O dia em que a casa foi expulsa de casa

Na sexta-feira (11/9), Antonia Melo foi expulsa de sua casa por Belo Monte. Foi a última a deixar as ruínas de sua rua. Para quem não a conhece, Antonia Melo está para o Xingu, no Pará, como Chico Mendes estava para Xapuri, no Acre. Mas Antonia Melo está viva. O Brasil tem a péssima tradição de “descobrir” seus grandes homens e mulheres depois de assassinados, quando já é tarde demais. Não precisamos de mártires, mas de lideranças vivas pensando o Brasil e, principalmente, a Amazônia. Escutar Antonia Melo e ampliar a sua voz é mantê-la viva.

Fotos: Lilo Clareto

Fotos: Lilo Clareto

Antonia Melo foi encurralada. Por seis meses o tempo da sua vida esteve marcado pelo som das máquinas botando abaixo a vizinhança da Sete de Setembro, o nome da rua só mais uma ironia. Ela estava ali, sitiada, testemunhando o mundo que ajudou a construir ser violado e convertido num cenário de Faixa de Gaza. Ela, seus filhos, seus netos. E o barulho da destruição avançando, cercando, soterrando também as conversas, fincando seus braços robóticos nas palavras, matando frases inteiras. Um dia chegou em casa e descobriu os escombros do muro dos fundos, derrubado junto com um pedaço da floresta que tinha como quintal. Num calor que pode beirar os 40 graus, já não havia energia elétrica suficiente para ligar a geladeira. Antonia foi sendo asfixiada aos poucos, menos ar a cada dia. Mas ainda assim o povo banido das ilhas da Volta Grande do Xingu, dos baixões de Altamira, continuava entrando pelo seu portão sempre aberto, desviando das crateras, saltando sobre os destroços com as havaianas que parecem ter nascido já gastas naqueles pés. “Dona Antonia, dona Antonia, como tiram da gente uma casa?”. Essas milhares de famílias cuspidas de seus lares pela hidrelétrica de Belo Monte fizeram de Antonia Melo o seu endereço. Lá, até o fim, encontravam uma cadeira, um copo de água entre árvores de sombra, e os ouvidos de Antonia, um par de orelhas que ela fez braços e abraço ao escutar os que ninguém mais escutava. Sem rumo, confinados em bairros longe de tudo que conheciam, em residências todas iguais, feitas para não durar, a maioria sem pouso algum, arrancados pela raiz e jogados fora, esses homens, mulheres e crianças esculpidos pelo sol amazônico tinham em Antonia Melo a sua casa. A maior liderança popular viva do Xingu tornara-se o único ponto de reconhecimento num mapa rasgado por uma guerra talvez pior, porque não nomeada. Na sexta-feira, 11 de Setembro de 2015, a casa foi expulsa de casa.

O que é uma casa, minha senhora?, repito a pergunta que tanto escuto pelas ruas de Altamira, no Pará, na boca de gente que já não encontra o destino dos pés.

O rugido da demolição morde as palavras de Antonia Melo, mas não consegue silenciá-la (Fotos: Lilo Clareto)

O rugido da demolição morde as palavras de Antonia Melo, mas não consegue silenciá-la

– Dinheiro nenhum paga uma casa. Primeiro, porque eu não estava vendendo minha casa, não coloquei nela nenhuma placa de venda. Eu nunca pensei em sair daqui, de jeito nenhum. Aqui é o lugar que eu escolhi pra morar, criei os meus filhos. A maioria deles nasceu aqui, cresceu aqui. Hoje tenho os netos que nasceram aqui e já estão crescendo aqui. Então, indenização nenhuma paga a casa de uma pessoa. A casa que eu vou comprar com esse dinheiro nunca será a minha casa. Uma casa é como plantar uma árvore. As raízes vão profundamente embaixo da terra, lá embaixo elas se agarram, para que vento, vendaval, tempestade, e até mesmo uma alagação, não a derrubem. As raízes de uma casa são bem profundas. Os filhos e os netos vão embora, mas a casa fica. E a gente embeleza a casa com a natureza, com as árvores, com o que a gente gosta. E embeleza também com as árvores que dão alimento. Eu plantei com as minhas mãos todas as belezas que estão aqui e que hoje me dão frutos e me dão forças pra resistir ao barulho dos tratores derrubando tudo. Uma dessas árvores é o açaizeiro. Aprendi a amar o açaí, o vinho, o suco mais saboroso que já tomei dentro e fora do Brasil. Mas tem o cupuaçuzeiro, de cupuaçu, e a mangueira, que dava tantas mangas e tão saborosas que eu botava na calçada para os vizinhos e quem passasse pegar. Uma casa é isso, é onde a gente se sente feliz, mesmo sem ter dinheiro. Estar dentro da sua casa é ser grande.

CASA

(…)

A casa, as ilhas, o rio, hoje são um pretérito. Um era. Antonia Melo volta a chorar, antes de agarrar-se mais uma vez ao fio das palavras. O que é uma casa senão o corpo inviolável de alguém, minha senhora? Me diga, como se faz para partir de si mesma?

 Leia mais na minha coluna no El País

ANTONIA MELO1

Para quem quiser compreender a atual conjuntura da Amazônia, mais artigos, entrevistas e reportagens, aqui:

ENTREVISTAS

31/10/2011
Belo Monte, nosso dinheiro e o bigode do Sarney
Um dos mais respeitados especialistas na área energética do país, o professor da USP Célio Bermann, fala sobre a “caixa preta” do setor, controlado por José Sarney, e o jogo pesado e lucrativo que domina a maior obra do PAC. Conta também sua experiência como assessor de Dilma Rousseff no Ministério de Minas e Energia

05/09/2011
Um procurador contra Belo Monte
Conheça o homem que se tornou o flagelo do governo ao lutar contra a maior e mais polêmica obra do PAC

04/06/2012
Dom Erwin Kräutler: “Lula e Dilma passarão para a História como predadores da Amazônia”
O lendário bispo do Xingu, ameaçado de morte e sob escolta policial há seis anos, afirma que o PT traiu os povos da Amazônia e a causa ambiental. Afirma também que Belo Monte causará a destruição do Xingu e o genocídio das etnias indígenas que habitam a região há séculos. Há 47 anos no epicentro da guerra cada vez menos silenciosa e invisível travada na Amazônia, Dom Erwin Kräutler encarna um capítulo da história do Brasil

29/9/2014
Diálogos sobre o fim do mundo
Do Antropoceno à Idade da Terra, de Dilma Rousseff a Marina Silva, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro e a filósofa Déborah Danowski pensam o planeta e o Brasil a partir da degradação da vida causada pela mudança climática

01/12/2014
Belo Monte: a anatomia de um etnocídio

A procuradora da República Thais Santi conta como a terceira maior hidrelétrica do mundo vai se tornando fato consumado numa operação de suspensão da ordem jurídica, misturando o público e o privado e causando uma catástrofe indígena e ambiental de proporções amazônicas

ARTIGOS DE OPINIÃO

06/06/2011
Se a Amazônia é nossa, por que não cuidamos dela?
Para boa parte dos brasileiros, a floresta não passa de uma abstração

26/09/2011
Devemos ter medo de Dilma Dinamite?
As mulheres que a primeira presidente prefere não escutar

17/10/2011
A pequenez do Brasil Grande
A ditadura acabou, mas a palavra “desenvolvimento” continua sendo torturada para confessar o que o governo deseja que o povo acredite

22/10/2012
“Decretem nossa extinção e nos enterrem aqui”
A declaração de morte coletiva feita por um grupo de Guaranis Caiovás demonstra a incompetência do Estado brasileiro para cumprir a Constituição de 1988 e mostra que somos todos cúmplices de genocídio – uma parte de nós por ação, outra por omissão

 26/11/2012
Sobrenome: “Guarani Kaiowa”
O que move um brasileiro urbano, não índio, a agregar “guarani kaiowa” ao seu nome no Twitter e no Facebook?

02/07/2013
Índios, os estrangeiros nativos
A dificuldade de uma parcela das elites, da população e do governo de reconhecer os indígenas como parte do Brasil criou uma espécie de xenofobia invertida, invocada nos momentos de acirramento dos conflitos

31/03/2014
A ditadura que não diz seu nome
O imaginário sobre a Amazônia e os povos indígenas, forjado pelo regime de exceção, é possivelmente a herança autoritária mais persistente na mente dos brasileiros de hoje, incluindo parte dos que estão no poder. E a que mais faz estragos na democracia

13/04/2015
Os índios e o golpe na Constituição
Por que você deve ler essa coluna “apesar” da palavra índio

07/07/2015
Belo Monte, empreiteiras e espelhinhos
Como a mistura explosiva entre o público e o privado, entre o Estado brasileiro e as grandes construtoras, ergueu um monumento à violência, à beira do Xingu, na Amazônia

REPORTAGENS

16/2/2015
O pescador sem rio e sem letras
À beira de Belo Monte, uma história pequena numa obra gigante. Que tamanho tem uma vida humana?

15/9/2014
A não gente que não vive no Tapajós
A extraordinária saga de Montanha e Mangabal, da escravidão nos seringais à propaganda do governo que pretende botar uma hidrelétrica na terra que habitam há quase 150 anos

28/01/2012
A Amazônia, segundo um morto e um fugitivo
Dois homens denunciaram a quatro órgãos federais e dois estaduais uma milionária operação criminosa que rouba ipê de dentro de áreas de preservação da floresta amazônica, no Pará. Depois da denúncia, um foi assassinado – e o outro foge pelo Brasil com a família, sem nenhuma proteção do governo. A partir do relato desses dois homens, é possível unir a Amazônia dos bárbaros à floresta dos nobres

25/11/2005
À espera do assassino

Como vivem os brasileiros ameaçados de morte na fronteira paraense, onde o futuro da Amazônia é decidido à bala

04/10/2004
O Povo do Meio
Esses brasileiros não votam, são analfabetos e oficialmente não existem. À margem do país, estão jurados de morte

08/04/2013
À margem do pai
Na floresta amazônica, um homem confronta sua solidão quando um filho seu é picado por uma cobra, o outro por escorpião. Como salvá-los sem nenhum acesso à saúde? O dia a dia dos protetores da Terra do Meio, onde não morrer é um golpe de sorte

Um negro em eterno exílio

A longa travessia de Carlos Moore, o ativista e intelectual que denunciou o racismo em Cuba e passou a vida perseguido pelos dois lados da Guerra Fria, até chegar ao Brasil e encontrar um país mergulhado numa crescente tensão racial

Foto: Bunche Center/UCLA

Foto: Bunche Center/UCLA

Aos 22 anos, Carlos Moore já tinha vivido mais do que a maioria das pessoas numa existência inteira. Já tinha conhecido a fome e a violência na pequena cidade cubana onde nasceu, já tinha desejado não ser preto e se esforçado por alisar o cabelo, clarear a pele com produtos arriscados e desachatar o nariz com prendedores, já tinha emigrado para os Estados Unidos e descoberto a luta pelos direitos civis, já tinha se apaixonado por Patrice Lumumba, o célebre líder congolês, e planejado um atentado ao consulado belga em Nova York para vingar-se de seu assassinato, já tinha se encantado com a revolução depois de um encontro com Fidel Castro, já tinha se tornado comunista e voltado a Cuba para colaborar com o processo revolucionário, já tinha descoberto que o regime cubano era tão racista quanto aquele que tinha derrubado, já tinha sido encarcerado uma vez por denunciar que o racismo persistia na revolução, já tinha sido condenado a quatro meses num campo de trabalhos forçados uma segunda vez pelo mesmo motivo, depois de abordar o próprio Fidel Castro em público, já tinha feito uma confissão, para não ser morto, de que havia se equivocado e de que não havia racismo em Cuba, já tinha se refugiado na embaixada da Guiné quando percebeu que seria executado de qualquer modo, já tinha fugido para o Egito e depois para a França, sem nenhum documento, já tinha sido rejeitado por um Jean-Paul Sartre convencido de que ele era “agente do imperialismo”, já tinha sido acolhido por um dos ideólogos da negritude, o grande poeta surrealista martinicano Aimé Césaire, já tinha virado segurança do ativista negro Malcolm X, quando este esteve em Paris, e já tinha sofrido de todas as formas pelo seu assassinato. Isso tudo aconteceu até os seus 22 anos. Depois, aconteceu muito mais.

A primeira foto (1957)

A primeira foto, em 1957

Leia mais na minha coluna no El País:

“Todos os negros nascem num grande exílio forçado”

“O racismo já determinou que brancas são para casar, mulatas para fornicar e pretas para trabalhar”

“Para os que se dizem de direita ou de esquerda, não importa a verdade. Se você tem um adversário, você o elimina da forma mais eficaz: com calúnias”

“No Brasil, o racismo é o leite que amamenta o negro todos os dias”

“A penetração dos negros nas universidades, pelas cotas raciais, foi vivida pela sociedade branca como um estupro”

“Ao quebrar o mito da democracia racial, o movimento negro quebrou a ideologia sobre a qual se sustenta esse país”

Com Fidel Castro, em 1960

Com Fidel Castro, em 1960

“A descoberta de que os negros são maioria no Brasil gerou um pânico existencial na parcela branca da sociedade”

“Nos próximos 15 anos, a maioria negra vai ter que estar refletida em todas as instâncias de poder”

“Os brancos vão ter que negociar o poder no Brasil, como aconteceu na África do Sul. Não há mais como ‘branquear’ o país”

“Para uma parcela dos brancos, descobrir-se opressor é um grande problema. Esses brancos éticos serão uma reserva moral importante”

“Inventamos uma África mítica para resistir por 400 anos num sistema que dizia que não éramos humanos”

Com o poeta surrealista martinicano Aimé Césaire e o escritor americano Alex Haley   em 1987

Com o poeta surrealista martinicano Aimé Césaire e o escritor americano Alex Haley, em 1987

“Eu não estava fazendo uma história. Estava vivendo uma vida”

“Não me defino por nacionalidades. O meu lugar é o de viver de acordo com o meu
tempo”

“Me encontrei: posso olhar todas as diferenças e não me sentir ameaçado por nenhuma delas”

Com Malcom X, em 1974

Com Malcolm X, em 1974

 

LIVRO

“Pichón – minha vida e a revolução cubana” (Editora Nandyala) 

Lançada em inglês, em 2008, a autobiografia de Moore foi editada no Brasil graças a um financiamento coletivo. O vídeo abaixo foi feito para divulgar a campanha de financiamento.

Leia aqui a entrevista completa com Moore.

 

 

Rodopiando em Min

Minha despedida de Marcelo Min, fotógrafo que amarrou as pontas da vida. Meu amigo não queria morrer, mas morreu como quis: vivo.

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Lembro-me primeiro de uma noite de inverno. Marcelo Min e eu testemunhávamos, como repórteres, os últimos dias da vida de Ailce de Oliveira Souza, a mulher que nós dois aprendêramos a amar, ao acompanhar o seu morrer por 115 dias. Naquela noite, Ailce parecia ter começado a partir. Ela só abria os olhos para olhar o mundo do qual se despedia e para pedir água. Nós molhávamos os lábios dela e ficávamos olhando o mundo com ela. Nem Min nem eu conseguimos deixá-la naquela noite. Nos enfiamos num quarto vago na enfermaria de cuidados paliativos do hospital, onde seu último inquilino acabara de se ir. Eram duas camas e não havia lençol. Deitamos sobre o plástico e Min, sempre generoso, me deu o único cobertor fino para atravessar uma madrugada gelada. Até ancorarmos no dia seguinte, ele ficou repetindo que não sentia frio, mas tiritava. Naquela noite do inverno de 2008, ficamos ali, no escuro, dois passageiros clandestinos daquela enfermaria entre a vida e a morte. Conversando para costurar a madrugada e a dor com palavras. Min me contou que queria morrer como seu Antônio, um homem que ele tinha fotografado em outro quarto, seu Antônio que o recebia com uns olhos brilhantes, molhados de vida, mais vivo que todos, e de imediato contava uma história. Min foi o primeiro a perceber que seu Antônio acreditava que, enquanto emendasse uma história na outra, estaria vivo. E um dia apenas fechou os olhos para anunciar que sua história tão cheia de “um tudo” havia chegado ao fim.

Antônio Walter Correia abriu o sorriso antes de começar a contar uma das muitas histórias de sua vida. (Foto: Marcelo Min)

Antônio Walter Correia abriu o sorriso antes de começar a contar uma das muitas histórias de sua vida. (Foto: Marcelo Min)

Três dias depois, o contador de histórias encerrou a sua suavemente (Foto: Marcelo Min)

Três dias depois, o contador de histórias encerrou a sua suavemente (Foto: Marcelo Min)

Marcelo Min morreu na última quinta-feira (27/8). E eu ainda não posso afirmar que isso de fato aconteceu. Aqueles que amamos morrem devagar dentro da gente, e a qualquer momento eu sinto que ele vai chegar com aquele jeito meio tímido, com aquele sorriso inteiro bom, e dizer: “Oi, Eliane”. E depois faríamos alguma reportagem em que invariavelmente alguém o chamaria de “japonês”. E nós dois riríamos por causa dessa sina de que no Brasil todos os descendentes de orientais viram “japonês.” Min era descendente de coreanos. Mas ele morreu. E quando me pediram para escrever um texto sobre ele, minha reação imediata foi dizer: “não consigo”. Como escrever sobre o Min quando a morte dele me rouba todas as palavras? Naquele momento, eu me sentia como uma criança que ainda não sabia onde as palavras moravam. Agora, algumas horas depois, volto a ser adulta. Sei onde as palavras moram, mas sei também algo que jamais vou superar: as palavras são faltantes, não dão conta da vida. Então, Min, me perdoa por me faltarem palavras para contar da falta que você nos faz.

Na manhã de terça-feira (25/8), Min deixou os filhos na escola que ele e Luciana Benatti, sua companheira, ajudaram a criar. Sim, juntos eles eram assim, o Min e a Luciana. Criavam um mundo melhor, inventavam o que precisava existir. A gente nem sabia que precisava, mas eles sabiam. E inventavam. Min se despediu de Arthur, 7 anos, e de Pedro, 4, e foi ao Parque Villa-Lobos para fazer algo bem Min. Nos últimos dois anos ele tinha decidido aprender a patinar. E quando Min decidia fazer alguma coisa, fosse um gesto ou uma aventura arriscada, ele fazia. Ficou assistindo a tutoriais na internet e acabou por se tornar um artista da patinação. Luciana olhava para ele: “Aos 46 anos, Marcelo?”. Luciana sabia que Min era livre. E o amava livre. Min então rodopiava. Ele rodopiava quando se sentiu mal. Não houve queda, nem nada assim. Era um aneurisma no cérebro, um inimigo silencioso dentro dele. Logo Min perdeu a consciência. Dois dias depois, os médicos anunciaram sua morte cerebral.

Marcelo Min foi meu companheiro em todas as reportagens sobre a morte. E foram várias. Entre 2008 e 2010 empreendemos juntos essa travessia. Acho que só ele seria capaz de olhar para a morte da maneira revelada por suas fotos. Com tanta delicadeza. Tem gente que escreve com a ponta dos dedos. Min fotografava com a ponta dos dedos. Foi assim quando registrou uma mãe com seu bebê morto nos braços. Era uma foto tão difícil. Estávamos contando a rotina de uma UTI neonatal com cuidados paliativos, narrativas de mães que pariam filhos já condenados à morte próxima. A foto era um ritual que dava memória a um momento da vida daquelas mães e pais, uma certeza de que tinham cuidado da melhor forma que puderam, haviam feito todo o possível. Tinham sido mães e pais, ainda que por um curto espaço de tempo. A foto era o registro de uma história, ainda que essa história fosse um sopro. Mas só Min poderia fazer esse retrato para publicar numa revista de circulação nacional.

Josiane Pereira despede-se de sua filha Ana Luiza. A menina viveu apenas sete horas. Na sala de luto, na unidade de neonatologia, o marido, Giovani, a ampara e acaricia (Foto: Marcelo Min)

Josiane Pereira despede-se de sua filha Ana Luiza. A menina viveu apenas sete horas. Na sala de luto, na unidade de neonatologia, o marido, Giovani, a ampara e acaricia (Foto: Marcelo Min)

Nessa travessia reportera por contar o morrer, Min era mais sábio do que eu. Ele compreendia melhor a matéria da vida. No mesmo período em que peregrinávamos por camas onde a existência se encerrava, ele se dedicava com Luciana a um outro projeto, o de contar o nascimento. Ativistas, ele e Luciana, do parto natural e humanizado, Min ora era chamado para registrar estreias de bebês no palco do mundo, ora era chamado para documentar a despedida de quem deixava a cena. Vivia sob o imperativo de dois gritos, às vezes quase simultâneos: “Vai nascer!” ou “Está morrendo!”. Partia para ambos os destinos com a mesma serenidade e a mesma entrega desbragada. Nascer e morrer era muito semelhante, no ponto de vista dele, eram partes de um mesmo processo. O olhar amendoado de Min amarrava as duas pontas da vida. Nunca consegui confirmar o autor dessa frase que estou sempre repetindo, por perfeita que é, mas o legado fotográfico de Min deu uma imagem definitiva a esse aforismo: “A morte não é o contrário da vida. A morte é o contrário do nascimento. A vida não tem contrários”.

Denise, Lauro e a pequena Alice (Foto: Marcelo Min)

Denise, Lauro e a pequena Alice (Foto: Marcelo Min)

Arthur, o primeiro filho de Luciana e Min, fez sua estreia no mundo numa banheira de hospital e foi devidamente fotografado pelo pai. Pedro nasceu numa piscininha inflável, decorada com alegre fauna marinha e abastecida por uma mangueira e um velho chuveiro Lorenzetti, na sala do apartamento. Quando sentiu a primeira contração, Luciana achou que era a lasanha de berinjela do jantar se manifestando. Não era, e logo o porteiro do prédio foi ficando alarmado com as mulheres que chegavam de malinha no meio da noite para ajudar no parto em casa. Piorou a situação do porteiro quando Luciana começou a dar aqueles berros primais e libertadores na madrugada. Antes de começar a gritar nas contrações mais fortes, avisou ao pequeno Arthur: “Filho, para o irmãozinho sair da barriga, a mamãe vai ter que dar uns gritos de leão”. Arthur adorou. E a partir daí, sempre que sua mamãe leoa berrava, ele ria e batia palmas na maior empolgação. Foi assim, no estilo Luciana e Min de ser, que Pedro nadou para a vida. Marcelo e Arthur, pai e filho, cortaram o cordão umbilical. Quando Luciana acordou no dia seguinte, Marcelo serviu pão com requeijão. Eles eram assim. Eles serão sempre assim, juntos na memória da gente.

Luciana Benatti no parto de Arthur (Foto: Marcelo Min)

Luciana Benatti no parto de Arthur (Foto: Marcelo Min)

Luciana Benatti e Arthur (Foto: Marcelo Min)

Luciana Benatti e Arthur (Foto: Marcelo Min)

Na véspera do dia em que perdeu a consciência, Min levou os dois filhos para o estúdio e passou a tarde fotografando-os. À noite, uma amiguinha foi dormir na casa deles. Min botou as crianças na cama e, de novo, fotografou-as. Depois, ele e Luciana abriram uma cerveja e ficaram conversando sobre a vida. Eles sentiam-se num grande momento, “plenos” foi a palavra escolhida por Luciana. Viviam segundo suas próprias escolhas. Min disse a Luciana sobre como se sentia feliz por ter escolhido trabalhar menos para poder colocar os filhos na cama, como acabara de fazer. Min tinha escolhido uma vida viva. E sabia disso.

Nascer e morrer não foram os dois únicos temas da fotografia de Marcelo Min. Ele documentou muitos Brasis, vários mundos. Alguns deles comigo, muitos com outros repórteres. Várias vezes sozinho. Min não era um fotógrafo que esperava. Era ele mesmo um desbravador de histórias. Se o principal instrumento do repórter é a escuta, Min escutava com os olhos. Dentro daquele semblante sereno, habitava uma vontade indomável. Min era apaixonado e obcecado por suas paixões. E uma delas era a justiça. Foi assim na desocupação do Jardim Edite, em 2009, quando a especulação imobiliária expulsou 800 famílias depois que o metro quadrado daquela região de São Paulo se valorizou, entre a Avenida Berrini e a Ponte Estaiada. Alguns jornalistas acreditaram na versão oficial e deram a notícia de que todos os moradores haviam deixado o lugar. Mas Min estava lá, onde um repórter deve estar, por sua própria conta, sem que nenhum chefe tivesse mandado ou pedido. Ele acompanhava há meses o cotidiano da favela para contar o mundo invisibilizado, ainda que gigantesco, escancarado para todos que passavam pela avenida, mas preferiam não vê-lo. Min provou que havia restado uma casa, uma resistência. Registrou os últimos gauleses, Marcão da Pipoca e sua família, diante de uma casa pintada com “a cor do céu” entre os escombros do inferno de uma cidade que mastiga os mais pobres. Depois, me chamou para contar a história.

O casal José Marcos, conhecido como Marcão da Pipoca, e Maria Aparecida, sua filha Késia e o neto Miguel Isaías, diante de sua casa, numa favela que não existe mais, na Zona Sul de São Paulo (Foto: Marcelo Min)

O casal José Marcos, conhecido como Marcão da Pipoca, e Maria Aparecida, sua filha Késia e o neto Miguel Isaías, diante de sua casa, numa favela que não existe mais, na Zona Sul de São Paulo (Foto: Marcelo Min)

Na noite em que ele partiu, Luciana reuniu os amigos e os familiares que haviam ido ao hospital esperar com ela a confirmação da morte cerebral. Ela já era querida naqueles corredores, a mulher que chegara lá com o homem que amava, dizendo: “Se ele tiver que ir, deixa ele ir. Nós falamos muito sobre isso, não queremos nada invasivo, nenhum tratamento doloroso e inútil. Vamos respeitar o tempo dele”. Numa roda de amor, foi lido um texto escolhido por ela. E Luciana depois contou um pouco do Min. Ela disse muito. Disse também: “O Marcelo queria mudar o mundo. E acho que ele mudou”. Sim, ele mudou. O mundo e cada um de nós que o carregaremos no lado de dentro. Sei que sou um pouco o que Min fez de mim em nossas andanças. Pedaços de Min em mim. Em nós.

Ailce, a mulher que acompanhamos no seu morrer, nos ensinou que pensar sobre a morte é pensar sobre a vida. E pensar sobre a vida é pensar sobre o tempo. Ailce havia adiado demais e um dia descobrira que seu tempo tinha acabado. Ensinou, a mim e a Min, que o tempo é a delicadeza inegociável. Acho que Min aprendeu esse ensinamento essencial, talvez o mais profundo, melhor do que eu, que agora me resto a lamentar todas as vezes em que adiei para o dia seguinte o encontro que me levaria até ele. Não há dia seguinte. Não há nem mesmo hoje. Há esse instante, agora, em que tecemos nosso tempo. E sobre isso não podemos negociar, não há o que vender ou comprar. O tempo nem mesmo se aluga. O tempo tem de ser nosso. Já. Tomado de quem nos tomou, para ser tecido em nossos próprios termos.

Min morreu. E Min sempre me soou um nome – sobrenome – tão enigmático. Lembro-me agora da poesia de Drummond. E a adapto para o Min que nela é: “Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em Min. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim”.

Min partiu. Obedecendo ao seu desejo, claramente pronunciado em tantos dias, seus órgãos foram doados para fazer outros seguirem vivos. Min partiu-se para continuar íntegro. Antes, ele escreveu com Luciana um livro chamado Parto com amor. Min agora parte com amor.

Em um vídeo sobre a reportagem da morte, Min contou que Antônio, o contador de histórias, o ensinou a morrer: “Eu quero morrer que nem o seu Antônio. Até o último momento bem-humorado, até o último momento cheio de vida”.

Marcelo Min não queria morrer, mas morreu como quis. Rodopiando em seus patins, voando.

Min morreu vivo.

Quando a periferia será o lugar certo, na hora certa?

A maior chacina de 2015, em São Paulo, mostra que as palavras começam a matar antes da morte e seguem assassinando os vivos depois

Foto: UJS Osasco

Foto: UJS Osasco

Leia na minha coluna no El País:

As fotos do 13 de agosto mostram mulheres lavando o sangue dos mortos com rodo, como nos filmes B de terror. Se o rio vermelho escorre pelos degraus, as palavras ecoam para além da extensa fila de cadáveres. Elas matam lentamente, como balas em câmera lenta, que perfuram os corpos, se espatifam por dentro e vão corroendo os órgãos. Dia após dia, dia após dia, dia após dia. Mata-se e morre-se também na linguagem. As palavras silenciam os mortos para além da morte. E calam os vivos, mesmo quando eles pensam gritar.

(…)

“Estava no lugar errado e na hora errada” foi o comentário mais frequente dos familiares dos 18 mortos, seis feridos, na periferia de Osasco e Barueri, na Grande São Paulo, na maior chacina de 2015. A expressão dá conta de uma máxima: “na periferia há preto ladrão, branco ladrão e aquele que está no lugar errado e na hora errada”. A frase também culpa, ainda que indiretamente, aquele que morre.

Por que, afinal, ele estava aonde não deveria de estar, do lado de fora, na rua? Não tinha nada de estar ali. Para não estar na hora errada, no lugar errado, é preciso ficar trancado dentro de casa. Se estivesse trancado dentro de casa, estaria vivo. Comentários como estes são escutados o tempo todo nas periferias, tanto que se tornaram um clichê. Cada vez mais acuados, aqueles que não querem morrer se resignam a desistir do espaço público.

É a vida dos escravos, sonhada por seus senhores: de casa pro ônibus lotado, do ônibus lotado pro trabalho, do trabalho pro ônibus lotado, do ônibus lotado pra casa. Gente pobre não precisa de lazer ou o lazer é ver TV em casa, preferencialmente programas em que apresentadores, alguns deles com ambições eleitorais, criminalizam pobres e ofertam a imagem de seus corpos no altar midiático. Quem frequenta bar, sabe que pode morrer, é este o recado. Como na noite de 13 de agosto, como em tantas outras noites.

Leia o texto inteiro aqui.

Foto: reprodução Facebook "Mâes de Maio"

Fotos: reprodução Facebook “Mâes de Maio”

Memória e inquietações: a reportagem e a história em movimento

Memória e inquietações movem a segunda edição de Repórter. Criada em 2011, a série do Itaú Cultural foi idealizada pela jornalista Eliane Brum para documentar a experiência dos grandes repórteres brasileiros, registrando-a e tornando-a disponível na internet, assim como refletir sobre esse momento de mudanças profundas da imprensa. A reportagem é a narrativa da história em movimento. Seu percurso e suas contradições também revelam o seu tempo. Assim, Repórter tem a ambição de registrar a memória de quem conta a história do hoje, transformando-a em documento histórico para a consulta das gerações futuras. E, ao mesmo tempo, a ousadia de também construir memória, ao pensar sobre os desafios de fazer reportagem nesta época, na qual jovens jornalistas precisam encontrar um modo de fazer seu trabalho no contexto de um modelo de negócio em crise, assim como repórteres experientes confrontam-se com o imperativo de criar alternativas para continuar narrando o presente com toda a complexidade, as nuances e o respeito à alteridade que a reportagem exige.

José Hamilton Ribeiro: 60 anos de reportagem

Nesta segunda edição, que acontecerá em 2 de setembro, no auditório do Itaú Cultural, em São Paulo, o homenageado será o repórter José Hamilton Ribeiro. Aos 80 anos e ainda na ativa, ele é um dos maiores repórteres da história da imprensa brasileira. Em 60 anos de profissão, o paulista Zé Hamilton contou vários Brasis e vários momentos desses tantos países que convivem no mesmo território. Trabalhou em diversas publicações impressas, entre elas a lendária revista Realidade, e também na rádio e na TV. Tem 15 livros publicados e é vencedor de sete prêmios Esso.

Em 1968, Zé Hamilton testemunhou a Guerra do Vietnã. Nessa cobertura, perdeu a parte inferior da perna esquerda, na explosão de uma mina vietcong. Assim ele descreveu o momento: “De repente me senti no ar. Quando me dei conta, estava sentado no chão envolto em fumaça. Procurei meu intérprete, um americano de origem mexicana, e não o vi. Pensei que o rapaz tivesse morrido. Só aí senti que minha perna esquerda puxava. Olhei e não havia mais o pé. Só alguns minutos depois começou a doer”.

Tão logo voltou a si, depois da cirurgia de amputação, comentou, bem no seu estilo: “Este meu pé esquerdo sempre me deu problemas. Quando criança, tive nele uma tuberculose óssea. Não me fará muita falta. Pensando bem, tive sorte. No mesmo local em que fui e pisei a mina, pouco antes dois soldados morreram e um terceiro perdeu ambas as pernas e um braço”. Este é Zé Hamilton – ou “Zé Parmito”, como chamam os amigos reporteros mais íntimos. Ao ligar para ele para combinar essa homenagem, fomos encontrá-lo em campo, no Pantanal, reporteando para o programa Globo Rural, onde é repórter especial há mais de 30 anos.

Na década de 50, Zé Hamilton foi impedido de se formar no curso de jornalismo da Cásper Líbero, por ter liderado uma greve. Começou a trabalhar como estagiário na Rádio Bandeirantes. Nos corredores, encontrava-se com artistas da música caipira, com quem conversava, ainda sem perceber a sua importância para a arte e também para a sua vida de repórter. Ainda em 2015, Zé Hamilton vai lançar a reedição revista e ampliada de “Música Caipira: as 270 maiores modas” (Realejo), desta vez acompanhada de um DVD.

Em José Hamilton Ribeiro: 60 anos de reportagem, quatro grandes repórteres foram convidados para entrevistar o grande repórter: Clóvis Rossi, Ricardo Kotscho, Lúcio Flávio Pinto e Carlos Moraes. A entrevista encerrará o evento, a partir das 20 horas. A mediação será da repórter e curadora da série, Eliane Brum.

Lúcio Flávio Pinto: o repórter que inventou um Jornal Pessoal

A abertura de Repórter, às 15h, é também um encontro imperdível. Em O repórter que inventou um Jornal Pessoal, o entrevistado será Lúcio Flávio Pinto, jornalista paraense que se tornou a principal referência na cobertura da Amazônia. Depois de trabalhar em grandes veículos nacionais, incluindo 18 anos no jornal O Estado de S. Paulo, Lúcio Flávio criou, na década de 80, o seu Jornal Pessoal. Em setembro de 2015, o JP completará 28 anos de existência de forma totalmente independente: sem anunciantes publicitários. Com tiragem de 2 mil exemplares, o jornal tem 16 páginas, é quinzenal e vendido a R$ 5 em bancas e livrarias de Belém do Pará e região.

Nas palavras de Lúcio Flávio Pinto: “O objetivo é combater o ‘destino manifesto’ que se impõe à região, de ser colônia. Acredito com firmeza que a história não está escrita nas estrelas, restando-nos contemplá-las, à distância, como acidentes da natureza. Creio que podemos escrever também a história e, nessa escrita, sair da trilha dos colonizadores e da camisa de força em que nos colocaram os dominadores”.

Apenas parte do acervo do Jornal Pessoal está digitalizada na internet. Para Lúcio Flávio, o compromisso maior é manter o jornal vivo e materializado, arriscando-se ao contato íntimo do toque: “A versão impressa atesta o compromisso do jornal com o desafio de se manter visível, acessível no mundo real e exposto democraticamente nas ruas”.

Pela contundência de suas reportagens e pela independência de sua atuação, Lúcio Flávio ganhou vários prêmios nacionais e internacionais. Também escreveu 21 livros, todos sobre a Amazônia. As mesmas razões que o fizeram ser reconhecido no jornalismo, tornaram-no alvo de 33 processos judiciais e até de agressões físicas. O Jornal Pessoal já foi tema de matérias no Washington Post, Le Monde, The New York Times, Corriere della Sera, The Independent, entre outros. Para entrevistá-lo, foram convidados dois jornalistas com experiência reconhecida na cobertura amazônica e socioambiental: Leonêncio Nossa, do Estadão, e Paulina Chamorro, das rádios Eldorado e Estadão. A mediação será de Claudiney Ferreira e Eliane Brum.

Narrativas de Transição

Em seguida, a partir das 17h, será a vez do segundo encontro do dia: Narrativas de Transição. Neste painel, cinco jornalistas, com diferentes trajetórias, contarão como estão se inventando e reinventando de forma independente, neste momento de profunda transformação da imprensa. Bruno Paes Manso (Ponte), Laura Capriglione (Jornalistas Livres), Bruno Torturra (Fluxo), Kátia Brasil (Amazônia Real) e Rene Silva (Voz da Comunidade).

Qual é o lugar e a importância da reportagem nesta época histórica? Como continuar sendo repórter e contar o seu tempo no momento em que as redações da “grande imprensa” encolhem e, em alguns casos, a escolha é por demitir os repórteres mais experientes e bem pagos? Como manter a reportagem viva numa realidade em que as assessorias de imprensa são maiores do que a maioria das redações da “imprensa tradicional” e, muitas vezes, os releases são publicados como se notícia fossem? Como garantir financiamento para a reportagem sem comprometer a independência que assegura a credibilidade da história contada? Quais são os limites entre ativismo e reportagem? É possível construir alternativas para o jornalismo fora das redações convencionais?

Estas e várias outras são algumas das interrogações enfrentadas nestas narrativas de transição. Mas sempre contadas a partir do ponto de vista pessoal, que revela a singularidade de cada um dos repórteres em sua busca por se manter repórter. São depoimentos com duração de 15 minutos cada um, narrados de forma transparente, sem omitir nem as dúvidas nem as inseguranças nem o espanto, muito menos as contradições.

Reprodução Itaú Cultural

Eliane Brum e Audálio Dantas (Reprodução Itaú Cultural)

Na primeira edição, em 2011, a série Repórter homenageou o jornalista Audálio Dantas e teve a participação de Ricardo Kotscho, José Hamilton Ribeiro, Leonardo Sakamoto (Repórter Brasil), Natalia Viana (Agência Pública) e Rosângela Ramos (Boca de Rua). A íntegra das entrevistas pode ser assistida aqui.

Em 2016, já estão programados dois novos encontros para seguir registrando a memória dos grandes repórteres e debatendo os caminhos da reportagem neste novo mundo aberto pela internet e pela multiplicação das narrativas. A reportagem só é viva quando em movimento. É este movimento que a série Repórter busca documentar.

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Serviço: a segunda edição da série Repórter acontecerá em 2 de setembro, das 15 às 22 horas, no auditório do Itaú Cultural (Av. Paulista, 149 – Estação Brigadeiro do metrô), em São Paulo. O evento é aberto ao público. Basta retirar a senha, com 30 minutos de antecedência, antes de cada um dos três encontros. Haverá transmissão ao vivo pela internet. E tradução em LIBRAS. 

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