Notas sobre os protestos

As bombas de gás e de efeito “moral” usadas em parte das narrativas das manifestações têm causado a “dispersão” do conteúdo
Policial dispara contra manifestantes em São Paulo, no dia 16 NACHO DOCE REUTERS

Policial dispara contra manifestantes em São Paulo, no dia 16 – NACHO DOCE / REUTERS (El País)

De um lado, a polícia. De outro, os Black Blocs. E então o “confronto”, a “dispersão” e o fim do protesto. Entre um e outro, manifestantes pacíficos atingidos pelos “excessos” da polícia provocada a reagir. Essa narrativa dos dois primeiros atos de 2015 contra o aumento da tarifa do transporte público (ônibus, trem e metrô), em São Paulo, contém o risco da repetição e do espetáculo. Reduzidos a um balé perverso, os atos podem esvaziar-se de potência. A banalização do roteiro, como se fosse apenas uma reencenação menor de 2013, mas sem a sua novidade, encobre aquilo que o move, a violência de fundo sofrida por milhões a cada dia num transporte caro e incompatível com a dignidade humana. A opção histórica pelo transporte individual e privado em detrimento do coletivo e público. A vida de gado, transcorrida em horas brutas. Essa é a denúncia explosiva, transgressora, que continua tão atual quanto sempre e tem sido obscurecida. O risco de reduzir os atos ao “confronto” é de, mais uma vez, deixar de escutar o tanto que está sendo dito, inclusive pela violência dos policiais e a dos Black Blocs, mais parecidos do que gostariam.

A verdade, como sabemos, é um bicho difícil de alcançar, nunca está num lugar só e se move. Não é singular, como no início da frase anterior, mas plural. Também neste sentido, os atos contra a tarifa do transporte exigem a máxima atenção. Pode haver tantas armadilhas, bombas de efeito “moral” e artefatos para “dispersar” nas narrativas sobre as manifestações quanto nas ruas. Só algo com muita potência provoca tanto conflito também – e talvez especialmente – no campo minado do discurso, o espaço onde se disputa como a história vai ser contada. E que influencia diretamente o que vai acontecer nas ruas no próximo capítulo. Ou na próxima manifestação.

A diferença dos números é reveladora justamente pela sua imprecisão. Não há sequer uma remota proximidade entre o cálculo de manifestantes apresentado pela Polícia Militar e pelo Movimento Passe Livre, que organiza os atos. Na primeira manifestação (9/1), a PM disse que havia 5 mil pessoas, o MPL falou em 30 mil. Na segunda (16/1), a PM calculou em 3 mil, o MPL em 20 mil. É provável que a verdade dos números esteja em algum lugar entre os extremos, mas nada indica que seja necessariamente no meio. Ainda que não seja incomum nesse tipo de acontecimento, a disputa dos números fala da importância do que se desenrola nas ruas. Se as manifestações de 2015 ganharem um lugar na História, ninguém saberá qual era a adesão no seu princípio.

Os números apontam para a evidência de que, entre o primeiro e o segundo ato, diminuiu a adesão, já que este é o dado convergente nas versões de um e de outro. A redução do número de participantes reforçaria a hipótese de que a ação da PM, ao usar a violência contra todos os manifestantes e até contra quem apenas está passando pela rua, possa estar funcionando: com medo das bombas de gás e das balas de borracha, uma parte dos manifestantes do primeiro ato não teria voltado para o segundo. Neste caso, a PM não cometeria “excessos” por despreparo – ou apenas por despreparo –, como já foi dito, mas como estratégia para esvaziar as manifestações. A meta seria impedir o exercício de um direito constitucional como forma de anular o potencial transgressor da reivindicação.

Esse roteiro expõe a tolerância da sociedade com a violência cometida pela polícia. Do contrário, como se explicaria que, num regime democrático, a violência da PM contra cidadãos exercendo a sua cidadania seja possível e se repita com tão pouca resistência do conjunto da população? Qual é a quantidade de violência necessária para fazer com que as pessoas deixem o conforto de suas casas para ir para as ruas em massa, como aconteceu em 2013, em reação à repressão? Haveria uma administração da violência, para que não passe do “tolerável” para a classe média?

Em 2013 costumava se dizer que a classe média e o centro conheceram nas manifestações a polícia que vai para as periferias, onde a violência das forças de segurança do Estado sempre foi tolerada, quando não estimulada. A julgar pelos dois primeiros atos de 2015, o uso da força pela polícia, contra manifestantes indefesos, que deveria causar espanto e revolta numa democracia, é mais um dado a mostrar que a violência vai se naturalizando também nesses espaços, como parte de um espetáculo que se assiste com alguma dose de tédio. Nessa naturalização, não há inocentes e cada um sabe a parte que lhe cabe. Está faltando mais gente que se espante com a falta de espanto em todos os setores – e também na imprensa.

A narrativa hegemônica das manifestações usa as palavras “confronto”, “dispersar”, “vândalos”. São palavras encobridoras, usadas para ocultar e não para revelar. Lembram os termos usados para disfarçar a gravíssima crise da água. Neste caso, o governo de Geraldo Alckmin já abusou de expressões como “estresse hídrico” e “restrição hídrica”, esta última para não usar a palavra “racionamento”. A crise da água, para além da incompetência do governo do PSDB, demonstrada na falta de planejamento e de medidas de prevenção, é uma crise socioambiental intimamente relacionada às mudanças climáticas. Mas poucos se lembram disso, porque se lembrar disso significaria ter de tomar medidas muito mais profundas, com reflexos diretos nos interesses do Capital. A tarifa do transporte e a água, os dois temas do momento em São Paulo, tem ainda essa convergência: em seu cerne, ambas exigem uma mudança estrutural. Uma na forma de tratar o ato de ir e vir das pessoas numa cidade – e quem paga por isso e quem lucra com isso. A outra na forma de tratar o planeta e explorar seus recursos naturais – e quem paga por isso e quem lucra com isso, já sabendo que no fim pagaremos todos, como já estamos pagando.

Para encobrir este, que é o conteúdo realmente explosivo, escolhe-se tratá-los apenas na superficialidade, estimulando o senso comum a formular frases como: “Esse povo não tem o que fazer ao ficar brigando por 50 centavos”, no caso da tarifa; ou “Tá faltando água porque choveu pouco. É só São Pedro colaborar que o problema tá resolvido”, no caso da água. É importante que se analise o que acontece nas ruas mostrando aqueles que não estão lá, mas que atuam atrás de paredes, algumas delas de prédios públicos. Assim como é importante que se veja o que está sendo dito para alcançar o que não está sendo dito, e que possivelmente seja o mais importante.

“Dispersar”, verbo amplamente utilizado na narrativa das manifestações, não expressa algo tão inofensivo e legítimo como se quer convencer a opinião pública. Há regras para isso, e elas não estão sendo cumpridas. Não é preciso ser um especialista para saber que não se pode encurralar manifestantes e jogar neles bombas de gás e de efeito moral, assim como balas de borracha, sem incorrer em várias violações legais, entre elas a de impedir o exercício democrático de manifestação. Assim como não é preciso ser jornalista para saber que chamar de “dispersão” o que é violência contraria as regras do bom jornalismo e violenta os direitos dos leitores de serem bem informados.

Também vale a pena perguntar que “confronto” é este entre cidadãos desarmados e as forças de segurança do Estado, a serviço do governo. E como e por que isso tem sido torcido para “confronto”. Já a palavra “vândalo” tem sido usada desde 2013, como também os outros termos aqui mencionados, para justificar a violência e borrar as nuances, transformando todos os manifestantes em “vândalos” ou em protetor de “vândalos”. Por que, então, uma parte da imprensa produz e reproduz esse discurso, como se estivéssemos ainda numa ditadura e sob censura, em vez de estar exercendo o espanto e o questionamento da ação da polícia, com base na lei e nas normas? São perguntas importantes, que merecem toda a nossa atenção se quisermos de fato construir uma democracia sólida.

Nessas primeiras manifestações de 2015, parece já existir uma narrativa vencendo a disputa no campo do senso comum, como aconteceu em protestos dos anos anteriores. As manifestações seriam interrompidas por culpa dos adeptos da tática Black Bloc. Não fosse a violência desse grupo composto por não mais do que algumas dezenas de jovens mascarados, a polícia não precisaria exercer a sua força contra os milhares de manifestantes pacíficos. O Movimento Passe Livre, por sua vez, seria o responsável por permitir que os Black Block participem da manifestação, porque se beneficiariam da sua ação para chamar a atenção para o protesto. A responsabilidade pela violência nas manifestações, em vez de ser atribuída à PM, está sendo deslocada para o MPL. Nessa versão, ignora-se vários fatos. Entre eles, a enorme assimetria de forças entre a polícia e os jovens mascarados, assim como a premissa básica de que a PM – o Estado – precisam agir dentro da lei.

Uma parte dos manifestantes parece desejar que os Black Blocs desapareçam dos protestos, porque eles estariam expulsando as pessoas das ruas. Neste sentido, fariam o jogo do governador Geraldo Alckmin (PSDB) e do prefeito Fernando Haddad (PT), ao serem usados para esvaziar os atos, como está sendo dito desde 2013. Esta é possivelmente uma parte da verdade, mas não toda. Há aqui um desafio maior, um realmente difícil, que vale para quem está nas ruas e para quem não está: mesmo discordando dos métodos, ser capaz de compreender a tática Black Bloc como uma manifestação e, principalmente, ser capaz de escutá-la. Ao não escutarmos, nos tornamos reprodutores da violência que acusamos no outro. E permanecemos no lugar das certezas congeladas, uma posição bem ruim para entender alguma coisa.

Quando se olha para os Black Blocs reduzindo-os a jovens violentos, a “vândalos”, como se essa fosse toda a verdade sobre eles, apaga-se a possibilidade de escutá-los. Há também um apagamento deles como pessoas. Um dos discursos mais frequentes dos jovens mascarados é de que sua violência, que para eles seria uma “performance”, denuncia a violência que os mais pobres sofrem no cotidiano das periferias. Sofrem nas mãos da polícia, lá onde as balas não são de borracha, a polícia apontada como o único Estado que se faz presente, mas pela opressão. E sofrem pela ausência do Estado, na forma de educação de má qualidade, saúde de má qualidade, transporte de má qualidade, condições de vida de má qualidade. A esta violência responderiam violentando não pessoas, mas símbolos do capitalismo, como bancos, como forma de chamar a atenção do centro para o que acontece nas margens. Usariam a violência para dar visibilidade a esta violência já naturalizada contra os pobres. E, entre as perguntas que fazem, está a de por que a violência menor que eles cometem chama muito mais atenção do que aquela que seria a violência maior, que tritura a vida de milhões física e simbolicamente dia após dia.

Perder a dimensão política do que estão denunciando os Black Blocs, reduzindo-os a jovens ora manipulados pelo Estado, ora a “bandidos”, é perder muito. Porque eles dizem algo legítimo, e é preciso escutá-los, ainda que se discorde da sua forma de atuação – e eu discordo. Na semana passada, o repórter André Caramante mostrou que a PM paulista matou 816 pessoas entre janeiro e novembro de 2014. É a maior letalidade dos últimos 10 anos. Já os crimes, segundo o repórter, mantiveram-se no mesmo patamar estatístico. Este aumento das mortes cometidas por policiais, em especial nas periferias, onde muitos dos Black Blocs vivem, é uma das denúncias que fazem. Se acreditam que a única forma de serem ouvidos é atirando pedras na polícia, queimando lixo e depredando agências bancárias, isso não diz só deles, mas de toda a sociedade. Para quem se dispõe a complicar suas dúvidas ou diminuir suas certezas, sugiro a leitura de Mascarados – a verdadeira história dos adeptos da tática Black Bloc (Geração Editorial), de Esther Solano, Bruno Paes Manso e Willian Novaes. A parte da socióloga Esther Solano, que acompanhou os Black Blocs por vários meses, é especialmente rica.

Tão importante quanto escutar os jovens mascarados é escutar os policiais. Se nas ruas esses homens e mulheres, alguns deles fantasiados de Robocop, representam as forças de segurança do Estado, não é possível ignorar que são mal pagos e mal preparados, muitos deles sofrendo os mesmos problemas denunciados nos protestos. Se a desmilitarização da polícia é um debate que precisa ser enfrentado, com sua lógica de guerra, que pressupõe não um cidadão, mas um inimigo, esta não é nem a única explicação, muito menos a única solução. São os policiais militares que arriscam a sua vida nas ruas para defender uma parte da sociedade, e isso é bastante claro, da outra parte, que sofre a violência cotidiana dos péssimos serviços públicos, de uma precariedade que a impede também de mudar sua posição nesta mesma sociedade, como acontece no caso da educação. Os Black Blocs e os policiais têm mais em comum do que gostariam. E, o mais importante: nenhum deles inventou a violência da sociedade brasileira.

Entre todas as versões vendidas como verdade neste momento, a mais perigosa é a do “confronto” entre a Polícia Militar e os Black Blocs, ou entre a PM e os manifestantes. Ao se reduzir o protesto ao “confronto”, que acaba sendo a única notícia, ou pelo menos a mais difundida a cada ato, evita-se o debate público sobre o transporte e a mobilidade urbana, a reivindicação profunda que move os protestos. Encobre-se também aqueles que não estão nas ruas, como o governador e o prefeito. Na questão da tarifa, PSDB e PT, os dois partidos que se digladiaram na eleição mais apertada desde a redemocratização, comportam-se como amigos de infância.

Não há como afirmar qual será a potência das manifestações de 2015. Muitos apostam que elas se esvaziem. Outros, que em algum momento as duas crises, a da tarifa e a da água, se encontrem nas ruas como já se encontram no cotidiano. Será uma pena se, submetidos à lógica do “confronto”, não conseguirmos escutar o que dizem os manifestantes – e o que não dizem o governador e o prefeito – e perdermos a oportunidade de um debate público, político, sobre a violência silenciosa que corrói os nossos dias. Não é um espetáculo repetitivo, é a nossa vida que pode se repetir como farsa porque nossa imobilidade parece se estender muito além de não conseguir se movimentar em ruas lotadas de carros e em ônibus lotados de gente violentada. Para se mover, é preciso retomar a conversa e escutar.

(Publicado no El País em 19/01/2015)

Meu ‘confronto’ com a polícia de Alckmin

Na primeira grande manifestação de 2015, em São Paulo, um dos ”vândalos” era eu
Manifestante diante de um cordão policial em São Paulo. NACHO DOCE REUTERS

Manifestante diante de um cordão policial em São Paulo. NACHO DOCE / REUTERS

Alguns minutos antes de virar “vândala”, eu parei de caminhar, me virei de costas e olhei a multidão que ocupava a Consolação, na primeira manifestação contra o aumento de 50 centavos da tarifa de ônibus, em São Paulo. Era sexta-feira, 9 de janeiro, no início da noite. Como é horário de verão, ainda estava claro. Pensei como era bonito milhares de pessoas se reapropriando das ruas, do espaço público, da cidade, para exercer seu direito democrático de protestar contra o que consideram injusto. São Paulo, vista a pé, andando por ruas sem carros, é uma outra cidade. É humana. Das janelas e sacadas dos prédios, as pessoas abanavam. Pouco antes, eu tinha ouvido de dois manifestantes: “E aí, até quando isso aqui vai parecer uma romaria?”. E, quando voltei a me virar para recomeçar a caminhar, o clima na minha frente era outro. Os black blocs e alguns outros tinham se adiantado e começavam a dar chutes em portas de ferro, arrancavam latas de lixo e espalhavam o conteúdo no meio da rua. Foi quando o vi.

Vestido de amarelo, ele estava alheio aos mascarados de preto. Mas seguia-os. Sabendo como os black blocs agem nos protestos, ele me contaria em seguida, costuma segui-los para recolher as latinhas de refrigerante e cerveja. E assim fazia esse balé surreal em que ele parecia recortado de uma outra cena, alheio ao que acontecia, atento apenas ao chão, caminhando lentamente na vanguarda da marcha enquanto ao redor o caos se instalava. Abordei-o, me apresentei como jornalista, e ele me disse que se chamava Ailton da Silva, tinha 58 anos e morava em São Miguel Paulista, na Zona Leste, uma das regiões mais pobres da capital. Aquela que alaga a cada chuva e é a primeira a ficar sem água nas torneiras nesses tempos em que São Paulo se aproxima mais e mais de um cenário de distopia.

Para juntar o equivalente ao valor de uma passagem de ônibus, depois do aumento – R$ 3,50 –, Ailton precisaria, pelos seus cálculos, de quase 100 latinhas. Ele estava bem longe disso. Algo para aqueles que dizem “é só 50 centavos” pensarem. “Só” para quem?

Perguntei da camisa amarela, ele me disse que a que importava era a que estava por baixo. E me mostrou uma camisa do Corinthians que já tinha visto jogos demais. Despediu-se, então: “Preciso continuar. Vou seguir, me arriscando ao perigo”. Deu um passo, olhou para trás e abanou. Então seguiu, olhando para o chão, no brutal pragmatismo da sobrevivência, que encontra todas as brechas possíveis, como a de seguir black blocs para catar latinhas no lixo que espalham pelas ruas como forma de protesto.

No momento em que o catador de latinhas desapareceu confusão adentro, alguns black blocs quebraram a porta de uma agência do Santander. Eu ainda andei mais uns passos. Então manifestantes que estavam na frente começaram a correr na direção contrária a da marcha. E eu vi – e senti – as primeiras bombas de gás lacrimogêneo. Por instinto, eu e todos que estavam ali começamos a correr em direção à esquina, para pegar a rua paralela e escapar de sermos atingidos. Mas a Polícia Militar do governo de Geraldo Alckmin (PSDB) nos encurralou. A ação da PM mostrava que ela não queria que os manifestantes se dispersassem, mas sim que fossem atingidos. Passaram a lançar bombas também na nossa única rota de fuga, impedindo que saíssemos por ali.

Em certo momento, havia quatro bombas quase juntas na minha frente. E não precisa ser nem especialista nem muito inteligente para saber que esse não é o “procedimento”. Nesse momento, eu já sufocava e, sem conseguir respirar pelo nariz, tentava pegar o ar pela boca, o que não se deve fazer. Meu rosto inteiro e meus braços queimavam, minha sensação era a de que minha pele se desmanchava. Meus olhos ardiam. Era difícil respirar, enxergar e não havia como fugir. Nos jogamos contra as portas de ferro, as grades, os vidros dos prédios e lojas fechados, que não se abriam para nós. No medo, a solidariedade é uma das primeiras a morrer.

A polícia estava atirando bombas em nós. Era assustador. Aqueles homens, pagos com o nosso dinheiro para nos proteger, nos atacavam deliberadamente. Nós, desarmados, indefesos, amontoados junto às paredes, com o corpo inteiro doendo, continuávamos sendo atingidos. Era bem claro que não havia nenhuma ameaça ali, só cidadãos acuados e aterrorizados. E eles continuavam jogando bombas e impedindo que fôssemos embora.

O Estado nos atacava. Essa foi a percepção que me fez sentir mais pavor. Era bem claro que os policiais atiravam bombas em nós por ódio. Nós éramos os seus inimigos. É a lógica da Polícia Militar, e ela se expressava com clareza quase didática naquele momento. Percebi que, com aquele nível de raiva e com aquele total despreparo, o descontrole poderia aumentar ainda mais e poderíamos ser mais machucados do que fomos. Poucas coisas são mais assustadoras do que um Estado violento, do que a consciência de que aqueles que detêm o uso da força estão armados, despreparados e com ódio. Alguém poderia, inclusive, ser morto. E ali era o que sentíamos. Amontoados como ratos de laboratório de um experimento sádico, tínhamos medo de morrer nas mãos de uma polícia que se mostrava criminosa. E que parecia ter esperado apenas um pretexto para atacar aqueles que também deveria proteger.

Nesse momento tinha tanto gás que comecei a ficar tonta e a sentir que perderia a consciência. Pensei que se desmaiasse ali poderia morrer ou pisoteada ou pelas mãos da PM. Imagino que algum instinto de sobrevivência tenha me salvado, porque consegui continuar consciente, apesar de sufocada. Ao meu lado, um senhor de cerca de 70 anos tentava não cair. Algumas pessoas vomitavam. Um garoto gritava: “Me ajudem, eu preciso de ajuda”. Outro dizia: “Não estou enxergando nada.” E bateu contra a parede. Eram estes os “vândalos”, eu inclusive.

Não sei quanto tempo durou até eu conseguir fugir dali. Me pareceu uma eternidade. Não sei quem chamou essas coisas de “bombas de efeito moral”. Assim como as bombas de gás lacrimogêneo, como já está provado, podem causar danos à saúde a médio e a longo prazo. Em casa, enjoada, com o rosto vermelho, eu pesquisava sobre elas para saber o que deveria fazer e descobri que em pessoas que têm bronquite, como eu, elas podem causar edema pulmonar. Quase desmaiei duas vezes antes de finalmente conseguir dormir.

Fico muito espantada, como jornalista e como cidadã, com o uso da palavra “confronto” para definir o que aconteceu na primeira grande manifestação de 2015. E em muitas outras antes dela. Qual era a minha condição e a dos manifestantes de nos “confrontarmos” com centenas de policiais armados? Qual era o confronto quando estávamos estatelados contra uma parede levando bombas de gás e balas de borracha? Que confronto é este entre as forças de repressão do Estado e cidadãos exercendo seu direito legítimo de protestar? Esse discurso do “confronto” lembra os tempos da ditadura e de uma imprensa submetida à censura. Deveria ser inadmissível na democracia. Que se chame essa violação da lei pela polícia, no cumprimento de ordens superiores, de “confronto” é um desrespeito também com a História.

Ao final da noite de ontem, depois de ter sido vítima de violência policial, minha sensação era a de ter sido abusada. A pessoa que estava comigo revivia o mesmo sentimento que tinha tido, anos atrás, quando sofreu um sequestro relâmpago e ficou sob a mira de armas e ameaçado de morte. Não conseguiu dormir. Como jornalista que cobre direitos humanos, sei muito bem que, na periferia, as balas não são de borracha e o terror é cotidiano. E fiquei torcendo para que o catador de latinhas tenha conseguido escapar.

Quando tudo acabou – e, ao mesmo tempo, nada acabou –, eu entrei pelo portão de grades do meu prédio, igual a todos aqueles que antes não se abriram para mim, e me entreguei à ilusão de proteção. O catador de latinhas está entregue ao desamparo, os portões não se abrem para ele e ele só come se continuar olhando para o chão.

Uso aqui a única arma que tive na vida. Minha escrita.

(Publicado no El País em 10/01/2015)

Vagão rosa, para não ser encoxada

O que faz das mulheres ainda hoje uma ameaça tão grande que, mesmo quando vítimas, são julgadas culpadas?

 

Alô, mulheres. Se pegarem trem ou metrô em São Paulo, prestem atenção às orientações do sistema de som: “Se você estiver com vontade de ser violentada, ou ao menos receber uns apertões na bunda e nos peitos, siga para o vagão comum. Se estiver cansada, introspectiva, teve um dia difícil, está com TPM, vá para o rosa e viaje tranquila”. Uma excelente semana a todas.

Poderia ser uma piada ou um filme de horror futurista. Mas é sério e não é ficção distópica. Na prática, essa é a mensagem do projeto de lei aprovado em 4 de julho pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. De autoria do deputado Jorge Caruso (PMDB), ele cria um vagão exclusivo para mulheres no metrô e nos trens. Algo similar já existe no Rio de Janeiro. A lei poderá ser vetada ou sancionada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), candidato à reeleição, nos próximos dias. Na sexta-feira (18), feministas reuniram-se no centro da capital paulista para um ato em protesto contra a criação do “vagão rosa”.

Não é muito, mas muito estranho mesmo?

Estamos em 2014, há uma mulher na presidência do Brasil. Mas acredita-se necessário criar um vagão só para mulheres nos trens de transporte público da cidade mais cosmopolita do país. Por quê? Porque, se ficarem misturadas aos homens, as mulheres serão encoxadas, apalpadas, abusadas e até estupradas. E é verdade, tudo isso acontece. Tanto que um grupo feminista fez recentemente uma campanha distribuindo alfinetes para as moças enfiarem nos abusadores do metrô.

É bizarro. Diante de uma mulher, num espaço apertado, atulhado de gente, alguns homens sentem-se autorizados a abusar dela. Isso diz de cada indivíduo e, claro, diz também dessa sociedade. Seria importante escutar esses homens para entender qual é a questão de cada um com seu próprio pênis. Talvez vivam um sentimento de impotência avassaladora, para muito além da ereção que conseguem ou não ter. Mas é só uma hipótese para tantas que só podem ser compreendidas na história de cada um.

Mais bizarro do que o ato individual, porém, é o ato público. Mais perigosa é a “solução” que o poder público, nesse caso o parlamento paulista, deu para a violência. Comete-se violência sexual contra as mulheres nos trens, segrega-se as vítimas. Seguindo essa lógica, em breve poderia se propor que, nas ruas e espaços coletivos, as mulheres passassem a usar burca. Assim, os homens não seriam “tentados” a cometer crimes sexuais.

Se o “vagão rosa” (o apelido já é duro de aguentar!) vingar, é um retrocesso muito maior do que pode parecer a um primeiro olhar distraído. É alarmante que os protestos não sejam mais numerosos e barulhentos, dada a seriedade do que está em jogo. Em nome das supostas boas intenções de “proteger as mulheres”, o que se faz, de fato, é reforçar duas ideias do senso comum, interligadas, que persistem há séculos e estão na base da violência sexual.

A primeira delas é que a culpada é a vítima. Seja porque usou “roupas sensuais”, seja porque “se expôs” a uma situação potencialmente perigosa. Nesse caso, apenas por existir. Por ser mulher, precisa ser colocada num “vagão especial”. Sua condição, em si, despertaria sentimentos incontroláveis em alguns homens. Então, nada de ficar perto desses espécimes ou eles não poderão resistir e cometerão a violência. Como se esses homens não fossem responsáveis pelos seus atos, como se fossem incapazes de se controlar, como se fossem animais, eliminando a cultura da equação e deixando restar uma ideia tacanha de natureza.

No conceito do “vagão rosa” as mulheres são colocadas na posição de objetos de desejo ou objetos de posse. E os homens são vistos como vítimas do próprio desejo, sem a necessidade de se responsabilizar por ele. Acho curioso que homens não façam protestos contra o “vagão rosa”: a ideia nele embutida sobre o que é ser um homem é ofensiva ao extremo.

Se o “vagão rosa” virar lei, o próximo passo será: se uma mulher não quis ocupar o vagão especial e foi sexualmente abusada no comum, conclui-se o de sempre: “Ela pediu. Se não quisesse ser encoxada, apalpada, estuprada teria entrado no vagão dela”.

A outra ideia fincada no imaginário de homens (e também de mulheres) é mais interessante. As mulheres é que são a ameaça. (E não aqueles que abusam de seus corpos e de suas almas.) Confina-se, cobre-se, esconde-se aquilo que nos envergonha e aquilo que nos coloca em perigo. Quando se propõe – e se aprova – um vagão especial para as mulheres, o que se está fazendo, de fato, é isolar o elemento desestabilizador. Colocar em ambiente controlado quem teria o poder de revelar, expor algo que deve continuar oculto. O segredo, nesse caso, está naquele que esconde – e não naquela que é escondida.

O “vagão rosa” é mais uma tentativa de sujeitar os corpos femininos, ao determinar que só podem ser “transportados” em sistema de segregação. Uma prova de que, ainda hoje, a imagem social das mulheres difere pouco da visão medieval em que eram compreendidas como “más e impuras”. Não custa lembrar do recente linchamento de uma mulher como “bruxa”, no mesmo estado de São Paulo. (Escrevi sobre isso aqui).

O que há de tão ameaçador nas mulheres?

A buceta, ainda ela. O desembargador Francisco Batista de Abreu, da 16ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais ajuda a explicar. Em acórdão publicado no final de junho, ele expõe uma linha de raciocínio fascinante ao justificar por que o valor de 100 mil reais de indenização, determinado pela justiça de primeira instância, deveria ser reduzido para 5 mil reais, como de fato aconteceu no julgamento em segundo grau. O caso refere-se ao que tem sido chamado de “vingança pornô”.

Um homem e uma mulher namoraram, em cidades diferentes, por cerca de um ano. Depois do término da relação, ainda conversavam e trocavam imagens íntimas pela internet. Na descrição do desembargador, as dela eram “ginecológicas”. O ex-namorado, seguindo o roteiro bocejante dos imbecis, quebrou a confiança estabelecida entre eles e tornou público o que era privado. As imagens, que eram consensuais, foram expostas de forma não consensual. Um ato sujeito à punição legal, portanto.

O desembargador Abreu concluiu, porém, que esta seria uma oportunidade para fazer um julgamento moral da vítima, expondo a profundidade do seu entendimento sobre como uma mulher deve lidar com sua vagina e com seu corpo. Depois da divulgação do caso, o processo foi colocado em “segredo de justiça”, limitando o acesso aos autos. Mas o segredo de quem, àquela altura, deveria ser protegido? Da mulher, do homem ou do desembargador?

A seguir, alguns trechos do voto do desembargador Francisco Batista de Abreu publicados na imprensa:

“Quem ousa posar daquela forma e naquelas circunstâncias tem um conceito moral diferenciado, liberal. Dela não cuida. Irrelevantes para avaliação moral as ofertas modernas, virtuais, de exibição do corpo nu. A exposição do nu em frente a uma webcam é o mesmo que estar em público.”

“As fotos em momento algum foram sensuais. As fotos em posições ginecológicas que exibem a mais absoluta intimidade da mulher não são sensuais. Fotos sensuais são exibíveis, não agridem e não assustam. Fotos sensuais são aquelas que provocam a imaginação de como são as formas femininas. Em avaliação menos amarga, mais branda podem ser eróticas. São poses que não se tiram fotos. (…) São poses para um quarto fechado, no escuro, ainda que para um namorado, mas verdadeiro. Não para um ex-namorado por um curto período de um ano. Não para ex-namorado de um namoro de ano. Não foram fotos tiradas em momento íntimo de um casal ainda que namorados. E não vale afirmar quebra de confiança. O namoro foi curto e a distância. Passageiro. Nada sério.”

É possível desenvolver uma tese de doutorado na área de psicanálise e direito a partir do voto do desembargador mineiro. Mas, atendo-se a apenas um ponto de seu raciocínio, percebe-se o que é assustador para o magistrado: “As fotos em posições ginecológicas que exibem a mais absoluta intimidade da mulher não são sensuais. Fotos sensuais são exibíveis, não agridem e não assustam (…) São poses para um quarto fechado, no escuro, ainda que para um namorado, mas verdadeiro”.

Para o desembargador, a vagina não é sensual. O que é sensual, segundo ele, não agride nem assusta. É coerente depreender dessa afirmação que a imagem da vagina não só agride o magistrado, como também o assusta. Assim, só pode ser exibida “no escuro”, de forma que não possa ser vista. E para um namorado “verdadeiro”.

Quando o voto se tornou público, lamentou-se em alguns espaços da internet a escuridão em que vive o desembargador Abreu. E até a suposta indigência de sua vida sexual. Mas não se trata de julgá-lo. Como indivíduo, seu Abreu pode até ter medo da vagina. Pode achá-la feia e assustadora. Pode preferir só vê-la no escuro ou não vê-la nunca. É possível ter compaixão por seu Abreu, mas ninguém tem o direito de julgar como seu Abreu se relaciona com a sexualidade do outro e com a sua própria. Isso diz respeito só a ele.

O problema é com o desembargador Abreu, servidor público, investido da Lei. Com a sua pretensão de determinar, como verdade única e universal, registrada nos autos, o que é sensual, o que é erótico, o que é amor “verdadeiro” e quando, como e onde uma vagina pode ser exibida. Assim como determinar que uma mulher que mostra a sua vagina não tem autoestima. O problema é que, ao assim manifestar-se, o desembargador Abreu está representando a Justiça. Seu ato tem efeito direto sobre a vida da vítima – e também sobre as vidas na sociedade brasileira.

A tal “vingança pornô”, em que imagens feitas em âmbito privado são divulgadas contra a vontade de quem é retratado, num ato de quebra de confiança, já levou ao suicídio adolescentes brasileiras que não suportaram o julgamento moral da família, amigos e sociedade. Ao manifestar-se nesses termos, o desembargador está reeditando, para um fenômeno contemporâneo, ligado às novas tecnologias, o velho “ela pediu”. E isso é inadmissível.

O relator do caso, desembargador José Marcos Rodrigues Vieira, defendeu reduzir o valor da indenização dos 100 mil reais determinados em primeira instância para 75 mil reais. Afirmou em seu voto: “Isentar o réu de responsabilidades pelo ato da autora significaria, neste contexto, punir a vítima”. Seu colega, o desembargador Abreu, porém, preferiu julgar a “moral” da vítima, acompanhado pelo terceiro desembargador, Otávio de Abreu Portes. Ao final, determinou-se que 5 mil reais seria um valor suficiente. É possível concluir que, simbolicamente, essa já não é mais uma indenização, mas um pagamento.

O “doutor” enxergaria a vítima como uma “puta”. No sentido de que a prostituta, na sociedade brasileira – e esta é outra enorme violência – é vista como aquela que não tem direito nem ao próprio corpo, nem à Lei. Isso ficou de novo muito claro em junho, quando o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo inocentou um fazendeiro preso em flagrante ao estuprar uma menina de 13 anos. A justificativa: ela seria prostituta, o que teria levado o criminoso a errar sobre a sua idade. Em resumo: com prostituta se pode tudo. O que as coloca fora do corpo e fora da Lei, de várias e complexas maneiras, com consequências sempre aterradoras.

Como afirmam organizações de prostitutas, infelizmente muito pouco escutadas, não existe prostituição envolvendo menores de idade. Com crianças e adolescentes só existe estupro e abuso sexual. Mas esse não foi o entendimento dos desembargadores paulistas. Assim como, ao reduzir em 95 mil reais a indenização devida à mulher que teve imagens do seu corpo divulgadas contra a sua vontade, o que o tribunal mineiro fez foi: não mais determinar ao réu uma indenização pelo dano causado, mas dar um valor à mulher.

É o que se compreende da justificativa contida no voto, em especial nesse ponto: “Mas, de qualquer forma, e apesar de tudo isso, essas fotos talvez não fossem para divulgação. A imagem da autora na sua forma grosseira demonstra não ter ela amor-próprio e autoestima”. À vítima, que foi quem passou a ser julgada e enquadrada como alguém que não se dá valor, é concedido um valor aviltantemente mais baixo do que aquele determinado em primeira instância como indenização pelo ato do réu.

Mas qual é o valor de uma mulher? Como diz Renata Corrêa, em um texto bonito no Biscate Social Club:

“Por essa e por outras que para uma vida livre todas as mocinhas, garotas, meninas, mulheres, cidadãs do mundo não deveriam valer nada. Eu particularmente não valho um centavinho furado. Ninguém pode me medir, me pesar, me trocar ou me comprar: não tenho preço, código de barras, cifrão ou vírgula. Quem tem o direito de dar preço para minha alma? E pro meu corpinho? Nobody, baby. Não valho nada. Não me atribuo valor algum. Não tô a venda: tô vivendo sem conta, sem mercantilismo amoroso, fraterno ou sexual. E também não tô comprando. Mas isso é outra história”.

De volta ao “vagão rosa”, que leva as mulheres a uma viagem sem movimento algum, na qual estão estacionadas no mesmo lugar, para que não exista deslocamento nem nada se altere. O “vagão rosa”, destinado ao transporte das mulheres para que não sejam encoxadas, bolinadas ou até estupradas, é o mesmo lugar simbólico destinado à vagina em visões como a do desembargador mineiro. O corpo feminino, a vagina como sua máxima potência, deve ser oculto. Se for exposto, está subentendido que as mulheres assumirão o risco – e a responsabilidade – de serem violadas, de terem seus corpos (e suas almas) destruídos.

Resta se perguntar que vagão é esse, o que exatamente ele transporta de um lado a outro e qual é o seu destino.

(Publicado no El País em 21/07/2014)

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