O poderoso lobby do amianto

A fibra cancerígena está na vida de todos nós e no corpo de muitos. Proibida em mais de 60 países, é liberada no Brasil

Na semana passada, a Corte Di Cassazione de Roma anulou a sentença de 18 anos de prisão e o pagamento de 100 milhões de euros a que havia sido condenado o bilionário Stephan Schmidheiny, herdeiro da Eternit suíça e fundador da Avina. Por prescrição do crime – e não por inocência. No tribunal foi dito que o Direito e a Justiça nem sempre andam juntos, mas os juízes devem seguir o Direito, uma frase muito interessante.

O processo, histórico, foi liderado pelas vítimas e familiares de vítimas de uma pequena cidade italiana do Piemonte chamada Casale Monferrato, que coleciona centenas de mortes por contaminação ambiental por amianto. No tribunal, ao ouvir a anulação da sentença, os moradores e vítimas gritavam: “Vergonha!”.

No Brasil, como se sabe, o amianto é permitido, com exceção de alguns estados, apesar da coleção de mortes de trabalhadores, nas últimas décadas, por asbestose e mesotelioma. E, cada vez mais, o amianto é usado nas casas dos mais pobres, em periferias e favelas, nas aldeias indígenas e quilombolas, nas colocações de ribeirinhos. O pico da contaminação ambiental por amianto, segundo os especialistas, ainda está por vir. Aqui, vivemos o poderoso lobby da indústria que, em seus métodos, segue fielmente o paradigma do lobby da indústria do tabaco, tão claro em filmes como “O informante” e “Obrigado por fumar”. Hoje, o Brasil é o terceiro produtor mundial, o terceiro exportador e o quarto usuário de amianto.

Stephan Schmidheiny é um personagem fascinante. Para alguns um herói, para outros um vilão. Desde os anos 90 faz uma bem sucedida “lavagem de biografia” – ou de “greenwashing”. De príncipe do amianto se tornou “filantropo” e “ambientalista”. Ganhou prêmios, honrarias, capas laudatórias de revistas. A fortuna construída em boa parte com o amianto passou a financiar ações assistenciais e projetos socioambientais.

A operação, altamente eficaz, é parte da explicação de por que, em vários países e também no Brasil, os trabalhadores do amianto lutam e morrem sozinhos, sem que setores da população, historicamente ligados aos direitos humanos e ao movimento socioambiental, lutem com eles naquele que já é internacionalmente conhecido como um dos maiores escândalos de saúde publica da história e que começa a ser compreendido como um desastre ambiental de enormes proporções. Banido na maior parte do mundo desenvolvido, o amianto hoje faz estragos em países como Brasil, China e Índia, assim como no continente africano.

Essa história está em curso. E, mesmo com tanto silêncio, vamos ouvir muito sobre ela nos próximos anos no Brasil.

Nesta coluna, conto o desfecho do julgamento a partir de Romana Blasotti Pavesi, uma mulher de 85 anos que perdeu cinco pessoas da família para o câncer do amianto. O primeiro foi seu marido, Mario; a última sua filha, Maria Rosa. Estive na casa dela há dois anos, num dos projetos de reportagem que banco com minhas próprias economias, e acabei só escrevendo sobre Romana nesta coluna. As fotos são de João Luiz Guimarães.

Como vocês sabem, acompanho a questão do amianto no Brasil desde 2001. Neste post, coloco algumas das reportagens que fiz ao longo dos últimos 13 anos.

Romana e o bilionário do amianto: a dor que não prescreve

 A italiana que se tornou símbolo da luta contra a fibra assassina é uma das vítimas derrotadas por Stephan Schmidheiny no tribunal que envergonhou a Itália

Fotos: João Luiz Guimarães (2012) e Arquivo Pessoal

Fotos: João Luiz Guimarães (2012) e Arquivo Pessoal

Quando a entrevistei, dois anos atrás, ela me disse que já não chorava. Em algum momento da sua luta contra a Eternit, as lágrimas secaram dentro de Romana Blasotti Pavesi. Passamos uma tarde e uma manhã conversando em seu apartamento em Casale Monferrato. É difícil acreditar à primeira vista que na pequena cidade do Piemonte a tragédia respira entre ruas e paisagens de cinema italiano, nas vitrines das confeitarias onde os krumiris, o delicioso biscoito de Casale, se oferecem a quem passa. Então pessoas como Romana começam a falar. E quando falam enumeram seus mortos. E a narrativa mais uma vez desafina com o cenário do apartamento em que sua solidão é acompanhada por uma população de bibelôs bem ordenados e coloridos, por uma coleção de pequenos elefantes de todas os formatos, origens e texturas – a maioria deles com a tromba para cima, que é como ela gosta. Pergunto a ela se é por significar boa sorte, ela responde que assim parecem felizes. Romana pede um momento, diz com licença, e desaparece no quarto. Volta de lá com uma caixa. De dentro ela tira com a ponta dos dedos um cabelo longo e raro, com diferentes nuances de dourado e vermelho. Bello, molto bello. É de Maria Rosa, ela diz. A filha de Romana foi a quinta de sua família a morrer pelo câncer do amianto.

Leia o texto completo aqui.

Se você prefere ler o artigo em espanhol, basta clicar aqui.

A seguir, algumas das minhas reportagens sobre o amianto e a tragédia de saúde pública:

Lavagem de Biografia

Vítimas lançam uma ofensiva internacional para cassar os títulos e prêmios do bilionário Stephan Schmidheiny, ex-dono da Eternit suíça. No Brasil, miram na Ordem do Cruzeiro do Sul, dada a ele pelo presidente Fernando Henrique Cardoso
Leia aqui. 

A maldição do amianto

Condenados pela fibra cancerígena, centenas de ex-trabalhadores da Eternit e da Brasilit lutam por indenizações na Justiça
*Atenção: essa reportagem foi postada em duas partes. É fundamental ler a segunda também, já que o texto é interrompido na metade
1ª parte:
Leia aqui.
2ª parte:
Leia aqui.

Morto pelo Amianto

O ex-operário da Brasilit Sebastião Alves da Silva, símbolo internacional da luta contra a fibra cancerígena, perdeu sua última batalha
Leia aqui.

Vida e Morte

Brasilit e Eternit travam guerra pesada para convencer governo e opinião pública sobre o futuro do mineral. Em jogo, um mercado de R$ 2 bi
Leia aqui.

Essas tantas não gentes das Amazônias

Comunidade de Montanha e Mangabal no Alto Tapajós, na Amazônia / LILO CLARETO

LILO CLARETO

A comunidade de Montanha e Mangabal vive há século e meio no Alto Tapajós, no Pará. Acompanhar sua trajetória no tempo é traçar a anatomia da ocupação do espaço amazônico. É perceber como o Estado é decodificado como uma força de aniquilação, que aparece de tempos em tempos para expulsar os povos da floresta.

Desta vez, a ameaça é maior. O governo chegou a marcar o leilão de São Luiz do Tapajós, a primeira usina do complexo hidrelétrico previsto para a região. E depois adiou-o diante das acusações, perigosas em época eleitoral, de que, de novo, estava descumprindo a Constituição e a legislação internacional. Outra barragem, Jatobá, está prevista para ser implantada em seguida. Segundo o governo federal, comunidades tradicionais, como o povo de Montanha e Mangabal, não serão consultadas. Serão apenas “informadas”. Se fossem consultadas, como determina a lei, o governo ouviria frases como a de Chico Caititu: “Nós não queremos carro nem cesta básica, nós queremos a floresta viva”.

Estive na comunidade de Montanha e Mangabal em agosto de 2013, junto com o fotógrafo Lilo Clareto, para uma grande reportagem. Essa coluna é um pequeno resumo de um trabalho maior e mais profundo, ainda inédito. Foi escrita no momento mais crítico vivido pela comunidade, protagonista de um percurso povoado por épicos. Ela conta a história de como um povo construiu sua identidade pela oralidade no mundo da palavra escrita – e conseguiu provar que oito gerações nasceram e morreram à beira do azulado Tapajós, um dos mais belos rios do mundo. É a história ainda de como Dona Santa, uma ribeirinha cega, venceu as trevas para iluminar a memória e salvar sua gente – e de como um pesquisador e um procurador a enxergaram. É também a constatação de que as vitórias são sempre provisórias para os mais frágeis.

Essa coluna é especialmente uma tentativa de levar, pela narrativa, um Brasil a outros Brasis. Ainda que eu saiba que, em época eleitoral, e mais ainda numa campanha acirrada e de baixo nível como a atual, são poucos os que se mostram capazes de escutar para além do contra ou a favor que embaralha as nuances e também as dores, mas fornece muitas desculpas para a indiferença e para um pragmatismo brutal. Enquanto os candidatos criam factoides e deixam de se posicionar frente ao mais importante, o povo de Montanha e Mangabal está lá, lutando pela vida.

Quem se interessar em conhecê-lo, é só clicar aqui.

LILO CLARETO

LILO CLARETO


Neste post, selecionei também algumas reportagens (apenas as que estão disponíveis na internet), entrevistas e artigos de opinião em que escrevo sobre a Amazônia e os povos da floresta, sobre grandes obras e sobre projetos políticos. Em meus textos, há uma escolha clara: amplifico as vozes que não encontram espaço em outros lugares. É a minha forma de contribuir com aquele que me parece ser o debate mais crucial do atual momento do Brasil. Escutar o que o outro tem a dizer, especialmente se este outro é parte silenciada, amplia nossa capacidade de enxergar o mundo – e a nós mesmos. Faz pontes. Estes links são, afinal, uma tentativa de fazer pontes entre Brasis – pela palavra.

ENTREVISTAS

31/10/2011
Belo Monte, nosso dinheiro e o bigode do Sarney
Um dos mais respeitados especialistas na área energética do país, o professor da USP Célio Bermann, fala sobre a “caixa preta” do setor, controlado por José Sarney, e o jogo pesado e lucrativo que domina a maior obra do PAC. Conta também sua experiência como assessor de Dilma Rousseff no Ministério de Minas e Energia

05/09/2011
Um procurador contra Belo Monte
Conheça o homem que se tornou o flagelo do governo ao lutar contra a maior e mais polêmica obra do PAC

04/06/2012
Dom Erwin Kräutler: “Lula e Dilma passarão para a História como predadores da Amazônia”
O lendário bispo do Xingu, ameaçado de morte e sob escolta policial há seis anos, afirma que o PT traiu os povos da Amazônia e a causa ambiental. Afirma também que Belo Monte causará a destruição do Xingu e o genocídio das etnias indígenas que habitam a região há séculos. Há 47 anos no epicentro da guerra cada vez menos silenciosa e invisível travada na Amazônia, Dom Erwin Kräutler encarna um capítulo da história do Brasil

 

ARTIGOS DE OPINIÃO

06/06/2011
Se a Amazônia é nossa, por que não cuidamos dela?
Para boa parte dos brasileiros, a floresta não passa de uma abstração

26/09/2011
Devemos ter medo de Dilma Dinamite?
As mulheres que a primeira presidente prefere não escutar

17/10/2011
A pequenez do Brasil Grande
A ditadura acabou, mas a palavra “desenvolvimento” continua sendo torturada para confessar o que o governo deseja que o povo acredite

22/10/2012
“Decretem nossa extinção e nos enterrem aqui”
A declaração de morte coletiva feita por um grupo de Guaranis Caiovás demonstra a incompetência do Estado brasileiro para cumprir a Constituição de 1988 e mostra que somos todos cúmplices de genocídio – uma parte de nós por ação, outra por omissão

 26/11/2012
Sobrenome: “Guarani Kaiowa”
O que move um brasileiro urbano, não índio, a agregar “guarani kaiowa” ao seu nome no Twitter e no Facebook?

02/07/2013
Índios, os estrangeiros nativos
A dificuldade de uma parcela das elites, da população e do governo de reconhecer os indígenas como parte do Brasil criou uma espécie de xenofobia invertida, invocada nos momentos de acirramento dos conflitos

31/03/2014
A ditadura que não diz seu nome
O imaginário sobre a Amazônia e os povos indígenas, forjado pelo regime de exceção, é possivelmente a herança autoritária mais persistente na mente dos brasileiros de hoje, incluindo parte dos que estão no poder. E a que mais faz estragos na democracia

 

REPORTAGENS

28/01/2012
A Amazônia, segundo um morto e um fugitivo
Dois homens denunciaram a quatro órgãos federais e dois estaduais uma milionária operação criminosa que rouba ipê de dentro de áreas de preservação da floresta amazônica, no Pará. Depois da denúncia, um foi assassinado – e o outro foge pelo Brasil com a família, sem nenhuma proteção do governo. A partir do relato desses dois homens, é possível unir a Amazônia dos bárbaros à floresta dos nobres

25/11/2005
À espera do assassino

Como vivem os brasileiros ameaçados de morte na fronteira paraense, onde o futuro da Amazônia é decidido à bala

04/10/2004
O Povo do Meio
Esses brasileiros não votam, são analfabetos e oficialmente não existem. À margem do país, estão jurados de morte

22/08/2011
Cabeça a prêmio: R$ 80 mil
Defensor da floresta pede ajuda para não morrer

08/04/2013
À margem do pai
Na floresta amazônica, um homem confronta sua solidão quando um filho seu é picado por uma cobra, o outro por escorpião. Como salvá-los sem nenhum acesso à saúde? O dia a dia dos protetores da Terra do Meio, onde não morrer é um golpe de sorte

 

A espetacular Copa de 2014

Nessa Copa de 2014, no Brasil, acompanhei a seleção brasileira a convite da Folha de S. Paulo. Foi minha estreia, como repórter, no futebol e na Copa. No total, foram 12 reportagens no jornal impresso, na contracapa do Caderno da Copa, e outras sete matérias menores, no site. Às vezes apenas pequenas cenas, entre a Granja Comary, em Teresópolis (RJ), e as várias cidades em que o Brasil jogou: São Paulo, Brasília (duas vezes), Fortaleza (duas vezes) e Belo Horizonte (duas vezes). Estive também na partida final, entre Argentina e Alemanha, no Maracanã, no Rio de Janeiro. Escrevi ainda dois artigos na minha coluna quinzenal de opinião no El País. Nessa trajetória vertiginosa, busquei cobrir a seleção fazendo o que acredito ser o papel de um jornalista, independentemente da área em que atua, que é produzir documento histórico sobre a sua época.

Meu desafio era contar a seleção, numa Copa no Brasil, pelas margens. Dividi meu trabalho de reportagem em duas linhas narrativas. Chamo a primeira de “brasilidades”, na qual procuro compreender o futebol e o Brasil de 2014 a partir do olhar e das tensões de brasileiros menos visíveis.

Na segunda, conto as relações da corte e da torcida no entorno da seleção. Meu foco, nesse caso, é a produção do espetáculo no futebol de mercado – e os momentos sublimes em que a vida escapa, reconvertendo o produto em homem, ou “denunciando-o” como homem. A grande perda de colocar o espetáculo no lugar da realidade, ou a publicidade no lugar do jornalismo, como aconteceu vezes demais, é que o espetáculo é imensamente inferior à realidade. A realidade foi espetacular, o espetáculo foi medíocre.

Essa foi uma Copa extraordinária. Não só pela qualidade dos jogos das seleções de vários países, mas, especialmente, pela derrota monumental da seleção brasileira. Como se sabe, a vitória tem muito pouca graça na literatura e no cinema, o mais rico é sempre a derrota. Na reportagem, acredito que vale o mesmo princípio. Há muito para escrever sobre a seleção brasileira nessa Copa fabulosa, com tantos sentidos ainda por serem decifrados, tantas histórias à espera de quem as conte. Apenas começamos.

No meu caso, esse conjunto de reportagens assume o risco de narrar enquanto o jogo está sendo jogado, o que é, ao mesmo tempo, a dificuldade e a graça do jornalismo. Acredito que agora há o desafio de aprofundar essa narrativa, a das várias realidades desse épico trágico, com o distanciamento necessário. E devolver o extraordinário à vida.

Ao futebol.

FOLHA DE S.PAULO

BRASILIDADES

Deus e outros nomes
Os helicópteros zuniam no céu, sinal de que o ônibus da seleção brasileira voltava à Granja Comary depois de um dia de folga. Há sempre alguém lá em cima zelando pelo time do Felipão com bastante barulho. Lá embaixo, no estádio do Teresópolis Futebol Clube, Pretão, Lennon e William também acreditam, no domingo e a cada dia, que alguém zela por eles lá do alto, ainda que sem alarde. Nem sempre entendem bem o que o todo-poderoso planeja. Deus, como o futebol, segundo o seu entendimento, se movimenta por acasos, por sinais enigmáticos. Exibe caprichos de bola. É especialmente caprichoso com o Teresópolis: o time não ganha um jogo desde 2011.

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O complexo de vira-lata, em prosa e latido
Olhando bem fundo nos olhos dela, castanho-escuros, quase pretos, não se adivinha nenhum complexo. Um psicanalista poderia perceber uns laivos de histeria na insistência de latir nas chegadas e nas saídas, como se marcando sua condição de titular na casa da periferia de Osasco, na Grande São Paulo. Há também a alegria triste que assinala aqueles que pressentem a queda logo ali e talvez por isso ela se equilibre com tanto afinco em pernas de Garrincha, só que quatro. De complexo de vira-lata, porém, ela não demonstra padecer. Pantera tem 83 centímetros do rabo ao focinho e a aparência inconfundível do mais puro DNA mestiço. Parece indiferente à incongruência entre nome e coisa nomeada. É a vantagem do vira-lata. Sem identidade gravada em pedra pela tradição, pode inventar-se e reinventar-se. Até mesmo como pantera.

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Fortaleza no pé: Garoto dribla a morte e joga Copa das crianças de rua
Quando pergunto a ele sobre o passado e o futuro, Vinicius Marcos Pinheiro Ferreira diz: “Não conto o tempo”. Por que não? “Não conto. Eu não conto a alegria e não conto a tristeza. Tenho o tempo que estou na vida.” É um outro conceito, o do Brasil dos meninos sem tempo. Aos 15 anos, ele arranca cada dia do impossível, e o dia é tudo o que tem. Talvez inteiro, talvez não. Onde ele vive, no Canindezinho, favela do Bom Jardim, em Fortaleza, a bala interrompe a existência num segundo. A seleção brasileira joga hoje na cidade de Vinicius para fazer gols e vencer. Vinicius também é da seleção brasileira, mas a dos garotos que jogaram em abril a Copa do Mundo das Crianças de Rua. Vinicius faz gol de placa todo dia. Seu golaço é acordar vivo.

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Endereço: Brasil
A cigana Daiane Rocha sonha tanto com os gols da seleção no jogo contra Camarões quanto com a repetição de um gesto. Daiane espera que os moradores ao redor do acampamento, na cidade-satélite de Santa Maria, no Distrito Federal, olhem para ela e torçam com ela, reconhecendo-a como brasileira. A primeira vez que isso aconteceu foi na abertura da Copa do Mundo, quando o Brasil venceu a Croácia. Os 65 ciganos comemoraram cada um dos três gols e dançaram na vitória. Do outro lado da rua, os moradores, que até então os haviam rechaçado, torceram com eles, riram com eles, levantaram os braços em sinal de vitória. Ao sentir-se reconhecida como igual, Daiane chorou. Era um milagre do futebol.

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O PM e o militante
Em dia de jogo Brasil x Chile, no Mineirão, em Belo Horizonte, Steevan Oliveira e Luiz Fernando Vasconcelos acordam com propósitos diferentes. Steevan vai vestir a farda de policial militar para agir na “prevenção de confrontos”. Ele integra a tropa de choque da Polícia Militar mineira, faz a ronda com cães. Luiz é uma das lideranças dos protestos anti-Copa. Vai vestir sua camiseta contra a Fifa e denunciar “a apropriação do espaço público por uma entidade privada”. O movimento em que Luiz atua defende o fim da PM. O tenente Steevan quer ser PM a vida inteira. Eles representam duas forças que estão nas ruas na Copa no Brasil de 2014.

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Quando o futebol é travessia: um homem, um país
No bolso do paletó, o colombiano Carlos Maurício Durán Domínguez, 52 anos, promete esconder um gorro com as cores do seu país. Ele prepara-se para recepcionar o presidente, Juan Manuel Santos, que decretou “tarde cívica” e anunciou um bate-volta para assistir ao jogo Brasil x Colômbia, no Castelão. “Se a Colômbia fizer gol, vou colocar o gorro na cabeça rapidinho”, garante. “Me deu sorte nos outros jogos.” Quem o conhece não duvida que o gorro estará lá, fazendo volume no terno chique, primeiro. E, depois, enfiado no cocuruto.

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O ESPETÁCULO, A CORTE E A TORCIDA

O espetáculo começa só depois que o homem comum deixa o palco
“Ichi! Ni! San! Shi! Go!”
É Cleto Pinto, 60 anos. Falando um a cinco em japonês.
Antes de cada entrevista coletiva na Granja Comary, em Teresópolis, ele está lá para garantir que nenhum ruído, nem mesmo um chiado cabotino, empane a sabedoria, o brilho, da palavra de cada jogador. Sem ele, nenhum deles poderia dizer para as TVs e rádios do Brasil inteiro, do mundo, coisas como “cada jogo é um jogo” ou “seleção é batucada, batucada é seleção”. Durante pelo menos 30 minutos, Cleto se posta diante do microfone, no palco, e fala, para que todos possam testar se o áudio está perfeito. Poderia repetir apenas “alô, alô, testando” ou “um, dois, três, quatro, cinco”. Mas não. Cleto se prepara. Planeja. Estuda. Investiga. Entra no palco como um homem imbuído de um papel histórico. Ainda que ninguém grave ou transmita o que ele diz, ainda que ele seja um antes.

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Se quiser entender a torcida, siga a câmera
Cada portão para impedir o acesso do povo à Granja Comary é mais difícil de passar do que o outro. Na entrada principal, são cinco barreiras. Seis, se contar a da imprensa, que fica na lateral, e só permite assistir ao treino. Apenas uma minoria muito persistente vence a primeira. Ou amigos de moradores do condomínio de classe média alta. O pedreiro Antonio dos Santos Junior, 26, pertence à minoria muito persistente. Ele levou dez dias para conseguir passar pelas duas primeiras barreiras. Conseguiu graças a uma moradora penalizada, que não suportava mais vê-lo ali, com um chapéu de pontas verde-amarelo na cabeça. Colocou-o dentro do carro. Dali em diante, Antonio estava por sua própria conta. E os porteiros mais avançados são implacáveis. Antonio e outro torcedor, este vestido de anjo, tentaram desesperadamente passar pelos seguranças que guardam a terceira barreira. Nada. Tiveram de retroceder. Voltar duas barreiras atrás é mais que tragédia, é o limbo.

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Zona controlada
A zona mista é como um brete de bois. Para quem não está familiarizado com a terminologia rural, brete é um cercado para onde os animais são conduzidos, à força, para serem castrados, vacinados, descornados, marcados ou mesmo abatidos. Há uma versão desses currais dentro de cada estádio da Copa. Assim que a partida acaba, os jornalistas que têm senha para entrar na zona mista correm para lá. As senhas são distribuídas pela Fifa, sempre limitadas e disputadas. Depois do banho e das rezas, a maioria do time entra no brete, um jogador seguido do outro. Mas, ao contrário dos bois, esses touros milionários, DNA futebolístico apurado, não vão para o sacrifício. A imagem cabe mais a nós, jornalistas. Quando as estrelas da seleção despontam lá no início, há uma espécie de estouro da boiada, só que em território confinado. Cotoveladas e pisões no pé fazem parte da rotina, para que se consiga botar o gravador ou o microfone mais perto da boca do craque. Não é incomum sair dessa refrega com hematomas.

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Deus e o diabo na terra do gol
O futebol cumpriu sua mágica de produzir acontecimento e acaso. Na Copa de 2014, a seleção brasileira criou um drama com os pés, salgou de lágrimas as chuteiras. Chega hoje ao Mineirão para disputar a semifinal contra a Alemanha em amarelo épico. Sem seu craque maior, sem seu capitão. Se vencer os alemães, será a apoteose, a realização de um destino. Se perder, em parte já está absolvida. Em qualquer roteiro onde há deus e diabo, o bicho humano está à deriva. E nessa trajetória há muito deus e o “diabo”, que andava faltoso, foi criado há pouco, na pele do colombiano Zúñiga, usando os joelhos para roubar do Brasil Neymar e a glória. De diabo o colombiano, que só fez entrar duro num jogo duro, não tem nada, mas esse sempre foi um personagem que só pode cumprir seu papel quando propositalmente mal compreendido. Com deus e diabo a narrativa fica mais mítica.

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O Brasil do eu acredito
“Eu acredito, eu acredito.” Uma pequena parte da torcida brasileira ainda repetia o bordão depois de a seleção brasileira já ter levado uma goleada dos alemães no Mineirão. Era uma pequena grande cena. A realidade se impunha como o inacreditável, as bolas iam estourando na rede brasileira como ficção, quem não tinha deixado o estádio olhava para o campo tomado pela anestesia que assinala a tragédia. A inversão da expectativa é tão avassaladora que passa a ser interpretada como irrealidade, num estado delirante, em que qualquer gesto parece destinado ao nada. A goleada era da Alemanha no Brasil, mas era ainda mais profundo do que isso: era realidade 7×1 pensamento mágico. Um? Não. Zero.

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O insustentável peso da camisa
Acabou. Mas quando? Nos 7×1, na goleada histórica da Alemanha no Mineirão? Ou no Mané Garrincha, em Brasília, o nome do estádio que é apenas mais uma ironia a revelar a distância entre o gênio que pensava com os pés e os pés que se estranhavam com a bola, como se quisessem se livrar dela o mais rapidamente possível, na disputa com os holandeses. Ou neste domingo (13), a ausência do Brasil no Maracanã como uma presença.

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CENAS E MOMENTOS

Comunidade pobre ao redor do Castelão assistiu à ‘elite’ desfilar
“Você viu o corredor?”, pergunta Michele Sancho, 28 anos, professora universitária. “Me senti muito mal.”
Michele se referia ao longo corredor por onde ela e a família, junto com outros milhares de torcedores, passaram para entrar no Castelão, em Fortaleza, para assistir ao Brasil jogar contra o México. Mais de uma centena de metros em linha reta, atravessando a comunidade pobre que se debruçava sobre a grade na tentativa de vender alguma coisa ou só “ver como as pessoas se vestem”. Michele escreve uma dissertação de mestrado sobre o “Conceito Constitucional da Dignidade Coletiva”. “Vi minha dissertação ir embora ao passar por aquele corredor.”

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A bunda do Hulk
“Hulk, deixa eu apertar a sua bunda.”
Esse era o cartaz exibido – com orgulho – pela estudante Ana Caroline Côrtes, 13 anos, na entrada da Granja Comary, neste domingo. Ela veio de Nova Iguaçu, a mais de 60 quilômetros de Teresópolis, para levantar o cartaz. Para as câmeras de TV, já que o ônibus com os jogadores, como de hábito, passou em segundos pelos torcedores que há horas esperavam na chuva. As câmeras já deixam Ana Caroline bem contente.

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Sem casa, na casa da seleção
Na arquibancada da Granja Comary havia a dor de 100 mortos e mais de 20 desaparecidos. É o que perderam as 50 crianças e 30 adultos que tiveram permissão para assistir ao treino da seleção brasileira. São vítimas da tragédia de 12 de janeiro de 2011, em que as chuvas e o descaso do poder público mataram centenas. Logo na chegada da seleção a Teresópolis, ainda antes do início da Copa, Flávio Antonio da Silva, 35 anos, da Associação das Vítimas das Chuvas de Teresópolis, fez um protesto na entrada da Granja: botou uma camisa da seleção e pintou o rosto e o corpo de lama: “Aqui não é só a casa da seleção. É também a casa das vítimas”. Nesta quarta-feira (25), as vítimas tiveram permissão para entrar na casa da seleção. Mas continuam sem casa.

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Neymar, o carneiro
Tá fácil fazer selfie com Neymar Jr na entrada do Castelão. Seu Juvenal Ribeiro dos Santos, 70 anos, preparou seu carneiro para dia de gala. Logo de manhã ele tomou banho. “Com xampu, o mesmo que o meu.” Qual? “O mais baratinho.” Depois, Neymar Jr envergou a camisa 10. Veio trotando, em boa forma, ao lado da carrocinha do seu Juvenal.

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Torcedores veem jogo pela TV, dentro do Castelão, após terem o ingresso furtado
Carlos Castro, 48 anos, comprou o ingresso para as quartas de final no Castelão, em Fortaleza, ainda no primeiro sorteio. Apostou no Brasil. Quando o ingresso chegou em casa, escondeu na estante de livros, atrás de compêndios de medicina. “Aqui nesses monstrengos ninguém vai mexer”, concluiu. E esperou. Na véspera do jogo, fez plantão na maternidade, como neonatologista. Chegou em casa às 7h da manhã desta sexta-feira (4) e não pôde dormir. “Estava muito ansioso, não tinha jeito.” Tirou o ingresso do esconderijo e partiu para o estádio. No caminho, na companhia de outros dois médicos, comentou: “É surreal o que estamos vivendo. Um jogo decisivo da Copa, com o Brasil, no Castelão!”. Quando botou a mão no bolso, já subindo as escadas do estádio, Carlos desmoronou: o ingresso não estava mais lá.

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EL PAÍS

Dilma, a vaia e o feminino
Eu estava no estádio do Itaquerão, na abertura da Copa do Mundo, e ouvi as vaias e a torcida xingando: “Ei, Dilma, vai tomar no cu”. Não posso afirmar onde as vaias começaram, essa me parece uma certeza muito difícil de garantir num estádio de futebol. Concordo, em parte, com os que alegam que estádios são lugares de palavrões, basta lembrar das mães dos juízes. Mas também discordo, em parte, porque o público da Copa é totalmente diverso do torcedor típico, aquele que vai ver o seu time jogar como uma rotina tão presente na vida quanto trabalhar e namorar. Na Copa, o público é outro, leva para dentro das “arenas” outra expectativa e outra relação com o futebol. Mandar uma pessoa tomar no cu, qualquer pessoa e não só a presidente, é não só grosseiro, como violento. O Brasil é uma sociedade violenta, para muito além da tipificada no Código Penal. Essa violência atravessa o cotidiano. Dito isso, há algo que me incomoda nas narrativas construídas nesse episódio e que valeria a pena prestar mais atenção: a manipulação dos femininos.

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Sobre Zúñiga, Neymar e “macacos”
O zagueiro Juan Camilo Zúñiga entrou bruto com o joelho nas costas de Neymar. Era um jogo duro e a seleção brasileira também já tinha protagonizado entradas fortes sobre membros adversários. De lado a lado, se acertava mais do que a bola, como não é raro acontecer em partidas decisivas. Se pode criticar a arbitragem, reivindicar que a Fifa dê uma punição ao jogador colombiano, sentir fundo a tragédia de Neymar, que passa a ser a de um país inteiro. O que não deveria poder é o que aconteceu na sequência. Pelas redes sociais, brasileiros chamaram Zúñiga de “preto safado”, pediram sua morte e xingaram sua filha pequena de “puta”. Nos últimos anos, vários jogadores brasileiros foram chamados de “macacos” por torcidas de outras nacionalidades. Na sexta-feira (4), eram brasileiros aqueles que, na internet, colaram num colombiano a expressão racista.

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Uma família no governo Lula

Durante nove anos, a família Costa Pereira, da periferia de São Paulo, deixou a pobreza para ingressar na “nova classe média”. Sua trajetória nos ajuda a compreender os avanços e as contradições do Brasil durante o período

NA SALA COM A CLASSE C No governo Lula, a família Costa Pereira descobriu como é bom consumir. A TV de tela plana é a estrela da casa, seguida de perto pelo computador e pelo PlayStation 3. No centro, Estela e Hustene, de camisa do Corinthians; Rodrigo, em pé, com a filha Gabriely; Diego e Jade agachados, na frente; Amanda com a filha Rafaela no colo (FOTOS:  Lilo Clareto)

NA SALA COM A CLASSE C
No governo Lula, a família Costa Pereira descobriu como é bom consumir. A TV de tela plana é a estrela da casa, seguida de perto pelo computador e pelo PlayStation 3. No centro, Estela e Hustene, de camisa do Corinthians; Rodrigo, em pé, com a filha Gabriely; Diego e Jade agachados, na frente; Amanda com a filha Rafaela no colo (FOTOS: Lilo Clareto)

Os pilares da sua vida cabiam em três quadros na parede da sala. Corinthians, Nossa Senhora de Fátima e Che Guevara. Futebol, religião e ideologia. Era essa a trindade que sustentava Hustene Pereira no início do ano de 2002. No começo de 2011, a conformação é outra. Che Guevara foi banido da sala. Sua cara barbuda foi trocada por uma paisagem. Nossa Senhora de Fátima mora agora numa parede lateral. Não porque a religião tenha perdido importância, mas por uma decisão estética da família. Em seu lugar, há um anjo comprado como lembrança de viagem pelo filho caçula. Ao longo do governo Lula, a parede principal foi sendo tomada por símbolos ligados à classe média. Apenas o Corinthians permanece – irredutível.

A mudança dos símbolos na parede conta a trajetória da família Costa Pereira no governo Lula. E a família Costa Pereira nos ajuda a compreender a complexidade do Brasil nesse período. Na companhia de cerca de 30 milhões de brasileiros, ela deixou a pobreza e ingressou na grande novidade socioeconômica da história recente do país, objeto de estudo de sociólogos e economistas e também de publicitários e marqueteiros: a classe C. “Agora nós somos da nova classe média!”, diz Hustene. Surpreso, mas também orgulhoso. Segundo a Fundação Getulio Vargas, há hoje 95 milhões de brasileiros com renda familiar entre R$ 1.126 e R$ 4.854 por mês. Pela primeira vez, a classe C é maioria no país. Sozinha, pode eleger um presidente.

No geral, a família Costa Pereira representa essa fatia da população que mudou de classe nos últimos anos. No particular, só representa a si mesma. Em sua casa na periferia de Osasco, na Grande São Paulo, Che Guevara foi perdendo espaço na medida em que a família ampliou seu acesso aos bens de consumo. Hoje, a classe C lidera os gastos com eletrodomésticos e eletrônicos no país. A família Costa Pereira faz sua parte: desembolsa R$ 653 por mês no pagamento de prestações. Hustene bem que resistiu ao desterro de Che, mas a mulher, Estela Costa, e os filhos não queriam mais saber de um “guerrilheiro” na parede da sala. “A gente queria algo mais relaxante”, diz Estela. Como os milhões de brasileiros que fizeram a mesma transição nos últimos anos, os integrantes da família Costa Pereira descobriram com um presidente operário que o capitalismo pode ser bom.

No início de 2002, Hustene foi o personagem central de uma reportagem cujo título era “O Homem-Estatística”. Desde então, tenho acompanhado a trajetória de sua família ao longo dos últimos nove anos. Quando o conheci, ele encarnava os números de um momento difícil para o Brasil. Apesar do controle da inflação, o desemprego tinha grande impacto entre os brasileiros urbanos da periferia das grandes cidades. Filas de centenas de pessoas se formavam para uma vaga em geral abaixo de suas qualificações. O tempo de procura por trabalho aumentara, assim como a informalidade. A renda e os benefícios de quem tinha um emprego encolheram.

Hustene era um dos brasileiros que sentiam o chão tremer debaixo do único par de sapatos, sem encontrar sentido nas explicações dos economistas. Em 2002, descobriu que era um dos “excluídos” – termo repetido à exaustão nos discursos, na imprensa e nas ruas na virada do milênio. Vale a pena lembrar a evolução da terminologia na história recente do país. Houve os “descamisados” de Fernando Collor de Mello, no início dos 90. Depois os “excluídos”, com o sociólogo Fernando Henrique Cardoso. E hoje, ainda que continuemos a falar nos mais pobres, o termo que se popularizou no período de Luiz Inácio Lula da Silva é a classe C ou “nova classe média”.

Em fevereiro de 2002, Hustene completara quatro meses de desemprego. Desde que havia começado a trabalhar, aos 14 anos, pela primeira vez percebia que não conseguiria um novo posto tão cedo. Qual era sua história até aquele momento? Nos anos 60, migrara com o pai e o avô do Rio Grande do Norte para São Paulo, numa trajetória semelhante à de Lula em muitos aspectos. O pai tinha sido metalúrgico no ABC paulista, com Lula na liderança do sindicato. Hustene havia estudado até a 7a série, mais do que o pai. Deixara o chão de fábrica para trabalhar no escritório da indústria. Até perder o emprego, era o Pereira com menos calos nas mãos.

Encontrei Hustene no momento da queda. Aquele instante em que um homem sente as unhas escorregando da borda do abismo. Percebe que não vai conseguir trabalho tão cedo, as contas se acumulam, o essencial é cortado. O projeto familiar começou a ruir quando os filhos mais velhos transferiram a escola para o período noturno para pegar bicos durante o dia. Hustene, nas palavras dele, se sentia “traí¬do” pelo país. Ao mesmo tempo, sentia que traía os filhos ao se tornar incapaz de cumprir sua parte no pacto familiar.

A família de Hustene sentia falta não do feijão – mas do “danoninho, das bolachas recheadas, das fraldas descartáveis”. Das pequenas conquistas de consumo a que tiveram acesso quando Hustene estava empregado. Eles não encarnavam as páginas de Graciliano Ramos, como seus antepassados que fugiram da seca, mas uma literatura que ainda estava por ser escrita, a dos filhos do desemprego urbano e industrial. Hustene, que até então se orgulhara de sua datilografia e escrituração fiscal, deparava com a exigência de informática. Nem ele nem os filhos conheciam computador. Hustene assim expressava seu sentimento de exclusão: “Quero que um disco voador venha me tirar daqui”.

A TROCA DOS SÍMBOLOS Em 2003, na foto da esquerda, Hustene Pereira era sustentado por uma trindade: Corinthians, Che Guevara e Nossa Senhora de Fátima. Futebol, ideologia e religião. Com a mudança de classe, Che foi trocado por uma paisagem e Nossa Senhora de Fátima por um anjo. Apenas o Corinthians resiste

A TROCA DOS SÍMBOLOS
Em 2003, na foto da esquerda, Hustene Pereira era sustentado por uma trindade: Corinthians, Che Guevara e Nossa Senhora de Fátima. Futebol, ideologia e religião. Com a mudança de classe, Che foi trocado por uma paisagem e Nossa Senhora de Fátima por um anjo. Apenas o Corinthians resiste

Naquele período, Hustene perdeu 30 dos 32 dentes da boca. Um após o outro. “Olha, Estela, caiu mais um”, dizia para a mulher ao acordar pela manhã e descobrir-se num pesadelo recorrente. Logo cedo, enfiava sua melhor camisa, seu sapato “social” e partia em busca de uma vaga – a pé, porque não tinha dinheiro para o ônibus. Voltava de cabeça baixa, ombros caídos. Em casa, se escondia. Tinha vergonha de que os vizinhos o vissem durante o dia. “Vão pensar que sou vagabundo.” À noite, debruçava-se sobre o terraço inconcluso, até o primeiro trabalhador passar a caminho do ponto de ônibus. Então, voltava a se esconder, vítima de um tipo novo de maldição.

Na campanha presidencial de 2002, Hustene raspou o fundo da alma e tirou de lá um resto de esperança. Gravou as promessas de Lula em velhas fitas VHS. Mas o primeiro ano de governo foi para ele uma decepção. Sobrevivia apenas com bicos. Diego, o filho mais novo, ajudava no sustento descarregando galões de água por R$ 15 por semana. Rodrigo, o mais velho, trabalhava como mecânico sem registro. Amanda terminava o ensino médio e procurava o primeiro emprego. Mas a exigência de experiência em todas as portas nas quais batia a lançava num limbo. Jade, a caçula, ainda era criança.Viviam em seis numa casa inacabada de sala, cozinha, quarto e banheiro, erguida num terreno deixado pelo pai de Hustene ao morrer.

Hustene identificava-se com Lula. O presidente tinha sido metalúrgico como seu pai. Era corintiano como ele. Nordestino e migrante como ambos. Por coincidência, Lula e Hustene padeceram no início do governo com uma bursite no ombro direito. Com uma diferença: a de Lula foi tratada por bons médicos – e Hustene não conseguia tratamento para a sua. O trabalho braçal só piorava a inflamação. Até hoje Hustene passa noites sem dormir por causa das dores provocadas pela bursite, mas já desistiu de encontrar alívio.

Ao final do primeiro ano de governo, em 2003, Hustene trancou-se no quarto por seis horas. Estava revisando as promessas de Lula. Escreveu uma carta de quatro páginas endereçada ao presidente. Nela, reclamou do desemprego que jogava gente como ele na margem, acusou o Fome Zero de ter atolado no marketing e sugeriu a Lula que viajasse menos para o exterior, porque os problemas do país estavam bem aqui. “Essa conversa de que pegou o país endividado, precisa de mais quatro, oito anos, eu ouvi dos outros. Dele, não posso ouvir”, disse. Assim mesmo, despediu-se com “um forte abraço ao amigo Lula”.
Para avaliar o primeiro ano de governo, Hustene usou aquela que se tornaria a marca de Lula ao falar com o povo: uma metáfora de futebol.“Lula e o Corinthians empataram em 2003. Jogaram para não cair.” Perdoou a ambos. Perder a esperança tanto num como noutro lhe custaria mais do que poderia pagar naquele momento. Só esperava que, ao final do governo, não lhe dessem para a vida a solução que o médico do SUS deu para a bursite: “Não tem cura. Só nascendo de novo”.

Hustene só voltou a conseguir emprego em maio de 2005, no terceiro ano do governo Lula. Enquanto esteve desempregado, fez supletivo e terminou o ensino fundamental. Faltou apenas uma última prova para se formar no ensino médio. Nos três anos e sete meses de desemprego, só não perdeu a lucidez porque tinha em Estela um amor de delicadezas que sobrevivia não só à perda dos dentes, mas à de um mundo inteiro. E tinha o Corinthians. Desde 1974, Hustene monta álbuns dos vários campeonatos de que o clube participa. Toda a vida do Timão está lá, contada em recortes de jornais, frases criativas e layout próprio. Um testemunho que talvez um dia seja exibido no Museu do Corinthians, uma paixão que a vizinhança admira e acompanha. Quando Hustene foi engolido pelo desemprego, o jornaleiro não titubeou: vendeu fiado.

Naquela época, Hustene escrevia e desenhava furiosamente. Ele é um homem que se conta – e esta narrativa é parte do que s torna a história da família tão rica. Desde que fez uma promessa para salvar Diego, desenganado pelos médicos ao nascer, Hustene escreve um diário a Nossa Senhora de Fátima. Nas páginas, sua história se confunde com a do país: “As coisas estão tão difíceis (no Brasil) que não sabemos mais o que fazer. Estou ainda desempregado. Esta palavra causa medo, vergonha e incrimina qualquer pessoa do bem”.

Nos anos em que a miséria entrava pelas frestas da porta como água de enchente, aprendi com Hustene como a honestidade é dura para os mais pobres. Algumas vezes, a família ficou sem água e sem luz por falta de pagamento. Nunca fez um “gato”. Numa ocasião, Estela atravessou São Paulo até a sede do Serviço de Proteção ao Crédito apenas para corrigir seu nome. Tinha recebido uma carta na qual constava “Estelita”. Esclareceu no balcão que quem devia era ela, Estela. Quando o desespero lhe comia por dentro, Hustene levantava o queixo: “Estou desempregado, mas não fico bebendo no boteco. Não bato na mulher e nos filhos. Minha família só tem feijão para comer, mas nunca precisei visitar um filho na prisão nem vi um filho drogado”. Essas palavras o mantinham em pé. Constituíam um princípio. E faziam sentido quando todo o resto virava fumaça. Faziam sentido, mesmo quando no Natal não tiveram feijão – apenas farinha com cebola.
A forma como Hustene decodifica o Brasil é muito particular. Ele não tolera os programas sociais que dão aos mais pobres cesta básica, gás ou leite. Para ele é “esmola do governo”. Nunca cogitou se inscrever no Bolsa Família. “Um homem quer levantar de manhã, pegar um ônibus para o trabalho e pagar as suas contas. Isso é dignidade”, afirma. Os filhos seguem a mesma cartilha. Dão apoio quase incondicional a Lula, mas consideram o Bolsa Família uma “humilhação”.

Por tudo o que é, Hustene só voltou a sentir-se inteiro ao conseguir emprego. Em maio de 2005, tornou-se funcionário de uma empresa de segurança. Ocupava seu posto na recepção de uma indústria farmacêutica. Um dia chamou a atenção da direção ao atender o telefonema de um cliente americano e improvisar uma língua em que os dois se entenderam. Ganhou uma identidade: “Porteiro Pereira”. Partia às 4 horas de casa e voltava para dormir. Ganhava salário mínimo e nenhum benefício. Mas tinha algo que para ele e para os brasileiros pobres sempre foi essencial: registro na carteira de trabalho. O “Porteiro Pereira” era um homem feliz.

A VIDA COMO ELA FINALMENTE É A família mede a ascensão social pela comida. No passado, sobreviveu com refeições de arroz com limão. Hoje come carne todos os dias. Na foto maior, o almoço de domingo. Na menor, Jade estuda para o vestibular com a ajuda do computador, sob o olhar severo de Che Guevara – “um bicho feio demais”

A VIDA COMO ELA FINALMENTE É
A família mede a ascensão social pela comida. No passado, sobreviveu com refeições de arroz com limão. Hoje come carne todos os dias. Na foto maior, o almoço de domingo. Na menor, Jade estuda para o vestibular com a ajuda do computador, sob o olhar severo de Che Guevara – “um bicho feio demais”

Em 2006, último ano do primeiro mandato de Lula, Hustene continuava decepcionado com o governo. Naquele momento, revoltava-se com as denúncias de corrupção. Quando o Corinthians jogava mal, Hustene sofria, mas mantinha seu amor pelo time intacto. Na mesma lógica, conseguia perdoar um governo Lula aquém de seus sonhos, mas o “mensalão” travava em sua garganta. Pensou em anular o voto no primeiro turno. Acabou decidindo dar mais uma chance a Lula. Naquela época como hoje, Hustene atribui as falhas do governo aos assessores – nunca ao presidente. Até o final do segundo mandato, ele só não conseguiu encontrar justificativas para os abraços de Lula em José Sarney e Fernando Collor.

Hustene votou em Lula no primeiro turno. E teria ajudado a reelegê-lo, não fosse ter sofrido um derrame por falta de assistência médica. Entre o primeiro e o segundo turno das eleições de 2006, Hustene sentiu-se mal, sua pressão arterial subiu. Estava exaurido por uma jornada diária de 12 horas, sem folgas, nos 70 dias anteriores. No posto de saúde, o médico garantiu que era “só” uma crise de diabetes. Despachou-o para casa. Ao chegar, Hustene sofreu um acidente vascular cerebral (AVC). Perdeu os movimentos do lado esquerdo do corpo. Só voltaria a andar em 2008.

Nunca mais pôde trabalhar. Seu quadro se agravou pela deficiência da rede pública de saúde. Em 2009, Hustene teve um segundo derrame. Neste, apagou-se nele o dom do desenho. Desde então, cada incursão ao médico é uma experiência de degradação. Hustene espera em média seis meses por uma consulta. Quando chega sua vez, é atendido em minutos. O médico pede que faça exames. Ele leva mais seis meses para conseguir realizá-los, fechando o ciclo de um ano. Quando tem nova consulta, outros seis meses depois, os exames estão defasados, e o ciclo recomeça. Enquanto isso, recebe o auxílio-doença e vai tomando os remédios de sempre.

Nas últimas eleições, Estela conseguiu medicamentos em falta na rede pública graças a um candidato que fez do comitê uma farmácia para eleitores desesperados. Perguntei se votariam naquele deputado nas eleições. Estela respondeu: “Claro que não!”. Hustene passou dias pesquisando na internet para escolher seus candidatos. Votou pelo projeto. Os escolhidos pertenciam a quatro partidos diferentes.
Em 2009, Hustene descobriu que tinha uma doença grave e degenerativa nos olhos. Precisava fazer exames para avaliar a progressão e definir o tratamento. Ao comparecer à consulta, a médica estava de férias e não havia substituto. Quando finalmente foi atendido, um mês mais tarde, ela disse que estava curado. Ele não se sente curado – e a doença não é do tipo que se cura sozinha. Não sabe o que fazer, então reza. Espera o ano começar para tentar uma nova avaliação.

Hustene já perdeu muito – e não alcança como viverá sem seus olhos. Como poderá inventar uma vida sem ver os lances do Corinthians, contar suas pequenas aventuras no diário a Nossa Senhora ou apenas olhar dentro dos olhos de Estela e ter certeza de que existe. Um dia me perguntou como poderia fazer para aprender braile. Há anos Hustene vem pagando a deficiência do SUS com nacos do seu corpo. Tem 51 anos.

Para Hustene, a saúde pública era ruim antes. E atravessou o governo Lula ruim. Mesmo assim, Hustene, Estela e os quatro filhos votaram na candidata de Lula. Eles não conheciam Dilma Rousseff e não simpatizaram com o que viram dela nos debates e na propaganda eleitoral. Acreditavam que, por ter sido guerrilheira na ditadura, ela poderia ter problemas para representar o Brasil no exterior. Perguntei a Hustene por que, então, votaram em Dilma. Ele respondeu: “Porque Lula indicou”.

Era claramente um voto pragmático. Votaram em Dilma por concluir que sua vida no governo Lula melhorou. E queriam que continuasse melhorando. Têm números para justificar seu voto. Fazem contas. E as contas da família Costa Pereira são simples: em janeiro de 2003, depois de dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, a renda familiar girava em torno de R$ 700 por mês, em geral menos, às vezes mais; em janeiro de 2011, depois de oito anos do governo Lula, a renda familiar será de quase R$ 4 mil, mais alta que na época da eleição. Em dezembro, um dos filhos foi promovido, e o outro conseguiu um emprego melhor.

Estela, que nos tempos da pobreza às vezes só botava na mesa arroz com limão, explica o que significa o aumento de renda: “Para nós, que somos pobres, o importante é comer bem. E, pela primeira vez, a gente come bem”. Pode parecer pouco para quem nunca passou fome. Mas é enorme para quem já passou. No final de cada mês, Estela peregrina pelos supermercados da região em busca das melhores promoções. Nunca compra tudo de que precisa num só. Compra vários tipos de carne, o suficiente para encher o congelador da nova geladeira dúplex. Estela não tem dinheiro para picanha ou filé, mas sua família agora come carne todo dia. Em setembro de 2010, ela encontrou uma promoção de camarão e serviu um almoço de domingo especial. Como nunca havia preparado camarão, descobriu que o quilo encolhia depois de tirar a casca só na hora de preparar o prato. Encontrar um camarão no arroz virou uma gincana. Mas a família Costa Pereira comeu camarão naquele domingo.

NOVOS ENREDOS Entre as mudanças, a família fala da possibilidade de sonhar depois de uma vida limitada à sobrevivência. Na foto maior, Estela e Gabriely no supermercado; acima, Diego no horário de almoço do trabalho no condomínio de Alphaville; à esquerda, Amanda na universidade privada onde termina o curso de enfermagem

NOVOS ENREDOS
Entre as mudanças, a família fala da possibilidade de sonhar depois de uma vida limitada à sobrevivência. Na foto maior, Estela e Gabriely no supermercado; acima, Diego no horário de almoço do trabalho no condomínio de Alphaville; à esquerda, Amanda na universidade privada onde termina o curso de enfermagem

Acima da Bíblia e de uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, os armários da cozinha estão lotados de produtos industrializados. Enquanto os mais ricos buscam artigos naturais e orgânicos e defendem o consumo consciente, preocupados com as taxas de colesterol e com o meio ambiente, famílias como a de Hustene e Estela pela primeira vez têm acesso amplo às prateleiras. E o que querem é consumir o máximo possível. Não porque não se preocupem com o meio ambiente, mas porque só agora podem consumir. Quando Hustene aponta as melhorias de seu bairro na periferia, ele diz: “Veja como melhorou! Agora temos banco e supermercado.

A estrela da casa é uma TV de tela plana de 42 polegadas. Desde sempre, o lazer da família esteve ligado à televisão. Mas agora chega por meio de um aparelho novo, grande e moderno. E não mais pelos canais da TV aberta. A maior parte da programação é buscada nos canais pagos da TV por assinatura. Há ainda um equipamento de DVD e um videogame de última geração. Nessa nova configuração, Estela e os filhos consideraram Che Guevara “um bicho feio demais para ficar na sala”. Hustene resistiu, mas era um exército de um homem só. Che foi substituído por uma paisagem comprada especificamente para a decoração. Outro personagem simbólico entrou na vida da família. “Eu não gostava deste tal de Noel porque nunca ganhei presente”, diz Hustene. Este foi o terceiro Natal consecutivo com pinheirinho na sala.
O velho Che só deixou o exílio em dezembro. Teve uma ajuda providencial do jogo do bicho. Hustene aposta toda semana na águia e, só neste ano, ganhou mais de R$ 5 mil. O dinheiro foi aplicado na reforma da casa, que agora é chamada de “Complexo do Pankinha” – o apelido de Hustene. “Dinheiro que não é abençoado tem de gastar logo porque voa da mão”, diz Estela. Uma das reformas transformou o corredor onde Estela antes lavava roupa à mão num pequeno escritório – agora que ela tem máquina de lavar roupa. No final de 2010, o escritório ganhou mesa e prateleiras feitas sob medida. Hustene pediu para botar o quadro do Che na parede. “Como você deixou, mãe?”, perguntaram os filhos. “Negociei com seu pai. Em troca, ele vai me dar uma moldura nova para o quadro de fotos.”

Hustene deu um novo lugar a Che Guevara: passado, não mais presente. Che está junto aos livros e álbuns, virou história. “Hoje minha ideologia é a família”, diz. Antes, ele costumava escrever ao revolucionário sobre os acontecimentos no Brasil. Che era seu interlocutor político, assim como Nossa Senhora de Fátima era a ouvinte do cotidiano. Hustene parou de escrever a ele em agosto de 2004. Retornou em 3 de outubro de 2010, logo após o primeiro turno das eleições. Seria interessante saber o que Che pensaria da última carta de Hustene se estivesse vivo: “No primeiro governo tive decepções. Veio o segundo mandato e as coisas melhoraram para a nossa classe. Melhor ainda, camarada, subimos de classe. O poder aquisitivo melhorou, passamos a consumir mais. Hoje tenho filha na faculdade, adquiri computador, TV 42 LG, geladeira dúplex, é mole? E até Play 3”.

O escritório é a conquista mais significativa da família, para além das necessidades básicas e do consumo de eletrodomésticos e eletrônicos. Hustene chorou quando ficou pronto. É lá que está o computador conectado 24 horas à internet. Estela busca receitas de cozinha, Hustene procura o noticiário, Jade estuda para o vestibular, todos usam e-mails. Até a neta Gabriely, de 10 anos, participa de redes sociais. É também lá que está o aparelho de som no qual Hustene ouve sua nova coleção de CDs de Chico Buarque. Lá estão também escritores como Dan Brown e best-sellers como A cabana e O vendedor de sonhos. Antes, todos ficavam na cozinha com Estela. Agora se dividem pela sala, pelo escritório e pelo terraço concluído. É nesse amplo terraço, pavimentado com lajotas nas cores do Corinthians, que Hustene faz questão de aparecer.

O aumento da renda da família no governo Lula foi determinado pelo crescimento do salário mínimo e pela mudança na qualidade do emprego – de bicos no mercado informal ao registro na carteira. Diego e Rodrigo já não dependem do SUS. Têm plano privado de saúde como benefício das empresas onde trabalham. Diego, de 23 anos, acaba de ser promovido a chefe de estoque de uma multinacional. Trancou duas vezes a faculdade – a primeira, por falta de dinheiro para pagar a mensalidade; a segunda, por causa do horário do trabalho. Em 2011, a empresa vai pagar curso de inglês aos sábados para que ele possa fazer um estágio nos Estados Unidos. Sempre que sobra algum dinheiro, Diego investe em literatura. Quando o conheci, era um menino de olhos tristes que descarregava caminhões para ajudar a família e sonhava em ser arqueólogo. Diego ainda sonha.

Rodrigo, de 28 anos, conseguiu em dezembro um posto de mecânico numa grande concessionária de automóveis. É a primeira vez que trabalha numa empresa com benefícios. Jade, de 18, deixou o emprego de balconista numa loja para estudar para o vestibular de fisioterapia. Hustene e Estela concluíram que valia mais a pena para ela se concentrar nos estudos neste momento – um luxo impensável até bem poucos anos atrás. “Hoje”, diz Jade, “eu tenho até tênis Nike.” Gabriely, filha de Rodrigo com uma ex-namorada, é criada pela família. Nas proximidades do Natal, pedia à avó que comprasse uma caixa de bombons para o “amigo de chocolate” na escola pública onde estuda. Nenhum drama. Havia dinheiro para os bombons.

Em 2011, Amanda se tornará a primeira Costa Pereira da história, pela linhagem da mãe e pela do pai, a se formar na universidade. Aos 26 anos, tem sua própria família e renda. Ela apenas estuda. É seu marido quem paga curso superior para ambos com o salário de dois trabalhos. A filha Rafaela, de 5 anos, também estuda em escola particular. O marido de Amanda quer se formar para fazer concurso público. Ela será enfermeira. A nova família tem plano de saúde privado, um carro e uma moto e acaba de pegar as chaves do apartamento próprio. “Antes eu não tinha planos nem sonhos. Queria simplesmente ter um emprego e ajudar em casa”, diz Amanda. “Hoje tenho os melhores sonhos para minha família, como dar uma boa educação para a minha filha.”
Com exceção de Rodrigo, que parou de estudar no ensino fundamental, todos os filhos superaram Hustene em anos de estudo. Ele segue, porém, como referência da família. Apesar de ter ficado menos tempo na escola, recebeu um ensino de mais qualidade. É ele quem escreve melhor. Ao fiscalizar as tarefas escolares da neta, fica triste com a baixa qualidade do ensino público. Sofre também ao pensar que nenhum dos filhos chegará às melhores universidades de São Paulo. “Elas são para quem estudou em colégio particular, para os mais ricos”, diz. Mesmo assim, quando Hustene conta que Amanda está na universidade – e ele não perde nenhuma oportunidade de tocar no assunto na vizinhança –, fica parecido com um chéster de tanto estufar o peito. Adora pronunciar a mesma frase: “Minha filha está na universidade”. Gosta de tudo, até do som das palavras.

A família não identifica a melhoria das condições de vida com o governo Fernando Henrique Cardoso. Mesmo que a estabilidade econômica tenha sido concretizada nos dois mandatos de FHC, assim como as bases para o que veio depois, toda a transformação é atribuída a Lula. Nos dois mandatos de FHC a situação era difícil, no primeiro mandato de Lula também, no segundo a vida mudou para melhor. Mais, inclusive, do que pensaram que poderia mudar. Hustene não perdoa uma coisa em particular: no governo de FHC se afirmava que “o Brasil quebraria se tivesse um aumento de salário mínimo”. A família Costa Pereira gosta de olhar as fotos no painel da sala em que todos estão bem magrinhos. “Olha nós no governo FHC.” Hoje, engordaram. “Até a Pantera”, dizem. A cadelinha vira-lata come ração e bife.

Quando assistia ao noticiário em que Lula aparecia no exterior, com outros chefes de Estado, com reis e rainhas, Hustene chorava diante da TV. Perguntei a ele por que, se todos os presidentes anteriores também foram recebidos nas cortes. Com olhos de garoa, Hustene Pereira afirmou: “Mas não era eu. Agora, sou eu que estou lá”. Mesmo que em Dilma Rousseff ele “confie desconfiando”, Hustene acredita que, de alguma forma, ainda estará lá.

(Publicado na Revista Época em 03/01/2011)

 

A história dentro da história

Eliane Brum conta como acompanhou a família Costa Pereira ao longo de todo o governo Lula

Quando propus a ÉPOCA contar a trajetória da família Costa Pereira, do final do governo Fernando Henrique Cardoso ao final do governo Lula, algumas pessoas da redação ficaram intrigadas com este testemunho de nove anos. Apresentei duas vezes, oralmente, a história desta família no exterior, em eventos sobre o Brasil em Ferrara (Itália) e em Madri (Espanha), e a curiosidade se repetiu. Jornalistas estrangeiros me perguntavam se eu continuaria acompanhando os Costas Pereiras no governo de Dilma Rousseff. Sim, claro que sim, eu respondia. Mas não exatamente pelas razões que eles supunham. Penso que preciso explicar como esta reportagem aconteceu – a história dentro da história.
Na virada de 2001 para 2002, eu fui incumbida de encontrar um brasileiro da Grande São Paulo que desse carne às estatísticas de um momento difícil para o Brasil. Buscava um chefe de família que, como tantos naquele contexto, tivesse perdido o emprego há tempo suficiente para compreender que seria muito difícil conseguir outro. Eu buscava um homem no instante da queda para contar um momento histórico específico do Brasil.

Tentei vários caminhos, como as listas dos cadastros de benefícios da prefeitura e do Estado de São Paulo. Consumi alguns dias perambulando pelas periferias sem encontrar o que procurava. Desempregados e pobres havia muitos. Mas eu buscava um momento muito específico, entre o final do seguro-desemprego e o início da percepção de que o controle da vida escapava pelo vão dos dedos. E buscava um homem capaz de dimensionar sua perda. Depois de alguns dias atravessando a Grande São Paulo de várias maneiras, num carro sem ar-condicionado e no auge do verão paulistano, o motorista perguntou: “Afinal, o que exatamente você procura?”. Eu esmiucei em detalhes. “Ah!”, disse ele. “Você procura o meu vizinho!”

E ele tinha toda razão. Como em geral têm os bons motoristas de imprensa – hoje infelizmente quase extintos, com a terceirização do serviço. No momento em que fui apresentada a Hustene Alves Pereira, no Jardim Veloso, na periferia de Osasco, eu soube de imediato que era ele. Seus olhos queimavam no quarto mês de desemprego. Ele era um homem vivo – com medo de ser esmagado pelo Brasil e pelo discurso da exclusão.
Nos reconhecemos ali. Tenho convicção de que toda reportagem é um encontro entre personagem e jornalista. Só acontece quando este encontro é de verdade. Para isso, é preciso existir um movimento de entrega de ambas as partes: eu me abro para ouvir a sua história sem preconceitos e você se abre para contá-la com tudo o que ela é, o feio e o bonito. Com Hustene e sua família foi assim.

Passamos dias juntos, Hustene e eu, vencendo quilômetros em busca de emprego, a pé porque ele não tinha dinheiro para o ônibus. Nestas longas caminhadas Hustene me contava da angústia do seu presente, dos sonhos de seu passado e do futuro que não mais enxergava. Testemunhei do meu canto a delicadeza com que sua mulher, Estela Costa, tecia com o que lhe restava de linha não só tapetes para vender, mas uma rede para que sua família não se afogasse. Seus quatro filhos, alguns com mais intimidade do que outros, me falavam de seus anseios. E às vezes eu apenas ficava ali, observando sem nada dizer.
Repartiam comigo também o seu feijão com arroz. Algumas pessoas, ao saber que eu comia em sua mesa, ficavam indignadas porque o que eles tinham já era tão escasso. Este é um tipo de conclusão de quem pouco entende de gente e pouco pisou em favelas e periferias. Nada seria mais ofensivo para Hustene e Estela do que minha recusa em compartilhar o que tinham – mesmo que fosse quase nada. E eu nem cogitei tal desfeita.

A reportagem, com o título de “O Homem-Estatística”, foi publicada em fevereiro de 2002, no último ano do governo FHC e também no ano em que Lula, depois de três tentativas, finalmente venceria a quarta eleição. É neste momento que começa o capítulo mais surpreendente da história dentro da história.

Há uma pergunta recorrente que estudantes de jornalismo costumam fazer quando dou palestras em universidades: “Você se envolve com as fontes?”. Minha resposta é sempre a mesma: “É claro que sim!”. Se não me envolvesse, para que viveria? Deixando sempre bem claro que este envolvimento inclui um profundo respeito pela história que conto e que pertence ao outro – e isto significa escutar sem julgar e interferir o mínimo possível.

Hustene e eu criamos um vínculo. E um que hoje, quando olho para trás, penso que era muito mais claro para ele do que para mim. Eu era a contadora de sua história. E foi assim que Hustene continuou narrando fatos e sentimentos mesmo depois da reportagem publicada. Ele, por sua vez, passou a acompanhar a minha vida de repórter. Assim que a situação financeira melhorou um pouco, em meados da primeira década deste século XXI, Hustene assinou a ÉPOCA para poder ler e recortar minhas reportagens. Meus livros também estão na prateleira do seu novo escritório, figuras humildes entre vistosos best-sellers.

Seguidamente sou mencionada em seus diários – ele não esquece jamais nem o dia do jornalista nem o dia do escritor. E há uma foto minha perto de Nossa Senhora de Fátima para me proteger do risco de algumas reportagens. Especialmente se viajo a trabalho de avião, uma criatura alada da qual Hustene tem pavor. Cada vez que descobre que vou embarcar em algum, ele reza.

Segui acompanhando os principais acontecimentos da vida da família, às vezes mais de perto, em outras mais de longe. As contas de luz e água cortadas, os empregos e desempregos dos filhos, os Natais tristes, a volta da carteira assinada depois de Hustene amargar três anos e sete meses sem trabalho, a felicidade de ser o “Porteiro Pereira”, a doença de Hustene, o péssimo atendimento do SUS, a decepção com a educação pública e, finalmente, a vida melhorando e as portas do consumo se abrindo. Perpassando tudo isso, a profunda identificação com Lula, primeiro como decepção, depois com orgulho. E uma visão de mundo muito particular.

Hustene e sua família seguiram fazendo a narrativa da sua vida. E eu segui escutando com atenção e cuidado. Primeiro por telefone, depois por email. Hustene escreve muito – e escreve com verdade. Sobre fatos, sobre sentimentos, sobre sua percepção do país. Tenho uma coleção de emails de uma riqueza extraordinária sobre sua visão do governo Lula e do Brasil – e de sua família no governo Lula e no Brasil. Hustene organiza a sua existência tantas vezes por um fio escrevendo diários a Nossa Senhora e, antes, também escrevia a Che Guevara. A mim concede o privilégio de escrever sobre a trajetória de sua família e sobre sua própria escritura. Sou o olhar externo – de dentro.

Sempre tive clareza do meu lugar na casa da família Costa Pereira. E tento estar à altura do meu posto de “escutadeira” de uma história de vida. Mas este também é um lugar amoroso. E foi muito difícil vê-los passar Natais de penúria, como aquele em que Estela serviu apenas farinha com cebola, sem interferir. Foi Hustene, mais do que eu, que teve a sabedoria de riscar os limites e assim manter o mais importante a salvo. Como quando fiquei – e fico – muito angustiada com a deterioração de sua visão por uma doença degenerativa causada pela diabetes. Ele não recebeu até hoje nenhum tratamento. A (des)assistência do SUS é desesperadora. Me ofereci para pagar um tratamento privado. Não consigo imaginá-lo cego – não por falta de assistência. Ele recusou na hora, enfaticamente. Entre nós, não pode existir dinheiro nem favores.

O que eu mais gosto na vida é escutar, ler e escrever. Acompanhei a história da família Costa Pereira sem nenhum propósito de publicá-la. Mas sempre guardei tudo o que Hustene me enviou por escrito por aquele amor que a gente tem pelo testemunho histórico. E, no meu caso, porque tenho especial apreço pela grandeza das vidas supostamente – e só supostamente – comuns. Fiz apenas mais uma pequena reportagem sobre a interpretação de Hustene do primeiro ano do governo Lula, já que ele gravara todas as promessas de campanha e escrevera uma carta “ao amigo presidente”, e contei seu sofrimento em minha coluna no site da revista quando os peritos do INSS fizeram greve e ele ficou sem benefício, como milhares de brasileiros.

Só em 2010 percebi que tinha algo precioso e inédito nas mãos: a trajetória de uma família no governo Lula, a ascensão da pobreza à “nova classe média” contada pelo particular, um retrato íntimo e privado dos personagens mais importantes deste momento histórico. Pedi então licença para contar sua história e fiz várias entrevistas com todos os membros da família. Posso afirmar que só compreendi grande parte do significado, das nuances e das contradições do governo Lula quando pude enxergá-lo pelos olhos da família Costa Pereira. Espero que tenha conseguido transmitir este olhar aos leitores na reportagem publicada nesta primeira edição de 2011, logo após a posse de Dilma Rousseff – e da despedida (oficial) de Lula.

Como foi possível testemunhar a história da família Costa Pereira nos últimos nove anos? Porque Hustene Alves Pereira é um personagem que escolheu seu autor. E, para minha sorte, este autor sou eu.

(Publicado na Revista Época em 29/12/2010)

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