Rodopiando em Min

Minha despedida de Marcelo Min, fotógrafo que amarrou as pontas da vida. Meu amigo não queria morrer, mas morreu como quis: vivo.

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Lembro-me primeiro de uma noite de inverno. Marcelo Min e eu testemunhávamos, como repórteres, os últimos dias da vida de Ailce de Oliveira Souza, a mulher que nós dois aprendêramos a amar, ao acompanhar o seu morrer por 115 dias. Naquela noite, Ailce parecia ter começado a partir. Ela só abria os olhos para olhar o mundo do qual se despedia e para pedir água. Nós molhávamos os lábios dela e ficávamos olhando o mundo com ela. Nem Min nem eu conseguimos deixá-la naquela noite. Nos enfiamos num quarto vago na enfermaria de cuidados paliativos do hospital, onde seu último inquilino acabara de se ir. Eram duas camas e não havia lençol. Deitamos sobre o plástico e Min, sempre generoso, me deu o único cobertor fino para atravessar uma madrugada gelada. Até ancorarmos no dia seguinte, ele ficou repetindo que não sentia frio, mas tiritava. Naquela noite do inverno de 2008, ficamos ali, no escuro, dois passageiros clandestinos daquela enfermaria entre a vida e a morte. Conversando para costurar a madrugada e a dor com palavras. Min me contou que queria morrer como seu Antônio, um homem que ele tinha fotografado em outro quarto, seu Antônio que o recebia com uns olhos brilhantes, molhados de vida, mais vivo que todos, e de imediato contava uma história. Min foi o primeiro a perceber que seu Antônio acreditava que, enquanto emendasse uma história na outra, estaria vivo. E um dia apenas fechou os olhos para anunciar que sua história tão cheia de “um tudo” havia chegado ao fim.

Antônio Walter Correia abriu o sorriso antes de começar a contar uma das muitas histórias de sua vida. (Foto: Marcelo Min)

Antônio Walter Correia abriu o sorriso antes de começar a contar uma das muitas histórias de sua vida. (Foto: Marcelo Min)

Três dias depois, o contador de histórias encerrou a sua suavemente (Foto: Marcelo Min)

Três dias depois, o contador de histórias encerrou a sua suavemente (Foto: Marcelo Min)

Marcelo Min morreu na última quinta-feira (27/8). E eu ainda não posso afirmar que isso de fato aconteceu. Aqueles que amamos morrem devagar dentro da gente, e a qualquer momento eu sinto que ele vai chegar com aquele jeito meio tímido, com aquele sorriso inteiro bom, e dizer: “Oi, Eliane”. E depois faríamos alguma reportagem em que invariavelmente alguém o chamaria de “japonês”. E nós dois riríamos por causa dessa sina de que no Brasil todos os descendentes de orientais viram “japonês.” Min era descendente de coreanos. Mas ele morreu. E quando me pediram para escrever um texto sobre ele, minha reação imediata foi dizer: “não consigo”. Como escrever sobre o Min quando a morte dele me rouba todas as palavras? Naquele momento, eu me sentia como uma criança que ainda não sabia onde as palavras moravam. Agora, algumas horas depois, volto a ser adulta. Sei onde as palavras moram, mas sei também algo que jamais vou superar: as palavras são faltantes, não dão conta da vida. Então, Min, me perdoa por me faltarem palavras para contar da falta que você nos faz.

Na manhã de terça-feira (25/8), Min deixou os filhos na escola que ele e Luciana Benatti, sua companheira, ajudaram a criar. Sim, juntos eles eram assim, o Min e a Luciana. Criavam um mundo melhor, inventavam o que precisava existir. A gente nem sabia que precisava, mas eles sabiam. E inventavam. Min se despediu de Arthur, 7 anos, e de Pedro, 4, e foi ao Parque Villa-Lobos para fazer algo bem Min. Nos últimos dois anos ele tinha decidido aprender a patinar. E quando Min decidia fazer alguma coisa, fosse um gesto ou uma aventura arriscada, ele fazia. Ficou assistindo a tutoriais na internet e acabou por se tornar um artista da patinação. Luciana olhava para ele: “Aos 46 anos, Marcelo?”. Luciana sabia que Min era livre. E o amava livre. Min então rodopiava. Ele rodopiava quando se sentiu mal. Não houve queda, nem nada assim. Era um aneurisma no cérebro, um inimigo silencioso dentro dele. Logo Min perdeu a consciência. Dois dias depois, os médicos anunciaram sua morte cerebral.

Marcelo Min foi meu companheiro em todas as reportagens sobre a morte. E foram várias. Entre 2008 e 2010 empreendemos juntos essa travessia. Acho que só ele seria capaz de olhar para a morte da maneira revelada por suas fotos. Com tanta delicadeza. Tem gente que escreve com a ponta dos dedos. Min fotografava com a ponta dos dedos. Foi assim quando registrou uma mãe com seu bebê morto nos braços. Era uma foto tão difícil. Estávamos contando a rotina de uma UTI neonatal com cuidados paliativos, narrativas de mães que pariam filhos já condenados à morte próxima. A foto era um ritual que dava memória a um momento da vida daquelas mães e pais, uma certeza de que tinham cuidado da melhor forma que puderam, haviam feito todo o possível. Tinham sido mães e pais, ainda que por um curto espaço de tempo. A foto era o registro de uma história, ainda que essa história fosse um sopro. Mas só Min poderia fazer esse retrato para publicar numa revista de circulação nacional.

Josiane Pereira despede-se de sua filha Ana Luiza. A menina viveu apenas sete horas. Na sala de luto, na unidade de neonatologia, o marido, Giovani, a ampara e acaricia (Foto: Marcelo Min)

Josiane Pereira despede-se de sua filha Ana Luiza. A menina viveu apenas sete horas. Na sala de luto, na unidade de neonatologia, o marido, Giovani, a ampara e acaricia (Foto: Marcelo Min)

Nessa travessia reportera por contar o morrer, Min era mais sábio do que eu. Ele compreendia melhor a matéria da vida. No mesmo período em que peregrinávamos por camas onde a existência se encerrava, ele se dedicava com Luciana a um outro projeto, o de contar o nascimento. Ativistas, ele e Luciana, do parto natural e humanizado, Min ora era chamado para registrar estreias de bebês no palco do mundo, ora era chamado para documentar a despedida de quem deixava a cena. Vivia sob o imperativo de dois gritos, às vezes quase simultâneos: “Vai nascer!” ou “Está morrendo!”. Partia para ambos os destinos com a mesma serenidade e a mesma entrega desbragada. Nascer e morrer era muito semelhante, no ponto de vista dele, eram partes de um mesmo processo. O olhar amendoado de Min amarrava as duas pontas da vida. Nunca consegui confirmar o autor dessa frase que estou sempre repetindo, por perfeita que é, mas o legado fotográfico de Min deu uma imagem definitiva a esse aforismo: “A morte não é o contrário da vida. A morte é o contrário do nascimento. A vida não tem contrários”.

Denise, Lauro e a pequena Alice (Foto: Marcelo Min)

Denise, Lauro e a pequena Alice (Foto: Marcelo Min)

Arthur, o primeiro filho de Luciana e Min, fez sua estreia no mundo numa banheira de hospital e foi devidamente fotografado pelo pai. Pedro nasceu numa piscininha inflável, decorada com alegre fauna marinha e abastecida por uma mangueira e um velho chuveiro Lorenzetti, na sala do apartamento. Quando sentiu a primeira contração, Luciana achou que era a lasanha de berinjela do jantar se manifestando. Não era, e logo o porteiro do prédio foi ficando alarmado com as mulheres que chegavam de malinha no meio da noite para ajudar no parto em casa. Piorou a situação do porteiro quando Luciana começou a dar aqueles berros primais e libertadores na madrugada. Antes de começar a gritar nas contrações mais fortes, avisou ao pequeno Arthur: “Filho, para o irmãozinho sair da barriga, a mamãe vai ter que dar uns gritos de leão”. Arthur adorou. E a partir daí, sempre que sua mamãe leoa berrava, ele ria e batia palmas na maior empolgação. Foi assim, no estilo Luciana e Min de ser, que Pedro nadou para a vida. Marcelo e Arthur, pai e filho, cortaram o cordão umbilical. Quando Luciana acordou no dia seguinte, Marcelo serviu pão com requeijão. Eles eram assim. Eles serão sempre assim, juntos na memória da gente.

Luciana Benatti no parto de Arthur (Foto: Marcelo Min)

Luciana Benatti no parto de Arthur (Foto: Marcelo Min)

Luciana Benatti e Arthur (Foto: Marcelo Min)

Luciana Benatti e Arthur (Foto: Marcelo Min)

Na véspera do dia em que perdeu a consciência, Min levou os dois filhos para o estúdio e passou a tarde fotografando-os. À noite, uma amiguinha foi dormir na casa deles. Min botou as crianças na cama e, de novo, fotografou-as. Depois, ele e Luciana abriram uma cerveja e ficaram conversando sobre a vida. Eles sentiam-se num grande momento, “plenos” foi a palavra escolhida por Luciana. Viviam segundo suas próprias escolhas. Min disse a Luciana sobre como se sentia feliz por ter escolhido trabalhar menos para poder colocar os filhos na cama, como acabara de fazer. Min tinha escolhido uma vida viva. E sabia disso.

Nascer e morrer não foram os dois únicos temas da fotografia de Marcelo Min. Ele documentou muitos Brasis, vários mundos. Alguns deles comigo, muitos com outros repórteres. Várias vezes sozinho. Min não era um fotógrafo que esperava. Era ele mesmo um desbravador de histórias. Se o principal instrumento do repórter é a escuta, Min escutava com os olhos. Dentro daquele semblante sereno, habitava uma vontade indomável. Min era apaixonado e obcecado por suas paixões. E uma delas era a justiça. Foi assim na desocupação do Jardim Edite, em 2009, quando a especulação imobiliária expulsou 800 famílias depois que o metro quadrado daquela região de São Paulo se valorizou, entre a Avenida Berrini e a Ponte Estaiada. Alguns jornalistas acreditaram na versão oficial e deram a notícia de que todos os moradores haviam deixado o lugar. Mas Min estava lá, onde um repórter deve estar, por sua própria conta, sem que nenhum chefe tivesse mandado ou pedido. Ele acompanhava há meses o cotidiano da favela para contar o mundo invisibilizado, ainda que gigantesco, escancarado para todos que passavam pela avenida, mas preferiam não vê-lo. Min provou que havia restado uma casa, uma resistência. Registrou os últimos gauleses, Marcão da Pipoca e sua família, diante de uma casa pintada com “a cor do céu” entre os escombros do inferno de uma cidade que mastiga os mais pobres. Depois, me chamou para contar a história.

O casal José Marcos, conhecido como Marcão da Pipoca, e Maria Aparecida, sua filha Késia e o neto Miguel Isaías, diante de sua casa, numa favela que não existe mais, na Zona Sul de São Paulo (Foto: Marcelo Min)

O casal José Marcos, conhecido como Marcão da Pipoca, e Maria Aparecida, sua filha Késia e o neto Miguel Isaías, diante de sua casa, numa favela que não existe mais, na Zona Sul de São Paulo (Foto: Marcelo Min)

Na noite em que ele partiu, Luciana reuniu os amigos e os familiares que haviam ido ao hospital esperar com ela a confirmação da morte cerebral. Ela já era querida naqueles corredores, a mulher que chegara lá com o homem que amava, dizendo: “Se ele tiver que ir, deixa ele ir. Nós falamos muito sobre isso, não queremos nada invasivo, nenhum tratamento doloroso e inútil. Vamos respeitar o tempo dele”. Numa roda de amor, foi lido um texto escolhido por ela. E Luciana depois contou um pouco do Min. Ela disse muito. Disse também: “O Marcelo queria mudar o mundo. E acho que ele mudou”. Sim, ele mudou. O mundo e cada um de nós que o carregaremos no lado de dentro. Sei que sou um pouco o que Min fez de mim em nossas andanças. Pedaços de Min em mim. Em nós.

Ailce, a mulher que acompanhamos no seu morrer, nos ensinou que pensar sobre a morte é pensar sobre a vida. E pensar sobre a vida é pensar sobre o tempo. Ailce havia adiado demais e um dia descobrira que seu tempo tinha acabado. Ensinou, a mim e a Min, que o tempo é a delicadeza inegociável. Acho que Min aprendeu esse ensinamento essencial, talvez o mais profundo, melhor do que eu, que agora me resto a lamentar todas as vezes em que adiei para o dia seguinte o encontro que me levaria até ele. Não há dia seguinte. Não há nem mesmo hoje. Há esse instante, agora, em que tecemos nosso tempo. E sobre isso não podemos negociar, não há o que vender ou comprar. O tempo nem mesmo se aluga. O tempo tem de ser nosso. Já. Tomado de quem nos tomou, para ser tecido em nossos próprios termos.

Min morreu. E Min sempre me soou um nome – sobrenome – tão enigmático. Lembro-me agora da poesia de Drummond. E a adapto para o Min que nela é: “Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em Min. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim”.

Min partiu. Obedecendo ao seu desejo, claramente pronunciado em tantos dias, seus órgãos foram doados para fazer outros seguirem vivos. Min partiu-se para continuar íntegro. Antes, ele escreveu com Luciana um livro chamado Parto com amor. Min agora parte com amor.

Em um vídeo sobre a reportagem da morte, Min contou que Antônio, o contador de histórias, o ensinou a morrer: “Eu quero morrer que nem o seu Antônio. Até o último momento bem-humorado, até o último momento cheio de vida”.

Marcelo Min não queria morrer, mas morreu como quis. Rodopiando em seus patins, voando.

Min morreu vivo.

Quando a periferia será o lugar certo, na hora certa?

A maior chacina de 2015, em São Paulo, mostra que as palavras começam a matar antes da morte e seguem assassinando os vivos depois

Foto: UJS Osasco

Foto: UJS Osasco

Leia na minha coluna no El País:

As fotos do 13 de agosto mostram mulheres lavando o sangue dos mortos com rodo, como nos filmes B de terror. Se o rio vermelho escorre pelos degraus, as palavras ecoam para além da extensa fila de cadáveres. Elas matam lentamente, como balas em câmera lenta, que perfuram os corpos, se espatifam por dentro e vão corroendo os órgãos. Dia após dia, dia após dia, dia após dia. Mata-se e morre-se também na linguagem. As palavras silenciam os mortos para além da morte. E calam os vivos, mesmo quando eles pensam gritar.

(…)

“Estava no lugar errado e na hora errada” foi o comentário mais frequente dos familiares dos 18 mortos, seis feridos, na periferia de Osasco e Barueri, na Grande São Paulo, na maior chacina de 2015. A expressão dá conta de uma máxima: “na periferia há preto ladrão, branco ladrão e aquele que está no lugar errado e na hora errada”. A frase também culpa, ainda que indiretamente, aquele que morre.

Por que, afinal, ele estava aonde não deveria de estar, do lado de fora, na rua? Não tinha nada de estar ali. Para não estar na hora errada, no lugar errado, é preciso ficar trancado dentro de casa. Se estivesse trancado dentro de casa, estaria vivo. Comentários como estes são escutados o tempo todo nas periferias, tanto que se tornaram um clichê. Cada vez mais acuados, aqueles que não querem morrer se resignam a desistir do espaço público.

É a vida dos escravos, sonhada por seus senhores: de casa pro ônibus lotado, do ônibus lotado pro trabalho, do trabalho pro ônibus lotado, do ônibus lotado pra casa. Gente pobre não precisa de lazer ou o lazer é ver TV em casa, preferencialmente programas em que apresentadores, alguns deles com ambições eleitorais, criminalizam pobres e ofertam a imagem de seus corpos no altar midiático. Quem frequenta bar, sabe que pode morrer, é este o recado. Como na noite de 13 de agosto, como em tantas outras noites.

Leia o texto inteiro aqui.

Foto: reprodução Facebook "Mâes de Maio"

Fotos: reprodução Facebook “Mâes de Maio”

Memória e inquietações: a reportagem e a história em movimento

Memória e inquietações movem a segunda edição de Repórter. Criada em 2011, a série do Itaú Cultural foi idealizada pela jornalista Eliane Brum para documentar a experiência dos grandes repórteres brasileiros, registrando-a e tornando-a disponível na internet, assim como refletir sobre esse momento de mudanças profundas da imprensa. A reportagem é a narrativa da história em movimento. Seu percurso e suas contradições também revelam o seu tempo. Assim, Repórter tem a ambição de registrar a memória de quem conta a história do hoje, transformando-a em documento histórico para a consulta das gerações futuras. E, ao mesmo tempo, a ousadia de também construir memória, ao pensar sobre os desafios de fazer reportagem nesta época, na qual jovens jornalistas precisam encontrar um modo de fazer seu trabalho no contexto de um modelo de negócio em crise, assim como repórteres experientes confrontam-se com o imperativo de criar alternativas para continuar narrando o presente com toda a complexidade, as nuances e o respeito à alteridade que a reportagem exige.

José Hamilton Ribeiro: 60 anos de reportagem

Nesta segunda edição, que acontecerá em 2 de setembro, no auditório do Itaú Cultural, em São Paulo, o homenageado será o repórter José Hamilton Ribeiro. Aos 80 anos e ainda na ativa, ele é um dos maiores repórteres da história da imprensa brasileira. Em 60 anos de profissão, o paulista Zé Hamilton contou vários Brasis e vários momentos desses tantos países que convivem no mesmo território. Trabalhou em diversas publicações impressas, entre elas a lendária revista Realidade, e também na rádio e na TV. Tem 15 livros publicados e é vencedor de sete prêmios Esso.

Em 1968, Zé Hamilton testemunhou a Guerra do Vietnã. Nessa cobertura, perdeu a parte inferior da perna esquerda, na explosão de uma mina vietcong. Assim ele descreveu o momento: “De repente me senti no ar. Quando me dei conta, estava sentado no chão envolto em fumaça. Procurei meu intérprete, um americano de origem mexicana, e não o vi. Pensei que o rapaz tivesse morrido. Só aí senti que minha perna esquerda puxava. Olhei e não havia mais o pé. Só alguns minutos depois começou a doer”.

Tão logo voltou a si, depois da cirurgia de amputação, comentou, bem no seu estilo: “Este meu pé esquerdo sempre me deu problemas. Quando criança, tive nele uma tuberculose óssea. Não me fará muita falta. Pensando bem, tive sorte. No mesmo local em que fui e pisei a mina, pouco antes dois soldados morreram e um terceiro perdeu ambas as pernas e um braço”. Este é Zé Hamilton – ou “Zé Parmito”, como chamam os amigos reporteros mais íntimos. Ao ligar para ele para combinar essa homenagem, fomos encontrá-lo em campo, no Pantanal, reporteando para o programa Globo Rural, onde é repórter especial há mais de 30 anos.

Na década de 50, Zé Hamilton foi impedido de se formar no curso de jornalismo da Cásper Líbero, por ter liderado uma greve. Começou a trabalhar como estagiário na Rádio Bandeirantes. Nos corredores, encontrava-se com artistas da música caipira, com quem conversava, ainda sem perceber a sua importância para a arte e também para a sua vida de repórter. Ainda em 2015, Zé Hamilton vai lançar a reedição revista e ampliada de “Música Caipira: as 270 maiores modas” (Realejo), desta vez acompanhada de um DVD.

Em José Hamilton Ribeiro: 60 anos de reportagem, quatro grandes repórteres foram convidados para entrevistar o grande repórter: Clóvis Rossi, Ricardo Kotscho, Lúcio Flávio Pinto e Carlos Moraes. A entrevista encerrará o evento, a partir das 20 horas. A mediação será da repórter e curadora da série, Eliane Brum.

Lúcio Flávio Pinto: o repórter que inventou um Jornal Pessoal

A abertura de Repórter, às 15h, é também um encontro imperdível. Em O repórter que inventou um Jornal Pessoal, o entrevistado será Lúcio Flávio Pinto, jornalista paraense que se tornou a principal referência na cobertura da Amazônia. Depois de trabalhar em grandes veículos nacionais, incluindo 18 anos no jornal O Estado de S. Paulo, Lúcio Flávio criou, na década de 80, o seu Jornal Pessoal. Em setembro de 2015, o JP completará 28 anos de existência de forma totalmente independente: sem anunciantes publicitários. Com tiragem de 2 mil exemplares, o jornal tem 16 páginas, é quinzenal e vendido a R$ 5 em bancas e livrarias de Belém do Pará e região.

Nas palavras de Lúcio Flávio Pinto: “O objetivo é combater o ‘destino manifesto’ que se impõe à região, de ser colônia. Acredito com firmeza que a história não está escrita nas estrelas, restando-nos contemplá-las, à distância, como acidentes da natureza. Creio que podemos escrever também a história e, nessa escrita, sair da trilha dos colonizadores e da camisa de força em que nos colocaram os dominadores”.

Apenas parte do acervo do Jornal Pessoal está digitalizada na internet. Para Lúcio Flávio, o compromisso maior é manter o jornal vivo e materializado, arriscando-se ao contato íntimo do toque: “A versão impressa atesta o compromisso do jornal com o desafio de se manter visível, acessível no mundo real e exposto democraticamente nas ruas”.

Pela contundência de suas reportagens e pela independência de sua atuação, Lúcio Flávio ganhou vários prêmios nacionais e internacionais. Também escreveu 21 livros, todos sobre a Amazônia. As mesmas razões que o fizeram ser reconhecido no jornalismo, tornaram-no alvo de 33 processos judiciais e até de agressões físicas. O Jornal Pessoal já foi tema de matérias no Washington Post, Le Monde, The New York Times, Corriere della Sera, The Independent, entre outros. Para entrevistá-lo, foram convidados dois jornalistas com experiência reconhecida na cobertura amazônica e socioambiental: Leonêncio Nossa, do Estadão, e Paulina Chamorro, das rádios Eldorado e Estadão. A mediação será de Claudiney Ferreira e Eliane Brum.

Narrativas de Transição

Em seguida, a partir das 17h, será a vez do segundo encontro do dia: Narrativas de Transição. Neste painel, cinco jornalistas, com diferentes trajetórias, contarão como estão se inventando e reinventando de forma independente, neste momento de profunda transformação da imprensa. Bruno Paes Manso (Ponte), Laura Capriglione (Jornalistas Livres), Bruno Torturra (Fluxo), Kátia Brasil (Amazônia Real) e Rene Silva (Voz da Comunidade).

Qual é o lugar e a importância da reportagem nesta época histórica? Como continuar sendo repórter e contar o seu tempo no momento em que as redações da “grande imprensa” encolhem e, em alguns casos, a escolha é por demitir os repórteres mais experientes e bem pagos? Como manter a reportagem viva numa realidade em que as assessorias de imprensa são maiores do que a maioria das redações da “imprensa tradicional” e, muitas vezes, os releases são publicados como se notícia fossem? Como garantir financiamento para a reportagem sem comprometer a independência que assegura a credibilidade da história contada? Quais são os limites entre ativismo e reportagem? É possível construir alternativas para o jornalismo fora das redações convencionais?

Estas e várias outras são algumas das interrogações enfrentadas nestas narrativas de transição. Mas sempre contadas a partir do ponto de vista pessoal, que revela a singularidade de cada um dos repórteres em sua busca por se manter repórter. São depoimentos com duração de 15 minutos cada um, narrados de forma transparente, sem omitir nem as dúvidas nem as inseguranças nem o espanto, muito menos as contradições.

Reprodução Itaú Cultural

Eliane Brum e Audálio Dantas (Reprodução Itaú Cultural)

Na primeira edição, em 2011, a série Repórter homenageou o jornalista Audálio Dantas e teve a participação de Ricardo Kotscho, José Hamilton Ribeiro, Leonardo Sakamoto (Repórter Brasil), Natalia Viana (Agência Pública) e Rosângela Ramos (Boca de Rua). A íntegra das entrevistas pode ser assistida aqui.

Em 2016, já estão programados dois novos encontros para seguir registrando a memória dos grandes repórteres e debatendo os caminhos da reportagem neste novo mundo aberto pela internet e pela multiplicação das narrativas. A reportagem só é viva quando em movimento. É este movimento que a série Repórter busca documentar.

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Serviço: a segunda edição da série Repórter acontecerá em 2 de setembro, das 15 às 22 horas, no auditório do Itaú Cultural (Av. Paulista, 149 – Estação Brigadeiro do metrô), em São Paulo. O evento é aberto ao público. Basta retirar a senha, com 30 minutos de antecedência, antes de cada um dos três encontros. Haverá transmissão ao vivo pela internet. E tradução em LIBRAS. 

Morrendo na primeira pessoa

Depois de se tornar interdita e silenciada no século 20, a morte ganha cada vez mais espaço em narrativas confessionais de notáveis e de anônimos. Em nossa época, a internet e as redes sociais alteram também o modo como olhamos e falamos sobre a doença, o envelhecimento, o luto e o fim da vida

Leia na minha coluna no El País:

Em 24 de julho, Oliver Sacks, escritor, neurologista e um dos pensadores mais interessantes do nosso tempo, escreveu um novo artigo sobre o seu morrer, na página de Opinião do The New York Times. Em fevereiro, ele tinha anunciado que estava com câncer no fígado, sem possibilidade de cura, em um texto belíssimo sobre a vida, que foi traduzido e publicado no mundo inteiro. Agora, aos 82 anos, Sacks começa a se sentir nauseado e enfraquecido pela doença, mas não menos encantado e curioso com a existência. Ele segue esperando com alegria a chegada das revistas científicas, ansioso pelas descobertas sobre um universo que o fascina. Semanas atrás, ele estava no campo, longe das luzes da cidade, quando se deparou com a inteireza monumental do céu “polvilhado de estrelas”. Sacks concluiu: “Esse esplendor celeste de imediato me fez perceber o quão pouco era o tempo e a vida que me restava. Minha percepção da beleza do céu, da eternidade, era inseparável da minha percepção da transitoriedade – e da morte”. Contou então seu sentimentos aos amigos que o acompanhavam, Kate e Allen, dizendo: “Eu gostaria de ver esse céu novamente quando estiver morrendo”. E os amigos garantiram que fariam com que pudesse ver as estrelas uma vez mais.

Ao nos contar sobre o seu morrer, um morrer vivo, no qual a experiência de chegar ao fim é mais uma novidade para um homem curioso com o mundo e com a existência, Oliver Sacks tornou-se um dos sinalizadores de que algo fundamental está mudando na nossa época. E de forma bastante rápida, já que nosso tempo histórico é acelerado. Embora o silêncio sobre a morte, a doença e o luto ainda persistam na vida cotidiana – e talvez seja ainda o que se impõe para a maioria das pessoas –, já não vivemos a morte “envergonhada” ou “clandestina” que se estabeleceu no século 20. O doente terminal que finge que não está morrendo, para não alarmar nem a família nem a equipe médica, pode estar começando a se tornar um espécime em extinção. A morte começa a ficar desavergonhada – e especialmente confessional, bem ao tom desse momento em que se narra tudo nas redes sociais.

Leia o texto inteiro aqui.

Outras reportagens e artigos sobre o luto e o morrer:

 

A enfermaria entre a vida e a morte
Lá, eles respeitam o tempo de morrer. Lá, cuidar é mais importante que curar. Lá, todo dia eles respondem: prolongar a vida ou aceitar o fim?

A mulher que alimentava
Os últimos 115 dias da vida de Ailce de Oliveira Souza

Minha vida com Ailce
Eliane Brum conta como foi fazer uma reportagem que só terminaria com a morte da personagem principal

O filho possível
Acompanhamos uma UTI neonatal que trabalha com cuidados paliativos. Nela, a medicina faz diferença mesmo quando não há cura

A mãe órfã
Lutos mal elaborados também matam

A mulher que restou
Como viver depois de perder o marido e a filha única em 20 meses? Joan Didion responde à tragédia num texto delicado e brutal

A vida na “Tumorlândia”
O grande polemista Christopher Hitchens conta, com a inteligência e a ironia que marcaram a sua obra, como é a vida no mundo novo e muito peculiar no qual são lançadas as pessoas a partir do diagnóstico de um câncer

As mães não deveriam morrer
Resta-nos o movimento que transforma dor em saudade

Testamento vital
CFM prepara documento para garantir dignidade na morte

O mundo da gente morre antes da gente
A vida que conhecemos começa a desaparecer lentamente, num movimento silencioso que se infiltra nos dias, junto com aqueles que fizeram da nossa época o que ela é

Programa Profissão Repórter: Caco Barcellos, Eliane Brum e Thais Itaqui contam a rotina de uma enfermaria que cuida de pessoas no fim da vida

 

O FILHO POSSÍVEL

RETRATO DE ADEUS
Josiane Pereira despede-se de sua filha Ana Luiza. A menina viveu apenas sete horas. Na sala de luto, na unidade de neonatologia, o marido, Giovani, a ampara e acaricia. É dele a mão que afaga (Foto: Marcelo Min)

Por quem rosna o Brasil

Diante da ruína da autoimagem no espelho, o país parece preferir máscaras autoritárias a enfrentar a brutalidade da sua nudez.

Leia na coluna do El País:

O que é o Brasil, agora que não pode contar nem com os clichês? Como uma pessoa, que no território de turbulências que é uma vida vai construindo sentidos e ilusões sobre si mesma, um país também se sustenta a partir de imaginários sobre uma identidade nacional. Por aqui acreditamos por gerações que éramos o país do futebol e do samba, e que os brasileiros eram um povo cordial. Clichês, assim como imaginários, não são verdades, mas construções. Impõem-se como resultado de conflitos, hegemonias e apagamentos. E parece que estes, que por tanto tempo alimentaram essa ideia dos brasileiros sobre si mesmos e sobre o Brasil, desmancharam-se. O Brasil hoje é uma criatura que não se reconhece no espelho de sua imagem simbólica.

Essa pode ser uma das explicações possíveis para compreender o esgarçamento das relações, a expressão sem pudor dos tantos ódios e, em especial, o atalho preferido tanto dos fracos quanto dos oportunistas: o autoritarismo. Esvaziado de ilusões e de formas, aquele que precisa construir um rosto tem medo. Em vez de disputar democraticamente, o que dá trabalho e envolve perdas, prefere o caminho preguiçoso da adesão. E adere àquele que grita, saliva, vocifera, confundindo oportunismo com força, berro com verdade.

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), relacionado na delação premiada da Operação Lava Jato ao recebimento de 5 milhões de dólares em propina, teria dito a aliados: “Vou explodir o governo”. Tanto ele quanto o apresentador de programa de TV que brada que tem de botar “menor” na cadeia, quando não no paredão, assim como o pastor que brada que homossexualidade é doença são partes do mesmo fenômeno. São muitos brados, mas nenhum deles retumba a não ser como flatulência.

Num momento de esfacelamento da imagem, o que vendem os falsos líderes, estes que, sem autoridade, só podem contar com o autoritarismo? Como os camelôs que aparecem com os guarda-chuvas tão logo cai o primeiro pingo de chuva, eles oferecem, aos gritos, máscaras ordinárias para encobrir o rosto perturbador. Máscaras que não servem a um projeto coletivo, mas ao projeto pessoal, de poder e de enriquecimento, de cada um dos vendilhões. Para quem tem medo, porém, qualquer máscara é melhor do que uma face nua. E hoje, no Brasil, somos todos reis bastante nus, dispostos a linchar o primeiro que nos der a notícia.

Ainda demoraremos a saber o quanto nos custou a perda tanto dos clichês quanto dos imaginários, mas não a lamento. Se os clichês nos sustentaram, também nos assombraram com suas simplificações ou mesmo falsificações. A ideia do brasileiro como um povo cordial nunca resistiu à realidade histórica de uma nação fundada na eliminação do outro, os indígenas e depois os negros, lógica que persiste até hoje. Me refiro não ao “homem cordial”, no sentido dado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) em seu seminal Raízes do Brasil, mas no sentido que adquiriu no senso comum, o do povo afetuoso, informal e hospitaleiro que encantava os visitantes estrangeiros que por aqui aportavam. O Brasil que, diante da desigualdade brutal, supostamente respondia com uma alegria irredutível, ainda que bastasse prestar atenção na letra dos sambas para perceber que a nossa era uma alegria triste. Ou uma tristeza que ria de si mesma.

O futebol continua a falar de nós em profundezas, basta escutar a largura do silêncio das bolas dos alemães estourando na nossa rede nos 7X1 da Copa das Copas, assim como o discurso sem lastro, a não ser na corrupção, dos dirigentes da CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Mas, se já não somos o país do futebol, de que futebol somos o país?

Leia o texto inteiro aqui.

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