Como medimos nossa vida?

A lei antifumo de José Serra, que vai proibir o cigarro em quase todos os ambientes fechados do estado de São Paulo, me faz pensar na medida da vida. O cigarro faz mal, causa câncer e outras doenças, o tratamento custa dinheiro público do SUS, sem contar o inventário de mortes. Bani-lo dos bares e restaurantes, dos locais de trabalho, de quase tudo menos a casa do fumante (por enquanto), em tese é pensar na defesa da vida. É também estar adequado a esses tempos em que a saúde tornou-se um valor absoluto para uma espécie que lida de forma cada vez pior com a certeza da morte.

A questão que a lei evoca em mim, porém, é outra. É a da vida condenada não pela doença, mas pela saúde. A cada manhã, fingimos que nunca vamos morrer. Queremos esticar a vida a qualquer preço – e não apenas a vida, mas a juventude. Envelhecer e morrer nos aterroriza. As cirurgias plásticas, os cosméticos, as vitaminas, os medicamentos ortomoleculares, os alimentos orgânicos, os lights e os diets, as academias movimentam uma gigantesca indústria alimentada pelo nosso medo da decadência e do fim. Crescem e multiplicam-se pela força de nossa ilusão de que a velhice e a morte podem ser burladas.

Um número cada vez maior de pessoas consome seus dias numa rotina de cuidados para preservar saúde e juventude. Exercícios e pílulas. Cremes e vitaminas. Alimentos orgânicos. Carnes margas. Nada de fritura. Mais exercícios. Cigarro, jamais. Álcool, cada vez menos. Ovos, consulte a pesquisa do momento. Gorduras trans, fuja.

Tomamos todos os cuidados, olhando para os lados para nos assegurar que o fim não nos espreita. Sempre com medo de que a doença, a decrepitude e a morte nos descubra distraídos em alguma esquina de prazer roubado. Quando transgredimos, nos sentimos culpados, algo catastrófico vai nos acontecer. Seremos punidos pela nossa ousadia de nos entupir de chocolate ou nos exceder no bar. Corremos para o espelho para ver quantas gramas aumentamos ou se não surgiu uma ruga nova. Estamos mais velhos? Estamos mais mortos? – é o que perguntamos o tempo todo, mesmo que não pronunciemos a palavra fatal.

Mas será que temos de não viver para viver? Ou melhor: qual é a medida da vida?

Há pouco tempo, revi o filme sobre a trajetória do Cazuza – Cazuza, o tempo não pára (2004.) Herói dos anos 80, Cazuza contraria todos os valores de uma vida plena de saúde física. Nada mais distante de Cazuza do que essa cidadania cheia de proibições. Aquele que talvez tenha sido, como disse Caetano Veloso, o maior poeta de sua geração, morreu jovem, de Aids, ao fim de uma vida de muito sexo, álcool, drogas, amores e poesia. Mas não foi essa morte precoce que me impactou. E sim a intensidade de sua vida. É a vida de Cazuza – e não a morte – que evoca perguntas e inquietação.

Fiquei pensando sobre o que esse anti-herói teria a nos dizer nesses tempos obstinados pela saúde. Percebi que, com sua vida intensamente vivida, Cazuza questiona um valor que nos é muito caro: a duração da vida. Não é por acaso que diante de uma doença sem chances de cura as pessoas tentam esticar a vida a qualquer preço, submetendo-se a todo tipo de tratamento invasivo, doloroso e alienante. Submetem-se à imagem clássica do doente furado por agulhas, amarrado a tubos, privado de sua própria morte, por consequência privado de sua vida na última cena.

Esse é só o desfecho, na morte, de um valor que regeu a vida inteira daquela pessoa. Esticamos o comprimento da vida pela vida toda – e não apenas na doença. Não é essa a questão do momento? Proibir o fumo não é um pouco isso? Eliminar as gorduras trans não é um pouco isso? Evitar qualquer excesso não é um pouco isso?

Diante de nossa vida longa, Cazuza nos confronta com sua vida breve. O que Cazuza faz, ao nos confrontar com sua poesia contundente também na literalidade dos dias vividos, é propor um outro valor para medir a vida: não mais o comprimento da vida, mas a largura. Quando assisto ao filme de sua vida, o que vejo não é uma vida desperdiçada, mas uma vida sem um segundo desperdiçado.

Cazuza aponta seu dedo atrevido para a nossa vida condenada não pela doença, mas pela saúde. Para a nossa vida que não bebe, não fuma, corre quilômetros numa esteira sem chegar a lugar algum, não come feijoada nem churrasco por causa do colesterol, dorme pouco e trabalha a maior parte do tempo em que está acordado para poder comprar todos aqueles artigos de consumo que supostamente vão tapar o buraco existencial deixado por essa vida sem vida.

A vida que nossa sociedade propõe como um valor é uma vida com saúde. E com uma compreensão do que é saúde determinada por contingências históricas – e mercadológicas. Mas pagamos caro por essa vida que nos prometem longa. Talvez seja uma longa vida sem vida mesmo antes da doença e da morte. E aí, sim, diante da doença e da morte é preciso, de novo, espichar a vida a qualquer preço porque não fomos capazes de alargar a vida quando tínhamos saúde.

E com isso não estou defendendo que tenhamos todos de nos matar de overdose numa grande orgia sexual. Muito menos fumar até aparecer um câncer no pulmão. O conceito de intensidade só pode ser dado por cada um de nós. Como vivemos nossa vida – ou nossa morte – é livre arbítrio. Apenas, talvez, podemos parar para pensar com qual medida queremos viver a nossa vida desde já. O comprimento ou a largura?

(Publicado na Revista Época em 20/04/2009)

Em Porto Velho, não diga que o rei está nu!

Estive em Porto Velho, Rondônia, no final de março. No norte do país, o estado se prepara para a construção de duas controvertidas usinas no Rio Madeira, Santo Antonio e Jirau, obras que são vitrines do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, e já mereceram visita recente do presidente Lula. Funcionários especializados das empresas dos consórcios responsáveis pela implantação das usinas estão chegando com suas famílias para se instalar na capital pelos próximos anos.

Como sempre que viajo, por curiosidade pessoal e por obrigação profissional, gosto de ouvir as pessoas nas ruas. Em Porto Velho, as reclamações eram muitas. Os que estão chegando, pelas dificuldades que encontram. Os que estão lá, porque as dificuldades que já existiam multiplicaram-se com a chegada de mais gente. No domingo em que me despedi da cidade, a manchete de um dos jornais da capital era: “Médicos ameaçados de morte nos postos de saúde da capital”. A causa: demora no atendimento.

As razões que me levaram a Rondônia eram outras e nada tinham a ver com a precária infra-estrutura de Porto Velho. Mas, para um jornalista, deixar de contar uma história é deixar de cumprir seu dever. Decidi fazer uma matéria para este site, com foco no cenário encontrado pelos recém-chegados. Antes, como agora, o interesse jornalístico era óbvio.

Na matéria, eu mostrava que Porto Velho tinha problemas sérios de atendimento nas áreas da saúde, educação e saneamento básico. E um pouco mais: carência de espaços públicos, como praças e parques, ruas e calçadas esburacadas e acúmulo de lixo. Quem chegava, encontrava ainda aluguéis triplicados. Quem já estava lá, tinha dificuldade de renovar seus aluguéis porque as imobiliárias apostavam no poder aquisitivo dos novos moradores.

Essa era a história. Por contá-la, fui transformada numa espécie de inimiga pública de Rondônia. Como foi afirmado num artigo, em um site, “Nunca na história deste Estado tantos em tão pouco tempo se levantaram para atacar uma mesma pessoa, a anti-heroína Eliane Brum”. Uma das pessoas entrevistadas por mim, com nome e sobrenome na matéria, foi caluniada e perseguida. Um dos caluniadores descobriu suas fotos no Orkut e estimulou, ainda, uma campanha contra ela pela internet. Comentários feitos nesse site – e em outros – referiram-se a mim e a meus entrevistados com palavrões e ofensas de todo o gênero, passíveis de serem enquadrados como crime no Código Penal. Para não violar a lei, eles não serão reproduzidos aqui.

No início, fiquei chocada e sem entender. Afinal, sou jornalista há mais de 20 anos e já fiz centenas de matérias denunciando problemas de saúde, educação e saneamento básico, sem que jamais alguém estranhasse o fato de estar fazendo meu trabalho. Respirei fundo e passei a desconstruir as críticas, com a convicção de que deveria aproveitar a oportunidade para aprender mais sobre Rondônia.

Denunciar problemas é uma das mais importantes obrigações da imprensa em qualquer país do mundo. Apenas governos de países totalitários se notabilizam por atacar jornalistas que mostram os fatos como os fatos são. Em nenhuma das reações à matéria – de parte dos políticos, empresários e população –, alguém afirmava que os problemas mencionados na matéria não existiam. As informações estavam corretas. O suposto crime ao qual me condenavam era o fato de divulgá-las no site de uma revista nacional.

Cheguei então a uma curiosa conclusão: fui caluniada publicamente por ter ousado dizer que em Porto Velho há problemas. Ou seja: para parte da população e dos dirigentes, o que revolta não são os problemas, mas dizer que eles existem. Ou seja: basta apedrejar quem denuncia os problemas que os médicos vão se multiplicar, as vagas na escola vão aparecer e os buracos desaparecer.

A próxima pergunta era óbvia: por que as pessoas que se unem para me difamar não se unem para reivindicar a melhoria das condições de vida em Porto Velho? Por que não usam essa indignação para exigir cidadania e cumprimento das promessas de campanha? Não sei. Bom para os responsáveis que os eleitores se enfureçam não com os problemas, mas com quem diz que os problemas existem.

Onde eu já vi isso? Um inimigo comum sempre foi muito útil para tirar o foco das mazelas reais. A História é pródiga em exemplos, no Brasil e fora dele, no passado e no presente. O truque é velho, o surpreendente é que alguém ainda caia nele. Melhor, claro, se o suposto inimigo vem do Exterior. Sim, porque foi isso que eu também descobri. Em Rondônia, eu sou uma estrangeira. Eu e meus entrevistados que lá chegavam. Nós todos, que não gostamos de buracos nas ruas, assistência ruim e desmatamento, deveríamos voltar para o lugar de onde viemos, o Brasil. Como “estrangeiros”, não temos direito de apontar mazelas.

Alguns ressuscitaram jargões da ditadura, período histórico, aliás, em que Rondônia multiplicou muitas vezes a sua população por estímulo do governo federal e de sua desastrada ocupação da Amazônia. Foram adaptados os mantras, algo como “Rondônia, ame-a ou deixe-a”. Eu, claro, não a amava. Nem os recém-chegados que ousavam criticá-la. Mais uma conclusão: para amar uma cidade é preciso ser cego. Deixe seus olhos e seu senso crítico na divisa. Ou seria fronteira?

Então entendi. Eu deveria ter escrito uma fábula sobre as maravilhas da cidade de Porto Velho. Me enganei de conto. Acabei protagonizando uma versão rondoniense de “A roupa nova do rei” e virei aquele menino que ousa dizer que o rei esta nu. Alguém esqueceu do fim da história. No meu livro, o menino não era atacado por dizer a verdade. Era o rei que ficava envergonhado ao ver que todos enxergavam sua nudez.

O problema é que eu amo Rondônia. Amo tanto que acho que Porto Velho merece ser uma cidade melhor do que é. E ouso achar isso porque sou brasileira e aquele estado me pertence tanto quanto a qualquer um. Acabo de voltar de uma viagem pelas capitais amazônicas. E, se todas têm problemas, nenhuma é tão carente de infra-estrutura e de espaços públicos quanto Porto Velho. E isso não acontece porque é uma cidade nova, porque outras o são na Amazônia.

Fazer de Porto Velho um lugar melhor para viver é tarefa de todos nós. E minha melhor colaboração é fazer bem meu trabalho de jornalista. Por isso, passada a decepção causada pela virulência das ofensas, não vejo a hora de voltar a Porto Velho e me debruçar sobre outros graves problemas da cidade e do Estado. É uma pena que jornalistas de todo o país não viajem mais seguido a Rondônia para exercer o ofício de registrar a história cotidiana do Brasil.

Devo desculpas, sim, a uma de minhas entrevistadas e à sua família. Ao contar suas dificuldades de adaptação a Porto Velho na matéria, eles foram vítimas de uma violenta reação por parte da população. Conversamos por cerca de uma hora, por telefone, dias depois dos ataques pela internet. Eles também estavam revoltados comigo. Era eu a culpada. Qual era o problema? Eles tinham dado a entrevista, as informações estavam corretas, mas, ao citar seu nome e sobrenome na matéria, foram crucificados. Se já estava difícil se adaptar à cidade, pior ficou com parte da população mandando que, se não estivessem gostando, que voltassem para casa. Como se não tivessem tanto direito quanto qualquer um de estar ali e de falar sobre as dificuldades que enfrentavam.

Eles têm razão. Eu não deveria ter divulgado o nome deles na matéria. Costumo dar palestras e oficinas sobre Jornalismo e um dos tópicos que abordo é a proteção das fontes. Nós, jornalistas, temos o dever de saber o que pode acontecer com nossos entrevistados quando as matérias são publicadas. E esse é um cuidado que eu sempre tomo no exercício da profissão. Nunca imaginei, porém, que alguém pudesse ser perseguido por dizer que encontrou problemas numa capital. Aprendi. Em Rondônia, só podemos divulgar os nomes dos entrevistados se eles afirmarem, como os bajuladores da fábula, que o rei está vestindo o mais belo traje do mundo, de preferência tecido com ouro e prata.

Já eu, como jornalista, sigo cumprindo meu dever: o rei está, sim, nu. Porto Velho tem problemas. E eles são graves. Como cidadã, espero que a parte mais lúcida da população, que também se manifestou, continue reivindicando uma cidade melhor para viver. Como jornalista, vou seguir fazendo a minha parte.

(Publicado na Revista Época em 13/04/2009)

Caso Sean: o clamor do sangue

O que faz de alguém um pai?

Eu não sei se o garoto Sean Bianchi Goldman deve ficar com o pai biológico, David, ou com o padrasto, João. Resolvi, então, pedir licença para expor não minhas certezas, mas minhas dúvidas. Peço desculpas aos leitores que esperam uma sentença, mas não tenho nenhuma. O que tenho são muitas perguntas. E a maior delas é sobre o que faz de alguém um pai.

Me assusta esse clima de jogo de futebol – hoje competindo com os gols do Ronaldo no Corinthians – em torno do destino de uma criança de nove anos. E me surpreende como parece fácil para quase todos julgar o futuro de alguém, apenas com base no que leu, viu ou ouviu na imprensa. Me impressiona como quase todos têm certeza do que é melhor para uma criança que nunca conheceram. E me incomoda essa facilidade de se tornar juiz e dar sentenças incontestáveis sobre o destino de pessoas.

O que me chama mais atenção, porém, é que a maioria dos argumentos em favor da “certeza” de que o menino deve ficar com o pai biológico podem ser resumidos por uma espécie de “clamor do sangue”. David teria mais direito do que João porque é pai. E é pai porque tem o mesmo sangue.

Volto então à pergunta central que proponho aos leitores. O que faz de alguém um pai? A mim, não parece que a resposta seja – apenas – o sangue.

David é um bom pai porque quer a guarda do filho? Ou David é um mau pai porque teria ficado quatro anos sem ver o menino por conselho de advogados espertos? David é um bom pai porque diz que ama o filho em programas de TV de grande audiência? Ou David é um um mau pai porque exporia comercialmente o filho de todas as formas, de chaveiros a camisetas?

Sua ex-mulher, Bruna, sequestrou o menino e o carregou para longe de um pai amoroso? Ou fugiu, com seu filho, para o país e a família onde se sentia segura, de um homem que quebrava armários com os punhos? João, o padrasto, é um bom pai? Ou tem interesses escusos para ficar com o filho da mulher que perdeu? Como será para Sean mudar de língua, de país e de família depois de tantos anos? Ou como será ficar?

Não sei. Mas me espanta constatar que todos parecem saber. E não só saber, como ter certeza.

O argumento totalitário do sangue, esgrimado em todos os fóruns como prova incontestável de paternidade, pode ser muito perverso. Já fiz reportagens sobre crianças abusadas, por violação sexual e espancamentos, e ouvi mais de uma vez, de mães e familiares: “Ele machuca, é violento, mas é seu pai. E pai é pai”. Como se “o sangue” desse a esse homem um poder de vida e morte sobre seu filho. Como se o sangue – esse clamor atávico – fosse tudo o que devemos levar em conta para decidir qual é a melhor escolha para uma criança.

David pode ser um ótimo pai, embora alguns sinais possam nos fazer suspeitar de que não. Assim como João pode ser um ótimo pai. O fato de que a família de João tem dinheiro não o transforma imediatamente em carrasco. E o fato de David não ter dinheiro não o converte em vítima. A vida é um pouco mais complexa que isso. E esse é um caso difícil. Qual é a melhor resposta para o menino?

Não sei. Mas eu, que estou longe de achar a Justiça brasileira um modelo de eficiência, espero que os juízes de fato e de direito exerçam sua espinhosa tarefa com mais dúvidas e menos pressa do que aqueles que berram sentenças definitivas tanto aqui como nos Estados Unidos. E que a sentença definitiva seja a melhor possível para Sean, já tão violado no direito de não ter sua vida transformada em polêmica internacional.

Nesse tema, só tenho uma certeza. Compartilhar o “mesmo sangue” comprova apenas quem era o dono do espermatozóide que gerou aquela criança. Mas não faz de alguém um pai, no sentido mais amplo e complexo do conceito moderno de paternidade.

O que faz de alguém um pai é uma boa pergunta para transformar essa polêmica em algo que nos ajude a ser melhores do que somos. Qual é o melhor pai para Sean Bianchi Goldman é tarefa da Justiça responder. Com todos os defeitos que a Justiça possa ter, a sociedade democrática ainda não encontrou um instrumento melhor para julgar destinos em suspenso.

Por fim, a todos que se apressam a virar juízes, sugiro exercitar o instrumento da dúvida. São as perguntas que nos mostram os caminhos – não as certezas. E cuidado. Um dia vocês também poderão ter seu destino decretado com essa mesma facilidade por pessoas tão sensatas como vocês.

(Publicado na Revista Época em 12/03/2009)

 

Sérgio Vaz, o poeta que agita vida cultural da periferia de São Paulo

Ele é invocado, teimoso e original. Conheça o escritor que criou a Cooperifa, fenômeno que tem levado intelectuais e classe média à periferia

COLECIONADOR DE PEDRAS O poeta Sérgio Vaz tornou-se uma das vozes mais originais da periferia. Na foto, ele posa numa das “quebradas” da Zona Sul de São Paulo

COLECIONADOR DE PEDRAS
O poeta Sérgio Vaz tornou-se uma das vozes mais originais da periferia. Na foto, ele posa numa das “quebradas” da Zona Sul de São Paulo

O poeta Sérgio Vaz sofre de insônia. Por volta de 1 hora da madrugada, ele se aconchega à mulher, Sônia, e até dorme. Três horas depois, acorda com o coração em batida de rap no peito e as ideias falando alto, todas ao mesmo tempo na cabeça. Tem os olhos arregalados, as mãos não param quietas nem ele deitado. Ninguém, com exceção de Sônia, tem vontade de curar a vigília forçada de Sérgio Vaz. Por uma razão egoísta. A insônia desse homem entroncado, de personalidade marrenta e traços que parecem esculpidos por Mestre Vitalino – o célebre ceramista de Caruaru – tem despertado um Brasil que dorme mesmo quando acordado.

O dia começa pontualmente antes da hora na casa típica da periferia paulista, nos arredores de Taboão da Serra. Um portãozinho lá na frente e uma tripa de casas unidas por um corredor. A dele, onde vive com a mulher e a filha Mariana, de 16 anos, é a última. Na parede externa, Vaz mandou pintar uma praia com coqueiros no concreto para que pudesse pegar um sol nos churrascos de domingo. Com sua ironia afiada a cada madrugada, por uma mistura de amor e raiva, é na praia que ele recebe as visitas.

Quando acorda de supetão, antes de todos, mas com a sensação de estar atrasado para a aventura do mundo, Sérgio Vaz não come nada. Só engole um café com leite para não correr o risco de perder a insônia. Ele não come porque, a cada manhã, aos bocados e com todos os dentes, mastiga o biscoito fino do poeta modernista Oswald de Andrade (1890-1954). Como diz o historiador Eleilson Leite, um dos maiores conhecedores da cultura de periferia, Vaz faz ainda um pouco mais do que o escritor antropofágico sonhou: ele próprio se tornou “o biscoito fino que veio da massa”.

“As pedras não falam, mas quebram vidraças”
SÉRGIO VAZ, poeta da periferia

O mais recente produto da falta de sono de Sérgio Vaz estreou na úlitma segunda-feira: o “Cinema na Laje”. Tempos atrás ele acordara com esta inquietação: “Por que na periferia não tem cinema?”. E, já no sofá da sala, concluiu: “Se não nos deram cinema, vamos criar um. De graça”. Na estreia, reuniu mais de cem pessoas, algumas num cinema pela primeira vez aos 42 anos de vida, como a faxineira Rosilda de Souza. O público comia pipoca, mas também algo um pouco mais substancioso: jabá com mandioca, costela de porco com angu. A caráter, paramentado de vermelho e dourado, o pedreiro Piauí virou lanterninha. Ali, eram todos ao mesmo tempo plateia e protagonistas. O filme de estreia era um documentário sobre a Cooperifa, o produto mais espetacular da insônia de Sérgio Vaz. Ou, como ele diz: “O filme de ação mais romântico da breve história da nossa humanidade comunitária”.

Dizer que Sérgio Vaz criou o maior sarau de poesias do Brasil não dimensiona o significado da Cooperifa. A cada quarta-feira, nos últimos sete anos, centenas de pessoas vindas de todos os cantos da periferia paulista recitam e ouvem poesia num boteco de quebrada. Office boys, taxistas, funileiros, sorveteiros, empregadas domésticas, eles pegam o microfone e tomam conta da literatura, que nunca tinha sido deles até então. “Trabalho a vida toda com poesia e nunca vi uma plateia reagir assim”, diz a crítica literária Heloisa Buarque de Hollanda. “Sérgio Vaz e a Cooperifa democratizaram o uso da palavra, numa operação política brilhante.”

Vaz começou tomando uma fábrica interditada, em 2001, para fazer uma mostra cultural. Depois, vagou por muitos botecos, até instalar-se no bar do Zé Batidão, na Piraporinha, Zona Sul de São Paulo. O bar é passado e futuro para Vaz. Foi lá que ele trabalhou dos 12 aos 22 anos, no balcão, quando o dono era o pai. Um patrão implacável, mas também grande leitor, o pai ao mesmo tempo oprimiu e inspirou. Enquanto os meninos perseguiam na várzea o sonho que também era dele, Vaz escrevia furiosamente em papel de pão. Ao conhecer mais personagens reais do que qualquer escritor sonharia, o palmeirense acabou virando poeta. “Eu queria estar jogando futebol. Para me libertar, lia e escrevia muito”, diz. “Com Os miseráveis, de Victor Hugo, descobri que não existia só a miséria material, mas a humana, a que atinge todas as classes sociais. Foi uma grande descoberta.”

Quando o sarau de poesias ficou sem lugar, Vaz procurou o novo dono de sua antiga “senzala”. Zé Batidão é um mineiro com olhos que tudo veem, fala mansa. Quando alguém acha que o Zé está indo, ele já foi e voltou meia dúzia de vezes. Tornou-se “o mecenas da Cooperifa”. Até biblioteca criou, entrincheirada dentro do bar. Sobre a estante, os troféus de seu time, o Sete Velas Caveirão, ofuscam os clássicos.

De volta ao cenário da adolescência, Vaz inventou um “quilombo moderno”. Não só libertou a si mesmo, como arrancou os grilhões históricos que impediam a periferia de alcançar a palavra escrita. “A periferia não tem museu, não tem teatro, não tem cinema. Mas tem boteco”, diz. “Então transformamos o bar do Zé Batidão em centro cultural.”

(Publicado na Revista Época em 06/03/2009)

Os novos antropófagos

Artistas da periferia de São Paulo lançam sua própria Semana de Arte Moderna

Eliane Brum (texto) e Frederic Jean (fotos)

Manifesto da Antropofagia Periférica

A Periferia nos une pelo amor, pela dor e pela cor. Dos becos e vielas há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune. Eis que surge das ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado. A favor de um futuro limpo, para todos os brasileiros.
A favor de um subúrbio que clama por arte e cultura, e universidade para a diversidade. Agogôs e tamborins acompanhados de violinos, só depois da aula.
Contra a arte patrocinada pelos que corrompem a liberdade de opção. Contra a arte fabricada para destruir o senso crítico, a emoção e a sensibilidade que nasce da múltipla escolha.
A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.
A favor do batuque da cozinha que nasce na cozinha e sinhá não quer. Da poesia periférica que brota na porta do bar.
Do teatro que não vem do “ter ou não ter…”. Do cinema real que transmite ilusão.
Das Artes Plásticas, que, de concreto, querem substituir os barracos de madeira.
Da Dança que desafoga no lago dos cisnes.
Da Música que não embala os adormecidos.
Da Literatura das ruas despertando nas calçadas.
A Periferia unida, no centro de todas as coisas.
Contra o racismo, a intolerância e as injustiças sociais das quais a arte vigente não fala.
Contra o artista surdo-mudo e a letra que não fala.
É preciso sugar da arte um novo tipo de artista: o artista-cidadão. Aquele que na sua arte não revoluciona o mundo, mas também não compactua com a mediocridade que imbeciliza um povo desprovido de oportunidades. Um artista a serviço da comunidade, do país. Que, armado da verdade, por si só exercita a revolução.
Contra a arte domingueira que defeca em nossa sala e nos hipnotiza no colo da poltrona.
Contra a barbárie que é a falta de bibliotecas, cinemas, museus, teatros e espaços para o acesso à produção cultural.
Contra reis e rainhas do castelo globalizado e quadril avantajado.
Contra o capital que ignora o interior a favor do exterior. Miami pra eles? “Me ame pra nós!”.
Contra os carrascos e as vítimas do sistema.
Contra os covardes e eruditos de aquário.
Contra o artista serviçal escravo da vaidade.
Contra os vampiros das verbas públicas e arte privada.
A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.
Por uma Periferia que nos une pelo amor, pela dor e pela cor.

É TUDO NOSSO!
Sérgio Vaz
Poeta da Periferia

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ARTISTAS DE DOIS MUNDOS Na foto, Sérgio Vaz e a comissão organizadora da Semana de Arte Moderna da Periferia, no boteco do Zé Batidão, na zona sul de São Paulo.

ARTISTAS DE DOIS MUNDOS
Na foto, Sérgio Vaz e a comissão organizadora da Semana de Arte Moderna da Periferia, no boteco do Zé Batidão, na zona sul de São Paulo.

O escritor Oswald de Andrade, um dos líderes da Semana de Arte Moderna de 1922, fez uma profecia: “a massa ainda comerá do biscoito fino que fabrico”. Morreu sem vê-la realizada. Oitenta e cinco anos depois do marco do movimento modernista, Sérgio Vaz, poeta da periferia de São Paulo, pretende comer o biscoito fino, o próprio Oswald, o Bispo Sardinha, a “elite que viaja para Miami” e mais alguma coisa. E depois, diz ele, “vomitar”. Líder da Cooperifa, o maior sarau de poesia do Brasil, Vaz é o idealizador da Semana de Arte Moderna da Periferia, a Semana de 2007. De 4 a 11 de novembro, os artistas querem “provocar” o centro onde o destino do país é forjado – e onde também se determina o que é arte. Se fosse vivo, o modernista Oswald possivelmente teria um sorriso nos lábios ao ser devorado pelos antropófagos das margens de São Paulo.

A força da Semana de 2007 vem da primeira geração de escritores da periferia, forjada à margem da escola, na legião dos sem-museu, sem-cinema, sem-teatro, sem-biblioteca. Pela primeira vez, o Brasil tem não um, nem dois autores, mas um movimento literário nascido nas margens. Seus protagonistas se identificam pela origem, marcam essa diferença e buscam uma estética fundada nessa raiz. Eles se apropriaram de um código da elite – a palavra escrita – e começaram a escrever sua versão da História. Agora, preparam-se para sacudir o marasmo cultural de um país que viu muito pouco de original desde o tropicalismo dos anos 60.

“Antes eram os intelectuais que escreviam sobre a periferia. Hoje, alguns dizem que não sabemos escrever. Estamos chegando agora pra aprender, depois de 500 anos”, diz Sérgio Vaz, de 43 anos. “A arte sempre foi o pão do privilégio. Agora é servida no café-da-manhã da periferia. Com menos manteiga, talvez, mas arte. Nossa literatura tem menos esses, menos crases, mas é literatura. Agora que escrevemos sobre nós, o que os intelectuais vão fazer? Que comam brioches!”

quem e quem

1) Sérgio Vaz, 2) Jairo, 3) Sales, 4) Gunnar, 5) Wéley Noog, 6) Ademir, 7) Cocão, 8) Ana Bela, 9) Marcelo, 10) Mavortirc, 11) Juliana, 12) Robson Canto, 13) Casulo, 14) Preto Will, 15) Ricarda, 16) Rose Dorea, 17) Tadeu, 18) Euller, 19) Roberto, 20) Jair Guilherme, 21) Wagner Felipe, 22) Marcio Batista, 23) Lerói, 24) Anderson, 25) Vicente

Mais uma provocação. O antropófago da periferia vive na última de uma tripa de casas nos arredores de Taboão da Serra, na Grande São Paulo. Deixou uma carreira de auxiliar de escritório para ser poeta no Brasil. Vendeu 5 mil livros de poesia sem editora e sem livraria, de mão em mão. Só o quinto – Colecionador de Pedras (Global) – chegou ao mercado. Em 2001, Vaz criou a Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa) ao ocupar uma fábrica abandonada para fazer um evento de arte. Já estava tentado pela Semana de 1922.

O sarau da Cooperifa passou de bar em bar até achar seu lugar no boteco do Zé Batidão, na zona sul de São Paulo. “Na periferia não tem museu, tem boteco”, diz Vaz. “Então transformamos o Zé Batidão em centro cultural.” Toda quarta-feira, três centenas de cidadãos periféricos ali desembarcam depois de um dia de trabalho duro para fazer e ouvir poesia. “Povo lindo! Povo inteligente! É tudo nosso!”, diz Vaz, abrindo a noite. E o boteco vem abaixo, a multidão se espalha pelas ruas. É tudo deles, sim.

A Semana de 2007 começou a nascer nessa esquina, pelas mãos ásperas de poetas sem berço. Seu primeiro ato será uma caminhada dos artistas pela periferia. Nada vai acontecer no centro. Quem quiser conhecer o que se passa nas bordas de São Paulo terá de inverter o tráfego. Os grupos Manicômicos (teatro), Arte na Periferia (cinema), Espírito de Zumbi e Umoja (dança) são alguns dos autoproclamados “focos de resistência” que tentam fincar sua estética em ruas onde antes só corria esgoto. “Escolhemos um símbolo da elite paulistana pra provocar. Vamos à casa grande mexer com eles”, diz Vaz. “Que seja o estopim.”

Imagem dos organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, no Hotel Terminus, no centro de São Paulo

Imagem dos organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, no Hotel Terminus, no centro de São Paulo

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RAIZ FORTE

O hip-hop está na raiz dessa árvore antropofágica. O movimento praticamente inventou a identidade periférica. Especialmente seu símbolo maior: os Racionais MCs e seu líder, Mano Brown. Capazes de vender milhões de CDs sem precisar nem de gravadoras nem de imprensa, eles provaram que é possível viver, fazer sucesso e sustentar a família fora do mercado. E sem sair da periferia.

Desde o fim dos anos 80, os “manos” e as “minas” passaram a proclamar: “Eu sou da periferia. Vocês são do centro, playboys”. Comportamento oposto ao dos pais, migrantes nordestinos que, de cabeça baixa, mentiam o endereço. O hip-hop dançou break sobre o mito da democracia racial. Agora havia “nós” – e havia “eles”. As diferenças – explícitas no cotidiano, mas não pronunciadas – estavam colocadas. E por quem, havia pouco tempo, só tinha voz quando cantava samba. Foi também a primeira vez que os ídolos não se mudaram da periferia como sempre fizeram os astros de futebol na primeira oportunidade.

O hip-hop mantém parte de sua força. Mas, neste início de milênio, uma figura nova assumiu a vanguarda: o escritor. Em 1960, uma negra semi-analfabeta chamada Carolina Maria de Jesus assombrou o Brasil – e o mundo. Ao fazer uma reportagem numa favela do Canindé, na beira do Rio Tietê, em São Paulo, o jornalista Audálio Dantas descobriu Carolina e “uns 20 cadernos encardidos em seu barraco”. Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada vendeu 10 mil exemplares numa semana. Foi traduzido para 13 idiomas. Carolina só teve dois anos de estudo formal. Tornou-se a primeira favelada publicada no Brasil.

Na virada do milênio, três novos escritores mostraram que algo diferente acontecia nas margens das capitais brasileiras: o carioca Paulo Lins, com Cidade de Deus (Companhia das Letras), em 1997, e os paulistanos Ferréz, com Capão Pecado (Labortexto, reeditado pela Objetiva), de 2000, e Luiz Alberto Mendes, que descobriu a literatura durante mais de 30 anos de cárcere, com Memórias de um Sobrevivente (Companhia das Letras), de 2001.

A partir de 2000, Ferréz e a revista Caros Amigos organizaram três edições especiais com a produção de 30 escritores das periferias do Brasil, sob o título Literatura Marginal. Em 2005, uma coletânea do material virou livro. O escritor não era mais caso isolado, mas fenômeno coletivo. Na apresentação, Ferréz escreveu: “Cala a boca uma p…, agora a gente fala, agora a gente canta, e na moral agora a gente escreve. Quem inventou o barato não separou entre literatura boa/feita com caneta de ouro e literatura ruim/escrita com carvão (…). Não somos o retrato, pelo contrário, mudamos o foco e tiramos nós mesmos a nossa