Tupi or not to be

Minha coluna no El País:

 

Foto: Antonio Augusto/ Câmara dos Deputados (Fotos Públicas, 17/04/2016)

Foto: Antonio Augusto/ Câmara dos Deputados (Fotos Públicas, 17/04/2016)

Em nome de Deus e do New York Times, a disputa do impeachment e dos Brasis

O 17 de abril de 2016 tornou explícito que esta não é apenas uma crise política e uma crise econômica. Mas também uma crise de identidade, de ética e de estética. Os holofotes lançados sobre a Câmara dos Deputados, em transmissão ao vivo pela TV, iluminou o horror. E iluminou o horror mesmo para aqueles que torciam pela aprovação da abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff. No dia seguinte, algo também revelador aconteceu: a disputa foi levada ao território “estrangeiro”. Não uma disputa qualquer, mas a disputa sobre como nomear o acontecido. Vale a pena seguir essa pista.

A imprensa internacional aponta para o Brasil e diz, com variações, que o espetáculo é ridículo, o que aconteceu foi um circo. A presidente Dilma Rousseff e o PT vão disputar lá fora o nome da coisa: é um golpe – ou um “coup”. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), despacha dois enviados especiais para garantir outra narrativa: o impeachment é legítimo, as instituições brasileiras funcionam, tudo está dentro das normas. Vozes se erguem para acusar Dilma Rousseff de expor o Brasil no “exterior”, prejudicando a imagem do país, reduzindo-o a uma “republiqueta de bananas”. Na ONU, Dilma recua da palavra “golpe” e escolhe, para oficialmente representá-la, outra palavra, uma que não constitui quebra: “retrocesso”. Não é ali que se dá a disputa. A guerra está no território dos narradores. E os narradores contemporâneos encontram-se em grande parte (ainda) na imprensa.

A disputa do impeachment aprofundou o que já havia sido exposto nas manifestações de 2013: a crise da imprensa brasileira não é apenas de modelo de negócios, mas de credibilidade. Como acontece com os partidos políticos, a da imprensa é também uma crise de representação, já que parcelas significativas da população não se reconhecem na cobertura. Neste sentido, o olhar do outro, aqui representado pela imprensa internacional, devolve algo sem o qual não se faz jornalismo que mereça este nome: devolve o espanto, lugar de partida de quem deseja decifrar o mundo que vê.

E, a partir do espanto, busca compreender como uma presidente democraticamente eleita por 54 milhões de votos, sem crime de responsabilidade comprovado, tem a abertura de seu processo de impeachment comandado por um réu do Supremo Tribunal Federal, numa Câmara em que parte dos deputados é investigada por crimes que vão de corrupção ao uso de trabalho escravo, num espetáculo que desvela pelo grotesco as fraturas históricas do país.

A narrativa construída por uma parte da imprensa brasileira sobre o momento mais complexo da história recente do país, a forma como essa parcela da mídia ocupa seu papel como protagonista, assim como as consequências dessa atuação, merecem toda atenção. Possivelmente muitos livros serão escritos sobre esse tema, as perguntas recém começaram a ser feitas. Nesse artigo, porém, quero seguir uma outra pista, que considero fascinante demais para ser perdida. Também não se trata aqui de analisar o que a imprensa de outros países disse de fato – e que está longe de ser homogêneo como se quer vender. Não se trata aqui “deles”, mas de “nós”.

A pista que investigo aqui parte da interrogação sobre o que significa levar a disputa narrativa ao território simbólico do grande outro, “o estrangeiro”. E não qualquer estrangeiro, mas o que fala principalmente inglês, depois alemão e francês e espanhol (da Espanha, não da América Latina). E o que significa dar a essa entidade, chamada “imprensa estrangeira”, a palavra para nomear o que aconteceu – e acontece – no Brasil.

O que é o horror, este que nos persegue desde o domingo 17 de abril? O horror é a impossibilidade da palavra. O horror é também uma infância que nunca acaba. É tudo menos banal que num dos momentos mais ricos de sentidos da história recente faltem palavras para narrar o Brasil. Em parte porque elas foram barradas pelos muros de um lado e outro, interditando o diálogo. E palavras que não atravessam produzem silenciamento. Em parte porque as palavras foram distorcidas, violadas e esvaziadas. E isso produz apagamento.

Mas há mais do que isso. É tudo menos banal que as palavras que faltam sejam procuradas em outro lugar. Porque, se não conseguimos construir uma narrativa em nome próprio, como constituir um país?

Este é o abismo, como sabiam os modernistas de 22. Ou este ainda é o abismo. Que ainda o seja vai demandar que nos lancemos na tarefa imperativa de encontrar as palavras que agora faltam. Ou de inventá-las. Não na língua de Camões, mas “nas línguas que roçam a de Camões”, como cantou Caetano Veloso.

Que em vez disso nos lancemos em busca de que o outro nos nomeie, de que o outro diga o nome da coisa que se passa aqui, é bem revelador. Agora menos a Europa e mais os Estados Unidos, agora menos Paris e mais Nova York, agora menos Le Monde e mais New York Times. Como se diante da cena ainda por decifrar não fôssemos capazes de falar em nome próprio.

Leia o texto completo na minha coluna no El País

Tupi or not to be

Em nome de Deus e do New York Times, a disputa do impeachment e dos Brasis

O 17 de abril de 2016 tornou explícito que esta não é apenas uma crise política e uma crise econômica. Mas também uma crise de identidade, de ética e de estética. Os holofotes lançados sobre a Câmara dos Deputados, em transmissão ao vivo pela TV, iluminaram o horror. E iluminaram o horror mesmo para aqueles que torciam pela aprovação da abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff. No dia seguinte, algo também revelador aconteceu: a disputa foi levada ao território “estrangeiro”. Não uma disputa qualquer, mas a disputa sobre como nomear o acontecido. Vale a pena seguir essa pista.

A imprensa internacional aponta para o Brasil e diz, com variações, que o espetáculo é ridículo, o que aconteceu foi um circo. A presidente Dilma Rousseff e o PT vão disputar lá fora o nome da coisa: é um golpe – ou um “coup”. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), despacha dois enviados especiais para garantir outra narrativa: o impeachment é legítimo, as instituições brasileiras funcionam, tudo está dentro das normas. Vozes se erguem para acusar Dilma Rousseff de expor o Brasil no “exterior”, prejudicando a imagem do país, reduzindo-o a uma “republiqueta de bananas”. Na ONU, Dilma recua da palavra “golpe” e escolhe, para oficialmente representá-la, outra palavra, uma que não constitui quebra: “retrocesso”. Não é ali que se dá a disputa. A guerra está no território dos narradores. E os narradores contemporâneos encontram-se em grande parte (ainda) na imprensa.

A disputa do impeachment aprofundou o que já havia sido exposto nas manifestações de 2013: a crise da imprensa brasileira não é apenas de modelo de negócios, mas de credibilidade. Como acontece com os partidos políticos, a da imprensa é também uma crise de representação, já que parcelas significativas da população não se reconhecem na cobertura. Neste sentido, o olhar do outro, aqui representado pela imprensa internacional, devolve algo sem o qual não se faz jornalismo que mereça este nome: devolve o espanto, lugar de partida de quem deseja decifrar o mundo que vê.

E, a partir do espanto, busca compreender como uma presidente democraticamente eleita por 54 milhões de votos, sem crime de responsabilidade comprovado, tem a abertura de seu processo de impeachment comandado por um réu do Supremo Tribunal Federal, numa Câmara em que parte dos deputados é investigada por crimes que vão de corrupção ao uso de trabalho escravo, num espetáculo que desvela pelo grotesco as fraturas históricas do país.

A narrativa construída por uma parte da imprensa brasileira sobre o momento mais complexo da história recente do país, a forma como essa parcela da mídia ocupa seu papel como protagonista, assim como as consequências dessa atuação, merecem toda atenção. Possivelmente muitos livros serão escritos sobre esse tema, as perguntas recém começaram a ser feitas. Nesse artigo, porém, quero seguir uma outra pista, que considero fascinante demais para ser perdida. Também não se trata aqui de analisar o que a imprensa de outros países disse de fato – e que está longe de ser homogêneo como se quer vender. Não se trata aqui “deles”, mas de “nós”.

A pista que investigo aqui parte da interrogação sobre o que significa levar a disputa narrativa ao território simbólico do grande outro, “o estrangeiro”. E não qualquer estrangeiro, mas o que fala principalmente inglês, depois alemão e francês e espanhol (da Espanha, não da América Latina). E o que significa dar a essa entidade, chamada “imprensa estrangeira”, a palavra para nomear o que aconteceu – e acontece – no Brasil.

O que é o horror, este que nos persegue desde o domingo 17 de abril? O horror é a impossibilidade da palavra. O horror é também uma infância que nunca acaba. É tudo menos banal que num dos momentos mais ricos de sentidos da história recente faltem palavras para narrar o Brasil. Em parte porque elas foram barradas pelos muros de um lado e outro, interditando o diálogo. E palavras que não atravessam produzem silenciamento. Em parte porque as palavras foram distorcidas, violadas e esvaziadas. E isso produz apagamento.

Mas há mais do que isso. É tudo menos banal que as palavras que faltam sejam procuradas em outro lugar. Porque, se não conseguimos construir uma narrativa em nome próprio, como constituir um país?

Este é o abismo, como sabiam os modernistas de 22. Ou este ainda é o abismo. Que ainda o seja vai demandar que nos lancemos na tarefa imperativa de encontrar as palavras que agora faltam. Ou de inventá-las. Não na língua de Camões, mas “nas línguas que roçam a de Camões”, como cantou Caetano Veloso.

Que em vez disso nos lancemos em busca de que o outro nos nomeie, de que o outro diga o nome da coisa que se passa aqui, é bem revelador. Agora menos a Europa e mais os Estados Unidos, agora menos Paris e mais Nova York, agora menos Le Monde e mais New York Times. Como se diante da cena ainda por decifrar não fôssemos capazes de falar em nome próprio.

E aqui, sempre vale a pena sublinhar, não se trata de nenhuma invocação de nacionalismos ou de purismos aos moldes Aldo Rebelo. É bem o contrário disso. O outro, seja ele quem ou o quê for, pode e deve falar sobre nós. É importante que fale. Mas a interrogação aqui é outra: é por que delegamos a ele a palavra que não somos capazes de encontrar – ou de criar. E que diz respeito ao próprio jogo de identidade/desidentidade essencial à construção de uma pessoa – e também de um país. E como isso está na própria raiz da crise.

O Brasil, este que nasce pela invasão dos europeus e promove primeiro o genocídio indígena, depois o dos negros escravizados – ambos ainda em curso, vale dizer –, nasce com a carta do português Pero Vaz de Caminha. Parte da nossa trajetória é narrada pelo olhar de viajantes notáveis, como o francês Auguste de Saint-Hilaire. O que se diz do Brasil, e que portanto o constitui como narrativa, é dito em língua estrangeira, como todo país que nasce da usurpação do corpo de um outro.

O Brasil, estrangeiro a si mesmo, já que o que aqui existia em 1500 não era Brasil, é constituído pelo conflito, pela dominação e pelo extermínio expressado também na construção da língua. A língua portuguesa, ainda que tenha se imposto junto com seus falantes, foi tomada ela mesma pelos invadidos e pelos escravizados. Ou pelas línguas indígenas primeiro, pelas africanas depois. Não fosse essa contra-invasão pela palavra, a resistência dos invadidos e dos escravos, não seria possível existir um país em nome próprio. Persiste e resiste nas curvas do corpo da língua portuguesa a vida dos mortos.

Essa construção é um campo de conflitos permanente. Basta lembrar as batalhas ocorridas nos últimos anos entre a tal norma culta do português e as variações do português brasileiro, consideradas pelas elites como indesejáveis e menores – “erradas”. Basta escutar as línguas criadas nas periferias urbanas e na floresta amazônica, as línguas vivas que disputam o nome próprio do Brasil. Que no momento em que se disputa a narrativa sobre a coisa que aqui acontece, ou sobre o nome da coisa que aqui acontece, ela seja levada à língua do “estrangeiro”, talvez seja “a nossa mais completa tradução”.

Há muitas razões e significados. Mas talvez exista também uma nostalgia do colonizador. Uma demanda de paternidade. Ou de autoridade. Digam vocês, os que sabem, o que acontece aqui. Deem-nos um nome.

Nossas elites, como se sabe, são jecas. Primeiro cortejavam a França, agora é tudo em inglês. Americano, de preferência. Os Estados Unidos como a colônia que conseguiu virar metrópole e, por fim, a grande potência mundial. Que uma parcela da imprensa e das elites seja agora achincalhada em inglês é uma ironia das mais interessantes.

Com a ascensão de Lula ao poder, o primeiro presidente que não pertencia às elites, a expectativa de alguns, entre os quais me incluo, era a da fundação de uma nova ideia de país. Dito de outra forma, que o Brasil fosse menos um imitador e mais um criador. E isso também na economia.

Eduardo Viveiros de Castro coloca bem essa perspectiva numa entrevista dada ao Outras Palavras, em 2012, quando já se sabia que essa possibilidade tinha sido perdida, pelo menos no governo Lula: “Penso, de qualquer forma, que se deve insistir na ideia de que o Brasil tem – ou, a essa altura, teria – as condições ecológicas, geográficas, culturais de desenvolver um novo estilo de civilização, um que não seja uma cópia empobrecida do modelo americano e norte-europeu. Poderíamos começar a experimentar, timidamente que fosse, algum tipo de alternativa aos paradigmas tecno-econômicos desenvolvidos na Europa moderna. Mas imagino que, se algum país vai acabar fazendo isso no mundo, será a China. Verdade que os chineses têm 5.000 anos de história cultural praticamente contínua, e o que nós temos a oferecer são apenas 500 anos de dominação europeia e uma triste história de etnocídio, deliberado ou não. Mesmo assim, é indesculpável a falta de inventividade da sociedade brasileira, pelo menos das suas elites políticas e intelectuais, que perderam várias ocasiões de se inspirarem nas soluções socioculturais que os povos brasileiros historicamente ofereceram, e de assim articular as condições de uma civilização brasileira minimamente diferente dos comerciais de TV”.

Lula, como bem sabemos, adotou um modelo de desenvolvimento que ignorava o maior desafio desse momento histórico, a mudança climática. E Dilma Rousseff mostrou-se uma governante com pensamento cimentado no século 20, às vezes no 19. Mas é na produção simbólica que fica claro como ainda se tratava de “vencer” no campo do outro. Ou de ser reconhecido “pelos grandes” – ou “pelos adultos”.

Lula termina seu segundo mandato festejado na Europa e nos Estados Unidos como aquele que incluiu dezenas de milhões de brasileiros no mundo do consumo. A “invenção” do Brasil era deveras interessante: tirar pessoas da pobreza sem mexer na renda dos mais ricos. Com esse milagre made in Brazil, Lula só poderia ser “o cara de Obama”. “This is my man, right there. I love this guy”, disse o presidente americano em 2009. “The most popular politician on Earth”.

O que ficou encoberto no meio da festa é que a “mágica” obedecia a uma receita velha: exportação de matérias-primas, como o Brasil fazia desde os primórdios. Também esquecia-se de dizer que essa “criação” era feita na base da destruição do meio ambiente, como sempre foi desde 1500. A novidade não era tão nova assim. E tão logo o encanto se desfez, os mais ricos, em cuja renda os governos do PT não tocaram, se voltaram contra Dilma Rousseff.

O destinatário da produção de símbolos revela-se na escolha dos acontecimentos que deveriam mostrar, de forma definitiva, que o eterno país do futuro finalmente havia chegado a um presente glorioso. Dois eventos internacionais, dois eventos para o mundo ver: a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016.

Há um sujeito confuso nessa narrativa. Um sujeito sujeitado. Quando se joga no campo do outro, segundo os termos do outro, se perde por 7X1. A Olimpíada é assombrada por um mosquito, vilão arcaico que denuncia velhas mazelas como a falta de saneamento básico. E a nova ciclovia do Rio desaba matando duas pessoas no mesmo dia em que a tocha olímpica é acesa na Grécia. A construção, tanto a simbólica quanto a concreta, não para em pé. Lost in translation.

Será sempre lost in translation enquanto não se encontrar o nome próprio. Enquanto o Brasil não falar em nome próprio. Enquanto o Brasil seguir insistindo em ser descoberto quando o que precisa é se inventar. Essa realidade é o cenário da extraordinária peça de Felipe Hirsch e Os Ultralíricos, A Tragédia Latino-Americana, em que os blocos são construídos para em seguida desabarem e serem rearranjados para logo depois virarem ruínas e tudo então ser mais uma vez reconstruído para desabar de novo e de novo e de novo.

Sobre esses blocos em permanente construção e dissolução, Pero Vaz de Caminha recita sua carta, agora narrada em inventiva prosa pelo escritor Reinaldo Moraes. Para parodiar o português, o brasileiro invade a língua do invasor. “Antão dizia eu que antes de alguém ter tempo de dizer chupa! já saltávamos aos cangotes daquelas fêmeas naturaes, feitos javalis resfolegantes de animalesco e represado d’sejo, e elas viram o que era bom pa tosse, pá. E às vezes que por qualquer razão já não queriam mais ter seus urifícios frequentados brutalmente pela nossa nobre gente, dávamos-lhes uns cascudos, mor d’elas calarem as matracas, e nelas mandávamos grosso fumo, pá, refodidas vezes, e era pimba na pombinha e peroba na peladinha! Aquilo era um vidão, pá”.

Criar o que pode ser chamado de um “em nome próprio” foi o desafio dos principais movimentos culturais do século 20, dos modernistas de 22 ao Cinema Novo e à Tropicália. Não por coincidência, processos interrompidos por ditaduras. Em 2013, o novo voltou a ocupar as ruas com enorme potência, para ser reprimido pelas bombas de gás da Polícia Militar e pela violência da palavra “vândalos”, usada pela imprensa conservadora para silenciar o que não queria escutar ou o que não era capaz de interpretar.

É de 2013 que ainda se trata hoje, e se tratará por muito tempo. Do que já não pode ser contido, do que reivindica novas palavras para poder ser dito. Não mais como discurso, como nos movimentos da modernidade, mas como fragmentos, ou como discurso contra discurso, em nossa principal irrupção estética de pós-modernidade.

O Brasil não é pátria nem mátria, mas fátria, como cantou Caetano. Para encontrar as palavras com que construiremos a narrativa do hoje é preciso olhar para Oswald de Andrade, para Villa-Lobos, para Glauber Rocha, para Zé Celso Martinez Corrêa, para Davi Kopenawa e Ailton Krenak, para Mano Brown e Emicida, para Eliakin Rufino, para Sérgio Vaz, para Laerte, para Mundano. Para tantos. Para o perspectivismo ameríndio de Eduardo Viveiros de Castro. Para a literatura de Carolina Maria de Jesus. Para a Comissão da Verdade. A dos crimes da ditadura. E a dos crimes da democracia.

Para o funk das que não são recatadas e que comandam seus próprios lares. Para as famílias que têm dois homens e nenhuma mulher e as que têm uma mulher e outra mulher, para as que tem três padrastos e nenhuma madrasta, para as de uma mulher só. E para as mulheres que antes foram homens. Para os deuses que se recusam a ser vítimas de estelionato no microfone do parlamento.

Para refundar o Brasil é preciso perceber que as periferias são o centro. Que nossa capital simbólica não é São Paulo, mas Altamira.

Inevitável lembrar de Terra em transe (1967), filme de Glauber Rocha.

Diz o jornalista, depois de descobrir que as palavras são inúteis:

– Não é possível esta festa de bandeiras, com guerra e Cristo na mesma posição. Não é possível a potência da fé, não é possível a ingenuidade da fé. (…) Não assumimos a nossa violência, não assumimos nossas ideias, o ódio dos bárbaros adormecidos que somos. Não assumimos nosso passado. (…) Não é possível acreditar que tudo isso é verdade…. Até quando suportaremos, até quando além da fé e da esperança suportaremos…

Diz o político que se corrompeu:

– Aprenderão! Aprenderão! Nominarei essa terra. Botarei essas histéricas tradições em ordem. Pela força. Pelo amor da força. Pela harmonia universal dos infernos chegaremos a uma civilização!

O que fazer diante do horror? Retomar a palavra, a que atravessa os muros. Enfrentar o desafio de construir uma narrativa, necessariamente polifônica, sobre o momento, em todos os espaços. Não desviando das contradições, para evitar que elas manchem a limpidez do discurso. Ao contrário. Abraçando-as, porque elas criam o discurso.

O nome da coisa é a palavra que precisamos encontrar para inventar o Brasil.

(Publicado no El País em 25 de abril de 2016)

Acima dos muros

Nem de um lado nem de outro: o que dizem aqueles que têm, como posição, uma recusa às narrativas de adesão

Foto de João Luiz Guimarães

Foto de João Luiz Guimarães

Em cima do muro. Isentão. Colaboracionista do golpe. Covarde. Omisso. Ingênuo. Burro.

Estes são alguns dos nomes dados a quem não está em nenhum dos lados do Brasil polarizado. Não se alinha – muito menos se enfileira – nem na narrativa #ImpeachmentJá nem na “#NãoVaiTerGolpe. Nem amarelo, nem vermelho. E, assim, é achincalhado pelos dois lados, como traidor de ambos.

Como disse Bruno Cava: “Me situo nesse lugar nada confortável de ser a esquerda que a direita gosta – e a direita que a esquerda gosta. Mas que, no fundo, ninguém gosta. Lugar de pensamento que ainda balbucia, mas que ainda pensa”. Ou, nas palavras de Bruno Torturra, que se apresenta como “desidentificado”: “Prefiro a vertigem da desidentificação do que o falso refúgio das bandeiras de sempre”.

Como afirmei em meu artigo anterior, não estar em nenhum dos lados é posição. E forte. Silenciá-la, pela desqualificação, é uma perda num momento em que, mais do que nunca, as vozes precisam ser ampliadas e não reduzidas. Muito menos caladas. “Os discursos partidários, pronunciados por muitos e sempre da mesma forma, tem sufocado, com sua abundância repetitiva, os discursos independentes”, diz Pablo Ortellado. Ou, na expressão de Moysés Pinto Neto: “É como um vórtice bipolar, sugando tudo para seu interior e reduzindo todas as posições às suas referências”.

O país está, aparentemente, dividido por muros que impedem qualquer contato que não seja aos gritos. Ou que se realiza pelo espancamento, na tentativa de deletar literalmente o outro do espaço público. Os muros dos condomínios fechados, as cercas eletrificadas ganharam as ruas. E ninguém mais se escuta, cada pessoa um muro em si mesma, um portão armado, um vidro blindado e com insufilm.

É preciso promover o desarmamento. É necessário tentar enxergar acima dos muros – e derrubá-los. Não a marretadas, mas pelo instrumento mais subversivo desse momento histórico: o diálogo. A conversa que só pode acontecer pelo reconhecimento do outro como alguém que pensa diferente, não como um inimigo a ser eliminado.

É muito duro sustentar o lugar de não saber. Penso que é com essa dificuldade que também nos deparamos. Tenho dúvidas se não é por isso que uma parte das pessoas, à direita e à esquerda, prefere aderir ao conforto de uma das narrativas, para pelo menos se iludir que há uma resposta, que há alguém que sabe. Aderir como tentativa de estancar a angústia de sentir-se sem chão. Talvez seja o momento de suportar o não saber e acolher as incertezas. Mas em movimento, no movimento da busca.

No que se refere ao campo das esquerdas, também tenho dúvidas se não há, de novo, mais uma exortação ao “menos pior”, à eterna esperança da tal guinada à esquerda. Ou algo correspondente ao “voto útil” aplicado às manifestações. Mais uma conclamação, como se viu em eleições recentes e especialmente na última. Será que os dias seguintes não mostraram, de forma bastante eloquente, que isso já não deu certo? Que isso só alargou o abismo e que já passou da hora de encarar o buraco e enfrentar os conflitos, por mais duro que seja, para que pelo menos exista uma chance de criar possibilidades?

O diálogo é tão urgente que tem de ser provocado em todos os lugares. Percebi que, neste momento, nem na minha própria coluna de opinião posso falar sozinha. Convidei para este espaço, para nos ajudar a nos movermos, para além do que cada um acredita, algumas pessoas que têm ousado pensar e escrever, em geral em blogs e nas redes, sobre esse momento tão movediço, em que poucos se arriscam a dizer além do já dito. E a pensar fora das narrativas de adesão de um e outro lado. Estas, que já decoramos.

Trago para este espaço as vozes abafadas, as daqueles que não estão “em cima do muro”, mas “acima dos muros”, no plural. Moysés Pinto Neto é escritor, professor da Universidade Luterana do Brasil, graduado em direito e doutor em filosofia. Sua leitura do Brasil pode ser acompanhada no blog O Ingovernável. Bruno Torturra se dedica a experimentar novos caminhos para a participação política e para o jornalismo, a partir das possibilidades de hiperconexão. Fundou a Mídia Ninja, essencial na cobertura de Junho de 2013, e se distanciou dela a partir do final daquele ano. Hoje, toca o Estúdio Fluxo. Pablo Ortellado é filósofo, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas na Universidade de São Paulo e coautor de Vinte centavos: a luta contra o aumento, entre outros. Ele testemunhou, como pesquisador, todas as manifestações contra e a favor do impeachment organizadas em São Paulo. Bruno Cava, autor de A multidão foi ao deserto, entre outros livros, e blogueiro do Quadrado dos Loucos, também é um atento investigador das ruas, pesquisador de lutas e movimentos urbanos há 11 anos, associado à Universidade Nômade.

Eles responderam, por e-mail, a três perguntas propostas por mim. Embora esses quatro interlocutores estejam próximos do campo das esquerdas, há diferenças consideráveis no seu modo de compreender esse momento. E há quem considere o conceito de esquerda, assim como o de direita, superados, insuficientes e redutores. De modos diferentes, os quatro são observadores atentos de Junho de 2013 – o ponto de inflexão que não parece ter sido compreendido por protagonistas de ambos os lados.

A ideia, aqui, não é construir um terceiro discurso – ou um terceiro lado. Isso também seria empobrecedor. Não há homogeneidade. E é mais interessante que ela não exista, que os discursos possam ser múltiplos. Talvez, por isso, também seja difícil – ou mesmo impossível – nomear esse fora dentro. Ou esse além dos muros.

A transgressão necessária, nesse momento tão delicado, é atravessar os muros com palavras. Mas essas palavras têm várias direções.

1) Por que você não está em nenhum dos lados ou dos polos da chamada “polarização do país”?

Moysés Pinto Neto – Não estar em um dos lados não significa não ter posição – sou contrário ao impeachment por questões jurídicas e políticas. Significa simplesmente não subscrever as duas principais narrativas. De um lado, a narrativa oposicionista, que define o PT como uma quadrilha que se apropriou do Estado para se manter no poder, garantindo sua permanência por meio de fraudes eleitorais e manobras populistas. De outro, a narrativa governista, que define o que está ocorrendo como um golpe de Estado travado pelas forças conservadoras, com vistas a atingir o processo de inclusão social levado a cabo nos últimos 12 anos. O problema é que essas narrativas estão incompletas.

A oposição desenha o cenário de modo a transformar o PT em alvo principal e ignora, propositalmente, a dimensão estrutural e universal que está sendo revelada nos processos de investigação da Operação Lava Jato. A situação, por sua vez, prende-se a importantes questões formais, baseadas em instituições jurídicas, mas não enfrenta o mérito de que o estrutural não elimina a responsabilidade de quem se envolveu e aprofundou o processo, muitas vezes blindando de forma idolátrica o partido contra toda e qualquer crítica.

Há tempos vem se construindo uma crítica ao modelo baseado numa noção de progresso unidimensional, que mede o sucesso das políticas públicas por meio dos índices quantitativos de crescimento, se sustenta em alianças com latifundiários, oligopólios econômicos e no alinhamento político com o “Centrão”. A corrupção não foi um acidente, mas parte de um programa que aceitou como fato consumado a existência desse complexo oligopolista para promover o crescimento nacional. Os movimentos sociais de 2013 entenderam perfeitamente esse mecanismo quando usaram o lema #NAOVAITERCOPA.

Não estar na polarização significa ampliar narrativas que têm sido reprimidas em nome da simplificação maniqueísta.

Bruno Torturra – Enxergar o país sob a lente da polarização já se provou algo pior do que simplista. É, a essa altura, alucinatório. De certa forma, a polarização é o exato oposto do que estamos vivendo na política institucional – escancaradamente promíscua, fisiológica e amalgamada.

Hoje, vejo a polarização mais como um fenômeno entrópico de comunicação do que político. Ela se destaca e exerce toda essa força gravitacional em ruas, jornais e timelines justamente pela dificuldade imensa de leitura de uma paisagem política caótica, trágica e complexa demais para ser resumida em posts, manchetes ou palavras de ordem.

Essa complexidade é uma barreira enorme para novos léxicos, lideranças, símbolos e campos de identificação emergirem e se tornarem forças relevantes, críticas e propositivas no debate. É um terreno minado para a assertividade. Mas, à medida que a crise se aprofunda, crescem também a ansiedade pública e a necessidade de respostas, de posições firmes. Então os polos – por mais disfuncionais que sejam – se tornam os únicos aspectos facilmente identificáveis do terreno.

É uma pena, porque esse teatro esconde a causa que poderia, em um ambiente racional, unir grande parte dos dois campos e uma massa de desidentificados no caminho: a completa refundação do sistema de financiamento eleitoral em nome de um mais barato, público e transparente.

Pablo Ortellado – Essa polarização política, ao meu ver, tem dois motivos principais. O primeiro é o aparecimento, no Brasil, do que os americanos chamaram de “guerras culturais”, que são as disputas geradas pela moralização do debate político. Essa moralização aparece na proeminência no debate político de temas como casamento gay, aborto e endurecimento penal, em detrimento de questões tradicionais de política econômica e social. Além disso, a moralização aparece também no tratamento moral dado a esses temas clássicos da política econômica e social que opõe, de um lado, uma moralidade punitiva, associada à direita conservadora e, de outro, uma moralidade compreensiva, associada à esquerda progressista.

Assim, o Bolsa Família, por exemplo, não é mais discutido na chave da sua eficácia ou eficiência no combate à pobreza, mas suscita dois discursos morais inconciliáveis. Para um lado, ele é um instrumento que premia a indolência, a incapacidade de poupança e a falta de empreendedorismo. Para o outro, ele é uma política solidária que mitiga uma injusta pobreza estrutural.

Com a moralização da política, o debate perde as referências comuns e se torna apenas o agressivo choque de visões morais de mundo. Essa moralização do debate é reforçada e está entrelaçada com a rivalidade entre os dois grandes partidos políticos brasileiros, o PT e o PSDB, que organizam as demais forças políticas. Como estão bastante organizados e enraizados em diversos setores da sociedade brasileira, cada um deles tem a capacidade de coordenar um discurso unitário. Pouco importa se essa orquestração é fruto da adesão espontânea dos partidários a argumentos e frases de efeito ou se emana como ordem de um centro político. O resultado é que cada partido tem um discurso pronto, fechado e autorreferente que é igual em toda a parte: nas redes sociais, nos meios de comunicação e na conversa cotidiana.

Esses discursos partidários, pronunciados por muitas pessoas, sempre da mesma forma e em todos os lugares, sufocam, com sua abundância repetitiva, os discursos independentes que, pela própria natureza, são singulares e descoordenados. Fugir da polarização é, portanto, condição para pensar e para agir com autonomia e independência.

Bruno Cava – Fala-se em terceira via, mas estou do lado de uma segunda via, em relação a um sistema político-partidário esgotado, onde as polarizações dos líderes escondem barganhas, promessas e posicionamentos que, por trás da retórica, não passam da reposição do mesmo jogo de sempre. Então, estou polarizado contra essa falsa polarização, e é o que me faz continuar pensando.

Diante do clamor por mudanças pelo país inteiro, em todos os segmentos, os protagonistas dessa crise simulam que estão mudando, para que tudo continue como está. Seja essa simulação na forma da guinada à esquerda, seja na do fim do petismo. A diferença, em termos de dinâmica, entre as duas, está na capacidade de falar para fora. O verde-e-amarelo e a pauta anticorrupção são inclusivos e tendem a funcionar como guarda-chuva para as indignações, ao mesmo tempo que símbolos partidários não são bem vistos e podem ser vaiados. O vermelho e a invocação de pertencer a um grupo específico, a esquerda, faz da outra manifestação uma espécie de prova de coesão, com contornos claros.

Isto talvez explique, em parte, a diferença quantitativa entre uma e outra: a pessoa indignada, que não está acostumada a ir a manifestações, tende a ir nas de verde-e-amarelo. Eu acho isso particularmente irônico, porque, quando gritávamos “Não vai ter Copa”, nos protestos de 2014, vestíamos preto e vermelho. Mas, naquele período, boa parte da esquerda dizia que não era hora de manifestar, que era hora de torcer. Ou seja: há apenas dois anos, era imoral *não* vestir verde-e-amarelo. Agora, essas mesmas pessoas atribuem ao verde-e-amarelo uma conotação negativa.

O grito antipolítico ou anticorrupção exprime uma tendência mundial de rejeição do atual sistema representativo, na sua dimensão política, econômica e ambiental, que não corresponde às potencialidades de uma democracia hoje possível, mas que é sistematicamente bloqueada. Atrás do “anti”, do “não”, do repúdio geral à figura do político, existe um “sim” maior, como vimos nas jornadas de junho de 2013, no Brasil, em Gezi Park, na Turquia, no movimento do 15M na Espanha, nas revoluções árabes, em todo um ciclo vivido intensamente pelo mundo. É possível trabalhar com esse sim.

2) Se você não está em nenhum dos lados, onde você está? Que posição é esta? E como nomeia esse “lugar” onde você está?

Moysés – Esse lugar tem tido sua nomeação proibida. Antigamente, chamavam pejorativamente de “terceira via”, agora chamam de “isento”. Na realidade, se “terceira via” se confunde com o liberalismo envergonhado de Tony Blair e “isento” se confunde com “sem posição”, não vejo como esses termos poderiam ser adequados. Trata-se da tentativa do “vórtice” bipolar de sugar tudo para seu interior, reduzindo todas as posições às suas referências.

Esse “lugar” surge desde Junho de 2013, quando houve oportunidade inédita de enfrentar velhas oligarquias com novas forças políticas, formadas a partir de uma transição geracional mergulhada em uma mutação tecnológica e cultural. Ele parte da falência da democracia representativa em contexto mundial, cuja crise se expressa pela presença sintomática de movimentos críticos ao sistema (como Espanha e Grécia), pelo descontentamento popular com questões globais, apropriado pela extrema-direita (com Le Pen, Donald Trump etc), pelos coletivos auto-organizados (como Zapatistas, Rojava) e, por fim, com revoltas violentas difusas nas periferias e com fundamentalismos.

O contexto atual ainda coloca a questão emergencial do “Antropoceno”, a entrada em um período geológico no qual o fator humano desempenha papel central na organização da Terra. A continuidade do programa de crescimento econômico baseado na hiperprodução e no hiperconsumo não faz mais qualquer sentido em um contexto material em que é necessário reduzir nosso impacto.

Alguns se perguntam se a própria noção de “esquerda” é útil para pensar esse porvir, entendendo-a como um marcador identitário que restringe a capacidade de disseminação das lutas e promove um fechamento “condominial”, que gradualmente se apaixona pelas próprias ideias. E, quanto mais caminha ao extremo, mais rígida, em um sentido quase militar, se torna a identidade.

Por outro lado, mesmo se considerarmos a crise da mediação e a crise ecológica como novos termômetros políticos, que reposicionam a polaridade, é difícil simplesmente negar a existência de uma diferença que corta ao meio as posições: para onde vão essas transformações sociais, ecológicas, tecnológicas. A divisão social em dois grandes grupos, aqueles que são donos de tudo e de todos os direitos e aqueles que não têm direito algum, reduzidos à condição de “vida nua”, parece ser o fio que corta necessariamente toda visão acerca do futuro, mesmo que marcada por esses novos termômetros.

Assim, pode até ser que o significante “esquerda” não diga mais nada sobre o porvir, já que sua herança humanista e parlamentar não dá conta dos problemas que o Antropoceno coloca. Do mesmo modo que a linguagem política dos direitos humanos pode ser insuficiente para compreender o contexto pluricultural que emerge no cenário globalizado, eliminado o privilégio ocidental de se colocar como a própria humanidade. Mas é inegável que há uma herança aí a ser apropriada: a luta por justiça que ultrapassa a noção de mera sobrevivência. A luta por justiça contra a divisão da sociedade em duas, uma com tudo e outra com nada.

Torturra – Acho que meu lugar é o da travessia. Impossível de ser posicionado com precisão. Pode ser um lugar muito desconfortável, mas necessário. Sempre me considerei – e ainda me considero – alguém de esquerda. Mas acredito realmente que a definição desse termo está, como todo o resto, em crise. Porque fica muito difícil saber o que é esquerda quando não sabemos mais onde está o norte. Quando não temos mais a clareza de que futuro, qual ideia de sociedade e democracia nosso campo vai oferecer para o século 21.

A forma, estética e ética das esquerdas do século 20 não dão mais conta. Por isso, nesse momento, eu acredito que a melhor posição não seja um “lado”, mas uma atitude desarmada, racional e realista. Abraçar a dúvida. Para, quando possível, ter mais clareza de léxico, propostas e ação. Para isso recorro às duas bases da minha formação política. Por um lado, autores iluministas e valores de crítica e autocrítica permanente. De rever e adaptar minhas opiniões aos fatos, nunca o oposto. E, do outro lado, voltando a buscar experiências psicodélicas com plantas e substâncias enteógenas – psicoativos que favorecem uma reconexão entre a natureza e seus processos. Elas me ajudam muito a compreender o intraduzível. A enxergar a política como uma propriedade emergente da psique humana. E trazem um pouco de calma no caos, alguma perspectiva e relativa lucidez nesse momento.

Ortellado – Me coloco fora da rivalidade dos partidos políticos, colaborando como posso com os movimentos sociais “autônomos”. Como dizem os zapatistas, busco estar “abaixo e à esquerda”. À esquerda no espectro político e abaixo (fora) do sistema partidário.

Acho que há uma conexão entre as manifestações de junho de 2013 e os protestos pró-impeachment de 2015 e 2016. Para além de qualquer dúvida, Junho de 2013 resgatou o protesto de rua como instrumento de pressão política e esse elemento foi incorporado no repertório de ação política, à direita e à esquerda.

Mas, de maneira mais profunda, pesquisas de opinião que conduzimos com os manifestantes anti-Dilma, em 2015, mostraram que eles compartilham as demandas centrais dos protestos de junho de 2013, que podem ser resumidas em: 1) rejeição da representação política; 2) defesa do sistema de direitos sociais. Ao contrário do que parecia, os manifestantes anti-Dilma não eram anti-petistas seletivos, mas desconfiavam de todo o sistema político, PT à frente. Além disso, defendiam de maneira surpreendentemente forte a universalidade, o caráter público e a gratuidade dos sistemas de educação e saúde.

Minha explicação para isso é a seguinte: Junho de 2013 despertou uma grande indignação transversal na sociedade brasileira contra o sistema político e em defesa de direitos sociais, a partir dos protestos pela redução da tarifa convocados pelo Movimento Passe Livre (MPL). Essa indignação mais ampla ficou órfã quando o MPL, por questões próprias do seu modo de fazer política, se recolheu ao seu trabalho de base voltado para a mobilidade urbana. Sem atores políticos à esquerda que fossem organizados e desvinculados de partidos políticos, essa indignação foi assumida como causa pelos novos grupos de direita, que começaram a transformar o impulso anti-institucional em antipetismo, atribuindo a má qualidade dos serviços públicos à corrupção. O passo seguinte, no qual trabalham agora, é transformar a crítica à corrupção numa crítica ao tamanho do Estado, propondo como solução a desconstrução dos serviços públicos.

Cava – Tenho discursos, trejeitos e instintos de uma cultura de esquerda. Hoje vivo essa tradição como uma limitação do meu poder de agir. Me desconecta da alteridade, me paralisa pelo medo. A multiplicidade de modos de vida no mundo, hoje, não admite essa dicotomia entre “pessoas de direita” ou “pessoas de esquerda”. É artificial, forçada, e costuma servir apenas para fazer cordões sanitários entre grupos e redes mais amplos e transversais.

Como falar em esquerda e direita como estruturante do mundo político depois da Hungria 56 ou da Primavera de Praga 68? Talvez funcionasse em algum lugar do século 19, mas hoje existem vários polos que não encaixam bem aí, como direitos das minorias, ambientalismo, cultura digital, pensamento ameríndio etc.

Mas já sou de uma geração que não é mais a da fundação do PT, mas do ciclo alterglobalização de Seattle e Gênova, que tinha no zapatismo uma grande referência, se informava pelo CMI (Centro de Mídia Independente) e militava pela mundialização das lutas. Então, já é uma geração em êxodo com relação às formas engessadas que a esquerda assume, seja no movimento estudantil, nos sindicatos, nos movimentos sociais.

O ciclo de “ocupas” brasileiras no período de 2011-12 teve o efeito de demonstrar que se fortalece uma tendência transformadora que não passa pela esquerda. Ao contrário, seus símbolos representam elementos indesejados: aparelhamento, velhas lideranças, estruturas pesadas e centralizadas.

Em 2013, esse movimento de êxodo se tornou massivo e generalizado: no Rio tivemos lutas pelo transporte, moradia, anticorrupção nas obras da Copa e nas licitações de linhas de ônibus, contra a cura gay, campanha “Cadê o Amarildo?”, greves metropolitanas com professores e garis. Porém, para parte da esquerda, era mais importante proteger símbolos do que transformar o mundo.

De lá pra cá, ser de esquerda virou um tipo de estado civil, com cobranças, obrigações, certidões. Em vez de ficar estático, tento seguir os prolongamentos da tendência que citei, que hoje aparece de modo espalhado. É um tipo de solidão, pois sem lugar de conforto, mas que é compartilhada por muitos na solidão mesma, como um bloco do “nós sozinhos”. Num trocadilho com a música do Los Hermanos, quero dizer com isso o bloco dos sem representação, dos sem nome, daquele que está sozinho no deserto, mas encontra outros sozinhos. E sozinhos juntos se faz um povo nômade. Um deserto que é uma produção: não de solidão, de isolamento, mas de solidão ativa, recomeço, bando.

3) O que está acontecendo com o Brasil, visto deste lugar? Quais são os riscos deste momento histórico? E como sair desse impasse?

Moysés – Estamos nos tornando um novo país: as várias autoimagens brasileiras estão se dissolvendo. De baixo para cima, em contraste com o imaginário da mestiçagem, da malandragem e da cordialidade. E de cima para baixo, com o imaginário do coronelismo, da liderança paternal e do patrimonialismo. Os conflitos se estabelecem em nível micro e macro, ao mesmo tempo, colocando a sociedade em estado de hiperpolitização estressante.

A democracia implementada desde a Constituição de 1988 transformou o país, com a estabilidade do Plano Real e a inclusão social do período lulista. Mas a etapa posterior ainda está por ser escrita.

Contrariando suas ideias iniciais, o PT cada vez mais se identifica com o imaginário tipicamente trabalhista. Busca instaurar um Estado de bem-estar social nos moldes do capitalismo industrial nacionalista, que serviu de base para sua construção europeia. Mas esse contexto, hoje, com o poder de pressão do mercado financeiro, a dissolução de fronteiras culturais, a crise migratória e a universalidade dos problemas ecológicos, não está mais presente.

O grande risco, inerente a qualquer desconstrução, é que esse processo seja suspenso em nome de um gesto de unificação forçada. A “antipolítica” que emergiu em 2013, tanto à direita quanto à esquerda, mas que está presente e visível no mundo inteiro, pode ser capitalizada de diversas formas, tendo em comum apenas a rejeição em bloco de todo sistema de mediação.

Deslocando o problema para a conjuntura, parece nítido que o buraco da “corrupção” não vai ser tampado apenas com “garantismo” (defesa das garantias individuais e da legalidade nos processos de persecução criminal). Para que a esquerda se rearticule, precisará dar uma resposta a isso que não passe apenas por mudanças legais e mais punitivismo. O próprio punitivismo é uma demanda que envolve a nostalgia pela coesão social absoluta: sua luta “contra a impunidade” é uma tentativa de restabelecer laços sociais em estado de tremor, de buscar reafirmar a lei como elemento unificador.

Talvez o governismo simplesmente não seja mais capaz de dar essa resposta, dado que está envolvido até os ossos com a defesa do projeto atual. A reiterada defesa da Odebrecht por Lula é significativa disso. Mas certamente a esquerda, entendida como perspectiva de transformação social com justiça, precisará de uma resposta e mudança estrutural desse cenário e projeto, para que possa se reposicionar politicamente, despertando aquilo que é essencial ao vínculo com o Outro: a confiança.

A transformação do país passa, portanto, por um novo pensamento, um novo programa experimental e novas formas de organização. Sair do impasse atual da crise das mediações demanda repensá-las de modo radical: sem dogmas e abrindo mão das velhas identidades, escapando da polarização que herdamos do século 20 e que já não é capaz de dar conta da imensa quantidade de problemas que o século 21 passou a apresentar.

Torturra – Tentando resumir o impossível, me parece que não apenas o governo, mas o Brasil inteiro está sofrendo as consequências gravíssimas de um auto-engano generalizado. Cada ator dessa crise – dos cidadãos aos partidos e instituições – está vivendo em profunda negação da autocrítica e responsabilidades pessoais. E buscando culpas em agentes no “outro polo”. O “corrupto”, o “golpista”, o “indignado seletivo”, o “omisso” é sempre o outro.

Isso explica um pouco da imprevisibilidade e da escalada punitivista no país. E explica o próprio impeachment. Para mim, a deposição de Dilma não é um golpe, como muitos preferem chamar. Mas a culminação dessa sanha literalmente expiatória. Que é liberar a culpa de todo um organismo político e social pela imolação de um corpo em praça pública. Uma sociedade afogada em contradições, uma imprensa majoritariamente cínica e um congresso encalacrado em escândalos querem assar a pizza da Lava Jato usando a presidente como lenha.

O risco, nesse momento, é altíssimo. E talvez o desenrolar da crise já esteja com o script definido. Mas, caso o impeachment seja o grande “pacificador”, a irracionalidade vai sair vitoriosa, confirmada e livre para capitalizar eleitoralmente. Em nome da unificação nacional, vamos perder a chance de discutir, pautar e refundar o sistema de financiamento eleitoral. Dado o enorme vácuo de novas e críveis lideranças, oportunistas e demagogos podem ocupar esse espaço em muito breve.

Minha tênue esperança, nesse momento, vem, justamente, de acreditar que o enorme e pouco reconhecido campo dos desidentificados seja o mais fértil do país. Que essa metástase do corpo político possa ser capaz de abrir caminho para o aprofundamento da nossa própria ideia de democracia, para além do voto. Como? Nem me arrisco a ser objetivo aqui. Mas penso que direitos humanos, transparência de gastos, um respeito incondicional aos ecossistemas e uma maior permeabilidade do Estado à participação cidadã devem ser os norteadores de qualquer nova visão política de país. Por isso, meu único mantra a esse ponto é o seguinte: manter as perspectivas mais amplas do que as expectativas. É duro, mas hoje prefiro a vertigem da desidentificação do que o falso refúgio das bandeiras de sempre.

Ortellado – Por um lado, a questão do impeachment está ofuscando questões mais substantivas, relativas à perda de direitos sociais, que estão sendo promovidas, com ênfase diferente, pelos dois grupos políticos em disputa. Por outro lado, um impeachment agora terá com certeza grandes repercussões no futuro próximo. As pedaladas, que nada mais são do que uma manobra contábil, são um pretexto ridículo para remover uma presidente que perdeu popularidade e apoio político no Congresso. Nessa chave, impedir a presidente agora é um recurso abusivo e perigoso, porque impeachment não é recall – votação de meio de mandato pela permanência ou não do mandatário. Ainda que o processo seja legal e institucional, ele banaliza um instrumento que devia ser utilizado de maneira excepcional. No entanto, se alguns dos indícios levantados pela Lava Jato se confirmarem – por exemplo, as acusações feitas pelo senador Delcídio Amaral –, aí sim teremos motivos para um pedido de impeachment. Mas ainda não é o caso.

Independentemente de tudo isso, o que estamos vendo agora é um ataque aos direitos sociais. Começou com a limitação do seguro-desemprego, passou por cortes expressivos nos gastos sociais e caminha rapidamente para cortes nas aposentadorias. Seja quem for que ganhe a disputa, provavelmente teremos redução de direitos. Por isso, a questão mais importante agora é fortalecer os movimentos sociais, principalmente aqueles que atuam por fora do sistema político. Consolidar os movimentos sociais que estão fora do modelo petista de fusão entre partido e movimento.

O PT não é um partido social-democrata tradicional, como o Partido Social-Democrata alemão ou o Partido Trabalhista inglês. No modelo social-democrata europeu, o partido tenta controlar e dar orientação aos movimentos, desde fora, oferecendo a eles um planejamento político de longo prazo. O PT é o contrário disso: é um partido construído em grande medida pela base, a partir da convergência de quase todos os movimentos sociais atuantes no final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Isso gerou um modelo de participação e colaboração entre sociedade civil e Estado que vemos tanto na participação de movimentos na direção do partido, como em instrumentos institucionais de participação no Estado, como as conferências, os conselhos e as audiências públicas.

A partir dos anos 1990 e 2000, esse modelo, que se tornou dominante, começa a ser rejeitado pelos novos movimentos sociais construídos pelos mais jovens. É esse processo de construção – que vemos no Movimento Passe Livre, no movimento dos estudantes secundaristas, no novo movimento feminista, nos movimentos contra a violência policial nas periferias, entre muitos outros – que precisa ser amadurecido, para inaugurarmos uma nova etapa na esquerda brasileira, na qual a sociedade civil pressiona o Estado por mais direitos desde fora.

Cava – Gramsci dizia que crise é quando o velho já morreu e o novo ainda não pôde nascer, intervalo durante o qual ocorrem as mais diversas expressões mórbidas. O problema é que nenhuma das posições que está sobre a colina deixa o novo nascer, o que está levando o país – e o mundo – ao ponto do paroxismo. O maior risco é tirar a escolha das pessoas. É a chantagem em tom policial de que você tem que escolher um lado, senão… É preciso desconfiar de qualquer campo de possibilidades em que você não tenha escolha, e diante disso escolher a escolha.

Quando se coloca que há poucas escolhas, ou o afunilamento em apenas duas, “tudo” ou “nada”, seria interessante deslocar essa colocação: que tipo de agência eu – e cada eu é muitos, muitas redes – posso construir assim? Se enquadrarmos a intensa mobilização social no Brasil de 2016 como uma dicotomia, será que não cancelamos qualquer possibilidade de agência?

Por exemplo: no dia 18 de março, em São Paulo, onde estive, o PT colocou pra girar toda a sua estrutura na capital e cidades vizinhas, aglutinou todas as forças sindicais, das juventudes, dos movimentos sociais, e contou com o reforço das pessoas ligadas à oposição de esquerda e, sobremaneira, da universidade. O problema é que, conforme o ato ia evoluindo, ele era sucessivamente verticalizado em palavras de ordem, até atingir o clímax que foi o discurso do Lula. Toda a organização se deu de modo arborescente, quase um zigurate, para Lula falar. Lula sai dali e vai negociar com os caciques do PMDB, como vinha fazendo no ano passado, com o poder de barganha conferido pelo orçamento do governo.

Foi uma capitalização política em que os participantes tiveram pouca ou nenhuma agência. Ou pior, se agenciaram para favorecer não o que queriam, a “guinada à esquerda”, mas a blindagem do sistema político ao único vetor que conseguiu passar pela brecha de Junho de 2013, a operação Lava Jato – o que é a delícia e o drama dela, uma operação policial. A abertura das planilhas de obras e campanhas apenas está comprovando o que já desconfiávamos: como em termos de financiamento político e compromissos ocultos os principais partidos não diferem em nada. Nessa crise de esfacelamento, se a Lava Jato está exercendo o papel de Glasnost de uma governabilidade desenvolvimentista, o desastre ambiental em Mariana foi o seu Chernobyl.

Nas jornadas de junho de 2013, os coletivos pelo passe livre questionaram as planilhas do transporte coletivo municipal, para examinar os negócios e pegar os “pulos do gato”. Além dos obstáculos colocados pela repressão, se deparavam com uma contabilidade paralela, onde se enroscam os acordões empresariais e políticos-eleitorais. Hoje, três anos depois, a Lava Jato está escancarando as caixas pretas da governabilidade, relativas às grandes obras, os contratos públicos, os projetos urbanos.

Podemos levar adiante esse questionamento. Essa, aliás, não foi só uma das demandas de Junho, como também de uma recente mobilização em favor de uma constituinte por reforma política, centrada no financiamento eleitoral, mas paralisada com a desculpa da ausência de “correlação de forças”. Hoje, essa correlação não mudou para favorecer as mudanças?

Spinoza falava, sobre a servidão voluntária, que não se pode enganar o desejo. Você pode frustrar o interesse – e não o desejo. Seria interessante perguntar então, por qual mecanismo se é levado a lutar pela própria frustração, pelo próprio fracasso. Daí tantas leituras “existencialistas” – signo de interiorização de uma crise onde não se encontra agência – que vão falar em angústia, desespero etc. Claro que, em 18 de março, ouvi inúmeros relatos sobre isso, existiam margens, linhas de fuga, grupos deslocados com relação à verticalização. Dentro da massa vermelha havia matilhas.

Mas isso passa justamente por não se deixar subjetivar por um lado como contraposição ao outro, e buscar a terceira margem – a segunda via, em termos de potência de agir. Isso não significa não agir ou não decidir. Eu só acredito em refugiar-se quando tem um sentido tático, como quem se joga no chão pra escapar de uma bomba, mas logo se levanta e faz alguma coisa.

É preciso agir sim, falar, estar nas ruas, debater nas redes, enxergar linhas minoritárias em meio aos macro-blocos que cobram coesão. Existe uma energia grande à solta, buscando emergir desde as jornadas de junho de 2013, que a polarização partidária vem violentando de maneira ortopédica. Aconteceu algo semelhante na Argentina de 2001, que desembocou no movimento de panelaços e piqueteiros com o grito que se vayan todos. Sem respostas à altura da parte do sistema político-representativo, a indignação vai fazer um strike que nem no boliche.

A crise é um momento em que temos a oportunidade de viver intensamente o nosso tempo histórico. Em que o futuro é uma incógnita, em que podemos portanto contribuir, num sentido ou em outro, para materializar esse futuro aqui e agora. Querer sair do impasse já é, em certa medida, negá-lo. Como se existisse uma saída à mão, um “abre-te sésamo”. A esquerda, quando fala em “saída pela esquerda”, lembra o Barão de Munchhausen: para sair do atoleiro, resolveu puxar-se pelos próprios cabelos. Vai arrancar alguns, mas não vai sair.

Eu não tenho a resposta do “como fazer” em sentido estrito, ela não vai sair de uma fala ou análise individual. Na verdade, ela só pode ser desdobrada de um campo de relações, redes e agenciamentos de que cada um já participa, mesmo que isto signifique divorciar-se de alguns deles, porque crises também são momentos de reconfiguração. Junho de 2013 foi vivido assim por bastante gente: como tempo que urge.

Temos que assumir o impasse como potência. Não tem como sair, tem que entrar nele.

(Publicado no El País em 28 de março de 2016)

 

Brazil’s judiciary is no longer just an institution – it has now gained a face

Meu artigo de sexta-feira no The Guardian:

Protesters outside the Planalto presidential palace in Brasilia on 17 March. Photograph: Evaristo Sa/AFP/Getty Images (The Guardian)

Protesters outside the Planalto presidential palace in Brasilia on 17 March. Photograph: Evaristo Sa/AFP/Getty Images (The Guardian)

Federal judge Sérgio Moro has become the high-profile face of the campaign to impeach Dilma Rousseff. But is he overstepping the mark?

Brazil is suffering from convulsions. At first it was one a week, then one every day. Then everything began to change by the hour.

On Thursday 17 March, Brazilians tuned in to watch as former president Luiz Inácio “Lula” da Silva was sworn in as a cabinet minister. Then they went to use the toilet or get a drink, and by the time they came back his appointment had already been blocked by a judge.

It is possible that by the time you read this article Brazil will have experienced further convulsions and what happened on Thursday will already be a distant memory. The reason for this is that Brazil is currently fighting fire with fire. The firefighters pretend not to realise that if the country goes up in flames once and for all, everyone will get burned.

Brazil is a country in uproar. The demonstrators in favour of the impeachment of the president are in uproar. The demonstrators opposed to her impeachment are in uproar. Both sides are in uproar against those who refuse to side one way or the other.

The politicians suspected of corruption are in uproar, accusing other people of being the thieves. And vice versa. A sector of the media has stopped asking questions in favour of roaring foregone conclusions.

It is like being trapped in a recurring nightmare. Just when you think that the country has reached rock bottom, it sinks to a whole new level. And from there it goes on to plummet even greater depths.

In the face of the current crisis, which is not only political and economic but also one of identity, the worst thing that could happen to Brazil would be to turn back the clock; instead of tackling its chronic defects in order to build a future, recreating the nation’s past in its own image and likeness. The risk of this happening has looked ever more likely in recent days. And given the loss of faith in politicians and traditional political parties, dogged by charges of corruption, the judiciary has been filling the political void.

(…)

 

Leia aqui.

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