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Massacre anunciado na Anapu de Dorothy Stang
“Já conferi na lista, mãe. Meu nome não está lá”, garantiu Leoci Resplandes de Sousa, poucos dias antes de ter o corpo transformado numa peneira. Na maioria das cidades, poderiam ser muitas as listas. Aprovação no vestibular, contratados por alguma empresa, selecionados para algum concurso público. Mas não em Anapu, cidade do estado do Pará que entrou no mapa mental do Brasil e do mundo em 2005, quando a freira Dorothy Stang foi executada com seis tiros por defender os direitos dos mais pobres à terra e, com isso, confrontar os interesses dos grileiros (ladrões de terras públicas). Em Anapu, no Pará, 13 anos pós o assassinato da missionária, a lista ainda é a de camponeses marcados para morrer.

O pai do menino de 11 anos foi a vítima mais recente dos conflitos de terra em Anapu, no Pará, mas certamente não será o último a tombar no Brasil sem justiça LILO CLARETO (Reprodução do El País)
A tensão no Pará, lugar mais letal do mundo para defensores da terra ou do meio ambiente, tornou-se ainda mais explosiva do que na época em que a missionária foi assassinada
Leia na minha coluna no El País
Fabiana Cozza: “Eu não sou uma vítima”

A cantora Fabiana Cozza renunciou ao papel de Dona Ivone Lara FERNANDO CAVALCANTI (Reprodução do El País Brasil)
O que é ser negro? A negritude está apenas na cor da pele? A arte não é justamente o espaço onde o artista pode ser tudo e todos, para além de gêneros e cores? Qual peso a voz de Dona Ivone Lara deve ter na escolha final daquela que vai interpretá-la? E o que significa contrariar o seu desejo ao dizer que sua escolha não é a melhor? Dividir os negros num momento histórico em que os poucos direitos conquistados estão ameaçados não é uma estupidez política? Não seria fazer o jogo do poder e da branquitude, como apontaram alguns intelectuais negros?
São perguntas das quais não se deve fugir.
Por outro lado, há razão e razões no questionamento a uma negra de pele mais clara interpretar uma negra de pele mais escura. É um fato que os negros de pele mais escura têm muito mais dificuldade em ocupar qualquer espaço, qualquer posto e qualquer emprego, e não apenas os da arte. Se a arte é o território da alteridade, quando alguém já viu um grande protagonista branco ser interpretado por um preto no Brasil? Se já aconteceu, está na lista das raridades.
É evidente que esta é também uma questão política. E se é uma questão política, não seria o caso de compreender que, neste momento, de tanta desigualdade racial, é importante ter uma negra de pele mais escura interpretando uma negra de pele mais escura, como também foi dito por alguns intelectuais negros? Não seria um avanço do debate e da luta uma negra de pele mais clara ser capaz de renunciar em favor de uma bandeira política? Perder privilégios para fortalecer a causa mais ampla?
São perguntas das quais também não se deve fugir.

Dona Ivone Lara (à esquerda) e Fabiana Cozza em show de 2007 LEO GOLA DIVULGAÇÃO
Em entrevista exclusiva, a cantora fala pela primeira vez sobre a renúncia ao papel da grande dama do samba, Dona Ivone Lara, devido aos protestos por não ser tão preta quanto a personagem
Leia na minha coluna no EL PAÍS Brasil
Solo falta contárselo al Papa
Aunque los hombres de la Iglesia no lo admitan ni en el confesonario, las mujeres de la Iglesia son las que les disputan las almas a las denominaciones evangélicas pentecostales y neopentecostales, que se multiplican a una velocidad acelerada en los asentamientos de pequeños agricultores, comunidades extractivas y aldeas indígenas en la Amazonia.

Presidente Kuczynski participa do encontro do papa Francisco com os povos da Amazônia em Puerto Maldonado. Andres Valle/Fotos Públicas/19/01/2018