas narrativas construídas nesse episódio e que valeria a pena prestar mais atenção: a manipulação dos femininos.

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Sobre Zúñiga, Neymar e “macacos”
O zagueiro Juan Camilo Zúñiga entrou bruto com o joelho nas costas de Neymar. Era um jogo duro e a seleção brasileira também já tinha protagonizado entradas fortes sobre membros adversários. De lado a lado, se acertava mais do que a bola, como não é raro acontecer em partidas decisivas. Se pode criticar a arbitragem, reivindicar que a Fifa dê uma punição ao jogador colombiano, sentir fundo a tragédia de Neymar, que passa a ser a de um país inteiro. O que não deveria poder é o que aconteceu na sequência. Pelas redes sociais, brasileiros chamaram Zúñiga de “preto safado”, pediram sua morte e xingaram sua filha pequena de “puta”. Nos últimos anos, vários jogadores brasileiros foram chamados de “macacos” por torcidas de outras nacionalidades. Na sexta-feira (4), eram brasileiros aqueles que, na internet, colaram num colombiano a expressão racista.

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A espetacular Copa de 2014

Nessa Copa de 2014, no Brasil, acompanhei a seleção brasileira a convite da Folha de S. Paulo. Foi minha estreia, como repórter, no futebol e na Copa. No total, foram 12 reportagens no jornal impresso, na contracapa do Caderno da Copa, e outras sete matérias menores, no site. Às vezes apenas pequenas cenas, entre a Granja Comary, em Teresópolis (RJ), e as várias cidades em que o Brasil jogou: São Paulo, Brasília (duas vezes), Fortaleza (duas vezes) e Belo Horizonte (duas vezes). Estive também na partida final, entre Argentina e Alemanha, no Maracanã, no Rio de Janeiro. Escrevi ainda dois artigos na minha coluna quinzenal de opinião no El País. Nessa trajetória vertiginosa, busquei cobrir a seleção fazendo o que acredito ser o papel de um jornalista, independentemente da área em que atua, que é produzir documento histórico sobre a sua época.

Meu desafio era contar a seleção, numa Copa no Brasil, pelas margens. Dividi meu trabalho de reportagem em duas linhas narrativas. Chamo a primeira de “brasilidades”, na qual procuro compreender o futebol e o Brasil de 2014 a partir do olhar e das tensões de brasileiros menos visíveis.

Na segunda, conto as relações da corte e da torcida no entorno da seleção. Meu foco, nesse caso, é a produção do espetáculo no futebol de mercado – e os momentos sublimes em que a vida escapa, reconvertendo o produto em homem, ou “denunciando-o” como homem. A grande perda de colocar o espetáculo no lugar da realidade, ou a publicidade no lugar do jornalismo, como aconteceu vezes demais, é que o espetáculo é imensamente inferior à realidade. A realidade foi espetacular, o espetáculo foi medíocre.

Essa foi uma Copa extraordinária. Não só pela qualidade dos jogos das seleções de vários países, mas, especialmente, pela derrota monumental da seleção brasileira. Como se sabe, a vitória tem muito pouca graça na literatura e no cinema, o mais rico é sempre a derrota. Na reportagem, acredito que vale o mesmo princípio. Há muito para escrever sobre a seleção brasileira nessa Copa fabulosa, com tantos sentidos ainda por serem decifrados, tantas histórias à espera de quem as conte. Apenas começamos.

No meu caso, esse conjunto de reportagens assume o risco de narrar enquanto o jogo está sendo jogado, o que é, ao mesmo tempo, a dificuldade e a graça do jornalismo. Acredito que agora há o desafio de aprofundar essa narrativa, a das várias realidades desse épico trágico, com o distanciamento necessário. E devolver o extraordinário à vida.

Ao futebol.

FOLHA DE S.PAULO

BRASILIDADES

Deus e outros nomes
http://folha.com/no1467195
9/06/2014

O complexo de vira-lata, em prosa e latido
http://folha.com/no1468969
12/6/2014

Fortaleza no pé: Garoto dribla a morte e joga Copa das crianças de rua
http://folha.com/no1471524
17/6/2014

Endereço: Brasil
http://folha.com/no1474719
23/6/2014

O PM e o militante
http://folha.com/no1477892
28/6/2014

Quando o futebol é travessia: um homem, um país
http://folha.com/no1480892
04/07/2014

O ESPETÁCULO, A CORTE E A TORCIDA

O espetáculo começa só depois que o homem comum deixa o palco
http://folha.com/no1473242
20/06/2014

Se quiser entender a torcida, siga a câmera
http://folha.com/no1475786
25/06/2014

Zona controlada
http://folha.com/no1479626
02/07/2014

Deus e o diabo na terra do gol
http://folha.com/no1482643
08/07/2014

O Brasil do eu acredito
http://folha.com/no1484266
11/07/2014

O insustentável peso da camisa
http://folha.com/no1485656
14/07/2014

CENAS E MOMENTOS

Comunidade pobre ao redor do Castelão assistiu à ‘elite’ desfilar
http://folha.com/no1472042
17/6/2014

A bunda do Hulk
http://folha.com/no1473063
19/6/2014

Sem casa, na casa da seleção
http://folha.com/no1476208
25/06/2014

Neymar, o carneiro
http://folha.com/no1481189
04/07/2014

Torcedores veem jogo pela TV, dentro do Castelão, após terem o ingresso furtado
http://folha.com/no1481522
04/07/2014

EL PAÍS

Dilma, a vaia e o feminino
23/6/2014

Sobre Zúñiga, Neymar e “macacos”
7/07/2014

 

A vida como uma série de “habitações”

Vagão rosa, para não ser encoxada

O que faz das mulheres ainda hoje uma ameaça tão grande que, mesmo quando vítimas, são julgadas culpadas?

 

Alô, mulheres. Se pegarem trem ou metrô em São Paulo, prestem atenção às orientações do sistema de som: “Se você estiver com vontade de ser violentada, ou ao menos receber uns apertões na bunda e nos peitos, siga para o vagão comum. Se estiver cansada, introspectiva, teve um dia difícil, está com TPM, vá para o rosa e viaje tranquila”. Uma excelente semana a todas.

Poderia ser uma piada ou um filme de horror futurista. Mas é sério e não é ficção distópica. Na prática, essa é a mensagem do projeto de lei aprovado em 4 de julho pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. De autoria do deputado Jorge Caruso (PMDB), ele cria um vagão exclusivo para mulheres no metrô e nos trens. Algo similar já existe no Rio de Janeiro. A lei poderá ser vetada ou sancionada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), candidato à reeleição, nos próximos dias. Na sexta-feira (18), feministas reuniram-se no centro da capital paulista para um ato em protesto contra a criação do “vagão rosa”.

Não é muito, mas muito estranho mesmo?

Estamos em 2014, há uma mulher na presidência do Brasil. Mas acredita-se necessário criar um vagão só para mulheres nos trens de transporte público da cidade mais cosmopolita do país. Por quê? Porque, se ficarem misturadas aos homens, as mulheres serão encoxadas, apalpadas, abusadas e até estupradas. E é verdade, tudo isso acontece. Tanto que um grupo feminista fez recentemente uma campanha distribuindo alfinetes para as moças enfiarem nos abusadores do metrô.

É bizarro. Diante de uma mulher, num espaço apertado, atulhado de gente, alguns homens sentem-se autorizados a abusar dela. Isso diz de cada indivíduo e, claro, diz também dessa sociedade. Seria importante escutar esses homens para entender qual é a questão de cada um com seu próprio pênis. Talvez vivam um sentimento de impotência avassaladora, para muito além da ereção que conseguem ou não ter. Mas é só uma hipótese para tantas que só podem ser compreendidas na história de cada um.

Mais bizarro do que o ato individual, porém, é o ato público. Mais perigosa é a “solução” que o poder público, nesse caso o parlamento paulista, deu para a violência. Comete-se violência sexual contra as mulheres nos trens, segrega-se as vítimas. Seguindo essa lógica, em breve poderia se propor que, nas ruas e espaços coletivos, as mulheres passassem a usar burca. Assim, os homens não seriam “tentados” a cometer crimes sexuais.

Se o “vagão rosa” (o apelido já é duro de aguentar!) vingar, é um retrocesso muito maior do que pode parecer a um primeiro olhar distraído. É alarmante que os protestos não sejam mais numerosos e barulhentos, dada a seriedade do que está em jogo. Em nome das supostas boas intenções de “proteger as mulheres”, o que se faz, de fato, é reforçar duas ideias do senso comum, interligadas, que persistem há séculos e estão na base da violência sexual.

A primeira delas é que a culpada é a vítima. Seja porque usou “roupas sensuais”, seja porque “se expôs” a uma situação potencialmente perigosa. Nesse caso, apenas por existir. Por ser mulher, precisa ser colocada num “vagão especial”. Sua condição, em si, despertaria sentimentos incontroláveis em alguns homens. Então, nada de ficar perto desses espécimes ou eles não poderão resistir e cometerão a violência. Como se esses homens não fossem responsáveis pelos seus atos, como se fossem incapazes de se controlar, como se fossem animais, eliminando a cultura da equação e deixando restar uma ideia tacanha de natureza.

No conceito do “vagão rosa” as mulheres são colocadas na posição de objetos de desejo ou objetos de posse. E os homens são vistos como vítimas do próprio desejo, sem a necessidade de se responsabilizar por ele. Acho curioso que homens não façam protestos contra o “vagão rosa”: a ideia nele embutida sobre o que é ser um homem é ofensiva ao extremo.

Se o “vagão rosa” virar lei, o próximo passo será: se uma mulher não quis ocupar o vagão especial e foi sexualmente abusada no comum, conclui-se o de sempre: “Ela pediu. Se não quisesse ser encoxada, apalpada, estuprada teria entrado no vagão dela”.

A outra ideia fincada no imaginário de homens (e também de mulheres) é mais interessante. As mulheres é que são a ameaça. (E não aqueles que abusam de seus corpos e de suas almas.) Confina-se, cobre-se, esconde-se aquilo que nos envergonha e aquilo que nos coloca em perigo. Quando se propõe – e se aprova – um vagão especial para as mulheres, o que se está fazendo, de fato, é isolar o elemento desestabilizador. Colocar em ambiente controlado quem teria o poder de revelar, expor algo que deve continuar oculto. O segredo, nesse caso, está naquele que esconde – e não naquela que é escondida.

O “vagão rosa” é mais uma tentativa de sujeitar os corpos femininos, ao determinar que só podem ser “transportados” em sistema de segregação. Uma prova de que, ainda hoje, a imagem social das mulheres difere pouco da visão medieval em que eram compreendidas como “más e impuras”. Não custa lembrar do recente linchamento de uma mulher como “bruxa”, no mesmo estado de São Paulo. (Escrevi sobre isso aqui).

O que há de tão ameaçador nas mulheres?

A buceta, ainda ela. O desembargador Francisco Batista de Abreu, da 16ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais ajuda a explicar. Em acórdão publicado no final de junho, ele expõe uma linha de raciocínio fascinante ao justificar por que o valor de 100 mil reais de indenização, determinado pela justiça de primeira instância, deveria ser reduzido para 5 mil reais, como de fato aconteceu no julgamento em segundo grau. O caso refere-se ao que tem sido chamado de “vingança pornô”.

Um homem e uma mulher namoraram, em cidades diferentes, por cerca de um ano. Depois do término da relação, ainda conversavam e trocavam imagens íntimas pela internet. Na descrição do desembargador, as dela eram “ginecológicas”. O ex-namorado, seguindo o roteiro bocejante dos imbecis, quebrou a confiança estabelecida entre eles e tornou público o que era privado. As imagens, que eram consensuais, foram expostas de forma não consensual. Um ato sujeito à punição legal, portanto.

O desembargador Abreu concluiu, porém, que esta seria uma oportunidade para fazer um julgamento moral da vítima, expondo a profundidade do seu entendimento sobre como uma mulher deve lidar com sua vagina e com seu corpo. Depois da divulgação do caso, o processo foi colocado em “segredo de justiça”, limitando o acesso aos autos. Mas o segredo de quem, àquela altura, deveria ser protegido? Da mulher, do homem ou do desembargador?

A seguir, alguns trechos do voto do desembargador Francisco Batista de Abreu publicados na imprensa:

“Quem ousa posar daquela forma e naquelas circunstâncias tem um conceito moral diferenciado, liberal. Dela não cuida. Irrelevantes para avaliação moral as ofertas modernas, virtuais, de exibição do corpo nu. A exposição do nu em frente a uma webcam é o mesmo que estar em público.”

“As fotos em momento algum foram sensuais. As fotos em posições ginecológicas que exibem a mais absoluta intimidade da mulher não são sensuais. Fotos sensuais são exibíveis, não agridem e não assustam. Fotos sensuais são aquelas que provocam a imaginação de como são as formas femininas. Em avaliação menos amarga, mais branda podem ser eróticas. São poses que não se tiram fotos. (…) São poses para um quarto fechado, no escuro, ainda que para um namorado, mas verdadeiro. Não para um ex-namorado por um curto período de um ano. Não para ex-namorado de um namoro de ano. Não foram fotos tiradas em momento íntimo de um casal ainda que namorados. E não vale afirmar quebra de confiança. O namoro foi curto e a distância. Passageiro. Nada sério.”

É possível desenvolver uma tese de doutorado na área de psicanálise e direito a partir do voto do desembargador mineiro. Mas, atendo-se a apenas um ponto de seu raciocínio, percebe-se o que é assustador para o magistrado: “As fotos em posições ginecológicas que exibem a mais absoluta intimidade da mulher não são sensuais. Fotos sensuais são exibíveis, não agridem e não assustam (…) São poses para um quarto fechado, no escuro, ainda que para um namorado, mas verdadeiro”.

Para o desembargador, a vagina não é sensual. O que é sensual, segundo ele, não agride nem assusta. É coerente depreender dessa afirmação que a imagem da vagina não só agride o magistrado, como também o assusta. Assim, só pode ser exibida “no escuro”, de forma que não possa ser vista. E para um namorado “verdadeiro”.

Quando o voto se tornou público, lamentou-se em alguns espaços da internet a escuridão em que vive o desembargador Abreu. E até a suposta indigência de sua vida sexual. Mas não se trata de julgá-lo. Como indivíduo, seu Abreu pode até ter medo da vagina. Pode achá-la feia e assustadora. Pode preferir só vê-la no escuro ou não vê-la nunca. É possível ter compaixão por seu Abreu, mas ninguém tem o direito de julgar como seu Abreu se relaciona com a sexualidade do outro e com a sua própria. Isso diz respeito só a ele.

O problema é com o desembargador Abreu, servidor público, investido da Lei. Com a sua pretensão de determinar, como verdade única e universal, registrada nos autos, o que é sensual, o que é erótico, o que é amor “verdadeiro” e quando, como e onde uma vagina pode ser exibida. Assim como determinar que uma mulher que mostra a sua vagina não tem autoestima. O problema é que, ao assim manifestar-se, o desembargador Abreu está representando a Justiça. Seu ato tem efeito direto sobre a vida da vítima – e também sobre as vidas na sociedade brasileira.

A tal “vingança pornô”, em que imagens feitas em âmbito privado são divulgadas contra a vontade de quem é retratado, num ato de quebra de confiança, já levou ao suicídio adolescentes brasileiras que não suportaram o julgamento moral da família, amigos e sociedade. Ao manifestar-se nesses termos, o desembargador está reeditando, para um fenômeno contemporâneo, ligado às novas tecnologias, o velho “ela pediu”. E isso é inadmissível.

O relator do caso, desembargador José Marcos Rodrigues Vieira, defendeu reduzir o valor da indenização dos 100 mil reais determinados em primeira instância para 75 mil reais. Afirmou em seu voto: “Isentar o réu de responsabilidades pelo ato da autora significaria, neste contexto, punir a vítima”. Seu colega, o desembargador Abreu, porém, preferiu julgar a “moral” da vítima, acompanhado pelo terceiro desembargador, Otávio de Abreu Portes. Ao final, determinou-se que 5 mil reais seria um valor suficiente. É possível concluir que, simbolicamente, essa já não é mais uma indenização, mas um pagamento.

O “doutor” enxergaria a vítima como uma “puta”. No sentido de que a prostituta, na sociedade brasileira – e esta é outra enorme violência – é vista como aquela que não tem direito nem ao próprio corpo, nem à Lei. Isso ficou de novo muito claro em junho, quando o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo inocentou um fazendeiro preso em flagrante ao estuprar uma menina de 13 anos. A justificativa: ela seria prostituta, o que teria levado o criminoso a errar sobre a sua idade. Em resumo: com prostituta se pode tudo. O que as coloca fora do corpo e fora da Lei, de várias e complexas maneiras, com consequências sempre aterradoras.

Como afirmam organizações de prostitutas, infelizmente muito pouco escutadas, não existe prostituição envolvendo menores de idade. Com crianças e adolescentes só existe estupro e abuso sexual. Mas esse não foi o entendimento dos desembargadores paulistas. Assim como, ao reduzir em 95 mil reais a indenização devida à mulher que teve imagens do seu corpo divulgadas contra a sua vontade, o que o tribunal mineiro fez foi: não mais determinar ao réu uma indenização pelo dano causado, mas dar um valor à mulher.

É o que se compreende da justificativa contida no voto, em especial nesse ponto: “Mas, de qualquer forma, e apesar de tudo isso, essas fotos talvez não fossem para divulgação. A imagem da autora na sua forma grosseira demonstra não ter ela amor-próprio e autoestima”. À vítima, que foi quem passou a ser julgada e enquadrada como alguém que não se dá valor, é concedido um valor aviltantemente mais baixo do que aquele determinado em primeira instância como indenização pelo ato do réu.

Mas qual é o valor de uma mulher? Como diz Renata Corrêa, em um texto bonito no Biscate Social Club:

“Por essa e por outras que para uma vida livre todas as mocinhas, garotas, meninas, mulheres, cidadãs do mundo não deveriam valer nada. Eu particularmente não valho um centavinho furado. Ninguém pode me medir, me pesar, me trocar ou me comprar: não tenho preço, código de barras, cifrão ou vírgula. Quem tem o direito de dar preço para minha alma? E pro meu corpinho? Nobody, baby. Não valho nada. Não me atribuo valor algum. Não tô a venda: tô vivendo sem conta, sem mercantilismo amoroso, fraterno ou sexual. E também não tô comprando. Mas isso é outra história”.

De volta ao “vagão rosa”, que leva as mulheres a uma viagem sem movimento algum, na qual estão estacionadas no mesmo lugar, para que não exista deslocamento nem nada se altere. O “vagão rosa”, destinado ao transporte das mulheres para que não sejam encoxadas, bolinadas ou até estupradas, é o mesmo lugar simbólico destinado à vagina em visões como a do desembargador mineiro. O corpo feminino, a vagina como sua máxima potência, deve ser oculto. Se for