O que aprendi com o pior jornalista do mundo

Somos livres para escolher o mal? Somos livres para escolher o bem? Uma pequena reflexão sobre o livre arbítrio a partir do encontro com um personagem real que parece saído da literatura

Na primavera de 2000, entrou na minha vida um personagem da literatura. Um repórter de um jornal europeu me procurou, por intermédio de uma colega, porque viria ao Brasil e queria fazer uma reportagem sobre prostituição infantil. Expliquei a ele que, para fazer algo que valesse a pena nessa área, ele precisaria de tempo e bastante trabalho. Por considerar a pauta relevante e uma repercussão no exterior importante, abri todas as minhas fontes e fiz contatos com outros jornalistas que trabalhavam com o tema em capitais nordestinas. Fiz, praticamente, uma pré-produção para que ele pudesse fazer a reportagem quando chegasse ao país. Mas ele não a fez. Passou uma semana entre São Paulo e Rio de Janeiro e, para meu espanto, publicou em seu jornal uma reportagem sobre meninas leiloadas em jogos no centro-oeste do Brasil, onde jamais havia colocado os pés. Não precisei investigar. O próprio jornalista me contou que havia copiado um texto publicado anos antes em um jornal do interior daquela região como se fosse seu. Segundo ele, com a anuência do autor. Publicou como se fosse o retrato do momento e como se tivesse estado lá.

Eu sabia que coisas assim aconteciam mesmo na melhor – e às vezes entojada – imprensa europeia. Mas jamais testemunhara. Até então eu e o jornalista nunca tínhamos nos visto. Fiquei tão indignada que marquei um encontro para dizer o que pensava olhando na sua cara. Quando cheguei ao bar, ele já estava lá, no longo balcão. Tinha em torno de 50 anos, talvez menos, um físico de mercenário e os olhos mais azuis que eu já tinha visto. Pedi uma taça de vinho e fiz de imediato o que tinha ido fazer. Disse que gente como ele fazia mal não só ao jornalismo, mas ao mundo. E que conhecê-lo tinha sido um desprazer.

O jornalista me ouviu como se eu estivesse contando o enredo de uma comédia romântica. Me provocou, com um sorriso de Humphrey Bogart: “Então, você sempre faz o que é certo?”. Em seguida, me contou que na guerra do Golfo foi tirado do banho do hotel, em Paris, para dar um boletim ao vivo na rádio – e deu, descrevendo a violência que não transcorria diante dos seus olhos. Enquanto o vinho encolhia na garrafa, ele foi desfiando uma longa lista de pecados jornalísticos. Acho que no início queria apenas me chocar, por me considerar uma espécie de virgem da imprensa dos trópicos. Aos poucos, porém, foi trocando a ironia pela amargura. E começou a parecer um homem perigoso de outras maneiras.

Nesta altura, algum leitor pode estar se perguntando por que eu permaneci lá, sentada ao seu lado. É uma boa pergunta. Acho que fiquei porque aquele personagem me fascinava. Ele parecia saído da literatura – e era da vida. E manipulava a vida real que deveria contar. Em certo momento, voltei a habitar o meu corpo e disse que sentia um profundo desprezo por pessoas como ele e que o mundo seria melhor se ele mudasse de profissão. E que, sim, estava na hora de eu ir embora.

Ele então me olhou com aqueles olhos quase transparentes e disse:

– Vou te fazer uma proposta. Só por um dia, eu vou fazer o bem desde o momento em que acordar até a hora de dormir. Em troca, você vai fazer o mal em todas as oportunidades. Amanhã, um dia apenas, viveremos este pacto.

(Pare de ler por um momento, agora, e pense por pelo menos um minuto nessa proposta, como se ela fosse feita a você. Pense com a mente aberta e com a honestidade que só temos com nós mesmos, na sala privada, trancada à chave, de nossas reflexões secretas.)

Disfarçando meu desconcerto, respondi que ele soava como um péssimo Mefistófeles e que seria um ator ainda pior do que era jornalista. Pagamos a conta, e o vi desaparecer na escuridão da rua. Naquele momento, ao vê-lo meio curvado e atormentado sobre o próprio corpo, ele parecia mais o Mister Hyde, de Stevenson, do que o personagem imortalizado por Goethe. Peguei um táxi e fui para casa. Naquela época eu morava sozinha e passei a noite de olhos estalados sobre a cama feita. Ele tinha me perturbado.

Enquanto atravessava a madrugada em uma espécie de transe, eu imaginava como seria levantar no dia seguinte e escolher fazer o mal. Nada muito complexo e com muitas nuances, apenas o mal mais trivial. O que talvez pudéssemos chamar de pequeno mal, amplamente praticado e pouco confessado. Chutar em vez de acariciar o gato, apontar o bigode que a colega de trabalho descoloria no esforço de que ninguém o descobrisse ou a calvície que um amigo se esforçava por disfarçar, humilhar os que estavam abaixo na hierarquia, disseminar comentários cruéis sempre que tivesse oportunidade. Por escolha.

Era como se embriagar de liberdade. É claro que, como todo mundo, eu já havia praticado pequenos atos de maldade. Mas raramente como opção consciente. Em geral meu histórico de maldades, maior na infância e na juventude, contém deslizes e omissões – seguidas por um sentimento de culpa que me impingia bolas de ferro no espírito ao perceber o que havia feito. Pensar que eu podia escolher fazer o mal era algo perturbadoramente sedutor.

No dia seguinte, entorpecida de sono, eu já sabia que seguiria tentando ser a melhor versão de mim mesma. Mas jamais me esqueci desta história – e da inquietação com que ela me assinalou. “Olhos Azuis” – é assim que eu chamo esse enigmático personagem que assaltou meu sossego numa noite da primavera de 2000 – me fez enxergar algo sobre mim. Não algo como tema de um debate filosófico, onde as palavras nem sempre se sujam com as tripas, mas algo como uma possibilidade encarnada na vida. Suas palavras deformadas me deram um vislumbre da liberdade. E eu corri dela o mais rápido que pude.

Eu soube ali que não poderia escolher praticar o mal. Eu só poderia escolher praticar o bem – o que implica descobrir a cada passo o que isso significa. Se eu não sou livre para escolher praticar o mal, então eu seria livre para escolher praticar o bem? Não. Ou há escolha – ou não há escolha. Não pode haver escolha só para um lado. Desde então, marco esta noite como aquela em que eu perdi a ilusão da liberdade graças a um dos piores jornalistas de todos os tempos.

Penso que nossa liberdade é limitada e que, como dizia Nietzsche, o livre arbítrio não existe. Explico, do meu jeito. Temos arbítrio, mas ele está longe de ser totalmente livre. Cada escolha nossa é não só baseada em prós e contras, mas também em influências externas e internas. No lado de fora, a cultura e os valores da época em quem vivemos, o meio onde nascemos e onde nos fizemos adultos, os desafios materiais que a sobrevivência nos impõe. No interior, nosso vasto inconsciente nebuloso, nossas pulsões, o dentro que está além do nosso controle.

Nosso estar no mundo – e em nós mesmos – elimina a possibilidade do livre arbítrio. Mas a imperfeição desta liberdade não nos absolve do arbítrio. Se, ao contrário, caíssemos no outro extremo, o de que nossas escolhas são totalmente determinadas pela cultura ou pela genética ou pelas nossas necessidades de fins que permitem todos os meios, nos colocaríamos além de qualquer responsabilização. Seríamos como marionetes de uma guerra de desrazão por almas que não temos.

Como aquelas pessoas que bochecham a boca com o discurso da liberdade de prateleira e, sempre que possível, responsabilizam o chefe pelo mal que fazem, com a justificativa de que estão cumprindo ordens. Delegam a responsabilidade pelos seus atos, quando mesmo o mais cativo entre nós ainda tem uma estreita margem de escolha. Nossa vizinhança está cheia de gente como Adolf Eichmann, o oficial nazista responsável pela logística do extermínio dos judeus. Em seu julgamento, o nazista surpreendeu o mundo porque, em vez de um monstro sanguinário, se revelou um humano medíocre e mais semelhante do que diferente daqueles que o assistiam. O episódio foi analisado com brilhantismo por Hannah Arendt em “Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal” (Companhia das Letras).

Penso que a resposta não está nos extremos. Se a liberdade é tão fugidia que nos escapa a cada momento, maior deve ser a nossa ânsia de buscá-la. Desde que Olhos Azuis tentou me provar que eu tinha tão pouca escolha de fazer o bem quanto ele de praticar o mal, ainda que nossos imperativos fossem opostos, passei a perseguir com muito mais empenho um jeito de viver que tornasse minhas escolhas mais minhas, mesmo sabendo que jamais serão totalmente minhas.

Quando tratamos a liberdade como um bem adquirido ou um direito consolidado, penso que corremos o risco de perdê-la lá onde ela efetivamente está: nas bordas. Se a aceitamos como mercadoria – como uma velha calça azul e desbotada, ainda que novíssima, com rasgões de fábrica e com uma etiqueta que lhe multiplica o preço – nos perdemos dela porque deixamos de procurá-la. Quanto mais fácil e dada a liberdade está, mais nos afastamos dela.

A liberdade é uma coisa séria – e muito mais séria é porque jamais a teremos por completo. Ao contrário do que Olhos Azuis insinuou, a liberdade não se torna algo menor porque inalcançável – mas maior e mais vital porque nos escapa. A liberdade exige – e cobra – nossos melhores esforços.

Penso que a melhor forma de tornar nossas escolhas mais nossas é também a mais difícil: duvidar o tempo todo de nossas certezas. Duvidar de nossos porquês mais óbvios. De nossa rotina estabelecida, de nossos velhos hábitos, de afirmações como “eu sou assim” ou “fulano nunca vai mudar”. Duvidar de que a vida tenha de ser de uma determinada maneira ou de outra. Duvidar de nossas crenças mais profundas, duvidar de nossas necessidades de consumo. Duvidar de que não exista um outro jeito de viver nem um outro mundo melhor que este a ser construído. Duvidar de gente que diz que está fazendo algo para o nosso bem. E mais ainda se essas pessoas estão em lugar de poder. Duvidar quando a gente diz que está fazendo algo para o bem do outro. Assim como a liberdade, o bem não tem respostas óbvias.

Duvidar não é um exercício fácil. É um ato de resistência internamente tão exaustivo – e tão perigoso – quanto atravessar o Atlântico num barco a remo. Escolher duvidar como caminho para alargar nosso estreito espaço de liberdade é uma boa meta para 2012. Só os escravos de espírito têm certezas de concreto armado. Quem anseia pela liberdade, ainda que imperfeita, escolhe tornar-se um colecionador de dúvidas.

Com o passar dos anos, Olhos Azuis foi perdendo sua aura de personagem clássico da literatura em minha memória. Bem aos poucos, ele tornou-se uma figura triste, quase patética. Que, como muitas figuras tristes, quase patéticas, tinha um bom emprego e o pequeno poder de mentir em larga escala. Nunca mais ouvi falar no seu nome. Mas sou grata a ele por ter me arrancado algumas certezas. Ao escolher duvidar dele e de mim, simultaneamente, acessei uma experiência mais profunda. Escolher o que fazer com nossas lembranças é um flerte com a liberdade. É arbítrio, quase livre.

(Publicado na Revista Época em 02/01/2012)

Lembrar para esquecer

O que fazer com a memória? Documentário acompanha a viagem de quatro filhos em busca da vida do pai, um sobrevivente do Holocausto, nos campos de concentração nazistas

– Alô, é do sanatório? Sim, David Fisher fugiu. Mas eu estou aqui com ele. Querem fazer o favor de buscá-lo? Ele está visitando campos de concentração. É sua ideia de férias.

A brincadeira é feita por um dos irmãos do cineasta israelense David Fisher. Neste momento, David e seus três irmãos estão numa van a caminho dos campos de concentração onde seu pai, Joseph, foi confinado pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial. É o início da viagem, e eles fazem muitas piadas sobre o fato de terem aceitado o convite do irmão maluco, abandonado suas próprias famílias e iniciado as férias mais estranhas da sua vida. Assim começa “Six million and one” (Seis milhões e um), filme exibido na mostra competitiva do IDFA, um dos festivais de documentários mais importantes do mundo, realizado em Amsterdã, na Holanda, de 16 a 27 deste mês.

O filme toca numa questão em aberto: como a segunda (ou terceira) geração de sobreviventes do Holocausto – ou de qualquer outra tragédia humanitária – lida com a memória. O que se faz com o horror? É possível esquecer? Ou é possível fingir que esquecemos? Ou ainda: como esquecer aquilo que só conhecemos como lembrança dos pais (ou avós)? Há uma diferença entre aquilo que esquecemos porque pode ser lembrado e aquilo que fingimos esquecer porque não podemos lembrar. E por isso ecoa dentro de nós dia após dia.

Os irmãos de David acreditavam que o melhor jeito de lidar com a memória era não lidar. Mas um dia David ligou para suas casas e convidou-os para uma viagem ao passado presente do pai. David tem a autoridade do irmão mais velho. E por esta ou por outras razões naquele momento inconfessáveis, eles aceitaram o convite. Irônicos, afetuosos, rabugentos, mas sempre íntimos, os quatro adultos com rugas no rosto e cabelos rajados de cinza iniciam a jornada rumo ao horror que também os constituía sem jamais ter sido pronunciado.

Enquanto vivera, o pai quase nada havia contado sobre sua vida nos campos de concentração. Apenas os lugares onde esteve e pouco mais. Mas, dois anos antes de morrer, ele escreveu suas memórias num caderno. É o legado do pai. E é este diário que agora queima nas mãos dos filhos. E que David foi o único a ler. “Por que eu preciso passar por isso?”, reclama a irmã, única mulher no grupo. “Eu não preciso visitar campos de concentração. Sempre carreguei isso dentro de mim. Isso sempre esteve lá, no nosso café da manhã.”

Por quê? É o que eles descobrem nessa saga familiar. Em um dos momentos mais belos do filme, todos estão sentados dentro do túnel construído pelos judeus para ser uma fábrica subterrânea de fuselagem para aviões nazistas. É um lugar claustrofóbico e insalubre, e nas paredes há marcas das unhas dos prisioneiros. Pouco antes, o responsável pelo lugar havia dito: “Não é possível que seu pai tenha sobrevivido dez meses cavando esse túnel. A sobrevivência média dos judeus que cavavam era de uma semana”.

O pai sobreviveu a isso e a bem mais do que isso. E ali, no túnel, já varridos por sentimentos contraditórios, os filhos fazem a catarse que pertence a todas as famílias – e que, afinal, é a prova de que sobreviveram. Falam de desamor, de ciúmes, de desamparo, de rivalidades, de raiva. Brigam, choram e riem. E então é preciso sair do túnel e seguir adiante.

Por que é importante lembrar? Essa é a pergunta que diz respeito não só a David e a seus irmãos, mas a todos nós. Por causa dessa indagação universal o filme tem lotado as salas de cinema de Amsterdã. Tudo o que é vergonhoso ou aterrorizante costuma ser relegado ao esquecimento. “É melhor não mexer nisso”. Ou “não vamos falar disso”. Ou ainda o clássico “com o tempo você esquece”. Ou o pior de todos: “não aconteceu”. A verdade, como anos atrás me ensinou uma judia que fugiu da Alemanha nazista e teve a mãe incinerada num campo de concentração, é que, “com o tempo, a gente não esquece”.

Não há como esquecer, é o que também afirmam os veteranos americanos com quem David conversa para saber como foi o dia da libertação. “Nós não sabíamos que havia um campo de concentração ali. Então, quando encontramos os judeus presos lá dentro, sem água nem comida, eles nos cercaram, nos agarraram. Eles tinham fome. E nós demos comida. E demos cigarro porque pediram. E pensávamos que fumariam o cigarro, mas eles comeram o cigarro”, conta o velho soldado. Nesse momento, o queixo do seu companheiro de tropa começa a tremer e logo todo o seu rosto treme. “Nós demos comida, e eles morreram duas horas depois porque o estômago deles não suportava tanta comida. Eu me sinto culpado porque dei comida, e eles morreram.”

É sobre a capacidade humana de produzir horror que o pai de David escreve. “Às vezes, um nazista entrava no dormitório e acordava um de nós. E escolhia outro, muito maior e mais forte para sentar sobre o peito do mais fraco até que ele morresse asfixiado. Eu fingia que estava dormindo enquanto isso acontecia”, é um dos trechos do diário. Ou: “Dentro do túnel, eles botavam gente puxando a carroça no lugar dos cavalos. Lembro de um pai e de um filho, poloneses. O nazista mandou que o filho chicoteasse o pai, mas o menino se recusou. O pai, temeroso pelo filho, ordenou: me chicoteie bem forte”.

Só há um jeito de esquecer o horror: lembrar. É por saber disso que David empurra os irmãos para uma travessia que lhes permita sair mais vivos do outro lado. Se não lidamos com a memória do horror, seja ele qual for na vida de cada um, ele pulsa dentro de nós como um buraco negro que nos engole de dentro para dentro. O horror fica ali, vagando livremente por cada centímetro de nossa vastidão interna, numa repetição sem fim e sem destino. É por isso que no Brasil é preciso que todos compreendam que o acesso à memória é um direito inalienável de cada ser humano – não como vingança, mas para que se possa deixar de vagar pelo não dito e seguir adiante.

A certa altura do documentário, David reproduz um filme caseiro. É o aniversário de uma criança da família. O pai está lá, batendo palmas e quase sorrindo. Mas o pai não está lá. O pai escreveria no diário depois: “Como não podemos esquecer, somos todos atores”. Ele também poderia ter dito: “Como não podemos lembrar, somos todos atores”. Joseph Fisher poderia ter sido o “six million and one”, mas não foi. E, como tantos sobreviventes, é consumido pela culpa. “Por que eu?”, é a indagação incessante que faz a si mesmo.

Só no parapeito da morte o pai sente-se pronto para dar um lugar para o horror. Pela memória do único texto que precisa interpretar, o pai finalmente pode deixar de atuar. O pai então escreve o diário – e transforma o monstro que o come por dentro em palavra escrita. Mas, para que sua sobrevivência ao Holocausto tenha sido não uma morte, mas uma vida, ele precisa endereçar essa memória. Pois a carta que não chega ao seu destino para ser lida pelo outro não é uma carta, mas um esquecimento sem lembrança. E é assim que o diário chega às mãos de David.

Entre todos os irmãos, David é o único capaz de compreender que precisam percorrer o caminho do pai como filhos. David entende que o pai escreve o diário não apenas para poder esquecer, mas para que os filhos tenham uma chance de lembrar. Se, para o pai, foi um diário, caberia aos filhos encontrar a sua forma de materializar e nomear o inominável. Como disse recentemente o psicanalista Paulo Endo, em uma banca de doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, numa frase que é para todos nós: “Em vez de ser perseguido pelo trauma, é preciso perseguir o trauma”. É o que David e seus irmãos fazem ao seguir as pegadas do pai.

Para arrancar os pés do passado e avançar rumo ao futuro é preciso antes fazer marca. Essa é a beleza do humano que, se é capaz de produzir tanto horror, também é capaz de criar beleza a partir do horror. O filme exibido hoje nos cinemas do mundo é a marca que permitiu a David e seus irmãos seguirem adiante levando o legado do pai como vida – e não mais como morte. “Six million and one” é uma bela cicatriz.

(Publicado na Revista Época em 21/11/2011 )

A vida dos mortos

O que os mortos podem nos contar sobre a vida: quem prefere esquecer a morte, corre o risco de não lembrar que está vivo

Sempre que posso, faço uma visita aos meus mortos no dia de finados. (Acho finados, aliás, uma daquelas palavras perfeitas, que dispensariam verbos e objetos, ela mesma uma sentença inteira.) Sei que possivelmente os mortos não estão em lugar algum além da nossa memória, mas talvez por eu ter nascido bem antes da internet e da existência virtual, preciso apalpar os túmulos com as mãos para senti-los mais de perto. A maioria dos meus mortos mora no cemitério rural de um povoado cada vez mais despovoado no interior do município gaúcho de Ijuí, chamado Barreiro, onde há mais gente estendida debaixo da terra do que saracoteando sobre ela. É uma paisagem com as cores da Toscana que nessa época está coberta pelo dourado dos trigais sob um céu azul e um vento de primavera que bota as folhas secas a dançar como na cena clássica do “Era uma vez no Oeste”, de Sergio Leone. (Quando eu tenho a sorte de visitar a Toscana, digo por lá que a paisagem tem as cores do Barreiro, e os brasileiros ficam me olhando com ironia e os italianos com descrença, mas assim é que é.) Gosto do silêncio dos cemitérios e, em todas as minhas viagens pelo mundo, visito os mortos para compreender como vivem os vivos naquela geografia virgem para os meus sentidos. Mas, para mim, não há nenhum como o do Barreiro, porque ele é habitado por algumas das histórias que fazem de mim o que sou.

Talvez a explicação para minha alegre visita aos mortos esteja na minha tia Nair. Finados, para ela e para todas as donas de casa da zona rural, era um dia de muito trabalho e de muita festa. Mal chegávamos e ela se punha a correr porta afora esfregando as mãos no avental e uma na outra, com um sorriso de orelha a orelha. Era na sua casa que os parentes vinham de toda a região para honrar os falecidos lembrando suas histórias ao redor da galinha com polenta da tia Nair, antecipada por voltas e mais voltas de chimarrão. Para mim era ainda melhor, porque ela me chamava de canto e me carregava para o bolicho na parte da frente da casa, onde penetrávamos na escuridão ainda desabitada dos bêbados que chegariam mais tarde, porque também eles tinham mortos para chorar ou amaldiçoar. Naquela caverna de Ali Babá, onde o silêncio cheirava a couro, salame e fumo, tia Nair enfiava suas duas mãos bordadas pelos calos de uma vida de roça e colhia do baleiro doces de mil e uma noites. Era um momento de suprema felicidade, como os do filme do Jabor.

Quando agora vou chegando pela estradinha poeirenta do Barreiro, avisto tia Nair correndo para nos dar as boas vindas, com seu sorriso pendurado pelas orelhas, e sei que nunca mais serei tão bem recebida por ninguém. Tia Nair já não está mais lá, é apenas na minha memória que ela vive, mas mesmo assim a criança que mora em mim também como memória enche as mãos de balas que só existiam lá. Depois sigo meu caminho para deixar uma palma na porta de sua casa no cemitério.

E de lá começa nossa visita, eu, meu pai e minha mãe, minha mãe sempre apressada, meu pai querendo se deixar ficar para fazer suas homenagens. E eu tentando ajeitar as flores nos vasos com meu desajeito, porque sempre fui uma destra com duas mãos esquerdas e nenhuma delas se entende com a outra. Está lá Pietro Brum, o meu trisavô italiano (meu pai me disse que o pai do meu bisavô não é tataravô ou tetravô, mas trisavô, que todo mundo erra e seria bom que eu acertasse), que veio da Itália fugindo com o filho Antônio, que aponta sua cara do além-túmulo com o mesmo ar topetudo que devia ter quando embarcou clandestino no navio para o Brasil, fugindo de mais uma guerra. Mas basta um olhar para minha bisavó Carlota, com sua mirada de faca, para eu ter certeza de que ela o fazia andar no miúdo. Mas essa história já contei aqui há algumas semanas, em A perna fantasma, e sigo adiante.

Estacionamos nossos pés diante do túmulo de meus avós paternos, José e Victoria, minha avó que nunca deixou ninguém sair do seu portão sem uma cuca, um pão, um queijo, um salame ou um presunto, e por isso recebia mais visitas do que sua azáfama diária permitiria. E que nas noites de tempestade carregava todos para o porão, por causa da tia Maria Henriqueta que morreu de raio quando, ao dormir entre duas de suas irmãs, era a única encostada na cama de ferro. Ao lado dela, no túmulo vizinho, brinca tia Lídia, que mudou de mundo ainda na infância depois que uma vizinha deu a ela uma dose de querosene para curar uma dor de barriga.

E mais uma vez xingamos um tio-avô que teve o péssimo gosto de tomar veneno justo no dia do casamento de minha tia Iolanda, sem o menor respeito pela alegria alheia. Espalhamos mais umas flores aqui e ali, como para a minha tia Cristina que me emprestou seu nome para botar no meio do meu. Acabei banindo-o assim que pude porque ela, quando ainda era uma alma encarnada, já era lembrada como uma mulher tão boa que a tudo suportava, coisa que não me caía muito bem. Mas eu adorava a tia Cristina que me esperava com doces de leite e cuidou das duas galinhas que eu criava como filhas e cuja educação repassei a ela depois que não couberam mais na minha casa de cidade. Tia Cristina zelou pelas minhas filhas de penas até a morte de uma e depois de outra, e mesmo quando a branca engoliu a sua corrente de ouro e todo o Barreiro insistiu que aquela franga desaforada estaria melhor na panela. Minha boa tia Cristina jamais magoou ninguém além de si mesma.

Para jamais esquecer que a vida é tecida com sentimentos contraditórios e gentes mais ainda, é diante do túmulo da minha tia Cristina que ofereço um buquê de comigo-ninguém-pode para minha tia A., esta pelos lados da minha mãe. À distância, porque essa tia se encontra em um cemitério da capital, a quase 400 quilômetros dali. Apesar do nome de querubim, que aqui estou proibida de mencionar por decreto familiar, enquanto viveu, tia A. urinou no túmulo do falecido que a havia traído com tanta assiduidade. Por causa desse péssimo hábito, meu bem posto tio-avô deve ter negligenciado a parte da anatomia que tia A. passou a obrigá-lo a enxergar em seu duvidoso descanso eterno.

Minha avó materna não visito em túmulo, porque a sinto tão presente que é quase como se estivesse ainda por aqui. Tenho sua máquina de costura bem ao lado da minha escrivaninha-xerife e, enquanto escrevo, ela alinhava capas de chuva feitas de saquinhos de leite, porque sempre achou as embalagens industrializadas uma maravilha. Muito antes de qualquer conversa ecológica, vó Teresinha afirmava que algo tão bonito não podia ser descartado como lixo e tratava de transformar logo em alguma utilidade. Sempre proseamos enquanto escrevo e, quando estou triste além da conta, ela me bota a cabeça em seu colo com cheiro de bolacha Maria e me conta uma história de Pedro Malasartes. Vó Teresinha, que viveu como uma santa, tinha outra por dentro. E ainda hoje, nas manhãs desmaiadas dos domingos, nós duas lamentamos que esta outra não tenha saído para botar ordem no seu mundo enquanto o tempo ainda era vivo.

Enquanto passeamos pelo cemitério, pausando para visitas aqui e ali, meu pai, minha mãe e eu sabemos o que nos espera logo adiante. Meu primo Gilberto, o Beto, e a Mana, sua mulher, nos aguardam logo na descida da lomba com o melhor churrasco da região e cucas recheadas que desmancham na boca. Beto é filho da minha tia Nair e, na companhia querida da Mana, mantém a tradição de acolher os parentes que vêm de longe e de perto para honrar os mortos. Na ocasião, meu primo também recolhe as ofertas para a festa da padroeira, quando eu divido com meu pai e meu irmão mais velho a doação de uma vaca. Com uma pontada de culpa porque sei que a malhada vai virar churrasco, mas não com culpa suficiente para me converter em vegetariana.

Mas o percurso dos finados ainda não acabou. E, para mim, a visita mais importante é a última, ao alcançar uma mulher que não conheci, mas que permitiu que eu tudo conhecesse. Ela se chama Luzia de Figueiredo Neves e nasceu no ventre de um romance. Seu pai, Sabino Andrade Neves, era sobrinho-neto do General Andrade Neves, cujos feitos à frente da cavalaria na sangrenta Guerra do Paraguai o alçou à posição de Barão do Triunfo. Enquanto do pai de Luzia se conhece o nome e todos os sobrenomes, da mãe não restou nenhuma letra. Era uma escrava da estância do pai de Sabino, e Luzia nasceu deste amor. Que era amor mesmo e não a violência tão comum naquela época, praticada contra as negras por filhos de estancieiros – e pelos próprios. Para dar nome e criar a filha, Sabino abriu mão da herança e do conforto de sua bem-nascença. Tornou-se professor pelas lonjuras do Rio Grande e fez da filha mestiça também professora. Da mãe, só se sabe que partiu jovem.

Quando estou diante do túmulo de Luzia, me certifico mais uma vez que a vida é desatino. Porque não fosse essa trágica história de amor e de preconceito, que obrigou um Sabino formado para ser general, ou pelo menos advogado na capital, a ser tornar professor e a criar uma filha, e talvez tudo tivesse se desacomodado de outro jeito na minha pequena história. Por isso, quando a vida se desentende com o destino e descarrila em desgoverno no rumo do imprevisto, eu penso: talvez seja uma boa coisa… e eu acabe em lugares mais interessantes.

Em minhas andanças pelo Brasil, ouvi de homens e mulheres das mais variadas geografias uma expressão que atesta a finura da linguagem do povo brasileiro: “Sou cego das letras”. Era como expressavam, em voz sentida, sua condição de analfabeto. Pois foi Luzia, com esse nome tão profético, quem arrancou meu pai da cegueira das letras. E, com ele, todas as gerações que vieram depois. Caçula entre os homens de uma família de 12 filhos criados no cultivo da erva-mate, Luzia iluminou primeiro o nome do meu pai. Quando lá chegou na escolinha do Barreiro, com os pés descalços e os largos olhos que desde pequeno carrega como faróis, meu pai não sabia como se chamava, já que em casa e por todos era conhecido pelo apelido. Quando Luzia chamou – “Argemiro” –, meu pai, então um guri de sete anos, não se mexeu. Só na terceira ou quarta chamada, descobriu-se. E com o nome veio um mundo inteiro.

Aos 12 anos meu pai foi assaltado por uma pneumonia dupla e, enquanto lutava pela vida numa época e numa paisagem em que era mais fácil sucumbir do que escapar da doença, meu avô sentiu-se mal depois de uma sequência de noites no soque da erva-mate e logo mandou buscar, a cavalo, o médico e também o padre. Quando meu pai despertou, em território dos vivos, não sabiam como contar a ele que, naquele soluço do tempo, tornara-se órfão. Foi chamado um homem de nome Pacífico para dar a notícia, mas o mais perto que ele chegou de cumprir sua missão, destituído que estava de toda paz, mas não de sutileza, foi avisar ao meu pai de que dali para frente veria os irmãos com um traje de cor diferente. Uma tia então deixou escorregar com dedos tímidos o jornal aberto sobre a mesa na página do obituário.

Meu pai descobriu ali que saber ler podia ser uma maldição. E naquele momento aceitou o custo às vezes por demais elevado de compreender as letras, em algumas ocasiões com revelações brutais, como naquele pedaço de jornal, em outras, como descobriria mais tarde, torcidas pelo cinismo e pela má fé, com o veneno escorrendo das entrelinhas e a mentira encarapitada nas vírgulas. Arrisco-me a dizer que meu pai escolheu ali, quando recuperava a vida para descobrir que o pai havia perdido a sua, que existiria com verdade.

Aprendi com meu pai a honrar o presente de Luzia. E a tirar meu chapéu invisível diante de Sabino, uma raridade de homem que, nos finalmentes do século XIX, deixou posição e riqueza para criar uma filha sozinho e lançou-se nos interiores do Rio Grande para educar os rebentos dos colonos europeus que desembarcavam com quase nada além de esperança e do preconceito com gente de pele mais escura, como a própria Luzia. Era ele e não seu tio-avô que deveria ser nome de rua na capital e por todo canto se o mundo fosse justo.

Desde que me entendo por gente meu pai coloca flores no túmulo de sua primeira professora. Não sei dizer em que altura do caminho eu comecei a segui-lo nesse gesto, a ponto de ter se tornado uma estrelinha no meu calendário pessoal. Não necessariamente no dia de finados, mas em algum dia do ano eu preciso agradecer a Luzia pelas letras. Sento-me à beira do seu túmulo e, depois de dizer obrigada, me enfio dentro de mim e começo a pensar em minha vida de palavras.

É um momento de vestir minha própria pele, eu, que como repórter, estou sempre tentando me emburacar na pele do outro. Penso se estou usando com verdade o que Luzia me deu. Investigo se tenho sido digna e se tenho sido honesta no meu percurso, não só com os outros, mas comigo mesma. Se tenho amado bem não só os de perto, mas também os de longe. Apaziguo-me com as batalhas que talvez não ganhe, mas que nem por isso a luta deixa de valer a pena. Encaro o medo que muitas vezes me perfura e tento usá-lo para me tornar mais atenta às armadilhas. E refaço meus votos de contar histórias usando o melhor que tenho em mim. De alguma forma, acredito que Luzia sempre encontra um jeito de me responder.

Estava nesse ponto de minhas perambulações internas, neste último 2 de novembro, quando ouço a voz da minha mãe discutindo com o responsável do cemitério, que não encontrava meus últimos pagamentos em seu caderno. Minha mãe insistia que as taxas estavam em dia, um despropósito de 15 reais por ano (!!!) para que eu tenha o direito de lá ser enterrada quando o único acontecimento previsível da vida chegar. Eu já tinha dado uma vistoriada na minha futura casa, reservada embaixo de uma árvore, e agora peleava para me manter concentrada em minha conversa com Luzia, mas já começava a achar o debate divertido. De repente, eu escuto: “Mas a Eliane é falecida há muito tempo?”. E minha mãe, rapidíssima: “Está bem viva, sentada ali naquele túmulo”.

Abanei para ele e, toda faceira, lembrei: sim, eu estou beeeeeem viva.

Foi uma lembrança importante.

(Publicado na Revista Época em 07/11/2011)

Tropa de Elite em 3D

Há influência do Capitão Nascimento no apoio da opinião pública às operações no Rio?

As operações policiais na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão têm sido chamadas de “Tropa de Elite em 3D” no twitter. Como se Tropa de Elite, o filme, tivesse passado das telas para a vida real, na menção de mais de um repórter ao relatar o que via. O público previsto para assistir à Tropa de Elite 2, que deverá se tornar o filme mais visto da história do cinema nacional, foi menor do que o esperado no último final de semana de novembro. Segundo alguns sites especializados, teria sofrido a concorrência de seu homônimo em 3D, na transmissão ao vivo das operações no Rio pelas equipes de TV. É apenas uma alegoria ou há algo mais profundo nesta relação entre realidade e ficção?

Acho que vale a pena pensar sobre o efeito de Tropa de Elite 1 e 2 na apreensão dos acontecimentos do Rio pela opinião pública. Não apenas pelos cariocas, mas pela população brasileira, boa parte dela sem nenhuma familiaridade com a realidade do tráfico nas favelas do Rio nem com os policiais do Bope. É possível supor que um dos maiores fenômenos de público da história do cinema nacional possa ter tido um efeito significativo na aprovação massiva (e quase sem ressalvas) à ação policial – no Rio, 88% da população, segundo o Ibope. Minha pergunta aqui, que talvez só possa ser respondida daqui a alguns anos, é em que medida o Capitão Nascimento está presente na decodificação dos fatos da vida real.

Amigos de diferentes Estados e regiões do Brasil, que costumavam assistir ao noticiário do Rio, incluindo operações anteriores, com uma curiosidade distraída, agora acompanham e discorrem sobre o Complexo do Alemão e o Bope como se tudo estivesse acontecendo no bairro vizinho ao seu. O que os “engatou” na realidade e os aproximou de algo que antes soava distante parece ter sido o tanto que gostaram do filme e o tanto que admiram o Capitão Nascimento, a quem enxergavam no rosto anônimo de cada policial nas imagens de TV. Ao buscar dentro de si instrumentos, memória, para compreender a realidade exibida no noticiário, é Tropa de Elite que aparece primeiro.

Nunca ouvi tão poucas críticas aos já comprovados abusos policiais na ocupação dos morros ou tão poucos questionamentos sobre a eficácia e o resultado efetivo deste tipo de operação. Existem, claro. Mas num volume bem menor. Conhecidos que eram os primeiros a levantar a voz para falar da violação dos direitos humanos confessam que estão acuados. Toda vez que abrem a boca para fazer uma ressalva no seu local de trabalho ou na mesa do bar são tratados como “defensores de bandidos”. Outros, que sempre olharam qualquer operação policial – ainda por cima com Exército a tiracolo – com desconfiança máxima, ensaiam discursos maniqueístas. Há não muito tempo me enviavam emails coletivos de campanhas contra o Caveirão. Agora, chegam a repetir o discurso fácil da luta do bem contra o mal. O que mudou?

Desde sempre há gente, muita gente, favorável ao pega e arrebenta. Assim como defensores do uso do Exército no combate ao tráfico, como havia sido tentado no passado. A diferença que percebo é a perda do pudor. Era complicado defender a polícia sabidamente corrupta em sua maioria e intimamente ligada à criminalidade que fingia combater. Era espinhoso falar do Exército na favela com poder de polícia depois dos 21 anos de ditadura militar. Quem compartilhava estas ideias, fora os motoristas de táxi, não saía por aí as bradando em qualquer meio. Agora, parece que inverteu. Criticar, duvidar, questionar, verbos que fazem parte do exercício da cidadania, têm sido rechaçados com alguma – ou até muita – violência. “Ah, lá vem você defender os pobres e oprimidos…”. Ou pior: “Lá vem você e a sua culpa…”. Como se querer que a lei seja cumprida dentro da lei fosse um defeito de caráter. E o autor do comentário já estivesse, a priori, desqualificado.

Vale a pena perguntar se há, nesta espécie de autorização para disparar ideias até então tachadas como “reacionárias”, um dedo engatilhado do Capitão Nascimento. Não o Capitão Nascimento contraditório, atuando em zonas cinzentas na maioria do tempo, aquele dos realizadores do filme. Mas o de cada um, aquele que virou uma espécie de herói no imaginário nacional.

Estamos vivendo dias em que mesmo um reacionário folclórico como o deputado federal Jair Bolsonaro vai ter tantos competidores que precisará mudar de tática se quiser garantir ao menos uma nota de rodapé nos jornais para suas frases bombásticas. Vejam só o que disse o ex-capitão do Bope e atual comentarista de TV, Rodrigo Pimentel, em debate sobre as operações no Rio promovido na quinta-feira (2/12) pela Folha de S.Paulo. “Muita gente se perguntou por que a polícia não deu tiro em todo mundo e matou aqueles 200. Confesso que era o meu desejo. Não tenho a menor vergonha de dizer que gostaria que eles morressem. Era uma situação de beligerância, de guerra”.

Pois é, ele não tem “a menor vergonha de dizer”. Ninguém mais parece ter. Posso ser meio antiquada, mas acho importante ter vergonha. Assim como pudor. Especialmente quando se tem uma expressão pública, o que sempre aumenta a responsabilidade. Capitão Pimentel, como é conhecido o autor do comentário, é tido como a versão encarnada do personagem da ficção Capitão Nascimento. É também um dos autores dos dois volumes do “Elite da Tropa”, livros nos quais se basearam os filmes. Ele costuma explicar que Nascimento é um personagem totalmente fictício, construído a partir de histórias vividas por ele e por outros colegas do Bope.

Aqui há outro capítulo dos mais interessantes sobre a intersecção entre ficção e vida real. Neste mesmo debate, participaram também o cineasta José Padilha, diretor de Tropa de Elite 1 e 2, o antropólogo Luiz Eduardo Soares, ex-coordenador de Segurança do Estado do Rio e coautor dos livros “Elite da Tropa”, e Marcelo Freixo, segundo deputado mais votado do Rio no qual foi inspirado o personagem do parlamentar Diogo Fraga, central no segundo filme. Os três estão entre as principais vozes críticas às operações no Rio e ao que Soares chegou a chamar em seu blog de “pastiche da mídia”.

Não perdem a oportunidade de lembrar que aquilo a que assistimos pela tela das TVs não é uma mera luta de mocinhos contra bandidos nem vai resolver o problema da criminalidade no Rio. E que, sim, a maioria dos policiais continua sendo corrupta e a situação só chegou a esse ponto por causa disso. E que não, não é o tráfico o maior problema hoje, mas as milícias compostas por policiais, bombeiros e militares, pelo Estado portanto, que criaram hoje um modelo de negócio mais eficiente, variado e adaptado ao momento histórico. E que não, as Forças Armadas não devem continuar nas favelas. E sim fazer o seu trabalho determinado pela Constituição, como impedir que as armas sejam contrabandeadas para dentro das fronteiras do Brasil e alcancem os morros.

Entre os méritos de Tropa de Elite 1 e 2 está o de mostrar o que muita gente parecia ter esquecido: a existência de policiais bons e honestos que arriscam a sua vida por um péssimo salário. Mostrou também que estes policiais bons e honestos constituem uma minoria no conjunto da força policial do Rio. A maioria está implicada, por parceria ou por omissão, como não se cansa de dizer Soares, em todas as modalidades de crime. Tropa 1 e 2 mostrou, portanto, que o mal está nos dois lados, na polícia e no tráfico. E apontou a necessidade urgente de distinguir a polícia do crime – hoje indistinguíveis.

Mas, quando Tropa de Elite vira Tropa de Elite em 3 D, a história é outra: a polícia é o bem, os bandidos são o mal e, como bem e mal, mocinhos e bandidos, estão em lados opostos e bem delimitados. Ao anular as diferenças entre o bom policial, uma minoria que precisa ser identificada e reconhecida, e o mau policial, a maioria que também precisa ser identificada e reconhecida, a opinião pública passa a tratar todos como mocinhos. Depois há de sair explicando como boa parte dos traficantes conseguiu fugir ou por que é necessário proibir os heróis de subir os morros com mochilas para evitar que saqueiem as casas e os bolsos dos moradores. Efeitos colaterais da simplificação grosseira da realidade.

A vida real não cabe no preto e no branco. Algo de cinza sempre vaza pelas margens. Neste sentido é que acho importante, além de todas as outras perguntas, tentar entender como Tropa de Elite – o duplo fenômeno cinematográfico – acabou emprestando um suporte simbólico às operações do Rio. Não exatamente por aquilo que disse, mas pela forma como foi decodificado e reelaborado pela população. Ou, dito de outra forma, sempre vale a pena pensar sobre a verdade da ficção e a falsificação do real.

É bem significativo que os criadores do espetáculo mais importante da década – e talvez da história do cinema brasileiro – sejam aqueles que tentam lembrar a toda hora em debates, entrevistas e artigos que o que assistimos na vida real não é espetáculo. Mas os criadores não têm mais domínio da criatura, que na boca do povo, dos políticos e de parte da imprensa vira o que cada um quer ou precisa. Uma pena que as zonas cinzentas de Tropa de Elite 1 e 2 – muitas e ricas – tenham sido deixadas de lado em favor do preto e do branco, sempre mais fácil. E também mais longe das verdades todas.

Por coincidência, enquanto escrevo esta coluna há um aniversário de criança no salão de festas do prédio que dá fundos para o meu. Da janela do meu quarto vejo meninos e meninas, acompanhadas por suas mães e babás, pulando loucamente ao som de: “Tropa de Elite, osso duro de roer/ Pega um, pega geral, e também vai pegar você/ Tropa de Elite, osso duro de roer/ Pega um, pega geral, e também vai pegar você”.
Pegou?

(Publicado na Revista Época em 06/12/2010)

Droga não é demônio

Então por que é tratada pela sociedade como se fosse?

É possível que nunca tenha se falado tanto em drogas como hoje, pelo menos como caso de polícia ou de saúde pública. Nos anos 60, quando as drogas faziam parte do movimento de contracultura, o olhar sobre elas e a função que desempenhavam era outro. E os “malucos beleza” eram vistos de forma muito diversa dos consumidores de crack de agora. A própria diferença de linguagem é reveladora, já que antes se “experimentava” drogas, com a ideia de ampliação de consciência – e hoje se “consome”, como tudo. Um verbo expressa uma vivência – outro o uso. O que mudou, para que o crack tenha se tornado tema de campanha eleitoral, assunto para candidatos à presidência do país?

Ao acompanhar o debate travado em várias instâncias, me parece empobrecedor que um tema tão amplo e cheio de nuances seja reduzido a apenas dois discursos, duas maneiras de olhar: ou é caso de polícia/segurança ou é caso de saúde pública – ou de ambos. Será que estas duas abordagens – repressão e cura – dão conta da complexidade da questão? Desconfio que não.

Por outro lado, me parece bastante curioso que o debate sobre as drogas ilegais atinja esse nível de decibéis justamente numa época em que há um consumo massivo de drogas lícitas, na forma de antidepressivos, ansiolíticos e hipnóticos, receitadas por médicos das mais variadas especialidades. Drogas para ser feliz, para ficar calmo, para dormir. Sem contar as drogas para perder o apetite e aumentar o desejo sexual.

Por que algumas se tornam um problema e outras são vendidas como solução? Quem determina o que o indivíduo pode consumir? E com quais argumentos? E por que aquela que possivelmente seja a droga que causa mais estrago na nossa sociedade – o álcool – é abordada com muito menos estridência?

Ao acompanhar o debate, me chama a atenção o fato de a droga ser encarada como uma espécie de alienígena, desenraizada da sociedade em que é usada e produz sentidos. É como se ela fosse um demônio ou um vírus que entra no corpo à revelia de todo o contexto – desligada de tudo e de todos. E que bastaria ou exorcizá-la, do ponto de vista religioso, ou extirpá-la, no campo da medicina, para que o problema acabasse. Ou ainda reprimir, na visão policial.

Parece que não é tão simples assim – ou o problema já seria menor. Se os mais diversos tipos de drogas sempre foram usados por todas as sociedades, em diferentes momentos históricos, por que a nossa não consegue lidar com elas? Será que não valeria a pena, além de reprimir e tentar “curar”, pensar um pouco mais nos porquês?

É exatamente por ser uma questão que produz muito sofrimento é que acho importante refletirmos sobre ela com mais amplidão – e alargar nosso campo de visão. Em busca de respostas – não definitivas, mas possibilidades de respostas –, procurei o psicanalista Eduardo Mendes Ribeiro. Ele é membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (Appoa), mestre em Filosofia pela PUC/RS, doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e consultor do Ministério da Saúde na Política de Humanização do SUS. Estuda o tema das drogas desde os anos 90 e tem vários artigos publicados sobre o assunto.

Nesta conversa, ele nos ajuda a pensar sobre uma questão tão crucial – para além dos estereótipos.

ÉPOCA – Hoje, as drogas ou são caso de polícia ou de cura. É como se toda a complexidade da questão coubesse nesses dois modos de ver e não existisse outra possibilidade de abordagem. Por quê?
Eduardo Mendes Ribeiro – Por ao menos duas razões: a primeira é a tendência à simplificação do problema, o que, em tese, ajudaria a entendê-lo e enfrentá-lo. Por essa via, elege-se a droga como a causa do mal e os traficantes como os agentes promotores deste mal. Ora, sendo assim, é fácil concluir que o que devemos fazer é, por um lado, tentar evitar que o mal nos atinja: repressão. E, por outro, se fracassarmos no primeiro intento, temos de extrair o mal de nossos corpos: desintoxicação e abstinência. Essa visão também nos poupa dos complexos e incômodos questionamentos acerca das razões pelas quais tantas pessoas decidem se drogar.

ÉPOCA – E quais seriam esses questionamentos tão incômodos? Afinal, por que tantos se drogam, legal e ilegalmente?
Ribeiro – São questionamentos relacionados aos conflitos psíquicos que cada um de nós vivencia: inibições, frustrações, angústias, etc. É muito mais incômodo enfrentar estes fantasmas do que usar uma droga que pode fazer nosso humor melhorar quase imediatamente. O problema é que os fantasmas continuam lá – e nem sempre em silêncio.

ÉPOCA – Em sua opinião, quem é mais drogado? O consumidor de crack do centro de São Paulo ou uma faixa significativa da população mais idosa – assim como muitos jovens – que consome tranquilizantes todo dia?
Ribeiro – Atualmente, há uma tendência de se avaliar o grau de gravidade de uma dependência não mais através de escalas quantitativas de intensidade e frequência, mas a partir dos efeitos que essa prática produz na vida de cada sujeito. Nesse sentido, é provável que aquelas pessoas que passam o dia fumando pedra vivenciem um empobrecimento maior de suas interações sociais, além de se manterem em situações de maior vulnerabilidade. Mas, por outro lado, não há razão para acreditarmos que aqueles que vivem uma vida entorpecida estejam em uma situação muito melhor.

ÉPOCA – Mas por que o crack incomoda e a população que vive uma vida entorpecida não?
Ribeiro – O usuário de crack, ao menos o usuário estereotipado, com maior visibilidade, é alguém que expõe tudo o que nossa sociedade quer evitar: descontrole, desamparo, vulnerabilidade, improdutividade, laços sociais frágeis, ausência de projeto de futuro, etc. O sujeito entorpecido é muito mais identificado com as crenças e valores que nos orientam: ele é visto como um doente em tratamento, ou seja, ele tem um problema que nossa sociedade, através de seus saberes e especialistas, está tratando. Está tudo em seu lugar…

ÉPOCA – Por que o crack virou, hoje, um tema da política, como podemos ver nesse início de campanha eleitoral entre os candidatos a presidente?
Ribeiro – Talvez porque o crescimento rápido do número de dependentes e sua visibilidade pública façam com que se concentrem nesse fenômeno os temores relativos à fragilização de nosso laço social. Os crackeiros espelham, paradoxal e simultaneamente, nossos maiores sonhos e pesadelos: ansiamos por prazer e descompromisso, mas sabemos que precisamos de um conjunto de relações sociais que nos sustentem enquanto sujeitos. Infelizmente, a maior parte dos discursos político-eleitorais é dirigida à promessa de medidas voltadas ao fortalecimento do aparato repressivo e à criação de mais vagas para internação/desintoxicação de dependentes, que é o que responde aos anseios imediatos dos eleitores.

ÉPOCA – E como ampliar a abordagem dessa questão, para além da repressão e da cura?
Ribeiro – Nenhum país do mundo resolveu o problema da dependência de drogas por uma razão muito simples: não se trata de um problema de drogas, mas, sim, dos efeitos do tipo de laço social que construímos. Acho que o que podemos fazer é aumentar o repertório de alternativas através das quais as pessoas possam produzir para si um lugar social. Isto pode se dar de várias formas: através da educação, do esporte, da arte ou mesmo da religião. Mas, é claro que precisamos também de políticas de saúde para acolher e tratar aqueles que não conseguem mais controlar seu uso de drogas. Nessa direção, é preciso avançar na implementação do que já está previsto na Reforma Psiquiátrica e na atual Política de Saúde Mental do Ministério da Saúde. Quando recebo um usuário de drogas em busca de tratamento, costumo propor que falemos de qualquer coisa, menos de drogas. Acho que é disso que eles precisam: encontrar outras coisas capazes de lhes interessar. De drogas eles já falam bastante.

ÉPOCA – Praticamente todas as sociedades usaram drogas, mas parece que só na nossa elas se tornaram um problema. Pelo menos um problema nessas proporções. Por que nossa sociedade, diferentemente de outras, não sabe como lidar com as drogas?
Ribeiro – Na maior parte das sociedades conhecidas, as drogas eram consumidas com alguma forma de controle social. Isto não significa que havia mecanismos repressivos para coibir abusos. Ao contrário, significa que havia um conjunto de entendimentos compartilhados que orientava o uso, em determinadas situações e com determinadas finalidades. Isso poderia se dar em rituais de cura, de mediação com o sagrado ou mesmo com finalidades orgiásticas, para aliviar tensões e produzir prazer. O conhecimento que temos acerca do uso de drogas em outras sociedades nos mostra que, se ele ocorresse com alguma forma de controle social, não trazia problemas pessoais ou para a comunidade. Provocar alterações dos estados de consciência representava algo de extraordinário que acontecia em situações muito específicas. Em nossa sociedade, este tipo de uso ocorre, por exemplo, no Carnaval, quando muitas pessoas se autorizam a fazer coisas que não fazem em seu cotidiano, o que inclui um consumo maior de drogas. E depois voltam à rotina.

ÉPOCA – E o que aconteceu na sociedade ocidental moderna para que a droga passasse a se integrar ao cotidiano e ser usada para o gozo individual?
Ribeiro – O desenvolvimento do liberalismo político e econômico trouxe consigo a constituição de um ethos fortemente individualista. A modernidade rompeu com o passado, afirmando o poder de autodeterminação dos indivíduos. No início, ainda se manteve orientada por um ideal coletivo, representado pelo progresso da ciência. Acreditava-se então que a ciência seria capaz de nos revelar, cada vez mais, o que era real e verdadeiro. Entretanto, no decorrer dos últimos séculos, esse ideal não cumpriu com suas promessas, como tampouco o fizeram outros ideais sociais, como o socialista e aqueles propostos pelos movimentos contraculturais. É nesse contexto que os laços sociais construídos a partir da tradição – passado – ou de projetos coletivos – futuro – se encontram desgastados, produzindo um achatamento do tempo e a percepção de que o que há para ser vivido tem que ocorrer agora. Os interesses pessoais e a pressa são elementos presentes em nosso cotidiano. E é nessa realidade que proliferam diferentes modalidades de uso de drogas: ora para aliviar tensões, ora para potencializar desempenhos.

ÉPOCA – Hoje há uma satanização das drogas, como se elas possuíssem a pessoa à revelia. Como se o processo de se drogar fosse externo ao indivíduo – e não algo movido por questões e necessidades internas, que começou pela escolha daquela pessoa de usar determinada droga, ainda que depois possa ter perdido o controle. Por quê?
Ribeiro – Diante de certos efeitos indesejáveis da ordem social moderna, tendemos a produzir práticas e representações originadas nos tempos pré-modernos. Explicando melhor: mesmo considerando que nossa sociedade se constituiu em torno de uma ética da responsabilidade – temos autonomia para pensar e agir, mas precisamos responder por nossos atos –, a consagração da visão simplista que sataniza as drogas representa um retorno às velhas crenças animistas que atribuem poderes e intenções a substâncias inanimadas. Algumas interpretações antropológicas evolucionistas defendiam que, no campo religioso, haveria um processo de “evolução” das sociedades. Ou seja: em seu início atribuíam poderes sobrenaturais a seres ou forças da natureza, depois teriam vindo as sociedades politeístas e, finalmente, as monoteístas. Estas teses evolucionistas encontram-se desacreditadas no campo antropológico, mas é fato que muitas sociedades “simples” acreditavam no poder sobrenatural de certas substâncias naturais. É um pouco como alguns setores da sociedade enxergam as drogas hoje.

ÉPOCA – Em um de seus artigos, você diz que, no início, as igrejas viam as drogas, todas elas, como coisa do demônio. Já a ciência se contrapunha a esta visão, apostando na autonomia das consciências. Hoje, ambas parecem demonizar as drogas. O que isso significa?
Ribeiro – Na Idade Média, a Igreja condenava o uso de drogas por razões teológicas: “só Deus tem o poder de curar”. Mas também por disputas de mercado envolvendo fé e poder, pois não lhe interessava permitir o crescimento da influência de feiticeiras e curandeiros. Hoje, esse discurso mudou e a condenação que grande parte das igrejas faz ao uso de drogas é fundamentada em sua suposta associação a práticas libertinas, hedonistas e promíscuas. Assim como também é uma eficaz estratégia de marketing para algumas denominações. Basta observar que muitos dos pastores se apresentam como ex-usuários de drogas que, com a ajuda de Deus – e da igreja, através dos dízimos –, conseguiram se libertar. Esse trânsito, das drogas para a religião, é muito frequente.

ÉPOCA – E a ciência?
Ribeiro – O deslocamento operado no campo científico é mais sutil. Partiu da afirmação do direito de qualquer um poder usar a droga que quiser e de uma posição liberal, em que o direito de experimentação fazia parte do processo em que se dava o progresso da ciência. Vale a pena lembrar que até o início do século passado todas as drogas conhecidas eram vendidas livremente em farmácias. Partiu-se disso para uma pretensão de controle e prescrição de uso. Ou seja, as drogas são instrumentos importantes no combate a doenças e na produção de bem-estar, mas seu uso deve ser orientado pelo saber científico, o quer exclui, evidentemente, as modalidades de uso espontâneas.

ÉPOCA – A abordagem atual das drogas parece intimamente ligada à questão do poder e do controle. Como você vê essa relação?
Ribeiro – Atualmente, a forma hegemônica de abordar a questão é resultante de um conjunto de fatores que pouco ou nada tem a ver com os que determinam o consumo. As estratégias de controle e repressão social defendidas por grupos orientados por ideais religiosos e/ou totalitários é um deles. Mesmo considerando que vivemos em uma sociedade fundada a partir de uma ética da responsabilidade – somos responsáveis pelos nossos atos e respondemos por eles – ou justamente por isso, convivemos com grupos que temem os efeitos dessa liberdade. Em vez de uma multiplicidade de formas de pensar e agir, eles prefeririam que todos agissem conforme seus princípios e crenças. Essa posição não se manifesta apenas no campo estritamente religioso, podendo estar presente em diferentes segmentos sociais. Nesse sentido, combate-se o uso de drogas porque ele seria potencialmente subversivo, pouco controlável. Outro fator são os interesses políticos e econômicos de laboratórios e setores da corporação médica, que reivindicam a exclusividade do direito de manipular corpos e mentes. Com o passar do tempo, no contexto da modernidade, o uso de drogas passou a ser cada vez menos controlado socialmente, seja por rituais tradicionais e/ou religiosos, seja por saberes autorizados, como médicos, curandeiros, etc. Este uso “individual” e espontâneo foge ao controle, não podendo ser utilizado como instrumento de poder político ou econômico. Daí a insistência em manter a produção e autorização de consumo de drogas sob o controle de laboratórios e médicos, respectivamente.

ÉPOCA – Você não acredita que a repressão possa causar a redução do consumo?
Ribeiro –
Os conflitos oriundos da marginalização do comércio e consumo de algumas drogas acabam por produzir um senso comum que evita a complexidade da questão e produz a estigmatização dos usuários e a defesa de medidas paliativas – ainda que necessárias –, como a repressão do tráfico e o tratamento de dependentes. Basta lembrar o episódio da Lei Seca, nos Estados Unidos, para concluir que as estratégias repressivas pouco ou nada contribuíram para a diminuição do consumo. Pelo contrário, seu efeito foi de outra ordem: expansão da corrupção policial, aumento do número de problemas de saúde em função do consumo de drogas de má qualidade, criação de um mercado marginal e violento, etc. Essa avaliação foi feita pelo próprio governo dos Estados Unidos, por ocasião da promulgação do ato que aboliu a Lei Seca. Hoje, há um entendimento largamente difundido de que as drogas são a encarnação do mal em nossa sociedade. Trata-se de uma poderosa aliança entre os discursos religioso, científico e o da segurança pública. O mais produtivo seria abordar frontalmente o problema e reconhecer que o uso de drogas em nossa sociedade faz parte de nossa cultura, como fez de tantas outras. E que, em vez de lançar cruzadas antidrogas, hipócritas e inúteis, deveríamos discutir as diferentes modalidades de usos, lícitas e ilícitas, e encontrar formas de minimizar seus efeitos danosos, individuais e sociais. Acredito que essa realidade se constitui no campo das disputas simbólicas, onde se definem valores e sentidos.

ÉPOCA – Como assim?
Ribeiro – O que faz com que o uso de drogas assuma determinado valor e determinada função para algumas pessoas? Como intervir nessa realidade? É evidente que não bastam campanhas publicitárias afirmando que “fumar é brega” ou que o “crack mata”. Não são mais os saberes tradicionais, passados de pai para filho, que orientam nossa compreensão do mundo. Vivemos em uma sociedade fragmentada e individualista, mas que se articula através de uma complexa rede de relacionamentos, presenciais e virtuais. É nesse universo que os sentidos vão se definindo e se modificando. Sendo assim, é possível afirmar que, quanto maior for a troca de idéias e experiências, menor será a possibilidade de um ou mais discursos assumirem uma posição de domínio. Acredito que ganharíamos muito se “gastássemos” essa discussão sobre as drogas, diminuindo sua importância, fazendo com que elas deixem de ser vistas como solução de todos os problemas ou como causadora de todos os males.

ÉPOCA – Vivemos numa sociedade onde se consome muitas drogas legais, parte delas receitada por médicos das mais variadas especialidades. A mesma sociedade que parece ficar um pouco histérica com o crack, por exemplo, não parece ver nenhum problema na massificação do uso de antidepressivos e ansiolíticos. Por que algumas drogas podem ser usadas e outras não? Umas são desejáveis e “terapêuticas” e outras são demonizadas? Qual é a diferença, afinal? Se tomamos drogas para dormir, para ficar feliz, para ficar calmo, para não sentir fome, para ter tesão, por que é ruim cheirar coca, fumar maconha e usar crack? Não estou dizendo que é bom, apenas questionando a lógica de que uma pode e a outra não, uma está incluída e a outra é marginal…
Ribeiro – Do ponto de vista do funcionamento subjetivo, não há nenhuma diferença entre cheirar cocaína, fumar maconha, usar crack ou beber cachaça, consumir antidepressivos, anfetaminas, ansiolíticos. É a mesma lógica: se faz uso de uma substância para produzir uma desejada alteração do estado de consciência e humor. É importante que se diga que as razões pelas quais algumas drogas são proibidas e outras não são proibidas não tem qualquer fundamento epidemiológico, médico, psicológico ou antropológico. Certas drogas são proibidas não por serem mais “fortes” ou “pesadas”, nem por terem maior potencial de criar dependência, ou por causarem mais problemas orgânicos. As origens da proibição podem ser buscadas em um conjunto de preconceitos morais e sectários do início do século XX. Nos Estados Unidos, por exemplo, a proibição de algumas drogas esteve ligada à desconfiança que os puritanos manifestavam com relação à massa de imigrantes que chegava às grandes cidades americanas no início do século. Assim, diferentes drogas foram associadas a diferentes etnias: a condenação do uso de ópio resultou das acusações de corrupção infantil feitas aos chineses; a cocaína era associada à permissividade sexual atribuída aos negros; a maconha à “invasão” dos mexicanos; e o álcool às “imoralidades” de judeus e irlandeses. É evidente que, posteriormente, os interesses econômicos – indústria de bebidas alcoólicas, de cigarros e laboratórios – passaram a atuar fortemente com vistas à manutenção de sua reserva de mercado. É sabido que hoje o maior número de dependentes de drogas é alcoolista. E o álcool é uma droga legal.

ÉPOCA – Por que está tudo certo se as drogas são receitadas por médicos, mas tudo errado se não? O problema estaria no controle, as que são consideradas ilegais seriam aquelas que não podem ser controladas por ninguém?
Ribeiro – Os remédios vendidos apenas sob prescrição médica não são as únicas drogas legais, nem as mais usadas. As bebidas alcoólicas não estão sob controle e podem produzir efeitos da mesma intensidade que os provocados por outras drogas lícitas e ilícitas. Portanto, o “controle” se refere muito mais a questões relativas à produção, circulação e, evidentemente, acumulação de lucros. Neste sentido, as drogas ilegais estão “fora do controle”.

ÉPOCA – Qual é a aposta que se faz na droga? Como a droga se aproxima da sociedade de consumo na medida em que promete – e por um tempo realiza – a possibilidade de ser feliz ou do gozo pleno, tão caro à nossa época?
Ribeiro – Se considerarmos que o capitalismo produziu algo que seria da ordem de uma perversão no campo das relações sociais, na medida em que promoveu o que Marx chamou de “fetichismo das mercadorias”, poderíamos pensar que o aumento significativo de casos de dependência de drogas seria efeito de uma nova perversão, que se constitui como desdobramento da primeira. Ou seja: a lógica da sociedade de consumo se encontra orientada para um progressivo aumento na produção e consumo de bens, que, neste contexto, operam como mediadores das relações sociais, índices de prestígio e elementos produtores de identidades sociais. Entretanto, quando certas modalidades de uso de drogas fazem com que elas se tornem o objeto único de desejo, subverte-se a lógica capitalista. Paradoxalmente, a crença no poder dos objetos pode se constituir numa ameaça a um sistema alicerçado em torno do consumo. Na lógica capitalista, o prazer ou a felicidade que supostamente poderia ser alcançado através da posse de um objeto deve ser sempre parcial e efêmero, fazendo com que o desejo deslize para outros objetos, retroalimentando o sistema, que se constitui numa forma de laço social. O prazer derivado do uso de drogas, mesmo podendo ser intenso, também é parcial e efêmero. Mas, exatamente por sua intensidade e exclusividade, tende a deslocar o sujeito do contexto socialmente regulado de produção e consumo. Quando o sujeito passa a desejar um único objeto, ele deixa de consumir todos os demais. Além disso, dependentes de drogas também não costumam se manter atuantes em atividades laborais, o que faz com que ganhem pouco e consumam menos.

ÉPOCA – Nesse sentido, a droga é antissocial, como nós mesmos o somos, preocupados apenas com a satisfação dos nossos desejos, independentemente do desejo do outro – e não de um projeto coletivo, mais amplo, que inclui o outro? A droga, portanto, se encaixa perfeitamente no modelo individualista, que não está nem aí para o que não é a sua vida ou a vida de uns poucos ao seu redor?
Ribeiro – Exatamente. Mas é importante que fique claro que não se trata de um entendimento fundado em algum tipo de imperativo moral de fraternidade. O risco do uso de drogas em uma sociedade individualista se dá em função de um equívoco, socialmente produzido, de pensar que somos – ou deveríamos ser – radicalmente livres. Segundo esse ideal, não deveríamos depender de ninguém. Por exemplo: deveríamos desfazer qualquer casamento, aliança ou sociedade no momento em que não mais nos conviesse. O problema é que só nos constituímos e nos sustentamos enquanto sujeitos a partir das relações que mantemos com outros sujeitos. Quanto mais frágeis forem estas relações, mais instáveis nos tornamos. E seremos mais dependentes de outras estratégias para nos prover de alguma consistência identitária. Nesse sentido, é possível afirmar que o uso de drogas pode passar a ser um problema para aqueles sujeitos que não assumem ou constroem relações sociais de dependência.

ÉPOCA – Para estes, a droga toma o lugar do que?
Ribeiro – Eles dependem da droga para não depender das relações com outras pessoas. É uma tentativa extrema e paradoxal de manter sua independência.

ÉPOCA – As drogas legais, que mantêm o indivíduo produzindo e consumindo, não parecem ser vistas como um problema. Já as ilegais tornam-se um problema de polícia e/ou de saúde pública. Como você vê essa dicotomia de abordagem?
Ribeiro – Creio ser disseminado um equívoco intencional na abordagem dessa comparação entre os efeitos produzidos pelas drogas lícitas e ilícitas. Não há na literatura especializada nem nos estudos epidemiológicos qualquer evidência que fundamente o entendimento de que as drogas legais mantenham os sujeitos engajados socialmente, enquanto as ilegais produzam improdutividade. As estatísticas demonstram que a droga que mais incapacita seus usuários é o álcool, cujo consumo é legal. Além disso, faltam estudos que investiguem o quanto a prescrição excessiva de psicofármacos, por parte de médicos de diferentes especialidades, condena um grande número de sujeitos a uma vida anestesiada, desvitalizada. Se o médico está apenas preocupado em eliminar o sintoma de seu paciente, este é um processo que pode ir muito longe, porque dificilmente o sujeito apresenta uma única queixa. E, muitas vezes, novas queixas surgem como efeito das primeiras medicações. Assim, passado algum tempo, não há mais como saber o que está se passando com essa pessoa: o que é produto de sua história, de seus conflitos, e o que é efeito desta profusão de remédios. Na maior parte das vezes, o objetivo dessa orientação terapêutica é que o sujeito não sinta nada considerado indesejável. E esse objetivo é alcançado: o paciente não sente mais nada. Por outro lado, basta analisar as pesquisas epidemiológicas e as estatísticas policiais para comprovar que apenas uma ínfima parcela dos consumidores de drogas ilícitas se torna um dependente, incapaz de manter seus laços sociais, incluindo aí os laborais.

ÉPOCA – Não é curioso que o mesmo médico que receita drogas legais para anestesiar o sofrimento, já que sofrer parece ter virado uma anomalia, pretende “curar” os viciados em drogas ilegais?
Ribeiro – Temos aqui duas perspectivas diferentes: a do sujeito que busca uma ajuda para enfrentar seus sofrimentos, que podem ter múltiplos determinantes; e a destes médicos, que tendem a ver apenas o sintoma. Se o sujeito está deprimido, prescrevem-lhe um antidepressivo, se está ansioso, um ansiolítico. E assim por diante. Isso ocorre nos mais diversos contextos clínicos, não apenas no tratamento de dependentes de drogas. Por outro lado, a estratégia de prescrição de drogas de substituição, para combater a dependência a uma determinada droga, é muito antiga e largamente utilizada, principalmente nos Estados Unidos. Ela costuma funcionar quando a dependência é produzida por circunstâncias específicas e episódicas, como a utilização de morfina em feridos de guerra. Nos demais casos sua eficácia é muito duvidosa, pois parte da suposição de que foi a droga que viciou o sujeito.

ÉPOCA – E não foi a droga que o viciou?
Ribeiro – Esta é a principal questão: nenhuma droga vicia. São as pessoas que, eventualmente, se viciam com alguma droga. Isso lembra aquelas advertências de nossas avós, para que não aceitássemos balas de estranhos na saída do colégio, porque elas poderiam conter maconha e nós ficaríamos viciados. Ao contrário do que é veiculado pela maioria das campanhas, qualquer um de nós poderia experimentar até mesmo o crack algumas vezes, sem se viciar. É sempre um sujeito que decide usar uma droga e pode, ou não, optar por levar essa relação mais longe. É claro que existem sujeitos cujas circunstâncias fazem com que eles corram um maior risco na relação com a droga, mas as drogas não fazem nada, são substâncias inertes.

ÉPOCA – As substâncias podem não ter poderes sobrenaturais, como acreditavam e acreditam algumas culturas, mas está provado que algumas substâncias causam dependência, em menor ou maior grau. O que você quer dizer, exatamente, quando afirma que a drogas não viciam?
Ribeiro – Ninguém questiona a existência da dependência de drogas, mas faz muita diferença quem é o sujeito da frase. Dizer que as drogas viciam é diferente de dizer que pessoas se viciam com drogas. O que afirmo é que, para se estabelecer uma dependência, alguém decidiu usar drogas. E é esta motivação, e a história da relação do sujeito com a droga, no contexto mais amplo de suas circunstâncias, que vai definir se ele se tornará um dependente – ou não. Também é importante observar que, no contexto do tratamento de uma dependência de drogas, a primeira etapa, a desintoxicação, é a mais rápida e fácil. Em duas ou três semanas já não há mais nenhuma substância com princípio psicoativo atuando no corpo do sujeito. E todos sabem que ele não está curado de sua dependência. Permanece uma espécie de “memória”, que não é exclusivamente orgânica, nem exclusivamente psíquica, e que se encontra associada a certas situações e sensações que fazem parte da vida do sujeito. Assim, diante de determinado conflito familiar, ou determinada frustração, ele pode voltar a sentir uma “necessidade” de usar a droga a que costumava recorrer.

ÉPOCA – Hoje há uma droga legal, adquirida com receita médica, para cada sentimento humano de desconforto ou conflito. Em que medida o fato de nossa sociedade considerar qualquer sofrimento um sintoma que precisa ser abafado e anestesiado com drogas influencia no uso das drogas ilegais?
Ribeiro – É verdade que os sintomas podem produzir sofrimento, mas, ao contrário do que acontece com as dores orgânicas, em que na maioria das vezes não há razão para não tentarmos eliminá-las, as dores psíquicas cumprem uma função importante de sinalizar a existência de um conflito que está exigindo uma resposta. Eliminar esse sinal apenas nos condena à impotência frente à causa de nosso sofrimento. E ao inevitável deslizamento, com a formação de outro sintoma, com o agravante de termos ainda que suportar os efeitos colaterais da medicação. Um conflito psíquico pode produzir sintomas, inibições, angústias e outros desconfortos. Geralmente isso perturba nossa vida, fazendo com que soframos com coisas que, para os outros, parecem banais. Esses conflitos podem ser tratados, mesmo que nunca completamente eliminados. Isso faz parte da vida de todos nós, mesmo fora do contexto de um tratamento psicológico: a gente tenta superar certas dificuldades, consegue alguns sucessos, volta a deparar com limites e carências, e a vida vai andando. Dá certo trabalho e não nos poupa de vários momentos de mal-estar, mas é a forma como assumimos a direção de nossas vidas – e pode também produzir muita satisfação. Algo diferente ocorre quando se busca evitar esse trabalho psíquico e o mal-estar que o acompanha: sofremos menos em um primeiro momento, mas perdemos a possibilidade de superar aquilo que está nos aprisionando: contornamos nossos conflitos sem nunca conseguir fazê-los mudar de lugar.

ÉPOCA – Mas o quanto a visão contemporânea de que o sofrimento é sinônimo de fracasso e deve ser suprimido da vida tem a ver com o uso de drogas ilegais?
Ribeiro – Acredito que isso tem a ver com o uso de drogas em geral, e não apenas das drogas ilícitas. As estatísticas médicas e farmacêuticas indicam que vivemos em tempos de depressão. Nada de novo nessa constatação. Entretanto, chama a atenção o fato de outras avaliações de nossa sociedade apontarem para a direção oposta: cada vez mais percebemos a existência de uma cultura dinâmica, voltada para a busca de prazeres imediatos, que reconhece e valoriza quase todas as formas de gozo. Tornamo-nos maníacos e depressivos, mas não necessariamente ciclotímicos. Talvez seja mais preciso afirmar que uma sociedade maníaca tende a produzir subjetividades depressivas, pois se o ideal social que nos serve de referência preconiza que todo sofrimento deve ser superado, encontra-se desvalorizado todo aquele que não consegue se ajustar aos modelos de felicidade propostos. Não é difícil entender o quanto o uso de drogas se “encaixa” bem nesse contexto: ele pode tanto nos aliviar de nossas frustrações quanto nos ajudar a melhorar nossos desempenhos. Basta escolher a droga certa para o momento certo.

ÉPOCA – Você faz, em seus artigos, uma afirmação muito interessante – e bastante polêmica – sobre como o saber médico e o toxicômano veem a droga da mesma maneira. Você afirma que a teoria médica coincide com a do toxicômano, na medida em que procura isolar o aparelho psíquico para gozar dele como um órgão. Ou seja, com o auxílio de determinadas drogas pretende-se tanto curar um corpo doente como uma vida doente, sem problematizar as modalidades de relação com o outro. Como é isso?
Ribeiro – Tomemos o exemplo fictício, mas não incomum, de um adolescente que cotidianamente observa seu pai chegar em casa meio estressado e tomar umas doses de cachaça ou uísque; sua mãe consumir religiosamente seu ansiolítico; o médico da família, frente ao primeiro sinal de tristeza e abatimento, receitar um antidepressivo. Esse adolescente, diante das angústias próprias de sua idade, teria alguma razão para se recusar a fazer uso de um cigarro de maconha de vez em quando? Qual seria a diferença? Nesse exemplo, estamos longe de uma toxicomania, mas percebemos uma mesma lógica, que pode vir a ser acionada em situações extraordinárias, como a de uma dependência de drogas. Isso nos lembra do Millôr, que afirmava ter nascido com duas doses de uísque a menos, pois, quando as tomava, se sentia muito melhor. É a mesma coisa: se a psique é vista como um órgão, e se o remédio faz com que este órgão funcione melhor, deduz-se que era ele o que estava faltando. Ou seja, depois de procurar curar o corpo, o órgão doente, hoje se pretende curar a vida doente.

ÉPOCA – O crack é a droga do momento, a grande epidemia. Você acha que o crack é diferente das outras drogas e deve ter uma abordagem diferente?
Ribeiro – Mesmo que se faça uma crítica a muitas abordagens acerca do uso de drogas e às propostas hegemônicas para enfrentar o problema – e é importante que a crítica seja feita –, não há como deixar de reconhecer que se trata de um problema social que exige respostas urgentes. Entretanto, independentemente do tipo de droga utilizada, e mesmo que se reconheça a enorme diferença que existe entre os efeitos do consumo de maconha e de crack, por exemplo, não acredito que devamos nos dedicar à proposição de “estratégias para combate do uso de drogas” ou de uma “clínica da dependência de drogas”. Da mesma forma que não acredito em uma “clínica da depressão” ou uma clínica da “síndrome do pânico”. Em vez de reduzirmos o sujeito ao seu sintoma, ganharíamos mais diversificando nossas estratégias para operar uma “clínica do sujeito”, levando em consideração os contextos sociais em que essas subjetividades são produzidas.

ÉPOCA – E como seria uma “clínica do sujeito”?
Ribeiro – Parto do entendimento de que cada sujeito é absolutamente singular, o que faz com que o trabalho terapêutico também tenha que ser construído caso a caso. É nesse sentido que recuso a idéia de uma “clínica da toxicomania”, como se esses sujeitos compusessem um conjunto, com problemas e saídas semelhantes. Mas é possível propor algumas estratégias e linhas de ação. Nos casos menos graves, atendidos em consultórios e ambulatórios, entendo que o uso de drogas deva ser abordado no contexto da história e do conjunto de relações mantidas por cada pessoa. Não é o uso de drogas que define sua posição subjetiva e o seu sofrimento, mas o contrário: a relação que ele estabelece com as drogas é resultante da forma como ele vivencia seus conflitos e relações. Já nos casos mais graves, em que há uma perda de autonomia do sujeito, se torna necessária uma vinculação institucional, de preferência sem internação, através da qual ele possa contar com o apoio de uma equipe multiprofissional que lhe auxilie em seu processo de reinserção social.

ÉPOCA – Como você vê os tratamentos oferecidos para “curar” a drogadição, que em geral partem de uma oferta da medicina ou da religião ou de uma aliança entre ambas?
Ribeiro – A maioria dos dependentes de drogas que procuram – ou são levados a – tratamento se encontra em uma situação de fragilidade de suas inserções sociais. Normalmente não estão trabalhando ou estudando e vivenciam conflitos no âmbito familiar. Experimentam um sentimento de anomia, em uma errância que tem como únicos pontos de referência os caminhos que levam à droga. Ora, essa situação produz muita angústia, e não raro desespero. Diante dessa realidade, não é de surpreender que as ofertas de certas comunidades religiosas exerçam forte sedução, afinal elas prometem uma pertença comunitária, uma visão de mundo estruturada e uma função revestida de importância e dignidade – “a construção da Obra do Senhor”. Mas essa “solução” cobra seu preço, e não é barato: espera-se do sujeito que ele seja capaz de abrir mão de seus conflitos, ou seja, de sua história, e se engaje incondicionalmente em um projeto coletivo, que ele já recebe pronto. As correntes mais biológicas da psiquiatria, muitas vezes aliadas a determinadas versões da psicologia cognitivo-comportamental, apresentam outro entendimento do problema, de onde deriva outra proposta terapêutica. Esta é direcionada a uma reprogramação da mente e do comportamento, visando sua “normalização”. O que há de comum entre essas ofertas são as certezas de que partem. Não há lugar para dúvidas acerca do que é certo e do que é errado. Para quem está totalmente perdido, isso não é pouca coisa.

ÉPOCA – Mas, a longo prazo, funciona? A pessoa consegue manter esse engajamento no projeto, que, por sua vez, a mantém longe das drogas?
Ribeiro – Dificilmente. Essa reprogramação exige que o sujeito assuma uma nova vida, e sabemos que nossa liberdade de escolha é limitada: não podemos escolher quem queremos ser. Somos o produto de uma história, que não se deixa ignorar. Mas, embora hegemônicos, esses campos, felizmente, não detêm a exclusividade no tratamento da dependência química. “Felizmente” não porque eles sejam sempre ineficazes ou mal-intencionados, longe disso, mas porque muitos dependentes não se adaptam a suas propostas. Há muitas clínicas, ambulatórios e CAPS-ad (Centros de Atenção Psicossocial a usuários de substâncias psicoativas) que assumem um maior respeito à liberdade de escolha dos sujeitos, tomam como referência a estratégia de redução de danos e trabalham a partir de uma escuta das singularidades de cada caso.

ÉPOCA – Como você vê o jogo de culpa que se faz na abordagem das drogas: é culpa da família, é culpa do traficante, é culpa do Estado, é culpa dos amigos viciados, é culpa de um mundo sem valores ou há tantos culpados que ninguém mais tem culpa? A culpa cumpre algum papel nesse jogo?
Ribeiro – A culpa é um dos sentimentos – ou acusações – mais inúteis e produtores de sofrimento com que temos de conviver. Ela nada produz além de recriminações e ressentimentos. Além disso, a atribuição de culpa costuma ser utilizada por discursos autorizados – o científico, o policial ou o religioso – como estratégia de imposição autoritária de seus pontos de vista. Mais interessantes são as tentativas de produção de consensos mínimos sobre os problemas que envolvem o consumo de drogas e a pactuação de responsabilidades no que se refere à forma como o problema deverá ser enfrentado. Isso vale tanto para um contexto familiar, quanto para a elaboração e implementação de políticas públicas.

ÉPOCA – Qual é a sua opinião sobre a descriminalização das drogas, no geral, e a descriminalização só da maconha, como propõem alguns, inclusive o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso?
Ribeiro – Não vejo razões pelas quais consumir drogas deva ser considerado um crime, o que não é o mesmo que defender sua liberação irrestrita. É interessante notar que as origens da proibição ao uso de determinadas drogas não estão relacionadas a qualquer avaliação de ordem médica, psicológica, epidemiológica ou antropológica. Estão associadas de forma muito mais direta às pressões exercidas por certos segmentos sociais, a partir de preconceitos morais e estigmatizações sectárias. Deveríamos ser capazes de aprender com nossos erros e, no momento em que se evidenciam as contradições de nossa política proibicionista, investir em estudos multidisciplinares e promover um amplo debate, depurado de moralismos e respostas fáceis.

ÉPOCA – E quais seriam as questões centrais deste debate?
Ribeiro – Questões que discutam poder e responsabilidade. O que legitima que alguém legisle ou defina o que posso ou não consumir? Se é uma questão que extrapola o âmbito das liberdades individuais, envolvendo problemas de saúde pública, quais são os critérios para definir quem pode e quem não pode consumir tais e tais drogas? Repressão e marginalização são boas estratégias para a produção de saúde?

ÉPOCA – Qual é a sua opinião sobre a campanha nacional contra o crack lançada pelo Ministério da Saúde (e recentemente ampliada pelo presidente Lula)?
Ribeiro – A campanha promovida pelo Ministério da Saúde promove grandes avanços, entre eles o de respeitar os direitos dos usuários, o de operar a partir da lógica de redução de danos, o de priorizar a abordagem do problema no território em que vive o usuário e o de evitar internações prolongadas. Entretanto, é sabido que esse tipo de abordagem enfrenta fortes resistências de parte daqueles que se opõem a Reforma Psiquiátrica e se mostram saudosos dos antigos manicômios. Para estes, o melhor seria ampliar o número de leitos de internação, segregar e “tratar” o maior número possível de usuários, para depois “devolvê-los” – se possível – para o convívio social. Infelizmente, através dessa estratégia, muitos psiquiatras evitam a abordagem da intensidade dos dramas humanos – preferindo a calmaria dos sedativos.

(Publicado na Revista Época em 14/06/2010)

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