ECA do B

As crianças negras e pobres do Brasil só são achadas por bala perdida porque não sabem ler o verdadeiro Estatuto da Criança e do Adolescente

Se as crianças negras e pobres tivessem aprendido a ler, não ficariam interrompendo o tráfego com seus corpinhos escuros. Mas vão para escolas públicas bem equipadas, em prédios planejados, cercados por jardins e quadras de esporte, com professores bem pagos e preparados, em tempo integral, alimentadas com comida nutritiva e balanceada, e nem assim conseguem ler direito. Só desperdiçam os impostos pagos por pessoas de bem, como eu. Preferem ficar em seus barracos sufocantes, em ruas esburacadas e sem árvores, por mau gosto. Impressionante o mau gosto das crianças pobres e negras, uma coisa que vem de berço, mesmo, basta ver como se vestem mal. Por isso, não compreendem o Estatuto da Criança e do Adolescente. Não a bobajada aprovada nos anos 90, por aquele monte de babacas que ficam choramingando até hoje porque a ditadura torturou e matou uns milhares de comunistas. Matou foi pouco! Estou falando do verdadeiro Estatuto da Criança e do Adolescente, o que não foi feito por gente que ficou desperdiçando anos estudando para proteger direitos humanos de bandidinhos. Como se crianças negras e pobres fossem humanas! Estou falando do ECA que vale, o das ruas, a lei na prática, mesmo. O outro, o oficial, é só pra botar na biblioteca daqueles intelectualoides de esquerda, pra encherem aquela boca mole de porcaria politicamente correta e se exibirem em reunião da ONU. Se os moleques soubessem ler e soubessem o seu lugar, estariam aí, vivos, pra ficar chapinhando no esgoto, como gostam. Como não tenho estômago pra sujeira na via pública, resolvi sistematizar a lei em vigor e fazer o manual de 2015, versão atualizada, para ver se param de emporcalhar o chão com seus miolos. Uma coisa bem didática, bem simples, pra que mesmo uma raça inferior consiga entender. Vou botar nome em cada uma delas, pra ver se fica mais fácil de entrar nessas cabecinhas cheias de maconha. Tipo, lembra do caso, associa com a lei, não faz merda, tudo resolvido. Como no ano que vem tem Olimpíada e não quero que os gringos pensem que aqui não tem lei, me restringi ao Rio de Janeiro. Se cada um fizer a sua parte pra higienizar a cidade, o Brasil ainda pode brilhar:

1) Lei Herinaldo: criança preta não pode correr na rua

Para que criança vai correr, me diz? Não tem nada que correr. Onze anos de idade e correndo? Vai trabalhar! O policial se assusta com aquele corpinho escuro e mirrado vindo na sua direção e atira. Pronto, a bala acha. Aconteceu agora, na semana passada, com o Herinaldo. Peraí, preciso rir um pouco. Ah, onde esses pobres acham esses nomes? Herinaldo, vê bem se alguém tem futuro com um nome desses. O Herinaldo correu, levou bala. Bum, um tiro no peito. Dizem que estava indo comprar uma bolinha de pingue-pongue. Sei! Desde quando preto sabe jogar pingue-pongue? Tava era indo comprar fumo na boca. Ou era aviãozinho. E era viadinho o moleque. Em vez de lidar com a situação como homem, ficou gritando: “Quero a minha mãe!”. Afe. O que importa é que por causa dessa falta de atenção do Herinaldo, meu SUV ficou parado no trânsito. Favelado adora trancar rua, deve ser por inveja de quem tem carro. Em vez de ensinarem aos seus abortos que criança pobre não pode correr, fazem protesto. Brasileiro é muito subdesenvolvido, mesmo. Eita país que não vai pra frente. Por sorte a PM distribuiu umas bombas de gás e botou a macacada pra correr. Deu pra chegar pro jantar a tempo, mas foi por pouco. E a Rosinete faz uma comida muito boa, essa é uma negra de alma branca, praticamente da família. Depois vi no Balanço Geral o apresentador entrevistando a mãe do estropício. O jornalista foi na veia mesmo. Onde a senhora tava quando aconteceu? A mulher disse que tava cuidando de um idoso, vê bem. Em vez de cuidar do filho, mantê-lo em casa, tava batendo perna na casa dos outros. Disse que trabalhando, mas vá saber o que essa gente anda fazendo! Depois o repórter perguntou se o Herinaldo era metido com tráfico. A mãe negou, mas na cara que era. Se não fosse, tava correndo por quê? Por acaso criança de 11 anos corre na rua?

Uso: a aplicação mais recente da lei número 1 do ECA do B ocorreu em 23 de Setembro de 2015. Herinaldo Vinicius Santana, de 11 anos, levou um tiro no peito, no Caju, zona portuária do Rio de Janeiro.

Tá com pena? Leva pra casa!

2) Lei Cristian: adolescente preto não pode jogar futebol

Para que jogar futebol? Vê bem o que um sonso desses têm na cabeça. Se o moleque tem 13 anos e mora num favelão cheio de traficantes, vai fazer o quê? Jogar futebol? Não! Vai ficar trancado no barraco, sei lá, vendo Netflix na TV ou jogando no tablet, já que não gosta de estudar. Não se gabaram tanto que viraram Classe C, comprando TV de tela plana bem grande? Então, aproveita. Faz 40 graus dentro de casa? Toma um banho de hidromassagem pra baixar os hormônios! Mas não, o projeto de bandido pensa que é o Neymar e vai lá jogar futebol. Desde quando moleque joga futebol no Brasil? Aí a polícia tá lá, fazendo o seu serviço, atrás de um animal que tinha matado um PM, um pai de família, um trabalhador, e uma bala acaba achando o moleque. É culpa de quem? Da polícia? Só na cabeça de bagre desses direitos humanos. Se o moleque tivesse trabalhando numa hora dessas, não tinha acontecido nada. Mas não, tava lá, jogando futebol, antes do meio-dia. Tem deputado de esquerda aí dizendo que quando ouviu os tiros o moleque até parou pra ajudar uma idosa a se proteger. Ah, tá, agora virou santo. O fato é: como é que a polícia vai botar ordem na bagaça com esses vagabundos no meio do caminho? E a mãe do moleque? Fazendo teatro no enterro: “Meu filho, acorda, meu filho, acorda…”. Patético, por acaso a mulher não consegue juntar o tico e o teco e perceber que aquele ali já tava no inferno? É só um, pra que tanto escândalo? Do jeito que é esse povo deve ter mais uns 13 pretinhos em casa, tudo da mesma laia, que é pra ter bastante Bolsa Família. Mas aí a pobraiada protesta, mais confusão. Aquela Anistia Internacional, que deveria estar lá na Síria, cuidando daqueles meninos branquinhos, faz nota falando em “lógica de guerra”. Que guerra? É lei. ECA do B pra limpar o Brasil! Jogou futebol em hora errada, a bala acha. Simples assim. Quer que eu desenhe?

Uso: a aplicação conhecida mais recente da lei número 2 do ECA do B foi em 8 de Setembro de 2015. Cristian Soares Andrade, de 13 anos, foi baleado e morto na região de Manguinhos, no Rio de Janeiro.

Tá com pena? Leva pra casa!

3) Lei Jesus: criança pobre não pode ficar sentada na frente de casa

O que é que um moleque de 10 anos tem na cabeça pra se sentar no batente da porta de casa se mora numa das favelas do Complexo do Alemão? Não, sério, me diz. Nada, não tem nada na cabeça. Ou melhor, não tinha. Agora tem uma bala. Os policiais lá, fazendo o seu trabalho, que é matar bandido, e o moleque lá, atrapalhando a operação. Aí a mãe, mais uma tipinha daquelas, começa a berrar com o policial. Se a mulher fica fazendo arruaça, o agente da lei tem mesmo é de apontar a arma pra ela. Vai aguentar calado, que nem mulherzinha? Aí a vagabunda grita: “Pode me matar! Pode me matar que você já acabou com a minha vida!”. Mulher é um bicho histérico mesmo, né? E essas aí, de favela, então, bem mostram que nasceram no esgoto. Sou eu, que tenho cabeça quente, já dou logo um tiro e aproveito pra enterrar mãe e filho na mesma cova, que o cemitério já não tá dando mais conta daquela plantação de pretos a meio palmo do chão. Se aquela uma não estivesse aboletada no sofá vendo televisão, tinha reparado que o filho tava sentado onde não devia. Ou porta de casa é lugar de uma criança se sentar pra brincar? Mas não, tá lá, distraída com novela ou alguma outra bobagem, e depois faz aquela choradeira. “Quando eu vi, uma parte do crânio do meu filho tava na sala”. Se tivesse cuidado, não estaria, simples assim. Disse que trabalha como doméstica…. Tava fazendo o que em casa num final de tarde, então? E mais pobre interrompendo o trânsito pra fazer protesto. Mais direitos humanos enchendo o saco. Esse país tá ficando inviável. Se eu não fosse tão patriota, ia logo pra Miami e até votava no Donald Trump, um homem que vai botar as coisas no lugar depois de desinfetar a Casa Branca daquela negrada. Mas, não, sou do Brasil, com muito orgulho, e vou fazer a minha parte pra varrer essa pretaiada daqui. Sem contar que, e eu não tenho medo de dizer, eu falo a verdade mesmo, na cara de quem precisar: se esse moleque não tivesse levado um tiro, mais dois anos e já era bandido. A mãe falou que queria ser bombeiro. Aham. Dois anos no máximo e já era aviãozinho. Se ia morrer de qualquer jeito, pelo menos morreu sem ter feito mal pra nenhum cidadão de bem. Nesse caso não é bala perdida nem achada: é bala preventiva.

Uso: A última aplicação conhecida da lei número 3 do ECA do B ocorreu em 2 de abril de 2015. Eduardo de Jesus Ferreira, de 10 anos, foi baleado na cabeça, na porta da sua casa, no conjunto de favelas do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro.

Tá com pena? Leva pra casa!

4) Lei Alan: adolescente pobre não pode brincar com celular

Esse aí é outro caso de óbvio ululante. Mas como a gente precisa explicar tudo, vamos lá. Três moleques brincando com um celular numa favela, em cima de bicicletas. O que um policial pensa? Tão fazendo coisa errada, claro. Com certeza as bicicletas são roubadas e o celular também. Aí um deles corre. O que um policial bom faz? Atira, claro. E não vai atirar pra aleijar, que não é um homem cruel, atira logo pra matar, que o Estado não tá podendo arcar com tanto benefício por invalidez assim. Aliás, é o sonho dessa gente. Ter um filho aleijado pela polícia pra ficar mamando nas tetas do Estado sem precisar trabalhar. Aí o moleque cai. O policial, bem educado, pergunta pro amigo que ficou vivo: “Por que vocês estavam correndo?”. O moleque, um desses vendedores de chá mate que ficam assediando os turistas na praia, diz: “A gente tava brincando, senhor”. Pronto, os direitos humanos fazem um escarcéu com essa frase, vai até parar em jornal estrangeiro. Por isso que não pode ter celular na mão de preto. Começam a se achar gente e ficam gravando tudo. Tou aqui, pensando se não é melhor fazer logo um parágrafo extra pra essa lei, proibindo preto e pobre de usar celular. A ver.

Uso: A última aplicação conhecida da lei número 4 do ECA do B ocorreu em 20 de fevereiro de 2015. Alan de Souza Lima, de 15 anos, foi morto pela polícia na favela da Palmeirinha, em Honório Gurgel, subúrbio do Rio de Janeiro.

Tá com pena? Leva pra casa!

5) Lei de Circulação de PP: Pobre e Preto de menor não pode pegar ônibus para ir às praias da Zona Sul

Nessa aí nem botei um nome, porque os marginalzinhos são tantos que a lista ia ter quilômetros. Quem gosta de lei comprida é intelectual. O ECA do B é simples, branco no preto. Em cima do preto! Qualquer mané consegue entender. O cara entra num ônibus com nenhum dinheiro no bolso, mal vestido ou até sem camisa, o que calor nenhum justifica, lá na PQP onde ele mora, e quer ir pras praias da Zona Sul do Rio de Janeiro. Vai fazer o que lá? Arrastão, obviamente. Aí vem aquele papinho de que é uma minoria que faz arrastão, que o resto da pretaiada só quer se divertir na praia. Tenha dó. Mesmo que seja, como vai saber? Não dizem sempre que tem de prevenir o crime? Então, taí. Se não é a polícia, é pessoa de bem como eu que tem de fazer a justiça valer. Levo filho, sobrinho, tudo uns meninos fortes, de academia, menino bom, e tiro essa molecada pelo pescoço de dentro do coletivo. Jogamos tudo lá, de volta à cloaca de onde nunca deveriam ter saído. Depois tomamos um banho de álcool zulu pra descontaminar. O que é que preto tem pra fazer no Leblon, Ipanema, Copacabana, me diga? Nada! No máximo vender um coco, um biscoito Globo, mas assim, controlado, número restrito. Vai querer tomar banho de mar, jogar um vôlei, curtir? É muita falta de ferro no lombo. Desde quando a senzala pega praia? Mesmo que os moleques não assaltem, vão estragar o cartão-postal do Rio com aquelas caras achatadas. Gringo vem aqui gastar seus dólares pra ver garota de Ipanema, loirinha, olho azul. E as mulatas lá naquele outro lugar que a gente sabe bem onde é e pra que serve. Se cada um soubesse o seu lugar, aliás, tava tudo resolvido. O problema do Brasil hoje é que as criaturas não sabem mais o seu lugar. Mas a gente explica pra elas, bem direitinho, numa chave de pescoço, colaborando com o trabalho da polícia, que já não dá mais conta de tanto pobre querendo pegar praia. Preto sai, branco fica. Inverti o nome daquele filme! Pessoalmente, inclusive, eu faria um parágrafo único aqui nesta lei número 5: ônibus pra pobre sair da favela só se for pra trabalhar. O cara mostra a carteira de trabalho registrada pra um policial, na porta do 474, e pode embarcar, com carimbo pra sair e carimbo pra voltar, assinado pelo patrão. Horário determinado, tudo ali certinho, na ponta do lápis, como se diz. Fora daí, se o negão for pego zanzando na Zona Sul, cadeia nele. Nessa aí preciso tirar o chapéu pros paulistas. Não gosto muito de paulista, mas eles sabem fazer as coisas direito quando querem. Não teve lá aquele, como é o nome mesmo? Ah, sim, Rolezinho, só preto pra inventar um nome tão idiota. Então. A ralé queria passear no shopping. E em bando, como se fosse moda adolescente andar em grupo. Polícia neles! Mais de três moleques pretos num shopping é assalto e pronto. Volta pra favela! Vai querer usar grife? Te enxerga, mané! Não tem grife que limpe a tua cara preta, não tem tênis de marca que te faça ficar igual a nós. Repressão neles e tudo resolvido. No Rio o povo de bem também sabe resolver as coisas, esse final de semana foi uma beleza. Revista na pobraiada!

Uso: a mais recente aplicação da Lei de Circulação de PP foi nesse último final de semana, mas pode estar sendo usada agora mesmo. Lei que brasileiro concorda é que nem gripe, pega na hora e se espalha.

Tá com pena? Leva pra casa!

E aqui encerro o ECA do B, um conjunto de cinco leis simples, claras e objetivas. Espero ter colaborado para tranquilizar os turistas que virão para a Olimpíada 2016 ver nossas belezas, conhecer o nosso povo cordial e as maravilhas da nossa terra alegre e hospitaleira. Como é mesmo o lema da Olimpíada mesmo? “Somos Todos Brasil!!!” Uhú!

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O texto acima foi escrito a partir dos fatos reais ocorridos neste ano no Rio de Janeiro e de uma pesquisa sobre os comentários postados nos sites e redes sociais sobre esses fatos, por aqueles que se apresentavam como “cidadãos de bem” ou termos similares. Criar esse texto na primeira pessoa, juntando numa só voz os principais argumentos em circulação, foi uma tentativa de tornar esse discurso de ódio visível. Não da forma habitual, já banalizada, mas a partir do seu deslocamento para um lugar onde ele é estranho. E, assim, produzir estranhamento e incômodo.

Ao deslocar esse discurso de ódio, colocando-o neste espaço, talvez se torne mais difícil banalizar o horror que sai da boca de brasileiros nas ruas virtuais e reais, com espantosa facilidade. Também fica mais complicado aceitar como liberdade de expressão um discurso que legitima um Estado que age acima da Lei, ao criminalizar pobres e negros, naturalizando as suas mortes e a violação de seus direitos pelas forças de segurança pública que também deveriam protegê-los. Enquanto o Estatuto da Criança e do Adolescente é a legislação criticada por setores da sociedade e nunca implementada por completo, o ECA do B é a lei não escrita, mas entranhada no sistema e assumida pelas polícias e por parte da população, a lei fora da lei que rege a prática cotidiana do país.

Dizem que anunciar a ironia estraga a ironia. Até um tempo atrás, eu concordaria de imediato com essa afirmação. Não mais. Hoje, é preciso avisar, porque como já aconteceu com outros colunistas, há quem se identifique tanto com esse discurso que vai fazer dele uma leitura literal e acreditar que eu finalmente “vi a luz”. Para essas pessoas, assim como para seus pares, o que é denúncia se converterá em defesa do ódio e do racismo e do linchamento e da execução. E assim será replicada. Não posso correr esse risco em tempos tão agudos. Usando os instrumentos da ironia e da paródia, busco denunciar quem acredita nesse discurso e o dissemina. Se você se identificou com o texto, é também você que estou denunciando. E talvez uma das frases seja a reprodução de um dos seus comentários na internet. Neste caso, espero que tenha restado algo vivo em você para que tenha a chance de se envergonhar.
Esses quatro meninos foram assassinados no Rio de Janeiro só neste ano de 2015: correndo, brincando, jogando futebol, sentado na porta da casa. E estes foram apenas os que viraram notícia na imprensa. Herinaldo, Alan, Cristian, Jesus. A imagem do corpinho do menino sírio carregado para a praia pelas ondas do Mediterrâneo obrigou a Europa a enxergar a tragédia daqueles que fugiam da guerra em busca de refúgio. E, ao enxergar, comprometer-se com essa dor. Implicar-se. O choque de humanidade teve impacto político.

A imagem do corpo arrebentado à bala de Herinaldo, Christian, Jesus e Alan, porém, parece não ter força para impedir a continuidade do genocídio das crianças e jovens negros e pobres no Brasil. Seus corpos são esvaziados de humanidade e viram objetos, restos cotidianos que já não provocam espanto, para além dos mesmos de sempre. No máximo protestos das comunidades, recebidos a bombas de gás pela polícia e com demonstrações de irritação pelos motoristas, que não querem corpos de criança atrapalhando o tráfego.

Fico pensando: em que praia os pequenos corpos desses brasileiros precisam chegar para serem vistos? Nas praias da Zona Sul carioca já sei que não adianta.

 

(Publicado no El País em 28 de setembro de 2015)

 

Vítimas de uma guerra amazônica

Expulsos por Belo Monte, Raimunda e João tornam-se refugiados em seu próprio país

Uma das ilhas do Xingu, desmatada e queimada para o enchimento do lago de Belo Monte/ Fotos: Lilo Clareto

Uma das ilhas do Xingu, desmatada e queimada para o enchimento do lago de Belo Monte/ Fotos: Lilo Clareto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A saga de João e Raimunda tem seu ápice em dois atos de uma guerra amazônica não reconhecida pelo Estado e pela maioria dos brasileiros. Ainda assim, ela está lá. Aqui. Essa história, decidida neste momento no Pará, na região de Altamira e da bacia de um dos rios mais ricos em biodiversidade da Amazônia, o Xingu, é contada por um homem e por uma mulher, apenas dois entre dezenas de milhares de expulsos pela hidrelétrica de Belo Monte, gente que hoje vaga por um território que não reconhece – e no qual não se reconhece. Mas esta não é mais uma entre tantas narrativas dramáticas em um país assinalado pela violação sistemática dos direitos de negros e de indígenas. Raimunda e João trazem inscritos no corpo uma encruzilhada histórica. A de um país que chegou ao presente, depois de tanto ser futuro, e se descobriu atolado no passado. O epílogo de um partido que chegou ao poder com a promessa de dar dignidade aos mais pobres e aos mais desprotegidos e os traiu na porção mais distante do centro do poder político e econômico, a Amazônia. Esta é também a anatomia de uma perversão: a de viver numa democracia formal, mas submetido a forças acima da Lei. O não reconhecimento da violência sofrida inflige a suas vítimas uma dor ainda maior, e uma sensação de irrealidade que as violenta uma segunda vez. É a experiência de viver não fora da lei, mas sem lei que escava a existência de Raimunda e de João – e os faz escolher destinos diferentes diante da aniquilação.

Raimunda decidiu viver, ainda que carregando seus pedaços. João não sabe como viver. Para ele, só há sentido na morte em sacrifício.

Neste momento, João e Raimunda vivem esse impasse.

Enquanto isso, a Norte Energia espera apenas que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) dê a Licença de Operação da hidrelétrica, mesmo sem que a empresa tenha cumprido as medidas de redução e compensação do impacto, para começar a encher o lago de Belo Monte.

O terceiro ato ainda é uma incerteza.

Raimunda Gomes da Silva e João Pereira da Silva

Raimunda Gomes da Silva e João Pereira da Silva

Ato 1: João perde a fala e trava as pernas para não matar

Segunda-feira, 23 de março de 2015. João Pereira da Silva estava diante do preposto da Norte Energia, a empresa que venceu o leilão de Belo Monte, apresentada como uma das três maiores hidrelétricas do mundo. Ele esperava receber um valor justo pela sua casa, roça e demais benfeitorias, na ilha da qual era expulso pela barragem. Em vez disso, impuseram-lhe o valor de 23 mil reais, insuficiente para comprar uma terra onde pudesse voltar a plantar, pescar e extrair os frutos da floresta para ganhar o sustento. João percebeu ali que estava condenado à miséria, aos 63 anos. E que, para ele, a Lei não valia. Desde os oito anos de idade ele peregrinara por vários Brasis em busca de uma terra sem dono, arrancando cada dia da força dos braços. Depois de um percurso de faltas, João acreditou ter encontrado uma casa e uma existência sem fome na ilha do Xingu. E agora arrancavam-no também dali. João sentiu que era a vida que lhe roubavam, e que ele já não tinha mais juventude nem saúde para recomeçar. Para João, já não haveria uma última fronteira, a esperança de todos os brasileiros sem lugar. Acabavam de lhe tirar tudo, e também o sentido. Para ele, o passado-presente-futuro fora reduzido a um tempo só, que se repetia.

João quis matar o homem na sua frente. Matar não como uma vingança, é preciso compreender. Matar como um sacrifício.

– Se eu fizesse um dano com um grande, um grande lá de dentro, talvez melhorasse para os outros. Eu sacrificava a minha vida, mas a dos outros melhorava. Se eu pudesse, eu passaria por dentro do maior chefe dessa firma, passaria por dentro umas duzentas vezes. E não tenho medo de dizer. Eu era muito satisfeito de fazer isso, mesmo que na mesma hora minha vida se acabasse.

João não conseguiu fazer o gesto. O desejo de matar não virou movimento. João descobriu ali que matar não era um ato possível para ele. As pernas travaram, a fala travou. João imobilizou-se por inteiro para não matar aquele que encarnava a obra que acabava de matá-lo. Sacrificou a si mesmo. Teve de ser carregado pela mulher, Raimunda, e por uma das filhas, para fora do escritório da Norte Energia.

– Eu perdi… Chegou um ponto de eu perder a fala. Perdi tudo. Ficava só espumando. E o nervo travou tudo. Travar de não poder andar. Hoje eu ando um pouco, mas minhas pernas doem, e incham. Minha senhora, não é fácil, ter tanta raiva que trava o corpo.

Desde então, João é um homem traumatizado. Não no sentido banal que a palavra “trauma” ganhou ao se popularizar, mas no sentido do “trauma” como aquilo que não é possível simbolizar, do buraco que não vira marca. Sem saber para onde ir nem onde está, João só consegue andar uns poucos passos e logo precisa sentar-se num banquinho. Quando sai, perde-se porque já não reconhece o território. João tornou-se um desterrado de tudo e também de si. Dias atrás um amigo ligou para Raimunda: “Seu João está sentado no meio do nada, debaixo do sol. Vai morrer ali”. Raimunda pediu a uma das sete filhas para resgatá-lo.

E se, em vez de paralisar, João tivesse conseguido falar naquele dia, o que teria dito?

– Muié, eu teria dito muita coisa. A primeira delas é que o país brasileiro não tem justiça.

João faz uma pausa antes de esclarecer:

– Muié, você tem que entender uma coisa. Não era falar, era fazer. Eu tenho nojo desse pessoal. Que Deus me perdoe, mas eu tenho nojo.

Sem palavra e sem ato, João é uma vítima de catástrofe. E torna-se vítima duas vezes, porque essa catástrofe não é reconhecida pelo seu país. Assim, João também torna-se um sem país, na abissal condição de sentir-se dentro e fora ao mesmo tempo, atingido por uma lei não escrita, ignorado pela lei que deveria inscrevê-lo na trama da cidadania. Para referir-se ao Brasil, a expressão mais frequente de João é “o país brasileiro”. Nessa escolha de linguagem, o Brasil é um corpo ao qual ele não pertence. E, assim, João é condenado como pária.

– Cheguei a dizer e digo. Digo pra Dilma, digo pra Deus, pro Satanás e para qualquer cão que aparecer, que a justiça do país brasileiro é dinheiro. Se Jesus bater aqui, nesse país, os altos empresários catam ele e compram ele. E, se ele se abestalhar, é vendido. Entendeu?

João repete a interrogação “entendeu” muitas vezes. Depois de escutá-lo por algum tempo percebe-se que não é uma bengala de linguagem, como se poderia supor, mas sua certeza de não ser compreendido.

Ato 2: Raimunda descobre que sua casa virou cinzas

Terça-feira, 1 de setembro de 2015. Raimunda Gomes da Silva, 56 anos, chamou um conhecido, comprou dez litros de gasolina para a viagem no rio e fez “um rancho e um frito” para comer no caminho de sua ilha, a Barriguda, no lugar batizado de Furo do Pau Rolado. Partiram às 5 horas da manhã. Um dia antes, na segunda-feira, haviam ligado da Norte Energia: “Dona Raimunda, quando nós podemos tirar os seus resíduos lá da ilha?”. “Resíduos” eram as posses de cozinha e de pesca de Raimunda. Ficou combinado que ela retiraria seus pertences na terça-feira cedo. Depois de duas horas e meia de rio, Raimunda alcançou a sua ilha.

Sua casa, feita de acapu, madeira resistente, ainda queimava.

– Você sabe que, pra te falar a verdade, amiga, eu desci do barco e não senti o solo. Eu não senti o chão no pé, porque aquilo me deu um branco. Ali, na hora, eu não sei o que senti. Porque, quando eu vi de longe, eu não achei que tinha… Quando nós chegamos lá, que eu vi minha casa queimada, eu desci, subi a barreira, sentei, e me apagou, branqueou, eu não sei. Não sei nem lhe falar o que eu sei, o que eu senti, não sei, porque eu não senti nada… Eu fiquei anestesiada do que vi. Porque, como que eles ligam pra eu tirar o que é meu e queimam a casa toda um dia antes? Fiquei parada, pensando na vida, só, viu. Que mundo é esse que a gente vive?

belo monte 3

A Norte Energia não considerava a casa de Raimunda uma casa. Disseram a ela que era um tapiri. Raimunda retrucou: “Na sua linguagem ela pode ser tudo isso aí. Mas, na minha, é minha casa. E eu me sentia bem nela, viu?”. Quando encontrou a casa em cinzas, Raimunda sentou-se na beira do rio.

– Eu nunca imaginei que eles iam tocar fogo. Se eu for tocar fogo no escritório deles, fico presa pro resto da vida. Eles botam fogo na minha casa e não acontece nada. É a profecia do fim do mundo que o meu pai falava, a roda grande passando por dentro da pequena.

Raimunda fez uma Certidão de Ocorrência na Polícia Federal de Altamira. Relatou que, naquele momento, as demolições e “remoções” dos ribeirinhos estavam suspensas pelo IBAMA. A medida havia sido tomada depois que uma inspeção realizada em junho revelara uma série de violações de direitos humanos no processo de expulsão das famílias, em relatório assinado pelo Ministério Público Federal, instituições públicas, organizações não governamentais e acadêmicos do porte de Manuela Carneiro da Cunha (USP/UChicago), Mauro de Almeida (Unicamp) e Sônia Magalhães (UFPA). Mas, ainda assim, a casa de Raimunda queimava.

Ela concluiu:

– Eles têm certeza que podem fazer o que quiserem e nunca vão ser punidos.
E Raimunda, o que acha?

– Eu acho que eles tão certo. Eles têm certeza do que fazem. Talvez eu não tenha certeza do que digo. Mas eles sabem o que fazem.

A procuradora da República em Altamira, Thais Santi, comunicou ao IBAMA o descumprimento da ordem de suspensão das “remoções” e demolições no caso de Raimunda. “A violência dessa atitude de demolir e incendiar a casa dessa moradora é imensurável, pois simboliza a soberania do empreendedor, que mesmo diante de tantos pronunciamentos, das mais diversas instituições, retorna com a mesma postura. A empresa descumpre a determinação do IBAMA, com a certeza de que a consequência não advém. Talvez receba uma multa”, afirma a procuradora. “A empresa está blindada pelo Estado e tem a segurança de que, independentemente do que fizer, obterá a Licença de Operação.”

O Ministério Público Federal já entrou com 23 ações contra Belo Monte, por descumprimento das medidas obrigatórias de redução e compensação do impacto da obra sobre o meio ambiente, os povos tradicionais e a população rural e urbana. Nenhuma delas conseguiu fazer com que a lei fosse cumprida. Seis delas tiveram decisões favoráveis, que em seguida foram derrubadas pelo instrumento autoritário da Suspensão da Segurança, que autoriza a continuidade da obra em nome do “interesse nacional”. A Defensoria Pública da União acaba de entrar com uma ação no valor de R$ 3,5 bilhões contra Belo Monte, para compensar a violação de direitos dos atingidos pela barragem.

Nem o IBAMA nem a Norte Energia responderam aos pedidos de entrevista do EL PAÍS até o fechamento da reportagem.

Diante das cinzas da sua ilha, Raimunda procurou seu pé de pinhão-pajé, plantado na frente da casa.

– Esse pinhão era meu amigo principal. Porque eu acreditava assim. Se eu chegasse de manhã cedo, e ele tivesse com as folhinhas moles, bem coladinhas, naquele dia eu não saía pro rio. Porque ele tava me dizendo algo, na linguagem dele. Tava buscando me proteger de alguma coisa. Mas, se ele tava todo arregaçadinho, eu já tava sabendo que tava tudo bem comigo.

Raimunda buscou seu “amigo principal”, mas ele já era um não havia.

– Agora eu não tenho mais quem me guie.

Raimunda então canta diante das cinzas.

– É muito difícil você ver o que é seu ser queimado. A única maneira pra me expressar é cantando. Pra que a minhas plantas saibam que eu jamais queria que elas fossem queimadas, ou fossem lesionadas. Pra que elas sintam que eu tou aqui. Como elas não sabem falar, e eu não sei a linguagem das plantas, eu canto pra elas. Digo pra elas que o mundo não acaba aqui porque minha casa tá sendo queimada. O mundo ainda tá de pé. Enquanto Deus me der a vida, eu vou levar comigo isso, esperança e fé. Que um dia a Justiça seja verdadeira. Porque agora a Justiça é uma visagem, uma lenda. Dizem que existe, mas os pobres nunca veem.

O Antes: O pai ensina Raimunda a caminhar sem fazer barulho

Raimunda desfila pelo corredor com suas sandálias havaianas. “Olha, caminho com qualquer calçado sem fazer nenhum barulho”, ela diz. Eu faço uma brincadeira que só uma branca que leu muitos contos de fadas é capaz de fazer: “Andar de princesa, né, dona Raimunda?”. Ela me chicoteia na hora: “Andar de quem passou a vida na casa dos outros”.

 Ilha do Xingu queimando para dar lugar à Belo Monte


Ilha do Xingu queimando para dar lugar à Belo Monte

 

 

 

 

 

 

 

 

O pai é a raiz de Raimunda. Ela vai repetindo seu ensinamento enquanto apresenta a dissolução do seu mundo, como se um pudesse costurar o rasgo do outro. Natalino Gomes era bisneto de escravos com muita dor no falar, e uma avó índia canela para apimentar o sangue africano com tropicalidades.

– Meu bisavô passou a corrente para o meu avô, que passou para o meu pai, e assim sucessivamente. Nunca deixou de ser escravo, o meu pai, porque só sabia trabalhar pros outros. Não sabia mexer com esse negócio de dinheiro, nem sabia ler. Meu pai ensinou todos os filhos a não fazer barulho ao andar. Eu fui criada nessa cultura do sim senhor, não senhor. Mas, não, nunca me acostumei.

Talvez Raimunda tenha herdado o arrebatamento da mãe, Maria Francisca Gomes. Ela era mãe de santo do candomblé, desafiando o catolicismo do pai. A mãe era alegre, era livre, no dizer de Raimunda. Tão livre quanto a pobreza permite. Um livre de viver em outras realidades, para além das correntes. A mãe era também arretada, não deixava homem nenhum botar-lhe canga, nem mesmo o marido, muito menos o marido. Quebradeira de coco de babaçu, partia para a lida com uma saia de meninos rodopiando ao seu redor. Raimunda carrega coco desde os cinco anos, quebra-os com o facão desde os sete. Guarda na mão as cicatrizes desse ofício que mutilou tantas crianças, amputando-lhes dedos e futuros. Mas isso foi antes de trotar para a casa dos outros, com passinhos de feltro, aos 10 anos de idade. Aprendeu a ler sozinha, juntando uma letra na outra para ver no que dava. Escola, não conheceu.

Raimunda avisa:

– Eu não levo recado, eu dou.

E então dá:

– A escravidão não acabou, ela só camuflou. A escravidão taí, nua e crua. Num outro modelo, mas tá. Porque ser escrava é isso. É não ter direitos. Olha o que aconteceu com a minha pessoa e com milhares de outros com essa Belo Monte? E cadê a Justiça? Taí, um monte de injustiças na cara da justiça. Então, sou escrava.
Em seguida, Raimunda acha que o recado ainda está curto e decide dá-lo todo:

Raimunda, no rio, com uma bandeira do Brasil na cabeça porque diz que o país também é dela

Raimunda, no rio, com uma bandeira do Brasil na cabeça porque diz que o país também é dela

 

 

 

 

 

 

 

 

– O negro sempre tá na segunda parte da história. Nunca na primeira. Ou na terceira, quem sabe? O primeiro lugar pro negro é muito difícil. É quase impossível.

Se as correntes encurtavam os passos silenciosos de Natalino, o pai de Raimunda, ainda assim ele sonhou. E foi pelo sonho, por essa esperança fininha que circula no corpo dos brasileiros que ainda hoje andam o mapa inteiro em busca de uma terra sem dono, que ele carregou a família para a Amazônia, no encalço de uma terra para quem nada tinha. Não conseguiu, e é por isso que Raimunda diz que o pai morreu escravo. Raimunda seguiu sendo babá, empregada doméstica, em casa alheia, também nas Amazônias do Pará.

Para ela, o pai legou uma série de dizeres, e também algumas profecias. Uma delas é esta, na qual Raimunda vai fazendo pontes entre o passado de escravidão e o presente de escravidão, entre o desterro de um continente ao outro e o desterro dentro do desterro.

– Meu pai dizia que um dia o mundo ia ser movido por um papel. E taí, o dinheiro. Não foi isso o que aconteceu? Belo Monte chegou impondo, derrubando, passando por cima e jogando umas migalhas de papéis que são os dinheiros que eles dão. Não veem que acabaram com aquela pessoa por dentro quando lhe tiram a sua casa. Entendeu? Tiram tudo da pessoa e jogam uns papeizinhos, daí fica assim. Entendeu?
Como João, seu marido, Raimunda também usa esse “entendeu” para concluir as frases, fazendo da interrogação quase uma faca no pescoço do interlocutor. Mas a esse “entendeu” ela dá um outro sentido. Raimunda acredita que ainda pode ser compreendida.

E assim, continua.

– Ninguém vive de dinheiro. Se perde no mato com uma sacola de dinheiro e vê o que o dinheiro vale: nada! Mas fica no mato sem uma sacola de dinheiro, perdido, que você consegue sobreviver. Você acha uma planta, você acha uma fruta, você bebe água. A mata lhe oferece tudo o que você precisa pra viver, pra sobreviver até alguém lhe encontrar. E você, com dinheiro, você morre com ele nas costas, não serve de nada.
Raimunda agarra-se ao chão que são as palavras do pai. Ela ali tem uma raiz que ninguém pode lhe arrancar. E como a catástrofe já estava prevista por aquele que arrastava as correntes, a sensação de que tudo está para além de qualquer controle é brutal, mas não a paralisa: “O papel acabou com o mundo, como meu pai dizia. Ele sabia”. O pai também dizia: “Siga as trilhas”. Raimunda, como se verá mais adiante, sempre dá jeito de encontrar uma trilha.

O Antes: abandonado pelo pai, João ganha o trecho e vira barrageiro

João também nasceu no Maranhão, mas esta não é uma terra de pertencimento para ele. João não migrou, como Raimunda, ele tornou-se um indo. Seu pai foi acometido por uma febre mais forte do que a malária, e que dura muito mais. E às vezes também mata. A do ouro. “Bamburrar”, encontrar tanto ouro que a pobreza será só uma fotografia empoeirada no passado, é o que faz bater o coração de milhares de homens Brasil afora. A cada “fofoca”, como se chama a descoberta de um novo veio de ouro, eles se lançam no território em barco, em ônibus, em pau de arara, em pés, com pouco mais do que a roupa do corpo e um sonho feroz. É a sua maneira de recusar-se a uma só sina, a da miséria, ou a de viver uma vida de aventuras e de consumição, uma vida, como um dia um garimpeiro me disse, de personagem de livro. Ao me dizer, esqueceu-se de que não sabia ler.

Como costuma acontecer no Brasil, em que os pobres são criminalizados toda vez que recusam seu destino e levantam a cabeça caçando horizonte, os garimpeiros são tratados como bandidos, enquanto as grandes mineradoras, as multinacionais, as que arrasam enormes porções de floresta e concentram o lucro, estas são purificadas pela palavra “negócio” ou “empreendimento” ou ainda “desenvolvimento”. Essa metamorfose também acontece neste momento, quando Belo Sun, a mineradora canadense, tenta se instalar bem perto de Belo Monte para explorar imensa jazida de ouro, esmagando os garimpeiros artesanais que por lá vivem há décadas. Se conseguir, terminará de arrasar com o Xingu e com os povos tradicionais, que pertencem à floresta e a preservam para o Brasil e o mundo.

O pai de João era um destes homens febris, que abandonou a família e também esse filho pequeno para consumir-se em seu eldorado íntimo. Tinha terra no chão nordestino e até um pouco de gado, mas não era homem plantado. Embrenhou-se nos garimpos de Itaituba, no Pará, lá onde hoje cresce o cerco do governo para mais duas grandes hidrelétricas: São Luiz do Tapajós e Jatobá. Como a maioria dos garimpeiros, encontrou uma mulher nova, e possivelmente várias outras. As prostitutas chegam antes dos garimpeiros nas fofocas, ou pelo menos junto com eles. Lá são chamadas de “mulher livre”, e os arranjos são variados. Podem ser mulher de um homem só em troca de uma quantidade previamente acertada de gramas de ouro, e cozinhar e lavar e namorar na “corrutela”, a vila que se forma no garimpo, como se esposa fossem. E às vezes se tornam. Quando o pai veio buscar o filho para levá-lo com ele ao garimpo, era tarde para um encontro que nunca houve. O pai tentou duas vezes, numa delas apareceu até de avião. João desacreditou das asas do pai e recusou-se a seguir com ele. Preferiu fazer-se homem quando ainda era menino.

Primeiro João trabalhou na roça de parentes, com oito anos de idade, um fiapo de gente. Aos 12, desgarrou-se. Lançou-se no “trecho”, uma das palavras mais enigmáticas na linguagem variada dos Brasis, que vai ganhando significados diferentes país afora. O trecho é o mundo, é a estrada, é a vida em movimento, é um fora prenhe de possibilidades. João viveu no trecho, trabalhando duro, carregando mais pedras do que podia, inventando músculos quando ainda não os tinha, porque a vida de menino pobre e sem letras é sustentada na força dos braços. Condenado pelo pai, que dizia que “escola de menino é cabo de enxada e cabo de facão”.

João não se filiou ao garimpo, esta era a escolha do pai, do qual ele não se considerava mais filho. Preferiu fazer sua própria filiação. Entre as sinas dos brasileiros pobres, ele escolheu a de se tornar barrageiro, um operário de barragem que vai seguindo a trilha dos grandes projetos do governo. E, quando não há nenhuma grande usina para construir, alista-se em contratos fora do país, negócios assumidos pelas gigantes do setor de construção. “Trabalhei na Mendes Júnior, trabalhei na Queiroz Galvão, trabalhei na Camargo Corrêa, trabalhei na Odebrecht, trabalhei na Andrade Gutierrez, trabalhei na Constran, trabalhei na Construpar. Trabalhei em outras firminhas sem vergonha. Eu sei que foram umas 12 firmas que eu trabalhei.”

João foi peão num jogo que tem como tabuleiro a Amazônia e o Brasil. Nos anos 50, no governo democrático de Juscelino Kubitschek, as empreiteiras construíram Brasília e nunca mais saíram do centro do poder. Cresceram e multiplicaram seus lucros logo em seguida, nos grandes projetos da ditadura civil-militar (1964-1985), com ênfase nas obras megalômanas na Amazônia, como a Transamazônica, uma entre tantas que aniquilaram floresta e vidas. Seguir o dinheiro das grandes empreiteiras é contar pelo menos 60 anos da história do Brasil, um período que vai da segunda metade do século 20 até esses primeiros 15 anos do século 21. Os empregadores de João hoje amargam a cadeia, acusados pela Operação Lava Jato, da Polícia Federal. A operação investiga a corrupção em contratos da Petrobras e, mais recentemente, também do setor elétrico. Delatores já revelaram a prática de propina em Belo Monte, paga ao PMDB e ao PT. A investigação está em curso.

No começo de sua vida de barrageiro, João foi trabalhador braçal. Depois, conquistou uma profissão e tornou-se operador de máquinas. Sua primeira grande hidrelétrica foi Itaipu, no Paraná, a obra binacional que afundou uma das maravilhas do mundo, as Sete Quedas, uma obscenidade sem reparação. Mas foi só em outra hidrelétrica, Tucuruí, que João compreendeu seu papel descartável no jogo comandado por reis e depois por uma rainha. No momento dessa descoberta, João começava o capítulo definitivo da sua vida, ao lado de Raimunda.

O casamento: João e Raimunda se encontram num “pancadão”

Raimunda tinha 16 anos quando conheceu João num baile. “Era um pancadão”, ela informa. “Eu olhei ele, ele olhonimim.” Foi assim, entre o azulado do olho de João e o negro de Raimunda, que se quiseram de imediato. Raimunda foi logo avisando que não era “da tradição de gente que se junta, se quiser me dê aliança e sobrenome e vamos fazer história”. Fizeram. Tempos depois se oficializaram num casamento coletivo. Raimunda enfeitou-se com um vestido lilás, segundo ela “a cor da mulher”. Em seguida, inauguraram uma fileira de filhas, no total de sete mulheres, todas com nome iniciado pela letra “L”. E apenas um filho homem, que morreu de meningite com um ano e cinco meses, batizado como Leodeí:

– Eu trabalhei na casa de uma senhora, e ela tinha um filho que era militar. E ele morreu numa cidade chamada Indonésia. Então eu guardei aquele nome na cabeça, Indonésia… E o sonho da mãe era conhecer essa cidade porque o filho morreu, ficou pra lá. Anos depois, trouxeram os restos mortais, mas não era mais o filho. Eu fiquei pensando comigo… Indonésia… Se a Indonésia é uma cidade que foi guerreada numa guerra inútil, e ela hoje tem paz, quero que a minha filha tenha esse nome. Aí coloquei Lindionésia. E depois vieram a Lindionisia, a Livia, a Liviane, a Leidiane, a Luciene e a Liliane.

Lindionésia é uma síntese e um desejo: depois de João e Raimunda atravessarem uma vida de guerra, a paz inscrita no corpo de letras da filha. A saga, porém, ainda não tem conclusão na concretude dos dias. A paz, na vida de Raimunda e de João, ainda não deixou de ser palavra para virar a coisa que representa. O “L” tem outro porquê:

– É de liberdade. Liberdade de expressão, né? Queria que minhas filhas fossem livres, que tivessem livre expressão de estudar, de brincar, de ser o que quisessem na vida.
Raimunda persegue a paz desde que se entende como Raimunda. Mas, sobre a paz, o pai não deu certeza.

– Meu pai colocou um ‘talvez’, talvez o mundo um dia tenha paz. Ele não deu como certo, e morreu sem encontrar a paz. E eu continuo procurando a paz.

Nesta busca, um dia João apareceu anunciando:

– Tão contratando em Tucuruí.

Foi ali que Raimunda descobriu, como ela diz, “que tem sangue doce pra barragem”. E a condição de peão revelou-se para João em toda a sua magnitude. Se antes ele andava de barragem em barragem, de obra em obra, agora ele tinha uma família. João não podia mais percorrer o trecho, ele precisava enraizar-se. Enquanto uma das barragens mais devastadoras da ditadura era construída também pelas suas mãos, no rio Tocantins, no Pará, João e Raimunda fizeram pouso e fizeram casa. Ao final, descobriram o que acontecia quando o rio é barrado, a floresta é inundada e um pedaço da Amazônia se finda. É Raimunda quem conta sobre o momento em que o círculo se fechou para João, e ele teve a revelação:

– Meu João trabalhou em Tucuruí a partir de 1976. Em 1983, ele se deu conta que tava feito pombo. Porque o pombo, ele faz o ninho, e no dia em que ele bota o ovo, ele começa a desmantelar o ninho. No dia em que termina de tirar o derradeiro fagulho do ninho, o filho já foi embora. E ele tava fazendo isso, mesmo. Porque ele trabalhou, comprou uma terra e uma casa com o dinheiro da barragem que construía, e essa mesma barragem alagou tudo nosso.

 A Hidrelétrica de Tucuruí era um projeto da ditadura. E não se negociava na ditadura: Ilha do Xingu sendo derrubada por causa da hidrelétrica


A Hidrelétrica de Tucuruí era um projeto da ditadura. E não se negociava na ditadura:
Ilha do Xingu sendo derrubada por causa da hidrelétrica

– E lá a gente era, eu não vou dizer burra, mas desinformada. O que aconteceu? Meu lote valia dois barão. Naquele tempo, era um dinheiro muito alto. Então, a Eletronorte falou o seguinte: “Eu não posso lhe depositar esse dinheiro sem o título da terra”. Nós tinha terra legalizada. E nunca mais nós vimos esse título. E não podia provar, porque era a palavra deles contra a nossa. Então, além de perder tudo, ficamos por mentirosos, de frente pra uma Justiça que tava lá. Por isso que eu me revolto com a Justiça, por conta disso. Nunca tivemos o que fazer. Não tinha como pagar um advogado, não tinha como pagar nada. Deram outra terra pra gente, que não tinha quem aguentasse os mosquitos nem as pragas. A água subiu por causa da barragem, e apodreceu toda a vegetação. Se formou um mar de insetos. Não tinha como sobreviver ali. O que que nós fizemos? Pegamos os filhos pequenos e fomos pra Marabá (na beira da Transamazônica) no finalzinho de 1985. Não deu certo. Em 1988 fomos pra Altamira.

Em Altamira, João e Raimunda descobriram que havia um lugar para pobre ficar rico: a floresta. Mas isso foi depois.

Antes, João passou por ainda mais duas provações. Logo depois de Tucuruí, ele partiu para o Iraque, contratado pela construtora Mendes Júnior Internacional. João, que se sentia vítima de uma guerra não declarada, foi despachado para o outro lado do mundo, para construir “uma pista para tanques de guerra”. Sofreu um ano longe da família. Quis voltar lá pelo meio, mas tinha assinado contrato. De lá ditou a Francenildo, o amigo que sabia escrever, uma carta para Raimunda. Terminou dizendo: “Só o amor constrói”. A carta está plastificada, como uma prova de que o amor deles constrói pontes entre exílios.

Depois da expulsão pela Hidrelétrica de Tucuruí, Raimunda tornou-se uma documentadora. Guarda tudo, registra tudo, agarra-se aos papéis. João também mudou. Da experiência de construir em países do Oriente Médio, ele faz uma analogia com Belo Monte:

– Conheci vários países, mas só vi o que acontece aqui, no país brasileiro, em lugar com terrorismo. Aqui, a empresa escolhe o dia de matar hoje e o dia de matar amanhã. Entendeu? Justiça não existe.

Em outra ocasião, João migrou pelo “país brasileiro” em busca de trabalho. Explica com essa lembrança por que não é capaz de pedir esmola, embora não tenha mais como ganhar o pão, desde que foi expulso da ilha:

– Eu nunca pedi nada, me acho com vergonha. Eu não tenho cara pra isso. Eu tenho cara de morrer de fome, mas não tenho coragem de pedir. Entendeu? Numa ocasião eu fui pra uma firma em Imperatriz (Maranhão), lá perto de Marabá (Pará). Eu tava com 50 contos. E já tava com três dias sem comer. Não comia porque aquele dinheiro era pro transporte. De noite eu tô num banco lá na rodoviária, um cara diz pra outro: “Rapaz, lá na cidade de Balsas (Maranhão) tão fichando gente por 3 e por 4”. Eu saí e comprei a passagem com os cinquenta contos. Sobrou cinco. Cheguei lá, eram cinco horas da manhã. Já passei na frente do escritório e vi logo a placa. “Não ficho ninguém. E não insista”. Mas eu, pra tirar a dúvida, tomei um café lá na rodoviária, de cinco contos sobrou só um, e fui caçar emprego. Quando eu passava nos restaurantes, naqueles restaurantes que tavam comendo, eu pedia um copo de água e bebia. Quando foi meio dia, eu voltei lá e falei pro cara: “Rapaz, não tem emprego e eu não tenho dinheiro pra nada. Acabou a minha condição”. Ele disse: “Olha, deixa a boroca (bolsa) aí. Você trabalha de estivador?”. Eu respondi: “Trabalho de qualquer coisa”. Arrumou uma carreira com oitocentos sacos de adubo, pra descarregar na fazenda perto. Aí, o que acontece? Antes do meio da carreta, eu já não dei mais conta. Tinha uma garrafa de água assim, e eu bebi a água e fui me esmorecendo, me esmorecendo, até que eu arriei mesmo. Contei que fazia quatro dias que não comia. Quando terminaram de botar o adubo, a mesa tava lá, pronta pro pessoal jantar. Queria que a senhora visse, de tudo. E botei duas colheres de arroz assim, botei um pedacinho de carne no prato. Mexi assim, comi a metade. Aí saí pra beber um copo de água. E vomitei tudinho. Na farmácia tomei uma injeção. Aquela injeção pra fortalecer. Fiquei lá um mês e pouco trabalhando. Mas nunca perdi a resistência e nem a esperança. Mas, muié, o que faz eu perder tudo é na situação que eu tou. Com que força eu vou trabalhar, agora que tou velho e doente? Eu não tenho mais resistência pra começar tudo de novo. E não sei pedir.

Quando reencontrou o rio, agora não mais para violentá-lo, mas para colher os peixes, João encontrou-se.

Paisagem do Xingu em parte ainda não afetada pela usina

Paisagem do Xingu em parte ainda não afetada pela usina

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A virada: João e Raimunda se descobrem ricos

A virada do milênio marcou a descoberta da floresta. Não como um contra ou um fora, mas como parte. Depois de peregrinar pelo que era chamado de progresso e só encontrar tribulação, João e Raimunda foram acolhidos por uma das centenas de ilhas do Xingu. Aprenderam a extrair o alimento da floresta, a plantar sem violar a terra, a pescar e a navegar no rio. Adotaram a vida dos ribeirinhos pescadores e agroextrativistas, que vivem em dupla casa, uma na rua, uma na ilha ou na beira do rio. “Rua” é como o povo que mora na floresta chama a cidade, o que já é muito revelador de sua visão de mundo. A casa na rua é para a venda dos produtos na feira, para resolver as oficialidades da burocracia, que sempre são muitas, para buscar tratamento para doenças mais enroscadas, para o estudo dos filhos; a casa na ilha ou na beira do rio é onde se ganha a vida e se vive livre. Pela primeira vez, João e Raimunda sentiram que haviam chegado. Tinham um lugar, nada lhes faltava. A fome era um passado.

Trataram de enraizar-se fundo. A vida era assim:

– Tinha nossa casa na ilha, de onde a gente trazia o peixe, o feijão, o milho, o abacaxi, a banana, o murici, a cebolinha, o cheiro verde, a chicória. Tudo isso era fonte de renda. Tudo isso eu fazia dinheiro. Do rio, eu tirava a cédula maior. Vinha pra cidade com as coisas que plantava, e com o meu peixe, e já cheguei a fazer mil e duzentos reais na semana, em dinheiro livre. Eu mesma ficava mais na rua, porque comecei a me envolver com movimento social. Meu marido morava lá na ilha. Quando ele vinha com o peixe, no sábado, eu vendia o peixe na feira e voltava com ele. E vinha de lá na quarta-feira no barco de linha. Ficava aqui esperando ele de novo com o peixe. A nossa rotina era essa. Nas férias, final de ano, eu ficava lá, com ele. Então, a nossa vida era um vaivém. Quando você vive no rio, você entende o rio que nem ele lhe entende. Você respeita o limite dele, que ele respeita o seu. É uma parceria entre você e as águas. É assim, ó: o remo é a minha caneta e o rio é a minha lousa.
Primeiro João e Raimunda compraram uma palafita nos baixões de Altamira, depois construíram uma casa de alvenaria. Raimunda faz questão de esclarecer que mesmo na palafita ela deu jeito de ter suíte, porque gosta muito de suíte.

– O sonho de uma casa na terra firme era muito longo. Ter um casa no chão. O rio nos deu. Consegui comprar minha geladeira, consegui comprar minha televisão, meu fogão a gás, meu botijão. Consegui comprar a minha cama, o meu colchão do jeito que eu queria. Eu fui na loja, comprei, porque eu sabia que o rio ia me dar retorno, eu ia poder pagar a prestação. O rio era meu banco, era meu cartão de crédito, era meu supermercado, era a minha farmácia, a minha loja. Tudo eu tirei do rio. Tudo o que eu tenho hoje veio de dentro do Xingu. O que o rio não dava, a terra dava.

Já não eram mais migrantes, João e Raimunda haviam finalmente chegado. Raimunda então entranhou-se nas lutas de Altamira e da Amazônia. A das mulheres, a da terra, a do meio ambiente. Filiou-se ao Partido dos Trabalhadores (PT), tornou-se militante de movimentos sociais. Ela agora pertencia. Seu verbo não era mais um ir, mas um ficar. Quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu o poder, pela primeira vez, em 2003, os movimentos sociais de Altamira e da região acreditaram que o projeto da hidrelétrica de Belo Monte estaria sepultado de vez.

Desde os anos 70, na ditadura civil-militar, a usina no Xingu era uma ameaça que ressurgia a cada governo, mesmo na redemocratização do país. No passado, a Eletronorte a chamou de Kararaô, palavra que é um grito de guerra na língua dos Kaiapó. Em 1989, produziu-se a cena histórica: a índia Tuíra encostou um facão no pescoço do diretor da Eletronorte, José Antônio Muniz Lopes. Tuíra demonstrava no gesto a resistência à barragem de um rio mítico, que era vida, cultura, espiritualidade e sustento para os povos tradicionais. A fotografia correu mundo. A Eletronorte recuou e trocou o nome da usina para Belo Monte. Nenhum governo conseguiu tirar Belo Monte do papel. E então Lula assumiu o poder com o voto da maioria das lideranças e dos militantes dos movimentos sociais da Amazônia. Um trabalhador, um sofredor, um homem do povo que conhecia a dor do povo. A partir daquele momento, Raimunda achou que a paz tinha chegado. O talvez do pai virava certeza.

É nesse momento, e não em qualquer um, que Sofia entra na vida de Raimunda. E torna-se sua mais íntima companheira. “É uma neguinha, cabelinho ruim, amarradinho”, descreve Raimunda. Sofia é uma boneca, a primeira boneca da vida de Raimunda. Ela estava num encontro de mulheres, em Belém do Pará, quando viu um homem vendendo bonecas na rua. Sofia custou cinco reais. Raimunda achou caro. Mas já tinha se encantado. Deu a ela esse nome por conta de uma história contada por uma freira de Manaus, sobre uma alemã chamada Sofia, que havia sido uma criança pobre e, ao crescer, criou uma instituição para cuidar de crianças pobres. Sofia agora cuida de Raimunda. E já acompanhou-a na Marcha das Margaridas, das trabalhadoras rurais, extrativistas, indígenas e quilombolas, na Rio+20, por todo canto. Escondida, porque João garante que “vão bulir” com Raimunda se descobrirem que ela carrega uma boneca na bolsa, ela, uma avó de 15 netos. “A Sofia significa para mim uma paz profunda, que não tem resposta”, poetiza Raimunda.

É no momento em que encontra um lugar que Raimunda pode ter até uma boneca.

– Eu não fui criança, porque trabalhei muito. Também não tive juventude. Por isso não dou minha velhice. Não abro espaço pra ninguém. Minhas filhas dizem que tou ficando perturbada. Nada, eu tou é vivendo.

Raimundo com a boneca Sofia

Raimundo com a boneca Sofia

Demorou alguns anos para que Raimunda e tantos outros compreendessem que haviam sido traídos. Lula era um sindicalista do ABC paulista, sua visão de mundo era a da indústria, do concreto, da cidade grande. Progresso, para um operário, era ter carro, TV de tela plana, churrasco no fim de semana. Progresso, para um país, era transformar a Amazônia em soja e pasto pra boi, exploração de minérios por grandes mineradoras para exportação de commodities (matérias-primas). Lula não tinha o menor conhecimento sobre esse outro viver, o da floresta. Mudança climática não fazia parte do seu universo. Seu projeto para a Amazônia era o mesmo da ditadura, que considerava a região uma questão de segurança nacional, um deserto de gente e um corpo para espoliação. A única voz no governo federal e no PT com alguma força para se contrapor a essa visão estacionada no século 20 era Marina Silva, ambientalista que se criou nos seringais do Acre e teve como um dos mentores o líder Chico Mendes, assassinado em 1988 por sua luta pela floresta. Marina só suportou a pressão até 2008, quando deixou o Ministério do Meio Ambiente e logo depois o PT.

Raimunda e as principais lideranças do Xingu perceberam tarde demais que somente Lula poderia tirar Belo Monte do papel. Ao trair os compromissos de campanha, por um lado o PT no poder desmobilizou os movimentos sociais, por outro os cooptou. A resistência, que por décadas foi coesa, rachou. O setor elétrico atravessou governos como um feudo do coronel do Maranhão, o oligarca José Sarney (PMDB). Um exemplo: José Antônio Muniz Lopes, o homem que teve o facão de Tuíra no pescoço, em 1989, é hoje, em 2015, o presidente do Conselho de Administração da Eletronorte e o diretor de transmissão da Eletrobras, já tendo ocupado diversos outros cargos de comando, nas décadas de 90 e 2000. “A Eletronorte é a mesma antes e agora”, resume Raimunda. “Só mudou a coleira, o cachorro é o mesmo.” Mas só o PT e Lula teriam força política para minar a resistência e fazer de Belo Monte uma realidade de toneladas de concreto no meio do Xingu.

Essa é a arquitetura que se mostrou capaz de consumar uma obra gigantesca e ultrapassada, na aliança entre os grupos que atuam desde o passado e o grupo do presente, uma alquimia que talvez a Operação Lava Jato possa começar a desvendar. São também esses interesses que atravessam governos que podem explicar por que Belo Monte vai se tornando fato consumado, mesmo violando a Constituição, com um governo cada vez mais fragilizado e parte dos donos das empreiteiras que a constroem presa por corrupção. Belo Monte é o nó que, quando totalmente desfeito, revelará o Brasil.

Para Raimunda, restou uma conclusão. O PT, para ela, não significava um partido a mais no poder, mas um projeto político que se confundia com sua busca de um lugar no país – e com a crença de que esse lugar existia. O simbolismo para ela era uma literalidade. Ao sentir-se traída, desacreditou:

– Se o Lula visse esse povo que o elegeu, jamais faria Belo Monte. É difícil pra mim falar isso, mas eu votei no Lula e votei na Dilma. E eles nos traíram. Porque o Lula disse claramente que Belo Monte não ia sair. E depois a Dilma falou que Belo Monte era preciso, que não tinha como voltar atrás. Eles são traidores da humanidade. Ah, meu pai do céu! Se eu visse eles, eu não diria. Eu avançaria na cara deles tudo, pra tomar vergonha. Que presidente é esse que mente pra nação? Eu não voto é mais nunca. Se eu não precisasse do título de eleitor, eu rasgava. Como eu preciso dele, não posso rasgar. Meu plano é não botar mais meu voto na urna. Eu vou lá e justifico. Eu não sei se é certo, mas esse é o meu plano.

Belo Monte é onde o PT traiu não a classe média, mas sua razão de ser: os mais frágeis e os mais desprotegidos, os historicamente arrancados da sua terra, como os indígenas, os historicamente exilados dentro do próprio país, como Raimunda e João. É nesse ponto do mapa, a última fronteira para quem palmilhou o Brasil inteiro em busca de paz, que o discurso petista em defesa dos pobres gira em falso há muito mais tempo. Mas como a Amazônia é um longe para o centro-sul, essas vozes foram ignoradas.

Raimunda quer falar:

– Eu vou dizer mais uma coisa: o rio tá doente, os peixes tão noiados, tão tudo grogues por causa do pouco oxigênio. Ninguém tem noção do tamanho desse monstro aí no Xingu. Ninguém sabe o que vai acontecer quando começar a funcionar. Ninguém.

Barragem

Barragem

Interrupção: “Belo Monstro” barra a vida de Raimunda e de João

Depois de travar as pernas e a fala no escritório da Norte Energia, João não voltou mais a ser o mesmo homem que varou Brasis e fomes. Em maio de 2015, Raimunda o levou para a capital, Belém do Pará, em busca de tratamento. Só voltariam de lá no fim de agosto. Nesse período, as filhas trataram de fazer a mudança da casa na cidade, porque sabiam que a mãe não permitiria se estivesse em Altamira, disposta a resistir até que o valor fosse justo. Quando Raimunda e João voltaram, já não tinham mais casa “na rua”. Em troca, tinham recebido 84 mil reais, valor insuficiente para comprar uma casa do mesmo tamanho e qualidade, e em localização similar. Raimunda reciclou 3.500 tijolos das casas demolidas dos vizinhos para começar a sua num loteamento fora da cidade. A canoa São Sebastião, nome dado em homenagem ao santo injustiçado, flechado tantas e tantas vezes, tornou-se um monumento à insanidade, objeto deslocado nos fundos da casa, em terra firme e a quilômetros do rio. Raimunda planeja fazer dela um banco para visitas quando a casa ficar pronta.

Dos três cachorros que viviam com João e Raimunda na ilha, dois não suportaram viver amarrados na cidade e morreram. Barão do Triunfo, um cachorro grande, mestiço de Fila, que se instalava na proa do barco para cuidar da casa na ilha, quando os donos estavam fora, morreu primeiro. “Dei esse nome porque ele era um lorde”, explica Raimunda. Xena, uma pitbull que ganhou o nome por ser “tão autoritária quanto a princesa”, personagem de filmes e de animação, foi a segunda a amanhecer morta. “Eu não podia deixar eles soltos na rua, porque na cidade eles são violentos. Mas não sabia que iam morrer. Se soubesse, tinha deixado eles morrerem soltos, pra morrer livres. Morreram na coleira”, lamenta uma Raimunda culpada. “Eu mesma não sei se um dia vou me libertar dessa coleira que a Norte Energia me botou. Vivo errando, me perdendo, indo pra uma casa que não existe mais. Deus não deu asas pra cobra porque ela já tinha veneno. Essa Norte Energia tem os dois, asas e veneno.” O único que restou foi o vira-lata Negão, “um cachorro que não se emociona assim tão fácil”. Negão, sem nome de princesa nem de barão, é um sobrevivente. Como Raimunda.

Ela documentou em fotos e vídeos o “antes, o durante e o depois de Belo Monte”. Assim, pode provar tudo o que diz. No “durante”, duas de suas filhas chegaram a trabalhar na construção da hidrelétrica, uma na cozinha, outra na mecânica. Raimunda peleou com elas. “Isso é que nem dinheiro de jogo, vocês não podem fazer isso comigo”, esbravejou. “Demorou, mas libertei minhas filhas.” De máquina fotográfica cor de rosa em punho, registrou até a Força Nacional protegendo Belo Monte do povo: “Veja bem, eles acham que sou eu a ameaça!”.

A documentação de Raimunda é um percurso de memória, ao mesmo tempo brutal e poético. Enquanto ela mostra as imagens, vai narrando a sua travessia.

A vida antes de Belo Monte:

– Documentei toda a minha história esperando o futuro, e o futuro taí. Antes de Belo Monte, a minha história era essa. Ó, a minha casa. O meu plantio, o meu pomarzinho, tudo limpo. Tudo varridinho, direitinho. Aqui o meu velho com a roça dele, limpando o chão. Aqui é capim-de-cheiro pra remédio, pra dor de barriga, essas coisa assim. Aqui é o murici carregado, é uma outra fase. Olhe esse pé de murici! Eles queimaram. Tá tudo queimado. Aqui, amigos me visitando. Macaxeira, muito bonito de se ver. Olhe. O meu cachorro, o Negão, aqui. Então, isso aqui, pra eles, não é nada. Pra mim era tudo. O meu amigo é esse aqui que eu tou falando, que era o pé de pinhão. Chegava em casa era o primeiro que eu via. Meu pinhão pajé. Olhe a beira do rio. Aqui, ó. O meu outro cachorro, que morreu só de tristeza porque não era acostumado com coleira, e eu amarrei. Aqui a gente vai parar.

A vida durante Belo Monte:

– Agora vou lhe mostrar durante Belo Monte. Durante o processo de vaivém, vaivém, vaivém. Aqui é o meu barco. Aqui, ó. Esse aqui é o meu fogão a gás, à lenha… A sobrevivência do rio é muito gostosa. Pra quem sabe o que é isso. Pra quem não sabe, não dá valor. Meu marido roçando… Óia. Plantando macaxeira, que ia chegar a chuva, então já tava se prevenindo. O meu cachorro, que já não tenho mais…O outro cachorro, também morreu. O meu velho. São 38 anos de convivência, sempre juntos. Eu corto, e ele planta. Hoje ele tá sentado numa cadeira, esperando sair minha casa. Aqui o final de semana em que eu cerquei, por causa das galinhas, pra fazer um plantio de cebolinha, mas não deu certo, porque as galinhas são mais rápidas do que eu. Esse aqui é meu velho branco de olho azul, um gato. Que hoje tá… Eu digo pra ele que ele não tá inútil, porque eu ainda vejo ele na minha frente. Então, ele ainda é meu gato. E tem um outro ângulo da ilha, aqui, que é onde ela tá produtiva. Deixa eu lhe mostrar aqui…As plantas que foram queimadas. As que eram mais próximas da casa eles queimaram, acabaram com tudo. Aqui é no inverno. Ó, a gente planta e colhe durante a cheia, por conta que a cheia, ela vem, mas ela tem a data certa. Olhe o meu canteiro, as cebolinhas…Cheiro verde… Eu tirando o tomate, o gengibre, que é pra dor de cabeça, dor de barriga e bucho inchado. Remédio caseiro. E aqui eu, dentro d’água, que eu adoro água, também. Aqui, eu com medo de uma cobra, que ela tinha ido na minha frente, eu fui atrás dela. Mas ela foi mais rápida que eu, foi embora. A gente dorme na rede durante o inverno. O meu neto, que ia pra ficar umas férias comigo. Meu pé de capim-santo, ele também não morre na água, ó, fica um tempo submerso. Só se cobrir essas folhinhas aqui que ele morre. Mas, se ele respirar, ele não morre. Minha casa, que pra Norte Energia não era uma casa. Bananeira… ó, os cacho de banana. Tudo carregado. A macaxeira toda de pé. Olha lá o milho. Aqui, ó. O milho todo carregado. Aqui, eu com medo da cobra de novo. Ela com medo de mim, eu com medo dela. Então, isso aqui… é o fim de uma história da vida de uma ilha, que pra mim é muito importante. Porque eu não vivia na ilha. Eu vivia dela, e ela vivia de mim. Porque a gente era como amiga. Abacaxi. Mais milho verde. Ó, o milho lá atrás. Olha esse cacho de banana, o tamanho. Deixa eu pegar pra você ver. Essa aqui, olha, além de ser uma fruta pra alimentação, ela é um antídoto contra inseto. Tem o pescador que vive na ilha, e eu vivia da ilha. Cultivava ela, e ela me cultivava. A gente era amiga. Entendeu? Deixa eu lhe mostrar uma foto aqui em que o rio se despede, vai embora.

A vida depois de Belo Monte:

– Aqui sou eu, pensando… Quando será esse dia, que eu não quero sair? O meu genro dizendo que já era, não tem mais jeito pra fazer nada, é isso mesmo. E eu falando pra ele que eu ainda tinha esperança. Aqui eu dizendo pras minhas plantas que eu ia, mas eu voltava. Mas era só história, que eu não voltei. Meu véio pensando se voltava lá um dia, ou não: “Será que eu ainda volto aqui?”. Eu falei: “Não sei, Deus que sabe”. Óia eu olhando pro horizonte, pedindo a Deus que deixasse a gente ficar na ilha. Meu marido chorando. Isso aqui tá tudo queimado. A Norte Energia queimou. Olhe aí. Toda aquela beleza que eu lhe mostrei, aquele murici, aquela coisa mais linda…Tá aqui, sapecado. Eu fui lá, registrei de novo. Registrei o antes, o durante e o depois de Belo Monte. Aqui, ó. Não sobrou nada. Diz que um crime sempre deixa uma prova. Eles deixaram. Aqui, ó. A impunidade só existe porque a Justiça não se manifesta. Enquanto a Justiça tiver com aquela venda na cara, que é aquela estátua que fizeram lá em Brasília, é assim, ó. A Justiça só vê quem ela quer. Quem não quer, ela não vê.

Raimunda quer escrever um livro. Já tem o título: “História de um pescador: antes, durante e depois de Belo Monte”. Começa a acreditar que o único lugar seu será a sua cova. Já encomendou a mortalha: “de cetim, em branco da paz”.

Terceiro ato: o impasse

Raimunda desenhou a planta da casa nova com o cuidado de que ela seja bem diferente daquela que foi destruída. “Eu não quero mais porta que entre pela frente, quero uma porta que entre de lado, porque quero que meu futuro seja diferente. Então, comecei pela infraestrutura da casa”, explica. “Quando eu entrar nessa casa hoje, eu não quero chegar pensando que tou na outra.” Raimunda marcou toda a história na casa nova, ainda em construção: as paredes são verdes, “porque é a esperança no futuro”, os rodapés são marrons, para mostrar “a barreira da barragem”, as grades das janelas são pretas, “em sinal de luto”. “Tudo na minha vida tem uma história”, ela reforça. E tem.

Raimunda e João

Raimunda e João

Raimunda é uma criadora de sentidos, e por isso consegue seguir a vida. João, não. No dia em que paralisou, ele perdeu a capacidade de criar sentidos. Por dentro, ainda está travado. João viu demais, e o excesso de lucidez o cegou. Agora, não consegue voltar. “Perdi a ponta da meada. Estou dentro dessa casa hoje, mas de fato, toda hora, eu não tenho casa. Eu não tenho casa. Entendeu? Eu tou fora. Me perco. Não sei onde tou. Perdi o rumo de tudo”, inflama-se, os olhos de rio, mas um rio de amazônica tempestade. “Estou pior que a Dilma, porque ela perdeu o rumo do país, mas eu perdi o rumo de casa.”

É este hoje o impasse entre João e Raimunda.

Raimunda diz:

– Sou uma pindova, uma palmeira muito perseguida lá no Maranhão. Quanto mais casca Belo Monte arranca de mim, mais eu me renovo. Fiquei queimada por dentro, como a minha ilha, mas me renovo. A pindova é assim, ninguém mata ela com fogo nem arrancando nem com nada. Ela volta. Como eu. Já venho de uma naturalidade de pessoas muito sofridas, o sofrimento faz parte da nossa história. Não vou morrer porque peguei porrada. De jeito nenhum, sou descendente de escravos e de uma etnia indígena quase extinta. Então, venho de um povo sofrido lá da base. Sou pindova e quero viver.

João responde, e é como se os dois estivessem num diálogo de repentistas:

– Mas eu não sou assim. Quando eu perdi a ilha, eu perdi a minha vida. Eu perdi a linha. Parou ali, entendeu? Daqui pra frente eu só vejo escuridão na minha vista. Eu não vejo mais aquele mundo limpo. Eu só vejo escuridão. Fico aqui, olhando pro mundo, procurando a mim mesmo. Quem sabe me responder essa procura? Ninguém. O buraco na minha vida, o buraco na minha vida…

O impasse atingiu seu ápice em 4 de setembro de 2015. Nessa data, João “enlouqueceu” dentro de casa. Raimunda conta:

– O João chamou a família pra ir lá na ilha queimada. Pra servir de mártir. Ele quer se matar lá, como protesto. Eu disse que não ia nem deixava ele ir. Se ele se matar lá na ilha, avisei que deixo ele lá, pra ser comido pelos urubus. Por isso tirei a canoa dele. Qualquer parte do rio ele vai a remo, nadando. Mas na rua ele se perde.

João encerra seu repente brutal:

– Eu quero que o mundo saiba que Belo Monte me matou.

(Publicado no El País em 22 de setembro de 2015)

 

 

O dia em que a casa foi expulsa de casa

A maior liderança popular do Xingu foi arrancada do seu lugar pela hidrelétrica de Belo Monte, a obra mais brutal – e ainda impune – da redemocratização do Brasil

Lilo Clareto

Fotos: Lilo Clareto

Antonia Melo foi encurralada. Por seis meses o tempo da sua vida esteve marcado pelo som das máquinas botando abaixo a vizinhança da Sete de Setembro, o nome da rua só mais uma ironia. Ela estava ali, sitiada, testemunhando o mundo que ajudou a construir ser violado e convertido num cenário de Faixa de Gaza. Ela, seus filhos, seus netos. E o barulho da destruição avançando, cercando, soterrando também as conversas, fincando seus braços robóticos nas palavras, matando frases inteiras. Um dia chegou em casa e descobriu os escombros do muro dos fundos, derrubado junto com um pedaço da floresta que tinha como quintal. Num calor que pode beirar os 40 graus, já não havia energia elétrica suficiente para ligar a geladeira. Antonia foi sendo asfixiada aos poucos, menos ar a cada dia. Mas ainda assim o povo banido das ilhas da Volta Grande do Xingu, dos baixões de Altamira, continuava entrando pelo seu portão sempre aberto, desviando das crateras, saltando sobre os destroços com as havaianas que parecem ter nascido já gastas naqueles pés. “Dona Antonia, dona Antonia, como tiram da gente uma casa?”. Essas milhares de famílias cuspidas de seus lares pela hidrelétrica de Belo Monte fizeram de Antonia Melo o seu endereço. Lá, até o fim, encontravam uma cadeira, um copo de água entre árvores de sombra, e os ouvidos de Antonia, um par de orelhas que ela fez braços e abraço ao escutar os que ninguém mais escutava. Sem rumo, confinados em bairros longe de tudo que conheciam, em residências todas iguais, feitas para não durar, a maioria sem pouso algum, arrancados pela raiz e jogados fora, esses homens, mulheres e crianças esculpidos pelo sol amazônico tinham em Antonia Melo a sua casa. A maior liderança popular viva do Xingu tornara-se o único ponto de reconhecimento num mapa rasgado por uma guerra talvez pior, porque não nomeada. Na sexta-feira, 11 de Setembro de 2015, a casa foi expulsa de casa.

 

 

 

 

 

 

 

O que é uma casa, minha senhora?, repito a pergunta que tanto escuto pelas ruas de Altamira, no Pará, na boca de gente que já não encontra o destino dos pés.

O  rugido da demolição morde as palavras de Antonia Melo, mas não consegue silenciá-la:

– Dinheiro nenhum paga uma casa. Primeiro, porque eu não estava vendendo minha casa, não coloquei nela nenhuma placa de venda. Eu nunca pensei em sair daqui, de jeito nenhum. Aqui é o lugar que eu escolhi pra morar, criei os meus filhos. A maioria deles nasceu aqui, cresceu aqui. Hoje tenho os netos que nasceram aqui e já estão crescendo aqui. Então, indenização nenhuma paga a casa de uma pessoa. A casa que eu vou comprar com esse dinheiro nunca será a minha casa. Uma casa é como plantar uma árvore. As raízes vão profundamente embaixo da terra, lá embaixo elas se agarram, para que vento, vendaval, tempestade, e até mesmo uma alagação, não a derrubem. As raízes de uma casa são bem profundas. Os filhos e os netos vão embora, mas a casa fica. E a gente embeleza a casa com a natureza, com as árvores, com o que a gente gosta. E embeleza também com as árvores que dão alimento. Eu plantei com as minhas mãos todas as belezas que estão aqui e que hoje me dão frutos e me dão forças pra resistir ao barulho dos tratores derrubando tudo. Uma dessas árvores é o açaizeiro. Aprendi a amar o açaí, o vinho, o suco mais saboroso que já tomei dentro e fora do Brasil. Mas tem o cupuaçuzeiro, de cupuaçu, e a mangueira, que dava tantas mangas e tão saborosas que eu botava na calçada para os vizinhos e quem passasse pegar. Uma casa é isso, é onde a gente se sente feliz, mesmo sem ter dinheiro. Estar dentro da sua casa é ser grande.

O rosto de Antonia Melo é salgado por um choro lento. Ela tenta interrompê-lo, mas não foi feita para barrar rios.

– Mesmo que seja destruído aqui, como vai ser destruído, ninguém vai poder negar a minha casa. Eles tiraram parte dos meus sonhos. Há uma lacuna dentro de mim, eu nunca mais vou ser a mesma. Mas a casa, mesmo destruída, ela continua aqui. Mesmo que ninguém mais a enxergue, aqui continua sendo a minha casa.

Antonia Melo é atravessada por uma voz no portão. Um homem ignorou a vizinhança aos pedaços para oferecer seus serviços. “Bom dia, senhora. Tá precisando de dedetização?” Antonia precisa, mas não desse tipo. Agradece. E o homem vai embora, saltando pedaços de paredes com suas sandálias, habituado a um Brasil que para ele nunca foi plano.

– Eu estou perdendo a minha casa, estou perdendo o rio, perdendo tudo. Essa perda, assim, é de uma vida que era, que tinha um objetivo, que tinha um sonho, que tinha um projeto. Eu não me sinto bem quando eu vou ao rio, vejo o que está acontecendo, as ilhas derrubadas. Não. A minha casa é tudo isso. Era. O rio livre. As ilhas lindas, verdes. Pra mim, é tudo ligado. É uma tristeza só.casa antonia2

 

 

 

 

 

 

A casa, as ilhas, o rio, hoje são um pretérito. Um era. Antonia Melo volta a chorar, antes de agarrar-se mais uma vez ao fio das palavras. O que é uma casa senão o corpo inviolável de alguém, minha senhora? Me diga, como se faz para partir de si mesma?

– As coisas materiais são as que têm menos valor. Uma cadeira, uma cama, uma estante. O valor é insignificante pra mim. Porque o valor significante, que nunca vai se acabar, é esse sentimento… (ela silencia e por um tempo só se ouve o barulho das máquinas). O valor significante é essa certeza de que aqui eu era feliz. Porque eu ajudei a construir isso aqui. É diferente de sair daqui e comprar uma casa pronta, uma casa que você não fez parte da construção. Aqui eu construí, é uma pertença muito grande. As mãos, a cabeça… o pensamento está todo aqui. É a pertença. Por isso que é difícil e é doloroso as pessoas serem arrancadas da sua casa na beira do Xingu. Lá, pertencia. Então, é doloroso, é uma coisa que ninguém nunca esquece. Nunca esquece, pro resto da vida. Estão me arrancando daqui, tentando apagar a memória, a vida. Belo Monte é isso, é arrancar todas as formas de vida, até que mesmo a memória seja apagada para sempre, até que não exista nenhuma raiz. O governo é um mata-memórias.

No ano passado, Antonia Melo, a maior árvore do Xingu, quase perdeu o coração. Ela já havia visto companheiros de luta como Dema, Brasília e Dorothy Stang tombarem a tiros por sua luta pela floresta e pelo rio. Ela já entrou várias vezes na lista de ameaçados de morte por conflitos de terra na Amazônia, vivendo dia após dia sob a sombra da pistolagem. Um de seus melhores amigos, o bispo do Xingu, Dom Erwin Kräutler, vive há uma década com escolta policial para não ser assassinado. Mas talvez nada tenha violado tanto Antonia Melo quanto Belo Monte e o seu rastro de crimes, porque ao longo dos últimos anos ela testemunhou a violação recorrente da lei e a impunidade como um direito adquirido. Essa perversão provoca naquele que a experimenta uma sensação de impotência brutal. A violência parece ter ganhado uma dimensão tamanha dentro e fora de Antonia Melo que já não podia ser simbolizada. Virou uma literalidade que perfurou o coração de uma mulher que a tudo havia resistido. Ela precisou ser levada a São Paulo, onde foi submetida a uma cirurgia e a um prolongado tratamento, para que pudesse salvar a sua vida. Seu coração bate. Ela respira. Mas algo foi arrancado dela para sempre, e esse pedaço faltante é uma presença visível. Antonia carrega uma ausência que agora também é a da casa, onde já não existe mais porta para bater.

Depois de salvar seu coração, Antonia Melo empreendeu uma viagem em busca da memória. Partiu no encalço da casa e dos parentes do pai, Gentil, e da mãe, Elisa. Nordestinos, cearenses, primos, eles haviam se casado e sobreviviam na base da meia, dando metade do que colhiam para o dono da terra, no vizinho Piauí. Era muito suor para tão pouca chance de sonhar. E quando tinham oito dos 13 filhos, entre eles Antonia, uma menina de quatro anos, partiram para a nova terra prometida, a Amazônia. Como tantos brasileiros migrantes, antes e depois deles, a família de Antonia buscava uma fronteira em que houvesse terra para pobre. Antonia enraizou-se no Xingu, mas quando a floresta e o rio passaram a ser destruídos pra virar lago de Belo Monte, ela precisou escavar raízes mais antigas. Trouxe da casa da sua infância, no Piauí, uma pedra e sementes de buriti. E da casa onde a mãe nasceu, no Ceará, carregou sementes de manga. Essa viagem-travessia foi a terra onde plantou seu agora frágil coração.

casa antonia pedra– Até o final do ano começo a escrever a minha história. Dar vida à história, né? Não vão ser palavras que se falou e o vento levou e ninguém mais vai lembrar. Escrever é dar vida a uma história, a um personagem, a uma pessoa, a um lugar… a um espaço. É provar que existiu. E que essa vida não foi uma vida por acaso. Ela tem um significado. Ela tem um sentido.

casa antonia pedra1Um homem entra pelo portão. O peso da carga que carrega faz suas costas vergarem. “Quer uma rede boa e barata na promoção?” Não, meu senhor, já não haverá paredes nem árvores para uma rede. “É uma rede abençoada, senhora.” Já não há bênçãos na terra violada. Ele também parte desviando dos escombros, enredado num mundo em que as pontas já não se amarram.

O desencontro entre Brasis tornou-se trágico no processo de expulsão das famílias por Belo Monte. A empresa concessionária, a Norte Energia, e o governo federal preferem dar a essa ação o nome técnico de “remoção”, vocábulo neutro de onde o conteúdo violento é esvaziado. Para os prepostos da Norte Energia, casa era apenas o “seu” conceito de casa. Um deles chegou a afirmar, demonstrando uma ignorância –ou uma conveniência– quase do tamanho da usina: “Uma moradia é uma moradia. Todo mundo sabe o que é”. E, assim, muitos tiveram suas casas consideradas não casas, e portanto não indenizadas, porque não atendiam ao padrão de “moradia” do “empreendedor”, o termo com o qual o Brasil contemporâneo passou a blindar a palavra “colonizador”. Nas grandes obras do governo na Amazônia, recusar a lavagem das palavras é um ato de resistência. Antonia Melo sabe disso como poucos. Belo Monte arrancou a maior árvore do Xingu, mas ainda assim não conseguiu tombá-la.

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– Cada vez que eu olho o que eles estão fazendo, destruindo as casas, destruindo o rio, destruindo as vidas, mais eu me fortaleço nessa resistência, mais eu crio coragem e forças pra dizer “não” e continuar resistindo. Para mim, Belo Monte não é fato consumado. Eu luto contra esse modelo de destruição e morte de gerar energia, luto contra esse modelo chamado desenvolvimento. Belo Monte é um crime contra a humanidade. Eu não posso voltar atrás. Não posso. Não devo, jamais, nenhuma vírgula. Nem que um dia chegue a ser só eu. Mas continuarei na resistência.

Só uma outra vez eu havia testemunhado Antonia Melo chorar. Ela narrava o dia, no início do primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, em que se encontrou com Dilma Rousseff, então ministra de Minas e Energia. Parte dos movimentos sociais da região tinha acabado de descobrir que fora atraiçoada pelo Partido dos Trabalhadores. A tenebrosa usina do Xingu, que nem a ditadura civil-militar havia conseguido tirar do papel, por conta da enormidade da resistência dos povos indígenas, ribeirinhos e pequenos agricultores, tinha sido colocada de novo em pauta. Antonia estava no grupo de lideranças que viajou até Brasília para se encontrar com Dilma Rousseff. Quando ela começou a expor suas preocupações, Dilma interrompeu-a com um murro na mesa. E um berro: “Belo Monte vai sair”. A ministra, que depois seria presidente, levantou-se, deu as costas a todos e foi embora, deixando-os ali, atônitos. Era o primeiro sinal de que Belo Monte atropelaria todas as leis e marcaria a maior traição do PT à sua base social na Amazônia.

Mais de uma década depois, Belo Monte é um monstrengo alienígena esmagando o Xingu com suas patas de concreto, aniquilando milhares de vidas humanas, animais e vegetais. Belo Monte foi erguida no mítico Xingu violando a Constituição, apesar das mais de duas dezenas de ações movidas pelo Ministério Público Federal e ignoradas por parte do Judiciário. A arquitetura política e econômica da mega-hidrelétrica, uma obra que saltou de 19 bilhões de reais para um valor estimado em 33 bilhões de reais, hoje também investigada pela operação Lava Jato, da Polícia Federal, tem tentáculos que não se sabe o quão longe podem chegar.

Hoje, a Norte Energia espera apenas que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) dê a Licença de Operação da usina, mesmo sem que a empresa tenha cumprido as medidas obrigatórias de redução e de compensação do impacto, aquilo que na linguagem dos técnicos se chama de “condicionantes”. Se o IBAMA o fizer, violando a lei pela derradeira vez, em plena democracia, pode responder por isso na Justiça. Ou na História, nome por nome. Ainda assim, a Licença de Operação é dada como certa e até mesmo a data já circula de boca em boca nos bastidores. Esta é a questão a ser respondida: um governo cada vez mais fragilizado, a presidente ameaçada de impeachment, a maioria dos donos das construtoras na cadeia por corrupção e as violações da obra visíveis até mesmo para quem antes as negava – e ainda assim a Licença de Operação é dada como fato consumado. Qual é a lógica acima de todos os dados da realidade que faz Belo Monte seguir se movendo?

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Depois deste (des)encontro com Dilma Rousseff, Antonia Melo fez ainda parte de um grupo que se reuniu com Lula, já no final do segundo mandato, em 2009. O então presidente prometeu que Belo Monte “não seria enfiada goela abaixo” do povo. Antonia Melo percebeu que era apenas Lula dedicando-se a uma de suas especialidades: fazer de conta que ouvia. O interlocutor se despede satisfeito, sentindo-se escutado e contemplado, e o governo ganha tempo enquanto a resistência se desmobiliza, ao acreditar que há uma negociação em curso. Antonia foi a única do grupo a recusar-se a tirar uma fotografia com o então presidente.

Quando anos mais tarde narrou esses dois confrontos com o PT no Planalto, Antonia Melo chorou pela traição. Ela tinha sido uma das fundadoras do partido em Altamira e acreditara que a chegada ao poder de Lula marcaria o fim do tratamento da Amazônia como colônia do centro-sul do país. A visão da região como corpo para violação e exploração tem sido a mesma tanto na ditadura quanto nos vários governos da redemocratização. Ao longo dos anos seguintes, Antonia viu deputados petistas e parte do movimento social serem cooptados pelo governo federal, esquecidos de todos os homens e mulheres que tombaram a tiros para manter a floresta em pé. Antonia Melo foi se tornando uma árvore cada vez mais solitária diante do desmatamento do caráter de quem costumava estar ao seu lado. Por essa ousadia, a de não se deixar cooptar, pagou um preço cada vez mais alto.

Antonia Melo
Hoje, sentada entre ruínas, as visíveis e as invisíveis, Antonia Melo resiste.

– Me expulsar daqui é mais uma tentativa deles de tentar me calar. Não vão conseguir. Eles vão me arrancar daqui, e destruir tudo aqui, mas jamais conseguirão me calar. Mesmo eles sorrindo e tendo a certeza de que me derrotaram, eu tenho pena deles. Porque são eles os derrotados. Porque eles nunca terão na vida deles a paz na consciência que eu tenho. A paz de quem não foi covarde, de quem não recuou. Eu continuo com a minha bandeira em punho. E sobre eles, sobre o governo, sobre essas empresas, pesa a responsabilidade de um crime monstruoso. Eu nunca vou perdoar. A natureza não vai perdoar. Este é um crime sem perdão. Lula e Dilma são criminosos, são traidores, são covardes. E eu não tenho nenhum receio de afirmar isso na frente deles. Quero encontrá-los ainda um dia para dizer isso.

Ela faz uma pausa após cada palavra lentamente pronunciada:

– Criminosos. Traidores. Covardes.

Pelo portão entra seu Otávio das Chagas, pescador arrancado da Ilha de Maria, uma das mais de 400 do Xingu. Vem acompanhado por seu filho Zé. Sem barco, sem rio, sem peixe, sem árvore, sem roça, sem geografia, seu Otávio teve as chagas do nome multiplicadas por Belo Monte. Está confinado numa das “moradias” padronizadas, e isso só depois de muita luta, porque dele haviam tirado tudo em troca de uma esmola de 12 mil reais por uma vida inteira, que logo foi consumida em aluguéis na periferia de Altamira. O pescador não se reconhece no mundo nem reconhece o mundo ao redor. Era rico e agora é pobre, miserável. E lá dentro da “moradia” do bairro com nome pomposo, “Reassentamento Urbano Coletivo (RUC)”, ouve inúmeras vezes ao dia o carro de som passar propagandeando as benesses de Belo Monte. Enquanto escuta que a hidrelétrica “é energia limpa e sustentável”, lá dentro sua família passa fome. Não como força de expressão, mas fome, aquela que dói. Em sua geladeira só há água, e eles esperam que um dos filhos volte no fim do dia em que alugou o corpo por 60 reais na construção civil, para alimentar nove pessoas. O filho mais novo completou 7 anos neste dia. Não há nem presente nem comida. Mas a energia, esta é “limpa e sustentável”, não é isso que o centro-sul acredita?

Todo dia seu Otávio entra pelo portão aberto de Antonia Melo, a única casa e o único endereço que reconhece. Seu Otávio pergunta se é longe o meu lar, eu que ainda o tenho. Ele conta então que nunca viu um mapa do Brasil. Desenho um mapa bem mal traçado no meu caderno, para mostrar o Norte e o Sul e o Centro, onde seu destino é decidido em território para ele desconhecido. Ele se assombra. Otávio das Chagas é um dos tantos sem mapa e sem país que buscavam a casa de Antonia Melo para se encontrar. E agora, arruinado, se perde em ruínas.

No dia da partida, Antonia Melo levou a pedra da casa da infância e as sementes do seu passado. Foi a última moradora a deixar o lugar. Do seu quintal-floresta, levou uma muda de açaí, “o mais importante que carrego daqui”. Com esses alicerces, aos 66 anos ela plantará um futuro no chão de ausências legado por Belo Monte.

Antonia Melo é uma mulher-casa. E por isso jamais se perderá.

(Publicado no El País em 14 de setembro de 2015)

Um negro em eterno exílio

A longa travessia de Carlos Moore, o ativista e intelectual que denunciou o racismo em Cuba e passou a vida perseguido pelos dois lados da Guerra Fria, até chegar ao Brasil e encontrar um país mergulhado numa crescente tensão racial

Arquivo Pessoal/Divulgação

Arquivo Pessoal/Divulgação

Aos 22 anos, Carlos Moore já tinha vivido mais do que a maioria das pessoas numa existência inteira. Já tinha conhecido a fome e a violência na pequena cidade cubana onde nasceu, já tinha desejado não ser preto e se esforçado por alisar o cabelo, clarear a pele com produtos arriscados e desachatar o nariz com prendedores, já tinha emigrado para os Estados Unidos e descoberto a luta pelos direitos civis, já tinha se apaixonado por Patrice Lumumba, o célebre líder congolês, e planejado um atentado ao consulado belga em Nova York para vingar-se de seu assassinato, já tinha se encantado com a revolução depois de um encontro com Fidel Castro, já tinha se tornado comunista e voltado a Cuba para colaborar com o processo revolucionário, já tinha descoberto que o regime cubano era tão racista quanto aquele que tinha derrubado, já tinha sido encarcerado uma vez por denunciar que o racismo persistia na revolução, já tinha sido condenado a quatro meses num campo de trabalhos forçados uma segunda vez pelo mesmo motivo, depois de abordar o próprio Fidel Castro em público, já tinha feito uma confissão, para não ser morto, de que havia se equivocado e de que não havia racismo em Cuba, já tinha se refugiado na embaixada da Guiné quando percebeu que seria executado de qualquer modo, já tinha fugido para o Egito e depois para a França, sem nenhum documento, já tinha sido rejeitado por um Jean-Paul Sartre convencido de que ele era “agente do imperialismo”, já tinha sido acolhido por um dos ideólogos da negritude, o grande poeta surrealista martinicano Aimé Césaire, já tinha virado segurança do ativista negro Malcolm X, quando este esteve em Paris, e já tinha sofrido de todas as formas pelo seu assassinato. Isso tudo aconteceu até os seus 22 anos. Depois, aconteceu muito mais.

Carlos Moore tem hoje 72 anos. E lança no Brasil a sua autobiografia: Pichón – minha vida e a revolução cubana (Nandyala), publicada aqui graças a um financiamento do público, via crowdfunding, e nos Estados Unidos em 2008, mesmo ano em que Barack Obama tornava-se o primeiro negro eleito presidente da maior potência global. O prefácio é de Maya Angelou (1928-2014), artista e ativista, ela mesma uma lenda, que desempenhou um papel crucial para que o então jovem Moore descobrisse sua identidade e a realidade brutal das mulheres negras.

Para alcançar a trajetória de Carlos Moore, é preciso compreender que, como filho de imigrantes jamaicanos, ele ocupava o degrau mais baixo da escala racial da sociedade cubana. Pior do que um negro cubano, era um negro imigrante das demais ilhas do Caribe. Em seu livro aparecem genocídios de imigrantes negros em Cuba dos quais a maioria jamais ouviu falar. Aos 13 anos, sua mãe já tinha sido estuprada e engravidada pelo padrasto. Com um filho do incesto, ela casou-se com outro imigrante jamaicano. Moore nasceria anos depois, entre vários irmãos. E jamais entendeu por que era rejeitado pela mãe, que o espancava a ponto de deixá-lo de cama por dias, coberto de talhos e hematomas, tendo chegado a desenvolver uma espécie de reação convulsiva. O pequeno Moore fazia buracos no quintal, para tentar escapar dessa mãe. Sua fotografia era a única que não estava pendurada na casa da família.

Um dia a mãe partiu, abandonando a todos. E só muito mais tarde, já adulto, ele descobriria a raiz da violência materna inscrita em surras cotidianas no corpo do filho. A vida de Carlos Moore pode também ser contada por uma longa travessia em busca de uma mãe e de uma identidade.

Anos atrás, depois de sofrer uma embolia pulmonar e flertar com a morte por três semanas, Carlos Moore conta ter resolvido seguir o conselho de seu grande amigo, o escritor americano Alex Haley (1921-1992), autor de A autobiografia de Malcolm X, e escrever suas memórias. Decidiu então mudar-se para o Brasil, onde desde 2000 vive em Salvador, com sua companheira, a guadalupense Ayeola. Do primeiro casamento, tem um filho que vive nos Estados Unidos. No Brasil, acolheu uma menina que morava numa favela e hoje já se tornou adulta e faz doutorado. Tem sete livros publicados, cinco deles traduzidos para o português e lançados no Brasil. Um deles – Fela, esta vida puta (Nandyala) – é a impressionante biografia de Fela Kuti (1938-1997), o criador do Afrobeat, com quem ele teve uma amizade profunda. Entre os seus vários exílios, Moore fez dois doutorados na Universidade de Paris VII, o primeiro em Etnologia, o segundo em Ciências Humanas.

Carlos Moore escolheu o Brasil, onde tinha amigos como Abdias do Nascimento (1914-2011), para se recolher e escrever sua autobiografia com tranquilidade, num país onde era quase desconhecido. Logo percebeu que o Brasil vivia um ponto de inflexão na luta contra o racismo, com as cotas raciais e as demais ações afirmativas. Como fez por toda a vida, engajou-se. Seu livro Racismo & Sociedade (Nandyala), lançado em 2012, tornou-se referência e polêmica. Carlos Moore está longe de ser uma unanimidade, dentro e fora do movimento negro, o que não parece preocupá-lo. Tornou-se um dos pensadores negros dedicados a esse tempo histórico muito particular do Brasil, definido por Moore como “o momento em que as máscaras começaram a cair”.

Desde a infância, Carlos Moore queria fugir, uma fuga profunda, com vários sentidos simultâneos. Acabou por passar a vida fugindo de perseguidores de todos os lados do espectro ideológico. Essa fuga interminável parece tê-lo levado a si mesmo, o único lugar de chegada que importa.

A entrevista a seguir foi feita durante seis horas, em dois dias consecutivos da semana passada, durante a estadia de Carlos Moore em São Paulo, para o lançamento de Pichón. Nela, ele fala sobre racismo, trajetória, identidade, mulher negra, exílio, assim como sobre as realidades do continente africano e de países como Cuba, Estados Unidos e Brasil. Pelo seu relato desfilam personagens que são ícones da história mundial do século 20, mas que talvez a maioria dos não negros desconheça, porque esta é uma história apagada por aqui – ou jamais contada.

À primeira vista, o que chama atenção neste negro de tantos mundos é a sua leveza, surpreendente em alguém que carrega uma trajetória tão pesada e ainda traz no corpo as cicatrizes das violências que começou a sofrer pela mão da própria mãe. Moore é acolhedor, carinhoso e sorridente, jamais se furta a uma pergunta difícil, e sua força aparece quando discorda do interlocutor e dá uma resposta demolidora. Claramente, como se verá, ele não tem tempo para conversas de salão.

1) O primeiro exílio de um negro: o do ser

Pergunta. Por que o senhor escolheu Pichón como título deste livro?

Resposta. O editor americano queria tirar esse título, dizendo que esse não era um título comercial. Eu falei que não mudaria, porque botei esse título para que as pessoas se interrogassem: o que é pichón? Pichón, na Cuba da minha infância, queria dizer “filhote de urubu”. Só mais tarde, já adulto, eu fui descobrir seu significado mais neutro, que era filhote de alguma ave. Em Cuba era o termo que usavam para nos humilhar. Aqueles negros que vinham do Caribe eram urubus, porque eram pretos e se dizia que roubavam empregos dos cubanos e que comiam carniça. E esta foi a palavra que mais me doeu. Me xingarem de “negro de merda” era normal. Todos os negros eram xingados de “negros de merda” pelos brancos. Mas somente certos negros eram xingados de pichón, somente os imigrantes e descendentes do Haiti, Jamaica, Barbados… Os negros cubanos têm nomes como Gonzalez, Díaz, Hernandez. Agora, um negro com nome Moore já se sabe que ele não é cubano, mesmo que tenha nascido lá, estado lá por 100 anos. Havia um ódio profundo, racista, dentro da sociedade cubana, para com aqueles filhos dos imigrantes, considerados mais primitivos, mais bárbaros, mais africanos. Mais negros. A negrura deles é exponencialmente maior, no sentido negativo. Então, eu falei: “Se esse é o termo que mais me feriu, durante a infância, é o que quero utilizar como título do livro”. Eu não o tiraria por nada.

P. O senhor teve uma vida de exílios. Mas, desde criança, parece que o senhor já se percebe como um exilado, num sentido mais profundo. Um exilado da pele, da língua, dos nomes, já que havia rejeição ao seu nome, por revelar que seus pais eram imigrantes jamaicanos. Como é isso?

R. Todos aqueles que nascem desse lado, que são negros, nascem num grande exílio. Um enorme exílio forçado. E, a partir daí, vêm todos os outros exílios que procedem dele e que criam outros novos lugares de exílio. Eu logo percebi que não tinha conexão com o mundo, fora uma conexão fictícia que o mundo branco me forçava a aceitar, a querer ser como eles. Aí já se criava um corte fundamental, que era o corte comigo. Eu não sabia quem eu era, porque eu queria ser outro. Porque esse outro é que era o bom, o bonito, o que todo mundo queria. Quando era pequeno, eu rejeitei minha mãe rapidamente por causa de toda essa brutalidade dela. E eu criei outra mãe na minha cabeça. Eu não falei disso no livro, mas eu criei uma outra mãe na minha cabeça, que era totalmente branca, que era loira, de olhos azuis, como eu via nas revistas cubanas.

P. Sua mãe era uma mulher brutal, mas, quando o senhor criou uma mãe imaginária, criou uma mãe branca, em vez de uma mãe negra. Isso vem de uma outra brutalidade, né?

R. Sim. Eu me retirava para o fundo do jardim para falar com essa mãe, e ela era carinhosa comigo, sempre sorridente e com uma voz suave, e nós fazíamos tudo juntos. Essa mãe de fantasia me trazia presentes, me trazia uns biscoitos de que eu gostava muito. Eu me colocava na escuridão, à noite, no fundo do pátio, entre dois coqueiros, e essa mãe vinha. Eu tinha uns 7 anos, e ela era real pra mim. Ela sempre me perguntava se eu estava contente. E eu dizia que não, que eu queria fugir, que ela me ajudasse a fugir. Toda minha infância eu passei meu tempo a querer fugir. Fugir foi a coisa mais poderosa da minha infância.

P. Fugir do quê? E para onde?

R. Eu ia andar, andar, andar, andar toda a noite, até chegar ao porto. Lá eu poderia me esconder entre aqueles enormes sacos de açúcar, num daqueles barcos. E esse barco me levaria para aquele país que era mítico pra mim, que era os Estados Unidos. Eu dizia à minha mãe branca: “Me leva, me leva pela mão”. E ela me dizia que não, que não podia. E às vezes eu esperava, e ela não vinha. Eu já estava totalmente alienado de mim. Queria ser branco, queria somente ter amigos brancos, queria mudar de pele, queria mudar de cabelo, de tudo. Esse foi o primeiro exílio, um exílio ontológico. Normalmente as pessoas sabem o que são, elas são o que são, não se colocam a questão. Mas eu não sabia, eu não queria ser o que eu era e, pelo fato de não querer ser aquilo, não sabia o que eu era.

P. Como é que é não saber o que se é?

R. Você se sente constantemente num estado de falta [a voz de Moore fica instável]. Não tenho a pele correta, não tenho o nariz correto, não tenho os lábios corretos, não tenho o corpo correto, não tenho. Tudo é falta. A única coisa que me salvou durante essa infância foi a minha inteligência [a voz se restabelece]. Porque na escola eu podia não estudar, e nas provas me dava bem, melhor que aqueles meninos brancos que estudavam o tempo todo.

P. E quando o senhor se olhava no espelho, o que enxergava?

R. Eu me via como alguém grotesco, sempre feio. E eu ainda era estrábico. Então as pessoas sempre diziam: “Pichón, pichón, pichón…”. Eu não me olhava no espelho. E, como na minha casa não havia nenhuma foto minha, isso era reforçado. Eu achava que era comigo, eu não tinha ainda essa percepção de que era com todos os negros.

P. Sua mãe negra, concreta, parece ter sido uma pessoa ambígua. Ao mesmo tempo em que ela o espancava constantemente e alisava o seu cabelo, era ela quem enfrentava os brancos e o incentivava a enfrentá-los. Como o senhor lidava com essa ambiguidade?

R. Ela foi a primeira pessoa que me falou da escravidão. A única que me ensinou a resistir, a única que me disse que eu tinha de enfrentar esse mundo. Meu pai era totalmente o contrário, ele buscava somente a aprovação dos brancos. E os brancos falavam que eu era a vergonha do meu pai. Mas da minha mãe tinham medo, os brancos temiam que ela fosse afrontá-los, porque ela fazia escândalos, fosse quem fosse. Os escândalos da minha mãe, nesta pequena cidade, eram maiúsculos. Mas eu só conseguia chegar perto dela aos domingos, quando ela escutava ópera no rádio e chorava. Ficava escutando essa música, remendando as roupas e chorando. Nestes momentos, ela me tocava.

P. Hoje, como o senhor olha para essa mãe?

R. Eu olho com a compreensão de que ela foi uma mulher estuprada pelo padrasto aos 13 anos. Meu irmão mais velho é filho de um estupro. Minha mãe chegou da Jamaica e, em alguns meses, já estava estuprada e grávida. Estou escrevendo um outro livro, chamado “As pegadas do caos”, que fala dessas realidades históricas. Neste livro, meus pais são os protagonistas. Através deles, vou falar da vida de todos os outros. Dessa pobreza imensa, dramática. Do ódio que enfrentaram em Cuba por serem negros imigrantes de ilhas caribenhas, considerados como bárbaros e primitivos. Pouco antes de ela morrer, eu conversei com minha mãe nos Estados Unidos, em New Jersey, onde ela estava morando. Foi Alex (Haley) que me disse: “Você precisa saber o que aconteceu”. Então fui falar com ela, e depois com o meu pai, que morava no Brooklyn. Foi quando soube por ela que não era filho do meu pai, mas do melhor amigo dele, a quem meu pai tinha confiado a sua família. Isso aconteceu quando meu pai precisou partir em busca de trabalho e passou muito tempo sem voltar. Ela, cheia de filhos, achou que ele tinha morrido. Quando meu pai finalmente retornou, ela estava grávida deste amigo. Era eu. Mas quando eu soube, eu tinha por volta de 40 anos. Depois, conversei com o meu pai. Ele estava sentado, tomando sol. Já estava cego. Ele me disse que minha mãe nunca deveria ter me contado, porque tinham um acordo sobre isso. Mas era uma cidade pequena, e eu passei a vida toda brigando com os outros meninos porque chamavam minha mãe de puta e eu não sabia por quê. Puta, puta, puta. E esses dois homens quase se mataram por causa dessa gravidez. Eu gravei toda a minha conversa com minha mãe e meu pai. Minha mãe me contou as coisas horríveis que passou. Toda a fome que passou. E os meninos vindo um atrás do outro, porque não sabiam como evitar os filhos. Ela sempre grávida. Me dei conta então do horror que tinha sido a vida deles. Eram vidas trágicas.

P. Mas seu pai, de fato, este que criou o senhor, ao contrário da sua mãe, aceitou o senhor por completo como filho, não foi?

R. Eu fui o favorito dele. Até hoje me lembro do odor desses charutos, e eu adoro charuto por causa disso, a única coisa que eu fumo é charuto. Me lembro do perfume que meu pai usava, era um perfume que de vez em quando traziam para ele dos Estados Unidos. Quando conversamos, eu agradeci a ele por todo o amor que ele me deu. Disse a ele o quanto o amava. E disse: “Você é meu pai”. O ciclo estava fechado.
2) A mulher negra: a mais esmagada entre os esmagados

P. Essa cisão, entre a mãe branca boa e a mãe negra ruim, impactou na escolha de suas parceiras sexuais, pelo que se pode perceber em sua autobiografia… Como foi isso?

R. Sim, porque essa transferência se faz para aquelas mulheres brancas que eu vou conhecer, que têm esse fenótipo e que correspondem a essa visão do que para mim é bonito. Tudo o que eu tinha que ser era bom na cama com elas. Não era uma relação, no sentido da intimidade de explorar profundamente o outro. Era uma performance. Eram relações sexuais ficcionalizadas. Cada encontro com uma mulher branca era como na novela. Eram mulheres que não conheciam nada sobre as questões raciais, só queriam bom sexo, um negro na cama que alimentava os fantasmas delas sobre o macho negro. E elas alimentavam os fantasmas que eu tinha. E estes fantasmas estavam ligados a essa outra visão, que poderia ser inclusive incestuosa, já que essas mulheres correspondiam àquela mulher mítica criada na minha infância. Que era boa comigo, que me trazia presentes. Então, o sexo era um grande presente. A relação profunda só começou a existir quando eu passo a conhecer mulheres negras, conscientes de quem são, que estavam se debatendo com o problema da identidade e que me forçaram a me debater com o problema da minha identidade. Aí foi onde começou o outro combate.

P. A história da sua mãe levou o senhor à história da mulher negra?

R. Sim. Eu comecei a compreender a história da mulher negra a partir de Maya Angelou e de todas as escritoras negras que se tornariam grandes, mas que na minha adolescência, em Nova York, eram as mulheres com quem eu passei a conviver, sem me dar conta da importância delas. Eu tenho uma dívida com as mulheres negras que é impagável, por terem me levado à compreensão de quem eu era. Assim, eu tenho o dever de participar dessa luta para que a mulher negra recupere a dignidade diante dessa sociedade, dignidade que lhe foi retirada brutalmente há 400 anos.

P. Qual é o papel de um homem negro diante da indignidade sofrida pela mulher negra?

R. Há uma situação de profunda solidão da mulher negra. A mulher negra é rejeitada universalmente, é pisoteada. Para ser um negro consciente, um ser humano consciente, um homem negro tem que olhar para esse aspecto. Não pode seguir como cúmplice desse esmagamento histórico da mulher negra. A mulher negra é o ser humano mais esmagado de todas as categorias de pessoas marginalizadas no mundo. E não se pode ignorar isso. É por isso que Obama fez algo extraordinário, ao levar essa mulher negra, de pele negra, à Casa Branca, como sua esposa, como mãe das suas filhas, quando, na realidade, a sociedade não programou isso. A sociedade programou para que alguém desse nível, desse sucesso, levasse automaticamente uma loira para a Casa Branca. Ele rompe um tabu e se transforma não somente no primeiro presidente negro, mas também no homem negro que devolve à mulher negra o sentido de autoestima e de respeito que essa mulher deve ter, em primeiro lugar. O sistema racista já inviabilizou a relação entre o homem negro e a mulher negra desde os tempos da escravidão. O racismo já determinou que brancas são para casar, mulatas para fornicar e pretas para trabalhar. Há quatro séculos que isso é lei. Então, quando um homem negro, como eu, compreende o que tudo isso quer dizer, ele começa a ter outro olhar para a mulher negra. Começa a buscar o diálogo com essa mulher, em lugar de pisoteá-la, em lugar de reproduzir toda a história de esmagamento. É um diálogo muito difícil, porque, durante quatro séculos, o homem negro e a mulher negra não tiveram uma situação que permitisse esse diálogo. Para derrubar o racismo é indispensável que o homem negro e a mulher negra tenham essa conversa.

3) A Cuba de Fidel: um regime que reproduziu o racismo

P. Por que o senhor decidiu escrever essa autobiografia?

R. Em 1996, eu passei por uma embolia pulmonar e fiquei três semanas entre a vida e a morte, num hospital de Trinidad e Tobago, onde trabalhava como professor universitário de Relações Internacionais. Pensei que, se eu morresse, tudo aquilo que eu precisava falar sobre a minha experiência com a revolução cubana se perderia. As pessoas têm uma visão de que foi uma revolução generosa, correta com todo mundo. E foi a pior repressão contra os homossexuais, contra os negros. Então eu pensei que, se eu sobrevivesse, sairia da universidade e iria para um lugar em que ninguém me conhecesse como militante, para escrever esse livro. Escolhi Salvador, na Bahia. A Bahia, para mim, é como se fosse um país. A culinária, a música, o candomblé… Queria um lugar onde eu pudesse viver tranquilamente e terminar essa obra.

P. Que buraco se abre na sua vida quando o senhor descobre que a revolução cubana está reproduzindo o racismo?

R. Foi um choque. Eu tinha uma necessidade ontológica de que brancos e negros pudessem juntos mudar a sociedade. Quando eu descubro que estão todos mentindo, e estão destruindo as organizações negras, destruindo o candomblé, destruindo tudo o que é negro, porque eles não querem conviver com essas diferenças, porque querem criar um negro novo, um negro submisso, um negro comunista, foi um grande choque. O que eles estavam propondo era um negro sem cor, um cubano sem cor. Mas eu queria minha identidade, eu não queria me diminuir e ser sem cor. Havia esse discurso de que éramos todos cubanos, só que a cor cubana continuava a ser a branca, já que só havia um negro em posição de comando, entre todos, que era manipulado por Fidel, como eu já tinha presenciado nos Estados Unidos. Aí eu disse “não”. Mas foi um choque grande chegar à conclusão de que esses dirigentes brancos não tinham a menor intenção de conviver com gente como eu. Nem posso descrever aquilo que Fidel Castro era para mim. Ele simbolizava a revolução, e a revolução era para mim como uma mãe substituta. Era aquela coisa que eu podia me entregar e amar e ser amado por ela. Ser aceito e amado por ela. Aceito como eu era. E que ela nunca mais ia me rejeitar. E então a encontro e ela me rejeita, como eu sou. E é por isso que eu cometo essas loucuras que eu vou cometer, porque estou convencido de que Fidel Castro não é parte disso. Que aqueles eram os mesmos brancos racistas de sempre, mas que eles não eram a revolução. Quando descobri que Fidel era aquele que estava à frente disso, aí caí em pedaços… Tudo isso aconteceu comigo quando eu não tinha nem 20 anos.

P. O senhor fez uma confissão, negando o racismo em Cuba, para escapar de mais uma prisão ou coisa pior. Como o senhor se sente com relação a isso?

R. Muitas vezes eu tenho me perguntado porque eu não aceitei ser fuzilado em lugar de confessar o que eles queriam que eu confessasse. Muitas vezes eu tenho me perguntado isso. E eu não tenho nenhuma resposta além daquela que eu tinha. Chegou um momento em que eu sabia que a morte estava ali e de que, para evitá-la, eu somente tinha que mentir. E esse foi o momento em que eu disse a mim mesmo: “Eu vou mentir”. Porque aqueles que estão me pedindo para mentir são mentirosos. Então eu estou traindo absolutamente nada. Eu nunca coloquei o nome de ninguém, nunca impliquei ninguém. Impliquei a mim, dizendo: “Fui eu”. Assumi toda a responsabilidade. O regime cubano pode exibir esse documento em qualquer momento e ele só mostrará que Carlos Moore disse que ele fez sozinho.

P. O senhor voltou a Cuba anos atrás para uma visita, reencontrou seus irmãos e conheceu sua família por parte do pai biológico. Como o senhor vê Cuba hoje?

R. A Cuba de hoje é muito mais complexa do que quando eu estava denunciando o racismo naqueles tempos. O fato de negar a existência do racismo fez com que o racismo ocupasse todos os espaços. Então o racismo se reforçou em Cuba. Ele não se expressa da mesma maneira que ele se expressava antes da revolução, na segregação racial, nos lugares públicos. Mas a segregação racial hoje é tão forte quanto aqui no Brasil. No poder político, econômico, coisas tão simples como o conteúdo da televisão. É muito forte. A única grande diferença que há na Cuba de hoje é que existe um número expressivo de negros que pertencem a uma classe média que estudou. Meus próprios irmãos, por exemplo, são todos profissionais. Para sobreviver, a revolução teve que profissionalizar os negros cubanos.

P. E essa não é uma mudança importante?

R. É uma mudança importante, porque vai entrar em colisão violenta com a Cuba que agora está surgindo com Raul Castro, que é essa Cuba capitalista, tipo chinesa. Porque essa é uma Cuba que exclui totalmente os negros profissionais e não profissionais. E aí vai haver uma colisão, porque existe agora uma massa de negros que pensam, que analisam, que compreendem a situação deles. O regime cubano vai ter que lidar com um problema enorme. Da mesma maneira que o Brasil, hoje, cada vez mais, está lidando com um problema cada vez mais forte, que é o reforço dessa classe média negra que está cada vez mais consciente sobre a sua situação.

P. E como o senhor vê Fidel Castro, esse homem que acabou tendo uma importância grande também na sua vida?

R. Fidel fez algo muito importante para Cuba, a revolução foi importante. Apesar de todas as coisas que têm acontecido, eu nunca teria preferido uma Cuba sem revolução. A revolução era necessária, em Cuba, e se converteu naquilo que se converteu. A revolução morreu, foi destruída, foi assassinada, mas o tempo em que a revolução existiu, como esperança que uniu realmente esse povo, que permitiu aos negros sonharem com uma sociedade nova e que permitiu a muitos brancos sonharem com uma sociedade em que essas diferenças raciais e esse conflito racial poderiam ser vencidos, esse foi um momento importante. Todas as reformas mais estruturais que a revolução fez, como saúde e educação, também foram importantes. O fato de que Fidel Castro foi um dirigente que teve a coragem de desafiar os Estados Unidos também foi importante. Agora, essa militarização exigida pela resistência contra os Estados Unidos converteu a sociedade cubana em uma Esparta, destruindo todos os espaços de expressão civil, que não voltaram mais.

P. O senhor faz uma diferença entre a revolução e o regime. Qual é?

R. A revolução é uma esperança coletiva. O ser humano está constantemente buscando ampliar os parâmetros de liberdade na existência dele, e a revolução é esse momento. Houve uma revolução russa? Houve. Ela morreu? Morreu. Houve uma revolução na China? Houve. Ela morreu? Morreu. Foi assassinada? Sim. Os povos colocam a revolução em movimento, e logo aqueles que manipulam os aparelhos de controle a assassinam. Então é sempre esse vai e vem. Esse conflito, essa contradição.

4) Encontros com Malcolm X e Aimé Césaire, desencontro com Sartre

P. O senhor viveu uma experiência muito particular, a de viver num mundo polarizado, que era o mundo da Guerra Fria, e ser suspeito nos dois lados, perseguido nos dois lados, sem lugar em nenhum lado. Como é essa experiência de encarnar um não lugar, no sentido mais profundo?

R. Havia gente que me acusava de ser agente do imperialismo, de um lado, outros me acusavam de ser agente do comunismo, do outro lado. Ao mesmo tempo. Me senti completamente injustiçado. Até o ponto em que eu não podia resistir mais. Você não consegue provar nada. Quanto mais você tenta provar alguma coisa, mais eles dizem que você está camuflando a verdade. Me dei conta de que, para aqueles que se dizem de esquerda, ou para aqueles que se dizem de direita, não importa a verdade. Para eles a verdade é algo relativo. Você tem um adversário, então você o elimina da maneira mais eficaz. E essa maneira mais eficaz é com calúnias. Mas essas mentiras destroem o ser humano que é o alvo desses ataques. Houve momentos em que eu senti que não poderia aguentar mais. Me lembro de pelo menos três momentos da minha vida em que eu seriamente contemplei a possibilidade de abolir a minha vida.

P. Poderia descrever um desses momentos?

R. Na última vez, falei com a minha atual companheira, Ayeola. Eu sentei com ela num jardim, em Guadalupe, e falei: “Eu não posso continuar mais, e nem consigo explicar a você a dor que estou sentindo”. Ela olhou para mim e disse: “Tá bem. Então faça. Eu vou compreender. Se você está sentindo tanta dor a ponto de querer abolir a sua existência, você deve fazê-lo”. Essa foi a coisa mais maravilhosa que alguém poderia ter feito por mim. Eu me senti livre, liberado, realmente livre. Essa autorização, da mulher que me amava, fez com que algo se quebrasse a partir daí. Eu comecei a viver tranquilo sabendo que, a qualquer momento, eu poderia tirar a minha vida. Passaram-se os meses, os anos… E isso me ajudou a lidar com essa situação de cerco permanente.

P. No lançamento do seu livro, na Livraria da Vila, em São Paulo, o senhor disse que a pessoa que mais o marcou foi Aimé Césaire. Por quê?

R. Porque era um homem de uma tranquilidade extraordinária em meio a todos os conflitos. Ele pertenceu ao Partido Comunista e saiu, por uma questão ética, a invasão da Hungria, e passou a ser atacado violentamente. E foi atacado também pelos grupos de direita, porque estava sempre pregando uma espécie de socialismo da negritude, para Martinica e para outros países negros. Ele me impressionou muito com o discurso sobre a questão colonial, especialmente aquela parte fantástica que me abriu janelas, quando ele disse: “Vocês estão condenando Hitler por quê? Isso é mentira. Como vocês podem condenar Hitler, quando vocês fizeram tráfico de escravos, quando vocês colonizaram toda a África? Trabalhos forçados, genocídios… Vocês não podem dizer nada contra Hitler. Hitler são vocês”. E ele falou também: “A única coisa que vocês podem dizer sobre Hitler é que doeu porque ele matou brancos! Ah… isso sim vocês podem dizer! Mas vocês não dizem que o único crime para vocês é que ele aplicou a brancos, durante um tempo curto, aquilo que vocês reservam aos negros desde séculos”. Isso me impressionou muitíssimo. Foi uma explosão na minha cabeça.

P. E como foi o seu “não” encontro com Sartre?

R. Quando eu chego a Paris, procuro Aimé Césaire e finalmente eu o vejo, e ele me escuta sobre o que está acontecendo em Cuba. E, ao final, ele afirma: “Eu não quero acreditar em tudo o que você me disse, não quero acreditar. Mas acredito”. E aí ele me disse que eu precisava ver várias pessoas, entre elas Sartre. Um jovem escritor, amigo íntimo de Sartre, arranja esse encontro, em um café. Eu vi Sartre lá, com os amigos dele, enquanto esse amigo comum vai dizer a ele que estou ali para conversar. Imediatamente, Sartre começa a gesticular e a dizer com a cabeça que não. Esse escritor voltou, então, até onde eu estava: “Sartre disse que não vai te receber, porque não fala com agentes do imperialismo”. Simone de Beauvoir e Sartre são gente que eu amo, são pessoas que liberaram mentes. Sartre foi aquele que abraçou a negritude, que escreveu um texto lindíssimo que se chama “Orfeu Negro”, onde ele explica aos intelectuais brancos, de esquerda e liberais, o que é a negritude. Coisas luminosas. Esse Sartre era fundamental na minha vida. Então, para mim, foi uma traição. Como se alguém me apunhalasse. Ele teve essa reação de conquistador, de não querer me ouvir. Foi muito duro. Mas ele foi fundamental na minha vida, no meu desenvolvimento como ser humano. Assim como Simone de Beauvoir. Tenho muito amor por esses dois… muito amor.

P. Qual foi a sua experiência com Malcolm X?

R. Quando eu o conheci, como líder nos Estados Unidos, eu não tinha amizade com ele. A amizade veio nesses momentos dramáticos em que ele estava caminhando para a morte. Naquele momento, ele estava com essa obsessão de rapidamente poder ajudar a insurreição no Congo. Eu tinha pouco mais de 20 anos e pensei que a única coisa que eu podia fazer era dar todo o meu apoio a Malcolm para que ele pudesse reunir os voluntários. Passei então a ajudar no recrutamento dessas pessoas. No período em que ele passou na França eu tive que dormir com ele no hotel. Ou seja, ele dormia e eu ficava desperto. Logo que ele acordava, eu dormia algumas horas. Ele se ocupava dos assuntos dele e logo buscávamos o lugar onde ele tomava café da manhã, porque ele tinha medo de ser envenenado no hotel. Eram os últimos momentos de Malcolm, e ele sabia. Ele me disse que só tinha horas ou dias, que estava indo para a morte. E constantemente ele estava me dizendo: “Você tem que prestar atenção ao que eu estou lhe dizendo, porque é a última vez que eu vou poder falar assim”. Então ele começou a me falar sobre tudo: sobre a mulher, sobre a vida, sobre a revolução, sobre como organizar os grupos na clandestinidade… Ele era um homem muito generoso. Não era uma pessoa efusiva, não era uma pessoa de abraços, era um homem muito contido. Mas tudo passava através dos olhos dele, de como ele sorria. E era uma grande paciência. Eu podia falar durante meia hora e ele não ia me interromper nunca. Ele ficava lá, atento a tudo o que eu ou outra pessoa estava dizendo. As pessoas têm essa visão de Malcolm somente como aquele grande agitador e tudo, mas Malcolm era um homem muito tranquilo, muito generoso, muito carinhoso…

P. E como o senhor recebeu a notícia do assassinato dele?

R. Quando eu soube da morte dele fazia frio, em Paris, e eu saí andando por horas. Esse foi um dos momentos mais difíceis pra mim. Eu tinha 22 anos. No assassinato de Patrice Lumumba, eu só queria vingança. Eu amei Lumumba sem jamais tê-lo visto, o amei pelas coisas que ele dizia. Havia uma fragilidade em Lumumba. Ele era um homem magro, alto, mas quando ele falava que criaria uma nação na qual os negros podiam ser respeitados, que todos os negros, de qualquer parte do mundo, poderiam ir ao Congo, foi uma revelação pra mim, aos 18 anos. Já com Malcolm era um sentimento de impotência total, porque eu tinha convivido com ele e o amava. Me lembro de um momento em que eu estava apresentando a ele recrutas para o Congo e uma das mulheres que prestaria ajuda como enfermeira o interrompeu. Eu me zanguei: “Não interrompa o brother Malcolm”. Malcolm parou, me olhou, botou a mão no bolso, sacou uma moeda de um dólar e disse: “Brother Carlos, o que tem do outro lado dessa moeda?”. Eu disse que não sabia. E o Malcolm falou: “Ok, nunca mais interrompa uma mulher, porque as mulheres sempre veem o outro lado da moeda”. Eu nunca me esqueci disso.

5) O Brasil, a maioria negra e a crescente tensão racial

P. O senhor pesquisou o racismo em vários países, em quatro continentes. O que é o racismo, no seu ponto de vista?

R. O racismo não é uma simples tecedura de preconceitos aberrantes, nem uma confabulação ideológica descartável, tampouco uma realidade oportunista surgida há pouco, e muito menos uma “doença”. Se trata de uma estrutura de origem histórica, que desempenha funções benéficas para um grupo, que por meio dele constrói e mantém o poder hegemônico com relação ao restante da sociedade. Esse grupo instrumentaliza o racismo através das instituições e organiza, por meio do imaginário social, uma teia de práticas de exclusão. Desse modo, preserva e amplia os privilégios sociais, o poder político e a supremacia total adquiridos historicamente e transferidos de geração a geração. Em uma sociedade já multirracial e mestiçada, ele serviria para preservar o monopólio sobre os recursos, para o segmento racial dominante. Seria um sistema total que se articula desde o início mediante três instâncias operativas entrelaçadas, porém distintas: 1) as estruturas políticas, econômicas e jurídicas de comando da sociedade; 2) o imaginário social total, que controla a ordem simbólica; e 3) os códigos de comportamento que regem a vida interpessoal dos indivíduos que fazem parte dessa comunidade. Assim, não é possível atacar o racismo em apenas um lugar, porque nada vai se modificar. Hoje em dia, o racismo atingiu tal grau de sofisticação que nega a si mesmo e pretende não existir. Negar a existência do racismo, transformá-lo em um tabu social, tratá-lo como “aberração” ou reduzi-lo à “discriminação” e ao “preconceito” é a melhor forma de encobri-lo e protegê-lo enquanto estrutura sistêmica. Por isso, sempre que o ser humano o nega ou simplifica, está automaticamente em “cumplicidade sistêmica” com ele.

P. E como o senhor vê o racismo no Brasil atual?

R. Brancos e negros estão travando aqui uma luta terrível. E os brancos nem sabem que estão dentro dessa luta. Alguns sabem e pretendem que a luta não existe. Mas só uma minoria, muito pequena, está consciente dessa luta e sabe que é uma luta. A maioria nem quer saber.

P. Há alguma peculiaridade no racismo do Brasil?

R. Não estou buscando nenhum lugar idílico, isso não existe pra mim. O que estou dizendo no meu livro Racismo & Sociedade é que temos de olhar para o racismo a partir dos modelos. O racismo aqui no Brasil corresponde a um modelo específico, e esse modelo veio da Península Ibérica. É o modelo de uma escravidão já naturalizada, onde os negros crescem dentro da escravidão, os negros se sabem escravos. Onde há um sistema clientelista, de onde há uma série de gradação de cores. Esta é uma escravidão que tem mil anos de ossificação. Nela, o subalterno dentro do sistema aceita a sua atividade, vê isso como normal. Nesse modelo, o racismo é o leite que amamenta o negro todos os dias.

P. Um racismo naturalizado?

R. Sim. Então todo mundo quer essa limpeza do ventre, da barriga. As mulheres negras buscam constantemente que seus filhos saiam da escravidão. E qual é a única saída? É que eles sejam pardos, que eles sejam mulatos. Uma situação de trânsito sexual entre o homem branco e a mulher negra. Porque aqui, quando você fala de miscigenação, fala de uma maneira geral, fala sem dizer que aquele que está miscigenando é o homem branco. Não é o homem negro que está miscigenando a raça branca, mas o homem branco que está miscigenando a raça negra. Quando chegam os espanhóis e os portugueses é o que primeiro eles fazem com as nativas e com as africanas. A mulher branca vem depois, com o sistema já estabilizado. Então, esse é um modelo muito mais difícil, porque tudo está naturalizado, tudo é normatizado. As coisas fluem, o sangue está fluindo no interior do sistema de uma maneira normal.

P. Parece que algo forte está acontecendo no Brasil nesse momento, no que se refere ao racismo, mesmo que muitos brancos não enxerguem ou não queiram enxergar. O quanto isso está relacionado à primeira geração de negros que chegou à universidade pelas cotas raciais?

R. É por isso que há tanto pânico. Eu cheguei aqui num momento em que o pânico começou a desencadear-se. O movimento negro fez um trabalho colossal neste país. E que chegou a interferir dentro dos partidos. Depois, quando vi esses negros entrando na universidade, levando com eles o candomblé, as favelas, os quilombos… A universidade ficou em estado de choque. Era um corpo estranho que tinha entrado lá, e eu me dei conta disso. Eles não viam a entrada de estudantes, eles viam a entrada de soldados estrangeiros. Viam esses estudantes como uma invasão da universidade. E eu me dei conta de que esse espaço sacrossanto, branco, tinha sido dessacralizado. Diante disso, começou uma reação tão forte, contrária, que continuou ascendendo até os nossos dias. Se complexificando, se tornando todo o tipo de oposição, com máscara política. Pela primeira vez os brancos nesse país ouviram falar que os negros eram majoritários. A população branca parece viver isso como um estupro. A raça negra é um falo e a sociedade branca é uma enorme vagina. Há uma tensão constante. Essa penetração nas universidades foi vista, simbolicamente, como algo muito, muito, muito profundo. E aí, imediatamente, a repulsa foi geral, dentro da sociedade branca. Com as cotas raciais e as demais ações afirmativas foram liberadas forças que ninguém conhecia. Percebi que havia um potencial real de mudança agindo dentro da sociedade. É nesse ponto que começo a ver, a sentir, que este país tem possibilidade de mudar esse quadro. As máscaras começaram a cair. E o Brasil é um país de máscaras, tantas máscaras…

P. É importante as máscaras caírem?

R. É importantíssimo. A sociedade americana tem essa possibilidade tão grande de discutir e de avançar nessa questão tão difícil, que é a questão racial, porque as máscaras aí são arrancadas com a maior facilidade. Já são várias gerações discutindo abertamente a questão racial. Aqui, não. Lá, quando se mata oito, nove negros numa igreja, se diz claramente que foram mortos porque são negros. Ponto final. Aqui, se queimam um índio, queimaram ele por alguma outra razão. Matam o negro e é a mesma coisa. Mas as máscaras estão caindo.

P. O mito da democracia racial é uma máscara que cai?

R. Ao quebrar o mito da democracia racial, o movimento negro quebrou a ideologia sobre a qual se sustenta esse país. Esse país tem se apresentado diante do mundo inteiro como o único país onde tudo está acontecendo bem entre brancos e negros. E os negros fora desse país acreditavam. Todo mundo falava do Brasil como um milagre, até que os negros daqui, em décadas de combate, finalmente quebraram o mito da democracia racial. Para recolocá-la aqui é impossível. Terão de inventar algo novo.

6) Os brancos e a negociação do poder

P. O que vai acontecer depois que as máscaras terminarem de cair?

R. Eu não sei o que vai vir…. Porque esses são momentos em que pode acontecer o melhor ou o pior.

P. E o que seria o melhor e o que seria o pior?

R. O melhor seria uma discussão dentro desse país, em que se discuta claramente quais são os problemas. Em que cada um diga o que tem dentro. Em que cada um diga o que tem a propor. Em que cada um diga qual a relação dele com esse país. A relação racial se sobrepõe a todas as outras considerações: de sexo, de gênero, de nacionalidade, de religião… Estamos chegando a um momento em que essas coisas estão sendo ditas. Algumas pessoas já se dão conta de que este é um país de maioria negra e isso funda um pânico existencial enorme, dentro dessa parte da população branca, na qual a mística da questão racial está enraizada, como na África do Sul. Eu vi essa mesma reação na África do Sul, quando começou a se falar em transferência de poder. A minoria branca nunca ouviu falar dela como minoria, ela nem se percebia como minoria. No Brasil dos últimos 15 anos, a consciência de que os brancos são minoria, num país que é majoritariamente negro, está crescendo. Surge então um pânico existencial, que está delineado por uma consideração racial.

P. O senhor acha que há no Brasil um Apartheid, com a diferença de que não está na Lei?

R. Aqui o Apartheid apenas não é jurídico. Mas está em todas as partes, em todos os lugares de poder e de decisão. Somente não há leis porque, dentro do modelo ibérico, o Apartheid é um Apartheid de consentimento. Os negros sabem onde estão os espaços dos brancos. Os brancos sabem onde estão os espaços negros. E até onde os negros devem ir. Todo mundo sabe qual é o seu lugar, e o lugar do branco é sempre dominante. Mas, agora, pela primeira vez na história desse país, a hora do questionamento chegou.

P. O senhor disse que o melhor que poderia acontecer seria uma discussão aberta, onde as coisas são colocadas com os nomes das coisas. E o que de pior pode acontecer?

R. O pior é o que já aconteceu na Alemanha. O racismo é fascismo. O racismo é nazismo. Só que nós estamos acostumados a pensar no nazismo como campos de extermínio. Mas o nazismo não é campo de extermínio, este é apenas um momento extremo dele. O extermínio simbólico e físico, sem os campos, está acontecendo todos os dias. E esse nazismo cotidiano, nazismo de todos os dias, é aceito. Porque a sociedade branca dominante está vendo como uma resposta à agressão dos negros, que estão chegando cada vez mais perto daquilo que eles não devem ter, que é o poder. Já existe a ideia, dentro da nação, de que tarde ou cedo os brancos vão ter que negociar aqui o poder político e econômico, como negociaram na África do Sul. Tarde ou cedo isso vai acontecer. Nos próximos 15 anos, com certeza, a maioria negra vai ter que estar refletida em todas as instâncias do poder político. Nunca o branco desse país pensou em termos de negociação racial. Com quem iria negociar? E por quê? Agora, pela primeira vez, essa ideia está entrando, simbolicamente, porque existe uma contestação negra. Às vezes é só um protesto por algo que está acontecendo na televisão, em que os negros dizem: “Não queremos isso”. E que os brancos dizem: “Que direito ele têm de dizer o que querem ou não querem? É simplesmente televisão…”. Mas os negros dizem que não querem esse tipo de lazer. Aí os brancos dizem que é fascismo dos negros. Isso demonstra que há um momento de confronto óbvio. Visual. Os estrangeiros veem isso mais facilmente do que os brasileiros. Eles chegam aqui e veem que a tensão é cada vez maior. O Brasil de hoje não é mais o Brasil de 15 anos atrás.

P. O senhor fala que não gosta do conceito de tolerância. Por quê?

R. A palavra tolerância veicula rejeição. E veicula imposição de todo um modo que é determinado por aquele que diz tolerar. Vou tolerar, mas o modo bom é o meu. Para mim, o importante é o comércio com o diferente. Essa espiritualidade, que nada tem a ver com religião, que é sentir a conexão com todos os outros que eu não conheço. Eu quero conhecer e ter uma relação com o diferente, como diferente. Quero poder formar parte do mundo dele também. Na medida em que eu possa. E querer ele também no meu mundo. Na medida em que ele também possa. É muito arrogante falar isso de tolerar. Quando alguém diz aqui no Brasil que tolera os negros, que não tem nada contra os negros, você já sabe que é um racista falando. É hora de quebrar essas máscaras. Diga então, francamente que você não gosta dos negros, que você acredita que são sujos, que são fedorentos, que são perigosos, que tem que cortá-los e castrá-los, também intelectualmente. Os negros são uma ameaça para o mundo ocidental, especialmente para o Brasil. O Brasil se elege como parte do mundo ocidental. Os brancos desse país se consideram representantes tropicais do mundo ocidental. Então, as reações deles são as reações do mundo ocidental. E o mundo ocidental se considera hoje invadido por negros e por árabes. Na Alemanha nazista, os judeus foram convertidos em negros. E cada vez que você converte um grupo branco em negro, você tem que subir o espaço do grupo branco para outro nível, por isso Hitler mudou para ariano. Agora, estão convertendo os árabes em negros, então eles têm que mudar a dimensão branca para ainda outra dimensão, supra branca. Porque os árabes são brancos nos países deles. E os brancos aqui no Brasil consideram que estão sendo invadidos pelos negros.

P. Como esse processo de “mais branco” estaria ocorrendo no Brasil?

R. Agora está havendo um problema aqui no Brasil. Na medida em que os negros que têm pele clara começam a dizer que são negros, já começa a ficar perto demais. Então, os brancos têm que mudar de categoria. É como a (cantora) Fabiana Cozza (uma das amigas que hospedou Moore em São Paulo) dizendo que é negra, e que quer ser reconhecida em sua negritude. Ao dizer isso, ela está subvertendo o sistema. E isso está acontecendo cada vez mais. Só que esse sistema foi criado exatamente para o oposto. Para que cada vez que um negro tivesse a pele mais clara, ele reforçasse o sistema da brancura nesse país. Estamos vendo agora um deslocamento da categoria branca para um nível superior de barbárie. É isso que estamos vendo nesse instante: um deslocamento da branquidão nesse país. Porque o negro está chegando perto demais. O esquema raciológico brasileiro está se quebrando e criando angústias dentro dessa sociedade branca. Essas angústias estão se expressado através de muitas coisas.

P. Qual deve ser o papel de um branco no Brasil de hoje, no que se refere ao racismo?

R. O Brasil é um lugar bem particular, no sentido das relações raciais. Particular não pelas razões que os brancos dizem, falando que as coisas acontecem de uma maneira diferente do resto do mundo. Não. Aqui, as coisas acontecem como acontecem em todos os outros lugares do mundo. A opressão do negro é brutal, é severa, é terrível. O negro tem sido confinado aqui aos piores lugares, no imaginário, no espaço físico, em todos os espaços. Mas o Brasil ocupa um lugar bem particular no sentido de que este é o lugar onde os negros são maioria. E isso quer dizer que os brancos não vão mudar de país. Os brancos da África do Sul não mudaram de país. Eles tiveram que compor. E os brancos do Brasil vão ter que compor com a maioria negra daqui. Porque é uma maioria negra que é cada vez mais maioria. E esse processo não pode mais ser revertido, porque não há mais possibilidade de imigração branca para esse país. Acabou toda a possibilidade de imigração europeia vindo para cá. Então, brancos e negros estão aqui numa competição demográfica, e os brancos já perderam. Os negros chegaram de novo a ser maioria nesse país. Como eram maioria ao final da escravidão. Depois da abolição, os brancos lidaram com essa realidade importando milhões de europeus. Davam todas as vantagens e privilégios a esses europeus, para que se assentassem aqui e, ao mesmo tempo, expulsaram os negros de todos os espaços da vida civil, esperando que eles morressem. Porque o plano era esse, era eugênico. E os brancos pobres iam mestiçando as mulheres negras, chegando a uma população de pele clara e de pele branca e de maioria branca de novo. Agora, essa maioria negra, que vai ser cada vez mais maioria, está cada vez mais consciente de sua negritude, de seus direitos, e consciente do fato que eles têm que governar esse país. Tarde ou cedo, haverá que se negociar.

P. E em que bases se dará essa negociação?

R. É uma negociação em torno de que tipo de país queremos. É uma conversa profunda. Não é simplesmente aquela conversa sobre o capitalismo. É saindo de uma conversa do capitalismo, do socialismo, que era aquela polarização que tínhamos até agora, baseada no “queremos o comunismo ou queremos o capitalismo”. Agora, não. A conversa é que tipo de país nós queremos. Agora é que essa conversa começou realmente no Brasil. Que tipo de país vai nos permitir viver de uma maneira correta, aqui, com todos os recursos naturais que temos. Acho que este é um país que reúne muitas condições para se chegar a um diálogo. E só se chega a esse diálogo através de um confronto em que as máscaras caiam e os negros digam o que querem desse país.

P. E qual seria o papel ético de um branco nesse momento?

R. Essa situação já está impactando nas consciências de brancos que estão começando a se dar conta de que esse mundo no qual eles estão vivendo não é aquele mundo no qual eles pensavam que viviam. Estão vivendo, de fato, num mundo que é um horror para a maioria da população. Então, nessas circunstâncias, vai haver forçadamente uma convergência entre dois tipos de consciências: uma consciência surgida das exigências éticas, de uma parte da população branca, que se encontra em contradição com ela própria, como indivíduo, e outra parte que não tem essa exigência ética. Ter uma visão de si mesmo é parte do ser humano. Quando certos brancos se descobrem formando parte de um bando de opressores, para estes é um grande problema. Mas, para muitos, isso não vai ter muita importância, porque os privilégios são tão grandes, que não é um problema. Eu tenho visto esse problema tornar-se cada vez maior para brancos desse país que se encontram em contradição ética consigo mesmos. Então, eu acho que essa situação vai crescer. Se eu não tivesse visto esse processo acontecer em outros lugares, eu não poderia me manifestar com a confiança que estou me manifestando agora. Eu não vou dizer que os brancos vão mudar, digo que certos brancos vão mudar. E que eles vão constituir uma reserva moral importante nesse país.

7) As duas Áfricas: a mítica e a real

P. Há essa dimensão mítica da África como origem. Mas, quando se fala em África, são várias as Áfricas. Qual foi o seu encontro – ou o seu confronto – ao andar por tantas delas?

R. Quando eu saio de Cuba, eu vou para o Egito, mas aí eu não encontro a África, eu encontro o mundo árabe. Vivo um ano no Egito, dentro do mundo árabe. Eu vou para a África real quando eu vou à Nigéria, pela primeira vez. E aí me encontro com uma África terrível. Uma África de dirigentes totalmente cínicos, corruptos, mercenários, assassinos. É um choque muito grande. Porque até então minha lógica era a de confronto com o mundo branco. E ali era o confronto com o mundo branco, ainda, mas através daquela coisa do (Frantz) Fanon: “Pele negra, máscaras brancas”. Essas classes dirigentes totalmente ocidentalizadas que estão oprimindo o povo. Resolvo esse conflito me unindo à África da resistência. Se eu não tivesse abraçado imediatamente a causa popular na África, eu teria me sentido totalmente destruído. Teria me tornado um cínico total.

P. Que papel ocupou essa África mítica na resistência dos negros ao longo da história?

R. Tivemos que inventar uma África mítica para resistir durante 400 anos. Não foi fácil atravessar 400 anos sem nenhuma referência positiva sobre você, sobre a raça negra. Tivemos que inventar uma África para servir de apoio moral e espiritual. Uma África que nos dissesse, que nos informasse constantemente que éramos seres humanos, vivendo 400 anos em um sistema que diz que você não é humano. Em que o branco é o único que é referência do que é humano, do que é belo, do que é bom, do que é justo, do que é limpo, e você… é somente sujeira. Quem resiste a isso? Então tivemos que inventar uma África que mantivemos em segredo, como as religiões. As religiões também tiveram esse papel de nos dar essas referências, de que não éramos sujeira… lixo.

P. E a África real?

R. Hoje, precisamos dizer: “Necessitamos desse mundo mítico. Mas, agora, olha para o mundo real. A África de hoje é essa. Onde os povos estão sendo trucidados por esses canalhas. Milionários, mercenários e totalmente vendidos ao exterior. E as guerras civis são por causa disso”. Então, havia que fazer as duas coisas: abraçar a África mítica para desmitificar essa África cruel. Ter forças para chegar até aqui, para então ter forças para confrontar a realidade de hoje. Hoje eu me sinto muito confortável. Eu vou para a África todo tempo, mas eu sei qual é o meu lugar. Eu não vou lá confraternizar com as elites africanas. As elites africanas são elites inimigas. Eu vou lá para fazer algo bem preciso. Sei onde está a linha de demarcação.

8) Conclusões do exílio: onde o humano é real

P. Quando lemos sua autobiografia, parece que são tantas vidas numa só. Nas últimas páginas do livro, o senhor escreve: “foi uma história quase inverossímil”. E, são tantos acontecimentos e tantas pessoas envolvidas, que podemos ter, mesmo, essa impressão. Por que os leitores devem acreditar na história que o senhor conta?

R. Não, eles não devem acreditar. Em primeiro lugar, eu não tento convencer. O livro foi escrito simplesmente porque eu fui levado a escrever esse livro, por alguém que me disse: “Você tem que contar isso que aconteceu”. E eu comecei a contar o que aconteceu. Isso aconteceu comigo. E se o governo cubano tem provas de que isso não aconteceu, que eles deem. E se outras pessoas têm provas de que isso não aconteceu, que deem as provas. Agora, que eu saiba, essa foi a experiência que eu tive. Isso foi o que aconteceu, com a minha mãe, com o meu pai, eu cresci desse modo, me revoltei desse modo, fui para os Estados Unidos e um dia uma mulher veio e mudou toda a minha vida. E foi assim, eu conto… estou contando. Eu poderia ter mudado minha história muitas vezes. O regime cubano me deu muitas possibilidades de entrar. Meu irmão foi para a União Soviética, se converteu em engenheiro, voltou pra Cuba, entrou no Partido Comunista. Todos os meus irmãos e irmãs estão dentro do sistema. Eu optei por uma vida de resistência, porque era o que eu sentia. E isso deu no que deu.

P. E quando o senhor olha para essa vida tão imensa, o que vê?

R. Eu não mudaria minha vida. Quando você está sentindo a pressão e a dor, você quer que essa pressão e essa dor cessem. Mas as oportunidades que eu tinha de fazê-las cessar não eram dignas. Então, eu me negava a tomar essas vias. Mas tive mil oportunidades de ser um dedo duro, de satisfazer a Inteligência Francesa, que estava me interrogando todo o tempo. Fui expulso de vários países, mas poderia ter me acomodado. Eu poderia ter mudado minha história muitíssimas vezes. Mas você não está fazendo uma história. Está vivendo uma vida.

P. E qual é a diferença?

R. A vida é todo dia e é uma vida de opções. Agora mesmo eu tenho opções diante de mim. Eu posso me calar aqui no Brasil. O mais prudente é que eu me cale aqui no Brasil. Porque podem me botar para fora do Brasil em 24 horas. Denuncio o racismo aqui há 15 anos e posso ser acusado de estar interferindo na vida dos brasileiros. É uma opção. Eu poderia optar por não fazer isso. Por simplesmente viver tranquilo no Brasil. Em nenhum momento a polícia veio na minha casa para me dizer o que fazer ou não fazer. Em nenhum momento o governo brasileiro interferiu na vida da minha família. Então, por que eu vou denunciar, me meter em uma situação na qual eu coloco a minha própria paz em risco? Mas minha opção é a de me manter fiel a essa vida que eu tenho até agora. Porque é a única coisa que me dá paz. Se eu faço qualquer outra coisa, eu não estou em paz.

P. O senhor se sente exilado, hoje?

R. Eu me sentirei exilado sempre. O exílio já cessou de ser para mim algo burocrático. Algumas pessoas cubanas dizem: “Ele não é exilado porque ele pode voltar para Cuba”. Eu volto para Cuba condicionalmente. Eles me dizem que eu não posso viver lá, residir lá. Mas essa é uma questão burocrática. E amanhã eles podem mudá-la também. Mas não vai mudar a maneira como eu me sinto. Eu faço parte de uma tribo de humanos que não se sente bem com nenhum desses sistemas. Que não se dá bem com esse tipo de mundo no qual estamos vivendo. Não me dou bem com esse Brasil que estou vendo aí. E amanhã saio do Brasil e vou para Trinidad e Tobago, vou para o Senegal, vou para a África do Sul, e não me dou bem com a situação desses países. Não me dou bem em Uganda, não me dou bem em nenhum desses lugares. Então eu sinto que o meu lugar é um lugar de viver com o meu tempo. E o meu tempo é o de afirmar certas coisas que deveriam ser evidentes, mas que não são evidentes. Afirmar que há possibilidades de que seja de outra maneira. Meu tempo é um tempo de dizer “não”. De resistir.

P. O senhor afirmou que o mais importante é viver de acordo com o seu tempo. O que isso significa, hoje?

R. Minha esperança se funda no possível. Eu acho que é possível o homem e a mulher chegarem a uma compreensão de que a opressão que o homem tem criado é totalmente negativa. Eu não acho que o masculinismo, o machismo e o sexismo sejam algo que não possa ser extirpado da nossa experiência humana. Eu acho que é possível que negros e brancos possam se ver de outra maneira. Eu acho que é possível parar as guerras, essas guerras sem sentido. Não estou dizendo que eu tenho uma solução, isso é diferente. Mas eu acho que é possível se sobrepor a todos os conflitos, que são conflitos religiosos, em torno das coisas que nós criamos, porque os deuses foram criados por nós, totalmente criados por nós. Não é o tempo de me filiar a uma facção ou outra facção. O meu tempo é o tempo das possibilidades.

P. O senhor disse que, na sua infância, não sabia quem era. Hoje, o senhor sabe?

R. Perfeitamente.

P. E quem é o senhor?

R. Eu sou um negro, que nasceu em Cuba, mas que superou sua “cubanidade”. Cuba não é uma referência para mim. É a referência de onde eu nasci, de onde está enterrada toda a minha infância, toda aquela coisa que me formou, mas Cuba não é o lugar que forma meu ser, minha identidade. Minha identidade atravessa fronteiras, atravessa muitas culturas, é algo muito mais elástico. Eu me sinto muito bem onde quer que eu esteja. Eu me reinvento onde eu estou morando, fundo uma família de amigos. Então, eu não vivo com essa angústia que vivem os cubanos que estão fora, de voltar para Cuba. Estou no Brasil, vivo o momento do Brasil, vivo os problemas do Brasil. E, quando eu for embora do Brasil, farei exatamente a mesma coisa. Me envolvi na luta política lá na Nigéria, no Senegal também. Em qualquer lugar que eu vou, eu me envolvo nas lutas daquele momento. Eu não quero estar envolvido numa nostalgia permanente. Os cubanos vivem com uma nostalgia de Cuba, querendo só escutar música cubana, comer comida cubana… A referência da minha vida é muito maior que Cuba, muito maior que o Brasil, muito maior que qualquer país. Não há um só país que possa concentrar a referência do que é a minha vida, do que é a minha identidade.

P. E o que referencia a sua identidade?

R. Aquilo que me faz sentir bem, como eu disse anteriormente, é estar de acordo com o meu tempo. Então, tudo aquilo que perturba aquele tempo, imediatamente suscita reações profundas em mim. É por isso que não preciso de definições. As pessoas dizem: “Mas você é de esquerda? Você é de direita?”. Constantemente estão querendo que eu me defina em termos de direita e de esquerda. Essas distinções eu conhecia antes, eu me definia assim. Mas onde é que está a linha de marcação entre esquerda e direita? Nós vemos às vezes os direitistas se comportarem como os esquerdistas, na questão racial. E os esquerdistas se comportarem como os direitistas, quando se trata da questão racial. Eu encontro esquerdistas que são homofóbicos. Encontro direitistas que são homofóbicos. Esquerdistas e direitistas encontram-se em tantos pontos. O que estou dizendo é que a coisa mais importante para mim é a linha de divisão ética, certas coisas na minha vida que eu considero invioláveis.

P. Que são?
R. Essa coisa da diferença. Eu bato nessa tecla constantemente. Porque, para mim, é o mais importante. A partir do momento em que a diferença não é respeitada, eu tenho que entrar em guerra. Por isso eu entro em guerra com a mestiçagem. Porque ela está dizendo que eu não tenho o direito de ter o fenótipo que eu tenho, de ter os cabelos crespos que eu tenho e de ser respeitado como sou. Que eu tenho que ter os cabelos diferentes, alisados, que não tenho que ter a pele negra, que meus filhos têm que ser cada vez mais brancos para serem respeitados dentro da sociedade. Eu digo não. Eu digo absolutamente não. Eu não me rendo a isso. Meus filhos têm que ser respeitados conforme eles nascem, com a pele negra, com os cabelos crespos, com os lábios grossos, com os narizes que eles têm. Eles têm que ser respeitados desse jeito. Então, essa é a linha de demarcação mais fina na minha vida. É ela que define praticamente todas as escolhas que eu faço.

P. O respeito à diferença?

R. Absolutamente. O fato de ter sido proscrito de Cuba por 34 anos me fez compreender que a nacionalidade é um jogo, é uma brincadeira. Que as fronteiras são coisas totalmente artificiais, que foram erigidas e convertidas em realidades sacrossantas. E que essas fronteiras não eram nada, porque cada fronteira em que eu ia me paravam, eu era suspeito. Eu ingressei numa tribo de suspeitos. Me dei conta de que toda essa força emocional de ser brasileiro, ser americano, ser cubano era um mito que os seres humanos tinham erigido como maneira de se mobilizar contra outros seres humanos. Eu viajava com um documento das Nações Unidas, passava muito tempo em cada fronteira, esperando que pudessem reconhecer que era autêntico. Isso me dava muito tempo para refletir sobre a condição humana. Ao longo dos anos, aquelas categorias de definição de separação foram caindo, uma por uma. Religião, nacionalidade, casta, classe social… À medida em que foram caindo, eu tive que buscar qual era o substituto real. Não o substituto ideológico, mas onde se encontrava a verdade do ser humano, seja qual for. Onde um ser humano é real? Cheguei a esse ponto no qual estou, no qual eu me identifico e me sinto bem. Acho que eu me encontrei. Eu gosto de quem eu sou. E acho que me encontrei na vida, me encontrei no universo, no sentido mais amplo. Me encontrei naquele espaço no qual eu me dou bem, que é esse espaço em que eu posso olhar para todas as diferenças, todas, e não me sentir ameaçado por elas. Eu não me sinto ameaçado por nenhuma diferença.

P. E onde um ser humano é real?

R. Pertencemos a uma espécie e não há consciência dessa espécie. Temos a consciência de definições ideológicas, mas a consciência da espécie não existe. Ser humano implica uma certa solidariedade e, para mim, a solidariedade é um dever. De mirar o outro que está sendo esmagado, que está sendo excluído, que está sendo discriminado, e se colocar ao lado dele. Em nome dessa espécie. Somos todos partes dessa espécie, que está ameaçada, inclusive, por causa de tudo o que faz. Quando ouço o Obama falar que o problema principal que nós temos não é o terrorismo, mas a mudança climática, aí ele toca algo em mim que eu alcancei a duras penas, depois de 34 anos de rejeições em todos os sentidos. Temos que ser solidários entre nós, temos que chegar a um acordo. Para defender a existência aqui, sobre a Terra. Se vamos continuar existindo é finalmente a coisa mais importante. A coisa mais importante de todas é essa: sentir solidariedade por gente que você nunca vai conhecer, por pessoas que ainda vão vir e você não vai encontrar. E eles têm que encontrar uma Terra habitável.

 

(Publicado no El País em 31 de agosto de 2015)

Quando a periferia será o lugar certo, na hora certa?

A maior chacina de 2015, em São Paulo, mostra que as palavras começam a matar antes da morte e seguem assassinando os vivos depois

As fotos do 13 de agosto mostram mulheres lavando o sangue dos mortos com rodo, como nos filmes B de terror. Se o rio vermelho escorre pelos degraus, as palavras ecoam para além da extensa fila de cadáveres. Elas matam lentamente, como balas em câmera lenta, que perfuram os corpos, se espatifam por dentro e vão corroendo os órgãos. Dia após dia, dia após dia, dia após dia. Mata-se e morre-se também na linguagem. As palavras silenciam os mortos para além da morte. E calam os vivos, mesmo quando eles pensam gritar.

1) “Estava no lugar errado, na hora errada”

“Ele nunca teve nada a ver com crime. Era pacato, de família. Estava no lugar errado na hora errada. O nome Deivison foi porque meu pai gostava das motos Harley-Davidson.”

(Jorge Henrique Lopes Ferreira, 31, técnico de celulares, sobre o irmão, Deivison Lopes Ferreira, 26, assassinado em 13 de agosto. O pai de ambos foi assassinado há 18 anos, no mesmo bairro, da mesma maneira, num crime jamais esclarecido.)

“O Thiago estava desempregado havia um mês, mas era uma pessoa excelente e infelizmente estava na hora errada, no lugar errado.”

(Alessandra de Lima, 37, dona de casa, sobre o irmão Thiago Marcos Damas, 32, assassinado.)

“Eu vou ter de voltar à normalidade, seguir a minha vida. Perdi um companheiro e um amigo. Por mais que eu queira, infelizmente não posso mudar de casa. Foi o caso de estar no lugar errado e na hora errada.”

(Jean Fábio Lopes, 34, ajudante em lanchonete, sobre o companheiro, Eduardo Oliveira dos Santos, 41, artesão, assassinado)

“Foi muito rápido e muito trágico. Estava no lugar errado e na hora errada.”

(Alberto Martins, sobre o irmão, Fernando Luiz de Paula, 34, pintor, assassinado)

“Estava no lugar errado e na hora errada” foi o comentário mais frequente dos familiares dos 18 mortos, seis feridos, na periferia de Osasco e Barueri, na Grande São Paulo, na maior chacina de 2015. A expressão dá conta de uma máxima: “na periferia há preto ladrão, branco ladrão e aquele que está no lugar errado e na hora errada”. A frase também culpa, ainda que indiretamente, aquele que morre.

Por que, afinal, ele estava aonde não deveria de estar, do lado de fora, na rua? Não tinha nada de estar ali. Para não estar na hora errada, no lugar errado, é preciso ficar trancado dentro de casa. Se estivesse trancado dentro de casa, estaria vivo. Comentários como estes são escutados o tempo todo nas periferias, tanto que se tornaram um clichê. Cada vez mais acuados, aqueles que não querem morrer se resignam a desistir do espaço público.

É a vida dos escravos, sonhada por seus senhores: de casa pro ônibus lotado, do ônibus lotado pro trabalho, do trabalho pro ônibus lotado, do ônibus lotado pra casa. Gente pobre não precisa de lazer ou o lazer é ver TV em casa, preferencialmente programas em que apresentadores, alguns deles com ambições eleitorais, criminalizam pobres e ofertam a imagem de seus corpos no altar midiático. Quem frequenta bar, sabe que pode morrer, é este o recado. Como na noite de 13 de agosto, como em tantas outras noites.

Como pode ser lugar errado e hora errada estar num bar perto de casa antes da meia-noite? Mas assim é. Se há um lugar errado e uma hora errada, supõe-se que existiria então um lugar certo e uma hora certa. Mas a periferia nunca é o lugar certo. Na periferia nunca há hora certa. Já nos bairros nobres de São Paulo, no centro expandido, todo bar é um lugar certo, toda hora é certa. Também na noite de 13 de agosto.

Nenhum dos homens e mulheres de classe média e alta que lotaram os bares da Vila Madalena ou do Itaim Bibi, na mesma noite e hora, jamais precisou pensar sobre a possibilidade de que encapuzados pudessem entrar e executá-los. Nem que as faxineiras no dia seguinte, elas que vêm do outro lado do rio, tivessem de limpar seu sangue com rodo. Não é preciso pensar nisso, nem faz qualquer sentido. Ser encurralado por encapuzados e executado a tiros nunca é a possibilidade no lugar certo e na hora certa.

Ao se depararem com o corpo de filhos, pais, maridos, irmãos, o que os pobres dizem? Ao se confrontarem com o cadáver de quem amam estirado no asfalto, à espera de ser recolhido, ou estendido numa maca no pátio aberto do Instituto Médico Legal, porque faltou geladeira para todos, o que eles afirmam? “Estava no lugar errado, na hora errada”. É a frase com que a mãe espera convencer a sociedade, pela derradeira vez, de que seu filho era inocente e não merecia ser morto a balas. Em seguida, o absurdo se naturaliza na matéria de jornal e vira normalidade: “A maioria dos familiares disse que as vítimas trabalhavam e não viu motivo para execuções”. Isso é quase tão desesperador quanto a morte, porque também é um tipo de morte. E também mata.

2) “Foi parecido com os outros crimes, por que não considerar?”

Qual é o número de assassinados que a sociedade paulista e também a brasileira considera motivo de alarme? Qual é o número de pobres e de pretos executados que atinge nossa sensibilidade seletiva? De quantos corpos é preciso para fazer uma manchete? Sabemos que, se o morto for morador dos bairros nobres, um já causa escândalo, como deve ser diante de uma vida destruída pela violência. Na periferia, é preciso muitos. Acabamos de descobrir que 18 é um número que impressiona. Para ser considerado chacina pelo Governo é necessário pelo menos três mortos. Só nos primeiros seis meses deste ano foram 10 chacinas no estado de São Paulo e 38 mortos, conforme levantamento do Instituto Sou da Paz, baseado em números oficiais, obtidos através da lei de acesso à informação. Neste ano, o número de chacinas duplicou, se comparado ao anterior, e o de vítimas triplicou. Segundo a Ponte, agência independente de reportagem, especializada em direitos humanos e segurança pública, as estatísticas são ainda piores. Só na Grande São Paulo foram 72 mortes em 2015. Em 7 de março, por exemplo, 10 pessoas foram assassinadas no Parque Santo Antônio, na zona sul da capital. Em 18 de abril, oito foram mortas na quadra da torcida organizada Pavilhão Nove, em Osasco, quando se preparavam para um jogo entre Corinthians e Palmeiras. Mas foi preciso um número maior, 18, para causar uma comoção que já começa a ser esquecida.

É perfurante o comentário de um amigo da vítima que foi tirada da lista. Sandro Afonso, 34 anos, ajudante geral, foi morto com quatro tiros em Itapevi, cidade próxima a Osasco e Barueri, na mesma noite. Ele seria o décimo-nono, mas o Governo considerou que o caso não tinha relação com a chacina. “Foi parecido com os outros crimes, por que não considerar?”, lamentou um amigo anônimo. A esperança desta família era que “o seu” fosse incluído no crime que dá notícia, para não ser mais um morto ignorado, o que multiplica as chances de um assassinato impune. Saiu da lista visível, entrou na lista quilômetros mais longa, a dos invisíveis. Seu assassinato perdeu o interesse público e midiático. Arrancado da vida, dificilmente será arrancado do silêncio na morte. Quando a esperança de quem chora o morto é de que ele entre na lista de uma chacina, a sociedade apodreceu.

3) “Ele era trabalhador”

“Era um trabalhador. Saiu para comprar salgadinho para a irmã e não voltou.”
(Tia de uma das vítimas assassinados)

“Ele nunca deu problema com a polícia, gostava de ficar em casa com a mulher, que está grávida de três meses.”

(Viviane de Lima, 27 anos, sobre o irmão, Rodrigo Lima da Silva, 16, assassinado)

“Ele nunca se meteu com nada de errado.” (Tânia Cristina César, sobre o irmão, Eduardo Bernardino César, 26, assassinado)

“Não usava drogas, era um homem trabalhador.”

(Ângela Maria Pereira, sobre o marido, Jonas de Santos Soares, 33 anos, operador de máquinas, três filhos pequenos, assassinado)

O desespero dos familiares para afirmar que seu filho, pai, marido, irmão, amigo morto, estirado no chão, com balas no corpo e sangrando, não era “bandido”, mas “trabalhador” aparece nos vídeos e nas declarações aos jornais. A afirmação expõe, ao mesmo tempo, a deformação e o derradeiro ato de amor. Nessa afirmação está implícito que, se fosse bandido, haveria uma justificativa para a execução. Quando a imprensa valoriza o fato de que 12 dos 18 mortos não tinham antecedentes criminais, é possível justificar o destaque dado à informação porque ela tornaria, em tese, mais distante a hipótese de acertos do crime organizado, assim como de mortes com identidades previamente determinadas, e não aleatórias, como parece ter sido. Mas também reproduz a ideia amplamente disseminada em todas as camadas da população de que criminosos podem – e devem – morrer, ainda que no Brasil não exista oficialmente a pena de morte.

Se tinha ou não antecedentes criminais é, afinal, a mesma interrogação dos assassinos de 13 de agosto. Ao chegarem ao local, segundo testemunhas, os encapuzados perguntavam quem tinha antecedentes criminais. Em alguns casos, teriam matado aqueles que responderam que já haviam cometido delitos. Em seguida, são os jornalistas que perguntam. Logo depois, é a vez da população, que comenta a tragédia, e decide a partir dessa informação se cabe ou não compaixão. A lógica reproduzida por todos os atores dessa história macabra é a mesma, portanto. E o fato de ser a mesma é aterrador. E se 18 dos 18 mortos tivessem antecedentes criminais, isso significaria que a chacina seria menos terrível ou que o assassinato de alguns pode ser tolerado pela sociedade, quando não desejado? Como o comentário do filho adolescente de uma amiga, ao chegar de uma das escolas de elite mais incensadas de São Paulo, excitado com a notícia: “Mãe, a polícia matou 20 ladrões em Osasco!”.

É doloroso testemunhar o desespero dos familiares, ao explicar e explicar e explicar mais uma vez, aos repórteres, que seu morto era “trabalhador”, era “bom”, era “família”. Fazem a defesa pungente da memória dos que amavam, reproduzindo no ato todo o discurso que os aniquila há séculos. Como repórter, uma das cenas que mais me dilacera e que se repete quase toda vez que piso pela primeira vez na casa de alguém que mora na periferia é quando me estendem sua carteira de trabalho para provar que não são bandidos. Homens e mulheres sofridos, assinalados pela vida dura, que sabem que já nasceram sob suspeição porque são pobres, e mais suspeitos tornam-se se ainda por cima forem também negros. E eu, branca e jornalista, sou decodificada como uma autoridade a quem também é preciso estender a carteira de trabalho. Recuso, digo que não precisa, repito que não devem. Insistem. Eu pego, morro um pouco. Neste gesto, toda a falência do Brasil é consumada.

4) “Quando morre um policial, pode saber que em até 15 dias vai ter uma chacina. Nunca vai mudar.”

A principal linha de investigação do massacre de 13 de agosto aponta para a vingança, por parte de policiais militares, pela morte de um colega durante um assalto, ocorrido na semana anterior, na mesma região. Na maioria das demais chacinas, também há suspeita de envolvimento de policiais. O 13 de agosto prova, mais uma vez, que as periferias paulistas vivem sob estado de terror, provocado por uma guerra não declarada. Nela, tombam os mais pobres, a maioria deles negros.

Em 2014, a Polícia Militar paulista matou 926 pessoas, no trabalho ou fora dele – e 75 policiais foram mortos. É a maior letalidade policial desde 1995, quando os dados começaram a ser divulgados pelo Governo. Com informações do Centro de Inteligência e da Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo, o repórter André Caramante mostrou que a PM mata uma pessoa a cada 10 horas em São Paulo, cinco a cada dois dias. Só no primeiro semestre deste ano, segundo a Folha de S. Paulo, 358 pessoas foram mortas no estado por policiais militares e civis no exercício da função – e 11 policiais morreram.

As mortes fora de serviço são chamadas, na gíria da polícia, de “caixa 2”, como mostra outro jornalista especializado em segurança pública, Bruno Paes Manso. Em blogs e redes sociais, policiais exibem fotos de suspeitos e estimulam a violência não como exceção, mas como regra. Como comportamento e forma de atuação, aberta e cotidianamente. É comum a morte de suspeitos, “os malas”, corruptela de “malacos”, serem divulgadas e comemoradas pelo WhatsApp: “Mala bom é assim, mala morto”. Ou, meses atrás: “Os três vermes, agora há pouco, deitaram no mármore gelado do IML. Vagabundos perigosos. Parabéns aos policiais envolvidos na ocorrência”.

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), afirma que o mais importante é esclarecer a série de crimes e prender os assassinos da chacina de 13 de agosto. Não basta. Se for comprovado que os autores da noite mais violenta de São Paulo são policiais, é hora de enfrentar com seriedade a necessidade de refundar as polícias. Passou da hora, já que o envolvimento de policiais, especialmente militares, em grupos de extermínio, é bem conhecido. Uma polícia militar num regime democrático já é uma contradição em si. A deformação estrutural prejudica os bons policiais – sim, eles existem – e mergulha a população das periferias no horror cotidiano, vítimas de uma guerra não declarada oficialmente, colocada em curso por agentes do Estado, cuja rotina de vinganças é exibida sem pudor em manifestações nas redes sociais, por parte dos membros da corporação, e tolerada por quem deveria puni-la. É preciso enfrentar a estrutura. É preciso formar uma polícia que cumpra a lei e proteja os cidadãos, em vez de assassiná-los.

É isso ou assumir o estado de terror expressado nesta frase: “Quando morre um policial, pode saber que em até 15 dias vai ter uma chacina. Nunca vai mudar”. A afirmação foi feita por uma mulher de 50 anos, costureira, amiga de uma das vítimas. Há três anos ela perdeu o filho em outra chacina na cidade. Se ela já sabe qual é o modo de operação de uma parcela da polícia, como o Governo não sabe e não toma providências antes do fato consumado? O mais brutal dessa frase, porém, é a certeza dessa mulher de que nada vai mudar e que os seus continuarão morrendo. Essa certeza é um dado da sua vida, tão imutável quanto a Terra girar ao redor do Sol. E ainda mais brutal do que isso é que ela tem razão. Não há nenhum fato, nem agora nem no passado, que se possa apresentar a ela para provar que, sim, algo vai mudar. Há promessas. Fatos, até agora, não há.

O discurso que atravessou o sepultamento das vítimas pode ser resumido pela frase de outra mulher, esta irmã de Eduardo Bernardino César. Ela disse, ao enterrá-lo: “Se forem mesmo (PMs), não vai ter investigação, porque a polícia não vai atrás de polícia”.

Esta é a credibilidade da polícia e do governo de São Paulo entre os mais pobres. Uma convicção construída e comprovada no cotidiano. Dia após dia.

5) “Meu filho morreu. Continuarei meus corres”

O massacre dentro do massacre, a morte no interior da morte, o assassinato além da carne é a frase de uma mãe. Zilda Maria de Paula perdeu Fernando, 34 anos. Ele era pintor de paredes. Estava tomando cerveja com os amigos, pouco antes das 21 horas, num bar de Osasco, quando os encapuzados entraram e ele tombou ao lado de outros sete. Era a primeira execução da noite de 13 de agosto. Sua mãe disse à reportagem dos jornais Folha de S. Paulo e Agora:

– Só sei que meu filho morreu. Não vou usar camiseta com a foto dele, não vou pedir justiça. Continuarei meus corres porque ninguém vai me ajudar.

Neste domingo, ela foi a única familiar a participar de um ato contra o genocídio na periferia, em Osasco, que reuniu apenas 50 pessoas, num cenário de ruas esburacadas, escassas árvores raquíticas e casas de tijolos aparentes. Vários parentes das vítimas do 13 de agosto teriam se recusado a comparecer por medo de retaliação policial. Zilda planeja uma missa de sétimo dia: “Estou aceitando a morte do meu filho, mas não como foi. Ele tinha dois metros de altura. Só pôde se proteger colocando a mão na cabeça e se escondendo atrás de uma máquina. Quero reunir quem está junto na mesma dor. Fazer algo civilizado, para não dar motivo para a polícia reprimir”.

Perto dela, uma mulher que não quis se identificar afirmou: “Quando acabar o ato aqui, o que vai acontecer? O silêncio vai voltar”.

6) Epílogo: na Avenida Paulista, selfies com a polícia

Nesta mesma tarde de domingo, 16 de agosto, a alguns quilômetros dali, era outra a cena. As pessoas “de bem” que se manifestavam pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff reeditavam sua admiração e confiança em uma das polícias que mais mata no mundo. Apertavam a mão de policiais, davam parabéns pelo bom trabalho. Depois, tiravam selfies. Abraçadas aos PMs, fazendo sinal de positivo. Não foram registrados protestos contra a chacina de três dias antes.

Na larga Paulista, a avenida-símbolo da pujança de São Paulo, ocupada por cerca de 135.000 manifestantes, a maioria deles homens, autodeclarados brancos e com curso superior, segundo pesquisa do Datafolha, era como se nada tivesse acontecido do outro lado do rio, as pontes dinamitadas também por mais esse gesto. Era como se não existissem 18 corpos furados à bala e chorados por dezenas nos cemitérios das periferias da Grande São Paulo. Os cadáveres não foram lembrados nem por compaixão, nem por decência. Nem mesmo por vergonha. A suspeita de que o massacre tenha sido cometido por policiais não parece ter abalado os manifestantes. A maioria sequer parecia perceber a obscenidade do seu gesto ao pedir um selfie, esquecendo-se ou fingindo esquecer-se de que cada policial ali representa não a si mesmo, mas a instituição marcada por uma letalidade criminosa.

Executar pobres a tiros nas periferias parece não ser considerado corrupção pelos manifestantes da Paulista. Faz todo o sentido. É essa polícia que garante que só morram os do lugar errado, hora errada. As pessoas “de bem” estão no lugar certo, hora certa. Clamam contra a corrupção vestidas com a camiseta da corrupta CBF, o que de novo faz todo o sentido. E vão à Paulista também para garantir que continuem a estar sempre no lugar certo, hora certa.

(Publicado no El País em 19 de agosto de 2015)

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