Acima dos muros

Não há nada mais transgressor neste momento que o diálogo.

Na coluna desta semana, no El País, convidei quatro pensadores cuja posição é estar nem num lado nem no outro, para responder a três perguntas sobre a crise atual. A ideia é dar espaço para as vozes abafadas, fora das narrativas da polarização. Não para construir um terceiro discurso – ou um terceiro lado. Não há homogeneidade. Os discursos devem permanecer múltiplos. Atravessar os muros com palavras, mas em várias direções.

Espero que esse texto possa alcançar o desejo que o moveu, provocar mais diálogo, conversa.

Foto: João Luiz Guimarães

Foto: João Luiz Guimarães

Nem de um lado nem de outro: o que dizem aqueles que têm, como posição, uma recusa às narrativas de adesão

Em cima do muro. Isentão. Colaboracionista do golpe. Covarde. Omisso. Ingênuo. Burro.

Estes são alguns dos nomes dados a quem não está em nenhum dos lados do Brasil polarizado. Não se alinha – muito menos se enfileira – nem na narrativa #ImpeachmentJá nem na “#NãoVaiTerGolpe. Nem amarelo, nem vermelho. E, assim, é achincalhado pelos dois lados, como traidor de ambos.

Como disse Bruno Cava: “Me situo nesse lugar nada confortável de ser a esquerda que a direita gosta – e a direita que a esquerda gosta. Mas que, no fundo, ninguém gosta. Lugar de pensamento que ainda balbucia, mas que ainda pensa”. Ou, nas palavras de Bruno Torturra, que se apresenta como “desidentificado”: “Prefiro a vertigem da desidentificação do que o falso refúgio das bandeiras de sempre”.

Como afirmei em meu artigo anterior, não estar em nenhum dos lados é posição. E forte. Silenciá-la, pela desqualificação, é uma perda num momento em que, mais do que nunca, as vozes precisam ser ampliadas e não reduzidas. Muito menos caladas. “Os discursos partidários, pronunciados por muitos e sempre da mesma forma, tem sufocado, com sua abundância repetitiva, os discursos independentes”, diz Pablo Ortellado. Ou, na expressão de Moysés Pinto Neto: “É como um vórtice bipolar, sugando tudo para seu interior e reduzindo todas as posições às suas referências”.

O país está, aparentemente, dividido por muros que impedem qualquer contato que não seja aos gritos. Ou que se realiza pelo espancamento, na tentativa de deletar literalmente o outro do espaço público. Os muros dos condomínios fechados, as cercas eletrificadas ganharam as ruas. E ninguém mais se escuta, cada pessoa um muro em si mesma, um portão armado, um vidro blindado e com insufilm.

É preciso promover o desarmamento. É necessário tentar enxergar acima dos muros – e derrubá-los. Não a marretadas, mas pelo instrumento mais subversivo desse momento histórico: o diálogo. A conversa que só pode acontecer pelo reconhecimento do outro como alguém que pensa diferente, não como um inimigo a ser eliminado.

É muito duro sustentar o lugar de não saber. Penso que é com essa dificuldade que também nos deparamos. Tenho dúvidas se não é por isso que uma parte das pessoas, à direita e à esquerda, prefere aderir ao conforto de uma das narrativas, para pelo menos se iludir que há uma resposta, que há alguém que sabe. Aderir como tentativa de estancar a angústia de sentir-se sem chão. Talvez seja o momento de suportar o não saber e acolher as incertezas. Mas em movimento, no movimento da busca.

No que se refere ao campo das esquerdas, também tenho dúvidas se não há, de novo, mais uma exortação ao “menos pior”, à eterna esperança da tal guinada à esquerda. Ou algo correspondente ao “voto útil” aplicado às manifestações. Mais uma conclamação, como se viu em eleições recentes e especialmente na última. Será que os dias seguintes não mostraram, de forma bastante eloquente, que isso já não deu certo? Que isso só alargou o abismo e que já passou da hora de encarar o buraco e enfrentar os conflitos, por mais duro que seja, para que pelo menos exista uma chance de criar possibilidades?

O diálogo é tão urgente que tem de ser provocado em todos os lugares. Percebi que, neste momento, nem na minha própria coluna de opinião posso falar sozinha. Convidei para este espaço, para nos ajudar a nos movermos, para além do que cada um acredita, algumas pessoas que têm ousado pensar e escrever, em geral em blogs e nas redes, sobre esse momento tão movediço, em que poucos se arriscam a dizer além do já dito. E a pensar fora das narrativas de adesão de um e outro lado. Estas, que já decoramos.

Trago para este espaço as vozes abafadas, as daqueles que não estão “em cima do muro”, mas “acima dos muros”, no plural. Moysés Pinto Neto é escritor, professor da Universidade Luterana do Brasil, graduado em direito e doutor em filosofia. Sua leitura do Brasil pode ser acompanhada no blog O Ingovernável. Bruno Torturra se dedica a experimentar novos caminhos para a participação política e para o jornalismo, a partir das possibilidades de hiperconexão. Fundou a Mídia Ninja, essencial na cobertura de Junho de 2013, e se distanciou dela a partir do final daquele ano. Hoje, toca o Estúdio Fluxo. Pablo Ortellado é filósofo, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas na Universidade de São Paulo e coautor de Vinte centavos: a luta contra o aumento, entre outros. Ele testemunhou, como pesquisador, todas as manifestações contra e a favor do impeachment organizadas em São Paulo. Bruno Cava, autor de A multidão foi ao deserto, entre outros livros, e blogueiro do Quadrado dos Loucos, também é um atento investigador das ruas, pesquisador de lutas e movimentos urbanos há 11 anos, associado à Universidade Nômade.

Eles responderam, por e-mail, a três perguntas propostas por mim. Embora esses quatro interlocutores estejam próximos do campo das esquerdas, há diferenças consideráveis no seu modo de compreender esse momento. E há quem considere o conceito de esquerda, assim como o de direita, superados, insuficientes e redutores. De modos diferentes, os quatro são observadores atentos de Junho de 2013 – o ponto de inflexão que não parece ter sido compreendido por protagonistas de ambos os lados.

A ideia, aqui, não é construir um terceiro discurso – ou um terceiro lado. Isso também seria empobrecedor. Não há homogeneidade. E é mais interessante que ela não exista, que os discursos possam ser múltiplos. Talvez, por isso, também seja difícil – ou mesmo impossível – nomear esse fora dentro. Ou esse além dos muros.

A transgressão necessária, nesse momento tão delicado, é atravessar os muros com palavras. Mas essas palavras têm várias direções.

Leia o texto completo na minha coluna no El País

O Troféu Mulher Imprensa que vocês me deram

Quero agradecer aqui a todos que votaram em mim para o Troféu Mulher Imprensa.

As colegas que concorriam ao prêmio na categoria de Mídias Sociais são mulheres incríveis, que fazem um trabalho muito importante, e têm criado novos espaços de debate dos temas de fato relevantes desse país e também dos vários feminismos, pela via do jornalismo. Quando vi a lista de candidatas, pensei que qualquer uma que ganhasse representaria muito bem todas nós. E só isso já faria aquela ser uma “eleição” diferente. Pelo menos nela não haveria “crise de representação”.

Ter recebido o voto de vocês, como um reconhecimento do meu trabalho, é muito importante pra mim, por várias razões e também porque sou alguém que escreve textos longos na internet e que se move pelas dúvidas. Sempre defendi que a melhor notícia para o jornalismo, trazida pela internet, era a possibilidade de resgatar a profundidade no jornalismo, tantas vezes comprometida por tantas motivos e também pela escassez de papel. Muitas vezes minhas reportagens demoravam a ser publicadas porque não havia ‘páginas’ disponíveis. A disputa pelas páginas sempre foi uma disputa no campo da política, e uma disputa bem árdua para quem escolheu escrever sobre desacontecimentos e sobre aqueles à margem da narrativa.

Assim, passei parte da minha vida de repórter ouvindo que leitor não gostava de textos longos. Ou não tinha tempo para textos longos. Em seguida, a minha geração passou a ouvir que a internet era para textos curtos e imediatos. Decidi ir na contramão disso. Ocupo meu espaço, hoje principalmente no El País, com longos artigos de opinião, assim como com entrevistas de profundidade, nas quais o entrevistado pode desenvolver o seu pensamento com contexto e profundidade, e ocupo também com grandes reportagens. Hoje, a internet me dá a tecnologia para provar que, sim, os leitores leem textos longos, desde que sua inteligência e o seu tempo sejam respeitados.

Essa é uma bandeira cara para mim, como jornalista, porque é uma bandeira pelo jornalismo de profundidade. Ser reconhecida por este jornalismo, que nada tem nem de rápido nem de instantâneo nem de fácil, me dá uma grande alegria. Agradeço a cada um de vocês por me ler e por debater o que escrevo em seus espaços, concordar e discordar com respeito, fazer com que minhas palavras possam ser pontos de partida para conversas outras. Nunca foi tão importante combater o ódio com diálogo, com o reconhecimento de que o outro tem algo a dizer que pode nos mover. E vice-versa. Precisamos muito derrubar os muros da surdez e fazer pontes de palavras.

Muito obrigada pela companhia nessa conversa sem ponto final.

Confira aqui todas as vencedoras do Troféu Mulher Imprensa.

Brazil’s judiciary is no longer just an institution – it has now gained a face

Meu artigo de sexta-feira no The Guardian:

Protesters outside the Planalto presidential palace in Brasilia on 17 March. Photograph: Evaristo Sa/AFP/Getty Images (The Guardian)

Protesters outside the Planalto presidential palace in Brasilia on 17 March. Photograph: Evaristo Sa/AFP/Getty Images (The Guardian)

Federal judge Sérgio Moro has become the high-profile face of the campaign to impeach Dilma Rousseff. But is he overstepping the mark?

Brazil is suffering from convulsions. At first it was one a week, then one every day. Then everything began to change by the hour.

On Thursday 17 March, Brazilians tuned in to watch as former president Luiz Inácio “Lula” da Silva was sworn in as a cabinet minister. Then they went to use the toilet or get a drink, and by the time they came back his appointment had already been blocked by a judge.

It is possible that by the time you read this article Brazil will have experienced further convulsions and what happened on Thursday will already be a distant memory. The reason for this is that Brazil is currently fighting fire with fire. The firefighters pretend not to realise that if the country goes up in flames once and for all, everyone will get burned.

Brazil is a country in uproar. The demonstrators in favour of the impeachment of the president are in uproar. The demonstrators opposed to her impeachment are in uproar. Both sides are in uproar against those who refuse to side one way or the other.

The politicians suspected of corruption are in uproar, accusing other people of being the thieves. And vice versa. A sector of the media has stopped asking questions in favour of roaring foregone conclusions.

It is like being trapped in a recurring nightmare. Just when you think that the country has reached rock bottom, it sinks to a whole new level. And from there it goes on to plummet even greater depths.

In the face of the current crisis, which is not only political and economic but also one of identity, the worst thing that could happen to Brazil would be to turn back the clock; instead of tackling its chronic defects in order to build a future, recreating the nation’s past in its own image and likeness. The risk of this happening has looked ever more likely in recent days. And given the loss of faith in politicians and traditional political parties, dogged by charges of corruption, the judiciary has been filling the political void.

(…)

 

Leia aqui.

Todo inocente é um fdp?

(Divulgação)

(Cena do filme Matrix)

Como se mover num mundo em que se tornou impossível não enxergar o mal que se pratica

Lembro uma cena do primeiro filme da trilogia Matrix, ícone do final do século 20. Os membros da resistência eram aqueles que, em algum momento, enxergaram que a vida cotidiana era só uma trama, um programa de computador, uma ilusão. A realidade era um deserto em que os rebeldes lutavam contra “as máquinas” num mundo sem beleza ou gosto. Fazia-se ali uma escolha: tomar a pílula azul ou a vermelha. Quem escolhesse a vermelha, deixaria de acreditar no mundo como nos é dado para ver e passaria a ser confrontado com a verdade da condição humana.

Na cena que aqui me interessa recordar, um traidor da resistência negocia os termos de sua rendição enquanto se delicia com um suculento filé. Ele sabe que o filé não existe de fato, que é um programa de computador que o faz ver, sentir o cheiro e o gosto da carne, mas se esbalda. Entregaria sua alma às máquinas em troca de voltar na melhor posição – rico e famoso – ao mundo das ilusões. Delataria os companheiros se a ele fosse devolvida a inocência sobre a realidade do real. Sacrifica a luta, os amigos e a ética em troca de um desejo: voltar a ser cego. Ou voltar a acreditar no filé.

A frase exata, pronunciada enquanto olha para um naco da carne espetada no garfo, é: “Eu sei que esse filé não existe. Sei que, quando o coloco na boca, a Matrix diz ao meu cérebro que ele é suculento e delicioso”. Faz uma pausa: “Depois de nove anos, sabe o que percebi? A ignorância é maravilhosa”.

Naquela época, véspera da virada do milênio, o filme deu ao público uma porta para o debate filosófico sobre o real. Tomar a pílula vermelha logo tornou-se uma metáfora para quem escolhe enxergar a Matrix – ou enxergar para além das aparências. Desde então, nestes últimos anos de corrosão acelerada das ilusões, penso que a escolha se tornou bem mais complicada.

Talvez o mal-estar do nosso tempo seja o de que já não é possível escolher entre a pílula azul e a vermelha – ou entre continuar cego ou começar a enxergar o que está por trás da trama dos dias. O mal-estar se deve ao fato de que talvez já não exista a pílula azul – ou já não seja mais possível a ilusão, esta que desempenhou um papel estrutural na constituição subjetiva da nossa espécie ao longo dos milênios.

Se fosse um de nós o membro da resistência disposto a trair os companheiros, a negociar a rendição com as máquinas diante de um suculento filé num restaurante, aqui, agora, e não mais no final dos anos 90, o dilema poderia sofrer um deslocamento. O drama não seria enxergar o filé como filé, no sentido de poder acreditar que ele existe, assim como acreditar que o restaurante existe e que o cenário a que chamamos de mundo existe tal qual está diante dos nossos olhos.

Não. O dilema atual pode ser também este, mas só na medida em que também é outro. O drama é que acreditamos no filé, sabemos que ele existe e sabemos que é gostoso. Desejamos o filé, nos lambuzamos dele e temos prazer com ele. Ao olhar para ele, porém, não enxergamos apenas “o deserto do real”, mas algo muito mais encarnado e cada vez mais inescapável: enxergamos o boi.

(…)

O tempo das ilusões acabou. Nenhum ato do nosso cotidiano é inocente. Ao pedir um café e um pão com manteiga na padaria, nos implicamos numa cadeia de horrores causados a animais e a humanos envolvidos na produção. Cada ato banal implica uma escolha ética – e também uma escolha política.

(…)

Leia o texto completo na minha coluna no El País

 

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