1500, o ano que não terminou

Quem chorou por Vitor, o bebê indígena assassinado com uma lâmina enfiada no pescoço?

Estava quase terminando um texto mais “filosófico” para esse início de ano. Percebo que minha escrita mudou, que desde 2013 escrevo com lâminas. E sinto falta de outros temas e espaços. Sinto falta das delicadezas também na escrita. E pensei que não era possível que na virada do ano, quando até São Paulo esvazia, não conseguisse.

Soube então do assassinato do Vitor. Sua morte não virou notícia, para além da imprensa local, que também não deu tanto espaço assim. Como algo assim acontece com tão pouco espanto. Como é possível que o país não pare por causa da morte dessa criança, que não seja notícia no mundo inteiro, que a gente não passe dias chorando. Que a gente não se mova.

Um bebê.

Dizem que a gente não deve escrever com o fígado. Eu sempre escrevo (também) com o fígado.

Continue lendo no El País.

Garoto estava com a mãe na rodoviária (Foto: Gabriel Felipe/RBS TV)

Foto: Gabriel Felipe/RBS TV

Leia outros artigos, reportagens e entrevistas sobre a questão indígena e socioambiental:

REPORTAGENS

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16/02/2015
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À beira de Belo Monte, uma história pequena numa obra gigante. Que tamanho tem uma vida humana?

15/09/2014
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Como vivem os brasileiros ameaçados de morte na fronteira paraense, onde o futuro da Amazônia é decidido à bala

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O Povo do Meio
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ENTREVISTAS

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05/09/2011
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04/06/2012
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29/9/2014
Diálogos sobre o fim do mundo
Do Antropoceno à Idade da Terra, de Dilma Rousseff a Marina Silva, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro e a filósofa Déborah Danowski pensam o planeta e o Brasil a partir da degradação da vida causada pela mudança climática

01/12/2014
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A procuradora da República Thais Santi conta como a terceira maior hidrelétrica do mundo vai se tornando fato consumado numa operação de suspensão da ordem jurídica, misturando o público e o privado e causando uma catástrofe indígena e ambiental de proporções amazônicas

ARTIGOS DE OPINIÃO

30/11/2015
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07/07/2015
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1500, o ano que não terminou

Quem chorou por Vitor, o bebê indígena assassinado com uma lâmina enfiada no pescoço?


Um menino de dois anos foi assassinado. Um homem afagou seu rosto. E enfiou uma lâmina no seu pescoço. O bebê era um índio do povo Kaingang. Seu nome era Vitor Pinto. Sua família, como outras da aldeia onde ele vivia, havia chegado à cidade para vender artesanato pouco antes do Natal. Ficariam até o Carnaval. Abrigavam-se na estação rodoviária de Imbituba, no litoral de Santa Catarina. Era lá que sua mãe o alimentava quando um homem perfurou sua garganta. Era meio-dia de 30 de dezembro. O ano de 2015 estava bem perto do fim.

E o Brasil não parou para chorar o assassinato de uma criança de dois anos. Os sinos não dobraram por Vitor.

Sua morte sequer virou destaque na imprensa nacional. Se fosse meu filho, ou de qualquer mulher branca de classe média, assassinado nessas circunstâncias, haveria manchetes, haveria especialistas analisando a violência, haveria choro e haveria solidariedade. E talvez houvesse até velas e flores no chão da estação rodoviária, como existiu para as vítimas de terrorismo em Paris. Mas Vitor era um índio. Um bebê, mas indígena. Pequeno, mas indígena. Vítima, mas indígena. Assassinado, mas indígena. Perfurado, mas indígena. Esse “mas” é o assassino oculto. Esse “mas” é serial killer.

A fotografia que ilustrou as poucas notícias sobre a morte do curumim mostra o chão de cascalho e concreto da estação rodoviária. Um par de sandálias havaianas azul, com motivos infantis. Uma garrafa pet, uma estrelinha de brinquedo, daquelas de fazer molde na areia, uma tampa de plástico do que parece ser um baldinho de criança, uma pequena embalagem em formato de tubo, um pano florido amontoado junto à parede, talvez um lençol. É apresentada como “local do crime” ou como “os pertences do menino”.

Essa foto é um documento histórico. Tanto pelo que nela está quanto pelo que nela não está. Nela permanece o descartável, os objetos de plástico e de pet, os chinelos restados. Nela não está aquele que foi apagado da vida. A ausência é o elemento principal do retrato.

Os indígenas só podem existir no Brasil como gravura. Apreciados como ilustração de um passado superado, os primeiros habitantes dessa terra, com sua nudez e seus cocares, uma coisa bonita para se pendurar em algumas paredes ou estampar aqueles livros que decoram mesas de centro. Os indígenas têm lugar se estiverem empalhados, ainda que em quadros. No presente, sua persistência em existir é considerada inconveniente, de mau gosto. Há vários projetos tramitando no Congresso para escancarar suas terras para a exploração e o “progresso”. Há muitos territórios indígenas devidamente reconhecidos que o governo de Dilma Rousseff (PT) não homologa porque neles quer construir grandes obras ou porque teme ferir os interesses do agronegócio. Há uma Fundação Nacional do Índio (Funai) em progressivo desmonte, tão fragilizada que com frequência se revela também indecente. No passado, os índios são. No presente, não podem ser.

Como diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, os indígenas são especialistas em fim de mundo, já que o mundo deles acabou em 1500. Tiveram, porém, o desplante de sobreviver ao apocalipse promovido pelos deuses europeus. Ainda que centenas de milhares tenham sido exterminados, sobreviveram à extinção total. E porque sobreviveram continuam sendo mortos. Quando não se consegue matá-los, a estratégia é convertê-los em pobres nas periferias das cidades. Quando se tornam pobres urbanos, chamam-nos de “índios falsos”. Ou “paraguaios”, em mais um preconceito com o país vizinho. No passado, os índios são alegoria. “Olha, meu filho, como eram valentes os primeiros habitantes desta terra.” No presente, são “entraves ao desenvolvimento”. “Olha, meu filho, como são feios, sujos e preguiçosos esses índios fajutos.” Os índios precisam ser falsos porque suas terras são verdadeiras – e ricas.

Se Vitor era um entrave, esse entrave foi removido. Por isso essa foto é um documento histórico. Se houvesse alguma honestidade, é ela que deveria estar nas paredes.

Parece não bastar que Vitor, um bebê de dois anos, passasse semanas no chão de uma rodoviária porque a violência contra seu povo foi tanta e por tantos séculos e ainda hoje continua que seus pais, Sônia e Arcelino, precisam deixar a aldeia para vender artesanato. A preços baixos, porque desvalorizados são os artesãos. É importante perceber o nível de desamparo que leva alguém a considerar rodoviária um lugar seguro e acolhedor. Terminais rodoviários são locais de passagem, e a família de Vitor, assim como a de outros indígenas, abriga-se lá porque há movimento. Rodoviária é lugar de ninguém. E por isso nela costumam caber os mendigos, os meninos de rua, os bêbados, as putas, os loucos, os párias. E os índios. Ou cabiam. E já não cabem mais.

Rodoviárias são espaços de circulação de estranhos, e por serem “os outros”, os estrangeiros nativos, os indígenas acreditam que neste não lugar têm chance de escapar da expulsão. Mas seguidamente são expulsos. Parte da população dos municípios em que os indígenas aparecem com seu artesanato acha que a rodoviária é boa demais pra índio. Ou pra “bugre”, como são chamados em algumas regiões do sul do país. “A rodoviária é o cartão postal da cidade, período que tem tanta gente viajando, chegando. Que imagem vão levar da cidade?”, justificou um comerciante de São Miguel do Oeste, também em Santa Catarina, para justificar a expulsão dos indígenas do local antes do Natal.

Vitor já não estraga nenhum cartão postal. Dele não há nem mesmo um rosto. A foto de sua ausência não comoverá milhões pelo planeta como aconteceu com o menino sírio trazido pelas ondas do mar. A morte dos curumins não muda nenhuma política.

Antes que me acusem de precipitação, exagero ou injustiça, é preciso dizer: os “cidadãos de bem” não querem que crianças indígenas tenham seus pescoços perfurados. De jeito nenhum. Apenas que elas fiquem longe da vista. Em outro lugar em que não contaminem, sujem ou enfeiem. Mas também não nas suas terras, se estas forem ricas em minérios, férteis pra soja ou boa pra gado pastar. Aí também é abuso. Desapareçam, apenas. Mas matar, não, matar é maldade.

2015 foi o ano em que esse discurso deu ao Brasil o bicampeonato. O deputado estadual Fernando Furtado, do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), foi reconhecido como “Racista do Ano” pela organização Survival International por seu pronunciamento antológico, ao se manifestar numa audiência pública: “Lá em Brasília, o Arnaldo viu os índios tudo de camisetinha, tudo arrumadinho, com flechinha, tudo um bando de viadinho, que tinha uns três que eram viado, que eu tenho certeza, viado. Eu não sabia que tinha índio viado, fui saber naquele dia em Brasília… Tudo viado. Então é desse jeito que tá, como é que índio já consegue ser viado, boiola, e não consegue trabalhar e produzir? Negativo!”.

O parlamentar se referia aos Awá-Guajá, considerados um dos povos mais vulneráveis do planeta. A conquista de Fernando Furtado, porém, não é inédita. Outro parlamentar, Luis Carlos Heinze, este deputado federal pelo Partido Progressista (PP) do Rio Grande do Sul, já tinha subido ao pódio em 2014, com a seguinte declaração: “O governo… está aninhado com quilombolas, índios, gays e lésbicas, tudo o que não presta”. Tudo indica que o Brasil é quase imbatível para o tricampeonato. Fala-se tanto em país polarizado, mas a premiação prova que os indígenas são um raro ponto de unanimidade entre certa direita e certa esquerda dessa grande nação.

Vitor, o bebê assassinado, vivia na aldeia Condá, no município de Chapecó, no oeste de Santa Catarina. Os crimes cometidos pelo Estado contra o povo Kaingang da região sul do Brasil estão registrados no Relatório Figueiredo, um documento histórico que se acreditava perdido e que foi descoberto no final de 2012. O relatório, datado de 1968, documentou o tratamento dado aos povos indígenas pelo extinto Serviço de Proteção aos Índios (SPI). No total, o procurador Jáder Figueiredo Correia dedicou 7.000 páginas para contar o que sua equipe viu e ouviu. Quem quiser compreender por que Vitor se abrigava no chão da rodoviária de Imbituba em vez de passar os meses de verão seguro, saudável e feliz na sua aldeia, tem uma rica fonte de informações no documento disponível na internet. Vai descobrir, entre outras atrocidades, como antepassados de Vitor chegaram a ser torturados e a viver em condições análogas à escravidão para que suas terras fossem desmatadas e exploradas pelos não índios, em pleno século 20. É possível que alguns destes “empreendedores” sejam avós daqueles que hoje acham que indígenas como Vitor sujam o cartão postal de suas cidades.

Depois do assassinato do bebê, a Polícia Militar prendeu o suspeito de sempre. Um rapaz pobre, em liberdade provisória, com “uma pequena quantidade de maconha e cocaína na mochila”. Como não havia nenhum indício contra ele, foi liberado. Em seguida, foi preso outro jovem, hoje considerado o principal suspeito. A polícia procurava alguém bastante genérico: com mochila e boné e tipo físico semelhante ao que aparece num vídeo gravado por uma câmera de segurança. A suspeita de policiais militares é de que o assassino estaria “incomodado com a presença dos indígenas no local”. A Polícia Civil mencionou como possíveis motivações “preconceito”, “surto” e “problemas psicológicos”. Em nota, o CIMI afirmou: “O Conselho Indigenista Missionário manifesta preocupação com o clima de intolerância que se propaga, na região sul do país, contra os povos indígenas. Um racismo – às vezes velado, às vezes explícito – é difundido através de meios de comunicação de massa e em redes sociais”.

Quem de fato assassinou Vitor talvez seja investigado, julgado, condenado e punido, o que já é uma raridade em mortes de indígenas no Brasil, marcadas pela impunidade. Mas é preciso fazer perguntas mais complicadas. Quem armou essa mão? Que encruzilhada histórica permitiu que Vitor fosse o bebê escolhido pelo assassino, independentemente de sua sanidade ou insanidade – e não o meu filho ou o seu? Onde estamos nós nesta foto em que estamos sem estar?

Tem se dito que 2015, um ano de crise no Brasil e horror em todas as partes, é o ano que não terminou. 2016 seria apenas um looping. Faz sentido. Na véspera deste Natal, Antônio Isídio Pereira da Silva, líder rural e ambientalista no Maranhão, foi encontrado morto. Era mais um assassinato anunciado. Há um ano foi arquivado o pedido de inclusão do agricultor no programa federal de proteção aos defensores de direitos humanos. Ele se preparava para denunciar mais um desmatamento ilegal numa região com graves conflitos de terra quando foi assassinado. Também no Natal, cinco jovens denunciaram policiais militares do Rio por tortura e roubo. Segundo seu relato, eles voltavam em três motos de uma festa quando foram detidos por PMs da Unidade de Polícia Pacificadora de Coroa, Fallet e Fogueteiro. Além de torturas com faca quente, isqueiro e socos, um deles teria sido obrigado a fazer sexo oral no amigo. Em São Paulo, levou apenas dois dias para ocorrer a primeira chacina de 2016, com quatro mortos na periferia de Guarulhos. Suspeita-se de vingança pela morte de um PM dias antes na região.

Começamos como acabamos. Nada, portanto, nem começou nem acabou. Quem continua morrendo de assassinato no Brasil, em sua maioria, são os negros, os pobres e os índios. O genocídio segue diante da indiferença, quando não aplauso, do que se chama de sociedade brasileira. Começamos 2016 como acabamos 2015. Obscenos. Os fogos do Ano-Novo já fracassam no artifício. Estamos nus. E nossa imagem é horrenda. Ela suja de sangue o pequeno corpo de Vitor por quem tão poucos choraram.

Dizem que 2015 é o ano que não acaba. Ou que 2013 é que não chega ao fim.

Para os indígenas é muito mais brutal: o ano de 1500 ainda não terminou.

(Publicado no El País em 4 de janeiro de 2016)

ECA do B

As crianças negras e pobres do Brasil só são achadas por bala perdida porque não sabem ler o verdadeiro Estatuto da Criança e do Adolescente

Se as crianças negras e pobres tivessem aprendido a ler, não ficariam interrompendo o tráfego com seus corpinhos escuros. Mas vão para escolas públicas bem equipadas, em prédios planejados, cercados por jardins e quadras de esporte, com professores bem pagos e preparados, em tempo integral, alimentadas com comida nutritiva e balanceada, e nem assim conseguem ler direito. Só desperdiçam os impostos pagos por pessoas de bem, como eu. Preferem ficar em seus barracos sufocantes, em ruas esburacadas e sem árvores, por mau gosto. Impressionante o mau gosto das crianças pobres e negras, uma coisa que vem de berço, mesmo, basta ver como se vestem mal. Por isso, não compreendem o Estatuto da Criança e do Adolescente. Não a bobajada aprovada nos anos 90, por aquele monte de babacas que ficam choramingando até hoje porque a ditadura torturou e matou uns milhares de comunistas. Matou foi pouco! Estou falando do verdadeiro Estatuto da Criança e do Adolescente, o que não foi feito por gente que ficou desperdiçando anos estudando para proteger direitos humanos de bandidinhos. Como se crianças negras e pobres fossem humanas! Estou falando do ECA que vale, o das ruas, a lei na prática, mesmo. O outro, o oficial, é só pra botar na biblioteca daqueles intelectualoides de esquerda, pra encherem aquela boca mole de porcaria politicamente correta e se exibirem em reunião da ONU. Se os moleques soubessem ler e soubessem o seu lugar, estariam aí, vivos, pra ficar chapinhando no esgoto, como gostam. Como não tenho estômago pra sujeira na via pública, resolvi sistematizar a lei em vigor e fazer o manual de 2015, versão atualizada, para ver se param de emporcalhar o chão com seus miolos. Uma coisa bem didática, bem simples, pra que mesmo uma raça inferior consiga entender. Vou botar nome em cada uma delas, pra ver se fica mais fácil de entrar nessas cabecinhas cheias de maconha. Tipo, lembra do caso, associa com a lei, não faz merda, tudo resolvido. Como no ano que vem tem Olimpíada e não quero que os gringos pensem que aqui não tem lei, me restringi ao Rio de Janeiro. Se cada um fizer a sua parte pra higienizar a cidade, o Brasil ainda pode brilhar:

1) Lei Herinaldo: criança preta não pode correr na rua

Para que criança vai correr, me diz? Não tem nada que correr. Onze anos de idade e correndo? Vai trabalhar! O policial se assusta com aquele corpinho escuro e mirrado vindo na sua direção e atira. Pronto, a bala acha. Aconteceu agora, na semana passada, com o Herinaldo. Peraí, preciso rir um pouco. Ah, onde esses pobres acham esses nomes? Herinaldo, vê bem se alguém tem futuro com um nome desses. O Herinaldo correu, levou bala. Bum, um tiro no peito. Dizem que estava indo comprar uma bolinha de pingue-pongue. Sei! Desde quando preto sabe jogar pingue-pongue? Tava era indo comprar fumo na boca. Ou era aviãozinho. E era viadinho o moleque. Em vez de lidar com a situação como homem, ficou gritando: “Quero a minha mãe!”. Afe. O que importa é que por causa dessa falta de atenção do Herinaldo, meu SUV ficou parado no trânsito. Favelado adora trancar rua, deve ser por inveja de quem tem carro. Em vez de ensinarem aos seus abortos que criança pobre não pode correr, fazem protesto. Brasileiro é muito subdesenvolvido, mesmo. Eita país que não vai pra frente. Por sorte a PM distribuiu umas bombas de gás e botou a macacada pra correr. Deu pra chegar pro jantar a tempo, mas foi por pouco. E a Rosinete faz uma comida muito boa, essa é uma negra de alma branca, praticamente da família. Depois vi no Balanço Geral o apresentador entrevistando a mãe do estropício. O jornalista foi na veia mesmo. Onde a senhora tava quando aconteceu? A mulher disse que tava cuidando de um idoso, vê bem. Em vez de cuidar do filho, mantê-lo em casa, tava batendo perna na casa dos outros. Disse que trabalhando, mas vá saber o que essa gente anda fazendo! Depois o repórter perguntou se o Herinaldo era metido com tráfico. A mãe negou, mas na cara que era. Se não fosse, tava correndo por quê? Por acaso criança de 11 anos corre na rua?

Uso: a aplicação mais recente da lei número 1 do ECA do B ocorreu em 23 de Setembro de 2015. Herinaldo Vinicius Santana, de 11 anos, levou um tiro no peito, no Caju, zona portuária do Rio de Janeiro.

Tá com pena? Leva pra casa!

2) Lei Cristian: adolescente preto não pode jogar futebol

Para que jogar futebol? Vê bem o que um sonso desses têm na cabeça. Se o moleque tem 13 anos e mora num favelão cheio de traficantes, vai fazer o quê? Jogar futebol? Não! Vai ficar trancado no barraco, sei lá, vendo Netflix na TV ou jogando no tablet, já que não gosta de estudar. Não se gabaram tanto que viraram Classe C, comprando TV de tela plana bem grande? Então, aproveita. Faz 40 graus dentro de casa? Toma um banho de hidromassagem pra baixar os hormônios! Mas não, o projeto de bandido pensa que é o Neymar e vai lá jogar futebol. Desde quando moleque joga futebol no Brasil? Aí a polícia tá lá, fazendo o seu serviço, atrás de um animal que tinha matado um PM, um pai de família, um trabalhador, e uma bala acaba achando o moleque. É culpa de quem? Da polícia? Só na cabeça de bagre desses direitos humanos. Se o moleque tivesse trabalhando numa hora dessas, não tinha acontecido nada. Mas não, tava lá, jogando futebol, antes do meio-dia. Tem deputado de esquerda aí dizendo que quando ouviu os tiros o moleque até parou pra ajudar uma idosa a se proteger. Ah, tá, agora virou santo. O fato é: como é que a polícia vai botar ordem na bagaça com esses vagabundos no meio do caminho? E a mãe do moleque? Fazendo teatro no enterro: “Meu filho, acorda, meu filho, acorda…”. Patético, por acaso a mulher não consegue juntar o tico e o teco e perceber que aquele ali já tava no inferno? É só um, pra que tanto escândalo? Do jeito que é esse povo deve ter mais uns 13 pretinhos em casa, tudo da mesma laia, que é pra ter bastante Bolsa Família. Mas aí a pobraiada protesta, mais confusão. Aquela Anistia Internacional, que deveria estar lá na Síria, cuidando daqueles meninos branquinhos, faz nota falando em “lógica de guerra”. Que guerra? É lei. ECA do B pra limpar o Brasil! Jogou futebol em hora errada, a bala acha. Simples assim. Quer que eu desenhe?

Uso: a aplicação conhecida mais recente da lei número 2 do ECA do B foi em 8 de Setembro de 2015. Cristian Soares Andrade, de 13 anos, foi baleado e morto na região de Manguinhos, no Rio de Janeiro.

Tá com pena? Leva pra casa!

3) Lei Jesus: criança pobre não pode ficar sentada na frente de casa

O que é que um moleque de 10 anos tem na cabeça pra se sentar no batente da porta de casa se mora numa das favelas do Complexo do Alemão? Não, sério, me diz. Nada, não tem nada na cabeça. Ou melhor, não tinha. Agora tem uma bala. Os policiais lá, fazendo o seu trabalho, que é matar bandido, e o moleque lá, atrapalhando a operação. Aí a mãe, mais uma tipinha daquelas, começa a berrar com o policial. Se a mulher fica fazendo arruaça, o agente da lei tem mesmo é de apontar a arma pra ela. Vai aguentar calado, que nem mulherzinha? Aí a vagabunda grita: “Pode me matar! Pode me matar que você já acabou com a minha vida!”. Mulher é um bicho histérico mesmo, né? E essas aí, de favela, então, bem mostram que nasceram no esgoto. Sou eu, que tenho cabeça quente, já dou logo um tiro e aproveito pra enterrar mãe e filho na mesma cova, que o cemitério já não tá dando mais conta daquela plantação de pretos a meio palmo do chão. Se aquela uma não estivesse aboletada no sofá vendo televisão, tinha reparado que o filho tava sentado onde não devia. Ou porta de casa é lugar de uma criança se sentar pra brincar? Mas não, tá lá, distraída com novela ou alguma outra bobagem, e depois faz aquela choradeira. “Quando eu vi, uma parte do crânio do meu filho tava na sala”. Se tivesse cuidado, não estaria, simples assim. Disse que trabalha como doméstica…. Tava fazendo o que em casa num final de tarde, então? E mais pobre interrompendo o trânsito pra fazer protesto. Mais direitos humanos enchendo o saco. Esse país tá ficando inviável. Se eu não fosse tão patriota, ia logo pra Miami e até votava no Donald Trump, um homem que vai botar as coisas no lugar depois de desinfetar a Casa Branca daquela negrada. Mas, não, sou do Brasil, com muito orgulho, e vou fazer a minha parte pra varrer essa pretaiada daqui. Sem contar que, e eu não tenho medo de dizer, eu falo a verdade mesmo, na cara de quem precisar: se esse moleque não tivesse levado um tiro, mais dois anos e já era bandido. A mãe falou que queria ser bombeiro. Aham. Dois anos no máximo e já era aviãozinho. Se ia morrer de qualquer jeito, pelo menos morreu sem ter feito mal pra nenhum cidadão de bem. Nesse caso não é bala perdida nem achada: é bala preventiva.

Uso: A última aplicação conhecida da lei número 3 do ECA do B ocorreu em 2 de abril de 2015. Eduardo de Jesus Ferreira, de 10 anos, foi baleado na cabeça, na porta da sua casa, no conjunto de favelas do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro.

Tá com pena? Leva pra casa!

4) Lei Alan: adolescente pobre não pode brincar com celular

Esse aí é outro caso de óbvio ululante. Mas como a gente precisa explicar tudo, vamos lá. Três moleques brincando com um celular numa favela, em cima de bicicletas. O que um policial pensa? Tão fazendo coisa errada, claro. Com certeza as bicicletas são roubadas e o celular também. Aí um deles corre. O que um policial bom faz? Atira, claro. E não vai atirar pra aleijar, que não é um homem cruel, atira logo pra matar, que o Estado não tá podendo arcar com tanto benefício por invalidez assim. Aliás, é o sonho dessa gente. Ter um filho aleijado pela polícia pra ficar mamando nas tetas do Estado sem precisar trabalhar. Aí o moleque cai. O policial, bem educado, pergunta pro amigo que ficou vivo: “Por que vocês estavam correndo?”. O moleque, um desses vendedores de chá mate que ficam assediando os turistas na praia, diz: “A gente tava brincando, senhor”. Pronto, os direitos humanos fazem um escarcéu com essa frase, vai até parar em jornal estrangeiro. Por isso que não pode ter celular na mão de preto. Começam a se achar gente e ficam gravando tudo. Tou aqui, pensando se não é melhor fazer logo um parágrafo extra pra essa lei, proibindo preto e pobre de usar celular. A ver.

Uso: A última aplicação conhecida da lei número 4 do ECA do B ocorreu em 20 de fevereiro de 2015. Alan de Souza Lima, de 15 anos, foi morto pela polícia na favela da Palmeirinha, em Honório Gurgel, subúrbio do Rio de Janeiro.

Tá com pena? Leva pra casa!

5) Lei de Circulação de PP: Pobre e Preto de menor não pode pegar ônibus para ir às praias da Zona Sul

Nessa aí nem botei um nome, porque os marginalzinhos são tantos que a lista ia ter quilômetros. Quem gosta de lei comprida é intelectual. O ECA do B é simples, branco no preto. Em cima do preto! Qualquer mané consegue entender. O cara entra num ônibus com nenhum dinheiro no bolso, mal vestido ou até sem camisa, o que calor nenhum justifica, lá na PQP onde ele mora, e quer ir pras praias da Zona Sul do Rio de Janeiro. Vai fazer o que lá? Arrastão, obviamente. Aí vem aquele papinho de que é uma minoria que faz arrastão, que o resto da pretaiada só quer se divertir na praia. Tenha dó. Mesmo que seja, como vai saber? Não dizem sempre que tem de prevenir o crime? Então, taí. Se não é a polícia, é pessoa de bem como eu que tem de fazer a justiça valer. Levo filho, sobrinho, tudo uns meninos fortes, de academia, menino bom, e tiro essa molecada pelo pescoço de dentro do coletivo. Jogamos tudo lá, de volta à cloaca de onde nunca deveriam ter saído. Depois tomamos um banho de álcool zulu pra descontaminar. O que é que preto tem pra fazer no Leblon, Ipanema, Copacabana, me diga? Nada! No máximo vender um coco, um biscoito Globo, mas assim, controlado, número restrito. Vai querer tomar banho de mar, jogar um vôlei, curtir? É muita falta de ferro no lombo. Desde quando a senzala pega praia? Mesmo que os moleques não assaltem, vão estragar o cartão-postal do Rio com aquelas caras achatadas. Gringo vem aqui gastar seus dólares pra ver garota de Ipanema, loirinha, olho azul. E as mulatas lá naquele outro lugar que a gente sabe bem onde é e pra que serve. Se cada um soubesse o seu lugar, aliás, tava tudo resolvido. O problema do Brasil hoje é que as criaturas não sabem mais o seu lugar. Mas a gente explica pra elas, bem direitinho, numa chave de pescoço, colaborando com o trabalho da polícia, que já não dá mais conta de tanto pobre querendo pegar praia. Preto sai, branco fica. Inverti o nome daquele filme! Pessoalmente, inclusive, eu faria um parágrafo único aqui nesta lei número 5: ônibus pra pobre sair da favela só se for pra trabalhar. O cara mostra a carteira de trabalho registrada pra um policial, na porta do 474, e pode embarcar, com carimbo pra sair e carimbo pra voltar, assinado pelo patrão. Horário determinado, tudo ali certinho, na ponta do lápis, como se diz. Fora daí, se o negão for pego zanzando na Zona Sul, cadeia nele. Nessa aí preciso tirar o chapéu pros paulistas. Não gosto muito de paulista, mas eles sabem fazer as coisas direito quando querem. Não teve lá aquele, como é o nome mesmo? Ah, sim, Rolezinho, só preto pra inventar um nome tão idiota. Então. A ralé queria passear no shopping. E em bando, como se fosse moda adolescente andar em grupo. Polícia neles! Mais de três moleques pretos num shopping é assalto e pronto. Volta pra favela! Vai querer usar grife? Te enxerga, mané! Não tem grife que limpe a tua cara preta, não tem tênis de marca que te faça ficar igual a nós. Repressão neles e tudo resolvido. No Rio o povo de bem também sabe resolver as coisas, esse final de semana foi uma beleza. Revista na pobraiada!

Uso: a mais recente aplicação da Lei de Circulação de PP foi nesse último final de semana, mas pode estar sendo usada agora mesmo. Lei que brasileiro concorda é que nem gripe, pega na hora e se espalha.

Tá com pena? Leva pra casa!

E aqui encerro o ECA do B, um conjunto de cinco leis simples, claras e objetivas. Espero ter colaborado para tranquilizar os turistas que virão para a Olimpíada 2016 ver nossas belezas, conhecer o nosso povo cordial e as maravilhas da nossa terra alegre e hospitaleira. Como é mesmo o lema da Olimpíada mesmo? “Somos Todos Brasil!!!” Uhú!

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O texto acima foi escrito a partir dos fatos reais ocorridos neste ano no Rio de Janeiro e de uma pesquisa sobre os comentários postados nos sites e redes sociais sobre esses fatos, por aqueles que se apresentavam como “cidadãos de bem” ou termos similares. Criar esse texto na primeira pessoa, juntando numa só voz os principais argumentos em circulação, foi uma tentativa de tornar esse discurso de ódio visível. Não da forma habitual, já banalizada, mas a partir do seu deslocamento para um lugar onde ele é estranho. E, assim, produzir estranhamento e incômodo.

Ao deslocar esse discurso de ódio, colocando-o neste espaço, talvez se torne mais difícil banalizar o horror que sai da boca de brasileiros nas ruas virtuais e reais, com espantosa facilidade. Também fica mais complicado aceitar como liberdade de expressão um discurso que legitima um Estado que age acima da Lei, ao criminalizar pobres e negros, naturalizando as suas mortes e a violação de seus direitos pelas forças de segurança pública que também deveriam protegê-los. Enquanto o Estatuto da Criança e do Adolescente é a legislação criticada por setores da sociedade e nunca implementada por completo, o ECA do B é a lei não escrita, mas entranhada no sistema e assumida pelas polícias e por parte da população, a lei fora da lei que rege a prática cotidiana do país.

Dizem que anunciar a ironia estraga a ironia. Até um tempo atrás, eu concordaria de imediato com essa afirmação. Não mais. Hoje, é preciso avisar, porque como já aconteceu com outros colunistas, há quem se identifique tanto com esse discurso que vai fazer dele uma leitura literal e acreditar que eu finalmente “vi a luz”. Para essas pessoas, assim como para seus pares, o que é denúncia se converterá em defesa do ódio e do racismo e do linchamento e da execução. E assim será replicada. Não posso correr esse risco em tempos tão agudos. Usando os instrumentos da ironia e da paródia, busco denunciar quem acredita nesse discurso e o dissemina. Se você se identificou com o texto, é também você que estou denunciando. E talvez uma das frases seja a reprodução de um dos seus comentários na internet. Neste caso, espero que tenha restado algo vivo em você para que tenha a chance de se envergonhar.
Esses quatro meninos foram assassinados no Rio de Janeiro só neste ano de 2015: correndo, brincando, jogando futebol, sentado na porta da casa. E estes foram apenas os que viraram notícia na imprensa. Herinaldo, Alan, Cristian, Jesus. A imagem do corpinho do menino sírio carregado para a praia pelas ondas do Mediterrâneo obrigou a Europa a enxergar a tragédia daqueles que fugiam da guerra em busca de refúgio. E, ao enxergar, comprometer-se com essa dor. Implicar-se. O choque de humanidade teve impacto político.

A imagem do corpo arrebentado à bala de Herinaldo, Christian, Jesus e Alan, porém, parece não ter força para impedir a continuidade do genocídio das crianças e jovens negros e pobres no Brasil. Seus corpos são esvaziados de humanidade e viram objetos, restos cotidianos que já não provocam espanto, para além dos mesmos de sempre. No máximo protestos das comunidades, recebidos a bombas de gás pela polícia e com demonstrações de irritação pelos motoristas, que não querem corpos de criança atrapalhando o tráfego.

Fico pensando: em que praia os pequenos corpos desses brasileiros precisam chegar para serem vistos? Nas praias da Zona Sul carioca já sei que não adianta.

 

(Publicado no El País em 28 de setembro de 2015)

 

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