A vida muda num segundo

O que podemos aprender ao entrar em contato com o imponderável da vida?

Na segunda-feira, 1° de junho, peguei um táxi para me levar à redação da ÉPOCA, em São Paulo. Eu vou cedo, para fazer a última revisão no texto desta coluna, antes de enviar para a equipe de ÉPOCA online botar no ar. Depois, participo da reunião de pauta das 10h, onde são tomadas as primeiras decisões sobre a próxima edição da revista. O taxista estava nervoso. “Você viu o que aconteceu? Um avião desapareceu”. Foi assim que eu soube da tragédia do Air France. O motorista precisava compartilhar seu horror com alguém. Relatou-me todos os detalhes que ouvira pelo rádio até chegar ao prédio da Editora Globo. Meia-hora de trânsito paulistano depois, eu sabia que mais de duas centenas de pessoas haviam sumido em algum momento depois das 23h15 do domingo, 31/5. Para além disso, só havia incerteza.

Logo depois da minha chegada à redação, o diretor de ÉPOCA, Helio Gurovitz, me alcançou. “Você vai para o Rio”. Eu pedi uns minutos para terminar a coluna, levantei e fui. De avião, claro. Na hora, é sempre um misto de excitação e de medo, pelo menos para mim. Excitação porque eu sou, como diz minha família, um “bicho repórter”. Eu sofro se não estou onde as coisas estão acontecendo. E medo porque eu sabia que teria de entrar em contato com uma dor sem nome. Cheguei à sucursal do Rio no início da tarde e comecei a localizar os parentes das vítimas, junto com outros quatro colegas. Como você fala com alguém que acabou de saber que o corpo da pessoa que mais amava possivelmente está em algum lugar do oceano Atlântico?

Tarde da noite, no hotel, meu marido me ligou. “Como você está?”. Eu disse: “Estou bem. Acho que depois de 20 anos de reportagem já consigo lidar melhor com isso”. É incrível como a gente, por mais que se esforce, se conhece menos do que gostaria. Na semana que passou eu estava particularmente muito iludida comigo mesma. Naquela noite dormi mal. Tive pesadelos, depois insônia. Uma rotina que se repetiu pelas noites seguintes. Só agora, uma semana depois, acordo da primeira noite sem sonhos ruins.

Peguei um táxi para me levar à sucursal logo cedo, na terça-feira. O Rio de Janeiro continuava lindo, as pessoas caminhavam ao sol, sem ligar para o vento de junho. Na minha cabeça, ecoava sem parar a frase de Joan Didion, uma brilhante jornalista americana: “A vida se transforma rapidamente, a vida muda num instante, você senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente”. Joan a escreveu no livro “O Ano do Pensamento Mágico” (Nova Fronteira, 2006), em que elabora, com uma grande reportagem, o luto pela perda repentina de seu marido, vítima de um acidente coronariano fulminante.

Eu tinha um longo caminho até a sucursal. O trânsito do Rio não chega perto do caos de São Paulo, mas ainda assim é difícil. Concentrei-me em pensar no que eu estava sentindo, em entender aquela noite de sonhos ruins, em me entender naquele dia que começava. Por que eu, que tanto me interessava pela tragédia humana, rejeitava tanto aquela cobertura (para além da dificuldade óbvia, claro)? Porque é um vazio, concluí. Ainda que o piloto possa ter errado ou o avião ter algum problema mecânico, não há desejo ali. No assassinato, alguém quis matar, ainda que por um segundo. Na guerra, há intenção. Nas mortes desejadas por alguém há drama humano. Há cobiça, há inveja, há maldade, há até – ou principalmente – paixão. Mas na queda de um avião, se ela não for causada por uma bomba, não. Pelo menos era o que eu acreditava nesse ponto de minhas divagações.

Tragédias como essa comovem tanto as pessoas todas, mesmo as que não tiveram nenhuma perda, mesmo as que nunca voaram, porque esse tipo de fatalidade nos coloca em contato com aquilo que mais tememos: a certeza de que pouco controlamos o nosso destino. É provável que quase todos os passageiros do voo 447 estivessem perfeitamente saudáveis, nem remotamente ameaçados por uma doença. Apesar de toda a empáfia, de conseguirmos até mesmo cortar os céus com asas de metal, a verdade é que toda a certeza de controle não passa de ilusão. Nossa vida muda em um segundo, para o bem e para o mal, sem que pouco ou nada possamos fazer para evitar.

Suspeito que a impossibilidade de controlar o que realmente importa, como a nossa vida, é o que mais tememos em nossa época, toda ela supostamente dominada por uma parafernália eletrônica que nos parece tão precisa, tão poderosa, tão segura. Tão nossa. Descubro então, antes de chegar à Cinelândia, no centro do Rio, que esse talvez seja o maior de todos os dramas humanos.

Catástrofes como a do voo 447 confrontam-nos de imediato com nossa verdade mais profunda: não controlamos quase nada do que é essencial, menos ainda a morte. E sobre isso há pouco a dizer. Ninguém desejou a morte de 228 pessoas que carregavam seus sonhos para Paris. Aconteceu. É esse o vazio com que temos de lidar. A culpa não é do outro, como nos assassinatos que mobilizam a opinião pública. Não há um psicopata tão supostamente diferente de nós que podemos acreditar que estamos a salvo de toda loucura. Não há leis nem cadeia para isso. Não há como evitar por completo falhas e erros. Ainda que a causa seja um erro humano ou uma falha mecânica, isso sempre poderá um dia acontecer. Não há como prever ou escapar totalmente das tempestades da vida. E é esse o tipo de calamidade que mais nos evoca a tragédia maior, aquela com a qual já nascemos, que é a certeza da inevitabilidade da morte.

No caso do voo 447 não podemos nos iludir de que não seremos afetados, de que o drama está longe de nós – ou mais perto do outro. Não. Essa é a fatalidade que pertence à verdade essencial da vida de cada homem, de cada mulher. Não há controle. A vida muda rápido, a vida muda num instante, você senta na poltrona de um avião para uma viagem que você planejou nos mínimos detalhes e a vida que você conhecia acaba de repente.

Pensando tudo isso que agora escrevo, comecei a chorar no banco de trás do táxi. Não um choro convulso, mas lágrimas lentas e intermitentes. Eu sofria pela perda de todas as óperas que o maestro Sílvio Barbato não comporia, pelas frases musicais que jamais seriam criadas; pelas descobertas que o cientista Octavio Augusto Ceva Antunes deixaria de fazer numa área tão importante como a dos medicamentos contra o HIV; pelo que Deise Possamai jamais saberia sobre si mesma, porque a viagem que fazia à Itália em busca de suas raízes nunca seria completada; pelos amigos que Adriana Van Sluijs, que nasceu para ser amiga de alguém, não teria. Percebi naquele instante, enquanto olhava para o mar do Rio de Janeiro, o quanto o mundo acabara de ficar mais pobre por todas as vidas que deixaram de existir de repente.

E pelo menos umas duas lágrimas abriram um rastro na camada de protetor solar que cobria meu rosto, por todas as possibilidades perdidas por aqueles que tiveram o curso da vida alterado, ainda que indiretamente, pela queda do avião da Air France. Como o rumo da existência havia mudado de forma abrupta. Até mesmo para mim. Pensei na semana que eu tinha planejado com tantos detalhes. Que consequências teria essa mudança de curso na minha vida, a longo prazo? Que acontecimentos em cadeia foram suspensos e que outra série foi acionada porque eu estaria no Rio e não em São Paulo, fazendo isso e não aquilo? Eu nunca saberia, já que não há como saber o que poderia ter sido. Mal podemos ter a pretensão de saber o que é.

Quando cheguei à sucursal, liguei para o amigo de um dos passageiros do voo 447. Perguntei a ele se achava que uma das filhas gostaria de falar sobre o pai para o perfil que eu estava fazendo. Ele disse: “Não vou perguntar isso a elas, eu tenho de ser sensível. Sei que vocês, jornalistas, não têm sensibilidade nessa hora”. Minha garganta arranhou. Por ela emergiu uma resposta malcriada, mas tive a sensatez de prendê-la ainda no esôfago. “Nós, repórteres”, como as pessoas gostam de dizer, convivemos com as certezas alheias a nosso respeito. As pessoas parecem sempre saber quem somos e o que sentimos: ou seja, somos seres sedentos de sangue, sem nenhuma espécie de limite, prontos a desrespeitar a dor de alguém para dar uma notícia sensacionalista. É verdade que alguns são assim mesmo. Mas também é verdade que a maioria dos jornalistas que conheço não tem nada a ver com esse perfil. Naquele momento, minha colega Martha Mendonça enchia os olhos de lágrimas ao desligar o telefone depois de tentar falar com a mãe de uma vítima. Escreveu um post no blog Mulher 7X7: “Jornalista não pode chorar?”

Contar a história das tragédias faz com que nós, jornalistas, entremos em contato com uma frequência não desejada com aquilo que a maioria tenta esquecer para conseguir tocar a vida. Nos meus primeiros 11 anos de reportagem, trabalhei no jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Lá, eu era conhecida como uma repórter competente para “contar histórias humanas”. Isso fazia com que sempre fosse escolhida para cobrir todo o tipo de drama, de assassinatos a acidentes. Num ano, a RBS, grupo ao qual pertence o jornal, fez uma campanha para reduzir os acidentes de trânsito. Foi determinado então que todos os choques com vítimas fatais virassem notícia no jornal. Todos.

Era eu a primeira a ser escalada. Minha missão era contar quem eram aquelas pessoas cuja vida acabara de se interrompida, quais eram seus sonhos suspensos num átimo, além de todos os detalhes das circunstâncias que as levaram até ali. Lembro que à meia-noite de um domingo eu me vi numa estrada, a 200 quilômetros de Porto Alegre, diante dos corpos carbonizados de quatro crianças no banco traseiro de um carro. Comecei a perceber o óbvio: cada pessoa, rica ou pobre, velha ou jovem, preta ou branca, era movida por um sonho, todas elas estavam indo fazer alguma coisa quando morreram de repente, todas tinham alguma circunstância que poderia ter evitado que estivessem naquele carro, naquele quilômetro, naquele exato instante. E que todos os pequenos detalhes do cotidiano que, em circunstâncias normais sequer são registrados na memória, ganham sentido e relevância na fatalidade. Alguns até mesmo se revestem de premonição.

Logo comecei a detectar todos esses detalhes e fluxos de acontecimentos na minha própria vida. Cada acontecimento trivial tinha potencial de profecia. Se eu perdia um ônibus, eu já imaginava o lide (como é chamado o primeiro parágrafo de uma matéria): “Eliane Brum correu para pegar o ônibus tal, mas as portas se fecharam diante do seu rosto. Ela ainda gritou para o motorista, mas ele seguiu. Um passageiro tentou fazê-lo parar, mas…” É claro que o ônibus seguinte explodiu. Ou, ao contrário, era esse que tinha explodido. As circunstâncias que levaram à morte poderiam ser as mesmas que levaram a escapar da morte. “Eliane Brum correu para pegar o ônibus tal, mas as portas e fecharam diante do seu rosto. Ela ainda gritou para o motorista, mas ele seguiu. Ela xingou mentalmente sua mãe, que havia telefonado na hora em que ela abria a porta de casa para sair. Mas, não fosse o telefonema, ela hoje estaria morta…”.

Ou seja. Sempre pode ser qualquer coisa. E foi isso que começou a me apavorar. Eu cobria um acidente por semana. No mínimo. Fiquei tão aterrorizada com a total falta de controle sobre o destino, o meu e o de todos os outros, que passei a narrar mentalmente reportagens sobre a minha vida. Ou morte. Tudo o que eu fazia – ou deixava de fazer – soava como premonição. No segundo seguinte, a depender de alguma decisão prosaica, eu poderia estar morta ou escapar da morte. Mas como saber? Era um mergulho radical demais na essência da matéria da vida. Porque é exatamente assim: num segundo podemos estar mortos ou escapar da tragédia, e isso é determinado por uma decisão circunstancial, banal. Como mostraram todas as reportagens com aqueles que embarcaram no voo 447 – e com aqueles que “quase” embarcaram.

Mas pensar o tempo todo que podemos estar mortos daqui a um segundo nos impede de viver. Não lembro como lidei com isso para não ficar totalmente paranóica. Revivi essas lembranças agora, ao narrar as histórias dos passageiros do avião. Me surpreendi, no voo de volta, escrevendo mentalmente um lide. Nele, a repórter que cobrira a tragédia do Air France morrera na queda do avião que a levava de volta para casa. Em seguida lembrei que o mesmo imponderável que poderia me levar à morte repentina já havia me levado ao encontro de um grande amor. O mesmo imponderável foi o que determinou a combinação genética que fez de mim o que sou. É feita da mesma matéria a tragédia e o grande encontro, o melhor e o pior, o começo e o fim da vida. Exausta, acabei dormindo.

Tempos atrás vivi a pior turbulência que passei a bordo de um avião, do tipo que a bagagem despenca na nossa cabeça e as pessoas gritam. Rapidamente fiz um balanço da minha trajetória. Pensei: “Eu não quero morrer agora. Mas vivi intensamente a minha vida até aqui”. E eu sentia isso profundamente, nos ossos.

Quando a turbulência passou, mas ainda assim o avião não pôde descer porque os ventos eram muito fortes, e tivemos de voltar porque o combustível poderia ser insuficiente, peguei um pedaço de papel e escrevi para a minha família: “Não se preocupem. Eu vivi intensamente a minha vida. Vivam as suas vidas e sejam felizes, porque eu fui”. Eu queria libertá-los da minha perda trágica, mas também queria me libertar para a morte sem tragédia. Guardei esse pedaço de papel junto com os documentos, na esperança de que fossem encontrados. Mas o avião conseguiu abastecer, os ventos cessaram e eu cheguei em casa pronta para mais vida, outras reportagens, novos medos.

Agora, no instante em que escrevo, cruza pela minha cabeça o pensamento: “E se essa coluna for premonitória?”. Mas logo essa ideia vai embora, levada pelo cheiro absurdamente delicioso do cordeiro que o João prepara na cozinha para o almoço de domingo, receita secreta e imbatível que alegra prosaicamente nossas vidas.

Espero que, se deu tempo para pensar em algo ao perceber a iminência da morte, cada um dos passageiros do voo 447 tenha lembrado de que viveu intensamente a sua vida. E que essa certeza possa tornar não mais fácil, mas menos pesado, o luto de quem os amava.

Só consegui contar suas histórias porque percebi que era disso que se tratava: a memória de uma vida que valeu a pena, seja por pequenos ou grandes feitos, tanto faz. O que escrevemos ao contar a trajetória dos passageiros do voo 447 não foi uma narrativa de morte, mas de vida. É só a vida que pode dar algum conforto na morte, é só a vida que dá sentido à morte. E é só isso que torna possível ser repórter e fazer bem o nosso trabalho diante de uma dor impossível de alcançar por palavras.

Diante da consciência da falta de controle sobre nosso destino, só nos resta viver bem a nossa vida enquanto ela existir. E isso não é pouco.

(Publicado na Revista Época em 08/06/2009)

Elas não são gays

Michele e Carla são casadas, têm filhos, mas afirmam não ser homossexuais

Quando conhecem alguém, Michele Kamers e Carla Cumiotto fazem questão de se apresentar sem deixar nada por dizer: “Somos casadas, fizemos inseminação artificial em São Paulo e temos dois filhos”. Elas preocupam-se em deixar tudo claro por acreditar que são as dúvidas e sombras que alimentam maledicências e preconceitos. E, como formaram uma família diferente do padrão convencional, querem que seu casal de filhos cresça numa sociedade preparada para recebê-los. Conheci essas mulheres extraordinárias dias atrás, quando as procurei com a proposta de contar sua história. O resultado desse encontro é a reportagem “A primeira nova família brasileira“, publicada na atual edição de ÉPOCA.

Michele e Carla conquistaram na Justiça o direito de registrar seus gêmeos, de 2 anos, no nome de ambas. Até agora só tinham o sobrenome de Carla, a mãe biológica. Michele não aceitava a ideia de ter de entrar com um pedido de adoção. Ela desejou esses filhos, acompanhou o processo de inseminação, via banco de esperma, esteve ao lado de Carla durante toda a gestação e no parto por cesariana, e cria junto com Carla os dois filhos na casa que ambas compraram. “Eu não poderia adotar meus próprios filhos”, diz. “Eles nasceram do meu desejo, tanto quanto do de Carla.”

É a primeira vez que a Justiça brasileira reconhece um vínculo exclusivamente afetivo, simbólico, como parental. Não há nenhum traço biológico ligando os gêmeos a Michele. Mas ninguém que conhece a família, assim como o juiz Cairo Roberto Rodrigues Madruga, da 8ª Vara de Família de Porto Alegre, tem qualquer dúvida sobre o fato de eles serem tão filhos de Michele quanto são de Carla. A surpresa é que uma das maiores vitórias na área dos direitos dos LGBTTTS é de um casal de mulheres que afirma não ser homossexual – não por preconceito, mas porque acreditam que a questão é mais complexa do que parece. A sigla, cada vez maior porque há sempre uma nova diferenciação a incluir, significa Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Trangêneros e Simpatizantes.

Quando Carla e Michele disseram-me que não se identificavam como homossexuais, meu primeiro sentimento foi de estranhamento. Até então eu me considerava heterossexual – uma definição que identifica pessoas que costumam viver suas histórias de amor com o sexo oposto, mas que raramente é usada porque ninguém precisa ficar afirmando algo que é o convencional – e, principalmente, que é aceito. E homossexual era todo aquele que vivia relações afetivas e sexuais com o mesmo sexo. Simples assim.

Pelos amigos gays e por algumas reportagens que gostaria de ter feito, sempre soube que os arranjos eram muito mais complexos e interessantes do que isso. E que, ao reduzir a diferença a uma palavra ou mais palavras fechadas em seu significado, perde-se de vista um universo pleno de nuances. E nós, ditos heterossexuais, também somos reduzidos a algo que parece muito óbvio – e que de fato não é, ou pelo menos espera-se que não seja. Mas nunca fui provocada a pensar tanto assim no assunto.

Ao entrevistar o casal em sua casa, em Blumenau (SC), seus argumentos me levaram a uma série de novas questões. Ao final do primeiro dia, eu e o fotógrafo Marcelo Min pedimos uma garrafa de vinho, no hotel, e ficamos conversando sobre as tantas perguntas inusitadas que a reportagem nos provocava. Esse é sempre o melhor cenário para um repórter e para um fotógrafo que amam o que fazem: quando a pauta se mostra muito mais complexa do que parecia e nos desafia, também do ponto de vista pessoal, a indagações inéditas. Acredito que uma reportagem só acontece quando repórteres e personagens se transformam nesse encontro. E espero ter colocado nelas quase tantas pulgas quanto elas me colocaram.

Carla e Michele são psicanalistas, professoras universitárias, que pensam bem e têm um ótimo senso de humor. Formam um casal mais tradicional do que a maioria dos casais convencionais que eu conheço. Cada uma delas tem uma papel bem definido na relação: Michele ocupa a posição masculina e Carla a feminina – entendendo tanto o feminino quanto o masculino nas definições tradicionais inscritas na cultura. Carla sempre namorou homens – masculinos – e Michele é a primeira mulher de sua vida. “Não posso me identificar como homossexual porque sou atraída pela posição oposta”, diz Carla. “Gosto de homens e mulheres masculinos. Jamais beijaria uma mulher ou um homem feminino.” Na rua, Carla segue olhando para homens e, em geral, observa uma mulher quando se interessa por seus sapatos, bolsas ou roupas.

Michele namorou gente de ambos os sexos durante a adolescência, mas acabou fixando-se em mulheres femininas na vida adulta. Quando viu Carla, sua professora no curso de Psicologia, encantou-se pelo vestido justo, de um ombro só, e pelas unhas vermelhas. Ela mesma está bem longe do que seria o esterótipo de uma mulher masculina. Michele é bonita, veste-se com estilo, inclusive usando vestidos justos nas festas, usa brincos, colares e maquiagem, tem luzes no cabelo pelos ombros. Mas, por um sentimento intangível, qualquer um que se aproxima dela sabe que ela é masculina, mas não no sentido de se parecer a um homem, mas masculina como só uma mulher pode ser.

E, para ciúmes de Carla, que descobriu-se com a novidade de um marido circulando predominantemente entre mulheres, Michele mesmo sem querer desperta paixonites entre garotas homo ou heterossexuais. Mas também não consegue ver-se como homossexual. “Hoje existem diversos modos de ser mulher, inclusive ser mulher e ter uma posição masculina. Do mesmo modo que é possível ser um homem na posição feminina. Não é preciso cortar o pênis para ter um lugar social. Muita gente, ao mudar de sexo, está resolvendo na anatomia uma questão psíquica, uma questão de reconhecer-se no corpo que se tem”, diz. “Acho que uma mulher precisa ser muito mulher no sentido de não ter medo de ser confundida com um homem. Me vejo como uma mulher masculina que gosta de mulheres femininas.”

Carla e Michele não frequentam guetos gays, como bares, restaurantes e danceterias. A maioria de seus amigos poderia ser identificada como heterossexual. “Todo o gueto – e não apenas o homossexual – visa excluir a diferença. Seja ele ideológico, religioso, racial ou sexual”, diz Michele. “E nós acreditamos que é o confronto com as diferenças que nos faz avançar, que nos apresenta novas possibilidades de existir, que nos permite a invenção de uma vida melhor. Nas ocasiões em que tentaram eliminar as diferenças, determinar que só existia uma forma de viver, foi muito triste, como no nazismo e no fascismo.”

Como a questão de ser ou não homossexual tangenciou as cinco horas de entrevista, Carla e Michele ainda me enviaram um email, com o objetivo de clarear sua posição. É Carla que escreve primeiro: “Não nos reconhecemos como homossexual justamente por que, ao se apresentar como ‘homossexual’ nos parece que o sujeito reduz e condensa o conjunto de traços identificatórios que o define a apenas um: ‘o homossexual’. Ou seja, como se a partir desse momento deixasse de ter nome próprio, de ser filho, de ter uma profissão, de ter uma identidade de homem ou mulher. Somos mulheres e entendemos que, na vida, se é homem ou mulher. Para depois, a partir das determinações discursivas da época em que se vive, assim como a partir das marcas infantis, e assim como dos ‘bons encontros’ na vida, cada um vai se referenciando a partir do masculino ou do feminino enquanto posição psíquica. E isso vai determinar seu jeito de amar, de namorar, de fazer laço, etc. Por exemplo: No primeiro dia em que ficamos, quando fui tocar o corpo da Michele, me surpreendi que não tinha um pênis. Isso é só para te inspirar e te dar um exemplo de que o quanto o conhecimento da anatomia e da realidade é menos determinante que a dimensão do simbólico enquanto representação. Isso é para brincar um pouco do quanto existem mil e um ordenadores e arranjos possíveis no campo da sexualidade e, principalmente, uma infinidade de arranjos possíveis para um casal”.

O texto continua, desta vez escrito por Michele. “Gostaríamos de deixar uma interrogação: o que é apresentar alguém como homossexual, na medida em que nunca vimos alguém se apresentar como heterossexual? Ou ainda, como poderíamos aceitar essa representação se a idéia do homossexual faz alusão à atração pelo mesmo sexo, se o encontro entre mim e Carla diz justamente da atração pela diferença de posição? Ou seria o estereótipo ‘homossexual’ uma forma de anular a reflexão e de manter a ilusão de que não temos ‘nada’ comum para fazer laço?”.

Considerei as questões colocadas por elas tão interessantes que quis trazê-las para essa coluna. Tudo o que nos provoca a pensar sempre nos faz avançar. Concordar ou discordar não é o mais importante. Acho que as pessoas dão valor demais ao “concordo” ou “discordo” – e assim perdem ótimas oportunidades de aprimorar sua reflexão porque sentem-se ameaçadas quando algo abala suas convicções. Provocações intelectuais valem a pena porque nos fazem refletir para além do que pensávamos antes – e tornam possível chegar a questões que também superam as iniciais. Valem a pena porque nos fazem duvidar de nossas certezas. E esse é um excelente exercício para nos tornarmos pessoas melhores, que pensam mais e melhor e conjugam a tolerância. Se o método servir para alguém, sempre que algo me parece muito novo ou mesmo absurdo, eu faço um exercício que começa por um silencioso, mas nem por isso menos sonoro: “Será?”.

É necessário ressaltar que a denominação homossexual e seus derivativos foram usadas por muito tempo para discriminar. Até pouco tempo o “homossexualismo” era considerado uma patologia, um desvio. E há quem ainda defenda essa teoria. Por outro lado, com imensa coragem e obstinação, o movimento gay conseguiu transformar uma definição que era pejorativa em ação afirmativa, fundamental para a conquista de direitos. Foi preciso afirmar a diferença para conquistar o direito de existir. Fechar-se em guetos se impôs como um espaço de proteção diante de uma sociedade preconceituosa – e uma estratégia para encaminhar as questões legais com maior poder de pressão. Hoje, o próprio desdobramento da sigla LGBTTTS, que não para de aumentar em função de novas definições, mostra um caminho de abertura. O trinômio GLS (gay, lésbicas e simpatizantes) não abarca mais todas as diferenças. E possivelmente teremos uma sociedade melhor quando as diferenças não precisarem mais ser explicitadas numa sigla.

É por esse caminho que me parecem ir Carla e Michele. Elas não ocultam nenhum elemento de sua condição. Pelo contrário, apresentam-se com uma transparência pouco vista, mesmo em militantes da causa. É preciso observar ainda que elas não circulam por guetos, mas na universidade, na escola dos filhos, nos restaurantes da cidade, no clube, nos próprios consultórios. E não em São Paulo, uma cidade que pelo tamanho permite a vivência de todos os arranjos – mas em Blumenau, uma cidade de porte médio, conservadora, com população predominantemente de origem alemã.

Ao escutar a argumentação de Carla e Michele, fiz várias indagações sobre minha vida e analisei meus arranjos amorosos em retrospectiva. Provavelmente eu nunca lidaria bem com um parceiro com uma posição masculina tão determinada. Percebo que tenho muito forte em mim as duas posições – e as alterno nos jogos amorosos e sexuais. Homens muito masculinos ou femininos demais acabam por me desinteressar. Sou atraída por gente que mistura, me fascino pelas nuances. E provavelmente por isso meu casamento tenha sobrevivido não às pequenas, mas a pelo menos uma grande crise.

Gosto, numa história de amor, da liberdade de ser uma coisa e outra. E, embora já tenha me sentido atraída por mulheres – femininas e masculinas –, nunca aconteceu. O que não significa que não acontecerá. E me exponho aqui em reciprocidade à exposição dessas duas mulheres, que entenderam que tinham a responsabilidade ética de se mostrar, para que outros brasileiros pudessem refletir sobre uma questão tão importante. Não acho que meu jeito é melhor que o de ninguém – nem que o de Michele e Carla sejam melhores ou piores que todos os outros possíveis. Acredito apenas, por tudo que vi, ouvi e senti, que elas formam um casal interessante e criaram uma família bonita.

Saí dessa experiência de reportagem com apenas uma convicção pessoal. Não sou heterossexual. Não porque pretenda começar a namorar mulheres, mas porque cheguei a conclusão de que essa definição diz muito pouco sobre a complexidade do que somos. Está na hora de criar nomes mais fluidos, acho eu. Se alguém me perguntar se sou homo ou hetero, vou dizer: “Sou uma mulher às vezes masculina, às vezes feminina, que gosta de homens às vezes femininos, às vezes masculinos”. É mais complicado, sem dúvida. Mas é bem mais estimulante. E libertador.

(Publicado na Revista Época em 01/06/2009)

A história de Lili Lohmann

Se alguém lhe disser que você é substituível, não acredite

Dias atrás, meu telefone na redação da ÉPOCA tocou quando eu arrumava minhas coisas para ir embora. Atendi um pouco impaciente. Do outro lado, uma voz de mulher com sotaque alemão. “Eliane, aqui é Lili Lohmann.” No mesmo instante, voz e nome resgataram-me para mim mesma. “Estou ligando para dizer que li teu último livro, O Olho da Rua, e adorei.” De novo, eu sabia quem era eu. Lili me contava o que importava na vida. E aquela noite que seria mais uma, numa rotina de repetições, povoou-se de significados. Lili me devolvia a grandeza.

Quando eu aprendi a ler, aos sete anos, senti que minha vida ganhava todas as possibilidades do mundo. Cheguei perto dessa sensação algumas vezes ao longo dos meus 43 anos, mas nunca como a dos primeiros livros. Desde então, eu, que era ao mesmo tempo uma criança que olhava muito e falava pouco, mas também uma criança que aprontava bastante, passei a atravessar meus dias trancada no quarto lendo um livro atrás do outro. Às vezes nem comia. Ou me sentava à mesa para o almoço imersa na última linha lida, temerosa de perdê-la numa colherada de feijão e, com ela, a chance de chegar à linha seguinte.

Lia até quatro, cinco livros por dia. Comecei pelos infantis e logo passei para os adultos. Aos dez anos, eu já tinha lido todos os livros de José de Alencar, não porque gostasse, mas porque não conseguia parar até chegar ao fim da coleção. E me atraía nele aquele erotismo velado, de loiras que amavam índios de pele cor de cuia, dândis que se perdiam pela marca de um pé minúsculo deixada na lama, moças virtuosas que viravam prostitutas. A partir daí, nada, nem mesmo minha iniciação sexual, foi vivida sem a ajuda inestimável dos livros. Era neles que eu buscava as respostas às tantas dúvidas que me assaltavam.

Então conheci Lili. Essa moça de origem alemã, ao mesmo tempo austera e enérgica, magra e sólida, com cabelos castanhos encaracolados e cortados curtos, cuidava da seção de livros da Livraria Cultural, a maior de Ijuí, minha cidade natal no Rio Grande do Sul. E Lili gostava de livros, entendia de livros. Meus pais, ambos descendentes de imigrantes italianos esfomeados e analfabetos, tinham um acordo com relação à sua prole: não poderia faltar comida nem educação. Passávamos às vezes anos sem ganhar uma roupa, até os oito anos eu ainda dormia num berço, com as pernas encolhidas, porque não havia dinheiro para comprar uma cama, mas a mesa era farta e os livros presentes.

Mas nem mesmo com esse firme propósito era possível para eles, professores eternamente mal pagos, como todos nesse país, dar conta da minha voracidade de leitora. Lili então, com o cuidado de não expressar nenhuma condescendência, me deixava ficar no canto da livraria lendo por horas livros que jamais compraria. Sentada no chão, num canto, com prateleiras e mais prateleiras à disposição, foi o mais perto que consegui chegar de uma ideia de paraíso.

Foi ali que aprendi a começar a ler pelo cheiro do papel. Meu primeiro ato era uma cafungada quase erótica naquelas folhas virgens, as quais eu seria a primeira a desbravar. Depois eu passava a mão na lombada, sentindo formato e textura, acariciava as páginas com reverência e delicadeza. Só então lia a primeira palavra, possuída por imensa felicidade. Até hoje repito esse ato nas livrarias, causando algum estranhamento nas pessoas próximas. Para mim, os livros sempre foram sagrados, mas apenas para que pudessem ser profanados.

Um dia Lili colocou uma escada à minha disposição, e então pude alcançar os livros mais altos. Nunca encontrei palavras para expressar o que essa escada representou. Com ela, eu podia alcançar a Lua. Eu era Neil Armstrong, mas não para fincar nenhuma bandeira, não era a posse que me interessava. Contentava-me em acariciar o chão lunar com a ponta dos dedos. A certa altura, nunca soube se porque alguém reclamou daquela criança metida por horas numa dobra das prateleiras sem nada comprar ou porque ela realmente acreditava no meu discernimento, Lili me promoveu. Fui incumbida da tarefa de ler os livros recém-lançados para dizer a ela se devia ou não encomendá-los. Ganhei então o privilégio de levá-los para casa. Aos nove anos, eu era uma profissional com imenso poder.

Quando Lili anunciou que iria deixar a livraria, meu mundo ficou profundamente abalado. Talvez tenha sido minha primeira grande perda. Com ela, toda a magia, assim como os bons livros, partiu. As que a sucederam nunca perceberam a grandeza do seu trabalho, deixavam-se reduzir a funcionárias. Entre elas e os livros não havia intimidade, seria o mesmo se apertassem parafusos. Nunca soube as razões oficiais pelas quais a livraria mais importante da cidade foi se terminando. Mas, para mim, era a minha versão que fazia mais sentido. Primeiro a livraria perdeu Lili, depois a seção de livros, restando apenas a papelaria, e, por fim, morreu. Não havia como ser diferente. Livrarias sem alma podem até vender muito, mas jamais serão grandes. Não há vida sem o mistério da vida. Há apenas atos destituídos de gente.

Nosso tempo, me parece, sofre de dois males que se complementam. Pelo menos dois. Um deles é acreditar que as pessoas importantes são aquelas que batem recordes, ganham milhões ou aparecem na capa das revistas de celebridade com seus corpões. Fora desse hall da fama determinado por razões que servem aos poucos de sempre, a vida de todos os demais se torna pequena, insignificante. O outro mal é aquilo que está no discurso de gurus e da maioria dos chefes nas mais diversas áreas, que se resume por uma frase dita com ares de verdade absoluta: “Ninguém é insubstituível”.

Eu acredito na grandeza das vidas supostamente comuns. Interesso-me pelos acontecimentos que se repetem no cotidiano, observo mais os desacontecimentos. Sou fascinada pelo sentido que cada um cria para sua existência no mundo, pelas pequenas delicadezas que nos fazem acordar e levantar da cama a cada dia, apesar de todas as brutalidades. Acredito que nossa vida é uma busca pelo extraordinário que mora em nós. E que só o encontramos ao descobrir o extraordinário que mora no outro. É esse o exercício de resistência de cada homem, de cada mulher, diante do espelho do mundo, a cada manhã: não se deixar reduzir, um exercício que só pode ter êxito na generosidade ao olhar para o outro em busca de sua singularidade.

Então, quando ouço essa frase fatídica – “ninguém é insubstituível” – só sinto pena. Quanto medo tem aquele que a pronuncia. Como ele suspeita de sua insignificância. E como ele se deixou reduzir. A minha frase é outra: Ninguém é substituível. A singularidade do que sou, só eu sou. A singularidade do que é você, só você é. O que você não fizer, não será feito do jeito que só você pode fazer. Se você deixar de ser o melhor que pode ser, se desistir de dar o melhor que pode dar, é uma falta inscrita na história do mundo. E só há um jeito de alcançar a grandeza de cada um de nós, que é a descoberta da grandeza do outro.

É só o reconhecimento da singularidade de cada um que, paradoxalmente, pode nos levar à descoberta de que somos mais iguais do que diferentes. E ao acreditarmos que ninguém é substituível, torna-se impossível a discriminação por raça, religião ou ideologia. É o imenso valor da vida que alcançamos, da nossa e da dos outros. Então, quando alguém lhe disser que você é substituível, tenha compaixão. E não acredite. Nunca permita que reduzam o mistério que é a sua vida – e a do outro. Até mesmo do equivocado que proclama frases como essas.

Passei décadas sem Lili. Deixei Ijuí aos 17 anos, vivi em Porto Alegre até os 33, desde 2000 moro em São Paulo. Anos atrás, fui procurada pela editora do principal jornal de Ijuí, o Jornal da Manhã, para participar de uma série sobre ijuienses que haviam “vencido” fora da cidade. Minha tarefa era escrever um texto sobre essa aventura pessoal. Eu aceitei. Mas escrevi um texto em que dizia que mais difícil do que partir era permanecer na cidade. E contei a história de Lili e de como ela havia transformado a minha vida.

O texto publicado alcançou Lili, numa cidade próxima e ainda menor, algum tempo depois. Ela vivia tempos duros, estava triste, solitária. Desconectada de sua grandeza. Até então, não tinha ideia de que havia sido tão decisiva na vida de uma outra pessoa. Nos reencontramos nesse reconhecimento. E eu pude contar a Lili o que ela também fez de mim. Era eu que agora escrevia livros. Ela poderia me ler porque um dia permitiu que eu lesse numa esquina das prateleiras de uma livraria de cidade pequena, onde ela vivia cada dia consciente da grandeza de seu trabalho.

Contei essa história aqui por várias razões. E por profundo sentimento. Mas também para propor a você, que me lê, o exercício de identificar no tempo as pessoas que, com seus pequenos grandes gestos, deram sentido à sua vida. Fizeram diferença, fizeram de você mais você. E depois de redescobri-las em lembranças há muito esquecidas, contar a elas que foram/que são insubstituíveis. E então aprender para sempre que são essas as pessoas importantes, mesmo que não sejam elas a ilustrar a capa das revistas de celebridades.

Dias atrás, quando Lili Lohmann me ligou numa noite em que eu também me iludia que eram horas iguais a todas as outras, ela me disse uma frase que até agora me faz dançar: “Quando eu leio o que você escreve é como se eu ganhasse um presente”. Lili, você é um presente para sempre presente em tudo o que sou.

(Publicado na Revista Época em 25/05/2009)

Fragilidade

Por que tememos tanto o que nos torna humanos?

“Há algo perdido na vida de cada um”, diz o artista inglês Mark Leckey. “As pessoas tentam preencher essas lacunas com imagens.” Ele fala de seu filme, Parade (2003), que será exibido na sexta-feira, 15/5, na mostra do Museu Sammlung Goetz, de Munique, promovida pelo Itaú Cultural, em São Paulo. Nos 31min30s do filme, me senti incomodada pelo brilho ofuscante da imagem de seres humanos que em nada lembravam humanos. Seres inanimados de uma vida glamourosa sem vida, vestidos de grifes, com sorrisos que não riem. De repente, esses modelos ofuscantemente belos desaparecem e o vazio toma conta da tela, agora que as imagens já não estão mais ali para nos cegar. Mark Leckey fez um filme “sobre se sentir perdido no começo do século XXI”, um filme sobre o vazio. “Estou doente de imagens”, ele diz.

Eu também. Há muitos caminhos para pensar sobre o filme de Leckey. Eu gosto de pensar sobre a fragilidade que mora em nós e que tanto nos assusta. A certeza, ainda que inconsciente, que dentro de nós há uma fratura. Essa dor à espreita que faz com que nos disfarcemos de tantas formas – e que nos torna vítimas tão dóceis, contentes até, de todas as armadilhas de consumo que preenchem nosso cotidiano.

Algo precisa ser feito quando o vazio nos ronda com sua lucidez implacável. Nem que seja, para uma mulher, comprar um sapato novo que dirá aos outros que nada falta exceto talvez uma bolsa para combinar com ele. E nesse ato não importa se compramos na grife que criou o modelo, na loja de departamentos que o copiou com material de menor qualidade ou no camelô do centro que pirateou o produto. A categoria sócio-econômica não altera nosso medo do abismo. Nesse ato, estamos todos nus.

Você já experimentou permanecer num shopping quando as lojas se fecham e não há mais iluminação sobre os produtos, nem gente colorida andando de um lado para outro sem ir realmente a lugar algum? Vale a pena se arriscar a essa experiência tão urbana. Os seguranças continuam ali, mas não estamos mais seguros.

Em seu livro Fragilidade (Objetiva), o roteirista francês Jean-Claude Carrière reflete sobre a imagem dos corpos brilhantes, malhados nas academias. Com a justificativa da saúde e da beleza – hoje dois conceitos quase inseparáveis –, passamos horas de cada um de nossos dias carregando peso para que nossos corpos ganhem músculos, transformem-se progressivamente em armaduras para que possam ser exibidos em todas as vitrines. Mas por que precisamos de corpos tão fortes, tão impenetráveis? Por que precisamos mostrar força física para sermos atraentes? Por que tantos de nós passam outras horas deleitando-se no espelho com seus bíceps, tríceps e quadríceps? E por que este é o padrão de beleza dessa época?

A hipótese de Carrière é que esse corpo modelado em aparelhos para se tornar ele mesmo uma armadura, uma muralha ou uma fortificação serve para esconder uma intimidade quebradiça, a matéria frágil de que somos feitos. É uma ideia interessante. Levamos uma imagem de saúde e força física a um mundo de imagens, esperando que ninguém adivinhe nosso medo de sermos descobertos, ou suspeite que nossos músculos – como tudo em nós – são mais vulneráveis do que parecem. Desfilamos sob muitas luzes, nunca tantas como hoje, na esperança de que possamos cegar os outros tanto quando essa overdose de flashes nos ofusca a cada dia. O que aconteceria se deixássemos toda a maquiagem de lado, e também a de nossos músculos hipertrofiados? O que aconteceria se as luzes se apagassem de repente? Não é curiosa uma época em que para enxergar é preciso ficar no escuro?

Vivemos num tempo em que as mulheres, em sua magreza, têm de ser retas e rijas como um homem e pendurar enormes peitos artificiais, uma imagem que no passado pertencia apenas aos transsexuais. Por que de repente os seios de carne ficaram aquém do feminino e se tornou necessário fabricar outro à custa de intervenção cirúrgica? Que ideal de corpo feminino é esse que criamos? Duro, definido e sem gordura, nele o único lugar em que só a maciez era possível foi substituído por silicone. Quando foi que nossos corpos se tornaram insuficientes e a saída foi torná-los menos nossos? O que estamos dizendo ao desfilar essa imagem pelas ruas do mundo?

Somos hoje tão duros, tão definidos, talvez porque nunca antes fomos tão vulneráveis, tão indefinidos. Nós, que estamos nesse mundo como indivíduos, sem o amparo da tradição, quase sem utopias. Há algo para sempre fora do alcance dos aparelhos e dos bisturis. Acredito que é o melhor de nós. O que nossos corpos construídos como cidadelas – exilados de nós, feitos para serem impenetráveis até para nós – tentam esconder é o que deveríamos mostrar. É a “essência de vidro” de que falava Shakespeare.

É nossa fragilidade – e não a nossa força – que nos faz humanos. Só chegamos mais perto do que somos ao reconhecermos a fragilidade que nos habita. Só alcançamos o outro pelas fendas entre nós, só podemos amar um outro porque há um rasgo em nós. Não há ponto de contato entre corpos inexpugnáveis. Só criamos pelo que de frágil nos habita, só evoluímos tanto como espécie pelo que há de vulnerável em nossos corpos. E só destruímos o planeta que nos serve de casa e outros de nossa espécie pela recusa à fragilidade que nos constitui – e pela ilusão de uma força que não vem dela.

Não há nada menos interessante – e mais falso – do que um homem ou uma mulher que só exiba força. Não há nada menos sedutor do que gente que não tira máscaras. Assim como poucas coisas são mais embrutecedoras que esse mundo de imagens, em que nós mesmos somos apenas atores coadjuvantes que não sabem como viver quando as luzes se apagam.

Nossa fragilidade é a nossa força. E será melhor viver nesse mundo quando soubermos disso.

(Publicado na Revista Época em 11/05/2009)

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