Cunha, o nosso vilão do Batman

A coluna desta semana no El País fala sobre Eduardo Cunha, “o perverso que goza em nome de Jesus”. Busquei analisar esse personagem que nos corrompe a todos ao pedir nossa adesão como crentes.

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), na semana passada. / FERNANDO BIZERRA JR. (EFE)

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), na semana passada. / FERNANDO BIZERRA JR. (EFE)

Como a perversão se expressa na política e submete os brasileiros à farsa levada ao status de realidade

 

A sensação é cada vez mais estranha ao se abrir os jornais, ligar a TV no noticiário ou acessar os sites de notícias da internet. Dia após dia, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) diz isso, afirma aquilo, declara aquele outro, alerta e ameaça. E nega as contas na Suíça. Tem lá sua assinatura, seu passaporte diplomático, seu endereço. Mas ele nega. O fato de negar o que a pilha de provas já demonstrou inegável é um direito de qualquer um. A maioria vai para a cadeia negando ter cometido o crime que a colocou lá. O problema são os outros verbos. Como é que tal personagem se tornou – e continua sendo – tão central na vida do país, a ponto de seguir manipulando e chantageando com as grande questões do momento, com as votações importantes? Como Eduardo Cunha ainda diz, afirma, declara, alerta e ameaça nas manchetes dos jornais? Como o que é farsa pode ser apresentado como fato? O cotidiano do Brasil e dos brasileiros tornou-se uma experiência perversa. A de viver dia após dia uma abominação como se fosse normalidade. Essa vivência vai provocando uma sensação crescente de deslocamento e vertigem. Não se sabe o quanto isso custará para o país, objetivamente, e o quanto custará na expressão política da subjetividade. Mas custará. Porque já custa demasiado.

Até o mais obtuso sabe que Eduardo Cunha continua no palco porque ainda tem utilidade para os projetos de poder de um lado e de outro. Entre esses dois lados que se digladiam não há oposição. Esta é outra farsa e também é por isso que se pode levar a sério um farsante como Cunha. A pauta conservadora para o país já foi estabelecida, o que se disputa é o poder de executá-la. Mas, se Cunha é apenas a expressão de uma operação política muito mais ampla, profunda e que nem começou com ele nem acabará com ele, na qual o papel do PMDB é central, ele não pode ter a importância de sua individualidade negada. Se o Brasil já teve muitos Cunhas, em vários aspectos, também não teve nenhum Cunha, em outros. Como todo vilão, o personagem é fascinante e totalmente singular.

Eduardo Cunha parece ser um perverso. Aquele que denega: vê mas finge que não viu, é mas finge que não é. Ele não seguiria ditando os dias de Brasília não fosse o homem perfeito para o papel. Para que a maioria possa fingir que disputa os rumos do país, quando disputa apenas o seu próprio, é preciso o fingidor maior, o mestre de cerimônias deste espetáculo. A sensação esquisita ao abrir o jornal ou a internet ou ligar a TV no noticiário se dá porque essa farsa pede uma adesão. A nossa adesão. É aí que (também) está a perversão.

É evidente que Cunha não espera que alguém acredite, entre outras coisas, que ele não tem contas na Suíça, como segue afirmando sem piscar. Ele sabe que (quase) ninguém acredita nisso. Mas isso não impede que Cunha espere que possamos agir como crentes. Essa também é parte do estranhamento ao entrar em contato com o noticiário: somos convocados a uma adesão pela crença, o que, de novo, perverte a experiência da política.

É como se, em algum nível íntimo, ele se divertisse muito com a possibilidade de transformar a realidade numa negação coletiva. Para o perverso, o outro não conta como outro. O outro – nós – somos apenas os suportes para a sua satisfação. Denunciado por corrupção e lavagem de dinheiro, ele fala em nome de Jesus, registra uma frota de carros de luxo numa empresa com o nome Jesus.com, discursa para os eleitores evangélicos que Deus o colocou na presidência da Câmara. Cunha é o perverso que goza em nome de Jesus.

Leia mais na minha coluna no El País.

 

THINK OLGA PRIMEIRO ASSEDIO

A semana passada foi nefasta para as mulheres (e para todos), por causa desse projeto de Eduardo Cunha aprovado pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, que dificulta o aborto legal e especialmente o aborto de gravidez resultante de estupro, e também pelos comentários abusivos no Twitter sobre a menina de 12 anos, participante do Masterchef Junior. Mas houve uma reação, talvez o único tipo de movimento político que nos dá alento no momento atual: a campanha #PrimeiroAssédio, promovida pelo Think Olga.

 

Evelyn Ruman/ Divulgação

Evelyn Ruman/ Divulgação

Participei da campanha relembrando um texto mais antigo, onde conto o meu primeiro assédio e alguns outros: “Vagina

Para quem fala em pedofilia, seja para abusar da menina no Twitter, seja para condenar os assediadores como “pedófilos”, gostaria de lembrar que, ao contrário do que parece acontecer com aqueles que se manifestaram no Twitter (e que devem ser responsabilizados por isso), os pedófilos sofrem. Não todos, mas uma parte significativa deles. Entendi isso escutando-os. Relembro então outro artigo mais antigo: “Pedófilo é gente?”

A “safada” que “abandonou” seu bebê

Minha coluna no El País é sobre a mais recente mulher demonizada por supostamente “abandonar” seu bebê. As mulheres ainda são torturadas pelo mito da maternidade e pela fantasia de que toda mulher que dá à luz é mãe.

Sacola onde foi encontrado o bebê, no bairro paulistano de Higienópolis. / EDU SILVA (FUTURA PRESS / FOLHAPRESS)

Sacola onde foi encontrado o bebê, no bairro paulistano de Higienópolis. / EDU SILVA (FUTURA PRESS / FOLHAPRESS)

Como o mito da maternidade demoniza as mulheres ainda hoje e as reduz a mães desnaturadas ou criminosas, só toleradas se forem consideradas “loucas”.

Nos últimos dias, o Brasil elegeu uma nova vilã para lançar na fogueira do moralismo. Sandra Maria dos Santos Queiroz, 37 anos, é uma nordestina de Vitória da Conquista, na Bahia, que migrou para São Paulo para trabalhar como empregada doméstica. No domingo, 4 de outubro, Sandra pariu sozinha, escondida no banheiro anexo ao quarto de empregada, a sua terceira criança. O primeiro, um garoto de 17 anos, é criado por parentes na Bahia. A segunda, uma menina de três anos, vive com ela na casa dos patrões, no bairro nobre de Higienópolis. Sandra escondeu a gravidez por nove meses e passou por todas as dores do parto, que tanto atemorizam as mulheres, sem fazer alarde. Cortou ela mesma o cordão umbilical. Amamentou a criança, embrulhou-a, colocou-a não em qualquer sacola, mas numa bem chique – “Au Pied de Cochon”, nome de um restaurante tradicional de Paris –, o que diz muito. Deixou-a embaixo de uma árvore, diante de um prédio. Escondeu-se e ficou esperando até ter certeza de que o bebê seria encontrado. Neste momento, outro empregado da vizinhança, o zelador Francisco de Assis Marinho, migrante da Paraíba, estranhou a sacola, levantou-a, pelo peso concluiu que era roupa, e deixou-a cair. O bebê chorou. Francisco chamou a polícia, sonhou com adotar a menina, afirmou que sentiu amor imediato pela criança. No drama de Higienópolis, emergem dos bastidores da cena cotidiana do bairro dois personagens em geral invisíveis: o zelador e a doméstica. Ele tornou-se o herói. Ela, a mãe desnaturada.

“Safada” é o termo que outro trabalhador das zonas cinzentas, um segurança, escolhe para se referir à Sandra, como conta a repórter Camila Moraes, num texto imprescindível. “Por que você abandonou a criança?”, gritavam jornalistas, quando ela foi detida pela polícia. No Brasil, “abandonar” um bebê é crime punido com até três anos de prisão, pena que pode aumentar em um terço quando é a mãe ou outro parente próximo que consuma o ato. Sandra foi flagrada por câmeras de segurança instaladas para detectar estranhos ao bairro. Ela foi identificada, levada para a delegacia e exposta. Depois, liberada para esperar a sentença. O bebê foi levado a um hospital, já teve alta e pode ser colocado para adoção.

Neste enredo da vida real, Francisco, o zelador, encarna o lado virtuoso do homem que não fecundou, mas quer se tornar pai. E, assim, apaga a ausência eloquente do homem pelo qual quase ninguém pergunta, aquele que é tão responsável pela gravidez quanto Sandra. Ela, Sandra, só pode ser transformada em vilã por ser vítima do mito da maternidade.

Leia mais na minha coluna no El País

Nesta coluna também falo de um filme que recomendo a todos, previsto para estrear no Brasil em 5 de novembro: Olmo e A Gaivota, de Petra Costa (que fez o lindo Elena) e Lea Glob, com produção executiva do Tim Robbins.

 

Na última sexta-feira (9/10), publiquei um artigo no The Guardian, sobre o atual momento do Brasil:

In Brazil’s political drama, all the players are villains

‘Concrete plans for the country itself are flimsier than those giant inflatable Dilma or Lula dolls dressed as convicts seen in current street protests.’ Photograph: Eraldo Peres/AP

‘Concrete plans for the country itself are flimsier than those giant inflatable Dilma or Lula dolls dressed as convicts seen in current street protests.’ Photograph: Eraldo Peres/AP

ECA do B

Diante da naturalização do horror, tentei um outro caminho.

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Para que criança vai correr, me diz? Não tem nada que correr. Onze anos de idade e correndo? Vai trabalhar! O policial se assusta com aquele corpinho escuro e mirrado vindo na sua direção e atira. Pronto, a bala acha. Aconteceu agora, na semana passada, com o Herinaldo. Peraí, preciso rir um pouco. Ah, onde esses pobres acham esses nomes? Herinaldo, vê bem se alguém tem futuro com um nome desses. O Herinaldo correu, levou bala. Bum, um tiro no peito. Dizem que estava indo comprar uma bolinha de pingue-pongue. Sei! Desde quando preto sabe jogar pingue-pongue? Tava era indo comprar fumo na boca. Ou era aviãozinho. E eraviadinho o moleque. Em vez de lidar com a situação como homem, ficou gritando: “Quero a minha mãe!”. Afe. O que importa é que por causa dessa falta de atenção do Herinaldo, meu SUV ficou parado no trânsito. Favelado adora trancar rua, deve ser por inveja de quem tem carro. Em vez de ensinarem aos seus abortos que criança pobre não pode correr, fazem protesto. Brasileiro é muito subdesenvolvido, mesmo. Eita país que não vai pra frente. Por sorte a PM distribuiu umas bombas de gás e botou a macacada pra correr. Deu pra chegar pro jantar a tempo, mas foi por pouco. E a Rosinete faz uma comida muito boa, essa é uma negra de alma branca, praticamente da família. Depois vi no Balanço Geral o apresentador entrevistando a mãe do estropício. O jornalista foi na veia mesmo. Onde a senhora tava quando aconteceu? A mulher disse que tava cuidando de um idoso, vê bem. Em vez de cuidar do filho, mantê-lo em casa, tava batendo perna na casa dos outros. Disse que trabalhando, mas vá saber o que essa gente anda fazendo! Depois o repórter perguntou se o Herinaldo era metido com tráfico. A mãe negou, mas na cara que era. Se não fosse, tava correndo por quê? Por acaso criança de 11 anos corre na rua?

Está aqui.

Reprodução/Arquivo Pessoal

Reprodução/Arquivo Pessoal

Para ser escutado, João quer se matar em sacrifício

Uma das ilhas do Xingu, desmatada e queimada para o enchimento do lago de Belo Monte (FOTOS DE LILO CLARETO)

Uma das ilhas do Xingu, desmatada e queimada para o enchimento do lago de Belo Monte (FOTOS DE LILO CLARETO)

O Brasil tem vítimas de guerra, refugiados do próprio Brasil. E sua dor é maior porque não reconhecida. Nesta minha última viagem para o Xingu encontrei pessoas traumatizadas, incapazes de reinventar uma vida se não forem escutadas. “O buraco, o buraco”, diz João. É uma vítima de catástrofe.

Não é mais uma história dramática entre tantas do Brasil. É a história de um país que chegou ao presente, depois de tanto ser futuro, e se descobriu atolado no passado. O epílogo de um partido que chegou ao poder com a promessa de dar dignidade aos mais pobres e aos mais desprotegidos e os traiu na porção mais distante do centro do poder político e econômico, a Amazônia. Esta é também a anatomia de uma perversão: a de viver numa democracia formal, mas submetido a forças acima da Lei.

João e Raimunda dão sua versão da história do Brasil.

João e Raimunda (FOTOS DE LILO CLARETO)

Leia a reportagem especial no El País.

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Para quem quiser compreender a atual conjuntura da Amazônia, mais artigos, entrevistas e reportagens, aqui:

ENTREVISTAS

31/10/2011
Belo Monte, nosso dinheiro e o bigode do Sarney
Um dos mais respeitados especialistas na área energética do país, o professor da USP Célio Bermann, fala sobre a “caixa preta” do setor, controlado por José Sarney, e o jogo pesado e lucrativo que domina a maior obra do PAC. Conta também sua experiência como assessor de Dilma Rousseff no Ministério de Minas e Energia

05/09/2011
Um procurador contra Belo Monte
Conheça o homem que se tornou o flagelo do governo ao lutar contra a maior e mais polêmica obra do PAC

04/06/2012
Dom Erwin Kräutler: “Lula e Dilma passarão para a História como predadores da Amazônia”
O lendário bispo do Xingu, ameaçado de morte e sob escolta policial há seis anos, afirma que o PT traiu os povos da Amazônia e a causa ambiental. Afirma também que Belo Monte causará a destruição do Xingu e o genocídio das etnias indígenas que habitam a região há séculos. Há 47 anos no epicentro da guerra cada vez menos silenciosa e invisível travada na Amazônia, Dom Erwin Kräutler encarna um capítulo da história do Brasil

29/9/2014
Diálogos sobre o fim do mundo
Do Antropoceno à Idade da Terra, de Dilma Rousseff a Marina Silva, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro e a filósofa Déborah Danowski pensam o planeta e o Brasil a partir da degradação da vida causada pela mudança climática

 A procuradora Thais Santi, em sua sala no Ministério Público Federal de Altamira, no Pará - Fotos: Lilo Clareto/Divulgação

A procuradora Thais Santi, em sua sala no Ministério Público Federal de Altamira, no Pará

01/12/2014
Belo Monte: a anatomia de um etnocídio

A procuradora da República Thais Santi conta como a terceira maior hidrelétrica do mundo vai se tornando fato consumado numa operação de suspensão da ordem jurídica, misturando o público e o privado e causando uma catástrofe indígena e ambiental de proporções amazônicas

ARTIGOS DE OPINIÃO

06/06/2011
Se a Amazônia é nossa, por que não cuidamos dela?
Para boa parte dos brasileiros, a floresta não passa de uma abstração

26/09/2011
Devemos ter medo de Dilma Dinamite?
As mulheres que a primeira presidente prefere não escutar

17/10/2011
A pequenez do Brasil Grande
A ditadura acabou, mas a palavra “desenvolvimento” continua sendo torturada para confessar o que o governo deseja que o povo acredite

22/10/2012
“Decretem nossa extinção e nos enterrem aqui”
A declaração de morte coletiva feita por um grupo de Guaranis Caiovás demonstra a incompetência do Estado brasileiro para cumprir a Constituição de 1988 e mostra que somos todos cúmplices de genocídio – uma parte de nós por ação, outra por omissão

 26/11/2012
Sobrenome: “Guarani Kaiowa”
O que move um brasileiro urbano, não índio, a agregar “guarani kaiowa” ao seu nome no Twitter e no Facebook?

02/07/2013
Índios, os estrangeiros nativos
A dificuldade de uma parcela das elites, da população e do governo de reconhecer os indígenas como parte do Brasil criou uma espécie de xenofobia invertida, invocada nos momentos de acirramento dos conflitos

31/03/2014
A ditadura que não diz seu nome
O imaginário sobre a Amazônia e os povos indígenas, forjado pelo regime de exceção, é possivelmente a herança autoritária mais persistente na mente dos brasileiros de hoje, incluindo parte dos que estão no poder. E a que mais faz estragos na democracia

13/04/2015
Os índios e o golpe na Constituição
Por que você deve ler essa coluna “apesar” da palavra índio

07/07/2015
Belo Monte, empreiteiras e espelhinhos
Como a mistura explosiva entre o público e o privado, entre o Estado brasileiro e as grandes construtoras, ergueu um monumento à violência, à beira do Xingu, na Amazônia

REPORTAGENS

14/09/2015
O dia em que a casa foi expulsa de casa
A maior liderança popular do Xingu foi arrancada do seu lugar pela hidrelétrica de Belo Monte, a obra mais brutal –e ainda impune– da redemocratização do Brasil

ANTONIA MELO1

Antonia Melo, expulsa de sua casa por Belo Monte

16/02/2015
O pescador sem rio e sem letras
À beira de Belo Monte, uma história pequena numa obra gigante. Que tamanho tem uma vida humana?

15/09/2014
A não gente que não vive no Tapajós
A extraordinária saga de Montanha e Mangabal, da escravidão nos seringais à propaganda do governo que pretende botar uma hidrelétrica na terra que habitam há quase 150 anos

28/01/2012
A Amazônia, segundo um morto e um fugitivo
Dois homens denunciaram a quatro órgãos federais e dois estaduais uma milionária operação criminosa que rouba ipê de dentro de áreas de preservação da floresta amazônica, no Pará. Depois da denúncia, um foi assassinado – e o outro foge pelo Brasil com a família, sem nenhuma proteção do governo. A partir do relato desses dois homens, é possível unir a Amazônia dos bárbaros à floresta dos nobres

25/11/2005
À espera do assassino

Como vivem os brasileiros ameaçados de morte na fronteira paraense, onde o futuro da Amazônia é decidido à bala

Comunidade de Montanha e Mangabal no Alto Tapajós, na Amazônia / LILO CLARETO

Comunidade de Montanha e Mangabal no Alto Tapajós, na Amazônia

04/10/2004
O Povo do Meio
Esses brasileiros não votam, são analfabetos e oficialmente não existem. À margem do país, estão jurados de morte

08/04/2013
À margem do pai
Na floresta amazônica, um homem confronta sua solidão quando um filho seu é picado por uma cobra, o outro por escorpião. Como salvá-los sem nenhum acesso à saúde? O dia a dia dos protetores da Terra do Meio, onde não morrer é um golpe de sorte

Adeus, Arapujá

Dom Erwin Kräutler, bispo do Xingu, vive há mais de uma década com escolta policial para não ser assassinado por sua luta pela floresta amazônica, pelos povos tradicionais e pelos mais pobres. Ao ver a ilha de Arapujá, cartão-postal de Altamira, ser destruída para dar lugar à hidrelétrica de Belo Monte, escreveu essa carta-desabafo. Arapujá é apenas uma das muitas ilhas que desaparecerão se Belo Monte começar a operar.

Dom Erwin Kräutler, em 2014, na janela da sua casa em Altamira, olhando para a ilha de Arapujá, então intacta (Fotos de Lilo Clareto)

Dom Erwin Kräutler, em 2014, na sacada da sua casa em Altamira, diante da ilha de Arapujá, ainda intacta  (Fotos de Lilo Clareto)

Choro, não sei se é de raiva, de revolta ou de tristeza. Creio que é pelas três razões ao mesmo tempo. É um profundo pesar, uma dor compungente, dilacerante. Sinto-me como alguém que é açoitado sem dó e piedade. E é inocente. Depois da tortura, já coberto de hematomas, que adianta provar a inocência!

E lá em cima, nos gabinetes confortáveis da capital federal, defendem a legalidade da destruição do Xingu. Invocam a tese do “interesse nacional“.

Você pode imaginar o que significa para mim o afogamento da ilha Arapujá? Durante cinquenta anos a contemplei com carinho, sempre que a mirava (Alta-mira) da janela de meu quarto ou escritório na “rua da frente”. E oitenta anos atrás, já meus tios Eurico e Guilherme se encantaram com essa beleza!

É um pedaço de mim que agora vai para o fundo.

Erwin Kräutler
Bispo do Xingu

 

A ilha de Arapujá hoje, destruída por Belo Monte

A ilha de Arapujá hoje, destruída por Belo Monte


Leia a entrevista com Dom Erwin Kräutler:

04/06/2012
Dom Erwin Kräutler: “Lula e Dilma passarão para a História como predadores da Amazônia”

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