A vingança de Rogério Pereira

Ou como fazer um jornal literário com um barril

Inventamos uma vida para preencher um buraco. E seguimos vivendo porque nunca conseguimos cobri-lo por completo. Algo sempre nos falta. E esta falta nos move pelo tempo, nos impele a criar um enredo que faça sentido. No caso de Rogério Pereira foi um barril.

Zulma, a mãe de Rogério, não pôde estudar. Como a maioria das crianças pobres da sua infância no interior de Santa Catarina, ela trabalhava na roça. Quando se rebelava, e às vezes acontecia, a avó a enfiava dentro de um barril e sentava-se sobre ele. Zulma ficava lá, confinada até que a vontade de brincar passasse. Por cima dela, o corpo da avó e toda uma tradição de gente parida só para a enxada.

Esta história contada por uma mãe que escreve pouco além do nome e jamais leu um livro talvez seja a mais importante da vida de Rogério. Assombrado pelo barril, ele acreditou que só escaparia desta sina se fosse capaz de preencher o vazio com palavras. Se o barril estivesse repleto de histórias, não haveria espaço para a escuridão – nem para crianças na escuridão. É por isso que, quando lhe perguntam por que criou um jornal literário num país onde ainda tão poucos leem, Rogério responde que é a sua vingança contra o barril. Agora, o barril é fábula. Como fábula é possível conviver com ele.

O Rascunho, jornal literário criado por Rogério Pereira, completou uma década de persistência. Baseado em Curitiba, tornou-se “o” jornal literário do Brasil. Nele há espaço para autores de todos os cantos do país, há espaço mesmo para quem está fora do mercado e longe da consagração. Tem assinantes mesmo em cidades pequenas como Pau dos Ferros, no Rio Grande do Norte, Bom Despacho, em Minas Gerais, ou Parobé, no Rio Grande do Sul. O Rascunho resiste pela colaboração não remunerada de dezenas de pessoas, escritores, tradutores e jornalistas, que também têm lá seus próprios barris, prontos para encaçapá-los numa esquina em caso de distração.

O jornal é moldado, porém, à imagem turrona de Rogério Pereira. E chega aos dez anos porque ele é teimoso. Bem teimoso. Às vezes até difícil. Para alguns, “sincero demais”. Fazendo dívida ano após ano, ele vai terminar este com um rombo de R$ 90 mil. Rogério vai empurrando, pagando velhos empréstimos, fazendo novos. Encantado porque ele, que só entrava em banco como office-boy, hoje tem crédito. E todo mês, quando imprime os 5 mil exemplares do Rascunho, Rogério ganha do barril. Em dezembro ele botará nas ruas a edição de número 128, com 32 páginas e 40 colaboradores.

Conheci Rogério há pouco mais de um ano, em Curitiba. Desde então, espero uma chance para contar sua história aqui. Na semana passada, ele e o escritor Luís Henrique Pellanda lançaram o primeiro volume de As melhores entrevistas do Rascunho (Arquipélago), em São Paulo. O livro reúne boas e longas conversas com 15 escritores brasileiros. Foram escolhidas entre as 171 entrevistas publicadas na primeira década do jornal. Estão ali Luiz Ruffato, José Castello, Bernardo Carvalho, Milton Hatoum, Cristovão Tezza, João Ubaldo Ribeiro, entre outros. Conversas de gente que ama a literatura e é transformada (e perturbada) por ela – para gente que ama a literatura e é transformada (e perturbada) por ela.

Algumas horas antes do lançamento, eu e Rogério terminamos nossa própria boa conversa no café da Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Eu queria saber como um garoto que trabalha duro desde os 10 anos, filho de pais sem acesso à palavra escrita, criou um jornal de literatura que já faz parte da história da cultura brasileira. Queria saber como a literatura transformou Rogério Pereira. Ou como ele criou um enredo para sua existência e assim escapou do barril que mastigou sua mãe.

Ela sempre disse a Rogério: “Se eu tivesse estudado, tudo seria diferente”. Enquanto vendia flores, moldava móveis em bambu, entregava medicamentos para dentista, fazia todos os bicos que conseguia, Rogério acreditava nisso. Ele acreditava na mãe. E como todas as vidas, a dele também foi povoada de “e se”. E se a mãe não tivesse trabalhado na casa do diretor da sucursal da Gazeta Mercantil quando ele era adolescente? Se em vez disso tivesse sido empregada doméstica na casa de um dentista, de um médico, de um comerciante, que jeito ele teria encontrado? Seria ele outro?

O que importa é que, aos 14 anos, o patrão da mãe, Claudio Lachini, perguntou se ela não tinha um filho que pudesse empregar no jornal como office-boy. E Rogério se tornou o office-boy “diferente” da Gazeta. Diferente porque quando terminava o trabalho de banco, em vez de jogar fliperama como os colegas, ficava estudando na cozinha do jornal. À noite, cursava a escola pública. Os jornalistas o apoiavam, aliviavam o trabalho. Ele começou a ganhar livros, a comprar. Iniciou-se com Rubem Fonseca, Dalton Trevisan e João Antônio. Ficou no jornal por oito anos e até chegou a ser promovido a “renovador de assinaturas por telefone”. Segundo ele, o trabalho mais chato que fez na vida, ainda pior do que vender flores em dia de finados. Mais tarde, Rogério fez faculdade e se tornou jornalista. Fez ainda uma pós-graduação na Universidade Complutense de Madri.

Rogério ainda era office-boy quando o diretor do jornal lançou um livro de poesias chamado O que se viveu. Em casa, a mãe contou que havia “uma montanha de livros na casa do seu Lachini”. Rogério queria muito ler algo escrito por alguém que conhecia, “para quem pagava as contas, comprava pastel e cigarros no meio da tarde”. Rogério implorou que a mãe pegasse um emprestado. Ela, muito católica, resistiu. O amor materno acabou vencendo o medo do inferno e Zulma retirou um livro da pilha. Anos mais tarde, Rogério fez o acerto de contas. Encontrou-se com Lachini para um café num hotel chique de Curitiba. O jornalista queria entregar a ele seu primeiro romance para ser resenhado pelo Rascunho. Rogério levou o livro furtado, confessou o crime e ganhou a obra de presente, agora autografada. Algo ali se fechava.

O Rascunho começou sua história em 8 de abril de 2000, encartado no Jornal do Estado, de Curitiba. Era feito nas madrugadas e finais de semana e muitas vezes era preciso sacar dinheiro do bolso para que pudesse seguir adiante. Nestes primeiros anos, o jornal cavou uma fama de brigão, “iconoclasta e meio irresponsável”. Em suas páginas, Rogério e outros injetaram ironia e algumas vezes também crueldade, como no massacre do poeta pernambucano Sebastião Uchoa Leite. A seu favor é preciso dizer que sempre abriu o mesmo espaço para réplicas e tréplicas. Pergunto a Rogério se hoje se arrepende de episódios como este. Rogério responde: “Não me arrependo da história do Rascunho. Hoje, obviamente, o texto teria outro viés, outra forma. Mas possivelmente a mesma contundência”.

No quarto ano, a parceria com o Jornal do Estado acabou. Rogério tinha de decidir se acabava ali, como em geral acontece com a maioria dos projetos, ou se seguia adiante. Como é teimoso, turrão e às vezes difícil, seguiu. No sexto ano, tomou a decisão de abandonar a estabilidade da vida de emprego com carteira assinada para se dedicar só ao Rascunho e à literatura. Não perdia pouco, já que ganhava um salário bem razoável e tinha um lugar de reconhecimento como chefe de redação da Gazeta do Povo. É hoje um dos poucos brasileiros que vive da – e para a – literatura no Brasil.

Rogério brinca que criou uma holding. Além do Rascunho, existe o Paiol Literário, projeto que já levou 47 dos principais escritores brasileiros a Curitiba para um encontro com o público que depois é editado e publicado no jornal. Há ainda o vidabreve.com, um site com sete cronistas e sete ilustradores, uma dupla a cada dia da semana (eu e Ramon Muniz formamos a dupla da terça-feira); o Quintana Café & Restaurante, espaço dedicado à cultura e à gastronomia; e ele ainda faz curadorias de bienais e outros eventos literários pelo país afora.

O último dia do horário de verão, 20 de fevereiro de 2011, será também o dia em que Rogério vai botar o ponto final no seu primeiro romance – “Na escuridão, amanhã”. Coisas de Rogério, que adora um ritual. Faz questão, por exemplo, de abrir suas contas bancárias nas mesmas agências em que pegava fila como office-boy. Compra flores para a mulher, Cris, e para a filha, Sofia, de quatro anos, no mesmo lugar em que vendia flores na infância. Para ter certeza. “Eu passei por aqui de uma maneira e hoje passo de outra.”

Como não costumo botar fotos nesta coluna, preciso descrever Rogério. Ele está bem longe da imagem do jornalista desmantelado, dentes e dedos manchados de nicotina, uma ou duas doses de cachaça na mão, barriga de cerveja e torresmo de boteco. Pelo que tenho visto por aí, acho mesmo que esta figura clássica já pertence ao passado. Aos 37 anos, Rogério mantém o corpo em forma com três sessões de academia e dois jogos de futebol por semana. Usa uma argola em cada orelha, corte de cabelo milimetricamente despenteado, camisa branca de bom corte ou em cores sóbrias, capazes de manter um daltônico em segurança. Para ele, que alcançou Curitiba aos 6 anos com a família, a cidade será sempre “cinza, borrada pela neblina da infância”, como escreveu em uma de suas crônicas.

Rogério já foi descrito como um Dom Quixote, mas, pelo menos na aparência, se usasse uma echarpe poderia ser confundido com um dos italianos despojados das ruas de Milão. Não fuma há 15 anos, não bebe há 10. Casado, dois filhos pequenos em boas escolas, bom apartamento, boa qualidade de vida. É importante para ele que seja assim. Para tocar sua holding literária, usa o aprendizado forçado da infância e adolescência, onde desenvolveu a vocação empreendedora negociando redações e trabalhos escolares em troca de lanches e vale-transporte.

Pergunto a ele por que escreve. Ele diz, alertando que para esta resposta não há como evitar os clichês: “Escrevo porque preciso, porque guiei a minha vida para a escrita, a literatura. Fiz da leitura um projeto para a vida toda. Não estou aqui à toa. Estou aqui porque construí o que sou – com toda a sorte pelo meio do caminho. Escrevo também por vingança àquele barril, escrevo para enchê-lo. Escrevo para me humanizar. Escrevo por vaidade, escrevo por vingança – sentimentos nada nobres, sei bem. Escrevo também porque talvez seja uma boa maneira de esperar a morte”. E mais adiante: “Os livros me salvaram. Eu sou o que li. O que busquei. Cada livro que li, cada livro que pensei em ler, cada livro que li pela metade, é o que sou”.

O primeiro livro seu foi comprado numa feira da infância. Avisaram na escola, e ele pediu dinheiro à mãe. Ela deu a ele o que hoje equivaleria a dois reais. Rogério só conseguiu comprar um de balaio. Era um livro sobre um homem em uma ilha. À espera. E não era a história de Robinson Crusoé. Rogério acredita que está lendo este livro até hoje. Quando era bem pequeno, sua mãe não viu que havia um “ninho de formiga” no lugar onde o deixou. E passou horas trabalhando sem poder voltar. Rogério foi flagelado pelas formigas. Hoje não consegue evitar. Ao deixar seu filho Lorenzo no berço sempre confere alarmado se não há formigas prontas a devorá-lo. Como disse o escritor catalão Enrique Vila-Matas, “a infância é uma batalha perdida”.

Rogério sabe que a vingança completa é impossível. O barril continua lá. Lembrando nos espaços vazios que a vida é frágil. E em geral dói. Zulma, a mãe de Rogério, é quem hoje envelopa os exemplares do Rascunho para assinantes, mas nunca leu o jornal nem qualquer dos escritos de Rogério. Continua trabalhando como diarista e é na casa de um dos patrões que passará este Natal servindo. José, o pai, é motorista de jornal. O irmão é funileiro. A irmã morreu de repente aos 27 anos. Alguns amigos perguntam a Rogério por que não ajudou os pais a melhorar seu nível de escolaridade. Ele responde: “É simples: a vida nos engoliu, nos mastigou feito bala de goma”. E, em outro momento: “Somos uma família distante e silenciosa. Como passamos boa parte da vida tentando sobreviver, cada um se virava da maneira que era possível. Não somos amorosos um com o outro. Nunca nos reunimos no Natal, no Ano-Novo ou nos aniversários. Mas isso não tem nada a ver com amor. Somos poucos que nos amamos em silêncio”.

O pai fez um quadro da primeira matéria de Rogério publicada em um jornal. Deu a ele de presente. O tema era uma cadeira que não provocava dor nas costas em quem passava o dia sentado diante de um computador. Mais tarde o pai pediu um livro emprestado. Rogério lhe deu uma obra de Autran Dourado, não lembra o título nem sabe o porquê da escolha. Tempos depois o pai devolveu o livro em silêncio. “Eu não lhe perguntei nada. Acho que tentou ler e não conseguiu. Envergonhado, devolveu o livro. Eu respeitei o seu silêncio. Ele respeitou o meu.” Quando o filho mais novo nasceu, Rogério reservou um caderno para que as visitas deixassem uma mensagem. Descobriu ali, na letra sofrida do pai, que ele escrevia seu nome – Rogério – com “j”.

Quando propus a Rogério Pereira contar sua história nesta coluna, ele teve receio. Que alguns pudessem achar que usava sua vida como autopromoção. “O Rascunho não tem reconhecimento porque foi fundado pelo filho da empregada doméstica, mas porque tem qualidade”, disse. Rogério só aceitou porque sua história prova algo que tanto eu quanto ele acreditamos profundamente: que a literatura é capaz de transformar a vida. Se há uma história que vale a pena ser contada é esta – a de como cada um dá sentido à sua existência, pega à unha o pouco que tem e se lança de cabeça no território das possibilidades.

Todos nós temos o nosso barril, com mais ou menos dor, mais ou menos peso, com outro nome. O que nos difere é o que fazemos com ele. A literatura, seja como leitor ou como escritor, nos permite transformar nosso barril em metáfora.

(Publicado na Revista Época em 29/11/2010)

Princesa

Olha estes ingleses, que otários!, esbraveja minha amiga no balcão da padaria, onde tomamos nosso café da manhã. O que eles fizeram agora, forjaram armas químicas no Irã?, pergunto eu, abocanhando um pão na chapa. Não, este casamento do príncipe William com a tal da Kate Middleton. Em pleno século XXI e os britânicos param tudo para acompanhar o noivado do príncipe. Que bulchite!

Eu foco na foto do príncipe William estampada na capa do jornal de quarta, reparo que ele começa a ficar careca, divago um pouco sobre o vestido da Kate e… irrito minha amiga. Não acredito que você se interesse por este tipo de notícia! Uai, digo eu, em versão mineira, mas foi você que me mostrou! O bom de viver em São Paulo é que a gente pode ser qualquer coisa.

Minha amiga está revoltada. É sério, agora percebo, o noivado do príncipe a incomoda de verdade. Ela é a imagem da paulistana cool. Já lavou pratos em Londres, fez curso de cinema em Nova York, andou meditando na Índia muito antes da Elizabeth Gilbert e agora alterna o trabalho de produtora de moda numa revista modernete com um interminável mestrado sobre o feminino em Virginia Woolf e Katherine Mansfield. Tem uma vida amorosa mais movimentada do que consigo acompanhar e nosso café periódico tem em parte a função de me atualizar nesta área. Minha amiga também tem razoável senso de humor e, a esta altura, ela já deveria ter feito alguma piada com absorventes íntimos.

Você está realmente incomodada, digo eu, quase engasgando com o capuccino. Estou, claro que estou. Mas por que, criatura?, digo eu. Eu achava que o Príncipe Charles tinha feito um ótimo serviço ao acabar com a hipocrisia dos contos de fadas quando preferiu a mocreia em vez da princesa e agora isso. Mais um casamento do século. Você não achava que um príncipe tampax acabaria com os contos de fadas, achava?, tento eu. Achava, claro que eu achava, diz ela. A princesa do bem estragando a maquiagem na TV porque o príncipe consorte a chifrava com a irmã baranga da Cinderela e não deveria ser o suficiente? Não deveria ter ensinado alguma coisa àquele povo? Cristina! (Quando ela me chama pelo nome é porque as tropas estão se preparando para desembarcar na Normandia.) Eles estudam em bons colégios, comem bem, têm acesso a museus e bibliotecas, eles não têm o direito de ser tão estúpidos! Quase engasgo. E o que a inteligência e a boa alimentação têm a ver com isso?, protesto.

Situações como esta, na minha opinião, exigem medidas drásticas. Peço uma coxa-creme e uma coca normal. Hello!, agarro o rosto dela entre as mãos e descubro que tenho açúcar na ponta dos dedos. Nem você quer que a monarquia britânica acabe! E quando o casamento de contos de fadas entrar em crise como todo casamento, você pode imaginar que gozo o inglês médio terá? Você quer que eles percam tudo isso – e nós também? E nem é tão ruim assim, já que a tal da Kate não tem nem uma única hemaciazinha azul. Imagina, os pais têm uma empresa de lembrancinhas de aniversário. A mãe era aeromoça, o pai controlador de vôo. E agora ela vai caçar veados com o príncipe Phillip. Não é quase genial de tão prosaico?

Minha amiga faz uma cara esquisita. Meu deus, ela vai chorar. Uma lágrima faz uma curva no piercing do nariz. O que você tem? É TPM? Ela me dá um safanão. Ah, não, você é mulher, não tem direito de vir com esta história de TPM só porque estou chorando. Não, claro que não, digo eu. É perfeitamente normal você estar soluçando às nove horas da manhã no balcão da padaria por causa do casamento do Príncipe William. Do Príncipe William!!!

Agora ela se abraça em mim e baba toda minha camiseta da Branca de Neve. Me diz o que você tem, por favor. Eu tenho vergonha, ela quase assoa o nariz na gravata do cara ao lado. A padaria inteira olha para nós. Ainda bem que me lembrei de colocar óculos escuros. O Adão, que sempre nos serve, pergunta se queremos água com açúcar. Acho lindo ele perguntar isso. Imagina, água com açúcar. Quase choro por amor ao Adão.

Você precisa me dizer o que você tem, eu insisto. Eu estou preocupada. Até o taxista ali na porta está preocupado. Por favor! Ela me olha, fungando. Eu tenho vergonha. Você vai me crucificar. Você nem vai querer mais tomar café comigo. Nunca mais vai me convidar para a mostra de cinema. E vai vender o meu ingresso para o show do Paul McCartney. Juro que não. Eu te amo, você sabe. Pode me dizer qualquer coisa que eu vou escutar. Até a mosca que mora na torta de limão parou de zumbir para ouvir melhor.

Minha amiga diz, voz embargada: Eu acho que eu queria ser princesa. E desanda a soluçar mais uma vez. Você queria o quê?, eu realmente escuto mas não escuto. EU QUERIA SER PRINCESA! EU QUERIA SER A KATE MIDDLETON!! ENTENDE?! SE UMA PLEBEIA PODE SER PRINCESA, ERA EU QUE QUERIA TER AQUELA SAFIRA COM 14 DIAMANTES NO DEDO!!!!

Eu não sabia bem o que fazer. O que eu digo agora? Duas garotas de uns 17 anos, cabelos escorridos, se aproximam e botam a mão no ombro da minha amiga: Tia, não chora. É normal. A gente também quer ser vampira e casar com o Robert Pattinson.

Adão!!!!! , eu grito. Mais uma coxa-creme e dois pastel! E um sapo, por favor, um sapo.

A realidade da fantasia

Vivemos mais tempo na imaginação do que naquilo que chamamos de real

Acordo num susto. Estou ofegante e respiro pela boca. Confiro o relógio. São duas da manhã. Tive um pesadelo terrível. Mas não tenho a menor ideia, nenhuma pista mesmo, sobre de que matéria era feito. Este era tão ruim, falava de alguma verdade tão proibida, que mesmo ao acordar num repente é apagado. Seja lá o que for, vai assombrar meu sono e minha vigília ainda muitas vezes, adotando as formas mais diversas. Quando acordo novamente já amanheceu e agora eu guardo uma sensação boa. Eu voava e sabia que era um sonho. Podia voar sem medo de cair porque no sonho penso que, se cair, caio na minha cama. Passo o dia com estas duas sensações bem presentes dentro de mim. O susto não nomeado do primeiro pesadelo e meu voo sem medo sobre o mundo.

Estas duas sensações que vêm do sonho são menos reais para mim do que as notícias do jornal que leio enquanto tomo chimarrão? Ou o iogurte que como de colher com farinha de linhaça? As lembranças e sensações que você guarda do seu sonho e que às vezes lhe acompanham no cotidiano são menos reais para você do que as tarefas rotineiras?

Sigo no meu dia. Você que me lê também segue no seu, em algum lugar. Ao longo das horas eu devaneio enquanto cozinho, lavo roupa, passo no supermercado, devolvo dois filmes na locadora e estaciono meus pés na loja ao lado para escolher um creme para hidratar meu cabelo. Escolho um, mais barato, mas a moça me conta das maravilhas de outro e eu, que enquanto ela fala fantasio em minha cabeça imagens de meu cabelo reluzindo como o das propagandas de xampu, deixo-me enganar bem satisfeita.

Nas muitas horas que trabalho todo dia não saberia dizer por quanto tempo divago. Com certeza, muito. De repente, me pego olhando para a parede azul do meu escritório há uns bons 15 minutos. Sonho com uma possível viagem para a Escócia que planejo fazer com a desculpa de melhorar meu inglês, mas que é movida muito mais pelas fantasias que desde criança eu tenho com as Terras Altas, mulheres guerreiras e homens de kilt. “Eles não usam nada por baixo!”, brinca meu professor de inglês, dando apoio ao projeto, mas embalado por suas próprias fabulações.

Ao final do dia, leio um livro sobre a história do Haiti e lá pelas tantas estou no meio de um parágrafo tentando imaginar como eram os dias de Toussaint L’Ouverture, o líder negro que lutou pela libertação dos escravos e a independência do país. Mais tarde, converso com uma de minhas amigas mais descoladas e descubro que ela está com ciúmes da Kate Middleton. Suas dores nada têm a ver com o príncipe William, que ela até acha bem sem sal, mas sim com todas as histórias de princesa que leu e as comédias românticas a que assiste escondida até de si mesma. Minha amiga, uma mulher que se arriscou em dezenas de aventuras mundo afora e tem uma vida amorosa bem animada, quer ser princesa. Uma parte dela quer, é o que ela me diz, desconsolada com a descoberta, e já ligando para marcar uma sessão extra com o analista. Fico um pouco estarrecida, mas não exatamente surpresa. Até porque antes de dormir assisto ao “Robin Hood” de Ridley Scott. E obviamente quero ser Marion. Vou para a cama suspirando.

Conto aqui meu dia não porque ele seja especialmente interessante, mas porque possivelmente, com variações de temas aqui e ali, ele seja parecido com o seu naquilo que mistura de realidade e fantasia – em sonhos dormindo ou devaneios na vigília. Ainda que você divague com vitórias estrondosas do seu time de futebol, um sucesso profissional estonteante ou até ganhando na mega-sena sozinho (claro!) ou ocupando as manchetes em um ato de heroísmo. Ou se tornando um aventureiro intrépido em algum canto selvagem do mundo enquanto briga com a máquina de café do escritório.

Conto meu dia para que você possa lembrar o seu. E assim possamos ter bem presente que a fantasia ocupa mais tempo da nossa vida do que aquilo que chamamos de realidade. É, portanto, coisa séria. Não séria como sinônimo de chatice e sisudez, mas séria como algo para o qual vale a pena olhar com atenção – e não espanar como tema marginal. Quando lembramos o nosso dia, em geral recordamos os atos concretos, a rotina prática, desde a conta que pagamos no banco ao trabalho que realizamos. E assim calamos um pedaço grande do nosso cotidiano por desprezarmos como irrelevante ou, em alguns casos, até vergonhoso. Perdemos então a chance de nos conhecermos melhor e percebermos para onde caminha o nosso desejo.

É justamente sobre a realidade da fantasia um livro extraordinário que acaba de chegar às livrarias. Chama-se A psicanálise na Terra do Nunca (Penso – Artmed) e foi escrito pelos psicanalistas Diana e Mário Corso. Os autores nos lembram logo na introdução que, ao contrário de nossas crenças, vivemos mais na fantasia do que na realidade. “Quando reflete sobre si, o homem comum se vê como alguém racional, lúcido, com os pés no chão, mas que às vezes é tomado pela fantasia. Os psicanalistas acreditam no contrário: o homem sonha a maior parte do tempo, e em certos momentos, geralmente a contragosto, acorda”. E, mais adiante: “Na prática somos casados com a realidade, mas só pensamos em nossa amante: a fantasia”.

Não existe aí nenhum juízo de valor do que é melhor ou pior, certo ou errado ou mesmo mais ou menos importante. Apenas a constatação de que somos sonhadores despertos ou despertos sonhadores. Somos constituídos pelas nossas fantasias tanto quanto pelos fatos “reais” de nossa vida. Nossas fantasias falam de nós e moldam escolhas bem concretas na nossa trajetória. Desde o homem ou a mulher que escolhemos até a decisão de ter ou não filhos – e, no caso de tê-los, com que tipo de companheiro dividiremos esta tarefa. Assim como ajuda a determinar o que esperamos deste homem ou mulher, da família que vamos formar juntos e de nossos filhos.

É por causa de uma fantasia que eu escolho, como contei mais acima, viajar para a Escócia – e não para os Estados Unidos ou a Nova Zelândia. Tudo de concreto que acontecer lá terá começado décadas atrás, nas histórias das Terras Altas que lia na minha infância. É pela fantasia que os britânicos, assim como a minha amiga aqui, suspenderam sua rotina para falar do noivado do Príncipe William com a plebeia Kate Middleton. E não pela união concreta de um homem que começa a ficar calvo e de uma mulher que pouco se sabe além do fato de ser filha de uma aeromoça. É possivelmente devido à fantasia que o mundo não tenha perdoado Charles, o pai de William, por ter desejado ser o tampax de Camilla Parker-Bowles. Afinal, como ele teve o desplante de destruir num devaneio sexual todos os nossos melhores e mais puros enredos de príncipes e princesas que Diana tão bem soube aproveitar em seu marketing pessoal?

Temos a fantasia como algo menor em nossas vidas, quase um acessório decorativo. Como algo que supomos pertencer mais à infância do que à vida adulta. Nos equivocamos, porém. A fantasia é parte de nós e se faz presente em cada ato cotidiano. E não exatamente separada da realidade, como pensamos. Em geral não dá para dissociar fantasia de realidade, já que uma está imbricada na outra, influenciando-se e transformando-se mutuamente. Há grandes chances, inclusive, de que o nosso último pensamento antes de morrer seja uma fantasia sobre a nossa passagem por este mundo ou sobre o que nos espera em algum outro ou em nenhum, feita da matéria obtida no arsenal de sonhos e histórias de uma vida inteira.

Em seu livro anterior, Fadas no Divã (Atmed, 2006), Diana e Mário Corso se debruçaram sobre os contos de fadas, as histórias e personagens que habitam a infância e nos ajudaram a lidar com nossos medos, desejos e dilemas. Neste novo livro, os autores focam na cultura pop. Filmes, seriados e livros, especialmente, que por mobilizarem milhões e permanecerem no imaginário de uma geração ou de várias, são o que mais perto nossa época alcança de uma mitologia que organiza não a vida de todos, mas a de muitos.

Este livro delicioso, minha sugestão de presente neste Natal, nos ajuda a refletir sobre as fantasias compartilhadas de nossa época. Com a certeza de que nossas histórias preferidas são decisivas para nos tornarmos o que somos. Determinantes na conformação do companheiro, amante, pai ou mãe e também do profissional que somos ou seremos. Não somos muito diferentes das crianças que pedem para ouvir a mesma história muitas e muitas vezes para terem certeza do final – e a sensação de algum controle sobre o que nelas provoca confusão e medo. É bem parecido o que fazemos ao revermos, sempre que possível, os filmes, seriados e até as novelas com as quais nos identificamos de diferentes maneiras.

O que a série de ficção científica “Alien” nos diz sobre a maternidade, por exemplo? Ou “Os Simpsons” do novo lugar do pai na família contemporânea? Ou os androides de “Blade Runner” sobre a queixa do filho de que o pai não ocupa mais o papel tradicional? Ou ainda “Os Waltons”, para quem se lembra de John Boy e Mary Ellen, sobre a família perfeita que ninguém jamais teve? Assim como as crianças que fomos têm muito a agradecer à madrasta da Branca de Neve por ter nos ajudado a elaborar a raiva que às vezes sentíamos de nossa mãe, mas que não ousávamos pronunciar, os adultos que somos têm muito a agradecer ao bebê Alien que “nasce” do tórax dos humanos encarnando alguns de nossos medos mais impronunciáveis.

A ficção nos ajuda a lidar com nossa realidade mais profunda. E só pode nos ajudar porque é real. Se não fosse, filmes, livros e seriados que marcaram a vida de muitos não teriam sucesso nem ganhariam permanência. Não se trata apenas de entretenimento, algo menor e menos importante, mas de nossa própria carne. Os vampiros da série literária Crepúsculo, ainda que mais palatáveis e limpinhos que seu bisavô imortal, o Drácula de Bram Stoker, só vivem em nós – ainda que mortos – porque a relação entre sexo e morte faz parte do que somos e do que nos inquieta no que somos.

Engana-se quem pensa que fantasiar é algo incompatível com a vida adulta. Ao contrário. O que fazemos por toda a nossa existência é justamente inventar uma vida. Que sempre será em boa medida uma ficção. Quando nascemos, é a mãe que inicia a nossa narrativa, quem nos conta que somos alguém pelo seu olhar e pelo seu toque. Para que pudéssemos existir, nossos pais precisaram antes nos imaginar. O livro do bebê será nosso primeiro diário, a primeira história que dá conta de nossa existência como indivíduo. E depois da mãe e do pai virão os avós, os irmãos mais velhos, os personagens do mundo para além da casa. Nos tornamos adultos quando enroscamos em nosso próprio dedo o fio da narrativa de nossa vida.

Acredito que perceber a presença da fantasia na trama de nosso destino nos ajuda a derrubar algumas crenças pessoais e coletivas que nos atrapalham. E mais nos atrapalham porque as confundimos com verdades absolutas e irrevogáveis. Assim como acolher a fantasia no cotidiano pode nos tornar pessoas menos enrijecidas – ou menos paralisadas – por medos que não conseguimos nomear. Não é que podemos crescer e seguir sonhando. A questão é que só podemos crescer se seguirmos sonhando. Como nos lembra a epígrafe de A Psicanálise na Terra do Nunca, na frase brilhante de Fabrício Carpinejar: “A imaginação é o direito constitucional para viver de novo. Não desperdice a vida com uma única vida”.

Não por acaso o título do livro refere-se à Terra do Nunca, o território fantástico e mutante descrito por J.M. Barrie. Como lembram os autores, em um determinado momento Peter Pan pede a Wendy que volte para a Terra do Nunca. Para convencê-la, usa um argumento forte. Wendy poderia ensinar os Meninos Perdidos a contar histórias. Se eles aprendessem, poderiam crescer.

Em cada um de nós mora um menino perdido da Terra do Nunca. Querendo crescer sem saber muito bem como. Achando que está acordado quando passa a maior parte do tempo sonhando. Sem saber que a maior ficção de todas é acreditar que tem os dois pés no chão.

(Publicado na Revista Época em 22/11/2010)

O novo, o velho e o antigo

Estudioso de Chico Buarque lança um olhar provocador sobre o Brasil e suas circunstâncias

Antes de o italiano Luca Bacchini descobrir o Brasil, foi o Brasil que aportou na sua alma em notas de samba. O Novo Mundo navegava na vitrola da casa da família na Roma da sua infância em discos de vinil que o pai ganhava de um piloto da Alitalia. Ao observar a euforia dos adultos, forjando em língua desconhecida uma versão mais viva de si mesmos nos carnavais improvisados que o pai organizava, Luca capturou o Brasil como uma visão particular de paraíso. Muitos anos depois desse primeiro contato, ele se tornaria um estudioso da obra musical e literária de Chico Buarque. Um “chicólogo”, como ele diz. E uma espécie de romano-carioca que corre sobre as pedras milenares da Via Ápia enquanto planeja sua próxima passagem pela Marquês de Sapucaí.

Convidei Luca Bacchini a refletir nesta coluna sobre seus passos entre dois mundos. A vida cotidiana em Roma, talvez a cidade do planeta onde é possível apalpar como em nenhuma outra o peso do passado no presente. Onde nossos pés pisam sem deixar marcas em pedras que foram assentadas ali antes de Cristo e ali estarão muito depois do nosso fim. E a apreensão da vida nesse país do futuro que é o Brasil, eternamente jovem em sua espera pelo dia seguinte.

Nesta entrevista, Luca Bacchini nos ajuda a pensar sobre o antigo, o velho e o novo. Sobre o Brasil e suas representações. Sobre Chico Buarque e a reinvenção da língua. Professor contratado de literatura brasileira e portuguesa do curso de pós-graduação da Faculdade de Letras da Universidade ‘La Sapienza’ de Roma, ele também é crítico literário e tradutor de livros, artigos e reportagens. Já publicou vários ensaios em coletâneas e revistas especializadas sobre a literatura e a música brasileira, especialmente sobre Chico, Tom Jobim e João Gilberto. Dedica-se nesse momento a escrever um livro sobre o romance Budapeste, de Chico Buarque. É também conhecido em alguns meios como “Luca do agogô”. Mas este é um personagem que só se manifesta durante o Carnaval no Rio de Janeiro.

Acompanhe.

Quis fazer esta entrevista ao ouvir você falar sobre a convivência entre o velho e o antigo na sua cidade, Roma. Essa lembrança constante de que as pedras sobrevivem a nós. De que somos frágeis e somos passagem. Qual é a diferença entre o velho e o antigo, para você? E como isso repercute no homem que você é?

Luca Bacchini – Uma cidade como Roma, que é chamada de “cidade eterna”, inevitavelmente implica uma relação problemática com seus habitantes, que são mortais. Dispondo de um tempo ilimitado, a cidade levará sempre uma posição de vantagem com relação a nós, que contamos com um tempo limitado. A gente aqui convive com as ruínas. A antiguidade é um período afastado e remoto, mas que persiste obstinadamente no nosso presente. O antigo é fascinante, não necessariamente belo, mas automaticamente impõe respeito. O velho já é ligado ao conceito de decadência, de enfraquecimento, de declínio de algo que era jovem, talvez bonito, e que hoje não é mais o que era antes. O antigo se mede em séculos e é o tempo “forte” das ruínas, enquanto o velho remete a um tempo “fraco”, mais humano, que inexoravelmente nos revela a caducidade das coisas. Roma é um dos lugares do mundo onde você pode perceber melhor esta diferença. O velho não se torna antigo porque não sobrevive ao tempo. É destinado à extinção, deixando apenas escombros e entulhos que irão desaparecer. Ao contrário das ruínas, que ficam para sempre. Tudo aqui se alimenta da tensão entre estas duas temporalidades antitéticas que acabam vivendo num contraste amoroso.

Como é essa convivência no cotidiano?

Luca – Roma impõe respeito, mas sem inibir. É uma cidade monumental – e não uma cidade com monumentos. A maioria das suas riquezas, artísticas e arqueológicas, não está protegida atrás de vidros blindados. Roma pretende ser usada, tocada, pisada, esculachada, sujada e continuamente re-vivida, sobretudo nas suas ruínas. No Coliseu já houve encontros de boxe e vários eventos musicais. Nas Termas de Caracalla já assisti a um show de Caetano Veloso e a uma representação daAida. Na infância, disputei peladas intermináveis no campo do Circo Massimo e hoje, duas ou três vezes por semana, corro na Appia Antica (Via Ápia). Quando termino o treino, uso as pedras da tumba dos Rabiri ou de Quinto Apuleio para fazer os alongamentos. Às vezes acontece de algum turista querer tirar uma foto e aí, tudo bem, mudo para outro sepulcro. Mas não sou profanador de tumbas. São elas que invadem a minha academia.

Você acha que este é o drama humano, também? Se vamos nos tornar velhos ou antigos, mortos esquecidos ou lembrados, permanecer além da vida? Esta é uma questão para você?

Luca – Quem dera que os homens se preocupassem em ser lembrados ou em permanecer além da vida. Seria, afinal de contas, uma preocupação nobre e profunda. Por séculos a Igreja desfrutou e alimentou essa fraqueza humana montando umbusiness incrível – basta pensar na “venda de indulgências”. Hoje, porém, estamos aflitos por exigências e necessidades muito mais práticas e imediatas. Meditar e refletir é considerado um tempo que você está subtraindo à ação. Vivemos exasperadamente a filosofia do “Carpe diem”, mas numa forma distorcida e hedonista, que tem pouco a ver com o pensamento horaciano. Acho que hoje o grande drama humano é aceitar a velhice ou, dito de outra forma, prolongar ao máximo a juventude. Daqui a 50, 70 anos a grama dos nossos cemitérios estará toda contaminada por botox e silicone.

Você acha que a morte é mais presente – ou uma presença – quando se vive numa cidade em que o passado é tão concreto e mesmo palpável?

Luca – A morte está mais presente onde há violência. Aqui na Itália não temos um contato cotidiano com a morte como no Brasil, na Colômbia, na Venezuela, no Irã, na África do Sul ou nos países envolvidos em guerras. Acredito que todos os brasileiros ou a grande maioria deles têm um parente, um amigo ou um conhecido que já foi vítima ou testemunha de mortes violentas. Dentro do meu grupo de parentes, amigos e conhecidos, até hoje eu não ouvi nenhum caso de morte ou ferimento causado por criminosos ou, pior ainda, por policiais corruptos. Pelo contrário, a morte foi bem presente na geração que viveu a II Guerra Mundial. Minha avó, por exemplo, assistiu a toda a brutalidade e desumanidade da represália nazista na Itália. Ela viu famílias inteiras deportadas, homens justiçados sob os olhos dos filhos e da esposa, mulheres abusadas, partisanos torturados e massacrados. Ainda hoje ela me fala com horror do ruído das botas dos soldados alemães que ecoavam à noite pelas ruas estreitas da cidadezinha onde ela morava.

Vivendo numa cidade tão monumental, mesmo, já que em Roma o “monumental” faz sentido e não é apenas um adjetivo vazio, como é possível construir ou inventar o novo?

Luca – Morando numa cidade monumental – e na Itália há muitas – a gente tem o privilégio de frequentar cotidiamente a arte e a história. Por um lado, nós acabamos desenvolvendo uma natural sensibilidade estética. De repente é daí que vem o que no Exterior é chamado de buon gusto ou stile dos italianos. Por outro lado, criamos uma relação meio traumática com o passado que está sempre lá, materialmente presente, te olhando, te espiando e te questionando. Em termos políticos isso se traduziu numa falta total de interesse na programação do futuro e, consequentemente, na instauração de um sistema gerontocrático. Os nossos políticos são os mais velhos da Europa. Em qualquer setor da sociedade as decisões mais importantes são assumidas por pessoas com uma idade bem avançada, em vários casos até anterior àquela dos meus pais. De um certo ponto de vista as pessoas idosas são aquelas que mais se aproximam da eternidade (risos). Com certeza, o espírito do lugar não estimula a criação do novo. Morando aqui você é levado a perceber o novo numa forma prevalentemente negativa, como uma categoria transitória, provisória, com prazo marcado. Como algo que antecipa o tempo, mas que pelo tempo afinal será sempre derrubado, que inevitavelmente passará de moda e que, em breve, se tornará velho, superado, obsoleto, até desaparecer. Afinal, é tristemente normal que uma sociedade gerontocrática considere o novo como uma ameaça à ordem constituída porque ele viola no presente a hegemonia do passado. Para mim, o Brasil, com a sua vocação congênita de país do futuro, funciona como uma espécie de alternativa libertadora para equilibrar essa falta crônica de utopia.

Mas não é possível que o novo se torne antigo? Construir algo novo que permaneça, do ponto de vista arquitetônico e também imaterial?

Luca – Para responder devidamente, eu deveria ser eterno. Por enquanto, me limito a concordar com o antropólogo Marc Augé, quando diz que a nossa época não poderá produzir ruínas porque não tem mais tempo. Somos vítimas complacentes da cultura do descartável.

“O Brasil sofre de uma falta de ruínas nas quais fundar o próprio passado”

Por que o Brasil seria, como você diz, uma alternativa libertadora devido à “vocação congênita de país do futuro”? Por que você sente isso a respeito do Brasil e não sente, por exemplo, por outros países da América Latina, todos eles jovens, já que os colonizadores destruíram a maior parte do que havia antes? O que é diferente aqui?

Luca – Naturalmente, a ideia do Brasil como “país do futuro” não é de minha autoria, mas há uma ilustre tradição secular atrás. Porém, acho muito difícil dar uma resposta satisfatória à sua pergunta. Explicar racionalmente e numa forma convincente os motivos dessa minha predileção me levaria a dizer banalidades ou a cair em lugares comuns, talvez correndo o risco de ofender outros povos latino-americanos. Tudo no Brasil é diferente. E com isso não quero dizer que tudo seja melhor ou pior que no resto do continente. Poderia argumentar essa diferença numa perspectiva histórica, cultural ou sociológica, mas isso não explicaria o meu sentimento pelo Brasil. Um aspecto interessante é que também a maioria dos italianos percebe essa diferença do Brasil com relação à America Latina numa forma muito clara e quase instintiva. Como resposta posso contar-lhe uma situação pela qual já passei e que acho bastante significativa. Cada vez que aqui na Itália, por motivos diferentes e nos contextos mais variados, devo explicar que sou um estudioso da cultura brasileira e que com um certa frequência viajo para o Brasil, assisto sempre à mesma reação. O interlocutor me olha com o mesmo jeito alusivo, ensopado por uma inveja mal disfarçada, saindo com comentários do tipo: “Você sabe tudo!”, “Você é o grande malandro”, “Eu não entendi nada na minha vida”, “Eu também deveria ter seguido o seu caminho”. Com meus colegas, especialistas de outras áreas da América Latina, a reação geralmente é entre a perplexidade e a interrogação: “Que interessante! Mas por que você resolveu ir até lá?”.

Qual é a sua percepção do Brasil? Ou, melhor, qual é a sua percepção do Rio de Janeiro, já que o “seu” Brasil é o Rio de Janeiro?

Luca – Eu sou a pessoa menos indicada para responder a esta pergunta porque gosto demais do Rio de Janeiro e, portanto, qualquer afirmação minha seria viciada por uma parcialidade tão descarada que acabaria me deslegitimando. Como todas as pessoas apaixonadas não posso ser objetivo quando falo do objeto de amor. No Rio eu quero conscientemente ser seduzido, que é também a melhor disposição para ser iludido, eu sei disso, mas a cidade é apaixonante e não tenho como resistir. Sou um caso tão desesperador que, quando estou em Roma, até sinto falta daquele trânsito horrível que toma a Lagoa nas horas de pico, daquele cheiro forte de xixi que invade as ruas durante o Carnaval, daqueles temporais que em poucos minutos inundam a cidade paralisando tudo e daquele medo constante de poder ser continuamente assaltado. Para mim, o Rio é sobretudo um lugar de sonho encontrado quando era criança e que mais tarde descobri existir no mapa. É lá que reencontro o tempo perdido da minha infância. Portanto, esse tempo é mítico, sacro e incontestável. Nessa dimensão suspensa tenho a sensação – e a ilusão – de viver no presente um tempo eterno e, assim, no país do futuro consigo me descarregar do peso das ruínas.

Que ponte você faz entre o Brasil e a Itália, Roma e o Rio?

Luca – Até pouco tempo atrás eu tinha uma teoria para explicar o Brasil. Dizia que Roma é como o Rio, Milão como São Paulo e Nápoles como Salvador. Um dia uma amiga mineira me perguntou como ficaria se colocasse Belo Horizonte dentro dessa equação. Aí deu branco! (risos) Sendo o país do futuro, o Brasil se relaciona a um tempo que está banido na Itália. Em termos de identidade, ele tem um problema contrário ao nosso. Sofre de uma falta de ruínas nas quais fundar – e legitimar – o próprio passado. A saída foi a construção de uma identidade nacional baseada mais no espaço e na geografia que no tempo e na história. Na Itália tudo pretende ser o “mais antigo do mundo” – o teatro mais antigo, a igreja mais antiga, a universidade mais antiga, etc –, enquanto no Brasil triunfa a retórica do “maior do mundo”. Nesse gigantismo natural que não depende da presença do homem, o povo brasileiro é chamado a expressar a próprio valor. Daí vem esse ufanismo recorrente baseado nos primados de grandeza: o maior estádio, a maior hidrelétrica, o maior shopping, o maior produtor disso, o maior exportador daquilo, etc. Dentro dessa visão, o que conta é só a quantidade. E isso pode ser muito arriscado, sobretudo em termos sociais de longo prazo, porque acaba narcotizando o sentido crítico do povo, que começa a avaliar a própria existência só em termos quantitativos. Um gigante sem consciência sempre será facilmente vulnerável, como demostrou Ulisses contra Polifemo (episódio da Odisseia, de Homero, em que Ulisses vence o ciclope Polifemo cegando seu único olho depois de embriagá-lo).

“O futuro está ainda longe num país que no presente tem milhões de analfabetos e de pobres”

Que tipo de consequência pode se esperar dessa visão de que tudo se resolverá num suposto dia seguinte?

Luca – Falando das cidades americanas, o antropólogo Claude Lévi-Strauss comentou que elas vivem febrilmente uma doença crônica. São sempre jovens, sem nunca gozar de saúde. Em 1935, ele visitou São Paulo e ficou maravilhado pelas “precoces devastações do tempo”. Penso que o Brasil tem um pouco dessa imagem do jovem doente. Nesses anos em que estive no Brasil eu vi um país sempre em obras, sempre envolvido em grandiosos projetos a serem realizados no futuro e que, graças a essa esperança, conseguia cotidianamente ignorar tanto os entulhos que sobraram do fracasso dos projetos anteriores quanto a persistência de graves problemas crônicos. O que mais me chama a atenção é a capacidade que o povo tem de se acostumar com quase qualquer coisa que o presente lhe propõe: violência, injustiça, corrupção, etc. Não é aceitação nem resignação, mas é a consequência de uma fé ilimitada e incondicionada na utopia do futuro que, talvez, seja para muitos a única maneira de sobreviver.

Na política também?

Luca – Na política em geral domina a idéia de que o Brasil é um país jovem e que, assim sendo, os problemas e os erros do presente em alguma medida podem ser tolerados enquanto “pecados da juventude”. Importa apenas o futuro glorioso que está na frente. E até lá o Brasil terá sempre o álibi do novato, do emergente. O fato que o slogan “Pra frente Brasil” ainda hoje seja usado pelos políticos é muito significativo. Se o Brasil não tivesse a obrigatoriedade do voto, com certeza assistiríamos a um filme bem diferente. Atualmente, poucos países no mundo adotam esse sistema e nessa pequena lista não aparece nenhuma das grandes democracias. A companhia teatral não está mais preocupada com a qualidade da comédia quando sabe que a casa está sempre cheia.

Você se refere à ultima campanha eleitoral, que elegeu Dilma Rousseff?

Luca – Estou me referindo de forma mais geral ao funcionamento do sistema político brasileiro, isto é, aos nexos entre os mecanismos para a criação do consenso, a composição do eleitorado e os programas de governo, independentemente do time que ganhou nessa eleição ou nas anteriores. Existe um problema estrutural nas regras do jogo que nenhum dos jogadores, sejam vencedores ou perdedores, têm interesse em mudar. A Dilma é apenas uma das soluções que esse sistema corretamente admite.

Você acompanhou o governo Lula e esta última eleição? O que você viu?

Luca – Sinceramente, eu não daria muita importância ao baixo nível do debate na última campanha eleitoral. Na política o transformismo paga mais que a coerência. Nesse segundo turno, Dilma Rousseff e José Serra não teriam hesitado em lançar uma campanha feroz pela abolição do churrasco se tivesse sido decisivo o voto dos vegetarianos. A busca do consenso é sempre prioritária à perseguição do bem da nação – e isso, claro, não só no Brasil. Campanha eleitoral é aquela festa de sempre em qualquer lugar do mundo. Discurso de político aos eleitores é tão confiável quanto as promessas de um homem quando faz um pedido de casamento. No circo dos horrores da política italiana de hoje encontram-se exemplos excepcionais. Quanto ao Lula, ele foi eleito como presidente e saiu do Planalto como um grande herói do povo, atuando com sucesso na fórmula de um “populismo light”, que lhe garantiu índices de consenso extraordinários, sobretudo nas faixas de baixa renda. Acho que, afinal de contas, cada cidadão brasileiro, independentemente da orientação política e do nível social, pode estar orgulhoso de ter tido um presidente como Lula. E eu também, durante esses oito anos, enquanto estudioso e amigo do Brasil, tive o privilégio de compartilhar um pouco desse orgulho tanto na Itália quanto no Exterior. Claro, Lula cometeu muitos erros, alguns até de uma certa gravidade. Não vou negar que existem várias decisões com as quais absolutamente não concordo, sobretudo na política externa.

Como por exemplo…

Luca – Penso no flertezinho com o Irã e na tentativa de legitimá-lo internacionalmente; na defesa do Cesare Battisti e nas declarações do ministro Tarso Genro sobre a Itália; no silêncio sobre a violação dos direitos humanos em Cuba e na negação de asilo aos dois boxeadores cubanos durante os jogos panamericanos; na cooperação militar com a China e, consequentemente, na decisão de alterar o voto de condenação à China no Conselho de Direitos Humanos da ONU; na aproximação com o ditador Teodoro Obiang da Guiné Equatorial, em nome do comércio exterior e do petróleo; na distribuição de camisas da seleção brasileira aos chefes de Estado durante o G8 sediado em L’Aquila, sem entender que a celebração da vitória da Copa das Confederações naquele clima de consternação geral resultaria inoportuna e ofensiva para as vítimas do terremoto. O elenco poderia continuar também no plano da política interna, mas errar é normal para quem a cada dia deve tomar decisões para uma coletividade de quase 200 milhões de pessoas. Aliás, talvez uma grande parte dos brasileiros não dê a menor importância aos fatos que citei. Com a política externa não se ganham as eleições, ao menos que o país esteja em guerra. Apesar de tudo, acredito que o grande mérito de Lula foi o de não ter repetido muitos dos erros trágicos que seus predecessores cometeram teimosamente por décadas. E isso já foi suficiente para fazer do Brasil um país melhor.

Você se referiu algumas vezes à crença do Brasil como eterno “país do futuro”. Mas hoje começamos a ouvir, em alguns meios, que o futuro chegou. Você, que nos olha de fora mesmo quando está dentro, sente isso? Se o futuro chegou, você consegue arriscar algumas hipóteses do que muda no nosso imaginário do país e de nós mesmos?

Luca – Isso acontece ciclicamente no Brasil, com a mesma frequência com que em outros países se anuncia o fim do mundo. Vozes mais ou menos intensas de que o futuro tinha chegado já circularam durante o Estado Novo, no anos JK e na ditadura do general Médici. Não é uma novidade. Agora, boa parte do país é atravessada por uma euforia infantil devido à Copa do Mundo e às Olimpíadas. A política e a mídia alimentaram a idéia de que estes dois eventos têm o poder mágico de resolver a maioria dos problemas do país. Essa ilusão é contagiante. Um trem-bala, uma estação do metrô, um aeroporto maior e um estádio reformado são suficientes para provar que o futuro chegou? O povo deveria ser bem mais exigente. Acho que o futuro está ainda longe num país que no presente tem milhões de analfabetos e de pobres, onde um número assustador de crianças vive nas ruas ou trabalha em vez de ir à escola, onde duas das maiores empresas são a prostituição e o narcotráfico. Mas isso é papo de gringo…

“O Brasil se tornou um lugar de sonho para onde fugir”

Falando em gringo, como você descobriu o Brasil?

Luca – A minha descoberta do Brasil concide com as primeiras lembranças que guardei da infância. Meu pai tinha uma amigo, piloto da Alitalia, que era apaixonado por música. Cada vez que fazia escala no Brasil, ele trazia para nós um disco de presente ou, quando tínhamos menos sorte, ele gravava numa fita o disco que tinha comprado para ele. João Gilberto, Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Toquinho, Tom Jobim, Jorge Ben eram algumas daquelas vozes misteriosas, vindas de um país longínquo, que meu irmão e eu ouvíamos ininterruptamente. Tínhamos a certeza de que os intérpretes daquelas músicas não eram propriamente cantores, mas nossos companheiros de brincadeiras. Outros meninos, talvez um pouco mais velhos, que de um lugar indefinido chamado “Brasil” pediam que fôssemos seus cúmplices e que escutássemos em silêncio os segredos e as histórias que vinham nos sussurrar. Apesar de eles não se dirigirem a nós em italiano, conseguíamos entendê-los igualmente, cada vez numa forma diferente – afinal, quando existe uma amizade é possível se entender mesmo sem falar o mesmo idioma. Meus pais também adoravam aquelas músicas e, de vez em quando, organizavam festas de Carnaval em casa convidando os amigos. Era tudo muito surreal, todos cantando numa língua que não entendiam. Meu irmão e eu trocávamos os discos na vitrola e ficávamos olhando os adultos enlouquecidos. Para nós era uma grande alegria porque podíamos ir dormir mais tarde.

E os convidados, o que achavam desse carnaval?

Luca – Entre os convidados, quem merecia destaque era um casal gay muito amigo da minha família que morava no mesmo prédio. Osvaldo era rico, feio, culto e mal humorado. Elio era exatamente o contrário: de origem humilde, bonito, sem cultura e sempre alto astral. Nessas festas o Elio vinha vestido de mulher e o Osvaldo de Pierrot choroso, com uma lágrima pintada no rosto. E os dois sempre brigavam por causa do Brasil! (risos) Quando ouvia um samba-enredo, o Elio ficava possuído e começava a jurar que na manhã seguinte compraria uma passagem para o Rio. E o Osvaldo ficava danado!! Nossa! (risos) O sonho do Elio era passar o Carnaval no Brasil e desfilar nas escolas. Eram cenas hilárias, com os dois gritando e berrando e todo mundo rindo até chorar. Eu não entendia porque os dois brigavam, mas a partir daí ficou aquela idéia do Brasil como uma obsessão, como um lugar de sonho para onde fugir. Lembro que uma frase recorrente do Elio era: “Um belo dia chuto o balde e fujo pro Brasil.” Ele faleceu dois anos atrás e nunca conseguiu visitar o Brasil. Até o fim da sua vida, cada vez que a gente se encontrava, ele sempre me fazia mil perguntas sobre o Rio e o Carnaval, como quem estivesse pensando em organizar uma viagem daqui a pouco. O Osvaldo já não berrava mais, mas sempre olhava muito feio para ele.

Quando você desembarcou no Brasil concreto pela primeira vez houve um choque entre imaginação e realidade?

Luca – Minha primeira vez no Brasil foi em 1999, junto com meu irmão, e foi totalmente hilária. Na época eu estava finalizando a minha tese de graduação sobre o uso das metáforas bíblicas nos cronistas do Novo Mundo e tinha ganhado uma bolsa de estudo para pesquisar na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Lembro sobretudo do choque climático. Viajamos em julho, trocando o tórrido verão romano pelos trópicos, sem imaginar que nos trópicos as temperaturas não são sempre “tropicais”, no sentido estereotipado que a gente atribuía a esse adjetivo. Partimos completamente desprevenidos porque estávamos indo para um país que, pela fantasia, frequentávamos desde a infância. Na mala só tínhamos colocado bermudas, sungas, camisas de mangas curtas e protetor solar. Naquele dois meses choveu muito e fez um friozinho bastante violento. Para enfrentar a emergência tivemos de comprar roupa pesada. Às 17 horas já era escuro e isso para nós era inaceitável num país tropical! Mesmo com frio e sem entender quase nada adoramos a cidade. Não tínhamos outra opção, porque aquele lugar tinha para nós um fortíssimo valor emocional e afetivo que invalidava qualquer capacidade crítica. Voltamos para Roma com o protetor solar ainda lacrado, mas com os corações já completamente apaixonados pelo Rio.

Quantas vezes você voltou, desde então?

Luca – A partir de 1999 voltei quase todos os anos, ficando dois ou três meses. Durante o doutorado era bem legal porque dava para ficar direto, por muito mais tempo. Agora, com os compromissos da faculdade, é tudo mais complicado. No ano passado nem pude ir ao Brasil. Tenho desfilado nas escolas de samba sempre que vou e sempre em mais de uma escola. A Estácio (de Sá) é uma constante, seja no grupo especial ou no grupo de acesso. As outras se alternam: Império, Caprichosos, Mangueira, Salgueiro, União da Ilha, Porto da Pedra. Digamos que sou um “viciado do samba”: qualquer escola que oferece a possibilidade de desfilar… eu vou.

Por quê? Como é o “seu” Carnaval?

Luca – Meus primeiros carnavais cariocas foram vividos inconscientemente na minha casa, em Roma, durante a infância. Assim, passar o Carnaval no Rio tornou-se uma maneira de alimentar uma espécie de tradição de família. Os samba-enredos sempre tiveram um poder emocional muito forte para meus pais, meu irmão e eu. Quanto ao “meu” Carnaval no Rio, ele tem um dimensão plural e coletiva e, portanto, seria mais correto que eu fale do “nosso” Carnaval, aquilo que passo em companhia dos meus amigos. A cada ano chegamos ao dia do desfile absolutamente convencidos de que a nossa escola vai ganhar, mas a apuração pontualmente nos contradiz. Então, começamos a gritar que foi um escândalo, que a escola foi roubada, que chegou a hora de acabar com a nossa inglória carreira de foliões e que nunca mais iremos desfilar. Mas já em agosto, timidamente, voltamos a falar da escolha do novo enredo e dos esboços da fantasias… Nos últimos anos comecei a tocar na bateria de alguns blocos de rua. O problema inicialmente foi que eu não sabia tocar nenhum instrumento de percussão. Até fiz um cursinho para aprender o básico do tamborim. Mas, como alertava Noel Rosa, “o samba não se aprende no colégio”. Então, mudei de estratégia. Pensei que a única solução fosse escolher um instrumento pouco difundido que quase nenhum bloco tivesse. Foi assim que comecei a tocar o agogô. Ainda hoje toco mal pra caramba, mas graças à falta de concorrência sou sempre muito bem-vindo nas baterias. Aliás, o fato de ser estrangeiro às vezes ajuda. Um dia um amigo me apresentou ao diretor de um bloco de uma maneira completamente maluca: “O rapaz aqui é “Luca do agogô”. Ele é italiano, nunca desfilou com a gente, mas em Roma já tocou para o Papa em São Pedro durante a missa do galo”. O diretor me olhou emocionado e me perguntou se eu tinha conhecido pessoalmente o Bento XVI! (risos).

Se o Rio surgiu para você como um lugar mágico para onde fugir, é isso o que é, em certa medida, ainda hoje? Neste sentido, você foge do quê?

Luca – Geralmente se foge “de” um lugar e não “para” um lugar. No meu caso ficou a idéia infantil de que o Brasil é um destino que se alcança pela fuga, e não por uma simples viagem, mas sem que a partida implique escapadas ou evasões.

Você quer morar no Brasil? Como seria viver no lugar mágico de fuga? Não teme não ter mais para onde fugir?

Luca – Queria morar aí, mas sempre com uma passagem de volta para Roma na mão, como forma de preservar a magia do lugar e não renunciar à possibilidade de fugir de novo. Claro que tenho medo – e muito – de perder o meu lugar de fuga. E nem faço questão de averiguar esse risco. A experiência de quem me precedeu não foi promissora. O austríaco Stefan Zweig, cuja fama se liga principalmente ao livro Brasil, um país do futuro, foi vítima da mesma utopia que o seduziu e que contribuiu para sustentar. Para fugir do nazismo Zweig teve de enfrentar uma longa peregrinação pela Europa e pela América. Desembarcou no Brasil em 1936, quase por acaso, e foi logo amor à primeira vista. Descreveu a cidade do Rio de Janeiro como uma das impressões mais poderosas que experimentou na vida, uma mistura de fascinação e estremecimento causada pela paisagem e pelo tipo de civilização encontradas. Os destinos sucessivos foram Argentina, Portugal, França, Inglaterra, Estados Unidos, até resolver se mudar definivamente para o lugar dos seus sonhos, em 1941. Foi morar em Petrópolis, mas enquanto os meses passavam e a chance de voltar para a Europa tornava-se sempre mais improvável devido à extensão do conflito mundial, ele entrava no túnel de uma depressão progressiva. No ano seguinte, suicidou-se em pleno Carnaval, junto com a esposa. No dia anterior tinha descido ao Rio para assistir aos desfiles na Praça Onze. Será que eu estou fugindo do Berlusconi sem sabê-lo? (risos)

Quando está no Brasil, você tem saudade da Itália?

Luca – Em Roma sou capaz de rodar a cidade inteira em busca de um feijão preto importado ou de uma goiabada em lata. Eu, que quase não bebo, até cheguei a comprar cachaça só para sentir o cheiro. No Brasil revira-se o imã da saudade e começo a comprar compulsivamente macarrão. Depois de muita procura, achei até uma loja que vende uma marca importada de Nápoles. Nunca como tanto spaghetti – e faço questão da grafia italiana da palavra – como quando estou no Rio. (risos)

“Chico Buarque é um genial inovador da língua”

Por que você escolheu Chico Buarque como tema de estudo? Por que o Chico e não outro?

Luca – Estudar Chico Buarque foi uma decorrência natural do meu interesse pela literatura e pela música brasileira. Muitas músicas do Chico ficaram gravadas inconscientemente na memória sonora da minha infância. Mas não foi só a vontade de resgatar esse baú de lembranças musicais que me levou ao estudo da obra dele. Afinal, Chico Buarque não era o único artista brasileiro que a gente ouvia em casa. Minha primeira pesquisa no âmbito da literatura brasileira foi sobre os cronistas do século XVI e XVII. E daí fui me aproximando devagarinho da contemporaneidade. Para chegar ao estudo de Chico Buarque demorei bastante. E isso foi bom, porque enfrentar a obra dele não é fácil. Exige muito da gente. Para o crítico é um fascinante desafio interpretativo cheio de obstáculos e armadilhas.

Na sua opinião, qual é o significado de Chico Buarque para a cultura brasileira?

Luca – Na minha opinião, Chico Buarque representa uma das figuras imprescíndiveis da cultura brasileira contemporânea. Não é apenas um músico extraordinário, que avança idealmente no mesmo caminho iniciado por Villa-Lobos e continuado depois por Tom Jobim, mas é também um genial inovador da língua portuguesa que podemos colocar ao lado de clássicos consagrados como Machado de Assis, Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade. Antônio Cândido definiu Chico Buarque como “uma grande consciência, inserida num enorme talento”. Cada vez que sai um novo disco ou romance do Chico, a gente se dá conta de que esta consciência e este talento têm um tamanho muito maior do que se imaginava até aquele momento. Chico é um gênio em permanente expansão e evolução e por isso não deixará nunca de nos surpreender com a sua música e com a sua literatura. O estudo da obra dele é um exercício tão prazeroso e estimulante que se tornou o objeto principal das minhas pesquisas. E, assim, virei um “chicólogo”.

Como você começou a se tornar um “chicólogo”?

Luca – Comecei a me dedicar à obra de Chico Buarque durante o doutorado em Estudos Americanos na Universidade de Roma Tre. O título da minha tese era “Francisco-Francesco. Chico Buarque de Hollanda e a Itália”. Trata-se de uma reconstrução da relação do Chico com a Itália, a partir da estadia de 1953-54 até hoje, tentando um diálogo entre a vida e a obra. Recolhi muito material inédito ou pouco conhecido na Itália e no Brasil, como fotos, gravações, recortes de jornais, correspondências, etc. Ao mesmo tempo, tive o privilégio de entrevistar várias pessoas extraordinárias, famosas ou não. Além do próprio Chico e de seus familiares, pude contar com a colaboração de Sergio Bardotti, Toquinho, Ennio Morricone, Elza Soares, Lucio Dalla, Sergio Endrigo, só para citar os mais conhecidos. Foi uma experiência muito enriquecedora do ponto de vista humano antes que intelectual.

Você está escrevendo sobre o romance Budapeste. Pode contar um pouco sobre suas percepções?

Luca – A história de José Costa (personagem do livro) me ensinou que há sempre a possibilidade de plágios e roubos no mundo editorial. (risos) De repente alguém lê essa entrevista e resolve contratar um ghost writer para escrever um livro baseado nas minhas respostas. Já pensou nisso? A associação dos escritores anônimos é mais ativa do que o romance faz imaginar! (risos) E visto que ainda não assinei um contrato com uma editora, tenho que ser prudente nos adiantamentos. Em síntese, a minha pesquisa aborda o Budapeste focalizando-se no estudo do espaço, da intertextualidade e da linguagem. Trata-se de um trabalho de crítica literária que enriqueci também com as vozes das pessoas que entrevistei, inclusive aquela do próprio autor. O elemento recorrente nos vários níveis da análise proposta é a presença de um ménage à trois criativo entre o Brasil, a Hungria e a Itália. O Budapeste se tornou uma espécie de leitura obsessiva com a qual, daqui a pouco, vou celebrar seis anos de convivência. E o barato é que o livro ainda continua me surpreendendo. Por causa dele até me aproximei da cultura húngara e – ai de mim! – também um pouco do idioma, mas só o pouco suficiente para concordar com José Costa de que “o húngaro é a única língua que o diabo respeita”. Nos últimos anos já re-percorri todos os passos de José Costa no Rio e, provavelmente, na próxima primavera vou fazer uma breve viagem para Budapeste, apesar de o Chico ter escrito o romance sem visitar a cidade antes.

O quanto você se identifica com esse personagem entre duas cidades, duas línguas?

Luca – Na verdade, eu acabo me identificando com todos os personagens, até com os mais chatos, antipáticos e revoltantes. Acredito que essa tendência seja um elemento constituinte do processo de leitura. Afinal, os personagens de ficção têm a chance de sobreviver apenas graças a nós. Uma vez que fechamos um livro, eles não se extinguem, mas ficam conosco, iluminando com a própria sombra a nossa leitura do cotidiano. Com efeito, a vida de um personagem de ficção completa e complica a nossa experiência do mundo real. Cada um de nós, quando lê um livro ou escuta uma música, mergulha na história e nos sentimentos dos personagens e, daí por diante, começa a ver o próprio mundo de uma forma mais ampla, que abrange também a perspectiva deles. Esse processo de identificação acontece independentemente do sexo, da idade, do caráter ou do nível social do personagem. Graças à obra de Chico Buarque entramos em contato com uma galeria de personagens – e também de condições e sentimentos – extremamente variada. Nos tornamos íntimos de pedreiros, malandros, emigrantes, vagabundos, atrizes, sambistas, pivetes, prostitutas, favelados… E, ao mesmo tempo, assistimos a todas as possíveis declinações do amor – da paixão e da ternura até a raiva e a violência. Nessa lista, figura naturalmente também o José Costa, com a sua incapacidade de identificar-se plenamente com uma cidade, uma língua e uma cultura. No meu caso, o Budapeste oferece um acervo extraordinário de situações e cenas que recorrentemente desfruto para elaborar a percepção do que estou vivendo. Não posso negar, por exemplo, que no Rio as minhas caminhadas pela orla ficaram irremediavelmente marcadas por aquelas do José Costa. Sem que eu queira, suas palavras começam a bater na minha cabeça, misturando-se em harmonia com outras vozes e imagens que já encontrei em outros livros, músicas, filmes ou em experiências anteriores que já vivi na vida real. Os personagens de ficção têm a capacidade de nos surpreender quando menos esperamos, assim como acontece com as lembranças das pessoas que compartilharam conosco um trecho da existência.

Quando você virá ao Brasil novamente? Neste Carnaval?

Luca – Ainda não tenho uma previsão. De qualquer forma, outro dia me ligou meu amigo Adilson e me disse que a Estácio está linda e que vai ganhar o Carnaval, com certeza absoluta!

(Publicado na Revista Época em 15/11/2010)

A vida dos outros

Quando viajo tento descobrir os restaurantes e botecos que as pessoas do lugar frequentam. Sento a uma mesa de costas para a janela e de frente para a paisagem que mais me interessa, a interior. Fico observando a vida dos outros se desenrolando nas mesas. Começo estrangeira e termino pertencendo. Não se entra na vida dos outros, mesmo que seja apenas com nosso olhar, impunemente. A vida dos outros se agarra à nossa alma e se torna nossa. Foi assim no meu primeiro e único dia em Lisboa, duas semanas atrás. Sentei numa pastelaria de esquina. Era um domingo e o domingo é um dia que crava suas unhas na gente mesmo quando estamos bem.

Pedi meu bacalhau e fiquei olhando a cena da mesa mais próxima. Uma mulher de uns 60 anos conversava com uma amiga da mesma idade, uma diante da outra. E do lado sua filha, uma adolescente com síndrome de Down. A menina apenas observava a conversa, seus olhos passeando pelas mesas como os meus, mas com mais ansiedade que os meus. O único garçom me atendia de cara sisuda porque eu era um corpo estranho num domingo que era deles. Seu olhar me acusava por não ter escolhido um dos restaurantes da outra ponta da rua, que exibiam menus em inglês. Culpava-me pela intromissão. Mas a menina com Down ele chamava pelo nome e todo ele virava um pastel de nata. E por isso eu gostava dele mesmo quando atirou o prato de bacalhau na minha frente.

Diante de mim, num canto, havia um homem de seus 50 e poucos anos. Enfiado numa roupa domingueira ele falava o tempo todo ao celular enquanto comia sozinho. Modulava a voz num tom sedutor e por isso eu adivinhava que falava com uma mulher. Aos poucos as palavras foram chegando e percebi que não era apenas uma, mas uma após a outra. Ele procurava companhia para não naufragar no domingo, mas não havia sins para ele. E a sobremesa chegou e depois o café e seus olhos vagavam cada vez mais velozes pelo quadrilátero da pastelaria, batendo pelas paredes enquanto a voz já perdia a força. E tanto eu quanto ele, ainda que ele não soubesse de mim, sabíamos que a mulher do outro lado já adivinhava seu desespero. E não há nada que as pessoas temam mais que a solidão alheia. Eu não podia ouvir o que elas diziam, mas conhecia o que pensavam: Tire suas mão pegajosas de cima de mim. Minha boia só tem lugar para um.

Do meu canto eu fingi não vê-lo quando o vi levantar ajeitando com mãos nervosas sobre o próprio corpo franzino os últimos fiapos de uma dignidade antiquada. E depois caminhar até a porta do bar mais ou menos ereto. Quase podia imaginar o oceano lá fora, o de Cabral e Vasco da Gama, arrastando-o pelas pernas e afogando-o no mosaico português onde o sol refletia o vazio sem terra à vista do domingo. Mas não o vi porque estava de costas para a janela. E meu olhar era como uma pintura de Edward Hopper, onde mesmo o lado de fora era dentro.

Então a voz da menina com Down se ergueu e tornou-se mais aguda. Mas eu não pude entender o que ela dizia. A mãe estancou a conversa animada com a amiga no mesmo segundo, enquanto a espinha do bacalhau entalava na minha garganta. A mulher então rasgou o silêncio com a mão que estendeu sobre a mão da filha. Olhou bem para a menina e disse. “Filha, a vida dói”. E os olhos de ambas se encheram de lágrimas sem que nada mais fosse dito. E todos nós ali mergulhamos no abismo.

Quando elas partiram eu pedi um café porque não seria capaz de enfrentar o oceano que tragara agora também a elas. Eu tentava imaginar o que a menina disse para que a mãe precisasse dizer aquilo. Queria correr atrás delas e perguntar. Mas era domingo e no domingo a gente não corre. Apenas fica ali, fingindo-se de estátua como na brincadeira de infância, para que a máquina do mundo não nos triture com seus dentes amarelos.

Estávamos sozinhos agora, os únicos clientes. No balcão o homem do caixa se esmerava em arrumar um vaso com flores de plástico porque ele também entendia que às vezes era isso tudo o que restava. Todo o controle que tínhamos sobre a vida eram estas flores que não morriam porque jamais tinham nascido. Ele sabia, o homem sábio, que ajeitando flores de plástico no velho vaso conseguiria ancorar na segunda-feira.

Eu adoçava meu café com o sal do meu próprio mar quando a família entrou. Um casal mais velho, de cabelos brancos, e um mais jovem. Pela mão um bebê que tentava dar seus primeiros passos. Mas só enxerguei a garotinha depois. Eu passeava meus olhos pelo rosto do velho quando ele me abriu um sorriso tão orgulhoso porque ele tinha certeza de que eu, como todos ali, só podia estar olhando para a coisa mais linda do mundo. Então rapidamente eu me refiz do meu enleio e abri o meu próprio sorriso confirmando que sim, não havia nada mais lindo que sua neta nem nunca haveria. Eles estavam pobremente vestidos, mas enfeitados para o domingo. Era sua melhor pobre roupa e a avó até tinha arrumado o cabelo. Possivelmente não tinham dinheiro para comer o prato do dia, então almoçaram em casa e pediam agora apenas um café de domingo.

A pequena portuguesa bamboleou suas perninhas gorduchas até a minha cadeira onde eu a amparei com as mãos. E tive certeza de que acabara de fazer parte de um grande descobrimento. O velho abriu de novo seu largo sorriso onde faltava a maioria dos dentes. Mas era um sorriso tão rico. Então compreendi. Ao compreender, quis sair correndo atrás da mãe e da filha com síndrome de Down para dizer que sim, a vida dói. Mas às vezes não.

Então o garçom sorriu para mim. Um sorriso de boca fechada, rápido o suficiente para que pudesse fingir que não tinha dado um sorriso. Mas eu sabia que agora pertencia àquele domingo que nunca mais sairia de mim. Era apenas uma janela para dentro, mas agora quando eu olhava também me via.

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