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Parabéns, atingimos a burrice máxima
A “baranga” Simone de Beauvoir e a importância de um livro que ensina a conversar com fascistas

Simone de Beauvoir (Arquivo El País)
A fogueira de Simone de Beauvoir a partir da questão do ENEM mostrou que a burrice se tornou um problema estrutural do Brasil. Se não for enfrentada, não há chance. Hordas e hordas de burros que ocupam espaços institucionais, burros que ocupam bancadas de TV, burros pagos por dinheiro público, burros pagos por dinheiro privado, burros em lugares privilegiados, atacaram a filósofa francesa porque o Exame Nacional de Ensino Médio colocou na prova um trecho de uma de suas obras, O Segundo Sexo, começando pela frase célebre: “Uma mulher não nasce mulher, torna-se mulher”. Bastou para os burros levantarem as orelhas e relincharem sua ignorância em volumes constrangedores. Debater com seriedade a burrice nacional é mais urgente do que discutir a crise econômica e o baixo crescimento do país. A burrice está na raiz da crise política mais ampla. A burrice corrompe a vida, a privada e a pública. Dia após dia.
Recapitulando alguns espasmos do mais recente surto de burrice. O verbete de Simone de Beauvoir (1908-1986) na Wikipedia, conforme mostrou uma reportagem da BBC, foi invadido para tachar a escritora de “pedófila” e “nazista”. A Câmara de Vereadores de Campinas, no estado de São Paulo, aprovou uma “moção de repúdio” à filósofa. O deputado Marco Feliciano (PSC-SP), da Bancada da Bíblia, descobriu na frase “uma escolha adrede, ardilosa e discrepante do que se tem decidido sobre o que se deve ensinar aos nossos jovens”. Em sua página no Facebook, o promotor de justiça do município paulista de Sorocaba, Jorge Alberto de Oliveira Marum, chamou Beauvoir de “baranga francesa que não toma banho, não usa sutiã e não se depila”. Como o tema da redação do ENEM era “a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, houve gente que estudou em colégios caros afirmando que este era um tema de esquerda, e portanto um sinal inequívoco de uma conspiração ideológica por parte do governo federal. Como sugeriu o crítico de cinema Inácio Araújo em seu blog, se defender que a mulher tenha o direito de andar sem ser perturbada, agredida e chutada é tema de esquerda, isso só pode significar que a direita vai muito mal.
Está cada vez mais difícil fazer humor no Brasil. Como nada do que foi relatado acima é piada, somos submetidos cotidianamente a uma experiência de perversão. Também não tem sido fácil escrever quando não se é humorista, por que o que se pode dizer, seriamente, diante de uma moção de repúdio à Simone de Beauvoir? Mas é preciso tratar com seriedade, porque talvez não exista nada mais sério do que a boçalidade que atravessa o país. Torna-se urgente, prioritário, fazer um esforço coletivo e enfrentar a burrice com o único instrumento capaz de derrotá-la: o pensamento.
Esta é a potência e a generosidade de um livro lançado pela filósofa Marcia Tiburi, escritora e professora universitária. O título vai direto ao ponto, afinal os tempos são graves demais para papinhos de salão: Como conversar com um fascista – reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro (Record). Nas 194 páginas, Marcia enfrenta as várias faces do cotidiano atual com profundidade, mas de forma acessível a quem não está familiarizado com os conceitos. Faz o mais difícil: escrever simples sem simplificar. É um livro que se pretende para todos, e não para os seus pares. Quem acompanha a trajetória da filósofa conhece a sua coragem. E este é um livro de coragem, já que é tão difícil quanto arriscado escrever sobre o que está em movimento, sem a proteção assegurada pelo distanciamento histórico. Poucos são os intelectuais que se arriscam a sair do conforto de seus feudos para enfrentar o debate público com suas dúvidas. E por isso aqueles que se arriscam de forma honesta, sem ficar arrotando suas certezas e suas credenciais, ou usando-as para massacrar aqueles que já são massacrados, são tão preciosos.
“Eu queria saber por que dialogar é impossível”, conta Marcia Tiburi, sobre a pergunta que a moveu nessa busca. Para enfrentar a ausência do pensamento, a filósofa propõe a resistência pelo diálogo. Este é um esforço de cada um –e de todos. Arriscar-se a deixar o “isolamento em comunidade”, a forma atual da vida social e política, para confrontar o que ela chama de “consumismo da linguagem”. Compreender o confronto atual como um confronto entre direita e esquerda, desenvolvimentistas e ecologistas, governistas e oposicionistas, machistas e feministas é, segundo ela, uma redução. O confronto atual seria mais profundo e também mais dramático: entre os que pensam e os que não pensam.
O exercício que faço, deste parágrafo em diante, é buscar compreender a fogueira em que Simone de Beauvoir foi jogada nos últimos dias, entre outros fatos recentes, a partir das ideias deste livro. Para começar, a seriedade do episódio do ENEM pode ser demonstrada neste trecho tão agudo: “Se levarmos em conta que falar qualquer coisa está muito fácil, que falamos em excesso e falamos coisas desnecessárias, um novo consumismo emerge entre nós, o consumismo da linguagem. O problema é que ele produz, como qualquer consumismo, muito lixo. E o problema de qualquer lixo é que ele não retorna à natureza como se nada tivesse acontecido. Ele altera profundamente nossas vidas em um sentido físico e mental. O que se come, o que se vê, o que se ouve, numa palavra, o que se introjeta, vira corpo, se torna existência”.
Vale perguntar. Num país em que a preocupação com a educação é uma flatulência, em que a não educação é a regra, para onde vai o lixo e que tipo de impacto ele produz na tessitura do cotidiano, nos corações e mentes de quem o consome? O que acontece com a fogueira de Simone de Beauvoir num contexto em que aqueles que a jogaram no fogo possivelmente sequer a leram? Que restos dos discursos vazios sobre a filósofa permanecerão na memória de uma população que não tem seus livros na estante e que tipo de eco produzirão?
Como dimensionar a gravidade de um vereador eleito, pago com dinheiro público para legislar e, portanto, para decidir destinos coletivos, dizer que a escolha da frase de Simone de Beauvoir para uma prova do ENEM é algo “demoníaco”, como afirmou Campos Filho (DEM)? E como enfrentá-la com a seriedade necessária?
Com a palavra, o autor da “moção de repúdio”: “Foram buscar lá Simone de Beauvoir, lá pro ano de mil trocentos e pôco…. (…) A grande maioria é favorável à lei da natureza. Homem é homem. Mulher é mulher. (…) Cuidado com essa pulsão, essa pulsão pode levar à cadeia. O senhor pode passar na frente do caixa eletrônico e ter uma pulsão de vontade de roubar e vai preso. Pode ter uma pulsão de vontade de estuprar e vai preso. Então, tomem cuidado com essa pulsão, ah, hoje de manhã sou menina, agora à noite eu sou homem….”.
O vereador nem sequer sabe em que século Simone de Beauvoir nasceu, viveu e produziu pensamento – “mil trocentos e pôco”. Nem sequer tentou compreender o que a frase citada no ENEM significa. Não é engraçado. É a ruína causando mais ruína. O que interessa é fazer barulho, porque o barulho encobre o vazio de ideias. O que importa é perverter a palavra, usando o que sequer tentou entender para enclausurar o pensamento e reafirmar a certeza em nome de uma suposta “lei da natureza” que jamais existiu. A perversão do fascista é a de acusar o outro de manipulação ideológica quando é ele o manipulador. É acusar o outro de impor um pensamento quando é ele que empreende todo os esforços para barrar qualquer pensamento. É impedir o diálogo denunciando o outro pelo ato que ele próprio cometeu. É nessa repetição de boçalidades que seguem os discursos de outros vereadores, invocando clichês bíblicos, lembrando de Sodoma e Gomorra e Adão e Eva, abusando de Deus.
Para perverter a realidade, o fascista conta com o consumismo da linguagem. Trata-se, como aponta Marcia Tiburi, de um vazio repleto de falas prontas. Não é um vazio silencioso, espaço aberto para buscar o outro, o inusitado, o surpreendente. Mas sim um vazio barulhento, abarrotado de clichês, de frases repetidas e repetitivas, usadas para se proteger do pensamento. Os lugares-comuns, neste caso específico a constante invocação de Deus e de leis bíblicas, são usados como um escudo contra a reflexão. Todo o esforço é empreendido para não existir qualquer chance de pensamento, ainda que um bem pequenino.
Neste vazio, a filósofa acredita que os meios tecnológicos e a mídia desempenham um papel crucial. Repete-se o que é dito na TV, no rádio. Fala-se, muito, sem pensar no que se diz. No gesto do mero “compartilhar” sem ler, tão fácil quanto comprar com um clique pela internet, foge-se do pensamento analítico e crítico, trocando-o pelo vazio consumista da linguagem e da ação repetitiva. É assim que a burrice se multiplica em cliques, propagando-se em rede. O título deste artigo é esperançoso, mas não corresponde à realidade: a burrice não tem limites, ela sempre pode atingir patamares ainda mais extremos.
Episódios semelhantes à “moção de repúdio” à Simone de Beauvoir ocorriam esporadicamente em rincões afastados, e logo eram ridicularizados. Hoje, acontecem na Câmara de Vereadores de uma das maiores e mais ricas cidades do estado de São Paulo, no sudeste do Brasil, uma cidade que abriga várias universidades, entre elas a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), uma das mais respeitadas do país. E cadê os intelectuais? Rindo dos burros nas cantinas universitárias? Será? Não era de se esperar mais iniciativas de busca do diálogo, de criação de oportunidades para explicar quem é Simone de Beauvoir e refletir sobre sua obra, ou mesmo a ocupação da Câmara, para produzir reação e movimento que permitisse o conhecimento e combatesse a ignorância?
Talvez o polêmico livro Submisssão (Alfaguara), do francês Michel Houellebecq, possa ter alguma ressonância maior por aqui. Nele, só para lembrar, o protagonista é um acadêmico desencantado que se depara com a vitória de um partido islâmico nas eleições da França. Depois de assistir ao desenrolar dos acontecimentos pela TV, já que não se sente motivado a participar de nenhum debate que não seja sobre a sua própria tese acadêmica (ou nem mesmo sobre ela), se choca com o resultado eleitoral. É o protagonista que não protagoniza –ou só protagoniza por omissão (ou submissão). Aos poucos, os novos donos do poder lhe acenam não só com a manutenção dos privilégios, mas com uma considerável ampliação dos privilégios. E ele, afinal, conclui que aderir pode não ser tão ruim assim.
Os burros estão por toda parte e muitos deles estudaram nas melhores escolas e, o pior, muitos ensinam nas melhores escolas. A “moção de repúdio” à Simone de Beauvoir foi aprovada pela Câmara de Campinas por 25 votos a cinco. Assim, os burros são a maioria. É preciso enfrentá-los com pensamento, fazer a resistência pelo diálogo. Ou, como diz Marcia Tiburi: “Sem pensamento não há diálogo possível nem emancipação em nível algum. Se não houver limites para a idiotice, resta isolar-se e estocar alimentos”.
O promotor e professor universitário que reduziu Simone de Beauvoir a “uma baranga”, ao comentar a questão do ENEM em sua página no Facebook, fez o seguinte comentário: “Exame Nacional-Socialista da Doutrinação Sub-Marxista. Aprendam jovens: mulher não nasce mulher, nasce uma baranga francesa que não toma banho, não usa sutiã e não se depila. Só depois é pervertida pelo capitalismo opressor e se torna mulher que toma banho, usa sutiã e se depila”. Depois da repercussão negativa, o que incluiu uma nota de repúdio por parte da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Jorge Alberto de Oliveira Marum apagou os posts e defendeu-se, em outra postagem, alegando que pretendia ter sido irônico: “Ironia, para quem não sabe, é uma figura de linguagem que consiste em afirmar o contrário do que se pensa”. Interprete-se.
“Distorcer é poder” é o título de um dos capítulos do livro em que a filósofa enfrenta a prática amplamente difundida de esvaziar as palavras pela distorção. Como transformar a vítima em culpada, como se faz rotineiramente com as mulheres no falso debate do aborto, por exemplo, ou no tratamento do estupro. Ou distorcer para que aquele que detém os privilégios pareça ser o que têm seus direitos ameaçados: o branco, por exemplo, quando se apresenta como prejudicado pelo sistema de cotas raciais que busca reparar injustiças históricas cometidas contra os negros, ocultando assim que sempre foi o privilegiado; ou quando se invoca um suposto “orgulho heterossexual” na tentativa de mascarar a violência contra os homossexuais, alegando que querem privilégios, quando todos sabem que a heterossexualidade jamais foi contestada ou atacada, nem em sua expressão nem em seus direitos. E também é por essa conversão que os manifestantes de junho de 2013 foram tachados de “vândalos” por parte da mídia e, hoje, uma lei em discussão no Congresso ameaça converter quem protesta em “terrorista”.
A própria “democracia” pode ser vista a partir da prática da distorção, já que há aquela, mais difundida, que é vendida pelo mercado. “De um lado, há uma democracia que deve parecer como realizada, contra outra democracia, que está na ordem do desejo e do sonho e que não teria preço”. O capitalismo sequestra a democracia também como palavra, que passa a ser consumida, junto com outras: felicidade, ética, liberdade, oportunidade, mérito. Palavras que a filósofa chama de “mágicas”, invocadas a serviço do ocultamento da opressão. “Antidemocrático, o capitalismo precisaria ocultar sua única democracia verdadeira: a partilha da miséria e, hoje em dia, cada vez mais, a matabilidade”, afirma Marcia Tiburi.
Quando se invade o verbete de Simone de Beauvoir na Wikipedia é também disso que se trata: distorcer e replicar até virar “verdade”. Aliena-se os fatos de seu contexto histórico para produzir rótulos. Assim, após o ENEM, a filósofa foi tachada de “pedófila” e de “nazista”. Ambas as afirmações já foram retiradas da página pelo responsável, avisando que a manteria fechada até “que o furor acabasse e as pessoas perdessem o interesse em danificar o artigo”. Entre as dezenas de distorções do verbete, segundo a matéria da BBC, um usuário disse que a filósofa havia escrito um “livro de estupro”. Outro informou que Beauvoir era uma “antifeminista”. Um terceiro disse ainda que ela era “muito conhecida por seu comodismo e pela luta na justiça por uma lei que proibia o trabalho das mulheres fora de casa”.
As distorções servem à reprodutibilidade da burrice. Ao converter a filósofa no que é interpretado como o mais monstruoso – “pedófila” e “nazista” – o objetivo é tornar impossível refletir sobre o que ela escreveu: “uma mulher não nasce mulher, torna-se mulher”. A ampla distorção das palavras serve, de novo, ao vazio do pensamento. Pede-se aos burros que a repliquem à exaustão em cliques histéricos. A linguagem, como escreve Marcia Tiburi, tem sido rebaixada à distribuição da violência – também pelos meios de comunicação e pelas redes sociais. “Vivemos no império da canalhice, onde a burrice, tanto como categoria cognitiva quanto moral, venceu”, afirma. “Ela se transformou no todo do poder.”
Aderir é viver. Esta parece ser a frase deste momento de orgulho da ignorância e exaltação da burrice. Aqui, a pergunta se impõe: “se a linguagem nos tornou seres políticos, a destruição da linguagem nos tornará o quê?”.
Na semana passada, foi divulgado na página da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República um estudo que reuniu pesquisadores de diversas instituições, apresentado como o mais completo já feito no Brasil sobre os efeitos da mudança climática. Refletir seriamente sobre a mudança climática é urgente, mas há muito menos pensamento e ação do que o momento exigiria, apesar de estarmos às vésperas da Conferência do Clima em Paris. Assim, a divulgação de um estudo com as conclusões a que se chegou poderia ser uma oportunidade excelente para promover participação e diálogo. Mas, entre as tantas previsões que apontaram para um possível drama climático daqui a 25 anos, em 2040 – doenças, calor extremo, falta d’água e de energia etc –, uma foi destacada por diferentes veículos da imprensa: a possível perda de uma área imobiliária avaliada em R$ 109 bilhões no Rio de Janeiro, devido à elevação do nível do mar causada pelo aquecimento global.
Não as perdas humanas, não a corrosão da vida, não o aniquilamento dos mais pobres e dos mais frágeis. Não. O que se destaca é aquilo que se monetariza, é a perda do patrimônio material, no caso imobiliário. O que merece título é o cifrão. O episódio evoca um dos capítulos mais interessantes de Como conversar com um fascista: “O capitalismo é a redução da vida ao plano econômico. (…) O pensamento está minado pela lógica do ‘rendimento’. Viver torna-se uma questão apenas econômica. A economia torna-se uma forma de vida administrada com regras próprias, tais como o consumo, o endividamento, a segurança pela qual se pode pagar. Tudo isso é sistêmico e, ao mesmo tempo, algo histérico. (…) As palavras funcionam como estigmas ou como dogmas que sustentam ideias orientadoras de práticas”. Se a ordem do discurso capitalista é basicamente teológica, é porque ele funciona como uma religião no âmbito das escrituras e das pregações (em geral no púlpito tecnológico da televisão)”. Se depois de tanto calarmos sobre a mudança climática, falarmos dela a partir da lógica monetária, estamos todos (mais) perdidos.
Mas é em outro episódio destes últimos dias que a perversão do Brasil atual se revelou em toda a sua monstruosidade: a Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Rio de Janeiro concluiu em inquérito que o policial que matou um menino de dez anos agiu em “legítima defesa”. Eduardo de Jesus brincava na porta da sua casa, numa das favelas do Complexo do Alemão, quando teve a cabeça atingida por um tiro de fuzil. Sua mãe encontrou parte do seu cérebro na sala. O inquérito isentou de qualquer responsabilidade os policiais envolvidos, por estarem supostamente em confronto com narcotraficantes. Eles teriam apenas “errado” o tiro.
Eduardo estava a cinco metros do policial que o matou. Terezinha de Jesus, a mãe do menino, afirma que não havia tiroteio naquele dia. “Eu parti para cima do policial. Gritei que tinha matado meu filho e ele me respondeu, com seu fuzil na minha cabeça, que igual que tinha matado ele poderia também me matar, porque o menino era filho de bandido. Nunca vou esquecer aquilo. Posso estar em qualquer lugar do mundo, que nunca esquecerei a cara daquele policial”. Ao ser informada por jornalistas que a polícia concluiu que seu filho foi morto em legítima defesa, Terezinha disse que sentia vontade “de quebrar tudo”.
Quando a perversão supera tal limite é porque estamos quase no ponto de não retorno. “Não acabaremos com o ódio pregando o amor”, diz Marcia Tiburi. “Mas agindo em nome de um diálogo que não apenas mostre que o ódio é impotente, mas que o torne impotente.”
Em Como conversar com um fascista, a filósofa defende a necessidade de começar a tentar falar de outro modo. O diálogo não como salvação, mas como experimento, como ativismo filosófico para enfrentar a antipolítica. A política, lembra a autora, “é laço amoroso entre pessoas que podem falar e se escutar não porque sejam iguais, mas porque deixaram de lado suas carapaças de ódio e quebraram o muro de cimento onde suas subjetividades estão enterradas”.
Num país de antipolítica e antieducação generalizada como o Brasil é preciso se mover. É urgente aprender a conversar com um fascista, mesmo que pareça impossível. Expor ao outro aquele que não suporta a diferença. Revelar suas contradições e confrontá-lo pelo diálogo é um ato de resistência. Enfrentar a burrice com a única arma que ela teme: o pensamento.
É isso ou não vai adiantar nem estocar alimentos.
(Publicado no El País em 12 de novembro de 2015)
Um negro em eterno exílio
A longa travessia de Carlos Moore, o ativista e intelectual que denunciou o racismo em Cuba e passou a vida perseguido pelos dois lados da Guerra Fria, até chegar ao Brasil e encontrar um país mergulhado numa crescente tensão racial

Arquivo Pessoal/Divulgação
Aos 22 anos, Carlos Moore já tinha vivido mais do que a maioria das pessoas numa existência inteira. Já tinha conhecido a fome e a violência na pequena cidade cubana onde nasceu, já tinha desejado não ser preto e se esforçado por alisar o cabelo, clarear a pele com produtos arriscados e desachatar o nariz com prendedores, já tinha emigrado para os Estados Unidos e descoberto a luta pelos direitos civis, já tinha se apaixonado por Patrice Lumumba, o célebre líder congolês, e planejado um atentado ao consulado belga em Nova York para vingar-se de seu assassinato, já tinha se encantado com a revolução depois de um encontro com Fidel Castro, já tinha se tornado comunista e voltado a Cuba para colaborar com o processo revolucionário, já tinha descoberto que o regime cubano era tão racista quanto aquele que tinha derrubado, já tinha sido encarcerado uma vez por denunciar que o racismo persistia na revolução, já tinha sido condenado a quatro meses num campo de trabalhos forçados uma segunda vez pelo mesmo motivo, depois de abordar o próprio Fidel Castro em público, já tinha feito uma confissão, para não ser morto, de que havia se equivocado e de que não havia racismo em Cuba, já tinha se refugiado na embaixada da Guiné quando percebeu que seria executado de qualquer modo, já tinha fugido para o Egito e depois para a França, sem nenhum documento, já tinha sido rejeitado por um Jean-Paul Sartre convencido de que ele era “agente do imperialismo”, já tinha sido acolhido por um dos ideólogos da negritude, o grande poeta surrealista martinicano Aimé Césaire, já tinha virado segurança do ativista negro Malcolm X, quando este esteve em Paris, e já tinha sofrido de todas as formas pelo seu assassinato. Isso tudo aconteceu até os seus 22 anos. Depois, aconteceu muito mais.
Carlos Moore tem hoje 72 anos. E lança no Brasil a sua autobiografia: Pichón – minha vida e a revolução cubana (Nandyala), publicada aqui graças a um financiamento do público, via crowdfunding, e nos Estados Unidos em 2008, mesmo ano em que Barack Obama tornava-se o primeiro negro eleito presidente da maior potência global. O prefácio é de Maya Angelou (1928-2014), artista e ativista, ela mesma uma lenda, que desempenhou um papel crucial para que o então jovem Moore descobrisse sua identidade e a realidade brutal das mulheres negras.
Para alcançar a trajetória de Carlos Moore, é preciso compreender que, como filho de imigrantes jamaicanos, ele ocupava o degrau mais baixo da escala racial da sociedade cubana. Pior do que um negro cubano, era um negro imigrante das demais ilhas do Caribe. Em seu livro aparecem genocídios de imigrantes negros em Cuba dos quais a maioria jamais ouviu falar. Aos 13 anos, sua mãe já tinha sido estuprada e engravidada pelo padrasto. Com um filho do incesto, ela casou-se com outro imigrante jamaicano. Moore nasceria anos depois, entre vários irmãos. E jamais entendeu por que era rejeitado pela mãe, que o espancava a ponto de deixá-lo de cama por dias, coberto de talhos e hematomas, tendo chegado a desenvolver uma espécie de reação convulsiva. O pequeno Moore fazia buracos no quintal, para tentar escapar dessa mãe. Sua fotografia era a única que não estava pendurada na casa da família.
Um dia a mãe partiu, abandonando a todos. E só muito mais tarde, já adulto, ele descobriria a raiz da violência materna inscrita em surras cotidianas no corpo do filho. A vida de Carlos Moore pode também ser contada por uma longa travessia em busca de uma mãe e de uma identidade.
Anos atrás, depois de sofrer uma embolia pulmonar e flertar com a morte por três semanas, Carlos Moore conta ter resolvido seguir o conselho de seu grande amigo, o escritor americano Alex Haley (1921-1992), autor de A autobiografia de Malcolm X, e escrever suas memórias. Decidiu então mudar-se para o Brasil, onde desde 2000 vive em Salvador, com sua companheira, a guadalupense Ayeola. Do primeiro casamento, tem um filho que vive nos Estados Unidos. No Brasil, acolheu uma menina que morava numa favela e hoje já se tornou adulta e faz doutorado. Tem sete livros publicados, cinco deles traduzidos para o português e lançados no Brasil. Um deles – Fela, esta vida puta (Nandyala) – é a impressionante biografia de Fela Kuti (1938-1997), o criador do Afrobeat, com quem ele teve uma amizade profunda. Entre os seus vários exílios, Moore fez dois doutorados na Universidade de Paris VII, o primeiro em Etnologia, o segundo em Ciências Humanas.
Carlos Moore escolheu o Brasil, onde tinha amigos como Abdias do Nascimento (1914-2011), para se recolher e escrever sua autobiografia com tranquilidade, num país onde era quase desconhecido. Logo percebeu que o Brasil vivia um ponto de inflexão na luta contra o racismo, com as cotas raciais e as demais ações afirmativas. Como fez por toda a vida, engajou-se. Seu livro Racismo & Sociedade (Nandyala), lançado em 2012, tornou-se referência e polêmica. Carlos Moore está longe de ser uma unanimidade, dentro e fora do movimento negro, o que não parece preocupá-lo. Tornou-se um dos pensadores negros dedicados a esse tempo histórico muito particular do Brasil, definido por Moore como “o momento em que as máscaras começaram a cair”.
Desde a infância, Carlos Moore queria fugir, uma fuga profunda, com vários sentidos simultâneos. Acabou por passar a vida fugindo de perseguidores de todos os lados do espectro ideológico. Essa fuga interminável parece tê-lo levado a si mesmo, o único lugar de chegada que importa.
A entrevista a seguir foi feita durante seis horas, em dois dias consecutivos da semana passada, durante a estadia de Carlos Moore em São Paulo, para o lançamento de Pichón. Nela, ele fala sobre racismo, trajetória, identidade, mulher negra, exílio, assim como sobre as realidades do continente africano e de países como Cuba, Estados Unidos e Brasil. Pelo seu relato desfilam personagens que são ícones da história mundial do século 20, mas que talvez a maioria dos não negros desconheça, porque esta é uma história apagada por aqui – ou jamais contada.
À primeira vista, o que chama atenção neste negro de tantos mundos é a sua leveza, surpreendente em alguém que carrega uma trajetória tão pesada e ainda traz no corpo as cicatrizes das violências que começou a sofrer pela mão da própria mãe. Moore é acolhedor, carinhoso e sorridente, jamais se furta a uma pergunta difícil, e sua força aparece quando discorda do interlocutor e dá uma resposta demolidora. Claramente, como se verá, ele não tem tempo para conversas de salão.
1) O primeiro exílio de um negro: o do ser
Pergunta. Por que o senhor escolheu Pichón como título deste livro?
Resposta. O editor americano queria tirar esse título, dizendo que esse não era um título comercial. Eu falei que não mudaria, porque botei esse título para que as pessoas se interrogassem: o que é pichón? Pichón, na Cuba da minha infância, queria dizer “filhote de urubu”. Só mais tarde, já adulto, eu fui descobrir seu significado mais neutro, que era filhote de alguma ave. Em Cuba era o termo que usavam para nos humilhar. Aqueles negros que vinham do Caribe eram urubus, porque eram pretos e se dizia que roubavam empregos dos cubanos e que comiam carniça. E esta foi a palavra que mais me doeu. Me xingarem de “negro de merda” era normal. Todos os negros eram xingados de “negros de merda” pelos brancos. Mas somente certos negros eram xingados de pichón, somente os imigrantes e descendentes do Haiti, Jamaica, Barbados… Os negros cubanos têm nomes como Gonzalez, Díaz, Hernandez. Agora, um negro com nome Moore já se sabe que ele não é cubano, mesmo que tenha nascido lá, estado lá por 100 anos. Havia um ódio profundo, racista, dentro da sociedade cubana, para com aqueles filhos dos imigrantes, considerados mais primitivos, mais bárbaros, mais africanos. Mais negros. A negrura deles é exponencialmente maior, no sentido negativo. Então, eu falei: “Se esse é o termo que mais me feriu, durante a infância, é o que quero utilizar como título do livro”. Eu não o tiraria por nada.
P. O senhor teve uma vida de exílios. Mas, desde criança, parece que o senhor já se percebe como um exilado, num sentido mais profundo. Um exilado da pele, da língua, dos nomes, já que havia rejeição ao seu nome, por revelar que seus pais eram imigrantes jamaicanos. Como é isso?
R. Todos aqueles que nascem desse lado, que são negros, nascem num grande exílio. Um enorme exílio forçado. E, a partir daí, vêm todos os outros exílios que procedem dele e que criam outros novos lugares de exílio. Eu logo percebi que não tinha conexão com o mundo, fora uma conexão fictícia que o mundo branco me forçava a aceitar, a querer ser como eles. Aí já se criava um corte fundamental, que era o corte comigo. Eu não sabia quem eu era, porque eu queria ser outro. Porque esse outro é que era o bom, o bonito, o que todo mundo queria. Quando era pequeno, eu rejeitei minha mãe rapidamente por causa de toda essa brutalidade dela. E eu criei outra mãe na minha cabeça. Eu não falei disso no livro, mas eu criei uma outra mãe na minha cabeça, que era totalmente branca, que era loira, de olhos azuis, como eu via nas revistas cubanas.
P. Sua mãe era uma mulher brutal, mas, quando o senhor criou uma mãe imaginária, criou uma mãe branca, em vez de uma mãe negra. Isso vem de uma outra brutalidade, né?
R. Sim. Eu me retirava para o fundo do jardim para falar com essa mãe, e ela era carinhosa comigo, sempre sorridente e com uma voz suave, e nós fazíamos tudo juntos. Essa mãe de fantasia me trazia presentes, me trazia uns biscoitos de que eu gostava muito. Eu me colocava na escuridão, à noite, no fundo do pátio, entre dois coqueiros, e essa mãe vinha. Eu tinha uns 7 anos, e ela era real pra mim. Ela sempre me perguntava se eu estava contente. E eu dizia que não, que eu queria fugir, que ela me ajudasse a fugir. Toda minha infância eu passei meu tempo a querer fugir. Fugir foi a coisa mais poderosa da minha infância.
P. Fugir do quê? E para onde?
R. Eu ia andar, andar, andar, andar toda a noite, até chegar ao porto. Lá eu poderia me esconder entre aqueles enormes sacos de açúcar, num daqueles barcos. E esse barco me levaria para aquele país que era mítico pra mim, que era os Estados Unidos. Eu dizia à minha mãe branca: “Me leva, me leva pela mão”. E ela me dizia que não, que não podia. E às vezes eu esperava, e ela não vinha. Eu já estava totalmente alienado de mim. Queria ser branco, queria somente ter amigos brancos, queria mudar de pele, queria mudar de cabelo, de tudo. Esse foi o primeiro exílio, um exílio ontológico. Normalmente as pessoas sabem o que são, elas são o que são, não se colocam a questão. Mas eu não sabia, eu não queria ser o que eu era e, pelo fato de não querer ser aquilo, não sabia o que eu era.
P. Como é que é não saber o que se é?
R. Você se sente constantemente num estado de falta [a voz de Moore fica instável]. Não tenho a pele correta, não tenho o nariz correto, não tenho os lábios corretos, não tenho o corpo correto, não tenho. Tudo é falta. A única coisa que me salvou durante essa infância foi a minha inteligência [a voz se restabelece]. Porque na escola eu podia não estudar, e nas provas me dava bem, melhor que aqueles meninos brancos que estudavam o tempo todo.
P. E quando o senhor se olhava no espelho, o que enxergava?
R. Eu me via como alguém grotesco, sempre feio. E eu ainda era estrábico. Então as pessoas sempre diziam: “Pichón, pichón, pichón…”. Eu não me olhava no espelho. E, como na minha casa não havia nenhuma foto minha, isso era reforçado. Eu achava que era comigo, eu não tinha ainda essa percepção de que era com todos os negros.
P. Sua mãe negra, concreta, parece ter sido uma pessoa ambígua. Ao mesmo tempo em que ela o espancava constantemente e alisava o seu cabelo, era ela quem enfrentava os brancos e o incentivava a enfrentá-los. Como o senhor lidava com essa ambiguidade?
R. Ela foi a primeira pessoa que me falou da escravidão. A única que me ensinou a resistir, a única que me disse que eu tinha de enfrentar esse mundo. Meu pai era totalmente o contrário, ele buscava somente a aprovação dos brancos. E os brancos falavam que eu era a vergonha do meu pai. Mas da minha mãe tinham medo, os brancos temiam que ela fosse afrontá-los, porque ela fazia escândalos, fosse quem fosse. Os escândalos da minha mãe, nesta pequena cidade, eram maiúsculos. Mas eu só conseguia chegar perto dela aos domingos, quando ela escutava ópera no rádio e chorava. Ficava escutando essa música, remendando as roupas e chorando. Nestes momentos, ela me tocava.
P. Hoje, como o senhor olha para essa mãe?
R. Eu olho com a compreensão de que ela foi uma mulher estuprada pelo padrasto aos 13 anos. Meu irmão mais velho é filho de um estupro. Minha mãe chegou da Jamaica e, em alguns meses, já estava estuprada e grávida. Estou escrevendo um outro livro, chamado “As pegadas do caos”, que fala dessas realidades históricas. Neste livro, meus pais são os protagonistas. Através deles, vou falar da vida de todos os outros. Dessa pobreza imensa, dramática. Do ódio que enfrentaram em Cuba por serem negros imigrantes de ilhas caribenhas, considerados como bárbaros e primitivos. Pouco antes de ela morrer, eu conversei com minha mãe nos Estados Unidos, em New Jersey, onde ela estava morando. Foi Alex (Haley) que me disse: “Você precisa saber o que aconteceu”. Então fui falar com ela, e depois com o meu pai, que morava no Brooklyn. Foi quando soube por ela que não era filho do meu pai, mas do melhor amigo dele, a quem meu pai tinha confiado a sua família. Isso aconteceu quando meu pai precisou partir em busca de trabalho e passou muito tempo sem voltar. Ela, cheia de filhos, achou que ele tinha morrido. Quando meu pai finalmente retornou, ela estava grávida deste amigo. Era eu. Mas quando eu soube, eu tinha por volta de 40 anos. Depois, conversei com o meu pai. Ele estava sentado, tomando sol. Já estava cego. Ele me disse que minha mãe nunca deveria ter me contado, porque tinham um acordo sobre isso. Mas era uma cidade pequena, e eu passei a vida toda brigando com os outros meninos porque chamavam minha mãe de puta e eu não sabia por quê. Puta, puta, puta. E esses dois homens quase se mataram por causa dessa gravidez. Eu gravei toda a minha conversa com minha mãe e meu pai. Minha mãe me contou as coisas horríveis que passou. Toda a fome que passou. E os meninos vindo um atrás do outro, porque não sabiam como evitar os filhos. Ela sempre grávida. Me dei conta então do horror que tinha sido a vida deles. Eram vidas trágicas.
P. Mas seu pai, de fato, este que criou o senhor, ao contrário da sua mãe, aceitou o senhor por completo como filho, não foi?
R. Eu fui o favorito dele. Até hoje me lembro do odor desses charutos, e eu adoro charuto por causa disso, a única coisa que eu fumo é charuto. Me lembro do perfume que meu pai usava, era um perfume que de vez em quando traziam para ele dos Estados Unidos. Quando conversamos, eu agradeci a ele por todo o amor que ele me deu. Disse a ele o quanto o amava. E disse: “Você é meu pai”. O ciclo estava fechado.
2) A mulher negra: a mais esmagada entre os esmagados
P. Essa cisão, entre a mãe branca boa e a mãe negra ruim, impactou na escolha de suas parceiras sexuais, pelo que se pode perceber em sua autobiografia… Como foi isso?
R. Sim, porque essa transferência se faz para aquelas mulheres brancas que eu vou conhecer, que têm esse fenótipo e que correspondem a essa visão do que para mim é bonito. Tudo o que eu tinha que ser era bom na cama com elas. Não era uma relação, no sentido da intimidade de explorar profundamente o outro. Era uma performance. Eram relações sexuais ficcionalizadas. Cada encontro com uma mulher branca era como na novela. Eram mulheres que não conheciam nada sobre as questões raciais, só queriam bom sexo, um negro na cama que alimentava os fantasmas delas sobre o macho negro. E elas alimentavam os fantasmas que eu tinha. E estes fantasmas estavam ligados a essa outra visão, que poderia ser inclusive incestuosa, já que essas mulheres correspondiam àquela mulher mítica criada na minha infância. Que era boa comigo, que me trazia presentes. Então, o sexo era um grande presente. A relação profunda só começou a existir quando eu passo a conhecer mulheres negras, conscientes de quem são, que estavam se debatendo com o problema da identidade e que me forçaram a me debater com o problema da minha identidade. Aí foi onde começou o outro combate.
P. A história da sua mãe levou o senhor à história da mulher negra?
R. Sim. Eu comecei a compreender a história da mulher negra a partir de Maya Angelou e de todas as escritoras negras que se tornariam grandes, mas que na minha adolescência, em Nova York, eram as mulheres com quem eu passei a conviver, sem me dar conta da importância delas. Eu tenho uma dívida com as mulheres negras que é impagável, por terem me levado à compreensão de quem eu era. Assim, eu tenho o dever de participar dessa luta para que a mulher negra recupere a dignidade diante dessa sociedade, dignidade que lhe foi retirada brutalmente há 400 anos.
P. Qual é o papel de um homem negro diante da indignidade sofrida pela mulher negra?
R. Há uma situação de profunda solidão da mulher negra. A mulher negra é rejeitada universalmente, é pisoteada. Para ser um negro consciente, um ser humano consciente, um homem negro tem que olhar para esse aspecto. Não pode seguir como cúmplice desse esmagamento histórico da mulher negra. A mulher negra é o ser humano mais esmagado de todas as categorias de pessoas marginalizadas no mundo. E não se pode ignorar isso. É por isso que Obama fez algo extraordinário, ao levar essa mulher negra, de pele negra, à Casa Branca, como sua esposa, como mãe das suas filhas, quando, na realidade, a sociedade não programou isso. A sociedade programou para que alguém desse nível, desse sucesso, levasse automaticamente uma loira para a Casa Branca. Ele rompe um tabu e se transforma não somente no primeiro presidente negro, mas também no homem negro que devolve à mulher negra o sentido de autoestima e de respeito que essa mulher deve ter, em primeiro lugar. O sistema racista já inviabilizou a relação entre o homem negro e a mulher negra desde os tempos da escravidão. O racismo já determinou que brancas são para casar, mulatas para fornicar e pretas para trabalhar. Há quatro séculos que isso é lei. Então, quando um homem negro, como eu, compreende o que tudo isso quer dizer, ele começa a ter outro olhar para a mulher negra. Começa a buscar o diálogo com essa mulher, em lugar de pisoteá-la, em lugar de reproduzir toda a história de esmagamento. É um diálogo muito difícil, porque, durante quatro séculos, o homem negro e a mulher negra não tiveram uma situação que permitisse esse diálogo. Para derrubar o racismo é indispensável que o homem negro e a mulher negra tenham essa conversa.
3) A Cuba de Fidel: um regime que reproduziu o racismo
P. Por que o senhor decidiu escrever essa autobiografia?
R. Em 1996, eu passei por uma embolia pulmonar e fiquei três semanas entre a vida e a morte, num hospital de Trinidad e Tobago, onde trabalhava como professor universitário de Relações Internacionais. Pensei que, se eu morresse, tudo aquilo que eu precisava falar sobre a minha experiência com a revolução cubana se perderia. As pessoas têm uma visão de que foi uma revolução generosa, correta com todo mundo. E foi a pior repressão contra os homossexuais, contra os negros. Então eu pensei que, se eu sobrevivesse, sairia da universidade e iria para um lugar em que ninguém me conhecesse como militante, para escrever esse livro. Escolhi Salvador, na Bahia. A Bahia, para mim, é como se fosse um país. A culinária, a música, o candomblé… Queria um lugar onde eu pudesse viver tranquilamente e terminar essa obra.
P. Que buraco se abre na sua vida quando o senhor descobre que a revolução cubana está reproduzindo o racismo?
R. Foi um choque. Eu tinha uma necessidade ontológica de que brancos e negros pudessem juntos mudar a sociedade. Quando eu descubro que estão todos mentindo, e estão destruindo as organizações negras, destruindo o candomblé, destruindo tudo o que é negro, porque eles não querem conviver com essas diferenças, porque querem criar um negro novo, um negro submisso, um negro comunista, foi um grande choque. O que eles estavam propondo era um negro sem cor, um cubano sem cor. Mas eu queria minha identidade, eu não queria me diminuir e ser sem cor. Havia esse discurso de que éramos todos cubanos, só que a cor cubana continuava a ser a branca, já que só havia um negro em posição de comando, entre todos, que era manipulado por Fidel, como eu já tinha presenciado nos Estados Unidos. Aí eu disse “não”. Mas foi um choque grande chegar à conclusão de que esses dirigentes brancos não tinham a menor intenção de conviver com gente como eu. Nem posso descrever aquilo que Fidel Castro era para mim. Ele simbolizava a revolução, e a revolução era para mim como uma mãe substituta. Era aquela coisa que eu podia me entregar e amar e ser amado por ela. Ser aceito e amado por ela. Aceito como eu era. E que ela nunca mais ia me rejeitar. E então a encontro e ela me rejeita, como eu sou. E é por isso que eu cometo essas loucuras que eu vou cometer, porque estou convencido de que Fidel Castro não é parte disso. Que aqueles eram os mesmos brancos racistas de sempre, mas que eles não eram a revolução. Quando descobri que Fidel era aquele que estava à frente disso, aí caí em pedaços… Tudo isso aconteceu comigo quando eu não tinha nem 20 anos.
P. O senhor fez uma confissão, negando o racismo em Cuba, para escapar de mais uma prisão ou coisa pior. Como o senhor se sente com relação a isso?
R. Muitas vezes eu tenho me perguntado porque eu não aceitei ser fuzilado em lugar de confessar o que eles queriam que eu confessasse. Muitas vezes eu tenho me perguntado isso. E eu não tenho nenhuma resposta além daquela que eu tinha. Chegou um momento em que eu sabia que a morte estava ali e de que, para evitá-la, eu somente tinha que mentir. E esse foi o momento em que eu disse a mim mesmo: “Eu vou mentir”. Porque aqueles que estão me pedindo para mentir são mentirosos. Então eu estou traindo absolutamente nada. Eu nunca coloquei o nome de ninguém, nunca impliquei ninguém. Impliquei a mim, dizendo: “Fui eu”. Assumi toda a responsabilidade. O regime cubano pode exibir esse documento em qualquer momento e ele só mostrará que Carlos Moore disse que ele fez sozinho.
P. O senhor voltou a Cuba anos atrás para uma visita, reencontrou seus irmãos e conheceu sua família por parte do pai biológico. Como o senhor vê Cuba hoje?
R. A Cuba de hoje é muito mais complexa do que quando eu estava denunciando o racismo naqueles tempos. O fato de negar a existência do racismo fez com que o racismo ocupasse todos os espaços. Então o racismo se reforçou em Cuba. Ele não se expressa da mesma maneira que ele se expressava antes da revolução, na segregação racial, nos lugares públicos. Mas a segregação racial hoje é tão forte quanto aqui no Brasil. No poder político, econômico, coisas tão simples como o conteúdo da televisão. É muito forte. A única grande diferença que há na Cuba de hoje é que existe um número expressivo de negros que pertencem a uma classe média que estudou. Meus próprios irmãos, por exemplo, são todos profissionais. Para sobreviver, a revolução teve que profissionalizar os negros cubanos.
P. E essa não é uma mudança importante?
R. É uma mudança importante, porque vai entrar em colisão violenta com a Cuba que agora está surgindo com Raul Castro, que é essa Cuba capitalista, tipo chinesa. Porque essa é uma Cuba que exclui totalmente os negros profissionais e não profissionais. E aí vai haver uma colisão, porque existe agora uma massa de negros que pensam, que analisam, que compreendem a situação deles. O regime cubano vai ter que lidar com um problema enorme. Da mesma maneira que o Brasil, hoje, cada vez mais, está lidando com um problema cada vez mais forte, que é o reforço dessa classe média negra que está cada vez mais consciente sobre a sua situação.
P. E como o senhor vê Fidel Castro, esse homem que acabou tendo uma importância grande também na sua vida?
R. Fidel fez algo muito importante para Cuba, a revolução foi importante. Apesar de todas as coisas que têm acontecido, eu nunca teria preferido uma Cuba sem revolução. A revolução era necessária, em Cuba, e se converteu naquilo que se converteu. A revolução morreu, foi destruída, foi assassinada, mas o tempo em que a revolução existiu, como esperança que uniu realmente esse povo, que permitiu aos negros sonharem com uma sociedade nova e que permitiu a muitos brancos sonharem com uma sociedade em que essas diferenças raciais e esse conflito racial poderiam ser vencidos, esse foi um momento importante. Todas as reformas mais estruturais que a revolução fez, como saúde e educação, também foram importantes. O fato de que Fidel Castro foi um dirigente que teve a coragem de desafiar os Estados Unidos também foi importante. Agora, essa militarização exigida pela resistência contra os Estados Unidos converteu a sociedade cubana em uma Esparta, destruindo todos os espaços de expressão civil, que não voltaram mais.
P. O senhor faz uma diferença entre a revolução e o regime. Qual é?
R. A revolução é uma esperança coletiva. O ser humano está constantemente buscando ampliar os parâmetros de liberdade na existência dele, e a revolução é esse momento. Houve uma revolução russa? Houve. Ela morreu? Morreu. Houve uma revolução na China? Houve. Ela morreu? Morreu. Foi assassinada? Sim. Os povos colocam a revolução em movimento, e logo aqueles que manipulam os aparelhos de controle a assassinam. Então é sempre esse vai e vem. Esse conflito, essa contradição.
4) Encontros com Malcolm X e Aimé Césaire, desencontro com Sartre
P. O senhor viveu uma experiência muito particular, a de viver num mundo polarizado, que era o mundo da Guerra Fria, e ser suspeito nos dois lados, perseguido nos dois lados, sem lugar em nenhum lado. Como é essa experiência de encarnar um não lugar, no sentido mais profundo?
R. Havia gente que me acusava de ser agente do imperialismo, de um lado, outros me acusavam de ser agente do comunismo, do outro lado. Ao mesmo tempo. Me senti completamente injustiçado. Até o ponto em que eu não podia resistir mais. Você não consegue provar nada. Quanto mais você tenta provar alguma coisa, mais eles dizem que você está camuflando a verdade. Me dei conta de que, para aqueles que se dizem de esquerda, ou para aqueles que se dizem de direita, não importa a verdade. Para eles a verdade é algo relativo. Você tem um adversário, então você o elimina da maneira mais eficaz. E essa maneira mais eficaz é com calúnias. Mas essas mentiras destroem o ser humano que é o alvo desses ataques. Houve momentos em que eu senti que não poderia aguentar mais. Me lembro de pelo menos três momentos da minha vida em que eu seriamente contemplei a possibilidade de abolir a minha vida.
P. Poderia descrever um desses momentos?
R. Na última vez, falei com a minha atual companheira, Ayeola. Eu sentei com ela num jardim, em Guadalupe, e falei: “Eu não posso continuar mais, e nem consigo explicar a você a dor que estou sentindo”. Ela olhou para mim e disse: “Tá bem. Então faça. Eu vou compreender. Se você está sentindo tanta dor a ponto de querer abolir a sua existência, você deve fazê-lo”. Essa foi a coisa mais maravilhosa que alguém poderia ter feito por mim. Eu me senti livre, liberado, realmente livre. Essa autorização, da mulher que me amava, fez com que algo se quebrasse a partir daí. Eu comecei a viver tranquilo sabendo que, a qualquer momento, eu poderia tirar a minha vida. Passaram-se os meses, os anos… E isso me ajudou a lidar com essa situação de cerco permanente.
P. No lançamento do seu livro, na Livraria da Vila, em São Paulo, o senhor disse que a pessoa que mais o marcou foi Aimé Césaire. Por quê?
R. Porque era um homem de uma tranquilidade extraordinária em meio a todos os conflitos. Ele pertenceu ao Partido Comunista e saiu, por uma questão ética, a invasão da Hungria, e passou a ser atacado violentamente. E foi atacado também pelos grupos de direita, porque estava sempre pregando uma espécie de socialismo da negritude, para Martinica e para outros países negros. Ele me impressionou muito com o discurso sobre a questão colonial, especialmente aquela parte fantástica que me abriu janelas, quando ele disse: “Vocês estão condenando Hitler por quê? Isso é mentira. Como vocês podem condenar Hitler, quando vocês fizeram tráfico de escravos, quando vocês colonizaram toda a África? Trabalhos forçados, genocídios… Vocês não podem dizer nada contra Hitler. Hitler são vocês”. E ele falou também: “A única coisa que vocês podem dizer sobre Hitler é que doeu porque ele matou brancos! Ah… isso sim vocês podem dizer! Mas vocês não dizem que o único crime para vocês é que ele aplicou a brancos, durante um tempo curto, aquilo que vocês reservam aos negros desde séculos”. Isso me impressionou muitíssimo. Foi uma explosão na minha cabeça.
P. E como foi o seu “não” encontro com Sartre?
R. Quando eu chego a Paris, procuro Aimé Césaire e finalmente eu o vejo, e ele me escuta sobre o que está acontecendo em Cuba. E, ao final, ele afirma: “Eu não quero acreditar em tudo o que você me disse, não quero acreditar. Mas acredito”. E aí ele me disse que eu precisava ver várias pessoas, entre elas Sartre. Um jovem escritor, amigo íntimo de Sartre, arranja esse encontro, em um café. Eu vi Sartre lá, com os amigos dele, enquanto esse amigo comum vai dizer a ele que estou ali para conversar. Imediatamente, Sartre começa a gesticular e a dizer com a cabeça que não. Esse escritor voltou, então, até onde eu estava: “Sartre disse que não vai te receber, porque não fala com agentes do imperialismo”. Simone de Beauvoir e Sartre são gente que eu amo, são pessoas que liberaram mentes. Sartre foi aquele que abraçou a negritude, que escreveu um texto lindíssimo que se chama “Orfeu Negro”, onde ele explica aos intelectuais brancos, de esquerda e liberais, o que é a negritude. Coisas luminosas. Esse Sartre era fundamental na minha vida. Então, para mim, foi uma traição. Como se alguém me apunhalasse. Ele teve essa reação de conquistador, de não querer me ouvir. Foi muito duro. Mas ele foi fundamental na minha vida, no meu desenvolvimento como ser humano. Assim como Simone de Beauvoir. Tenho muito amor por esses dois… muito amor.
P. Qual foi a sua experiência com Malcolm X?
R. Quando eu o conheci, como líder nos Estados Unidos, eu não tinha amizade com ele. A amizade veio nesses momentos dramáticos em que ele estava caminhando para a morte. Naquele momento, ele estava com essa obsessão de rapidamente poder ajudar a insurreição no Congo. Eu tinha pouco mais de 20 anos e pensei que a única coisa que eu podia fazer era dar todo o meu apoio a Malcolm para que ele pudesse reunir os voluntários. Passei então a ajudar no recrutamento dessas pessoas. No período em que ele passou na França eu tive que dormir com ele no hotel. Ou seja, ele dormia e eu ficava desperto. Logo que ele acordava, eu dormia algumas horas. Ele se ocupava dos assuntos dele e logo buscávamos o lugar onde ele tomava café da manhã, porque ele tinha medo de ser envenenado no hotel. Eram os últimos momentos de Malcolm, e ele sabia. Ele me disse que só tinha horas ou dias, que estava indo para a morte. E constantemente ele estava me dizendo: “Você tem que prestar atenção ao que eu estou lhe dizendo, porque é a última vez que eu vou poder falar assim”. Então ele começou a me falar sobre tudo: sobre a mulher, sobre a vida, sobre a revolução, sobre como organizar os grupos na clandestinidade… Ele era um homem muito generoso. Não era uma pessoa efusiva, não era uma pessoa de abraços, era um homem muito contido. Mas tudo passava através dos olhos dele, de como ele sorria. E era uma grande paciência. Eu podia falar durante meia hora e ele não ia me interromper nunca. Ele ficava lá, atento a tudo o que eu ou outra pessoa estava dizendo. As pessoas têm essa visão de Malcolm somente como aquele grande agitador e tudo, mas Malcolm era um homem muito tranquilo, muito generoso, muito carinhoso…
P. E como o senhor recebeu a notícia do assassinato dele?
R. Quando eu soube da morte dele fazia frio, em Paris, e eu saí andando por horas. Esse foi um dos momentos mais difíceis pra mim. Eu tinha 22 anos. No assassinato de Patrice Lumumba, eu só queria vingança. Eu amei Lumumba sem jamais tê-lo visto, o amei pelas coisas que ele dizia. Havia uma fragilidade em Lumumba. Ele era um homem magro, alto, mas quando ele falava que criaria uma nação na qual os negros podiam ser respeitados, que todos os negros, de qualquer parte do mundo, poderiam ir ao Congo, foi uma revelação pra mim, aos 18 anos. Já com Malcolm era um sentimento de impotência total, porque eu tinha convivido com ele e o amava. Me lembro de um momento em que eu estava apresentando a ele recrutas para o Congo e uma das mulheres que prestaria ajuda como enfermeira o interrompeu. Eu me zanguei: “Não interrompa o brother Malcolm”. Malcolm parou, me olhou, botou a mão no bolso, sacou uma moeda de um dólar e disse: “Brother Carlos, o que tem do outro lado dessa moeda?”. Eu disse que não sabia. E o Malcolm falou: “Ok, nunca mais interrompa uma mulher, porque as mulheres sempre veem o outro lado da moeda”. Eu nunca me esqueci disso.
5) O Brasil, a maioria negra e a crescente tensão racial
P. O senhor pesquisou o racismo em vários países, em quatro continentes. O que é o racismo, no seu ponto de vista?
R. O racismo não é uma simples tecedura de preconceitos aberrantes, nem uma confabulação ideológica descartável, tampouco uma realidade oportunista surgida há pouco, e muito menos uma “doença”. Se trata de uma estrutura de origem histórica, que desempenha funções benéficas para um grupo, que por meio dele constrói e mantém o poder hegemônico com relação ao restante da sociedade. Esse grupo instrumentaliza o racismo através das instituições e organiza, por meio do imaginário social, uma teia de práticas de exclusão. Desse modo, preserva e amplia os privilégios sociais, o poder político e a supremacia total adquiridos historicamente e transferidos de geração a geração. Em uma sociedade já multirracial e mestiçada, ele serviria para preservar o monopólio sobre os recursos, para o segmento racial dominante. Seria um sistema total que se articula desde o início mediante três instâncias operativas entrelaçadas, porém distintas: 1) as estruturas políticas, econômicas e jurídicas de comando da sociedade; 2) o imaginário social total, que controla a ordem simbólica; e 3) os códigos de comportamento que regem a vida interpessoal dos indivíduos que fazem parte dessa comunidade. Assim, não é possível atacar o racismo em apenas um lugar, porque nada vai se modificar. Hoje em dia, o racismo atingiu tal grau de sofisticação que nega a si mesmo e pretende não existir. Negar a existência do racismo, transformá-lo em um tabu social, tratá-lo como “aberração” ou reduzi-lo à “discriminação” e ao “preconceito” é a melhor forma de encobri-lo e protegê-lo enquanto estrutura sistêmica. Por isso, sempre que o ser humano o nega ou simplifica, está automaticamente em “cumplicidade sistêmica” com ele.
P. E como o senhor vê o racismo no Brasil atual?
R. Brancos e negros estão travando aqui uma luta terrível. E os brancos nem sabem que estão dentro dessa luta. Alguns sabem e pretendem que a luta não existe. Mas só uma minoria, muito pequena, está consciente dessa luta e sabe que é uma luta. A maioria nem quer saber.
P. Há alguma peculiaridade no racismo do Brasil?
R. Não estou buscando nenhum lugar idílico, isso não existe pra mim. O que estou dizendo no meu livro Racismo & Sociedade é que temos de olhar para o racismo a partir dos modelos. O racismo aqui no Brasil corresponde a um modelo específico, e esse modelo veio da Península Ibérica. É o modelo de uma escravidão já naturalizada, onde os negros crescem dentro da escravidão, os negros se sabem escravos. Onde há um sistema clientelista, de onde há uma série de gradação de cores. Esta é uma escravidão que tem mil anos de ossificação. Nela, o subalterno dentro do sistema aceita a sua atividade, vê isso como normal. Nesse modelo, o racismo é o leite que amamenta o negro todos os dias.
P. Um racismo naturalizado?
R. Sim. Então todo mundo quer essa limpeza do ventre, da barriga. As mulheres negras buscam constantemente que seus filhos saiam da escravidão. E qual é a única saída? É que eles sejam pardos, que eles sejam mulatos. Uma situação de trânsito sexual entre o homem branco e a mulher negra. Porque aqui, quando você fala de miscigenação, fala de uma maneira geral, fala sem dizer que aquele que está miscigenando é o homem branco. Não é o homem negro que está miscigenando a raça branca, mas o homem branco que está miscigenando a raça negra. Quando chegam os espanhóis e os portugueses é o que primeiro eles fazem com as nativas e com as africanas. A mulher branca vem depois, com o sistema já estabilizado. Então, esse é um modelo muito mais difícil, porque tudo está naturalizado, tudo é normatizado. As coisas fluem, o sangue está fluindo no interior do sistema de uma maneira normal.
P. Parece que algo forte está acontecendo no Brasil nesse momento, no que se refere ao racismo, mesmo que muitos brancos não enxerguem ou não queiram enxergar. O quanto isso está relacionado à primeira geração de negros que chegou à universidade pelas cotas raciais?
R. É por isso que há tanto pânico. Eu cheguei aqui num momento em que o pânico começou a desencadear-se. O movimento negro fez um trabalho colossal neste país. E que chegou a interferir dentro dos partidos. Depois, quando vi esses negros entrando na universidade, levando com eles o candomblé, as favelas, os quilombos… A universidade ficou em estado de choque. Era um corpo estranho que tinha entrado lá, e eu me dei conta disso. Eles não viam a entrada de estudantes, eles viam a entrada de soldados estrangeiros. Viam esses estudantes como uma invasão da universidade. E eu me dei conta de que esse espaço sacrossanto, branco, tinha sido dessacralizado. Diante disso, começou uma reação tão forte, contrária, que continuou ascendendo até os nossos dias. Se complexificando, se tornando todo o tipo de oposição, com máscara política. Pela primeira vez os brancos nesse país ouviram falar que os negros eram majoritários. A população branca parece viver isso como um estupro. A raça negra é um falo e a sociedade branca é uma enorme vagina. Há uma tensão constante. Essa penetração nas universidades foi vista, simbolicamente, como algo muito, muito, muito profundo. E aí, imediatamente, a repulsa foi geral, dentro da sociedade branca. Com as cotas raciais e as demais ações afirmativas foram liberadas forças que ninguém conhecia. Percebi que havia um potencial real de mudança agindo dentro da sociedade. É nesse ponto que começo a ver, a sentir, que este país tem possibilidade de mudar esse quadro. As máscaras começaram a cair. E o Brasil é um país de máscaras, tantas máscaras…
P. É importante as máscaras caírem?
R. É importantíssimo. A sociedade americana tem essa possibilidade tão grande de discutir e de avançar nessa questão tão difícil, que é a questão racial, porque as máscaras aí são arrancadas com a maior facilidade. Já são várias gerações discutindo abertamente a questão racial. Aqui, não. Lá, quando se mata oito, nove negros numa igreja, se diz claramente que foram mortos porque são negros. Ponto final. Aqui, se queimam um índio, queimaram ele por alguma outra razão. Matam o negro e é a mesma coisa. Mas as máscaras estão caindo.
P. O mito da democracia racial é uma máscara que cai?
R. Ao quebrar o mito da democracia racial, o movimento negro quebrou a ideologia sobre a qual se sustenta esse país. Esse país tem se apresentado diante do mundo inteiro como o único país onde tudo está acontecendo bem entre brancos e negros. E os negros fora desse país acreditavam. Todo mundo falava do Brasil como um milagre, até que os negros daqui, em décadas de combate, finalmente quebraram o mito da democracia racial. Para recolocá-la aqui é impossível. Terão de inventar algo novo.
6) Os brancos e a negociação do poder
P. O que vai acontecer depois que as máscaras terminarem de cair?
R. Eu não sei o que vai vir…. Porque esses são momentos em que pode acontecer o melhor ou o pior.
P. E o que seria o melhor e o que seria o pior?
R. O melhor seria uma discussão dentro desse país, em que se discuta claramente quais são os problemas. Em que cada um diga o que tem dentro. Em que cada um diga o que tem a propor. Em que cada um diga qual a relação dele com esse país. A relação racial se sobrepõe a todas as outras considerações: de sexo, de gênero, de nacionalidade, de religião… Estamos chegando a um momento em que essas coisas estão sendo ditas. Algumas pessoas já se dão conta de que este é um país de maioria negra e isso funda um pânico existencial enorme, dentro dessa parte da população branca, na qual a mística da questão racial está enraizada, como na África do Sul. Eu vi essa mesma reação na África do Sul, quando começou a se falar em transferência de poder. A minoria branca nunca ouviu falar dela como minoria, ela nem se percebia como minoria. No Brasil dos últimos 15 anos, a consciência de que os brancos são minoria, num país que é majoritariamente negro, está crescendo. Surge então um pânico existencial, que está delineado por uma consideração racial.
P. O senhor acha que há no Brasil um Apartheid, com a diferença de que não está na Lei?
R. Aqui o Apartheid apenas não é jurídico. Mas está em todas as partes, em todos os lugares de poder e de decisão. Somente não há leis porque, dentro do modelo ibérico, o Apartheid é um Apartheid de consentimento. Os negros sabem onde estão os espaços dos brancos. Os brancos sabem onde estão os espaços negros. E até onde os negros devem ir. Todo mundo sabe qual é o seu lugar, e o lugar do branco é sempre dominante. Mas, agora, pela primeira vez na história desse país, a hora do questionamento chegou.
P. O senhor disse que o melhor que poderia acontecer seria uma discussão aberta, onde as coisas são colocadas com os nomes das coisas. E o que de pior pode acontecer?
R. O pior é o que já aconteceu na Alemanha. O racismo é fascismo. O racismo é nazismo. Só que nós estamos acostumados a pensar no nazismo como campos de extermínio. Mas o nazismo não é campo de extermínio, este é apenas um momento extremo dele. O extermínio simbólico e físico, sem os campos, está acontecendo todos os dias. E esse nazismo cotidiano, nazismo de todos os dias, é aceito. Porque a sociedade branca dominante está vendo como uma resposta à agressão dos negros, que estão chegando cada vez mais perto daquilo que eles não devem ter, que é o poder. Já existe a ideia, dentro da nação, de que tarde ou cedo os brancos vão ter que negociar aqui o poder político e econômico, como negociaram na África do Sul. Tarde ou cedo isso vai acontecer. Nos próximos 15 anos, com certeza, a maioria negra vai ter que estar refletida em todas as instâncias do poder político. Nunca o branco desse país pensou em termos de negociação racial. Com quem iria negociar? E por quê? Agora, pela primeira vez, essa ideia está entrando, simbolicamente, porque existe uma contestação negra. Às vezes é só um protesto por algo que está acontecendo na televisão, em que os negros dizem: “Não queremos isso”. E que os brancos dizem: “Que direito ele têm de dizer o que querem ou não querem? É simplesmente televisão…”. Mas os negros dizem que não querem esse tipo de lazer. Aí os brancos dizem que é fascismo dos negros. Isso demonstra que há um momento de confronto óbvio. Visual. Os estrangeiros veem isso mais facilmente do que os brasileiros. Eles chegam aqui e veem que a tensão é cada vez maior. O Brasil de hoje não é mais o Brasil de 15 anos atrás.
P. O senhor fala que não gosta do conceito de tolerância. Por quê?
R. A palavra tolerância veicula rejeição. E veicula imposição de todo um modo que é determinado por aquele que diz tolerar. Vou tolerar, mas o modo bom é o meu. Para mim, o importante é o comércio com o diferente. Essa espiritualidade, que nada tem a ver com religião, que é sentir a conexão com todos os outros que eu não conheço. Eu quero conhecer e ter uma relação com o diferente, como diferente. Quero poder formar parte do mundo dele também. Na medida em que eu possa. E querer ele também no meu mundo. Na medida em que ele também possa. É muito arrogante falar isso de tolerar. Quando alguém diz aqui no Brasil que tolera os negros, que não tem nada contra os negros, você já sabe que é um racista falando. É hora de quebrar essas máscaras. Diga então, francamente que você não gosta dos negros, que você acredita que são sujos, que são fedorentos, que são perigosos, que tem que cortá-los e castrá-los, também intelectualmente. Os negros são uma ameaça para o mundo ocidental, especialmente para o Brasil. O Brasil se elege como parte do mundo ocidental. Os brancos desse país se consideram representantes tropicais do mundo ocidental. Então, as reações deles são as reações do mundo ocidental. E o mundo ocidental se considera hoje invadido por negros e por árabes. Na Alemanha nazista, os judeus foram convertidos em negros. E cada vez que você converte um grupo branco em negro, você tem que subir o espaço do grupo branco para outro nível, por isso Hitler mudou para ariano. Agora, estão convertendo os árabes em negros, então eles têm que mudar a dimensão branca para ainda outra dimensão, supra branca. Porque os árabes são brancos nos países deles. E os brancos aqui no Brasil consideram que estão sendo invadidos pelos negros.
P. Como esse processo de “mais branco” estaria ocorrendo no Brasil?
R. Agora está havendo um problema aqui no Brasil. Na medida em que os negros que têm pele clara começam a dizer que são negros, já começa a ficar perto demais. Então, os brancos têm que mudar de categoria. É como a (cantora) Fabiana Cozza (uma das amigas que hospedou Moore em São Paulo) dizendo que é negra, e que quer ser reconhecida em sua negritude. Ao dizer isso, ela está subvertendo o sistema. E isso está acontecendo cada vez mais. Só que esse sistema foi criado exatamente para o oposto. Para que cada vez que um negro tivesse a pele mais clara, ele reforçasse o sistema da brancura nesse país. Estamos vendo agora um deslocamento da categoria branca para um nível superior de barbárie. É isso que estamos vendo nesse instante: um deslocamento da branquidão nesse país. Porque o negro está chegando perto demais. O esquema raciológico brasileiro está se quebrando e criando angústias dentro dessa sociedade branca. Essas angústias estão se expressado através de muitas coisas.
P. Qual deve ser o papel de um branco no Brasil de hoje, no que se refere ao racismo?
R. O Brasil é um lugar bem particular, no sentido das relações raciais. Particular não pelas razões que os brancos dizem, falando que as coisas acontecem de uma maneira diferente do resto do mundo. Não. Aqui, as coisas acontecem como acontecem em todos os outros lugares do mundo. A opressão do negro é brutal, é severa, é terrível. O negro tem sido confinado aqui aos piores lugares, no imaginário, no espaço físico, em todos os espaços. Mas o Brasil ocupa um lugar bem particular no sentido de que este é o lugar onde os negros são maioria. E isso quer dizer que os brancos não vão mudar de país. Os brancos da África do Sul não mudaram de país. Eles tiveram que compor. E os brancos do Brasil vão ter que compor com a maioria negra daqui. Porque é uma maioria negra que é cada vez mais maioria. E esse processo não pode mais ser revertido, porque não há mais possibilidade de imigração branca para esse país. Acabou toda a possibilidade de imigração europeia vindo para cá. Então, brancos e negros estão aqui numa competição demográfica, e os brancos já perderam. Os negros chegaram de novo a ser maioria nesse país. Como eram maioria ao final da escravidão. Depois da abolição, os brancos lidaram com essa realidade importando milhões de europeus. Davam todas as vantagens e privilégios a esses europeus, para que se assentassem aqui e, ao mesmo tempo, expulsaram os negros de todos os espaços da vida civil, esperando que eles morressem. Porque o plano era esse, era eugênico. E os brancos pobres iam mestiçando as mulheres negras, chegando a uma população de pele clara e de pele branca e de maioria branca de novo. Agora, essa maioria negra, que vai ser cada vez mais maioria, está cada vez mais consciente de sua negritude, de seus direitos, e consciente do fato que eles têm que governar esse país. Tarde ou cedo, haverá que se negociar.
P. E em que bases se dará essa negociação?
R. É uma negociação em torno de que tipo de país queremos. É uma conversa profunda. Não é simplesmente aquela conversa sobre o capitalismo. É saindo de uma conversa do capitalismo, do socialismo, que era aquela polarização que tínhamos até agora, baseada no “queremos o comunismo ou queremos o capitalismo”. Agora, não. A conversa é que tipo de país nós queremos. Agora é que essa conversa começou realmente no Brasil. Que tipo de país vai nos permitir viver de uma maneira correta, aqui, com todos os recursos naturais que temos. Acho que este é um país que reúne muitas condições para se chegar a um diálogo. E só se chega a esse diálogo através de um confronto em que as máscaras caiam e os negros digam o que querem desse país.
P. E qual seria o papel ético de um branco nesse momento?
R. Essa situação já está impactando nas consciências de brancos que estão começando a se dar conta de que esse mundo no qual eles estão vivendo não é aquele mundo no qual eles pensavam que viviam. Estão vivendo, de fato, num mundo que é um horror para a maioria da população. Então, nessas circunstâncias, vai haver forçadamente uma convergência entre dois tipos de consciências: uma consciência surgida das exigências éticas, de uma parte da população branca, que se encontra em contradição com ela própria, como indivíduo, e outra parte que não tem essa exigência ética. Ter uma visão de si mesmo é parte do ser humano. Quando certos brancos se descobrem formando parte de um bando de opressores, para estes é um grande problema. Mas, para muitos, isso não vai ter muita importância, porque os privilégios são tão grandes, que não é um problema. Eu tenho visto esse problema tornar-se cada vez maior para brancos desse país que se encontram em contradição ética consigo mesmos. Então, eu acho que essa situação vai crescer. Se eu não tivesse visto esse processo acontecer em outros lugares, eu não poderia me manifestar com a confiança que estou me manifestando agora. Eu não vou dizer que os brancos vão mudar, digo que certos brancos vão mudar. E que eles vão constituir uma reserva moral importante nesse país.
7) As duas Áfricas: a mítica e a real
P. Há essa dimensão mítica da África como origem. Mas, quando se fala em África, são várias as Áfricas. Qual foi o seu encontro – ou o seu confronto – ao andar por tantas delas?
R. Quando eu saio de Cuba, eu vou para o Egito, mas aí eu não encontro a África, eu encontro o mundo árabe. Vivo um ano no Egito, dentro do mundo árabe. Eu vou para a África real quando eu vou à Nigéria, pela primeira vez. E aí me encontro com uma África terrível. Uma África de dirigentes totalmente cínicos, corruptos, mercenários, assassinos. É um choque muito grande. Porque até então minha lógica era a de confronto com o mundo branco. E ali era o confronto com o mundo branco, ainda, mas através daquela coisa do (Frantz) Fanon: “Pele negra, máscaras brancas”. Essas classes dirigentes totalmente ocidentalizadas que estão oprimindo o povo. Resolvo esse conflito me unindo à África da resistência. Se eu não tivesse abraçado imediatamente a causa popular na África, eu teria me sentido totalmente destruído. Teria me tornado um cínico total.
P. Que papel ocupou essa África mítica na resistência dos negros ao longo da história?
R. Tivemos que inventar uma África mítica para resistir durante 400 anos. Não foi fácil atravessar 400 anos sem nenhuma referência positiva sobre você, sobre a raça negra. Tivemos que inventar uma África para servir de apoio moral e espiritual. Uma África que nos dissesse, que nos informasse constantemente que éramos seres humanos, vivendo 400 anos em um sistema que diz que você não é humano. Em que o branco é o único que é referência do que é humano, do que é belo, do que é bom, do que é justo, do que é limpo, e você… é somente sujeira. Quem resiste a isso? Então tivemos que inventar uma África que mantivemos em segredo, como as religiões. As religiões também tiveram esse papel de nos dar essas referências, de que não éramos sujeira… lixo.
P. E a África real?
R. Hoje, precisamos dizer: “Necessitamos desse mundo mítico. Mas, agora, olha para o mundo real. A África de hoje é essa. Onde os povos estão sendo trucidados por esses canalhas. Milionários, mercenários e totalmente vendidos ao exterior. E as guerras civis são por causa disso”. Então, havia que fazer as duas coisas: abraçar a África mítica para desmitificar essa África cruel. Ter forças para chegar até aqui, para então ter forças para confrontar a realidade de hoje. Hoje eu me sinto muito confortável. Eu vou para a África todo tempo, mas eu sei qual é o meu lugar. Eu não vou lá confraternizar com as elites africanas. As elites africanas são elites inimigas. Eu vou lá para fazer algo bem preciso. Sei onde está a linha de demarcação.
8) Conclusões do exílio: onde o humano é real
P. Quando lemos sua autobiografia, parece que são tantas vidas numa só. Nas últimas páginas do livro, o senhor escreve: “foi uma história quase inverossímil”. E, são tantos acontecimentos e tantas pessoas envolvidas, que podemos ter, mesmo, essa impressão. Por que os leitores devem acreditar na história que o senhor conta?
R. Não, eles não devem acreditar. Em primeiro lugar, eu não tento convencer. O livro foi escrito simplesmente porque eu fui levado a escrever esse livro, por alguém que me disse: “Você tem que contar isso que aconteceu”. E eu comecei a contar o que aconteceu. Isso aconteceu comigo. E se o governo cubano tem provas de que isso não aconteceu, que eles deem. E se outras pessoas têm provas de que isso não aconteceu, que deem as provas. Agora, que eu saiba, essa foi a experiência que eu tive. Isso foi o que aconteceu, com a minha mãe, com o meu pai, eu cresci desse modo, me revoltei desse modo, fui para os Estados Unidos e um dia uma mulher veio e mudou toda a minha vida. E foi assim, eu conto… estou contando. Eu poderia ter mudado minha história muitas vezes. O regime cubano me deu muitas possibilidades de entrar. Meu irmão foi para a União Soviética, se converteu em engenheiro, voltou pra Cuba, entrou no Partido Comunista. Todos os meus irmãos e irmãs estão dentro do sistema. Eu optei por uma vida de resistência, porque era o que eu sentia. E isso deu no que deu.
P. E quando o senhor olha para essa vida tão imensa, o que vê?
R. Eu não mudaria minha vida. Quando você está sentindo a pressão e a dor, você quer que essa pressão e essa dor cessem. Mas as oportunidades que eu tinha de fazê-las cessar não eram dignas. Então, eu me negava a tomar essas vias. Mas tive mil oportunidades de ser um dedo duro, de satisfazer a Inteligência Francesa, que estava me interrogando todo o tempo. Fui expulso de vários países, mas poderia ter me acomodado. Eu poderia ter mudado minha história muitíssimas vezes. Mas você não está fazendo uma história. Está vivendo uma vida.
P. E qual é a diferença?
R. A vida é todo dia e é uma vida de opções. Agora mesmo eu tenho opções diante de mim. Eu posso me calar aqui no Brasil. O mais prudente é que eu me cale aqui no Brasil. Porque podem me botar para fora do Brasil em 24 horas. Denuncio o racismo aqui há 15 anos e posso ser acusado de estar interferindo na vida dos brasileiros. É uma opção. Eu poderia optar por não fazer isso. Por simplesmente viver tranquilo no Brasil. Em nenhum momento a polícia veio na minha casa para me dizer o que fazer ou não fazer. Em nenhum momento o governo brasileiro interferiu na vida da minha família. Então, por que eu vou denunciar, me meter em uma situação na qual eu coloco a minha própria paz em risco? Mas minha opção é a de me manter fiel a essa vida que eu tenho até agora. Porque é a única coisa que me dá paz. Se eu faço qualquer outra coisa, eu não estou em paz.
P. O senhor se sente exilado, hoje?
R. Eu me sentirei exilado sempre. O exílio já cessou de ser para mim algo burocrático. Algumas pessoas cubanas dizem: “Ele não é exilado porque ele pode voltar para Cuba”. Eu volto para Cuba condicionalmente. Eles me dizem que eu não posso viver lá, residir lá. Mas essa é uma questão burocrática. E amanhã eles podem mudá-la também. Mas não vai mudar a maneira como eu me sinto. Eu faço parte de uma tribo de humanos que não se sente bem com nenhum desses sistemas. Que não se dá bem com esse tipo de mundo no qual estamos vivendo. Não me dou bem com esse Brasil que estou vendo aí. E amanhã saio do Brasil e vou para Trinidad e Tobago, vou para o Senegal, vou para a África do Sul, e não me dou bem com a situação desses países. Não me dou bem em Uganda, não me dou bem em nenhum desses lugares. Então eu sinto que o meu lugar é um lugar de viver com o meu tempo. E o meu tempo é o de afirmar certas coisas que deveriam ser evidentes, mas que não são evidentes. Afirmar que há possibilidades de que seja de outra maneira. Meu tempo é um tempo de dizer “não”. De resistir.
P. O senhor afirmou que o mais importante é viver de acordo com o seu tempo. O que isso significa, hoje?
R. Minha esperança se funda no possível. Eu acho que é possível o homem e a mulher chegarem a uma compreensão de que a opressão que o homem tem criado é totalmente negativa. Eu não acho que o masculinismo, o machismo e o sexismo sejam algo que não possa ser extirpado da nossa experiência humana. Eu acho que é possível que negros e brancos possam se ver de outra maneira. Eu acho que é possível parar as guerras, essas guerras sem sentido. Não estou dizendo que eu tenho uma solução, isso é diferente. Mas eu acho que é possível se sobrepor a todos os conflitos, que são conflitos religiosos, em torno das coisas que nós criamos, porque os deuses foram criados por nós, totalmente criados por nós. Não é o tempo de me filiar a uma facção ou outra facção. O meu tempo é o tempo das possibilidades.
P. O senhor disse que, na sua infância, não sabia quem era. Hoje, o senhor sabe?
R. Perfeitamente.
P. E quem é o senhor?
R. Eu sou um negro, que nasceu em Cuba, mas que superou sua “cubanidade”. Cuba não é uma referência para mim. É a referência de onde eu nasci, de onde está enterrada toda a minha infância, toda aquela coisa que me formou, mas Cuba não é o lugar que forma meu ser, minha identidade. Minha identidade atravessa fronteiras, atravessa muitas culturas, é algo muito mais elástico. Eu me sinto muito bem onde quer que eu esteja. Eu me reinvento onde eu estou morando, fundo uma família de amigos. Então, eu não vivo com essa angústia que vivem os cubanos que estão fora, de voltar para Cuba. Estou no Brasil, vivo o momento do Brasil, vivo os problemas do Brasil. E, quando eu for embora do Brasil, farei exatamente a mesma coisa. Me envolvi na luta política lá na Nigéria, no Senegal também. Em qualquer lugar que eu vou, eu me envolvo nas lutas daquele momento. Eu não quero estar envolvido numa nostalgia permanente. Os cubanos vivem com uma nostalgia de Cuba, querendo só escutar música cubana, comer comida cubana… A referência da minha vida é muito maior que Cuba, muito maior que o Brasil, muito maior que qualquer país. Não há um só país que possa concentrar a referência do que é a minha vida, do que é a minha identidade.
P. E o que referencia a sua identidade?
R. Aquilo que me faz sentir bem, como eu disse anteriormente, é estar de acordo com o meu tempo. Então, tudo aquilo que perturba aquele tempo, imediatamente suscita reações profundas em mim. É por isso que não preciso de definições. As pessoas dizem: “Mas você é de esquerda? Você é de direita?”. Constantemente estão querendo que eu me defina em termos de direita e de esquerda. Essas distinções eu conhecia antes, eu me definia assim. Mas onde é que está a linha de marcação entre esquerda e direita? Nós vemos às vezes os direitistas se comportarem como os esquerdistas, na questão racial. E os esquerdistas se comportarem como os direitistas, quando se trata da questão racial. Eu encontro esquerdistas que são homofóbicos. Encontro direitistas que são homofóbicos. Esquerdistas e direitistas encontram-se em tantos pontos. O que estou dizendo é que a coisa mais importante para mim é a linha de divisão ética, certas coisas na minha vida que eu considero invioláveis.
P. Que são?
R. Essa coisa da diferença. Eu bato nessa tecla constantemente. Porque, para mim, é o mais importante. A partir do momento em que a diferença não é respeitada, eu tenho que entrar em guerra. Por isso eu entro em guerra com a mestiçagem. Porque ela está dizendo que eu não tenho o direito de ter o fenótipo que eu tenho, de ter os cabelos crespos que eu tenho e de ser respeitado como sou. Que eu tenho que ter os cabelos diferentes, alisados, que não tenho que ter a pele negra, que meus filhos têm que ser cada vez mais brancos para serem respeitados dentro da sociedade. Eu digo não. Eu digo absolutamente não. Eu não me rendo a isso. Meus filhos têm que ser respeitados conforme eles nascem, com a pele negra, com os cabelos crespos, com os lábios grossos, com os narizes que eles têm. Eles têm que ser respeitados desse jeito. Então, essa é a linha de demarcação mais fina na minha vida. É ela que define praticamente todas as escolhas que eu faço.
P. O respeito à diferença?
R. Absolutamente. O fato de ter sido proscrito de Cuba por 34 anos me fez compreender que a nacionalidade é um jogo, é uma brincadeira. Que as fronteiras são coisas totalmente artificiais, que foram erigidas e convertidas em realidades sacrossantas. E que essas fronteiras não eram nada, porque cada fronteira em que eu ia me paravam, eu era suspeito. Eu ingressei numa tribo de suspeitos. Me dei conta de que toda essa força emocional de ser brasileiro, ser americano, ser cubano era um mito que os seres humanos tinham erigido como maneira de se mobilizar contra outros seres humanos. Eu viajava com um documento das Nações Unidas, passava muito tempo em cada fronteira, esperando que pudessem reconhecer que era autêntico. Isso me dava muito tempo para refletir sobre a condição humana. Ao longo dos anos, aquelas categorias de definição de separação foram caindo, uma por uma. Religião, nacionalidade, casta, classe social… À medida em que foram caindo, eu tive que buscar qual era o substituto real. Não o substituto ideológico, mas onde se encontrava a verdade do ser humano, seja qual for. Onde um ser humano é real? Cheguei a esse ponto no qual estou, no qual eu me identifico e me sinto bem. Acho que eu me encontrei. Eu gosto de quem eu sou. E acho que me encontrei na vida, me encontrei no universo, no sentido mais amplo. Me encontrei naquele espaço no qual eu me dou bem, que é esse espaço em que eu posso olhar para todas as diferenças, todas, e não me sentir ameaçado por elas. Eu não me sinto ameaçado por nenhuma diferença.
P. E onde um ser humano é real?
R. Pertencemos a uma espécie e não há consciência dessa espécie. Temos a consciência de definições ideológicas, mas a consciência da espécie não existe. Ser humano implica uma certa solidariedade e, para mim, a solidariedade é um dever. De mirar o outro que está sendo esmagado, que está sendo excluído, que está sendo discriminado, e se colocar ao lado dele. Em nome dessa espécie. Somos todos partes dessa espécie, que está ameaçada, inclusive, por causa de tudo o que faz. Quando ouço o Obama falar que o problema principal que nós temos não é o terrorismo, mas a mudança climática, aí ele toca algo em mim que eu alcancei a duras penas, depois de 34 anos de rejeições em todos os sentidos. Temos que ser solidários entre nós, temos que chegar a um acordo. Para defender a existência aqui, sobre a Terra. Se vamos continuar existindo é finalmente a coisa mais importante. A coisa mais importante de todas é essa: sentir solidariedade por gente que você nunca vai conhecer, por pessoas que ainda vão vir e você não vai encontrar. E eles têm que encontrar uma Terra habitável.
(Publicado no El País em 31 de agosto de 2015)
Um negro em eterno exílio
A longa travessia de Carlos Moore, o ativista e intelectual que denunciou o racismo em Cuba e passou a vida perseguido pelos dois lados da Guerra Fria, até chegar ao Brasil e encontrar um país mergulhado numa crescente tensão racial
Aos 22 anos, Carlos Moore já tinha vivido mais do que a maioria das pessoas numa existência inteira. Já tinha conhecido a fome e a violência na pequena cidade cubana onde nasceu, já tinha desejado não ser preto e se esforçado por alisar o cabelo, clarear a pele com produtos arriscados e desachatar o nariz com prendedores, já tinha emigrado para os Estados Unidos e descoberto a luta pelos direitos civis, já tinha se apaixonado por Patrice Lumumba, o célebre líder congolês, e planejado um atentado ao consulado belga em Nova York para vingar-se de seu assassinato, já tinha se encantado com a revolução depois de um encontro com Fidel Castro, já tinha se tornado comunista e voltado a Cuba para colaborar com o processo revolucionário, já tinha descoberto que o regime cubano era tão racista quanto aquele que tinha derrubado, já tinha sido encarcerado uma vez por denunciar que o racismo persistia na revolução, já tinha sido condenado a quatro meses num campo de trabalhos forçados uma segunda vez pelo mesmo motivo, depois de abordar o próprio Fidel Castro em público, já tinha feito uma confissão, para não ser morto, de que havia se equivocado e de que não havia racismo em Cuba, já tinha se refugiado na embaixada da Guiné quando percebeu que seria executado de qualquer modo, já tinha fugido para o Egito e depois para a França, sem nenhum documento, já tinha sido rejeitado por um Jean-Paul Sartre convencido de que ele era “agente do imperialismo”, já tinha sido acolhido por um dos ideólogos da negritude, o grande poeta surrealista martinicano Aimé Césaire, já tinha virado segurança do ativista negro Malcolm X, quando este esteve em Paris, e já tinha sofrido de todas as formas pelo seu assassinato. Isso tudo aconteceu até os seus 22 anos. Depois, aconteceu muito mais.
Leia mais na minha coluna no El País:
“Todos os negros nascem num grande exílio forçado”
“O racismo já determinou que brancas são para casar, mulatas para fornicar e pretas para trabalhar”
“Para os que se dizem de direita ou de esquerda, não importa a verdade. Se você tem um adversário, você o elimina da forma mais eficaz: com calúnias”
“No Brasil, o racismo é o leite que amamenta o negro todos os dias”
“A penetração dos negros nas universidades, pelas cotas raciais, foi vivida pela sociedade branca como um estupro”
“Ao quebrar o mito da democracia racial, o movimento negro quebrou a ideologia sobre a qual se sustenta esse país”
“A descoberta de que os negros são maioria no Brasil gerou um pânico existencial na parcela branca da sociedade”
“Nos próximos 15 anos, a maioria negra vai ter que estar refletida em todas as instâncias de poder”
“Os brancos vão ter que negociar o poder no Brasil, como aconteceu na África do Sul. Não há mais como ‘branquear’ o país”
“Para uma parcela dos brancos, descobrir-se opressor é um grande problema. Esses brancos éticos serão uma reserva moral importante”
“Inventamos uma África mítica para resistir por 400 anos num sistema que dizia que não éramos humanos”
“Eu não estava fazendo uma história. Estava vivendo uma vida”
“Não me defino por nacionalidades. O meu lugar é o de viver de acordo com o meu
tempo”
“Me encontrei: posso olhar todas as diferenças e não me sentir ameaçado por nenhuma delas”
LIVRO
“Pichón – minha vida e a revolução cubana” (Editora Nandyala)
Lançada em inglês, em 2008, a autobiografia de Moore foi editada no Brasil graças a um financiamento coletivo. O vídeo abaixo foi feito para divulgar a campanha de financiamento.
Leia aqui a entrevista completa com Moore.
Morrendo na primeira pessoa
Depois de se tornar interdita e silenciada no século 20, a morte ganha cada vez mais espaço em narrativas confessionais de notáveis e de anônimos
Em 24 de julho, Oliver Sacks, escritor, neurologista e um dos pensadores mais interessantes do nosso tempo, escreveu um novo artigo sobre o seu morrer, na página de Opinião do The New York Times. Em fevereiro, ele tinha anunciado que estava com câncer no fígado, sem possibilidade de cura, em um texto belíssimo sobre a vida, que foi traduzido e publicado no mundo inteiro. Agora, aos 82 anos, Sacks começa a se sentir nauseado e enfraquecido pela doença, mas não menos encantado e curioso com a existência. Ele segue esperando com alegria a chegada das revistas científicas, ansioso pelas descobertas sobre um universo que o fascina. Semanas atrás, ele estava no campo, longe das luzes da cidade, quando se deparou com a inteireza monumental do céu “polvilhado de estrelas”. Sacks concluiu: “Esse esplendor celeste de imediato me fez perceber o quão pouco era o tempo e a vida que me restava. Minha percepção da beleza do céu, da eternidade, era inseparável da minha percepção da transitoriedade – e da morte”. Contou então seu sentimentos aos amigos que o acompanhavam, Kate e Allen, dizendo: “Eu gostaria de ver esse céu novamente quando estiver morrendo”. E os amigos garantiram que fariam com que pudesse ver as estrelas uma vez mais.
Ao nos contar sobre o seu morrer, um morrer vivo, no qual a experiência de chegar ao fim é mais uma novidade para um homem curioso com o mundo e com a existência, Oliver Sacks tornou-se um dos sinalizadores de que algo fundamental está mudando na nossa época. E de forma bastante rápida, já que nosso tempo histórico é acelerado. Embora o silêncio sobre a morte, a doença e o luto ainda persista na vida cotidiana – e talvez seja ainda o que se impõe para a maioria das pessoas –, já não vivemos a morte “envergonhada” ou “clandestina” que se estabeleceu no século 20. O doente terminal que finge que não está morrendo, para não alarmar nem a família nem a equipe médica, pode estar começando a se tornar um espécime em extinção. A morte começa a ficar desavergonhada – e especialmente confessional, bem ao tom desse momento em que se narra tudo nas redes sociais.
A história humana pode ser contada pelo modo como cada sociedade, em diferentes períodos históricos, olhou para a morte e lidou com ela. O trabalho mais completo sobre esse tema possivelmente ainda seja o do historiador francês Philippe Ariès (1914-1984), primeiro em um livro chamado História da morte no Ocidente e, depois, numa obra maior, intitulada O homem diante da morte. Nesta análise, o historiador mostra como, no século 20, a morte passou a ser escondida e calada. Não mais um evento público, mas uma espécie de não acontecimento. Na sociedade tecnicista era necessário que a morte fosse ocultada entre as paredes de um hospital, o mais asséptica possível, e imediatamente esquecida. Essa mentalidade ajuda a explicar por que, até hoje, alguém que perde aqueles que ama tem legalmente um tempo curtíssimo para se ausentar do trabalho e começar a elaborar o seu luto. Quando se espera que a ciência prolongue a vida a qualquer preço e a juventude torna-se um valor em si, a morte passa a ser um fracasso que deve ser escamoteado.
No século 20, o fim da vida tornou-se algo a ser ignorado e, assim, não precisava nem ser superado, já que o melhor seria fingir que nem mesmo tinha acontecido. “A morte no hospital, eriçado de tubos, está prestes a se tornar hoje uma imagem popular mais terrífica que o trespassado ou o esqueleto das retóricas macabras”, escreveu Philippe Ariès. A morte tornara-se quase contagiosa, e aquele que morria o portador de uma doença/má notícia cuja contaminação deveria ser evitada a todo custo pelos vivos.
Outro pensador, o antropólogo britânico Geoffrey Gorer (1905-1985), escreveu um ensaio sobre o que chamou de Pornografia da Morte. “Hoje a morte e o luto são tratados com o mesmo pudor que os impulsos sexuais há um século”, afirmou. A interdição do sexo, na era vitoriana, tinha sido substituída pela interdição da morte, no século 20. A morte teria se tornado obscena e feia e, portanto, deveria ser escondida. E o luto, circunscrito ao âmbito privado, havia se tornado tão secreto e individual como a masturbação.
Como acontece tantas vezes, a arte antecipou a interpretação da sua época. Essa mudança no olhar sobre a morte consolidada no século 20 já podia ser detectada, no final do século 19, na pequena obra-prima de Tolstói: A morte de Ivan Ilitch. Em um seu livro Educação para a morte – Temas e reflexões, a psicóloga brasileira Maria Júlia Kovács assim analisa a novela do escritor russo: “Ninguém quer falar sobre o que está acontecendo com o doente, nem ele próprio, que sofre, geme, mas nada diz. Os familiares também sofrem, não sabem o que fazer, mas fingem que está tudo bem”. Apesar de todos tentarem banalizar o acontecimento, transformando-o num não acontecimento, o doente, embora nada diga, sabe o que vive.
O século 21, este que testemunhamos nascer, começa a engendrar um outro olhar sobre a morte, cujos sinais já podiam ser percebidos nas últimas décadas do anterior. A história, como se sabe, é movimento e conflito. O próprio surgimento do conceito de “Hospice” e da prática dos “cuidados paliativos”, nos anos 60 do século passado, com a ideia de que cuidar é mais importante do que curar e de que é preciso escutar aquele que vive o seu morrer, começou a colocar em xeque o silenciamento da morte.
Hoje, não são apenas as séries de TV e os filmes no cinema que passaram a abordar a morte, a doença e o envelhecimento com frequência cada vez maior. Neste novo olhar sobre o fim da vida, a internet, com as redes sociais, tem desempenhado um papel central e crescente. Se a literatura nunca deixou de ter a morte como tema, o morrer vem tornando-se uma narrativa confessional, de não ficção, escrita na primeira pessoa do singular.
Oliver Sacks não foi o primeiro a escrever sobre o fim da vida neste século. Longe disso. Em 2005, a jornalista Joan Didion publicou um livro, O ano do pensamento mágico, em que contava sobre a morte do marido e o seu luto. Logo no início faz uma síntese sobre a condição humana: “A vida muda num instante. Você se senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente”. Essa mistura de narrativa confessional com investigação jornalística entrou para a lista dos mais vendidos em vários países, inclusive no Brasil. Mais tarde, em 2011, Didion lançaria Noites Azuis, sobre a morte da única filha, seu próprio envelhecimento e sua solidão. Este último livro é a história da mulher que restou, a narrativa de quem se descobriu sozinha para testemunhar o próprio fim. Portanto, um relato ainda mais duro e perturbador, que parece ter sido mais difícil para os seus leitores. Didion agora se vê às voltas com formulários de hospital, onde fazem a ela uma pergunta que não pode responder: quem chamar numa hora de emergência? Já não há.
Em 2008, o escritor e analista político David Rieff lançou um livro sobre como foi testemunhar o fim da vida da mãe, a pensadora americana Susan Sontag, morta pelo terceiro câncer de sua trajetória quatro anos antes, aos 71. David deu à obra um título pungente: Nadando em um mar de morte – memórias de um filho. Susan Sontag publicou livros fundamentais sobre o tema. Em Metáforas da doença, escrito quando ela já tinha lidado com um câncer no seio e o superado, Sontag analisa como a tuberculose foi a morte romântica, no século 19, e o câncer, doença-símbolo do século 20, a morte “suja”. Defende também que o câncer seja tratado como uma doença, loteria genética, e não como uma ideia que chegou a ser muito popular e ainda persiste em alguns meios, de que a pessoa teria “feito” o seu câncer ou o “atraído”, por repressões sexuais e questões psicológicas mal resolvidas.
Susan Sontag, nas palavras do filho, ao mesmo tempo sentia pavor da morte e obsessão pela morte. Morreu sem jamais se reconciliar com a ideia de morrer. Mesmo sendo informada pelos médicos que um transplante de medula teria escassas chances de êxito no seu caso, ela escolheu fazê-lo. Quando soube que a cirurgia fracassara, estava presa a 300 metros de tubos, por onde eram injetadas as substâncias que a mantinham viva, e perguntando o que mais os médicos podiam fazer por ela. Morreu coberta de hematomas e feridas, esperando “vencer” o câncer, sem se despedir de ninguém e sem permitir que se despedissem dela. Foi a sua escolha, só ela poderia fazê-la. “Era impossível até eu dizer que a amava, porque fazer isso teria significado dizer: ‘você está morrendo’”, escreveu David Rieff, num livro que enfrenta as perguntas espinhosas sobre o lugar de um filho diante do morrer da mãe, na singularidade de cada história, sempre particular e irrepetível.
Mortality, aqui no Brasil traduzido como Últimas palavras, é baseado nas colunas publicadas na revista americana Vanity Fair pelo escritor, jornalista e grande polemista Christopher Hitchens, um feroz defensor do ateísmo que se manteve fiel a suas ideias até o fim. Ele morreu de câncer em dezembro de 2011, aos 62 anos, e o livro foi lançado em 2012. Com o mesmo desassombro e a ironia que sempre caracterizaram seus artigos, Hitchens discorreu sobre a vida no que chamou causticamente de “Tumorlândia”.
No estilo que o fez angariar tanto admiradores quanto inimigos ao longo de uma extensa coleção de polêmicas, ele sugeriu a criação de um “Manual de Etiqueta do Câncer”, destinado “aos doentes e também aos simpatizantes”. Hitchens explica: “Meu manual teria de impor deveres a mim, bem como àqueles que falam demais, ou de menos, na tentativa de disfarçar o inevitável constrangimento nas relações diplomáticas entre Tumorlândia e seus vizinhos”. Ele gostaria de lembrar às pessoas, em geral, que não circulava por aí com um enorme broche de lapela no qual estava escrito: “PERGUNTE-ME SOBRE CÂNCER DE ESÔFAGO EM METÁSTASE NO QUARTO ESTÁGIO E APENAS SOBRE ISSO”. É um livro tão vivo este em que Christopher Hitchens escreve sobre o seu morrer que, ao terminá-lo, sentimos imensa saudade do seu autor.
Mas o marco deste início de século, na escrita sobre a morte e especialmente sobre o câncer, é possivelmente o livro de Randy Pausch. Nenhuma obra sobre o tema foi tão festejada e popular quanto A lição final. E não por acaso. Morto de câncer pancreático em 2008, o professor universitário Randy Pausch construiu uma narrativa bem ao gosto da cultura americana, marcada pela divisão entre losers(perdedores) e winners (vencedores). A sua era uma escrita de “superação” da adversidade, da “batalha” contra a doença, uma jornada do herói adaptada ao tão difundido discurso no senso comum e nos meios médicos do “guerreiro que lutou até o fim a guerra contra o câncer”. Randy morreu, mas como um “vencedor”, já que havia tornado seu câncer um “case” de sucesso. Não pôde “vencer” a doença, mas, naquilo que parecia essencial para ele e para a sociedade em que vivia, vencera. Naquele momento, era bastante revelador que, depois de tanto silêncio, a mais comentada era uma morte “bem-sucedida”, materializada num best-seller internacional que rendeu milhões de dólares e transformou seu autor numa celebridade.
Tudo indicava que esta poderia ser a linha narrativa preponderante do nosso tempo: a morte a serviço da superação e do sucesso, da indústria e do culto a celebridades. Falada, sim, mas apenas para mais uma vez encobrir a dor e os conflitos da condição humana. Não é o que tem acontecido, como provam a escrita de Christopher Hitchens, de Joan Didion e do próprio Oliver Sacks, entre vários outros. Não há uma forma “certa” nem “errada” de falar sobre a doença e a morte, seja a própria ou a de quem amamos. Do mesmo modo que não há nenhuma narrativa acima de um debate honesto sobre o que diz de sua época e sobre como a influencia, mesmo sendo seu autor alguém que está morrendo.
A morte é lambuzada de vida e de humanidades. Há tantas formas de pensar sobre ela quanto vivedores e morredores. A beleza, mesmo quando brutal, é quando essas narrativas são capazes de enfrentar a complexidade deste momento, com todos os sentimentos ambíguos e as contradições que o povoam. Seria uma pena, afinal, reduzir um momento tão abissal quanto inescapável a um manual pobre do “morrer bem”. Como na frase que adoro: “A morte não é o contrário da vida, a morte é o contrário do nascimento. A vida não tem contrários”.
Minha expectativa de que estamos num novo momento no que se refere ao olhar sobre a morte aumentou ao acompanhar a história de Tig Notaro, 44 anos. Comediante de stand-up, a americana Tig pensava em ter um filho, em 2012, quando primeiro foi atingida por uma infecção que quase a matou. Logo depois da alta do hospital, perdeu a mãe, que nas suas palavras era a pessoa que mais a enxergava, compreendia e incentivava. Tig descobriu-se sem chão. Mas não era tudo. Em seguida, ela soube que tinha câncer no seio.
Tig estava às vésperas de um show. E agora, deveria fazê-lo? A humorista pensou que, afinal, depois de tudo o que acabara de viver, era muito ridículo ter ainda por cima um câncer. Subiu ao palco e fez um espetáculo considerado histórico.
– Hello, good evening, hello! Eu tenho câncer. Como vão vocês? Todo mundo se divertindo? Fui diagnosticada com um câncer…
Ainda que possa parecer apenas bizarro, quando aqui reproduzido, assistindo ao show percebemos que Tig conseguiu fazer algo sofisticado e profundo com o câncer e o medo de morrer: conseguiu fazer humor. Ela não negava a dor da sua condição, mas a usava para produzir arte, reflexão e… riso. Sem que tivesse planejado essa performance, sua carreira deu um salto. Logo Tig estava na capa de revistas, em talk shows na TV.
Neste ponto, eu temi que ela poderia se tornar uma espécie de “celebridade do câncer” e nunca mais pudesse falar de outra coisa. Mas, se o que fez com a doença a colocou num outro lugar, e este é um fato, o caminho de Tig parece ser o de colocar o câncer, o luto pela mãe, os fracassos reprodutivos e também o sucesso no contexto de uma vida com um pouco de tudo, às vezes bastante de alguma coisa, mas não monotemática.
Essa escolha, pelo menos, é o que aparece num documentário sobre o seu percurso, lançado em julho deste ano pelo Netflix, chamado apenas “Tig”. A dela é uma história em aberto, como qualquer outra, e a vimos frágil e confusa diante do futuro.
Acompanhamos a artista em seu dilema sobre fazer ou não um tratamento reprodutivo, na tentativa de ter um filho, e arriscar-se a aumentar as chances de o câncer voltar por conta dos hormônios; compartilhamos sua ansiedade para que o embrião vingue numa barriga de aluguel, assim como o seu amor por uma outra mulher, que num primeiro momento a rejeita, porque até então só tinha tido relacionamentos heterossexuais. E testemunhamos também sua insegurança sobre com que material trabalhar em seus shows, depois de ter alcançado um nível tão paradigmático ao levar o câncer para o palco.
Mas talvez o momento-síntese da narrativa de Tig sobre o câncer e a possibilidade de morrer seja uma cena que não está no documentário, apesar de mencionada. Em novembro de 2014, Tig tirou a camisa no palco, mostrando a ausência do que a doença lhe arrancou, numa mastectomia dupla sem cirurgia de reconstrução, e as suas cicatrizes. Até aí, poderia ser apenas uma espécie de “performance de choque”, um truque para ganhar a plateia. Depois do impacto inicial, porém, o público acolheu e superou essa nudez assinalada pela doença e pela condição humana, graças ao talento de Tig.
Como disse o crítico Jason Zinoman: “Tig Notaro mostra que o humor não apenas consegue transformar tragédia em comédia, como também é capaz de desviar a atenção das pessoas da imagem mais vendida e objetificada da cultura popular: o corpo feminino nu”. Ali estava alguém dolorosa e alegremente viva que não negava suas marcas. Essa transcendência coletiva foi um grande momento de vida, com toda a incerteza e a fragilidade que é viver como um ser que se sabe para a morte.
Minha aposta é de que o mais fascinante deste novo olhar sobre a finitude humana possivelmente ainda virá. E virá não por aqueles que já têm um lugar de escuta, mas pelos anônimos que começam a produzir narrativas na internet sobre o envelhecimento, a doença e a morte. Assim como as redes sociais vêm produzindo tanto sobre tudo – e não só discursos de ódio –, também autorizaram um dizer que revela como cada um se coloca diante da mortalidade. Se a internet permitiu que aqueles que comungam de desejos sexuais considerados fora dos padrões se encontrassem e pudessem viver sua expressão de forma consensual, entre adultos, também começa a se estabelecer como um lugar de confissão e de troca sobre luto, perdas e morte. Um espaço para narrativas múltiplas, para viveres múltiplos do morrer. Quando uso a palavra “fascinante”, não estabeleço se é bom ou mau, apenas que estamos diante de algo instigante e talvez surpreendente, exatamente porque contraditório.
Meses atrás, a carta de uma leitora de 78 anos no Painel do Leitor da Folha de S. Paulo me impactou. Ao discordar da abordagem de um artigo sobre o desejo e o envelhecimento, ela assim se colocou: “Quem leu Simone de Beauvoir vai me entender. São inócuas as ‘cenouras’, surpresas ou prazeres externos quando você tem a noção de que, por dentro, está apodrecendo aos poucos. Chegar a esta constatação é de uma crueldade ímpar. Não há sorriso de neto que consiga esvanecê-la. Acima de tudo, não quero mais lidar com essas mazelas e, para isso, estou em plena e ocupada fase de desapego. Para mim, chega. E o meu direito de não mais querer viver? Onde fica?”.
O que importa aqui não é concordar ou discordar, até porque cada um sabe de sua dor e de suas escolhas. O fato é que já é possível dizer e já existe espaço para ser escutado, mesmo que o que você tenha para dizer esteja fora do senso comum e da publicidade sobre a “terceira idade”, fora do manual e dos discursos edificantes ou das “lições de vida” bem comportadas.
Em um artigo interessante sobre esse fenômeno das narrativas de morte em tempo real, o jornalista Lee Siegel lembra do depoimento de uma mulher na coluna Private Lives (Vidas Privadas), do The New York Times, marcado por uma crueza sem qualquer pudor: “Por falar de perdas, não perdi somente meu marido e minha vida, perdi também os meus cabelos. Recentemente um policial me mandou encostar o carro por ficar parada. O tráfego estava sendo redirecionado, mas eu havia congelado e retinha uma longa fila. Levantei as mãos, esperando ser algemada, dizendo que não há nada que você possa fazer comigo que seja pior do que já foi feito. Ele disse: ‘Que história é essa, madame?’. Eu disse: ‘Não tenho marido, não tenho amigos, não tenho cabelo’”.
O mesmo Times tem um outro espaço, The End, com depoimentos sobre o morrer, o luto e sobre o cuidar de quem tem uma doença. No Brasil, a Folha de S. Paulo criou, em outubro de 2014, um blog chamado Morte Sem Tabu, produzido pela dramaturga Camila Appel. Por todo o país, usando as redes sociais, surgiram e surgem grupos para compartilhar experiências de perda, como o Mães Sem Nome, que reúne pessoas de diferentes classes sociais e histórias de vida: “Quando um (a) filho (a) perde seus pais fica órfão (ã). Quando perdemos o marido/esposa ficamos viúvos (as). Quando a mãe perde seu filhos, não tem nome”. Em junho deste ano, sete amigas que perderam pessoas que amavam lançaram uma plataforma na internet para a escuta deste momento tão profundo e em geral solitário: “Vamos falar sobre o luto?”. Os muros de silenciamento rompem-se por todos os lados.
Em 2008, acompanhei como repórter os últimos 115 dias de vida de uma mulher com um câncer incurável. Também testemunhei por meses a rotina de uma enfermaria de cuidados paliativos de São Paulo, liderada por uma médica especialíssima, Maria Goretti Maciel, na qual se acreditava mais na largura da vida do que no seu comprimento: mais importante do que prolongar a vida a qualquer preço, em geral um preço alto, era garantir a qualidade da vida que restava. Assim como mostrava-se fundamental respeitar e acolher o modo como cada um escolhe viver esse momento, sem dogmas nem julgamentos. Não era um lugar em que a humanidade era dividida entre “perdedores” e “vencedores”, nem o tratamento da doença, em geral câncer, era encarado como uma “guerra”. O fundamental era garantir as condições para que cada um pudesse escolher como viver o tempo que tinha, sem tratamentos inúteis, dolorosos e invasivos, cercados por quem amava ou mesmo solitário, caso este fosse o seu desejo. Do como viver a sua morte, só sabe aquele que a vive.
Naquela ocasião, ao decidir contar a morte em geral silenciada, aquela causada pela doença e pela velhice, calada exatamente por ser a da maioria – e não a morte violenta, provocada por crimes, acidentes e catástrofes, mais comum à narrativa jornalística –, fui seguidas vezes acusada de “mórbida”. Eu retrucava, dizendo que era o contrário. Mórbido era aquilo que nos paralisava, o medo que não podia ser nomeado ou pronunciado.
Ao calarmos sobre o envelhecimento, a doença e a morte, perdíamos uma oportunidade insubstituível para pensar sobre a vida – e em especial sobre o tempo. Eu tinha sido transformada para sempre por uma frase de Ailce de Oliveira Souza, a mulher que me permitiu contar o seu morrer, num enorme ato de confiança. Logo no nosso primeiro encontro, ela, que acabara de se aposentar e tinha começado a viver aventuras até então adiadas, disse: “Quando eu tive tempo, descobri que meu tempo tinha acabado”. Sou imensamente grata por esta frase, que multiplicou a largura da minha vida.
Hoje, passados menos de dez anos, acredito que não seria mais acusada de “mórbida”. Não tanto, pelo menos. Homens e mulheres anônimos começaram a dizer de si de forma desassombrada. Não sei o que escutaremos nem o quanto esses tantos dizeres vão influenciar nossa forma de encarar a finitude de nossa condição. Mas essa possibilidade de falar e de ser escutado também sobre o envelhecimento, a doença, a perda e a morte me encanta. Espero apenas que continue existindo espaço não para o silenciamento, esse ato que nos reprime e aniquila, mas para o silêncio daqueles que preferem se recolher dentro de si e da casa e nada dizer. Que falar e “confessar” não vire um novo imperativo ou dogma. Que exista espaço para todas as formas de ser, viver e morrer.
Mas a interrogação que mais me move neste momento é: o que diremos agora que podemos dizer?
Escutar o outro é arriscar-se ao outro. É viver.
(Publicado no El País em 03/08/2016)




