A história dentro da história

Eliane Brum conta como acompanhou a família Costa Pereira ao longo de todo o governo Lula

Quando propus a ÉPOCA contar a trajetória da família Costa Pereira, do final do governo Fernando Henrique Cardoso ao final do governo Lula, algumas pessoas da redação ficaram intrigadas com este testemunho de nove anos. Apresentei duas vezes, oralmente, a história desta família no exterior, em eventos sobre o Brasil em Ferrara (Itália) e em Madri (Espanha), e a curiosidade se repetiu. Jornalistas estrangeiros me perguntavam se eu continuaria acompanhando os Costas Pereiras no governo de Dilma Rousseff. Sim, claro que sim, eu respondia. Mas não exatamente pelas razões que eles supunham. Penso que preciso explicar como esta reportagem aconteceu – a história dentro da história.
Na virada de 2001 para 2002, eu fui incumbida de encontrar um brasileiro da Grande São Paulo que desse carne às estatísticas de um momento difícil para o Brasil. Buscava um chefe de família que, como tantos naquele contexto, tivesse perdido o emprego há tempo suficiente para compreender que seria muito difícil conseguir outro. Eu buscava um homem no instante da queda para contar um momento histórico específico do Brasil.

Tentei vários caminhos, como as listas dos cadastros de benefícios da prefeitura e do Estado de São Paulo. Consumi alguns dias perambulando pelas periferias sem encontrar o que procurava. Desempregados e pobres havia muitos. Mas eu buscava um momento muito específico, entre o final do seguro-desemprego e o início da percepção de que o controle da vida escapava pelo vão dos dedos. E buscava um homem capaz de dimensionar sua perda. Depois de alguns dias atravessando a Grande São Paulo de várias maneiras, num carro sem ar-condicionado e no auge do verão paulistano, o motorista perguntou: “Afinal, o que exatamente você procura?”. Eu esmiucei em detalhes. “Ah!”, disse ele. “Você procura o meu vizinho!”

E ele tinha toda razão. Como em geral têm os bons motoristas de imprensa – hoje infelizmente quase extintos, com a terceirização do serviço. No momento em que fui apresentada a Hustene Alves Pereira, no Jardim Veloso, na periferia de Osasco, eu soube de imediato que era ele. Seus olhos queimavam no quarto mês de desemprego. Ele era um homem vivo – com medo de ser esmagado pelo Brasil e pelo discurso da exclusão.
Nos reconhecemos ali. Tenho convicção de que toda reportagem é um encontro entre personagem e jornalista. Só acontece quando este encontro é de verdade. Para isso, é preciso existir um movimento de entrega de ambas as partes: eu me abro para ouvir a sua história sem preconceitos e você se abre para contá-la com tudo o que ela é, o feio e o bonito. Com Hustene e sua família foi assim.

Passamos dias juntos, Hustene e eu, vencendo quilômetros em busca de emprego, a pé porque ele não tinha dinheiro para o ônibus. Nestas longas caminhadas Hustene me contava da angústia do seu presente, dos sonhos de seu passado e do futuro que não mais enxergava. Testemunhei do meu canto a delicadeza com que sua mulher, Estela Costa, tecia com o que lhe restava de linha não só tapetes para vender, mas uma rede para que sua família não se afogasse. Seus quatro filhos, alguns com mais intimidade do que outros, me falavam de seus anseios. E às vezes eu apenas ficava ali, observando sem nada dizer.
Repartiam comigo também o seu feijão com arroz. Algumas pessoas, ao saber que eu comia em sua mesa, ficavam indignadas porque o que eles tinham já era tão escasso. Este é um tipo de conclusão de quem pouco entende de gente e pouco pisou em favelas e periferias. Nada seria mais ofensivo para Hustene e Estela do que minha recusa em compartilhar o que tinham – mesmo que fosse quase nada. E eu nem cogitei tal desfeita.

A reportagem, com o título de “O Homem-Estatística”, foi publicada em fevereiro de 2002, no último ano do governo FHC e também no ano em que Lula, depois de três tentativas, finalmente venceria a quarta eleição. É neste momento que começa o capítulo mais surpreendente da história dentro da história.

Há uma pergunta recorrente que estudantes de jornalismo costumam fazer quando dou palestras em universidades: “Você se envolve com as fontes?”. Minha resposta é sempre a mesma: “É claro que sim!”. Se não me envolvesse, para que viveria? Deixando sempre bem claro que este envolvimento inclui um profundo respeito pela história que conto e que pertence ao outro – e isto significa escutar sem julgar e interferir o mínimo possível.

Hustene e eu criamos um vínculo. E um que hoje, quando olho para trás, penso que era muito mais claro para ele do que para mim. Eu era a contadora de sua história. E foi assim que Hustene continuou narrando fatos e sentimentos mesmo depois da reportagem publicada. Ele, por sua vez, passou a acompanhar a minha vida de repórter. Assim que a situação financeira melhorou um pouco, em meados da primeira década deste século XXI, Hustene assinou a ÉPOCA para poder ler e recortar minhas reportagens. Meus livros também estão na prateleira do seu novo escritório, figuras humildes entre vistosos best-sellers.

Seguidamente sou mencionada em seus diários – ele não esquece jamais nem o dia do jornalista nem o dia do escritor. E há uma foto minha perto de Nossa Senhora de Fátima para me proteger do risco de algumas reportagens. Especialmente se viajo a trabalho de avião, uma criatura alada da qual Hustene tem pavor. Cada vez que descobre que vou embarcar em algum, ele reza.

Segui acompanhando os principais acontecimentos da vida da família, às vezes mais de perto, em outras mais de longe. As contas de luz e água cortadas, os empregos e desempregos dos filhos, os Natais tristes, a volta da carteira assinada depois de Hustene amargar três anos e sete meses sem trabalho, a felicidade de ser o “Porteiro Pereira”, a doença de Hustene, o péssimo atendimento do SUS, a decepção com a educação pública e, finalmente, a vida melhorando e as portas do consumo se abrindo. Perpassando tudo isso, a profunda identificação com Lula, primeiro como decepção, depois com orgulho. E uma visão de mundo muito particular.

Hustene e sua família seguiram fazendo a narrativa da sua vida. E eu segui escutando com atenção e cuidado. Primeiro por telefone, depois por email. Hustene escreve muito – e escreve com verdade. Sobre fatos, sobre sentimentos, sobre sua percepção do país. Tenho uma coleção de emails de uma riqueza extraordinária sobre sua visão do governo Lula e do Brasil – e de sua família no governo Lula e no Brasil. Hustene organiza a sua existência tantas vezes por um fio escrevendo diários a Nossa Senhora e, antes, também escrevia a Che Guevara. A mim concede o privilégio de escrever sobre a trajetória de sua família e sobre sua própria escritura. Sou o olhar externo – de dentro.

Sempre tive clareza do meu lugar na casa da família Costa Pereira. E tento estar à altura do meu posto de “escutadeira” de uma história de vida. Mas este também é um lugar amoroso. E foi muito difícil vê-los passar Natais de penúria, como aquele em que Estela serviu apenas farinha com cebola, sem interferir. Foi Hustene, mais do que eu, que teve a sabedoria de riscar os limites e assim manter o mais importante a salvo. Como quando fiquei – e fico – muito angustiada com a deterioração de sua visão por uma doença degenerativa causada pela diabetes. Ele não recebeu até hoje nenhum tratamento. A (des)assistência do SUS é desesperadora. Me ofereci para pagar um tratamento privado. Não consigo imaginá-lo cego – não por falta de assistência. Ele recusou na hora, enfaticamente. Entre nós, não pode existir dinheiro nem favores.

O que eu mais gosto na vida é escutar, ler e escrever. Acompanhei a história da família Costa Pereira sem nenhum propósito de publicá-la. Mas sempre guardei tudo o que Hustene me enviou por escrito por aquele amor que a gente tem pelo testemunho histórico. E, no meu caso, porque tenho especial apreço pela grandeza das vidas supostamente – e só supostamente – comuns. Fiz apenas mais uma pequena reportagem sobre a interpretação de Hustene do primeiro ano do governo Lula, já que ele gravara todas as promessas de campanha e escrevera uma carta “ao amigo presidente”, e contei seu sofrimento em minha coluna no site da revista quando os peritos do INSS fizeram greve e ele ficou sem benefício, como milhares de brasileiros.

Só em 2010 percebi que tinha algo precioso e inédito nas mãos: a trajetória de uma família no governo Lula, a ascensão da pobreza à “nova classe média” contada pelo particular, um retrato íntimo e privado dos personagens mais importantes deste momento histórico. Pedi então licença para contar sua história e fiz várias entrevistas com todos os membros da família. Posso afirmar que só compreendi grande parte do significado, das nuances e das contradições do governo Lula quando pude enxergá-lo pelos olhos da família Costa Pereira. Espero que tenha conseguido transmitir este olhar aos leitores na reportagem publicada nesta primeira edição de 2011, logo após a posse de Dilma Rousseff – e da despedida (oficial) de Lula.

Como foi possível testemunhar a história da família Costa Pereira nos últimos nove anos? Porque Hustene Alves Pereira é um personagem que escolheu seu autor. E, para minha sorte, este autor sou eu.

(Publicado na Revista Época em 29/12/2010)

Ao amigo presidente

Eleitor gravou todas as promessas de Lula e fez o próprio balanço do primeiro ano do governo

O brasileiro Hustene Pereira terminou o primeiro ano do governo Lula sem emprego e, a suprema ironia, com bursite. Foi o que o médico do plantão lhe disse depois de examinar as radiografias: ‘Tá com doença de presidente’. Não era exatamente essa a herança que ele esperava do homem que ajudou a eleger. Doía mais o coração que o braço direito quando, nos últimos dias de dezembro, Hustene trancou-se no único dormitório da casa e só saiu depois de assistir a seis horas de fitas gravadas em vídeo. Nelas, ele tinha registrado todas as promessas de Lula para que pudesse fazer seu balanço pessoal do governo. Saiu do quarto constrangido.

Desgostar do governo mas não conseguir xingar o presidente é o que há de realmente novo em sua vida. Ele acha que o país não mudou, mas continua tendo uma empatia enorme por Lula. Ao preencher quatro páginas em letra corrida numa carta endereçada ao Planalto, Hustene reclamou do desemprego, que joga gente como ele no abismo, do Fome Zero, que parece atolado no marketing, de que Lula saracoteou muito no estrangeiro quando os problemas estavam bem aqui, em sua barba aparada. ‘Essa conversa de que pegou o país endividado, precisa de mais quatro, oito anos, eu ouvi dos outros. Dele, não posso ouvir’, diz. Assim mesmo, despediu-se com um ‘forte abraço ao amigo Lula’.

Hustene não é petista, é lulista. Sem ser filiado ao PT ou militante, ele votou em Lula em 1989, em 1994, em 1998 e finalmente em 2002. E votaria mais ä quatro vezes se fosse preciso. ‘Eu assisti à posse chorando. Tinha certeza de que voltaria ao mercado de trabalho’, cobra. ‘A gente não está pedindo absurdos. Um homem não quer esmola, vale-isso, vale-aquilo. Quer salário. A dignidade do homem é levantar, sair para trabalhar e pagar as contas.’

O último trabalho registrado na carteira de Hustene terminou em 17 de outubro de 2001. Em fevereiro do ano seguinte, ele ilustrou uma reportagem de ÉPOCA sobre desemprego. Dava rosto à estatística de milhões de pais de família que se descobriram do lado de fora da porta – depois de experimentar o gosto das ofertas nas prateleiras do consumo e de prometer aos filhos que se estudassem mais venceriam na vida. Ele sempre havia trabalhado no escritório de empresas, orgulhoso de sua datilografia e escrituração fiscal. Passou dos R$ 1.000 de salário. Em mais de dois anos de desemprego conseguiu fazer dois bicos como trabalhador braçal. No segundo, já completa um mês. Acorda às 4 horas para ajudar na carga e descarga de bebidas e alimentos. Ganha R$ 15 por dia quando há serviço. Em média, R$ 200 por mês sem benefícios.

‘Aos 44 anos de idade, estou no zero’, conclui. Ele não é do tipo que se entrega. Hustene é do gênero esperneante. Cansado de ouvir que não conseguia trabalho porque só tinha a 7ª série, bateu na porta do supletivo. Em dois anos de desemprego se formou no ensino fundamental, e faltam três matérias para ganhar o diploma do ensino médio. No meio, fez um curso de computação. Na escola, copiava tudo o que ouvia. Não perde documentário ou noticiário da TV e assim vai complementando a educação. Fez questão de escrever a carta a Lula para se certificar de que ele, Hustene, existe.

Acha que um homem precisa de futebol, fé e ideologia para não perder a sanidade. Fincou três pilares no assoalho de sua brasilidade: Corinthians, Nossa Senhora de Fátima e Che Guevara. O que sente pelo presidente é próximo do que nutre pelo Timão. Tanto um como o outro o decepcionaram no ano que passou. ‘Lula e o Corinthians empataram em 2003’, diz. ‘Jogaram para não cair.’ Mesmo assim, continuará torcendo por ambos. Não por um amor incondicional, mas por pertencerem ao reduzido rol de escolhas que definem o caráter de um homem.

Ao usar uma das metáforas preferidas do presidente, Hustene não está confundindo futebol com política. Está dizendo que perder a esperança tanto em um como no outro lhe custaria mais do que pode pagar nesta altura da vida. ‘A esperança que eu tive nestes anos todos era a de um trabalhador no governo. Se ele falhar, o que me resta? Rezo a Nossa Senhora de Fátima que ele não chute o pênalti para fora.’

Hustene escreve à noite na cozinha para não se sentir só, a mulher, a neta e dois filhos dormem no quarto, os dois mais velhos no chão da sala. Em forma de diário, manteve o ‘camarada Che’ informado. ‘Che, hoje o Brasil tem alguém digno dele’, na vitória. ‘Que o espírito guerrilheiro acompanhe o Lula nesta batalha’, na posse. ‘Aos 40 anos somos nós reserva do passado’, em junho. ‘Somos sufocados por uma herança neoliberal’, em julho. ‘Falta pulso’, em outubro. ‘É quase um ano de um governo com que tanto sonhei e não vi coisas concretas, mas espero ver ainda’, em dezembro. ‘Olha, Che, não desabafarei mais este ano. Estou preocupado com o Lula.’

No primeiro ano do governo, o Natal de Hustene passou sem peru nem presentes. O nome continuou sujo no SPC. A carteira de trabalho seguiu em branco. Hustene prometeu manter sua esperança em Lula por mais três anos. Só espera que, ao final, não lhe dêem para a vida a mesma solução que o médico deu para a bursite: ‘Não tem cura, só nascendo de novo’.

(Publicado na Revista Época em 05/01/2004)

O homem-estatística

Os novos pobres brasileiros vivem nos grandes centros urbanos, têm experiência profissional, são casados e chegam a ficar um ano desempregados. Hustene Pereira é um deles. Foi apontador de indústria, operador de produção, auxiliar de escritório e até garçom. Há quase cinco meses procura um emprego

ELIANE BRUM
Revista Época

Hustene Pereira ficou pobre quando descobriu que não poderia mais comprar Danoninho. Nem biscoito recheado, leite condensado, refrigerante, cerveja, salsichas, margarina light. Entre ele e as promessas dos anúncios da televisão se instalara um abismo. As necessidades que durante décadas aprendera a cultivar de repente haviam retornado à essência de fumaça. Hustene ficou pobre quando perdeu os símbolos de sua vida. Primeiro, foi a carteira de trabalho, que já não servia para nada. Depois a experiência profissional se esvaziou de significado nas filas do desemprego. Em seguida, teve o cartão de crédito arrancado, o talão de cheques bloqueado, o plano de saúde encerrado. Quando Hustene percebeu, não tinha perdido só o Fusca 1970 para o agiota e 30 dos 32 dentes da boca. Haviam lhe roubado a história. Tinha traído o pai e os filhos, pregado na cruz da exclusão da nova pobreza brasileira.

O Brasil urbano e metropolitano, consumidor de valores e produtos, não chafurda no mangue de Josué de Castro nem peregrina pela terra calcinada de João Cabral de Melo Neto. Despenca, sim, nas ruas das metrópoles que a literatura germinada na pobreza recém-pressente, fascinada ainda pelo que há de clássico – e brutalmente imutável – no brasileiro miserável, nutrido de vermes e descalço de sapatos e letras do nordeste sertanejo, das barrancas ribeirinhas da Amazônia e de berços geográficos da fome como o Vale do Jequitinhonha.

Foi desse mundo e dessa literatura descarnada que a dinastia de Hustene Alves Pereira veio nos anos 60, com o pai e o avô, do Rio Grande do Norte para a cidade de Osasco, na periferia de São Paulo. E engravidou-se de subjetividades outras para montar um novo retrato. Não em preto e branco, mas radicalmente colorido como as imagens da televisão. Marcado em sua vida pelo dia inesquecível em que ele, office-boy, entrou nas Lojas Columbia com o dinheiro para comprar uma TV colorida para a mãe. Sujeito de sua história, sentou-se num bar e tomou uma cerveja para comemorar. Depois pegou um táxi e acendeu um cigarro. “Última geração”, disse ao motorista. “Digital. Basta tocar os dedos e o canal aparece.” Foi assim, na troca de uma Semp preto-e-branco por uma Sharp em cores, que o clã familiar abandonou as raízes clássicas e ingressou em outra sociologia, deixou o rastro de migrante nordestino e instalou-se definitivamente no anel metropolitano da maior cidade brasileira.

Por isso, quando Hustene se descobriu pobre, o fez com todas as cores. Antes sua estirpe acreditava que nada tinha – e o que queriam era só mais água e menos fome – porque Deus os havia feito de um molde de sofredores. Primeiro o pai, Raimundo e metalúrgico, e depois Hustene, no serviço limpo do escritório das indústrias, construíram uma nova gênese. Dos verdadeiramente despossuídos, porque possuíram e perderam. Hustene tornou-se muito mais pobre que seus antepassados descritos no cinema de Nelson Pereira dos Santos.

Esse é o retrato de Hustene, um brasileiro de 42 anos, conhecido na vizinhança como Pankinha porque um dia teve pose. Dono hoje apenas dos signos que ainda não lhe saquearam: Corinthians e Nossa Senhora de Fátima. Corinthians, ele acredita, nasceu com ele, imiscuído clandestinamente em seu DNA sem que o pai são-paulino percebesse. Desde 1974 ele monta álbuns gigantes, construindo com recortes de jornal a própria versão da história do “timão”. Não se limita aos jogos, mas acompanha a vida dos jogadores, os filhos que nascem, os casamentos que se fazem e desfazem, as louras peitudas que se sucedem na vida de cada um.

Nossa Senhora de Fátima despontou em seu caminho quando o terceiro dos quatro filhos nasceu meio morto e ele abriu a Bíblia em busca de um sinal. Intimou: “Se for para me trazer felicidade, faça com que sobreviva. Se não, o leve embora”. Diego vingou e já saiu do hospital circunspecto, adulto antes mesmo de lhe aparecerem os dentes, por conta dessa responsabilidade toda que lhe pesava sobre as costas, lavrada com ninguém menos que a mãe do Salvador. Aos 14 anos hoje, assumiu o lugar do pai no sustento do lar sem que ninguém lhe pedisse. Gasta os dias descarregando caminhões abarrotados com 650 galões de 20 litros de água cada um e entregando-os de casa em casa. Pela labuta recebe R$ 15 por semana, depositados na mão da mãe a cada sábado para comprar o feijão, o arroz e o ovo da resistência nutritiva da família.

Ao voltar de cada jornada de trabalho, tem tempo apenas para o banho antes de despencar para a escola noturna em que cursa o primeiro ano do ensino médio na esperança de tornar-se arqueólogo. Ao vê-lo voltar da lida, o pai afoga-se no suor da camisa do filho e admite: “Agora você é o homem da família”. Pede dinheiro para o cigarro e depois chora. Então pega o diário e escreve a Nossa Senhora. Foi a ela que contou, em 14 de outubro de 2001: “Um dia, mãe, irei vencer na vida com certeza”. Disse isso alquebrado, porque, depois de progredir por toda a década de 80, superando os R$ 1.000 líquidos de salário, foi deslizando o despenhadeiro dos 90, encerrando o século e o milênio mal alcançando os R$ 700 brutos, esfalfado de horas extras em empregos com avareza de benefícios. Dois dias depois de anunciar à santa a certeza de seu sucesso perdeu o emprego.

Na abertura de 2002, acuado no único quarto da casa, fugiu dos fogos porque descobriu que para alguns o ano não termina. “Querida Nossa Senhora de Fátima. Início de um novo ano. Espero poder arrumar um novo emprego o mais urgente possível. Não comemorei a entrada de ano porque sem dinheiro, emprego, comemorar o quê? Só comemorei porque estou vivo”, escreveu na primeira página. E assim foram se sucedendo os dias sem que as dores se alternassem. “Querida mãe, hoje, como era de esperar, o primeiro dia útil, os meus cobradores não se esqueceram de mim. Tudo bem, eu devo e quero pagar, mas como, se nem emprego eu tenho?”, no dia 2 de janeiro. “Sabe, mãe, as coisas estão tão difíceis que não sabemos mais o que fazer”, no dia 8. “Estou ainda ‘desempregado’, esta palavra causa medo, vergonha e incrimina qualquer pessoa de bem. Espero um dia poder me livrar desse mal”, no dia 14.

À medida que os dias vão escorrendo, a letra de Hustene, tão orgulhoso da caligrafia e do ginásio tirado quase até o fim, vai piorando, esparramada pelas páginas em vogais e consoantes gordas de dor e quase tão indecifráveis como a realidade que o abalroou. “O mundo é um moinho, vai triturando a gente e fazendo da gente uma farinha. Moendo, moendo. E de nós uma escória granulada.” Hustene desenha então seu auto-retrato em traços de melancólica ironia. Na sacada da casa de três peças que não conseguiu terminar, enquanto os adolescentes dormem no chão da sala, embrabece com Nossa Senhora na madrugada. “Mãe, se faltar o feijão e o arroz na mesa eu vou ao supermercado, entro correndo, sem armas porque só tenho um estilingue, e vou preso porque roubei para a minha família comer”, desabafa. “Não faço mal pra ninguém, tou ferrado, família passando o que tá passando, tou vendo meu filho ralando pra trazer pão pra dentro de casa. Por que as portas estão se fechando?”

Nessas madrugadas solitárias, Hustene arrisca-se a debruçar-se sobre a sacada porque sabe que ninguém o verá. “De dia fico escondido. Tenho vergonha que alguém me veja e pense que sou vagabundo”, explica. À noite ele assoma, como um vampiro, um boitatá, criatura deformada por maldição – a dele, a do desemprego e da pobreza –, marcado como um chefe de família decaído, que perde o lugar na luz do sol e na casa quando não consegue mais cumprir sua função.

Quando o primeiro ônibus carregado de trabalhadores passa na esquina, às 4 horas, Hustene vai dormir derrotado. Acorda com a campainha do telefone, que só recebe ligações porque a conta foi cortada. A voz feminina do Itaú cobra a dívida do empréstimo e do cartão de crédito, numa rotina encerrada sempre com a mesma resposta. “Sou brasileiro, minha pátria é caloteira, puxei à minha mãe. Pode botar no SPC.” Em seguida suspira, pede perdão a Raimundo, o pai, por ter se tornado mau pagador. Quando a esposa, Estela, foi fichada no SPC por não ter pago as prestações do conjunto de sofás verdes da sala, atravessou a cidade para informar que o nome correto não era “Estelita” como registraram, mas Estela.

Depois Hustene despe a camiseta do Corinthians “para não discriminarem no caso do patrão ser do Santos, Palmeiras ou São Paulo”. Enverga a camisa em tom pastel de procurar emprego, o único jeans. Calça o último par de sapatos, bem engraxados na véspera. Estela coloca em sua mão o dinheiro do ônibus. É ela quem administra a escassez com a precaução de deixar sempre na carteira 20 centavos, na certeza de que darão cria. Hustene parte sobre rodas, um luxo, para não chegar suado ao Centro de Solidariedade ao Trabalhador, mantido pela Força Sindical, em Osasco, diante do qual se formam todos os dias filas de centenas em busca de uma vaga. Vão todos e Hustene tecendo utopias sobre o dia em que pegarão o emprego de presidente da nação e assinarão a carteira do Brasil inteiro.

Ao entrar no prédio, ele deixa de rir. Acostumou-se a esconder o vazio da boca para não espantar um improvável empregador. Duas horas depois está no topo do edifício, escutando a psicóloga. Já ouviu o mesmo discurso sete vezes. “Bom dia”, ela diz. E pede que todos repitam mais alto e mais alto, com a certeza de que as chances de conseguir uma vaga são diretamente proporcionais à alegria espontânea do desempregado. “As empresas são caça-sorrisos”, garante ela, para desespero de Hustene, que instintivamente leva a mão aos lábios e sente-se banido do mercado de trabalho para todo o sempre, sem dinheiro sequer para uma prótese. “Qual é o objetivo de todos nós? Não é chegar ao topo? Degrau por degrau”, segue ela. E um “é” mais alto e mais alto emerge das gargantas cadeadas pelo desespero. A psicóloga inspira-se em “um tal de Roberto Shinyashiki”.
Logo Hustene descobre que está malvestido para aquela festa. “Jamais calça jeans”, decreta a moça. Por sorte, a camisa pastel está corretíssima para a fashion week do desemprego. Mas o maço de Hollywood dele não deve assomar de jeito nenhum. Hustene e os seus ainda são obrigados a bater os pés e as palmas várias vezes antes de ser dispensados. “Trabalhador se vê pela carteira”, murmura, magoado. Mais uma hora e lá está ele diante da lourinha do guichê. Só há uma vaga de auxiliar de serviços gerais, mas exige ensino fundamental completo. Para Hustene faltou um ano. Em um minuto ela o dispensa mandando-o estudar mais. Amanda, de 17 anos, a filha mais velha, que passou a acompanhá-lo na peregrinação, está terminando o ensino médio e tem curso de computação, mas é recusada por falta de experiência. Barrados pai e filha, duas gerações despachadas para a rua. É essa justamente a parte que Hustene não entende, agarrado à ilusão de que os filhos terão um lugar por causa do diploma.

“Eu fiz latim no ginásio”, desespera-se Hustene, espiando a auto-estima estirada no asfalto. “Será que não tenho condições de passar um pano?” Não tem. É o que descobre no calçadão da cidade, diante de cada placa de oferta de emprego. “Agora precisa ter ensino médio completo para ser faxineiro”, constata. Uma cigana lhe oferece o futuro na mão, mas até para a sorte é preciso ter verba. Sem mais nada para fazer, decide pesar-se. Sobe na balança e espera. Não vê o cartaz que exige 50 centavos para registrar os 4 quilos engolidos pela expulsão do mercado de trabalho.

Refaz os quase 10 quilômetros da volta a pé, debaixo do sol do meio-dia. Vai para todo lugar caminhando, na marcha forçada que batizou de “malhação do pobre”. Já recebeu convites para se bandear para o outro lado, do tráfico de drogas às ligações clandestinas de TV a cabo. Recusou todos. A honestidade de Hustene é muito mais complexa que a mera obediência à lei, tão fácil quando se está contemplado no projeto do país e uma guerrilha cotidiana de resistência no caso de excluídos como ele. Trilhando a desesperança com o sapato gasto, Hustene é uma imagem triste, mas encarna a melhor novidade. Ao contrário da dinastia de miseráveis que deixou para trás nos sertões do Brasil, ele se recusa a participar de qualquer programa assistencial, como renda mínima, frentes de trabalho, cesta básica. Aceita apenas o salário-desemprego.

Para o brasileiro Hustene, tudo o que não vem do trabalho é esmola. “Não quero esmola nem do governo nem de ninguém. Quero é pagar minhas contas. Quero é trabalhar. Não queria nem seguro-desemprego. Não estou produzindo para ganhar esse dinheiro”, desabafa, como se não houvesse gotas do próprio suor na assistência social brasileira. “São Paulo é o coração do Brasil, acolhe todo mundo. Eu me sinto um inútil. Tou produzindo o que para São Paulo e para o Brasil?” Filho de metalúrgico, já freqüentou o PCdoB. Deixou de acreditar quando perdeu o emprego. Restou-lhe a militância silenciosa de sua devoção ao “companheiro” Che Guevara.

Nos descaminhos de asfalto que palmilha, Hustene empreendeu uma viagem de descoberta do país. Diante de cada porta fechada, percebeu que o Brasil havia desistido dele e de sua família e haviam esquecido de avisá-lo. Não é uma vaga de emprego que lhe negam, é um lugar no projeto da nação. “O que mais me dói é que não consigo emprego por exigência de estudo. Aí não vou poder continuar dando estudo para os filhos. Vão ficar pai, filhos e netos trabalhando sem educação, no serviço que aparecer. Ficaremos todos sem escolha”, desespera-se. “Eu trabalhava em escritório, tinha datilografia e escrituração fiscal. Meus filhos iam comigo trabalhar e ficavam orgulhosos. Agora me tornei analfabeto, fiquei fora da informática. Se conseguir um emprego será de faxineiro. Vou começar do zero e não estou no zero. Não sou contra a tecnologia, mas é uma concorrência desleal. E meus filhos não têm computador. E eu não terei o dinheiro para mandá-los para a faculdade. E assim estaremos todos acabados.”

Essa é a alma do precipício que as mãos de Hustene apalpam a cada dia, os dedos agarrando-se às gramas das bordas. Em março receberá a última parcela dos R$ 336 do seguro-desemprego. Depois, serão só os R$ 15 semanais trazidos por Diego, os R$ 50 mensais dos bicos de Rodrigo, as toalhas bordadas e os tapetes de crochê feitos por Estela. Em fila, os eletrodomésticos conquistados em uma vida inteira de trabalho aguardam a penhora. Nem assiste à novela porque tem “muita luxura”.

Debruçado sobre o abismo metropolitano, Hustene tem um plano: “Eu e o amigo Tião, que tem mais de 50 anos, já combinamos. Vamos fazer uma viagem até uma montanha e esperar um disco voador. “

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