Oalab chegando!!

Reprodução da capa do

Reprodução da capa do livro

Neste sábado (29/10), João Luiz Guimarães lança seu primeiro livro infantil, “O Vento de Oalab”, vencedor do Prêmio Barco a Vapor 2015.

É um livro muito, mas muito bonito mesmo. E importante. Importante sempre, mais ainda em tempos como este, em que tão poucos estão dispostos a estar com o outro no espaço público.

vento de oalab1É um livro sobre pensar por si mesmo, mas é um livro que mostra que pensar parte da escuta do outro, parte do espanto diante da(s) novidade do(s) mundo(s). Pensar é movimento que atravessa o corpo – os corpos.

Acho que a gente precisa muito de crianças capazes de pensar – e não apenas seguir – e de crianças capazes de se arriscar à alteridade.

Oalab fala poeticamente sobre isso. É um livro pequeno no formato, enorme no conteúdo.

Se quiserem levar a criança que mora em vocês e/ou as crianças que moram com vocês: das 15h às 18h, na Livraria da Vila (da Fradique). Com contação de histórias.

Nos vemos lá! E, depois, que o vento de Oalab nos atravesse!

João Luiz Guimarães e o Prêmio Barco a Vapor 2015 (Divulgação)

João Luiz Guimarães e o Prêmio Barco a Vapor 2015 (Divulgação)

Lançamento:

O VENTO DE OALAB

Contação de histórias com a presença de João Luiz Guimarães

29 de outubro, sábado, das 15h às 18h

Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena, São Paulo)

Entrada Franca

Black Blocs, os corpos e as coisas

Minha coluna no El País:

Jovens mascarados em protesto contra o Governo Temer (Foto: Sebastião Moreira/EFE - El País)

Jovens mascarados em protesto contra o Governo Temer (Foto: Sebastião Moreira/EFE – El País)

Como os mascarados desmascaram o Brasil do “mais um direito a menos”

 

Os black blocs, que apanham tanto de tantos lados, podem ser uma chave para compreender esse momento tão complexo do Brasil. Não apenas pelo que são, muito pelos discursos sobre o que são. Ao quebrarem patrimônio material como forma de protesto e serem transformados numa espécie de inimigos públicos, aponta-se onde está o valor e também a disputa. Enquanto a destruição dos corpos de manifestantes pela Polícia Militar é naturalizada, a dos bens é criminalizada. Reafirma-se, mais um vez, que os corpos podem ser arruinados, já que o importante é manter o patrimônio, em especial o dos bancos e grandes empresas, intacto. É também os corpos que sofrerão o impacto do projeto do governo que não foi eleito. Estes, que poderão ser ainda mais exauridos pelas mudanças nas regras do trabalho e também nas da aposentadoria. São os corpos os atingidos pelas reformas anunciadas como uma necessidade para não “quebrar o país”. Ao subverter o objeto direto do verbo “quebrar”, quebrando o que não pode ser quebrado, os mascarados desmascaram o projeto que pode ser chamado de “mais um direito a menos”.

Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil/Fotos Públicas (28/08/2013)

Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil/Fotos Públicas (28/08/2013)

Quem quebra, como quebra e por que quebra é mais complexo do que se tenta fazer parecer. Os habituais quebrados acostumaram-se a ouvir, em diferentes períodos históricos, que é preciso quebrá-los mais para o país não quebrar. Nunca se fala, por exemplo, em políticas para quebrar um pouco a renda dos mais ricos e redistribuí-la de maneira que os quebrados de sempre se tornem um pouco menos quebrados. Não. A única saída é quebrar mais quem já é quebrado. Assim, um projeto que pertence ao campo da política se transforma num dogma propagado por gurus da economia no altar em que os sacrificados são sempre os mesmos. Neste caso específico, a escolha de um projeto não eleito e, portanto, sem legitimidade democrática para interferir tão profundamente na vida cotidiana dos brasileiros – sem legitimidade para impactar tão profundamente os corpos.

 

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil/Fotos Públicas (30/03/2016)

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil/Fotos Públicas (30/03/2016)

Quando os black blocs voltam ao palco de disputa, discordando ou não de sua tática, é preciso olhar para quais são as vidraças que quebram. E desconfiar de por que o rompimento destas vidraças têm causado tanto barulho e mobilizado tanta fumaça.

 

 

Leia o texto completo na minha coluna no El País

 

Glossolalia: livro conta história de refugiados de Belo Monte

Gostaria de coglossolalia capampartilhar o lançamento de Glossolalia, uma coletânea do PEN America lindamente editada por Diane Mehta, Eric Becker e Mirna Queiroz. Sou uma das escritoras brasileiras convidadas. Na semana passada tivemos a notícia de que Glossolalia, cujo lançamento aconteceu há pouco, já teria uma reimpressão devido ao grande interesse das livrarias americanas.

Participo com uma reportagem sobre João e Raimunda, refugiados de Belo Monte, na bela tradução de Diane Grosklaus Whitty.

GLOSSOLALIA

 

Confira um trecho da reportagem em inglês:

 

João asks Raimunda to die with him in sacrifice

João e Raimunda. Lilo Clareto

João e Raimunda. Fotos: Lilo Clareto/Arquivo Pessoal

The saga of João and Raimunda comes to a head against the backdrop of a massacre acknowledged neither by the Brazilian government nor by most Brazilians. As their two-act drama unfolds, it is in the forest that they search for a way out, swept along by the current of the Xingu, one of the Amazon’s most biodiversified rivers. And there they find their futures, like the river, dammed up. A man and a woman, just two among the thousands forced out by the construction of Belo Monte, announced as the world’s third-largest hydroelectric project.

João e Raimunda (Foto: Lilo Clareto)

Today, it is as refugees from their own country that João and Raimunda wander a territory they no longer recognize and where they do not recognize themselves. Their bodies bear the imprint of a historic crossroads, of a country that has reached the present after belonging to the future for so very long, only to find itself mired in the past. Their story is the epilogue of a political party elected to power on the promise that it would deliver dignity to the poorest and most vulnerable, but which betrayed them, here in the region lying farthest from the center of Brazil’s political and economic power. Their story also reveals the anatomy of a distortion: that of living in a formal democracy while subject to powers above the law. When victims suffer violence that goes unacknowledged, it inflicts even greater pain on them, and they are violated all over again by a feeling of unreality. When their world convulsed, Raimunda and João chose different destinies.

Raimunda (Foto: Lilo Clareto)

Raimunda opted to live, even though she was shattered to pieces. João doesn’t know how to live. For him, meaning lies solely in sacrifice through death.

João and Raimunda have arrived at this impasse.

Leia AQUI o artigo completo sobre João e Raimunda em inglês.

E AQUI a versão original, em português. 

 

A edição digital do livro está disponível para venda AQUI.

glossolalia digitalParticipam da coletânea “Women writing Brazil” (Mulheres escrevendo o Brasil), da Glossolalia: Eric M. B. Becker, Eliane Brum, Alison Entrekin, Orides Fontela, Marília Garcia, Daniel Hahn, Noemi Jeffe, Hilary Kaplan, Maurinete Lima, Adriana Lisbosa, Maria Ester Maciel, Ana Martins Marques, Betty Mindlin, Julia Moraes, Zoë Perry, Flávia Rocha, Alice Sant’Anna, Lygia Fagundes Telles, Elvira Vigna, Diane Grosklaus Whitty

Confira outros textos do livro:

Three Poems
Marília Garcia, Tradução. Hilary Kaplan

mouthwatering / now a bit emotional / now i’m a professional / now it’s your turn

 

Seminar on the Extermination of Rats
Lygia Fagundes Telles, Tradução: Eric M. B. Becker

A thick wall as though a bag of rubbery rocks had been emptied from the roof now rolled in from every side in a rumble of tiny legs, squeaking, and hundreds of black
eyes aglow.

 

 

 

Exaustos-e-correndo-e-dopados

Minha coluna no El País:

 

Na sociedade do desempenho, conseguimos a façanha de abrigar o senhor e o escravo no mesmo corpo

Foto: Alejandro Ruesga

Foto: Alejandro Ruesga

 

Nos achamos tão livres como donos de tablets e celulares, vamos a qualquer lugar na internet, lutamos pelas causas mesmo de países do outro lado do planeta, participamos de protestos globais e mal percebemos que criamos uma pós-submissão. Ou um tipo mais perigoso e insidioso de submissão. Temos nos esforçado livremente e com grande afinco para alcançar a meta de trabalhar 24X7. Vinte e quatro horas por sete dias da semana. Nenhum capitalista havia sonhado tanto. O chefe nos alcança em qualquer lugar, a qualquer hora. O expediente nunca mais acaba. Já não há espaço de trabalho e espaço de lazer, não há nem mesmo casa. Tudo se confunde. A internet foi usada para borrar as fronteiras também do mundo interno, que agora é um fora. Estamos sempre, de algum modo, trabalhando, fazendo networking, debatendo (ou brigando), intervindo, tentando não perder nada, principalmente a notícia ordinária. Consumimo-nos animadamente, ao ritmo de emoticons. E, assim, perdemos só a alma. E alcançamos uma façanha inédita: ser senhor e escravo ao mesmo tempo.

Como na época da aceleração os anos já não começam nem terminam, apenas se emendam, tanto quanto os meses e como os dias, a metade de 2016 chegou quando parecia que ainda era março. Estamos exaustos e correndo. Exaustos e correndo. Exaustos e correndo. E a má notícia é que continuaremos exaustos e correndo, porque exaustos-e-correndo virou a condição humana dessa época. E já percebemos que essa condição humana um corpo humano não aguenta. O corpo então virou um atrapalho, um apêndice incômodo, um não-dá-conta que adoece, fica ansioso, deprime, entra em pânico. E assim dopamos esse corpo falho que se contorce ao ser submetido a uma velocidade não humana. Viramos exaustos-e-correndo-e-dopados. Porque só dopados para continuar exaustos-e-correndo. Pelo menos até conseguirmos nos livrar desse corpo que se tornou uma barreira. O problema é que o corpo não é um outro, o corpo é o que chamamos de eu. O corpo não é limite, mas a própria condição. O corpo é.

Os cliques da internet tornaram-se os remos das antigas galés. Remem remem remem. Cliquem cliquem cliquem para não ficar para trás e morrer. Mas o presente, nessa velocidade, é um pretérito contínuo. Se a internet parece ter encolhido o mundo, e milhares de quilômetros podem ser reduzidos a um clique, como diz o clichê e alguns anúncios publicitários, nosso mundo interno ficou a oceanos de nós. Conectados ao planeta inteiro, estamos desconectados do eu e também do outro. Incapazes da alteridade, o outro se tornou alguém a ser destruído, bloqueado ou mesmo deletado. Falamos muito, mas sozinhos. Escassas são as conversas, a rede tornou-se em parte um interminável discurso autorreferente, um delírio narcisista. E narciso é um eu sem eu. Porque para existir eu é preciso o outro.

Há tanta informação disponível, mas talvez estejamos nos imbecilizando. Porque nos falta contemplação, nos falta o vazio que impele à criação, nos falta silêncios. Nos falta até o tédio. Sem experiência não há conhecimento. E talvez uma parcela do ativismo seja uma ilusão de ativismo, porque sem o outro. Talvez parte do que acreditamos ser ativismo seja, ao contrário, passividade. Um novo tipo de passividade, cheia de gritos, de certezas e de pontos de exclamação. Os espasmos tornaram-se a rotina e, ao se viver aos espasmos, um espasmo anula o outro espasmo que anula o outro espasmo. Quando tudo é grito não há mais grito. Quando tudo é urgência nada é urgência. Ao final do dia que não acaba resta a ilusão de ter lutado todas as lutas, intervindo em todos os processos, protestado contra todas as injustiças. Os espasmos esgotam, exaurem, consomem. Mas não movem. Apaziguam, mas não movem. Entorpecem, mas será que movem?

Leia o texto completo na minha coluna no El País

Foto: Bruno de los Santos/Fotos Públicas (06//4/2016)

Foto: Bruno de los Santos/Fotos Públicas (06/04/2016)

Os cliques da internet são os remos das antigas galés. Remem… Cliquem….

Foto: Marcos Santos/USP Imagens/ Fotos Públicas (20/04/2016)

A autoexploração é mais eficiente do que a exploração do outro, porque caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade

Leia mais AQUI. 

Sobre este assunto leia também:

O doping dos pobres

Os robôs não nos invejam mais

Você consegue viver sem drogas legais?

O Doping das Crianças

Quando tudo é urgência nada é urgência

Acordei doente mental

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