Com a vênia, Seu Manoelzinho

O dia em que matei o Mensalão e fui ao cinema

Ao contrário de Lula, eu concluí que não tinha nada melhor para fazer do que assistir ao julgamento do Mensalão. Parei tudo e me postei diante do aparelho, ligado na TV Justiça. Na sexta-feira, segundo dia de julgamento, depois de mais de duas horas de explanação do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Ayres Britto, interrompeu-o para sugerir que se fizesse um intervalo. Gurgel retrucou que ainda não havia chegado à metade e precisaria de pelo menos mais uns 15 minutos. O procurador se preparava para continuar, quando se ouviu no plenário a voz inconfundível do ministro Marco Aurélio Mello. “Talvez não tenhamos fôlego fisiológico…” O argumento mostrou-se de pronto incontestável. O presidente anunciou o intervalo, “com a devida vênia”.

Do meu sofá azul, eu quase aplaudi. Jamais tinha visto alguém avisar que precisava urinar com tanta finesse. Aqui em casa agora não se usa outra coisa. Só mesmo um ministro do Supremo seria capaz de botar toga no xixi. Ouso especular que nem Elizabeth II, das altitudes do seu jubileu, seria capaz de ser tão majestosa. E lá se foi Marco Aurélio para o reservado – ou pelo menos espero que tenha ido, já que eu não estava lá para comprovar o lícito.

O fato é que, desde aquele momento, não fui mais capaz de concentrar-me no julgamento. De repente, me senti asfixiada por tantas vênias. Fui tomada por uma vontade irrevogável de ir às ruas. Eu precisava da vida como ela é para a maior parte das pessoas. E aqui não há nenhum desmerecimento ao Supremo, porque acho que a vida também é como é por lá, à sua própria maneira – e tão, às vezes até mais, como no caso em questão, fervilhante de paixões quanto. Mas eu precisava com uma urgência quase química me misturar à gente que fazia xixi.

Ainda sem entender bem essa necessidade meio tresloucada, mas obedecendo aos instintos, um par de horas mais tarde eu estava enfiada em uma sala escura. Havia passado horas assistindo ao espetáculo que ocupa o palco central do país – e intuí que precisava correr para as margens para resgatar eu não sabia bem o quê. Por razões que nem é preciso de Freud para explicar, acabei escolhendo, entre as tantas possibilidades da programação, um evento gratuito chamado “Cinema de Bordas”, promovido pelo Itaú Cultural. De bordas porque reúne aqueles cineastas que estão fora do centro. Aqueles que, sem recursos financeiros e técnicos, bem longe dos circuitos comerciais, fazem cinema improvisando o que falta – porque não concebem uma vida em que falte o cinema.

Sentei-me ao acaso. Mas não era um dia de acasos. De repente passou por mim um homem de metro e meio de altura, no máximo, bem magrinho, vestindo uma camiseta listrada de branco e verde que parecia nova, calça jeans e uma sandália preta. Pelo jeito que andava e mais ainda pelo que olhava, tentando não olhar, mas espiando se estava sendo olhado, dava para ver que o sujeito era tímido. Foi sentar-se à minha esquerda, um corredor entre nós. Percebi que já tinha visto aquele rosto em algum lugar. Alguém chamou: “Seu Manoelzinho”!

Tive um sobressalto. Era ele, o cineasta que eu já vira uma vez na TV, mas nunca antes em carne e lenda. Um homem que havia feito quase meia centena de filmes na pequena cidade de Mantenópolis, perto da divisa do Espírito Santo com Minas Gerais, sem cruzeiro, cruzado, cruzado novo, real, já que ele fazia cinema há tempo suficiente para ter vivido a carência de todas as moedas da República pós-ditadura. Seu Manoelzinho tinha feito toda uma obra cinematográfica apenas com uma câmera velha e um gravador ainda mais alquebrado, tendo por atores homens, mulheres e crianças da roça, ou vizinhos da periferia da cidade.

A partir daquele instante, a vida para mim estava tanto na tela quanto fora dela. Logo na exibição do primeiro da sequência de quatro filmes, ouvi uma risada como há muito tempo eu não ouvia. Era uma risada que eu dava quando criança – e que fui perdendo com as contenções do protocolo adulto. As tais das vênias. Era uma risada desassombrada, que dava vontade de rir com ela. Era a risada do Seu Manoelzinho, que se divertia com os zumbis que claudicavam na tela. Conheci o encantamento de Seu Manoelzinho pelo cinema antes de conhecer o cinema do Seu Manoelzinho. E soltei eu uma risada de criança, porque é também um encantamento com o mundo que o cinema resgata no coração da gente. A vida humana é um absurdo a maior parte do tempo, e os zumbis estavam ali para nos lembrar disso.

O filme do Seu Manoelzinho era o último dos quatro. Chamava-se “A Maudição da Casa de Vanirim” – e “maldição” estava escrito para além da norma culta, com “u” em vez de “l”. Mas, ali, o que seria um erro deixava de ser para se transformar em uma informação a mais. Seu Manoelzinho vinha de “Uóshinton” para alugar uma casa em “Maiamis” – e aqui, de novo, não era a língua de Muçum, o comediante dos Trapalhões, mas a língua mesmo, fiel à verdade dali. E Maiamis era a zona rural de Mantenópolis, com estradas de terra, morros e uma vegetação de roça, onde ele alugara uma casinha caiada de branco onde o maior luxo era um telefone visivelmente deslocado.

Acompanhado por uma família numerosa, Seu Manoelzinho logo via-se às voltas com uma assombração mascarada, que depois de matar uns quantos filhos e turistas durante uma noite que era sempre dia, porque para gravar à noite é preciso mais recursos, era despachada para o além a tiros. Por Seu Manoelzinho, que, como eu descobriria mais tarde, é sempre o herói e ator principal de todos os seus filmes.

Fui tomada pelo filme, mas também por um dilema. Era uma história de assombração, e eu imaginava que Seu Manoelzinho, logo ali ao meu lado, tinha planejado medo e susto, mas o filme era uma das obras mais engraçadas que eu vira em toda a minha vida. Se eu risse, como toda a plateia fazia, estaria ofendendo Seu Manoelzinho? Percebi então que Seu Manoelzinho era um dos que mais ria. E que eu não estaria rindo dele, mas com ele, o que fazia toda a diferença. No dia seguinte ele me contaria que sabia se o filme era bom pelo riso da plateia. Porque, como cineasta, para Seu Manoelzinho o importante era divertir as pessoas. E aí não importava se era arrepio ou gargalhada, mas sim provocar algo que não havia antes. Alterar a vida pelo momento de um filme, o enorme poder da arte que Seu Manoelzinho havia intuído com uma liberdade que eu só alcançava agora, a partir do olhar dele.

Seu Manoelzinho dava no cinema o que o cinema sempre dera a ele – e por isso também parecia se divertir tanto quanto diretor-roteirista-produtor-e-ator principal quanto como plateia. Ele tinha 2 anos quando a família foi abandonada pelo pai, e a mãe, dona Fernandina, teve de se virar para criar três meninos, com uma vida de roçar a roça dos outros. Manoelzinho até foi para escola, como ele me contaria no dia seguinte, em uma conversa prolongada, na qual se sentou de lado, e não de frente para mim, envergonhado de falar com uma desconhecida. “A gente só ia pra escola pra comer, com tanta fome que ficava louco pra ouvir a sineta da merenda”, explicou. Por causa do tamanho da fome, não conseguia se concentrar no “quadro-verde” e, assim, não pôde aprender a ler nem escrever. Passava os dias oferecendo o pão que compravam numa padaria para revender ao povo da roça, precisado de sustância para aguentar o peso da enxada.

Até que, aos 8 anos, descobriu o cinema no salão paroquial da cidade, ao assistir a um filme marcado na sua memória como “O roubo do trem-correio”. O apaixonamento ganhou eternidades com “Django”, “Sabata”, “Keoma” – e com todos os Mazzaropis. Para ganhar a entrada do cinema, já que só comia pão porque também vendia, passou a fazer a propaganda dos filmes desfilando com cartaz pela cidade. E, mais tarde, quando abriu um outro cinema, com o luxo de um alto-falante, Manoelzinho também anunciava os filmes pelas ruas: “Atenção, senhor e senhora, hoje não perca o sensacional filme que tem por título Portada do Inferno…”

Eram filmes de faroeste, ou pelo menos foram estes que capturaram o menino Manoelzinho. E até hoje ele se espanta: “Era como nos antigamentes lá em Mantenópolis, em que havia muito homem valentão na cidade, que andava armado e botava bronca no lugar. Esses homens nunca tinham visto um filme de faroeste, mas mesmo assim já viviam no estilo do faroeste.” Como era possível?

Para Seu Manoelzinho, era portanto a vida que imitava a arte, o faroeste da realidade copiando o bangue-bangue do cinema. Fiquei especulando se era por essa percepção às avessas que ele quis tanto não só assistir à cinema, mas fazer cinema, algo que deveria soar bastante estapafúrdio na roça de Mantenópolis, ainda mais vindo da boca de um analfabeto. Se a vida imitava o cinema, então bastava fazer cinema para mudar a vida, ele pode ter intuído. De fato, o que aconteceu é que, no final dos anos 80, um conhecido do então jovem Manoelzinho voltou dos Estados Unidos com uma velha câmera VHS. E ouviu possivelmente a proposta mais inusitada da sua vida: “Rapaz, tô doido pra fazer um faroeste. Você filma pra mim”?

E assim surgiu “A Vingança de Loreno”. E descobrimos aqui que Manoel Loreno é o nome do Seu Manoelzinho. Para fazer o filme, veio homem a cavalo de tudo quanto é canto da região, até de 90 quilômetros de lonjura veio um a galope. Ele chama e não importa quantos aparecem, dá um jeito “de arrumar cena pra todo mundo”. E assim Seu Manoelzinho sentou-se pela primeira vez embaixo de uma árvore para fazer o que faria em todos os seus filmes dali em diante: desenhar cena por cena. Em dois dias o filme estava pronto. O povo da roça tinha virado ator de faroeste, e Seu Manoelzinho cineasta. Agora era seu o filme que um menino gritava pelas ruas, montado numa bicicleta: “Não percam logo mais um sensacional filme de Manoel Loreno”!

“A Vingança de Loreno” foi exibido pela primeira vez numa quadra de esportes de Mantenópolis para umas 2 mil pessoas, calcula ele. Sem telão, passaram em duas televisões de 20 polegadas, postadas uma de cada lado. “E o povo se apaixonou tanto pelo meu filme que pediu pra repetir”, conta. A estreia foi tão estrepidosa que acabou virando uma sessão dupla do mesmo filme. Mais tarde, Seu Manoelzinho se tomaria de amores pela mulher, “que era muito bonitinha”, ao vê-la morrer dentro de um córrego pelas mãos do “Espantalho assassino”. Os dois filhos que fizeram no casamento seriam seus filhos também no cinema dali em diante. E a praça da cidade viraria um cinema a céu aberto só para exibir os filmes de Seu Manoelzinho.

Só gosta de faroeste, de causos de trapaça e de assombração, Seu Manoelzinho? Não é bem assim, explica. Ele mesmo já abriu uma exceção para colocar entre suas preferências a adaptação para o cinema de “Romeu e Julieta”. O fato é que, quando Seu Manoelzinho enveredou para o romance, o povo desgostou do seu cinema. Ele mesmo esclarece: “Amor o pessoal não gosta muito. O povo gosta mais de dar risada. Romance é muita conversa”.

Alguém pode pensar que o cinema do Seu Manoelzinho só tem valor por causa da vida do Seu Manoelzinho. Engana-se. Filmados em sequência, seus filmes de ficção expõe o absurdo da realidade com uma verdade que jamais vi em qualquer documentário. Nos filmes de Seu Manoelzinho a ilusão do cinema é desfeita o tempo todo, já que ele não esconde os artifícios usados para criar a história. E o que se conta, para além do enredo em primeiro plano, é o improviso que a vida nos exige, obrigando-nos a uma constante reinvenção do roteiro previsto e sempre fadado ao fracasso.

O telefone que toca na casa de Maiamis só toca porque ao lado dele foi colocado um despertador. A música de fundo só existe porque há um gravador esbodegado tocando a fita no momento da filmagem – e a fita se enrola a certa altura. O sangue é “quissuqui de groselha”, e os tiros são bombinhas que os atores acendem com o cigarro, “porque todo mundo fuma por lá”. Os atores passam na frente da câmera mesmo quando não deveriam estar ali, e houve uma personagem que voltou na pele de outra atriz, sem nenhuma explicação. Já aconteceu até de se ouvir a voz do Seu Manoelzinho, saindo do papel de ator principal para assumir o de diretor, ao gritar: “Fala mais alto”!

Em um texto sobre o cinema do Seu Manoelzinho, a professora Bernadette Lyra, uma das curadoras da mostra, diz: “Neles (os filmes), tudo se passa sem truques e sem outra mediação que aquela da câmera mesma confrontada com os percalços da realidade do tempo/espaço e das necessidades alternativas em que as filmagens se produzem e se realizam”. E, em outro ponto: “É lembrete e testemunha de que no cinema tudo não passa de um grande artifício, mesmo quando um filme quer se fazer passar por documentário fiel da realidade”. E ainda: “A reação dos espectadores (…) é imediata, corporal e participativa. O público ri. Ri diante do desmascaramento daquele artifício com que o cinema de origem realista costuma fazer passar a ficção pela realidade. Ainda que o fenômeno seja involuntário por parte de um realizador como Seu Manoelzinho”. E conclui, lindamente: “Acontece que não é o movimento coerente da história que interessa a Seu Manoelzinho, mas sim o movimento da vida”.

É em um momento no qual a vida toma, mais uma vez, rumos inesperados por causa da arte, que me encontro com Seu Manoelzinho. Desde que apareceu pela primeira vez na TV, ele se vê às voltas com os atrapalhos da fama. “Tô muito famoso demais, mais conhecido que prato de 10 centavos”, diz. Não é que não goste da fama, como me explica, o problema é que a fama veio desacompanhada do dinheiro. Ao verem Seu Manoelzinho na televisão, o povo de Mantenópolis, que sempre atuou de graça nos filmes – ou só pela graça de virar ator –, agora exige cachê. Quem antes lhe dava trabalho como servente de pedreiro, já não lhe oferece mais porque pensa que enricou. Fora aqueles que carregam Seu Manoelzinho para cursos de produção, roteiro e direção, de onde ele volta dizendo: “Eles não entendem o meu cinema”.

Aos 53 anos de uma vida de cinema, Seu Manoelzinho descobre que não tem dinheiro nem para os filmes, que antes nunca precisaram de dinheiro para serem feitos – nem para a vida, já que hoje sobrevive de pequenos cachês em eventos, como este último, e da venda de cópias de seus filmes nas feiras de Mantenópolis e da região. Sobrevive também de Bolsa Família.

Resvalar das bordas ao centro, em efêmeros instantes, colocou Seu Manoelzinho numa encruzilhada. Preocupado com o dinheiro que não tem, ele teme ser obrigado a encerrar a carreira, justamente agora, quando sonha filmar “A Vingança de Loreno 2”. Precisa de quanto, Seu Manoelzinho? “Uns 20 mil.” E acrescenta, todo expectante: “Será que a TV Cultura não me ajuda a fazer o filme”? Não tenho resposta.

Despeço-me de Seu Manoelzinho, que se prepara para enfrentar quase um dia e uma noite inteiras de ônibus, na viagem de São Paulo a Mantenópolis. (Ele já experimentou voar, mas me garante que nem as aeromoças têm confiança “naquele trem”.) E retorno hoje ao julgamento, pensando em como se ligam os milhões de dinheiro público, supostamente usados para pagar deputados, com os 20 mil de que precisa Seu Manoelzinho, para levar cinema ao seu povo. A realidade só ganha sentido quando conseguimos fazer as conexões.

Antes de partir, Seu Manoelzinho explica por que se recusa a fazer papel de vilão no cinema. “Os vilões eu mato tudo. Só o herói faz a fita inteira. Eu não ia pelejar tanto pra fazer um filme pra morrer antes do fim.” São frases precisas para o momento. De certo modo, o que todos tentam enquanto se desenrola o espetáculo, também ali, no plenário do Supremo, é não morrer antes do fim. Alguns agarrados ao personagem, outros tentando um twist (virada) no roteiro para redefinir o papel.

“Nos filmes, eu sou herói”, diz Seu Manoelzinho. E na vida? “Na vida tô sendo também.” Seu Manoelzinho é, porém, algo muito maior do que um herói. Como seu cinema nos mostra, a vida dá um jeito de desarranjar o artifício. Para além da tela, seja a do cinema ou a da TV Justiça, sempre podemos contar com Seu Manoelzinho para nos lembrar que nosso desejo sobrevive tanto aos heróis quantos aos vilões. A vida será sempre nosso melhor espetáculo.

(Publicado na Revista Época em 06/08/2012)

 

Matando por terras

Pouco antes de morrer, o cineasta Adrian Cowell liberou um documentário com cenas brutais da guerra travada na Amazônia brasileira. Filmada nos anos 80, a obra manteve-se inédita no Brasil por mais de duas décadas para proteger as testemunhas de assassinatos. Nesta semana, o filme será exibido pela primeira vez – e poderemos constatar que o passado continua dolorosamente presente

Cena 1 – Os homens andam pela floresta. Eles têm pés de andar, machucados pelas raízes, pelo sol, pela chuva, pelo caminho. E velhas espingardas nas mãos. No rosto, a expressão dos que foram lançados uma curva além. São homens desesperados – e homens desesperados não têm nada a perder. Exceto a vida, mas esta eles vão perder de qualquer jeito. Em busca de terra, já não há para onde ir. Exceto mais e mais para dentro. “A gente vai ficar. Se for, a gente só morre mais depressa”, diz um. Ali, eles já morrem depressa demais. É o corpo de um companheiro que vão buscar. Raimundo Piauí, posseiro como eles, sem-terra em busca de terra, apodrece há sete dias na mata. Assassinado por pistoleiros a mando de fazendeiros na guerra cotidiana travada na Amazônia.

Cena 2 – Ele é só um velho caçador, com uma espingarda de caça quase tão velha quanto ele. Os pistoleiros sabem disso. Mas não importa. Ele está ali, fácil e frágil. E é preciso dar um aviso aos posseiros que lutam pela terra. Os pistoleiros exigem a espingarda. Ele não entrega. Não entrega porque não pode entregar. Sem ela, morrerá de fome no meio da mata. É morrer de um jeito – ou de outro. Ele se vira. Os pistoleiros o abatem pelas costas. Um tiro atinge a sua boca, os dentes se espalham. Ele cai. João Ventinho era o seu nome. Mais um, só mais um ninguém cuja vida jamais será paga na Justiça.

Cena 3 – O homem corre. Os pistoleiros o perseguem atirando. O homem carrega uma criança nas costas. O menino grita primeiro. As últimas palavras do homem são: “Ô malvadeza”. Os dois corpos tombados na terra. O do posseiro Sebastião Pereira, liderança rural. E o de Clésio, de três anos. Um corpo de menino na mesa do necrotério, vítima de uma guerra que o matou antes que pudesse entendê-la. Uma guerra onde as crianças recebem balas de chumbo.

Estas cenas reais fazem parte do documentário Matando por terras (52 minutos), que será exibido pela primeira vez no Brasil nesta quinta-feira (5/7), no CineSesc, em São Paulo. Filmado nos anos 80, ele não pôde ser mostrado aqui por mais de duas décadas para não expor as testemunhas dos crimes – e condená-las também à morte.

A guerra da Amazônia: Depois de ter suas casas queimadas, um grupo de sem-terra se arma para se proteger dos pistoleiros, nesta imagem do filme Matando por terras (Foto: Divulgação)

A guerra da Amazônia: Depois de ter suas casas queimadas, um grupo de sem-terra se arma para se proteger dos pistoleiros, nesta imagem do filme Matando por terras (Foto: Divulgação)

O filme revela, de forma crua e persistente, como possivelmente nenhum outro documentário sobre o tema, a guerra travada na Amazônia. Uma guerra que, antes como agora, a maioria finge desconhecer. Rodado ao longo da rodovia Belém-Brasília, documenta o conflito entre fazendeiros – temerosos de perder os privilégios garantidos pela ditadura militar – e sem-terra. Mais de 100 pessoas foram mortas na região neste período.

A versão brasileira de Matando por terras foi o último trabalho do cineasta britânico Adrian Cowell. Ele se preparava para viajar ao Brasil para concluí-la quando morreu de ataque cardíaco, em Londres, no último 10 de outubro. Tinha 77 anos – 50 deles filmando a Amazônia. É pelo olhar de Adrian, um homem nascido na China e criado na Inglaterra, que uma parte da memória brasileira foi preservada. Não tivesse ele desembarcado no Brasil em 1957, aos 23 anos, para filmar o Monte Roraima, e uma parte crucial da saga amazônica teria permanecido invisível, sepultada em sangue e silêncio. Este testemunho único será exibido de 5 a 12 de julho, numa mostra em sua homenagem, promovida pelo CineSesc.

Morrendo por terras: Posseiros enterram um companheiro assassinado por pistoleiros, em uma cena filmada por Adrian Cowell (Foto: Divulgação)

Morrendo por terras: Posseiros enterram um companheiro assassinado por pistoleiros, em uma cena filmada por Adrian Cowell (Foto: Divulgação)

Adrian Cowell produziu o maior registro audiovisual da Amazônia. Todo o seu acervo foi doado à PUC de Goiás e está disponível para ser acessado: quase 900 mil metros de filme, sete toneladas que se transformaram em 30 documentários. Neste percurso, Adrian conviveu com Orlando Villas-Boas antes mesmo da criação do Parque Indígena do Xingu. Trabalhou também com Apoena Meireles, outro grande sertanista, assassinado em 2004 durante um assalto em Porto Velho (Rondônia). Em meio século, ele filmou um Chico Mendes ainda desconhecido do próprio Brasil – e o seu trabalho ajudou a projetar o líder seringueiro no mundo.

Adrian filmou tribos isoladas e filmou a destruição. Enquanto ele capturava a vida em um embate de morte, seus personagens tombavam junto com a floresta. Às vezes, antes mesmo do final do filme. Adrian começou a filmar Chico Mendes porque o personagem cuja história planejara contar, Padre Josimo, um religioso negro da Comissão Pastoral da Terra, foi assassinado no Tocantins pouco antes do início das filmagens. E Chico Mendes foi executado ao longo das gravações da série mais famosa de Adrian, A década da destruição, que será exibida na mostra.

O cineasta acreditava que um dia documentaria “A década do meio ambiente”, com o fim da devastação da Amazônia. Morreu com seu sonho – mas sua obra teve uma importância crucial para que a preservação da floresta e dos povos da floresta deixasse de ser uma questão de ecologistas para se tornar um problema do mundo.

Em 1980, Adrian conheceu o cinegrafista brasileiro Vicente Rios e, juntos, filmaram pelos 30 anos seguintes. “Rios e Cowell formaram uma poderosa dupla, como aquelas de pistoleiros do Velho Oeste, retratadas pelos filmes de Sergio Leone”, escreveu o jornalista Felipe Milanez, idealizador e curador da mostra. “Por vezes, andaram literalmente armados de revólver, para o caso de precisarem se defender, como em Serra Pelada, ou então portando uma arma muito mais poderosa: a câmera.”

Quem quiser conhecer as aventuras vividas pela dupla poderá ouvir da boca do próprio Vicente, na abertura da mostra e em algumas sessões apresentadas por ele. Vicente Rios também exibirá um documentário inédito – Visões da Amazônia. A obra apresenta cenas de bastidores das filmagens e coloca Adrian diante das câmeras, fazendo uma reflexão sobre suas memórias e sua paixão pela floresta.

Adrian apaixonou-se tanto pela Amazônia e pelo seu povo que deu ao filho um nome que junta mundos: Xingu Cowell. O menino morreu em um acidente de caiaque, aos 18 anos, no mesmo ano em que Adrian começou a filmar Matando por terras, no sul do Pará. O próprio Adrian participaria da mostra de cinema em homenagem à sua obra, mas tombou no meio do gesto. Até o fim, ele acreditou que a floresta poderia ser salva. E lutou por isso.

Em 6 de junho de 2011, Adrian escreveu para o jornalista Felipe Milanez. O cineasta acabara de saber do assassinato de José Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo. O casal foi executado a tiros nas proximidades do assentamento onde viviam, em Nova Ipixuna, no sul do Pará. Adrian dizia, com o português que aprendeu enquanto se embrenhava na selva, que o filme Matando por terras, ainda inédito, mostraria que os assassinatos registrados por ele, 25 anos atrás, continuavam se repetindo no Brasil de hoje. Foi assim, porque o filme é presente tanto quanto passado, que a versão brasileira foi feita.

Na Amazônia, o século 20 invadiu o século 21, a violência tolerada (e muitas vezes patrocinada) pela ditadura persistiu na democracia. E os mesmos de sempre seguem tombando a tiros. Adrian Cowell poderia ter filmado cada uma das cenas a seguir. Todas elas – e muitas outras – aconteceram há pouco. E continuam se desenrolando neste exato momento.

Cena 1 – Zé Cláudio e Maria, lideranças que vivem da extração de castanha, estão perto do assentamento onde vivem. Zé dirige, Maria se agarra a ele na garupa. Assim que Zé diminui a velocidade da moto para passar sobre a ponte que cobre um igarapé, são atacados pela dupla de pistoleiros. O primeiro tiro de escopeta atravessa a mão direita de Maria e atinge o lado esquerdo do abdômen de Zé. Em seguida, mais tiros de escopeta e de um revólver calibre 38. Um dos assassinos puxa a faca, caminha até Zé Cláudio e corta um pedaço de sua orelha direita. Uma prova do serviço feito para entregar ao mandante. É 24 de maio de 2011. Hoje, é Laísa Santos Sampaio, irmã de Maria, que vive sob ameaça de morte. (Assista aqui ao depoimento de Zé Cláudio.)

Cena 2 – João Chupel Primo, mais conhecido como João da Gaita, trabalha na sua oficina mecânica, em Itaituba, no oeste do Pará. Um minuto depois está morto, com uma bala na cabeça. É 22 de outubro de 2011. Caçado por pistoleiros, seu amigo Júnior José Guerra começa a fugir. Os dois haviam denunciado a quatro órgãos federais e dois estaduais uma milionária operação criminosa de roubo de ipê do interior de áreas de preservação. Toda a madeira passava – e continua passando – por um assentamento do Incra, entre os municípios de Itaituba e Trairão. João e Júnior denunciaram também 15 assassinatos consumados nos últimos dois anos na região por causa da posse da terra e do controle da madeira. Denunciaram às autoridades – e não foram protegidos. (Leia aqui.)

Cena 3 – Em 2010, a líder rural Nilcilene Miguel de Lima foi espancada e teve sua casa queimada, no município de Lábrea, no Amazonas, depois de denunciar a grilagem e o roubo de madeira em seu assentamento. Em maio de 2011, fugiu enrolada em um lençol do pistoleiro atocaiado perto da sua casa. Só voltaria em outubro, protegida por uma escolta da Força Nacional. Em 30 de março de 2012, sua amiga Dinhana Nink, de 27 anos, foi a sétima pessoa assassinada na região nos últimos cinco anos por denunciar madeireiros e pistoleiros. Ela tinha fugido para Rondônia para escapar da morte, mas a alcançaram. Mataram-na com um tiro no peito diante do mais jovem de seus três filhos, Tiago, de 6 anos. Quando o pai de Dinhana encontrou o corpo, Tiago limpava o sangue do rosto da mãe. No último 19 de maio, a Força Nacional interrompeu a proteção a Nilcilene, e ela teve de deixar sua casa e a colheita para trás para se esconder mais uma vez. É nesse desamparo que se encontra agora. (Leia aqui.)

A guerra na Amazônia continua, como Adrian Cowell apontou pouco antes de morrer. Em Matando por terras, ele registra a campanha presidencial de 1989. Nela estão Lula, Fernando Collor e Ronaldo Caiado. Lula nos históricos comícios bordados de bandeiras vermelhas do PT, ao som do povo cantando “Lula-lá” com esperança e orgulho na voz. Collor fazendo promessas no tom histriônico de “caçador de marajás”, e Caiado incitando os fazendeiros a reagir contra os “invasores”. Em certo momento do filme, ainda aparece Paulo Brossard, então ministro da Justiça, reagindo com veemência às denúncias de assassinatos na Amazônia, feitas pela Anistia Internacional, com uma frase que já era popular naquela época: “É uma fantasia!”.

O Lula de 1989 diz: “A única forma de acabar com a violência é punindo. E fazendo a reforma agrária”. Collor foi eleito e depois deposto por impeachment. Fernando Henrique governaria por dois mandatos. Só então Lula se elegeria por duas vezes e ainda faria a sucessora. Mais de duas décadas depois, a realidade mostra que o mesmo filme poderia ter sido feito hoje – apenas com novos cadáveres.

Antes, os mortos eram chamados de sem-terra ou posseiros. Hoje, a maioria é “assentado”. No papel, conquistou-se assentamentos do Incra, reservas extrativistas, florestas nacionais. Mas as conquistas dos anos de democracia não alcançaram o concreto dos dias: o Estado que está no papel não está na vida. Há vastas porções da Amazônia sob o controle do crime organizado – cada vez mais sofisticado e com braços mais longos. Sem o apoio do Estado, quem denuncia o “malfeito” assina sua sentença de morte. E vive seus últimos dias na insanidade: quem morre hoje estava marcado para morrer, avisou às autoridades que morreria, documentou as ameaças e os pedidos de socorro, às vezes em vídeo – e morreu.

Adrian Cowell emprestou seus olhos e arriscou sua vida por meio século para mostrar o que muitos brasileiros não queriam ver. Conhecer sua obra é um bom começo para mudar esse filme.

(Publicado na Revista Época em 02/07/2012)

 

 

Quem está com Lula e Maluf na foto (além de Haddad)?

O esconde-esconde da imagem: a reação de Luiza Erundina dá razão a Lula ao provar que a representação da realidade é a única realidade que importa

A menina de 7 anos assiste a desenho animado na TV, no quarto dos pais, em sua casa na zona sul de São Paulo. A mãe, tentando aparentar tranquilidade, aparece na porta e diz: “Filha, tem um titio que veio roubar nossas coisas. Mas fica quietinha, que ele não vai fazer nada. Só vai roubar as coisas e depois vai embora”. Pega a menina pela mão e a leva ao corredor. Quando vê o ladrão, um rapaz com uma arma na mão, a menina pergunta:

– Mãe, esse que é o Maluf?

Até o ladrão riu.

* * *

A história é verídica. Aconteceu em 1988, nos primeiros anos da redemocratização do Brasil, uma época ultrapassada em que “malufar” era sinônimo de “roubar”. A menina, uma amiga, é hoje uma mulher e tornou-se jornalista. Ao ver a foto de Lula apertando a mão de Maluf, olhei “pelo retrovisor” e lembrei desse episódio.

Depois do choque inicial diante da foto de Lula com Maluf (e sem perdê-lo jamais), o que começou a me perturbar era que Lula pode ter razão. Não razão em pisotear os princípios e engolir a biografia, óbvio. Mas razão para acreditar que a imagem é a única realidade que importa para alcançar os fins. Que com um minuto e meio a mais de TV é possível fazer o eleitor acreditar que Fernando Haddad é o “novo” – e que o “novo”, ainda que ungido por velhas e viciadas práticas, é o melhor para administrar São Paulo. O que dá razão a Lula é a reação da opinião pública – e principalmente a de Luiza Erundina.

MALUFARAM Lula e Haddad nos jardins da casa de Maluf, em São Paulo. (Foto: Epitácio Pessoa/AE)

MALUFARAM Lula e Haddad nos jardins da casa de Maluf, em São Paulo. (Foto: Epitácio Pessoa/AE)

À primeira vista, a desistência de Luiza Erundina (PSB) de ser a vice de Haddad, supostamente em nome dos princípios, assim como a reação da sociedade e da própria militância petista, apontariam para um erro político estratégico. Em busca de um minuto e meio a mais na TV, Lula teria esquecido do que o levou a aceitar o inaceitável: o poder da imagem. Ou, em busca de ampliar o poder da imagem, Lula esqueceu-se do poder da imagem. Esqueceu-se daquilo que Maluf lembrou e por isso exigiu, em troca do apoio do PP à candidatura de Haddad: “A foto faz parte do pacote”.

A imagem, quando substitui a realidade ou se torna toda a realidade, pode nos cegar. Por isso, quero aqui apenas rememorar o que vemos nesta foto – e o que não vemos. O que vemos é Lula e Maluf – Haddad entre eles, mas sem importar muito (e isso é importante, já que Haddad não importa muito porque é o “novo” sem história).

O que vemos é Lula apertar a mão de quem no passado havia chamado de “o símbolo da pouca-vergonha nacional”. E Maluf apertar a mão de quem no passado havia chamado de “ave de rapina”. O que vemos é Lula, que no passado representou a possibilidade de ética na política, apertar a mão de quem no passado – e também hoje, mas agora embaralhado com muitos outros – representou a corrupção na política. O que vemos é Lula, que até alguns anos atrás encarnava um novo jeito de fazer política, consolidando mais uma aliança com o velho jeito de fazer política.

De fato, porém, o que vemos não é novo. Mas a foto nos faz acreditar que é. Ora, há quanto tempo o que existe de mais retrógrado e fisiológico na política nacional se tornou parte do espectro de alianças do PT, em nome da “governabilidade” ou em nome dos fins? O PP de Maluf esteve no governo Lula e está no governo Dilma – como antes esteve no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Lula apertou a mão de Maluf há muito tempo. Desde o primeiro mandato como presidente, pelo menos.

A foto permitiu que parte da sociedade enxergasse essa aliança. É bom enxergar, antes tarde do que nunca? É, claro que é. Mas também não é. Porque, se acreditarmos que as imagens são toda a realidade, nos tornamos facilmente manipuláveis. Se só conseguimos enxergar o que vira imagem, nos colocamos em um lugar muito frágil. No lugar que explica Lula apertar a mão de Maluf para garantir um minuto e meio a mais de espetáculo, no qual faz o truque de transformar o desconhecido em conhecido, o velho em novo.

Nesta imagem histórica, é quem não estava na foto que nos revela o quanto nos deixamos cegar tanto pelo que vemos – quanto pelo que não vemos. É Luiza Erundina, que agora desponta como aquela que disse: “Não aceito”. Ou como a guardiã dos princípios na política, a mulher que deu uma lição ética a Lula e ao PT, aquela que resistiu ao pragmatismo da “realpolitik”. É provável que Erundina seja uma mulher de princípios, porque parte da sua história pública nos prova isso. Mas não neste episódio.

No momento em que a imagem de Lula apertando a mão de Maluf foi imortalizada com um clique, Luiza Erundina estava lá naquela foto. Não estava, mas estava, porque havia aceitado a aliança com o PP de Maluf. Embora dizendo-se “desconfortável” com a aliança em declarações anteriores à fotografia, ela sabia da aliança e aceitou a possibilidade da aliança no momento em que aceitou ser a vice de Haddad.

Logo, Luiza Erundina não desistiu de ser vice por uma questão de princípios, mas por uma questão de imagem. Ou pelo fato de a foto desmascarar a falta de princípios que ela conhecia e aceitara. Ou ainda, porque a foto tornou mais real a realidade.

O problema, para Luiza Erundina, não era a aliança com Maluf, esta ela podia aceitar. Como não foi um problema para ela aceitar, em 2004, a aliança com Orestes Quércia (PMDB) – que não chegava a ser um Maluf, mas estava longe de ter boa fama. O problema, para Erundina, era exibir a aliança com Maluf em uma foto estampada na capa dos jornais. E passar a correr o risco – altíssimo – de aparecer, também fisicamente, em uma próxima foto. Neste sentido, ainda que apenas por erro de cálculo, Lula foi mais coerente que Erundina. Fez a aliança e permitiu a representação da aliança – pagou o preço cobrado por Maluf, que além de mais um cargo obtido no governo de Dilma para o PP, exigiu também uma imagem.

Antes da foto, mas já com as negociações bem adiantadas, Erundina declarou-se “desconfortável” com a presença quase certa de Maluf na campanha. Apenas “desconfortável”. Ela disse: “Para mim não será confortável estar no mesmo palanque com o Maluf. A campanha não sou eu nem Maluf individualmente. É um processo muito mais amplo e complexo, e isso se dilui, ao meu ver. (Mas) Claro que é desconfortável”. Após a publicação da foto, mas ainda antes de tomar a decisão de desistir da candidatura, ela fez uma declaração especialmente reveladora: “A foto provocou repulsa, uma reação em cadeia. Fui bombardeada nas redes sociais”. Depois de deixar a chapa, porque a imagem não se “diluiu” como o esperado, Erundina afirmou: “Quando a gente faz uma coisa que corresponde ao anseio da sociedade, a gente fica feliz”.

É claro que as pessoas podem mudar de ideia. É também desejável que voltem atrás, ao perceber que fizeram uma escolha errada. É preciso enxergar, porém, que Erundina teve bastante tempo para pensar nos seus princípios antes da foto, mas já com a aliança com Maluf bem delineada no horizonte. Portanto, é legítimo duvidar de que seu recuo seja justificado pelos princípios. Ela assume isso em várias declarações, especialmente nesta, sem parecer enxergar a contradição: “O tempo de TV é importante, mas não a ponto de sacrificar a imagem”.

Foi para não sacrificar sua imagem (e não seus princípios, como a repercussão de sua decisão fez parecer), que ela desistiu de ser vice. Por estar fisicamente ausente da imagem fatídica, Luiza Erundina produziu uma outra imagem simbólica que lhe interessa muito mais. Seria melhor para Erundina, para nós e para a democracia se ela ficasse feliz não por corresponder aos anseios da sociedade, mas por corresponder aos princípios éticos que norteiam a sua vida, mesmo que estes a levassem, eventualmente, a contrariar a opinião pública.

Vale a pena enxergar também que a postura de Luiza Erundina neste episódio mostrou, de novo, que Lula e o PT estão certos ao acreditar que um minuto e meio a mais de exposição planejada, produzida e controlada na TV seja decisivo para a candidatura de Haddad. A decisão de Erundina, tomada só após a foto, prova que, para ela e para muitos, é a imagem que vale, não a realidade. Ou é a imagem que torna real a realidade. Se a aliança estivesse consolidada – mas sem uma imagem para representá-la –, será que Erundina desistiria de ser vice? Ela mesma já respondeu: “Eu até entenderia se fosse um ato firmado dentro de um espaço institucional, entre diretórios, mas não dessa forma personalista”.

Para completar a foto há ainda o PSDB, o oponente sem oposição de fato no que diz respeito à imagem-bomba. A declaração de José Serra ao comentar a aliança entre Lula e Maluf foi a seguinte: “O PSDB tem um tempo suficiente de televisão. Não vale tudo para aumentar isso”. E a de Aécio Neves: “Isso não muda o resultado eleitoral, mas fragiliza o discurso de faxina do governo. No momento em que o governo federal se dispõe a fazer esse tipo de concessão, em troca de apoio político, essa discussão da faxina fica muito frágil.” Aécio ainda disse que a troca de apoio político por espaço na campanha de rádio e TV não deveria virar regra no país.

Seria um discurso alentador, não tivéssemos acompanhado os enormes esforços empreendidos pelo PSDB para conquistar o apoio de Maluf. Seria um discurso estimulante, não fosse uma outra foto mostrar Serra apertando a mão do ex-ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento (PR), afastado por Dilma por suspeita de corrupção. Valdemar Costa Neto, um dos réus no processo do “mensalão”, não está na foto, mas foi um dos arquitetos da aliança do PSDB com o PR na disputa da prefeitura paulistana. Ou seja, Valdemar Costa Neto, outra figura que não fica bem na foto, estava sem estar. De novo, o jogo de esconde-esconde das imagens.

Ao buscar um minuto e meio a mais de imagem, Lula afobou-se e esqueceu-se, por um momento, da natureza perigosa do que foi buscar. Mas deve contar com a possibilidade de a imagem sinistra ser esquecida – ou substituída por outras, produzidas pelos marqueteiros ao longo da campanha. Se é imagem o que vale, e não os princípios, agora há um minuto e meio a mais de TV para reverter o prejuízo e convertê-lo em lucro, ao transformar o espetáculo na única realidade que importa. Afinal, com o próprio Maluf há um precedente do PT em São Paulo: Marta Suplicy foi apoiada por ele no segundo turno da campanha de 2004 à prefeitura paulistana. Na época, Kombis decoradas com imagens de Maluf e Marta circulavam afoitas por São Paulo. Quem lembra? A própria Marta, a julgar por suas manifestações sobre a foto Lula-Maluf, parece ter esquecido.

Seria uma boa notícia se alguém estivesse sofrendo de fato por ter vomitado nos princípios. Mas nenhum dos envolvidos no episódio parece estar preocupado com princípios. Nem Lula e Haddad, que apertaram a mão de Maluf e posaram para a foto. Nem Erundina, que estava na foto sem estar, mas por causa da reação à ela desistiu de compactuar com o que já tinha compactuado. Muito menos José Serra, que adoraria estar no lugar de Lula e de Haddad, mas fingiu reprovar o vale tudo.

E nós? Nós precisamos enxergar além do que nos é dado para ver – e enxergar mesmo quando não há imagem. Ou tudo será permitido desde que ninguém veja, tudo continuará valendo a pena por um minuto e meio a mais de TV. O quanto realmente enxergamos o que estava – e o que não estava – na foto histórica só saberemos mais adiante.

Em 1988, diante da euforia e dos sonhos trazidos pela redemocratização do Brasil, depois de duas décadas de ditadura militar, havia dois cenários possíveis para o futuro. Boa parte de nós só enxergava um, só acreditava em um, só admitia um. Nele, a menina perguntaria ao ver o ladrão roubando a sua casa: “Mãe, esse que é o Maluf?”. E a mãe responderia: “Não, esse ladrão não é o Maluf porque o Maluf está preso”.

Naquele tempo, nenhum de nós – e tenho certeza de que nem mesmo Lula – poderia imaginar que o único diálogo possível no futuro seria este:

– Mãe, esse que é o Maluf?

– Não, o Maluf está ocupado, na casa dele, apertando a mão do Lula.

* * *
Revoltemo-nos. Mas sem esquecer que também estamos naquela foto. Sem eleitores como nós, ela não seria possível.

(Publicado na Revista Época em 25/06/2012)

 

Dom Erwin Kräutler:

 “Lula e Dilma passarão para a história como predadores da Amazônia”

 

O lendário bispo do Xingu, ameaçado de morte e sob escolta policial há seis anos, afirma que o PT traiu os povos da Amazônia e a causa ambiental. Afirma também que Belo Monte causará a destruição do Xingu e o genocídio das etnias indígenas que habitam a região há séculos. Há 47 anos no epicentro da guerra cada vez menos silenciosa e invisível travada na Amazônia, Dom Erwin Kräutler encarna um capítulo da história do Brasil

Eliane Brum

Nesta segunda-feira, um homem grande, de sorriso caloroso e cabelos brancos, embarcou em um avião para o Brasil. Para o Brasil apenas, não. Para a Amazônia. Depois de 40 dias na Áustria, a terra onde nasceu, ele sente falta da geografia que escolheu para ser sua desde o momento em que, ainda jovem e tropeçando no português, descobriu maravilhado que o Reno é “um igarapé comparado ao Xingu”. Dom Erwin suspira de saudades do rio, das gentes, dos cheiros e até do clima da cidade paraense de Altamira, com temperaturas e humores tão intratáveis que só agrada aos mais fortes. Este homem, que circulava livremente por ruas imaculadas na primavera austríaca, onde foi garimpar recursos para projetos sociais na Amazônia, volta agora para sua rotina de prisioneiro. Há seis anos, Dom Erwin Kräutler, bispo do Xingu, não dá um passo no Brasil sem estar sob a escolta dos quatro policiais que se alternam para proteger sua vida.

Perto de completar 73 anos, Dom Erwin, que acolheu e depois enterrou a missionária assassinada Dorothy Stang, vive na mira de pistoleiros. Homens contratados por gente graúda para calar uma voz que há quase meio século eleva o tom na defesa dos mais pobres e dos mais frágeis, dos indígenas, dos ribeirinhos e dos extrativistas da Amazônia. Dom Erwin tem escrito, com rara coerência, um capítulo crucial de uma história pouco contada no Brasil: o papel da Igreja Católica, especialmente a dos religiosos ligados à Teologia da Libertação e às comunidades eclesiais de base, na proteção dos povos da floresta – e da própria Amazônia – a partir da segunda metade do século XX.

A maioria das etnias indígenas e das comunidades amazônicas que conquistaram direitos e terras nas últimas décadas deve parte de sua organização aos setores mais progressistas da Igreja Católica. Assim como parte das lideranças políticas que hoje influenciam os rumos do país surgiu na atuação de base da Igreja. Isso vai muito além da religião – é História. E uma história cujo sentido as alas mais conservadoras da própria Igreja preferem enfraquecer. Neste capítulo, Dom Erwin, capaz de falar tão bem o grego clássico quanto a língua dos Kayapó, é um dos protagonistas mais fascinantes.

E resistente. A cada ano, apesar da idade avançada e das dores na coluna, ele visita 15 paróquias do Xingu. Ao alcançá-las, peregrina pelas comunidades dos cafundós. Dorme no barco, dorme em rede. Acostumou-se tanto à dieta local, que fica feliz por comer peixe no almoço e no jantar, de segunda a segunda. É adorado pelo povo mais pobre – e odiado sem reservas por parte da elite paraense, que o ataca também pela imprensa de Belém do Pará.

Desde a decisão de Lula, e agora de Dilma Rousseff, de arrancar Belo Monte do papel, o quase lendário bispo do Xingu tem feito uma oposição incansável contra a hidrelétrica que provoca controvérsia dentro e fora do Brasil. Por causa dela, tornou-se uma presença incômoda para setores do governo e do PT que um dia apoiou – inclusive com o seu voto. Incômoda, especialmente, porque é difícil destruir a reputação de um bispo que mantém a coerência desde a ditadura militar em uma das regiões mais conflagradas do país, ajudou a escrever os artigos da Constituição de 1988 que garantem os direitos indígenas e não recuou nem mesmo diante da ameaça de perder a própria vida.

Nesta entrevista, Dom Erwin diz o que pensa contra antigos aliados com o mesmo desassombro com que denunciou grileiros e estupradores no passado recente. Acusa o PT de “traidor” – e diz que alguns petistas são “fanáticos religiosos”. Afirma que Lula e Dilma implantaram uma “ditadura civil” ao “desrespeitar os direitos indígenas assegurados na Constituição”. E afirma que Lula passará para a História como “o presidente que destruiu a Amazônia e deu o golpe nos povos indígenas”.

Às vésperas da Rio + 20, o depoimento de Dom Erwin Kräutler abre uma janela para a compreensão da história contemporânea. A entrevista a seguir foi feita na casa do bispo, em Altamira, com os policiais militares que o protegem do lado de fora da porta, mas atentos. Os quatro policiais demonstram uma preocupação que transcende o dever: adoram Dom Erwin, que conhece suas mulheres e filhos e escuta suas aflições de cada dia.

Em três horas de conversa, Dom Erwin não evitou nenhuma pergunta. Vale a pena abrir um espaço para escutar com atenção um homem capaz de apontar as contradições e ampliar a complexidade do momento estratégico vivido pelo Brasil, no qual as escolhas tomadas hoje determinarão o que seremos amanhã.

“QUANDO EU VI O XINGU, PERDI O FÔLEGO”

– O que o senhor faz quando está na Áustria e qual é a sensação de viver sem escolta, sem policiais ao redor?

Dom Erwin Kräutler – É necessário que eu passe todos os anos pelo menos um mês na Áustria, com a finalidade de conseguir recursos para manter e sustentar as obras sociais e pastorais do Xingu. Tenho, além disso, muitos convites de universidades e organizações que defendem os Direitos Humanos e o Meio Ambiente. Quando é possível, eu me hospedo na minha casa materna/paterna e vivo, fora dos compromissos, uma vida de “eremita”. Isso me faz um bem enorme. Ando livremente pelos bosques da terra onde nasci. Admiro a natureza, as flores, os campos, as árvores que na primavera se revestem de sua folhagem de tons tão diversos. Levanto antes das 5 horas para poder “ouvir o silêncio” matutino e ver os primeiros raios do sol. É maravilhoso. É uma sensação de liberdade total que faz bem à alma e ao coração.

– Como um austríaco escuta pela primeira vez a palavra Xingu e acaba se mudando para o Brasil e fazendo do Xingu a sua casa?

Dom Erwin – Ouvi a palavra Xingu pela primeira vez aos 4 ou 5 anos, durante a Segunda Guerra Mundial. A minha mãe sempre falava do irmão dela, Dom Eurico Kräutler, na época Padre Eurico, que estava no Brasil desde 1934. Uma vez ele mandou, junto com a carta, algumas fotos. Eu lembro perfeitamente das casas de palha – ele na frente, naquele tempo de batina, com uma criança, um indiozinho, mostrando a câmara com o dedo. Como a gente diz: Olha o passarinho! Foi a primeira foto do Xingu que vi na minha vida.

– O que o senhor sentiu?

Dom Erwin – (rindo) Senti uma profunda simpatia por aquela criança, que era diferente, que estava pintada. Desde então, nós sempre perguntávamos à minha mãe sobre os índios. Meu tio mandava as cartas, que eram lidas em casa pela minha mãe, depois passavam para a minha tia, e então para a minha madrinha, iam passando por todos os parentes. Tínhamos a foto de um índio na parede. Eu lembro até o nome dele: “Patoit”. Significa “braço forte”. Temos a foto dele lá em casa (na Áustria), com a mulher e o filho.

– Essa foto ainda existe?

Dom Erwin – Sem dúvida. No meu quarto, na casa de meus pais, ela foi substituída por uma foto mais recente, de uma índia Araweté com seu neném. Para nós, os Kayapó eram pessoas distantes, diferentes, mas pareciam parentes. Porque quando a gente falava do tio Eurico falava também dos indígenas do Xingu. Meu tio só pôde voltar para a Áustria depois do fim da guerra, em 1948. Eu tinha 9 anos e era coroinha, então eu lembro muito bem quando ele chegou. Meu tio fazia palestras, sabe, com slides. E ele mostrou muito sol nascendo, pôr do sol… Mas meu tio tinha a sua ideia a respeito dos índios, com as quais eu não compartilharia hoje. Eu tive outra visão.

– Qual era a ideia dele?

Dom Erwin – A ideia dele, e é preciso entender que ele era filho do tempo dele, era a de “civilizar”, “apaziguar”, palavras que não me passam pelos lábios. Não é por aí.

– É por onde?

Dom Erwin – São povos diferentes. E nós os respeitamos na sua alteridade. E não apenas os respeitamos, precisamos dar um passo a mais. Nós os amamos. Eu fiz essa experiência. Lembro quando fui para uma aldeia aqui, dos Kayapó, e eu não falava uma palavra em kayapó. Nada. Eu disse: “Nunca mais eu piso nessa aldeia sem saber kayapó”. E aprendi. Não vou dizer que falo do mesmo jeito que eu falo português, mas aprendi. E, na segunda vez em que fui lá, você não imagina. Meu Deus! O sorriso mais largo e mais amigo, mais íntimo, eu diria: “Agora ele é nosso, ele fala a nossa língua”. Eles sabem que a gente se esforça e, através da comunicação por palavras, compreendemos o mundo deles.

– Quando o senhor estava em Koblach, sua cidade natal na Áustria, que movimento interno fez com que o senhor atravessasse o oceano e ficasse aqui por quase meio século, já? O que o levou a fazer um movimento tão largo, tão radical?

Dom Erwin – Eu era um jovem como qualquer outro. Estudei, fiz faculdade de Filosofia, tocava violão, fazia teatro. Tenho uma juventude muito bonita, com muitos amigos e amigas. Depois veio o pessoal de outras províncias, que não falavam a nossa língua, o nosso dialeto. E eram colocados à margem. E isso me doía. Mas por quê? Simplesmente porque são diferentes, porque falam outra língua, são excluídos? Nós começamos, então, na juventude, a criar nossos movimentos e a buscar essa gente que ficava na margem. Nós conseguimos integrá-los. Foi nesse momento, ao me confrontar com a exclusão pela diferença, que surgiu a ideia de ser padre. Estudei Teologia, me ordenei. Era da mesma congregação do meu tio, dos Missionários do Sangue de Cristo. Naquele tempo, meus superiores queriam que eu continuasse os estudos de filologia antiga: grego e latim. Eu gosto disso até hoje. Leio a Bíblia em grego, o Novo Testamento…. Mas, de repente caiu a ficha: “Eu vou para o Xingu”. Quer dizer, a gente não dizia: “Eu vou para o Brasil”. A gente dizia: “Eu vou para o Xingu”.

– Por que “eu vou para o Xingu”?

Dom Erwin Acho que aí tem também toda a história da criança, que eu nunca esqueci. O Xingu era exatamente onde estão os Kayapó. E não apenas os Kayapó, mas seringueiros, pescadores, e uma cidadezinha miúda, pequenininha, que era Altamira. Altamira em 1950 tinha 1.800 habitantes. E eu então sonhei com isso. E disse para os superiores que queria ir para o Xingu: era 12 de janeiro de 1965. Ordenei-me padre em julho de 1965. Despedi-me de casa no dia 2 de novembro, aniversário do meu pai. Fui para Hamburgo, no norte da Alemanha, e vim com um cargueiro. Eram só dois passageiros, fora a tripulação. Eu nunca tinha visto mar, esse tipo de coisa. Era um rapaz novo, 26 anos. E atravessei o Atlântico.

– Quantos dias, naquela época?

Dom Erwin – Nós saímos no dia 4, à noite, e depois atracamos em Tenerife, nas Ilhas Canárias, no dia 11 de novembro. Passamos lá um dia, zarpamos de novo e chegamos no dia 18. Eram 4h da tarde quando pisei pela primeira vez em terra brasileira, em São Luís do Maranhão, onde fiquei quatro dias, antes de seguir viagem, ainda de navio, para Belém. Lá em São Luís dormi no convento dos franciscanos e comecei a aprender português.

– Não sabia nada?

Dom Erwin – Nada.

– O que tinha na sua mala?

Dom Erwin – Eu não trouxe lembranças da minha terra, não trouxe nada. Uma ou outra foto da família. O que eu trouxe eram coisas que eu queria dar para as crianças daqui. Porque o pessoal de lá me encheu de mil e uma coisas pra trazer. Veio tanta criança aqui nesta casa: “Quem é o padre que trouxe boneca?”. Fiquei feliz da vida. Boneca pra cá e pra lá. Depois surgiu um problema, porque alguém disse: “Mas o senhor deu boneca até para crente, e nós não ganhamos ainda nada”. E eu respondi: “Vou perguntar se era crente ou católico? Para mim se tratava de uma boneca – e boneca bonita!”. De coisas pessoais eu só trouxe os cadernos do tempo da universidade, tanto da faculdade de Filosofia quanto da de Teologia. Tenho até hoje! Fora isso, um crucifixo que ganhei e um cobertor. Até hoje eu tenho esse cobertor. Está na minha cama.

– Qual a diferença que o senhor sentiu entre o Xingu mítico, do seu imaginário, e o Xingu real, daquele primeiro olhar?

Dom Erwin – O Xingu me impressionou de uma maneira que eu nunca tinha sentido. Porque lá na Áustria nós temos o rio Reno, mas é um igarapé, em comparação com isso aqui. Então, na primeira vez que vi, em 21 de dezembro de 1965, a bordo de um avião DC3 da Cruzeiro, vindo de Belém, Nossa Senhora, que maravilha! Eu fiquei tão encantado com essa terra, e até hoje estou. E essa é uma das razões de ter reservas muito grandes quanto à destruição que está pairando sobre o Xingu e sobre todos nós. Eu fiquei tão impressionado, que faltaram palavras. Acho que perdi o fôlego. Não era um chorar… Era uma alegria. Uma mistura de alegria e de se maravilhar por alguma coisa. Você fica olhando e olhando… Você não precisa falar, você assimila, por assim dizer, essa maravilha toda. E fica encantado. Utiliza-se no português a palavra “encantado”. O Xingu encanta.

– Por quê?

Dom Erwin – O Xingu é diferente de todos os outros rios do mundo, ao menos daqueles que eu conheço. Talvez algo mítico, também, por causa dos povos indígenas que há milhares de anos vivem aqui. Então, eu vejo como os índios veem. Os Kayapó não chamam de Xingu, chamam de Bytire. “Tire” significa grande, majestoso. O “by”, segundo a explicação de um velho kayapó, quer dizer algo muito misterioso, inexprimível. E, por isso, sagrado, intocável, inviolável. Eu disse: “Aqui eu vou viver”. Eu nunca pensei em voltar, sabia? Nunca.

– O senhor sente que esta é a sua terra?

Dom Erwin – Eu não vou negar as raízes, claro… O mundo de lá agora é diferente, e eu me sinto um peixe fora d’água. Passo um mês na Áustria, mas depois volto para cá. A minha vida é viver aqui.

– No Brasil inteiro, e especialmente no Norte, existe o uso político de um sentimento que pode ser resumido pela seguinte frase: “Os gringos estão invadindo a Amazônia”. O senhor é tratado como um gringo?

Dom Erwin – Não. Nunca fui. Também o pessoal raramente me pergunta onde eu nasci. Naturalizei-me brasileiro. Tenho passaporte brasileiro, carteira de identidade, título de eleitor, tudo.

– O senhor é brasileiro?

Dom Erwin – Sou.

– Um brasileiro que nasceu na Áustria… Eu já vi o senhor dizendo isso.

Dom Erwin – Sempre digo isso: um brasileiro nascido na Áustria. Não fui mandado para cá. Foi uma decisão minha. Eu me identifiquei com o Xingu, com o Brasil. Claro que não nasci aqui, meus pais e meus antepassados são de outro país. Meus ancestrais já moravam lá em 1400 e pouco. Trata-se de uma família muito tradicional. Mas cada um faz a sua escolha. Quando cheguei aqui, eu sabia que ia ficar. Eu podia ter voltado no dia seguinte, se eu não me agradasse. Tem muito trabalho em qualquer canto do mundo. Mas nem por um segundo isso me passou pela cabeça.

“EU NUNCA PENSEI QUE O LULA PUDESSE MENTIR NA MINHA CARA”

– O senhor é uma das vozes mais críticas contra Belo Monte. Por que o senhor não quer uma hidrelétrica no Xingu?

Dom Erwin – Altamira sofreu o primeiro “choque” com a construção da Transamazônica. Eu me lembro de quando chegou aqui o presidente Médici (Emílio Garrastazu Médici, general que foi presidente do Brasil no período mais violento da ditadura militar, de 1969 a 1974). Ele deu início às obras, no lugar chamado “Pau do Presidente”. Você foi lá ver (o “pau do Presidente”)?

– Ainda não…

Dom Erwin – Não perde nada. Só ficou aquele tronco da castanheira, a placa roubaram… Eliane, você naturalmente sabe que aqui se usa essa expressão “pau do presidente” com certa malícia!

– Posso imaginar… O senhor presenciou a derrubada da castanheira?

Dom Erwin – Sim. Todo o pessoal delirando no palanque… delirando mesmo! Batendo palmas! Gente, derrubando uma árvore daquelas! E dizendo que era o progresso que estava chegando. Cortou-me o coração… Como é que pode? Aplaudir que a rainha das árvores do Pará ou da Amazônia tomba, e com um estrooondo tremendo. Como é possível? Está escrito na placa que roubaram: “O presidente da República dá início à conquista deste gigantesco mundo verde”. E havia uma placa em uma das três colunas feias, bem feias que fizeram: “Depois de XX meses o presidente voltará para inaugurar, dando mais um passo para integrar…”. Era essa a época: “Integrar para não entregar” e “Brasil, ame-o ou deixe-o”… Coisas desse tipo. Eu vi.

– Isso tudo o senhor estava assistindo de onde?

Dom Erwin – No meio do povo que foi lá ver o presidente. Tinha dois bispos, vestidos com trajes episcopais, que pensavam que seriam chamados a subir no palanque: o bispo daqui, que era meu tio, e o bispo de Marabá. Não os chamaram lá para cima porque o de Marabá não era amigo dos militares. Ele tinha denunciado um monte de coisas. Naquele tempo era a guerrilha do Araguaia, então não chamaram os bispos para subir no palanque… Eu pensei: “Bem feito!”. Mas eu não tinha coragem de dar minha opinião, porque era menino recém-chegado. Mas os bispos também achavam que o progresso estava chegando… Altamira era uma cidade esquecida, no meio da mata.

– É muito simbólico derrubar uma castanheira, uma árvore gigante, como símbolo da chegada do progresso e do desenvolvimento, não?

Dom Erwin – Depois se falava em “benefício”. Tem que “beneficiar” a terra para você encaminhar, por exemplo, um crédito bancário. Então tinha que derrubar.

– O que era Altamira antes da Transamazônica?

Dom Erwin – Era uma cidadezinha esquecida. De dia faltava água, de noite faltava luz. Tinha um motor da prefeitura que tinha funcionado pela última vez nos 15 anos da filha do prefeito. Nos anos 60 queriam fazer uma picada para Santarém para ligá-la ao mundo e mataram não sei quantos índios. Depois veio a Transamazônica. Um compadre meu, que trabalhava como telegrafista naquele tempo, disse: “Olha, compadre, agora vem o progresso. Tinha um telegrama de um tal de Incra dizendo que vão construir uma estrada. Estão dizendo que vai chover dinheiro”.

– Um discurso muito parecido com o de agora, não? Vai “chover dinheiro”, o progresso vai chegar…

Dom Erwin – Essa é a ideia: o “progresso” vai desbravar toda essa região. Então, de fato, começou no quilômetro 5, com a derrubada daquela árvore, onde tudo era mato. E hoje você vê tudo descampado. O traçado da Transamazônica já foi feito assim porque se pensou em futuras hidrelétricas, como Belo Monte. Nos anos 70 já fizeram toda a pesquisa. Em 1950, Altamira tinha 1.200 habitantes. Em 1960, 2.800. E depois, acho que de 1965 em diante, uns 4 mil, 5 mil. Mas depois veio o boom… o pessoal veio do Nordeste, primeiro, depois do Sul. Aí Altamira ganhou outras feições. E com a Transamazônica, em 1975, se falava numa possível hidrelétrica, mas era uma coisa muito distante. Nos anos 80, então, a coisa já pegou mais vulto, até que, em fevereiro de 1989, vieram os índios…

– O senhor estava presente no I Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, em 1989? (Na ocasião, Tuíra, índia kayapó, encostou a lâmina do seu facão no rosto de Antonio Carlos Muniz Lopes, da Eletronorte, para expressar sua indignação contra o projeto de Belo Monte, naquela época chamado de Kararaô. A foto da cena correu o mundo).

Dom Erwin – Não. Eu estava na Suíça… Os índios vieram falar comigo. Queriam marcar o I Encontro dos Povos Indígenas do Xingu. Então eu encontrei, naquele tempo, não vou dizer o primeiro escalão, mas o segundo escalão do Banco Mundial, em Berna. E me avisaram: o Banco Mundial só vai fornecer o crédito (para a obra) se a cláusula indígena e a cláusula ambiental forem observadas e cumpridas. Isso, para mim, foi o sinal de arquivamento. Pensei: esse perigo já passou. Enquanto eu estava lá, ocorreu o episódio com a Tuíra, aqui. Eu conheço muito bem esse Antonio Carlos Muniz…

– Como o senhor o conheceu?

Dom Erwin – Ele me convidou, quando estive em Brasília, nos anos 90, para o gabinete dele, e me mostrou todas as coisas. Ele queria cativar-me, conquistar-me para o projeto. Fui muito bem tratado, sabia? Mas quando a gente é tratado tão bem, com beijinho etc, é preciso ficar cismado. Quando é assim, tem boi na linha. Não é porque te querem bem, mas eles querem te preparar, querem aproveitar que você está sozinho e te convencer.

– Brasília o assusta, nesse sentido?

Dom Erwin – Sim, me assusta. Meu Deus! Estive duas vezes com o Lula, também, e com outras pessoas. Eu tinha contatos bons, gente boa em Brasília que estava no nosso lado. Agora, ultimamente, estamos num certo isolamento. Porque aquele povo que antigamente lutava conosco, que estava do nosso lado, que defendia a mesma coisa, que lutou pela mesma causa, agora defende o contrário.

– Quando o Lula foi eleito, o movimento social da Amazônia tinha certeza de que Belo Monte estava definitivamente sepultada. Como foram seus encontros com o Lula?

Dom Erwin – A primeira vez foi em 19 de março de 2009. Fui com um advogado do CIMI (Conselho Indigenista Missionário), amigo meu de longa data, e com um assessor político do CIMI, que agora foi conquistado para ser membro do gabinete da presidente. Fiquei com o Lula uns 20 minutos, talvez meia-hora. Apresentei as nossas angústias e as nossas preocupações, e ele foi o primeiro a insistir que houvesse um diálogo construtivo, que se avaliasse os prós e os contras. Eu disse: “Olha, eu queria que o senhor ouvisse o povo”. Ele perguntou: “Que povo?”. Eu disse: “O povo do Xingu, os representantes do povo do Xingu”. Ele disse (Dom Erwin imita a voz e o jeito de Lula): “Manda chamar!”. Acertamos então uma segunda visita. Lembro que, ao final desse primeiro encontro, eu disse: “Lembranças para Marisa, sua esposa”. O Lula ficou até assustado, porque não estava acostumado a receber saudações para sua esposa. Quando alguém se encontra com o presidente, não lembra que ele é casado. Senti o Lula como alguém muito amigo, simpático.

– Foi a primeira vez que o senhor o viu?

Dom Erwin – Não, já tinha visto em campanha.

– Como o senhor percebeu o Lula?

Dom Erwin – Ele era aquele trator, falava pra cá e pra lá. A gente via que ele estava em campanha, que a gente era uma peça lá daquela campanha. Dá a mão, tira foto… Mas, em 2009, foi um encontro… muito amistoso. Eu ainda esperava que ele fosse se convencer de que não era por aí. Até escrevi: “Graças a Deus, Lula entendeu”. E nós marcamos outra audiência, em 22 de julho do mesmo ano. Foi muito interessante. Levamos dois índios, dois ribeirinhos, a Antonia Melo (uma das principais lideranças do Xingu), dois procuradores da República e o professor Célio Bermann (do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP). Mas o Gilberto Carvalho (chefe de gabinete do então presidente Lula, hoje ministro da Secretaria Geral da Presidência da República no governo Dilma) queria que só eu falasse em nome de todos. Do outro lado havia o setor energético do governo, todos os figurões… Nós, de um lado, humiiildes, coitados, nos sentindo como um peixe fora d’água e, do lado de lá, essa gente que mandava e até hoje está mandando… Mas a gente tinha segurança daquilo que nós queríamos. E, quando o Lula chegou, ele sentou-se ao meu lado. Eu disse: “Presidente, o senhor vai ter que ouvir esse povo. Esse povo veio de longe, quer falar com o senhor. Não pode pegar só dois que representem os outros, porque eles vão sair com uma frustração que não tem tamanho!”. O Lula então disse (e Dom Erwin imita o vozeirão do então presidente): “Deixa comigo! Vamos fazer!”. Então, de fato, ele deu a palavra a todos.

– O que eles disseram?

Dom Erwin – O povo falou de sua angústia, de que não podiam deixar a sua terra. Depois, os procuradores da República falaram das inconstitucionalidades do projeto de Belo Monte, de que os índios não tinham sido ouvidos. O Célio Bermann colocou então os pontos técnicos e financeiros que tornavam o projeto inviável. E aí é que eu vi o Lula levando susto. Ele olhou para a turma dele, dizendo: “Vocês vão ter que dar uma resposta imediata para o professor”. Mas esta resposta não veio até hoje.

– O senhor acha que o Lula estava sendo sincero ou era teatro político?

Dom Erwin – Era teatro, jogo político… Depois ele me segurou no braço e disse (imitando a voz): “Dom Erwin, nós não vamos empurrar esse projeto goela abaixo de quem quer que seja. Conte comigo. O diálogo tem que continuar. Segundo: o Brasil tem uma grande dívida com os atingidos por barragens, e essa dívida, até hoje, não foi sanada. Tem muita gente perambulando por aí que não recebeu a indenização, e a vida praticamente foi cortada para eles. Terceiro: Nós não vamos repetir (a hidrelétrica de) Balbina. Balbina é um monumento à insanidade. E quarto: o projeto só vai sair se for vantagem para todos”.

– O Lula disse isso?

Dom Erwin – Disse! Textualmente, sentado ao meu lado, me segurando nesse braço (mostra o braço esquerdo). Eu pensei, bom… o presidente não iria falar isso se não fosse verdade. Mas, as mulheres têm mais sensibilidade, têm mais intuição. A comadre Antonia Melo não quis nem tirar retrato. Os outros todos bateram foto com o Lula. Eu fiquei até estranhando, mas ela sentiu, naquele tempo, que era apenas um show. Engraçado, as mulheres, neste ponto, têm uma intuição que os homens não têm. Eu pensei: “Não, o Lula não vai mentir na minha cara!”. E ainda por cima segurando no meu braço… (Imita novamente a voz de Lula): “Dom Erwiiiin….”.

– O senhor imita bem a voz do Lula… O senhor saiu aliviado?

Dom Erwin – Aliviado não vou dizer, mas muito esperançoso, porque no final ele ainda disse: “O diálogo vai continuar, nós vamos nos encontrar de novo”. E aí, de repente, eu me dei conta de que não houve diálogo nenhum. Porque ele falou, mas não perguntou quais eram as nossas ideias, não perguntou o que nós achávamos, nem como pensávamos que seria possível resolver certos impasses.

– Como foi o clima dessa reunião?

Dom Erwin – A primeira parte da audiência com o Lula foi sem ele. Só com o setor energético, Funai e outras instâncias do governo. Esse pessoal do governo xingou os procuradores da República, dizendo que eles não entendiam nada, que não era do ramo deles, que estavam se metendo em assunto que não dizia respeito a eles. E até foram alteando a voz, viu? Fiquei até assustado, pensando que a educação tinha passado muito longe daqueles senhores. Lembrei-me de que quem grita revela que não tem argumentos para convencer o interlocutor. No fundo, essa turma tinha que admitir que a razão e o bom senso estavam do nosso lado. Assim, optaram por atitudes autoritárias e de prepotência, querendo nos intimidar, dizendo que não entendíamos nada do assunto. Do nosso lado, ninguém perdeu em nenhum momento a compostura. Não respondemos aos gritos. Os berros saíram da goela deles. Neste exato momento, o Lula entrou “em cena”, perguntando: “Vocês estão vivos?”. Porque era um berreiro, não era diálogo. A entrada do Lula na sala parecia uma ducha de água fria em cima da turma dele. De repente, eles se recompuseram. Achei ridículo! Pareciam meninos briguentos na sala de aula que, quando o professor entra de repente, ficam com medo de algum castigo ou de nota baixa e então se ajeitam. Aí o Lula me cumprimentou efusivamente, como se fôssemos amigos de longa data, “companheiros” de luta desde a primeira hora. E, não nego, me senti bem à vontade e agradeci a ele por ter nos recebido, elogiando esse gesto aberto de busca de “diálogo”. Pois naquele momento acreditei realmente no diálogo.

– E não foi?

Dom Erwin – Só caí na real quando, em outubro do mesmo ano, passei uma semana em Brasília esperando a continuação desse diálogo. A audiência foi adiada de uma manhã para a tarde, de um dia para o outro, até que, finalmente, recebi um telefonema na sexta-feira à noite em que Gilberto Carvalho me pedia desculpas, dizendo que não era mais possível ser recebido pelo presidente, pois ele tinha precisado viajar para a Venezuela. Essa viagem certamente já estava programada no início daquela semana e servia de pretexto para evitar o constrangimento de ser obrigado a me dizer que o presidente e seu staff não estavam mais interessados na continuação do “diálogo”. Em 23 de setembro de 2009 eu tinha escrito uma carta ao Lula, tratando-o ainda de “meu presidente”. Nunca recebi resposta.

– O senhor tinha acreditado na promessa de diálogo feita pelo Lula?

Dom Erwin – Eu acreditei. Havíamos dado um passo importante, porque havíamos chegado até lá. E agora, aquele setor do governo, embora tenha gritado antes, teria que dar resposta por ordem do presidente. Mas nunca houve diálogo. Naquele encontro nós mostramos o que ia acontecer, o absurdo dessa obra em todos os sentidos, inclusive em sua viabilidade financeira. E ninguém nunca nos respondeu nos provando que estávamos errados. O Célio Bermann falou, e eu entreguei para o Lula um resumo da posição do Oswaldo Sevá Filho (professor e pesquisador de Engenharia Mecânica da Unicamp), que não pôde nos acompanhar porque estava doente, assim como a posição de outros grandes professores e pesquisadores dessa área no Brasil. E todos mostravam a inviabilidade de Belo Monte, assim como a destruição que ela vai provocar. Por que esse povo não recebeu uma resposta?

– Por quê?

Dom Erwin – Porque não há resposta. Os argumentos são imbatíveis. Tem que desmontar a opinião das maiores cabeças dessa área no Brasil, tem que ter argumentos fundamentados na realidade, mas o governo não tem. E, se não tem, precisaria assumir: “Nós temos que fazer isso. É uma decisão política, e não técnica”. Se a decisão fosse técnica, Belo Monte jamais seria feita. Por isso, o diálogo foi abortado desde o início. Aquilo que Lula fez era só um show para agradar ao bispo.

“HÁ GENTE DO PT QUE PARECE FANÁTICO RELIGIOSO”

– No caso de Belo Monte, o governo defende que os índios não serão atingidos. Mas muitos ambientalistas e pesquisadores refutam essa afirmação, mostrando que não é possível barrar um rio sem que isso afete as comunidades que vivem em torno dele. Como o senhor vê essa questão?

Dom Erwin – Se o projeto de Belo Monte se concretizar, esses povos que moram na Volta Grande do Xingu serão atingidos. O governo nega, porque, para o governo, atingir o povo indígena é só quando se inunda, alaga a aldeia. A inundação, de fato, não vai acontecer. Mas o contrário acontece: corta-se a água. Se você observar o mapa, vai perceber que, nos 100 quilômetros da Volta Grande do Xingu, vai se chegar a um mínimo de água. Tenho absoluta certeza de que não haverá mais condição de pescar e de abastecer esses povos. Depois, será prejudicada a agricultura. E, por fim, eles não terão como se locomover. Ficarão barrados. Um povo submetido a uma vida nessas condições não sobrevive. Ou sobrevive por um tempo, depois acaba. Vão se esfacelar. Talvez se tornem índios citadinos. Perderão a cultura, perderão a língua. Estarão aqui, em algum subúrbio de Altamira. Não vou dizer que deixarão de serem índios, mas já não serão mais indígenas que vivem dentro de seu próprio contexto, com suas organizações e com a sua língua.

– É uma cultura que morre, um jeito de estar no mundo que morre, é isso?

Dom Erwin – Temos que fazer uma distinção: existe a morte física e existe a morte cultural. E aqui no Xingu, por causa de Belo Monte, poderão acontecer as duas coisas. A morte cultural, porque arrancarão deles a possibilidade de sobreviver em determinado espaço que, para eles, é muito significativo, porque é o chão de seus mitos, de seus ritos, é onde enterraram seus antepassados. Se você arranca isso dos indígenas, você corta o cordão umbilical deles com a terra. Precisamos compreender que eles têm outro relacionamento com a terra, diferente do nosso. Para nós, a terra é coisa que se compra e se vende. Para eles, não. Além da morte cultural, é provável que também aconteça a morte física, porque eles não estão preparados para viver na cidade. Os Arara, por exemplo, foram dizimados por doenças depois de serem contatados. Essa história nunca foi bem contada.

– O senhor afirma que Belo Monte é só a primeira de muitas barragens, uma forma de vencer a resistência para impor um projeto que é muito maior e que vai destruir o Xingu por completo. Como o senhor tem tanta certeza disso?

Dom Erwin – Todos os argumentos científicos sérios mostram que essa hidrelétrica não vai funcionar durante o ano todo. No verão, o Xingu baixa muito de nível e não existirá volume de água suficiente para fazer funcionar as turbinas. Portanto, vão investir bilhões e bilhões de reais em uma hidrelétrica que durante meses não funciona. Isso é um absurdo. E o governo sabe perfeitamente que é um absurdo. Então, é lógico que Belo Monte será só a primeira barragem. É preciso fazer tudo para que a população aceite essa primeira barragem, depois de décadas de resistência. Para, então, virem as outras. Porque só com as outras Belo Monte será um bom negócio. A segunda, a terceira e a quarta vão barrar o rio até lá em cima, em São Félix do Xingu. E aí, todas essas áreas que estão nas margens esquerda e direita do Xingu, que são áreas indígenas já homologadas, vão sofrer. E aí, os Assurini, os Araweté, os Paracanã, os Arara, e os Kayapó vão ser atingidos. É por isso que os Kayapó lá de cima, até mesmo os do Parque Nacional do Xingu, estão contra, embora estejam a mil quilômetros de distância. Eles já conhecem essa história. Depois de construir a primeira barragem, a tempestade passa, a resistência diminui – e aí completar a obra fica mais fácil. Esta é a estratégia do Governo. E aí eu afirmo: é o golpe fatal. Vão matar os índios, cultural e fisicamente.

– Parte da população brasileira acredita que os índios têm terra demais e há, inclusive, aqueles que acreditam que os indígenas são um entrave para o desenvolvimento. Por que parte dos brasileiros pensa assim?

Dom Erwin – Bom, primeiro precisamos entender que, para os índios, a terra não é uma mercadoria. Vou contar uma história real para que as pessoas entendam melhor essa relação totalmente diversa que o índio tem com a terra. Um branco mostrou um papel em que estava escrito: “República Federativa do Brasil, Título Definitivo de Terras, deste igarapé até o outro, fazendo frente com o rio Xingu e de fundos 2, 3, 5, 10 quilômetros”. Então, o índio perguntou: “Como você pode, com esse papel, dizer que é dono? Como? É um papel. Você fez a mata? Não. E a caça que está dentro da mata? Não. Você fez o rio e os peixes que estão no rio? Não. Você faz chover? Não. Você faz o sol brilhar? Não. Então, como você pode me mostrar um pedaço de papel e dizer que é dono?”.

– São formas de ver o mundo totalmente opostas, né? Só que uma delas tem o poder de impor sua visão de mundo como verdade única…

Dom Erwin – Essa cultura se choca com a cultura da sociedade majoritária, que trata a terra como mercadoria. E como mercadoria a terra tem de ser aproveitada, porque ela só faz sentido se for exaurida. Então, “aproveita” até arrasar a terra. Enquanto não tiver tirado a última gota de sangue, isto é, enquanto não tiver arrancado o minério e todas as riquezas do solo e do subsolo, o homem forjado nessa mentalidade não estará satisfeito. É claro, portanto, que as pessoas que veem a terra como mercadoria, num sistema de livre mercado, vão achar que o índio tem terra demais. O interessante é que essas mesmas pessoas nunca disseram: “Tal fazendeiro tem terra demais”. Não, isso não. Quando um fazendeiro bota uma placa e diz que a terra é dele – e aqui a grilagem de terra, como se sabe, é enorme, essas mesmas pessoas não reclamam. Mas, quando se faz a demarcação de uma área indígena, todo mundo grita. E, o mais curioso, há cidadãos que de repente aprendem geografia: “Eles têm uma terra do tamanho da Bélgica! Têm uma terra do tamanho de Portugal, uma terra do tamanho da Suíça!”.

– O que é terra, para os índios?

Dom Erwin – Para os índios, terra é vida. E, para o sistema da maioria dos brasileiros, terra é mercadoria. Talvez se consiga ainda fazer com que uns e outros entendam, pelo menos, que, ao demarcarmos as áreas indígenas na Amazônia, nós salvamos um pedaço da Amazônia.

– O senhor acredita que parte da Amazônia ainda está preservada por causa desse embate de visões de mundo?

Dom Erwin – Sim. E as pessoas precisam lembrar que a Amazônia tem uma função reguladora do clima mundial. Quer dizer: se a Amazônia acaba, o gaúcho lá embaixo, o mineiro, o capixaba vão sofrer as consequências. E nós ainda não sabemos qual é o alcance real dessas consequências. Se a temperatura aumentar três ou quatro graus, só para ficar num exemplo, será terrível! A verdade é que as consequências da destruição da Amazônia não cessarão nas fronteiras nem do Norte, nem do Brasil. Assim, os brasileiros de todas as regiões deveriam agradecer que há áreas de preservação indígena, há reservas extrativistas e há parques nacionais. É só porque existem essas reservas que há uma parte da Amazônia ainda preservada. Mas, infelizmente, as pessoas não percebem que a destruição da Amazônia também atingirá a sua vida.

– É curioso como as pessoas se sentem a salvo, não?

Dom Erwin – Pelas informações que recebi, estão planejadas 61 hidrelétricas para o Brasil, a maioria delas aqui na Amazônia. E mesmo a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) não nega que serão atingidas diretamente áreas indígenas e também parques nacionais. Falam na maior cara de pau. Então, eu gostaria de saber o que vai sobrar.

– A maioria dos setores da sociedade, inclusive o governo, fala em “desenvolvimento sustentável”. Ninguém diz que não quer o desenvolvimento sustentável. Mas, na prática, o discurso que atravessa a sociedade é o de uma oposição entre desenvolvimento e meio ambiente. Por que o senhor acha que essa visão ainda persiste com tanta força?

Dom Erwin – É um mito. Que desenvolvimento é esse? Quem vai ser beneficiado com esse desenvolvimento? Basta ver hoje a situação em que está Altamira. E a obra está só no começo. Das condicionantes prometidas, nada. De 40 condicionantes colocadas pelo próprio Ibama, e outras 24 da Funai, quase nada. Não tem infraestrutura, nem habitação, nem saúde, nem educação. Para mim, desenvolvimento é dar à população a possibilidade de viver com dignidade. Ou seja: vamos aplicar em saúde, em educação, em transporte, em habitação, em saneamento básico e em segurança. Mas, aqui, desenvolvimento é fazer dinheiro, é garantir energia para as grandes multinacionais e exportar matérias-primas. Vai beneficiar a quem esse desenvolvimento? O pessoal ainda não acordou. E esses grupos, a favor de Belo Monte e dos grandes projetos para a Amazônia, disseminam a falsa ideia de que a gente é contra o desenvolvimento, contra o progresso. Mas nós sempre lutamos pela saúde nessa cidade, pela educação, pelo saneamento básico. Esse desenvolvimento que pregam é para uns poucos, não é para o povo.

– A população tem medo de um “apagão”…

Dom Erwin – Sim. Esses grupos, favoráveis às grandes obras na Amazônia, ficam também operando com o fantasma do blecaute, do apagão. Ficam dizendo: “Olhe, os gaúchos que se cuidem, porque no inverno gaúcho não terá mais chuveiro elétrico, e depois não vão mais poder ver a novela das oito”. Mentira! Essa energia será exportada em forma de lingotes de alumínio. E ela não é nada limpa… E muito menos barata. Nós não temos excelentes universidades, cientistas de primeira classe, tecnologia de ponta? Por que não se investe agora para procurar fontes alternativas de energia? Aqui, nós temos sol das seis da manhã às sete da noite. No sul da Alemanha, por exemplo, não há mais uma casa que não tenha placa solar. E olha que eles têm um inverno comprido. Lá, em dezembro, o sol nasce às 9h, 10h, e às 5h da tarde já está escuro. E nós, aqui, às 6h já assistimos ao sol nascer. Temos sol até às 7h da noite. Por que não aproveitamos essa dádiva divina? E depois existe o litoral… O Brasil tem um litoral enorme, que não tem fim. Por que não aproveita um pedaço, pelo menos, onde não há turismo, para investir mais em energia eólica? E, ainda, grande parte dos linhões de transmissão está obsoleta. Perde-se uma enormidade de energia por causa dessa deterioração. Por que não investir no reparo e no restauro dos linhões de transmissão?

– Por que o senhor acha que o governo quer tanto fazer Belo Monte?

Dom Erwin – Esta é minha grande pergunta. Eu não tenho resposta. Apenas vou adivinhando. Por que o Lula era contra e de repente está a favor? Por que o PT era contra Belo Monte e depois de chegar ao governo passou a defender exatamente aquilo que antes combatia? Por que os deputados que nós elegemos aqui hoje são a favor e não sabem nem por quê? O que há por trás? Por que essa metamorfose camaleônica? Na campanha era contra, como é o caso do deputado Zé Geraldo (PT-PA), que andava aqui embaixo, na beira do rio, dando as mãos e rezando, de camisa branca, participando de místicas. E agora, meu Deus! Ele defende exatamente o contrário: “Belo Monte tem que sair, a gente não pode colocar a Amazônia debaixo de uma redoma”. Ninguém está propondo uma Amazônia intocável. O que nós que nos unimos na posição contra Belo Monte defendemos é que as riquezas da Amazônia sejam usufruídas de uma maneira inteligente – e não de uma maneira burra.

– Historicamente, o movimento de resistência à Belo Monte sempre apoiou o Lula. O que aconteceu?

Dom Erwin – Aqui, a resistência contra Belo Monte se identificou com o PT, ou o PT se identificou com a resistência contra Belo Monte. Isso até o Lula tomar posse. Quando descobrimos que o Lula tinha mudado de ideia, caímos das nuvens. Meu Deus, como é que pode? E então os petistas daqui também mudaram de lado. Começaram, inclusive, a hostilizar as pessoas que ainda defendiam o Xingu contra esse monstro. Há gente que antigamente sentava aqui nesta sala e que hoje não aparece mais, porque sabe que o bispo permanece na sua posição contra Belo Monte. Há gente do PT que parece fanático religioso. Fanático religioso é terrível, né?

– Por quê?

Dom Erwin – Porque não tem discussão, não tem diálogo. Com fanático você nunca vai entabular um diálogo que preste, ele já se julga dono da verdade, tem a sua certeza. Então, o PT diz: “As razões defendidas pelo partido têm que estar acima da própria consciência dos partidários”. E muita gente reza pela cartilha do PT porque acha que aí está tudo resolvido. Na realidade eu não posso, por causa da minha filiação partidária, ter opinião própria, ou opinião divergente. Aqui, quem tinha opinião própria e não quis trair a sua consciência, como Antonia Melo, se desfiliou do partido.

– Foi um golpe muito grande essa mudança de posição com relação à Belo Monte?

Dom Erwin – Foi uma traição, um golpe tremendo. É muito duro você ser traído por pessoas a quem você deu as mãos. Inclusive foram perguntar, à boca pequena: (fala baixinho): “Bispo, em quem vai votar? O senhor não pode falar isso no sermão, mas em quem o senhor vai votar?”. Eu disse: “Eu vou votar no Lula. Afinal de contas, é o partido que nasceu e surgiu das bases, etc. Temos que lutar por outro Brasil, gente”. Tempos depois o povo passou a dizer: “Agora o bispo está engolindo…”.

– Está sendo difícil engolir o que o senhor chama de “traição”?

Dom Erwin – Eu nunca falei em público sobre o meu voto, mas todo mundo sabia que nós queríamos um Brasil diferente, um Brasil justo, fraterno, sem corrupção, um Brasil com ética e com todos esses ideais que nós tínhamos e ainda defendemos. Mas os caciques do PT da primeira hora foram embora. Quem está aí dos antigos? Se afastaram. Notaram que foram traídos também. Eu me sinto traído. Agora dizem: “O bispo era a favor dessa petezada”. E agora eu tenho que engolir os sapos…

“HOJE VIVEMOS EM UMA DITADURA CIVIL”

– O senhor acha que a construção de Belo Monte marcará negativamente a biografia de Lula e de Dilma Rousseff?

Dom Erwin – Se Belo Monte se concretizar, o Lula será lembrado como aquele que destruiu a Amazônia, e deu o golpe nos povos indígenas. É a expressão mais macabra de seu orgulho: fazer um monumento para si à custa de povos que, através do mesmo monumento, condenou à morte. E, no fundo, no fundo, este monumento irá ajudar mais o Exterior do que o Brasil. O Lula vai entrar para a História como aquele que arrasou o Xingu. Não apenas com o rio, mas também com os povos do Xingu. E eu não gostaria de carregar uma fama como essa nas minhas costas, até morrer – e ainda para além da minha vida neste mundo.

O que o senhor quer dizer com “monumento”?

Dom Erwin – O Lula quer ter esse monumento no nome dele. O Lula não tem ideia de desenvolvimento. Desenvolvimento para ele é ter mais dinheiro à disposição e exportar, exportar, exportar, aumentar o PIB. Só que essa obra não terá ressonância na melhoria da vida do povo. Pelo contrário.

– O senhor acredita, então, que o Lula não entende a Amazônia?

Dom Erwin – Nunca entendeu. E muito menos entende de índio. Ele nunca se deu ao luxo de se aprofundar nisso. Para a Amazônia, ele só veio em campanha. Mas ele não tem ideia da complexidade da Amazônia e também nunca perguntou… Você não pode comparar o Rio Grande do Sul com o Pará. Quando visito o Sul, me dizem: “Mas onde o senhor mora?”. Eu respondo: “Altamira”. Eles então dizem: “Ah, é, Altamira? Nós também temos uma tia no Recife”. Recife. As pessoas nem sabem direito onde fica o Norte. Confundem com o Nordeste. As culturas aborígenes aqui, as culturas autóctones, são diferentes. E tem que viver aqui para compreender isso. O Lula nunca entendeu – e nunca achou que era preciso entender. E, no final do mandato, ele entrou em delírio.

– Delírio?

Dom Erwin – Delírio. Poder. Ele se deleitava com as cifras, com as estatísticas. Aqui mesmo ele falou lorota.

– Lorota?

Dom Erwin – Disse que o pessoal que é contra Belo Monte são uns “meninos e umas meninas que não compreendem”. Disse que ele também, quando era mais novo, era contra Itaipu, porque diziam, naquele tempo, que ia alagar a Argentina. Ele zombou da dor e das reivindicações legítimas das pessoas de Altamira com ideias e vivências diferentes das dele. Eu disse, ao ouvir o seu discurso: “Meu Deus, e isso na boca do presidente!”.

– Desqualificou quem protestava?

Dom Erwin – Desqualificou. Em 2006, num banquete oferecido pelo então governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, ganhador do troféu “motosserra de ouro” por sua contribuição ao desmatamento do país, Lula também havia se deixado levar a uma declaração comprometedora. Identificou os índios, os quilombolas, os ambientalistas e até o Ministério Público como “entraves” para o progresso. Considerou ainda “penduricalhos” os artigos da legislação ambiental, pois estes parâmetros legais estariam travando o desenvolvimento do país. Por isso a ordem é de desconsiderar ou, pelo menos, não dar tanta importância a impactos sociais e ambientais. Caso contrário o país, na opinião de Lula, estaria condenado à estagnação. Pode até ser que o presidente posteriormente tenha se arrependido do que falou de improviso, mas a mídia já havia divulgado a gafe.

– Como o senhor vê o discurso do “A Amazônia é nossa!”, que parece servir para tudo, inclusive para destruí-la?

Dom Erwin – A Amazônia é nossa… (ri) Ninguém nunca duvidou da soberania do Brasil sobre a Amazônia. Quem vai duvidar? Quem vai acreditar em algo como: “Agora vêm uns americanos apoderar-se daqui….” Não faz nenhum sentido. Isso não vai acontecer. Quem vê, em sã consciência, a configuração do mundo de hoje sabe que isso não vai acontecer nunca. Agora, o mesmo Lula e presidentes anteriores que disseram “A Amazônia é nossa” entregaram parte dela para as multinacionais que mandam aqui. De onde vêm essas firmas todas? São todas multinacionais. Têm a sua parte brasileira, sem dúvida. É preciso ter nome brasileiro, mas o capital…

– Mas esse discurso xenófobo costuma funcionar, né? Ele transforma um outro hipotético em inimigo maior e tira o foco do que realmente está em jogo… A gente vê isso em toda parte, inclusive com nossos vizinhos…

Dom Erwin – Sim, é um nacionalismo besta, nós já o conhecemos da História. E em que deu? Nacionalismo é ruim, sempre traz ao povo a aversão contra o que vem de fora. Deteriora todo o relacionamento, porque o recado é: “Nós somos os tais, os outros não são nada!”. Inclusive reclamam disso, às vezes, quando a gente anda lá fora, em outros países latino-americanos. Eu me lembro de um encontro do qual participei e todos tinham de se apresentar. Então eu disse: “Soy el obispo de la circunscripción eclesiástica más grande de Brasil”. O Xingu é a maior prelazia do Brasil e eu achei que era importante dizer, para que entendessem de onde eu vinha. Mas me olharam com certo desdém e disseram: “En Brasil, todo es lo más grande”. Os países latino-americanos têm uma aversão muito forte ao imperialismo brasileiro.

– É como se o Brasil fosse “os Estados Unidos da América do Sul”, né? Ouço essa expressão por onde ando…

Dom Erwin – Eu me calei e não disse mais nada. Então, se nós, dentro do Brasil, criamos esse tipo de xenofobia, precisamos nos dar conta de que isso é do tempo do onça, pertence a uma época histórica ultrapassada. Temos de mudar a nossa cabeça para estarmos à altura desse novo momento histórico. Num mundo chamado globalizado não podemos viver desse jeito. Por que não nos irmanamos realmente? Aqui no Brasil nós gritamos nossa aversão contra o estrangeiro e, quando o brasileiro vai lá fora, ele sente o mesmo na pele.

– O senhor viveu na Amazônia o projeto da ditadura militar, a mentalidade do “Brasil Grande”. O senhor encontra semelhanças entre o projeto de desenvolvimento para a Amazônia da ditadura e o projeto de desenvolvimento para a Amazônia dos governos democráticos de Lula e de Dilma?

Dom Erwin – Sim. Para mim, a única diferença é esta: hoje, temos uma ditadura civil… eleita.

– Por que uma ditadura?

Dom Erwin – Ditadura é quando alguém manda sem respeitar a Constituição: “Quem manda sou eu”. O paradigma é Belo Monte. Ao contrário do que o Lula afirmou, é um projeto imposto. As audiências públicas, previstas em lei, foram meros rituais para inglês ver. Montaram um enorme aparato policial para intimidar quem é contra Belo Monte. Os que serão realmente atingidos pela barragem não tiveram oportunidade de se manifestar. A maioria deles nem conseguiu se fazer presente, porque não mora na cidade em que a tal de audiência aconteceu. Sustento até hoje a convicção de que as licenças concedidas para o início da obra são inconstitucionais. As condicionantes previamente estabelecidas pelo próprio governo através do Ibama, como já falei, não foram cumpridas. O caos em Altamira é a prova mais eloquente de que o governo desrespeitou uma cidade com mais de 100 mil habitantes, tratando-a como o lixo do mundo. Os parâmetros constitucionais que amparam os cidadãos em termos de saúde, educação, habitação, saneamento básico, segurança, transporte simplesmente não foram e não estão sendo respeitados. E o governo faz vistas grossas. Não está nem aí. E ainda há político que, com a maior cara de pau, afirma que se trata do preço a ser pago pelo progresso. Verdade é que nem ele mesmo e nem a sua família o pagam. É o Pará que continua sendo tratado como “colônia”, explorado e aviltado, condenado a pagar, em termos ambientais e de prejuízos para seu povo, um preço exorbitante pelo “progresso” do resto do Brasil.

– De que forma os presidentes Lula e Dilma teriam desrespeitado a Constituição?

Dom Erwin – Os artigos 231 e 232, que na Carta Magna do Brasil tratam dos indígenas, estão sendo desrespeitados. As oitivas indígenas previstas em lei não aconteceram. Podemos inclusive provar que os índios foram enganados. Prometeram-se oitivas a eles e, depois, maquiaram de “oitiva” um simples encontro informal em que os índios foram meros ouvintes e em nenhum momento lhes foi perguntada a sua opinião. Má fé! Enganação! Pouca vergonha! Se o governo toma posições que não se coadunam com a Constituição Federal, então o Brasil, como Estado democrático de Direito, corre sério risco. O governo não está acima da Constituição. Se o governo se comporta de modo inconstitucional, então vivemos novamente numa ditadura.

– O Edison Lobão, ministro de Minas e Energia, falava em “forças demoníacas contra as hidrelétricas”. E o senhor já se referiu à Belo Monte como “monstruosidade apocalíptica”. Quando o senhor fala em “monstruosidade apocalíptica”, o senhor está dizendo exatamente o quê?

Dom Erwin – Demoníacas são as forças que o Lobão emprega para arrasar o Xingu. A destruição não vem de Deus. E o Lobão fala sem conhecer nada daqui. Nunca o vi por aqui. De lá, da altura do Planalto, são decididas as coisas. Aliás, é essa a nossa triste sina aqui na Amazônia. As decisões são sempre tomadas alhures, sem conhecer a nossa realidade, sem perguntar nada a ninguém. O nosso Pará e a Amazônia continuam sendo tratados como província. Antigamente o Brasil era uma “colônia”. A metrópole era Lisboa. Hoje a metrópole pode ser São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre. Nós aqui somos tratados como colônia. Uma colônia é onde a gente vai buscar as coisas. É por isso que a Amazônia é apelidada de “província mineral”, “província madeireira”, “província energética” e “última fronteira agrícola”. O pessoal vem, tira o que tem, e não sente nenhum remorso, ou o dever de pagar a conta. Carajás é o caso mais emblemático: arranca-se o minério, o que sobra é uma paisagem de crateras lunares. Quando a referência é a riqueza natural, se afirma em alto e bom som: “A Amazônia é nossa”. Por outro lado, quando a Amazônia necessita realmente de colaboração efetiva, de solidariedade concreta, tem-se a impressão de que nem pertence ao Brasil, é outro país. São dois discursos conflitantes. “A Amazônia é nossa”, mas na prática ela não é nossa – ou só é nossa quando precisamos dos recursos dela. De resto, está lá longe, que ela mesma se vire.

– Por que o senhor acha que essa relação colonial de exploração se perpetua na Amazônia até hoje?

Dom Erwin – É uma relação histórica. Vale inclusive lembrar que o Pará só aderiu à independência um ano depois do assim chamado “Grito do Ipiranga”. A Amazônia sempre pareceu outro mundo. E esta realidade se perpetuou até os dias de hoje. A Amazônia é “outro Brasil”, é “colônia” para o resto do Brasil, é a “província” prenhe de riquezas naturais para os outros, não para o uso e benefício próprio. Creio que o estado do Pará seja o mais rico em recursos naturais. No entanto, continua um dos mais pobres do Brasil.

“NÃO HÁ PALAVRAS PARA O QUE SENTI DIANTE DO CAIXÃO DA DOROTHY”

– O senhor acha que a luta contra Belo Monte é perdida?

Dom Erwin – Não, não acho. Eu não sou o tipo que pendura as chuteiras logo.

– A resistência parece estar diminuindo, agora que as obras já começaram e comunidades inteiras foram retiradas. Qual é a sua percepção?

Dom Erwin – Parece que a resistência está diminuindo. Mas as aparências enganam. Tem menos palanque, menos passeatas, menos manifestações públicas. Mas tem mais imprensa. Belo Monte, nos meios de comunicação nacional e internacional, continua sendo manchete, até de forma mais intensiva. De onde não se esperava nenhum apoio, surgem hoje vozes bem críticas e questionadoras. Há gente que anos ou até meses atrás defendeu Belo Monte e que hoje se manifesta contra. Logicamente, o caos que se instalou em Altamira ajuda o povo refletir. Foi isso que nós esperávamos? É esse o progresso tão sonhado? É esse o desenvolvimento prometido pelo governo e cantado e decantado em verso e prosa pelos políticos como “salvação do oeste paraense”?

– Como é a convivência em Altamira, entre opositores de Belo Monte e o pessoal do Consórcio Norte Energia, que executa obra? Afinal, Altamira é uma cidade não muito grande…

Dom Erwin – Nós sempre usamos meios pacíficos para expressar e manifestar nossa posição. Quem reage de modo agressivo é o governo e seu Consórcio Norte Energia S.A., que lapida e viola direitos, fere a própria Constituição Federal e chega ao absurdo de interditar a presença de representantes do Movimento Xingu Vivo para Sempre nas proximidades do canteiro de obras. Eu sou e sempre fui contra qualquer emprego de violência. Eu sou pela não violência, mas uma não violência ativa. Vamos usar de todos os meios não violentos para conseguir derrubar essa obra monstruosa. A prova que a violência está do outro lado é que estou há seis anos completos sob proteção policial. Por que teriam decidido me colocar sob a tutela da Polícia militar, se não estivessem com medo de alguma agressão que poderia ser fatal? Quem matou a Irmã Dorothy? Quem matou o Dema (Ademir Alceu Federicci, líder comunitário assassinado em 2001 no Pará)? Quem mandou matar tantos outros na Amazônia? Será que foram os engajados na defesa dos Direitos Humanos e do Meio Ambiente na Amazônia contra as investidas inescrupulosas dos facínoras de paletó e gravata em todos os níveis da política e da economia, das grandes empresas e dos grileiros de plantão?

Como o senhor lida com a necessidade de escolta 24 horas por dia, todos os dias? Imagino que seja bem difícil…

Dom Erwin – A gente não se acostuma. O relacionamento com os militares é muito bom, eles são muito respeitosos, são discretos. Agora, por exemplo, como você está aqui, eles não vão ficar na porta para ouvir o que você está falando, porque você havia telefonado, e o nosso encontro estava combinado. Mas eles são muito sensíveis quando desconfiam. É uma vida complicada para mim. Ao atravessar a praça para rezar a missa, ou para almoçar, ou para qualquer movimento meu, tenho que levar os policiais comigo. Ao ser convidado para um aniversário, para um batizado, tenho que dizer: “Vão dois ou três policiais comigo”. Se você me convida, vamos supor, para jantar hoje à noite, na beira do cais, comer um peixe, tenho que avisá-la: “Aceito, mas eu vou com dois homens”. Assim, geralmente declino de qualquer convite social.

O senhor não tem mais privacidade…

Dom Erwin – Não. Desde 29 de junho de 2006, às 22h. Nesta data, neste horário, apareceu o comandante com dois policiais aqui e, desde então, estou sob escolta. Para mim, a vida mudou muito desde então. Proibiram-me tudo. Em vez de andar às 5 horas da manhã na beira do Xingu, é aqui nesse corredor que eu ando: 65 passos para frente, 65 para trás.

– E vai ser assim para sempre?

Dom Erwin – Pelo que eu vejo… Em 26 de janeiro de 2009, o superintendente regional da Polícia Federal no Estado do Pará, Manoel Fernando Abbadi, me recebeu em audiência. Foi muito gentil e compreensivo. Naquela ocasião, ele me aconselhou seriamente a não solicitar a saída do programa de proteção. Ao me desligar do programa, eu me tornaria alvo fácil dos que querem me eliminar e poderiam fazê-lo sem maiores obstáculos, já que viajo muito pelo interior.

Por que o senhor está ameaçado de morte?

Dom Erwin – Acho que há quatro motivos. O primeiro é a Dorothy (Stang). Esse pessoal que a matou, que mandou matá-la, sabe que tenho as informações. Eles não me veem com bons olhos.

– Informações?

Dom Erwin – Eu sempre tomei partido em favor dela. Disseram que a Dorothy estava armando o povo e não sei mais o quê… Eu, que aceitei essa mulher aqui, sempre a defendi. Tinha falado para ela: “Cuidado, Dorothy”. Alguém até fretou um avião aqui em Altamira para me encontrar em São Félix do Xingu. Pediram que eu tirasse a Dorothy “de circulação” e a mandasse de volta para os Estados Unidos. Fretaram, sim, um avião! Uma hora e meia de voo. Eram 9 horas da manhã. Eu rezava o breviário na casa paroquial, pouco antes de ir para uma comunidade. De repente, bateram na porta, e eu abri: “O que vocês fazem aqui?”. Eram fazendeiros. “Temos que falar urgente com o senhor, fretamos um avião para encontrar o senhor. O senhor vai ter que tirar essa mulher de Altamira”.

– E o senhor já disse isso para a polícia?

Dom Erwin – Polícia? Naquele tempo eu não falei com a polícia. Não falei porque não confiei, mas aguardei ser chamado em juízo para contar o que sei. Isso nunca aconteceu. Não se lembraram de que fui eu que a admiti em 1982 na prelazia do Xingu e sugeri a ela que fosse para a Transamazônica-Leste, para a área que hoje corresponde ao município de Anapu. Em 15 de fevereiro de 2005 enterrei a Dorothy. Enterrei. Você não imagina o que passa no coração de uma pessoa quando está diante de alguém que durante tantos e tantos anos trabalhou e que deu o melhor que podia dar. Que pediu para mim para trabalhar entre os pobres mais pobres. E eu disse: “Mulher, tu não vais aguentar isso. Tu vens lá dos Estados Unidos, com conforto e tudo, tu não vais aguentar”. E ela: “Mas me deixe”. Deixei, e ela ficou até o dia em que foi assassinada. De repente, no aeroporto de Belém, quando estou voltando para cá, recebo um telefonema: “Mataram a Dorothy”. E aí foi aquela confusão toda, e finalmente a enterrei, lá em Anapu.

– O que o senhor sentiu?

Dom Erwin – É uma experiência terrível! Terrível! Impossível de descrever. Vieram senadores, deputados, representante do Lula, vieram tantos políticos para o enterro. Ficamos lá, diante do caixão, bandeira brasileira por cima do caixão…. Eu posso lhe dar todos as homilias que eu fiz nos aniversários de morte da Dorothy. A cada ano que passa celebramos a morte dela, e eu faço um homilia especial. Mas o que eu senti lá naquele momento, diante do caixão, não tenho palavras para expressar, não há palavras para mim. (Faz um longo silêncio). Mataram a Dorothy. Não morreu de morte morrida, como se diz, mas de morte matada. E por quê? Porque se colocou do lado de pobres coitados que não têm onde cair morto. E o fato de ela se colocar ao lado dos pobres coitados fez com que a ganância e a ambição desses insaciáveis fosse colocada em xeque.

– O que mudou depois da morte dela?

Dom Erwin – É até constrangedor para mim responder a esta pergunta. Houve avanços, sim, na gestão e na administração dos PDS (Projetos de Desenvolvimento Sustentável). O povo simples até hoje se sente respaldado pela morte da Irmã na luta pelos seus direitos à terra e à sobrevivência naquela terra. A Romaria da Terra, que se realiza em Anapu todos os anos, no mês de julho, é prova de que o povo daquela área rural continua firme e decidido na defesa do que é dele. Mas há o outro lado, que é muito triste. Por isso digo que é constrangedor responder. Há gente que hoje ocupa cargos políticos e melhorou de condições de vida que antes andava de braços dados com a Irmã Dorothy e conosco. Hoje está do outro lado e defende o que antes condenou. Chamo esse tipo de gente de traidor, como também chamo o partido que incorpora hoje essas pessoas de traidor. Venderam a mãe, traíram os ideais, perderam a ética.

– E quais foram as outras razões, além da morte da Irmã Dorothy, para a sua escolta permanente?

Dom Erwin – A segunda razão para a proteção é que eu sou presidente do CIMI (Conselho Indigenista Missionário) e me empenho em favor dos povos indígenas. Sempre lutei ao lado deles. Sei que a Igreja cometeu muitos erros ao longo da sua história, mas não adianta lamentar o passado e condenar o que aconteceu. O importante é fazer diferente. Como o nosso papel foi fundamental na inserção dos direitos indígenas na Constituição Brasileira, foi neste contexto que eu sofri um acidente em 1987.

– Um acidente ou uma tentativa de homicídio?

Dom Erwin – Até hoje nunca investigaram. Eu fiquei seis semanas no hospital. Quebrei a cara, literalmente. Mas me consertaram. Um padre morreu, com apenas 31 anos. Os primeiros dias foram terríveis. Eu aprendi o que era dor no hospital, sem poder dormir. A noite não passa, e você começa a avaliar também a sua vida. Pensei muito na família do padre que morreu, único filho homem daqueles pais. Foi terrível.

– Como foi esse acidente?

Dom Erwin – Em agosto de 1987, durante cinco dias, um dos jornais de maior circulação no país publicou matérias horríveis contra o CIMI. Acusaram-nos de tudo. E eu era presidente do CIMI. Foi constituída uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito. Você ouviu falar em Márcio Thomaz Bastos, né? Naquele tempo ele era presidente da OAB. Encontrei-me com ele na sede da CNBB. Dom Luciano Mendes era o presidente da CNBB e meu grande amigo, defensor intransigente dos povos indígenas e de seus direitos. Considero-o um santo! Pois bem, Márcio Thomaz Bastos me disse: “Dom Erwin, não se preocupe. Essas acusações não têm nenhum fundamento, são grosseiras e de baixo nível. Vamos elaborar um dossiê completo e responder a cada calúnia”. Os advogados do CIMI me pediram que eu não saísse de Altamira, ou pelo menos que não fosse distante. Brasil Novo fica a cerca de 45 quilômetros de distância. E as comunidades da Transamazônica estavam reunidas lá para exigir do governo o conserto das estradas. O inverno, período das chuvas, estava chegando, e as estradas estavam intrafegáveis. Não tinha acesso para hospital, para médico e até uma dor de dente podia ser fatal. Eu então fui me solidarizar com esse povo no dia 15 de outubro de 1987. Rezamos missa, cantamos. E aí me perguntaram se eu não poderia voltar no outro dia, porque seria o encerramento da manifestação deles. Mas caíram na besteira de avisar pelo alto-falante: “Olha, nosso bispo vai voltar amanhã, e às 3h da tarde vamos celebrar a missa. Depois a gente encerra a nossa manifestação lendo a carta de nossas reivindicações”. Aí eu fui lá. Exatamente no meio do caminho, o acidente aconteceu. No topo da ladeira, eu vi um carro de cor clara. E pensei que esse carro viesse ao meu encontro. Mas ele não veio até hoje. Dizem que estava lá apenas para dar o sinal. Bem no topo da ladeira, que abre para uma reta, veio um caminhão e abalroou o nosso Gol. Mesmo gravemente ferido, eu não perdi a consciência em nenhum momento e vi ainda dois homens descerem do caminhão e empreenderem a fuga. Bati no ombro do padre ao meu lado e chamei o seu nome. Não respondeu mais. Estava morto.

– Foi uma tentativa de homicídio?

Dom Erwin – Era o que se dizia. Mas até hoje não foi feita nenhuma investigação. O motorista desapareceu. No carro que estava lá no topo da ladeira para dar o sinal de que estávamos vindo estava o delegado de Brasil Novo. Ele foi morto poucos meses depois, quando assistia à televisão, na sua casa. Queima de arquivo? Não sei. Só sei que eu fiquei fora de combate e até hoje não fui chamado à Brasília para depor e tomar posição frente às calúnias e difamações criminosas. O processo foi arquivado. Um desconhecido foi ver o padre falecido no necrotério do hospital em que me internaram para os primeiros socorros. Afastou o lençol da cabeça do falecido e declarou: “Foi o errado que morreu!”. Coisa macabra! Até hoje há pessoas que não admitem o meu trabalho junto aos índios. E xingam: “Esse bispo não tem o que fazer, fica defendendo esses caboclos”. A defesa dos índios, então, é a segunda razão para que minha vida seja protegida. A terceira razão é Belo Monte. No jornal O Liberal estava escrito: “Esse religioso que está em Altamira tem que ser eliminado”.

– Mas quem disse isso?

Dom Erwin – Em 2006, empresários e políticos declararam guerra contra o bispo do Xingu e os movimentos sociais. Gritaram do alto de seus palanques: “Vamos para a guerra!“. E prometeram “descer o cacete“, numa explícita incitação à violência. Alicerçaram essa sórdida investida em um artigo publicado na página 11 do jornal “O Liberal”, de Belém do Pará, de 5 de junho de 2006. O artigo era assinado pelo economista Armando Soares e intitulado: “Reagir é a palavra de ordem”. Até a própria CNBB moveu um processo. Então, entre outras coisas, sempre gritavam: “Enquanto esse bispo existir, Belo Monte não vai sair”. Uns meses atrás, um cara ainda gritou na frente de uma funcionária nossa: “Mataram a Dorothy, que não tinha nada a ver. Quem tinha de estar morto era esse bispo”. É com toda essa hostilidade que alguns me tratam. É uma minoria, eu diria até insignificante, mas muito barulhenta. Uma máfia. O povo não está contra o bispo, disso tenho certeza. Pelo contrário, nunca recebi tanta declaração de amor como a partir desses episódios. Na igreja, botaram faixas: “Nós te amamos”. Uma mulher veio ao altar, pegou o microfone, chorou e disse: “Dom Erwin, eu sei o que o senhor está passando. Mas, olhe, não entregue os pontos, pelo amor de Deus. Nós estamos ao seu lado! Nós te amamos…”. E a quarta e última razão, que pode até ser a gota d’água, o que fez a coisa transbordar, foram os abusos sexuais de meninas. Outro capítulo terrível que vivi. Nós já lutamos naquele tempo dos emasculados (uma série de meninos castrados e assassinados na região de Altamira), não sei se já ouviu falar…

– Sim.

Dom Erwin – Aconteceu de 1989 a 1993. A prelazia assumiu a defesa dessas famílias e até hoje nós movemos os processos. Ninguém fez nada, até que a prelazia assumiu a causa. E fomos gritar pelo Brasil e pelo mundo afora. E, de repente, em março de 2006, vieram as mães e as professoras dizendo: “Bispo, a coisa está ruim mesmo. Tem uns absurdos acontecendo aqui. O pessoal foi na delegacia dar parte, mas chamaram as nossas filhas de ‘putinhas’”. Pegavam as meninas aqui no colégio, na sexta-feira à tarde. Meninas de 12, 13 anos, bonitinhas, em um carrão, dizendo: “Vamos dar uma volta!”. Levaram-nas para uma chácara e fizeram sexo com elas. Rolou álcool e drogas. Verdadeiras orgias. E, como se isso não bastasse, filmaram tudo. Podia pegar um DVD aqui, em qualquer canto, com as mocinhas do colégio daquele jeito. Aí vieram falar comigo. Aí assumi essa causa. Fiz logo uma carta para o secretário Paulo Vannuchi (secretário nacional de Direitos Humanos no governo Lula), e depois para o ministro da Justiça, para o secretário de Estado de Segurança Pública, e para tudo quanto era gente grande. E, de fato, houve uma repercussão. Mandaram uma delegada, e ela me pediu que falasse o que sabia. Convidou-me para um encontro na Delegacia da Mulher. Aí contei tudo. Mas disse: “Olhe, a única coisa que não vou lhe dizer são os nomes, porque as pessoas que me confidenciaram isso podem correr riscos”. Ela concordou. Então assinei o depoimento. E quando eu saí daquele gabinete já vi um daqueles caras sentado. Ele me reconheceu, e eu também o reconheci. E aí logo correu a notícia pelas ruas da cidade de que o bispo tinha denunciado aquela quadrilha. Depois os canais de TV vieram entrevistar-me e eu, naturalmente, não tive mais papas na língua. Na hora da entrevista eu disse, diante da televisão: “Esses caras são todos uns monstros, que têm de ser presos e trancafiados. Eles não merecem viver no meio da sociedade!”. Aí houve uma virulenta, uma forte campanha contra mim, inclusive com faixas.

– Como o senhor lida com a impotência, no sentido de que, apesar de todos os seus esforços, são muitas as derrotas e, como o senhor contou, muitas as traições?

Dom Erwin – Precisamos entender que nem tudo é derrota ou fracasso. Se eu comparar a época de 1965 e o tempo atual, vejo que o povo também se tornou mais maduro. O povo não engole mais qualquer sapo. Antigamente, o político vinha aqui, comprava uma grade de cachaça, embriagava todo mundo, mandava matar um porco e saía eleito. Hoje, não. O pessoal simples do povo ganhou maturidade política. E nós formamos as comunidades desde a construção da Transamazônica, lideranças que estão na frente até hoje. Quando vejo, também, os direitos indígenas na Constituição, os artigos 231 e 232, sei que fiz a minha parte. Eu não posso dizer que sou um frustrado, de jeito nenhum.

– Me chama atenção o número de mulheres à frente da luta contra Belo Monte. Fora um ou outro homem, são as mulheres que estão liderando a resistência. Como o senhor vê esse fenômeno?

Dom Erwin – Para mim se trata de uma predisposição psicológica que as mulheres tem. Os homens são imediatistas. A gente escuta isso: “Vai ter dinheiro na praça!”. Digo até que os homens são ingênuos. Havia comerciante que pensou que iria “enricar” por conta de Belo Monte. Mas uns já começaram a ficar com o pé atrás, porque estão notando que o dinheiro não chegou até agora. Mas a mulher está ligada, pelo seu ser, por seu coração e por sua psique à geração que vem. A mulher coloca gente no mundo, dá à luz, e está quase que instintivamente preocupada com o futuro da prole. Essa tese se sustenta pela antropologia e pela psicologia. Eu tenho percebido nesses anos todos que as mulheres sempre têm muito mais visão para o futuro porque se trata do filho, da filha, do neto, da neta, cujas vidas estão em jogo. E o homem pensa no dinheiro, no imediato. Não digo todos os homens, mas uma grande parte. Políticos também. Políticos falam na salvação e redenção do oeste do Pará. Com raras exceções não têm visão que ultrapassa a ambição de ganhar votos e manter-se no cargo. E mais uma vez eu volto para o índio. Em 2007, no final de uma reunião, um índio subiu na carroceria do caminhão, pegou o microfone e disse: “Olhem para o Xingu e pensem o que será de nossas crianças. Nós não vamos permitir que a cultura dos nossos antepassados vá para o fundo do rio”. Ele fez a ponte entre o futuro e o passado.

– Mas há notícias de que a maior parte das etnias indígenas abriu mão da resistência em troca de “benefícios”, de cestas básicas a voadeiras e televisões. Qual é a sua percepção?

Dom Erwin – Há uma nova maneira de acabar com os povos indígenas, o “auricídio”, além do genocídio e do etnocídio. Mata-se a cultura e a organização comunitária indígena com o dinheiro. E esta agressão talvez seja pior e mais sutil e desavergonhada, pois mata a cultura e as organizações sociais dos povos indígenas sob a aparência de solidariedade – e sob o manto da indenização para mitigar impactos e efeitos negativos de Belo Monte. Nunca digo que o índio está a favor de Belo Monte. Depois de viver séculos à margem da sociedade, passando necessidades e rejeitado pela sociedade majoritária, de repente está na berlinda e é brindado com todo o tipo de presente e benefício. Quem vai aconselhá-lo a não receber tais benefícios? Só que atrás desses presentes existe um sistema, uma estratégia de quebrar a resistência dos povos indígenas.

– Quando o senhor fala da liderança das mulheres, na luta contra Belo Monte, atribui sua motivação à preocupação com as gerações futuras. Como o senhor enquadraria a presidente Dilma Rousseff nessa visão?

Dom Erwin – É, a Dilma, não sei o que dizer…

– Ela é a primeira mulher na presidência do país…

Dom Erwin – Eu gosto de uma mulher na presidência, mas eu pensei que, como mulher, ela ficaria mais sensível à nossa situação. Mas foi a Dilma quem pariu o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Então, politicamente, ela nunca vai se afastar disso. A gente pode fazer a manifestação que fizer. Mas ela corta qualquer diálogo, já na raiz. Belo Monte não é tema para discutir. Ela é muito dura, intransigente, não aceita opinião divergente. Parece estar obcecada pela ideia de ser a construtora da terceira maior hidrelétrica do mundo e, talvez, ser a presidente que fará funcionar as primeiras turbinas. Meio ambiente, índio, ribeirinho, povo de Altamira, para a Dilma nada disso importa. Construir Belo Monte não foi uma decisão técnica, mas sim política, tomada contra as advertências de cientistas e professores de nossas melhores universidades. A história da Amazônia, do Brasil e da Terra julgarão logo mais o Lula e a Dilma, de modo muito severo, como depredadores inescrupulosos e causadores de impactos que alteraram irreversivelmente o clima do planeta. Todos nós sabemos da função reguladora do clima que a Amazônia exerce. Belo Monte surtirá um efeito dominó. Com Belo Monte se dá luz verde a dezenas de outras hidrelétricas já projetadas para a Amazônia. Belo Monte é o punhal empunhado por Lula e Dilma et caterva para ferir mortalmente o coração da Amazônia.

– Como é o seu Xingu hoje? O senhor teve o Xingu mítico da sua infância e depois o Xingu de quando chegou aqui… Mas como é o Xingu de quem está com quase 73 anos de idade e 47 anos de Xingu?

Dom Erwin – Para mim, o Xingu simboliza a resistência desse povo e dos povos que estão aqui. Antigamente nem sonhei que precisava resistir, era óbvio. Mas, hoje, o Xingu conta a história dos povos daqui e também dos massacres dos séculos passados. E massacres que não estão tão distantes assim, no tempo, quando arrasaram aldeias inteiras. O Xingu tem história de sangue derramado, mas hoje tem também a história da resistência de um povo. Por isso a gente fala do Xingu Vivo para Sempre (movimento contra Belo Monte que reúne várias organizações sociais). Porque não podemos acreditar que será dado o ultimato para o Xingu, que esse rio grandioso vai virar simplesmente uma cloaca.

– Qual é o tamanho dessa perda, para o senhor?

Dom Erwin – Para mim é sempre o último pedaço do paraíso que Deus criou. Esse impacto… Não posso concordar com isso. Não é por sentimentalismo. Mas o Xingu não é só o rio, a água, as praias, é também os povos daqui, que viviam desde tempos que se perdem na História, e depois os ribeirinhos que vieram nos séculos 18, 19, início do século 20. E depois os imigrantes que também vieram nos anos 70. Eles hoje já se identificaram com o Xingu, já pertencem ao Xingu. Têm olhos azuis e cabelo loiro, mas são daqui. Esse povo todo, misturado, para mim é o Xingu.

– O senhor lutou tantas décadas contra Belo Monte. O senhor acha que há alguma chance de vencer essa luta, com a construção já em andamento e com tanta gente desistindo dela? Qual é o cenário hoje e quais são as suas expectativas?

Dom Erwin – Posso ser considerado ingênuo, mas eu ainda não acredito que estejamos na “casa do sem jeito”. Tenho até a sensação de que o próprio rio Xingu não vai ficar “quieto” enquanto querem matá-lo. Os geólogos e gente que entende do assunto falam no Xingu como rio que ainda está “in statu fieri”. Quer dizer: ainda não está pronto, ainda se constitui, se constrói, se mexe, se impõe. O Xingu é um rio “vivo”. Não confio, em absoluto, nos estudos dos que defendem Belo Monte. Os estudos foram feitos simplesmente para corroborar uma decisão política já tomada – e estudos desse tipo para mim carecem de seriedade. O Xingu é enigmático e imprevisível em sua maneira de reagir. Mas penso também que os homens e mulheres que até agora defenderam Belo Monte um dia vão cair na real. Espero apenas que, quando caiam na real, o estrago já não seja total.

– O Brasil vai sediar, nos próximos dias, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio + 20, duas décadas depois da Rio 92. O senhor tem alguma esperança nessa conferência?

Dom Erwin – Sim, tenho esperança. Não tanto nas discussões oficiais, mas sim naquilo que acontecerá na margem ou ao redor da Rio + 20. Eu sei que gente de toda parte vai aproveitar os espaços e não vai se calar. E também o Xingu e Belo Monte e a Amazônia serão temas discutidos por pessoas de ponta, tanto em nível do Brasil como do mundo todo. E tem mais. Enquanto acontece a Rio + 20, no Xingu acontecerá a Xingu + 23, lembrando nossa luta contra Belo Monte, que já dura 23 anos e seguramente não será uma luta perdida.

Reportagem publicada na Revista Época

Vestiu a camisa do Corinthians e foi à formatura da filha

Amanda, filha de Estela e de Hustene, tornou-se enfermeira diplomada – um marco na história da família Costa Pereira, da Grande São Paulo. Eles estão entre os cerca de 40 milhões de brasileiros que ingressaram na classe C entre 2003 e 2011. Este é mais um capítulo da saga brasileira que acompanho há uma década

Hustene Pereira, 52 anos, nunca tinha visto lugar tão chique. A casa de espetáculos Skyline fica em Alphaville, um condomínio fechado nos arredores de São Paulo que tenta imitar um daqueles subúrbios americanos com grandes casas e ruas bucólicas que vemos nos filmes de Hollywood. Nos filmes e seriados, é lá que as piores coisas acontecem. Aqui, a história é muito menos óbvia. Na segunda-feira, 16 de janeiro de 2011 – datas históricas exigem completude –, houve certo burburinho quando aquele homem entrou no salão vestido com uma camisa do Corinthians. “Não a do time, mas uma de gala”, Hustene explica. Entre engravatados e mulheres de longos brilhantes, ele era uma aparição inusitada. Ao seu lado, sua mulher, Estela Costa, 45 anos, três quilos e meio mais magra para a ocasião, exibia uma elegância clássica em um vestido doado por uma quase parenta, e teria se harmonizado com a etiqueta do entorno, não fosse o marido em “Corinthians-gala”. Hustene e Estela estavam ali para testemunhar algo inédito na história da família: a primeira Costa Pereira, entre todas as gerações, a receber um diploma universitário. Amanda, 27 anos, sairia dali enfermeira.

É tão grande, mas tão grande, que Hustene, a quem nunca faltam palavras, só encontrou uma para descrever: “indescritível”. É Estela, que só pôde estudar até a quinta série, quem traduz com uma metáfora: “Eu nunca sonhei que um dia pudesse ver uma filha formada, nunca pensei que algo assim pudesse acontecer com pessoas como nós. Quando eu vi minha filha lá, recebendo o diploma, para mim era um outro parto. Um ainda mais gostoso do que o primeiro. Era a minha criação que estava ali”. Estela chora. Chora com soluços fundos. E só quem viu Estela chorar por tanta falta de comida, por tanta falta de saúde, por tanta falta de tudo, consegue não alcançar, mas ao menos chegar perto, da exorbitância daquela cena: Amanda no palco, com o chapéu de formanda na cabeça, e Estela, sempre tão contida, gritando seu nome, de pé. Hustene olha para Estela e também vira água. Não é pouco chorar de felicidade.

Gente como Hustene e Estela faz parte da maioria de brasileiros que há séculos constrói o Brasil, dia após dia, mas não é contada na História. Até pouco tempo atrás, eles só existiam como estatística. Desde que entraram no mundo do mercado ao virar classe C, respondendo por 46% do consumo no Brasil, segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, tornaram-se um desafio para marqueteiros, publicitários e ólogos de todo tipo. De que carne são feitos?, é a pergunta do mercado e da academia.

Acompanho a família Costa Pereira há uma década – desde o último ano do governo Fernando Henrique Cardoso, quando Hustene era mais um chefe de família desempregado. Quando nos encontramos pela primeira vez, na virada de 2001 para 2002, eles pertenciam à outra classificação: “excluídos”. Graças à generosidade dessa família, ao me abrir as portas da casa e da vida, testemunhei pelos seus olhos as mudanças ocorridas ao longo de todo o governo Lula. E, agora, também no de Dilma Rousseff.

Quem tiver interesse pode acompanhar os principais capítulos do percurso dos Costa Pereira neste século nos seguintes textos, por ordem cronológica: “O Homem-Estatística”, “Ao amigo presidente”, “Hustene chorou baixinho”, “Uma família no governo Lula”, “A história dentro da história”. Acredito que a saga dessa família vai muito além de uma transição da classe D, às vezes E, para a classe C. Este é apenas um recorte. A história humana transcende as classificações e, encarnada na vida, tem natureza imprevista.

No capítulo mais recente, Hustene exibe um peito estufado embaixo da camisa do Timão. Topetudo como sempre, motivo pelo qual ganhou na juventude o apelido de “Pankinha” (originado do substantivo “panca”), ele assim descreve sua entrada triunfal no salão para assistir à colação de grau da filha: “Eu era o mais bem trajado”. Horas depois, a família trocaria a latinha de cerveja de “absurdos” 7 reais da casa de Alphaville por uma comemoração na rede de lanches árabes Habib’s. “É muito melhor do que o McDonald’s”, garante Estela.

A formatura, o vestido e o cardápio

A formatura de Amanda, cujo nome foi dado por Hustene em homenagem à música de Taiguara, há algum tempo vem mudando a rotina da família. Ao ingressar na universidade, Amanda progressivamente passou a ocupar um novo lugar na estrutura familiar: o de quem detém um saber que ninguém mais tem. É Amanda quem orienta os pais, os irmãos e a sobrinha nas questões de saúde e alimentação. É também ela que é chamada para socorrer nos embaraços do mundo feminino. Como quando Estela começou a sofrer com o aquecimento global da menopausa e, há pouco, quando a neta Gabriele, de 11 anos, “ficou mocinha”. Envergonhada, Gabi não contou a ninguém. Só quis conversa com Amanda.

Quando Estela enfiou na cabeça que devia emagrecer para fazer bonito no vestido da formatura, tinha comprovado que a ascensão social poderia ser medida não só em renda – mas em quilos. Nos últimos anos, o carrinho de supermercado passou a se encher de produtos industrializados e apenas Hustene alargou em mais de 20 quilos. Segundo sua própria versão, adquiriu um porte de Ronaldo Fenômeno.

A família passou a identificar as fotos do passado recente, em que estavam todos “magrinhos”, como “nós no tempo do Fernando Henrique”. Nos anos de desemprego, Estela já era uma cozinheira criativa, que fazia milagres com ovo e farinha. Com o acesso à internet, ela passou a pesquisar, com afinco de exploradora, novas receitas nos sites de gastronomia, povoando a mesa de delícias e calorias. “Agora, até a Pantera está gorda”, resume Estela. Pantera é a cachorra.

No final de 2011, a obstinação de Estela em ficar elegante no vestido da formatura da filha deflagrou uma mudança na mesa dos Costa Pereira. Estela nem lembra quanto tempo faz que sentiu na boca a textura de um pão francês. O açúcar dos doces e bolos foi substituído por frutas e gelatina. As frituras diminuíram, e a carne passou a ser cozida. Duas vezes por semana, Estela troca a “mistura” (carne vermelha) por peixe, aproveitando as promoções que espia nas caminhadas diárias que faz com uma prima. Granola, linhaça e iogurte natural também entraram no vocabulário e no menu. A tudo, Hustene grita, só para implicar: “Prefiro ovo frito!”.

Ao tentar botar na mesa da família um cardápio mais saudável, Estela descobriu que não seria tão fácil. A garantia de alimentação foi uma conquista enorme, mas os melhores produtos ainda estão fora do alcance da “nova classe média”. Deixar de correr o risco da obesidade, um problema crescente no Brasil, como mostra a experiência cotidiana de chefes de família como Estela, depende da educação e das mudanças de hábito, mas depende também de preço. Estela bem que tentou trocar o óleo de soja por óleo de girassol. Mas, enquanto encontra óleo de soja por R$ 2,59 – e até R$ 1,58 nas promoções –, o de girassol custa mais do que o dobro. “E o de canola é mais caro ainda.” Estela também substituiu o arroz branco pelo integral, mas os preços a obrigaram a recuar. “Eu gasto R$ 4,30 por 1 quilo de arroz integral – e compro 5 quilos do branco por R$ 5,80”, exemplifica. “Numa família que consome 1 quilo de arroz por dia, entre o almoço e a janta, não dá.” Estela faz o que dá e até mais, patrulhando Osasco, na Grande São Paulo, semana após semana em busca de promoções.

O caminho privado da nova classe média

Uma terceira novidade colaborou para a mudança no cardápio. Hoje, apenas Hustene, Estela e a neta Gabriele, criada na casa dos avós, dependem do SUS. Os filhos trabalham com carteira assinada e têm plano privado de saúde como benefício das empresas. Foi pela facilidade de acesso médico que Diego, 24 anos, descobriu uma infecção no fígado causada pelo excesso de consumo de gordura, e Rodrigo, 29 anos, passou a ser acompanhado por uma nutricionista. Depois de perder 10 quilos e achá-los um por um, Rodrigo acabou concluindo que é mais fácil emagrecer fazendo uma cirurgia de redução do estômago.

Nesse aspecto, os Costa Pereira começam a se parecer cada vez mais com a classe média tradicional. Na família, apenas Hustene torce o nariz para a saúde privada. Ele, cujo corpo é uma denúncia ambulante da deficiência da saúde pública, acredita que o SUS precisa persistir e melhorar para que os brasileiros tenham acesso à assistência de qualidade. A convicção revela a força do caráter de Hustene: ele teve o primeiro dos dois derrames por falta de atendimento no posto de saúde, encontra-se há oito meses sem conseguir consulta no cardiologista e vive sob a ameaça de ficar cego por uma doença degenerativa nos olhos para a qual nunca encontrou tratamento. Mesmo assim, acha que é seu dever de brasileiro insistir – e obrigação do Estado melhorar. É o único.

O confronto de Hustene com a saúde pública levou Amanda a querer se tornar enfermeira. Um querer tão forte que, contra todas as probabilidades, ela conseguiu. “Eu sei o que é descobrir que o médico mandou seu pai embora do posto de saúde quando seu pai estava tendo um AVC. Mandou seu pai de volta para casa dizendo que ele só precisava de repouso, e ele estava tendo um AVC. Eu conheço o sentimento de impotência de quem precisa de ajuda e não tem, de quem é leigo e não sabe o que está acontecendo. Eu quis me tornar enfermeira naquele momento”, afirma. “Aquela roupa de formatura era muito quente, mas foi a melhor roupa que eu vesti na minha vida.”

Amanda estudou em uma faculdade privada. Pagou o curso com a ajuda do marido, que para isso manteve dois empregos nos últimos anos. Formou-se com uma dívida pendente de mais de um ano de mensalidades atrasadas. Como a maioria das mães de classe média, ela quer garantir escola particular à filha Rafaela, de 6 anos. “Não quero que minha filha passe pelas dificuldades que eu passei por ter recebido um ensino de má qualidade. Quero que ela estude em colégios privados e possa competir para entrar em uma universidade como a USP”, diz. “Eu estudei em escola pública a minha vida inteira e, apesar de sempre tirar boas notas, não tinha condições de competir com quem estudou nas escolas privadas. Também tive muita dificuldade no primeiro ano de faculdade. Eu não tinha o hábito de leitura e tive de aprender a interpretar os textos. Foi um esforço enorme, mas consegui. Agora eu leio bastante, porque sei que vou precisar me manter atualizada e também sei que hoje só a faculdade não basta. Assim que pagar as dívidas, eu vou fazer pós-graduação na área da saúde mental.”

É possível apalpar no relato de Amanda a diferença que a ampliação do acesso à universidade poderá fazer na vida cotidiana do país, ao levar para o mercado de trabalho especializado homens e mulheres que conhecem as dores dos mais pobres e que tiveram de arrancar o conhecimento com as unhas. A voz de Amanda sobe um tom ao afirmar: “Pode faltar tudo em um hospital ou em um posto de saúde, mas não pode faltar humanidade. Pode faltar material, mas ainda assim você pode parar e conversar. Às vezes, tudo o que alguém precisa é que pergunte como está se sentindo. Eu não quero ser mais uma enfermeira, eu quero fazer a diferença. Eu vou lidar com vidas humanas, tenho obrigação de ser a melhor profissional possível. É uma questão de dignidade”.

A távola redonda fica na cozinha

Na manhã do último sábado, os Costa Pereira se reuniram em torno da mesa da cozinha. Desde que a mudança de classe permitiu uma sequência de melhorias e a aquisição de eletrodomésticos e eletrônicos, a casa na periferia de Osasco foi batizada de “Complexo do Pankinha”. E, desde a formatura de Amanda, virou “Complexo Superior”. “Uma filha formada é outro naipe”, explica Hustene.

É na “távola redonda”, como chamam a mesa da cozinha, que tomam as decisões importantes. Naquela manhã, discutiam quanto cada um daria para comprar uma churrasqueira para o terraço. Mas este não era o tema principal da pauta. O principal era decidir o que cortariam para que Diego e Jade, 19 anos, pudessem usar seu salário apenas para pagar a faculdade que iniciam neste ano, sem precisar contribuir com as despesas domésticas. Diego, na área da administração, e Jade na de marketing.

Não são escolhas de utopia. Se fossem, Diego faria um curso que o levasse à carreira de arqueólogo, seu sonho desde sempre. E Jade pensava em fazer fisioterapia. Para ambos, as opções são determinadas pelo pragmatismo, e os cursos contemplam as necessidades das empresas em que já trabalham. Depois, é deles a tarefa de ajudar Gabriele a fazer universidade quando chegar a hora. “Meus filhos preferiram fazer vestibular e pagar do que fazer o ENEM, que está uma vergonha, todo ano com alguma enrascada”, diz Hustene. Ele costuma criticar os programas de bolsas do governo, seja o Bolsa Família ou o Prouni. “Um trabalhador tem de ganhar o suficiente para se sustentar. O resto é esmola.”

Hoje, a renda da família gira em torno de R$ 5 mil. “Em torno de” porque Diego adquiriu um hábito típico de classe média e anda preferindo ocultar o valor do salário. Nem para a mãe ele conta. “Tô cismada que o cabra está ganhando mais do que R$ 1.200, porque sempre tem dinheiro”, diz Estela. “Paga a água e a luz e colabora com os tickets no total de R$ 330 com que eu compro a mistura. E todo mês guarda um pouco do salário para comprar uma moto ou um carrinho.”

Tudo indica que a família cortará a TV por assinatura para que mais dois Costa Pereira possam cursar universidade. Mas ainda haverá nova rodada de negociações. Hustene, por exemplo, além do futebol, pouco vê a TV aberta. Aposentado em 2011 por causa da saúde, ele acorda pela manhã e vai para o “escritório”. Primeiro checa os emails e as redes sociais no computador. Ele participa do Orkut, do Facebook e do Twitter. Em seguida, passa algumas horas em busca de notícias, na seguinte sequência de sites: “Globo, Band, Terra e R7”. Caso se indigne com alguma delas, dispara alguns comentários virtuais. Só compra jornais e revistas de papel para montar seus álbuns do Corinthians. “Depois de me informar na internet, eu já sei que os telejornais só terão notícia velha. Então, já deixei de assisti-los, porque não acrescentam nada ao que eu já sei. Prefiro passar o restante do tempo vendo documentários”, conta. “Gosto muito do Animal Planet.”

Mesmo assim, Hustene está disposto a abrir mão da TV paga. Na verdade, está disposto a abrir mão de qualquer coisa que for preciso para ser convidado de novo para “uma festa daquelas”. “Essa família pegou gosto por canudos”, fala sério brincando. “Eu sentia claramente que, para as pessoas ao nosso redor, era normal ver a formatura de um filho. Estavam contentes, mas a formatura não tinha o mesmo significado que tinha pra gente. Para nós, ver a Amanda com aquela roupa preta, aquele negócio verde, aquele chapéu de formanda era tudo na vida. É um marco. Antes, só quem tinha poder aquisitivo tinha diploma. A gente se equiparou, sabe? Agora, eu posso até morrer.”

A próxima camisa do Corinthians

Na noite da formatura, Hustene demorou a dormir. Ele, que tanto sonhou com a universidade, foi interrompido pelo primeiro derrame quando faltava uma prova para concluir o supletivo do ensino médio. “Vi o filme da minha vida na cabeça. Meus sonhos todos. Lembrei dos professores que me ensinaram tudo o que eu sei. Faço questão de dizer o nome deles, porque acho que ser professor é a coisa mais bonita do mundo: a Maria Gomes Batalhone, do Colégio Espiridião Rosa, no Jaguaré, me ensinou a ler e a escrever; a dona Etelvina foi a melhor professora de português que eu tive, ela elogiava a minha letra e o capricho dos meus cadernos; tinha o Manuel, de História, o professor Luís, de Ciências… Fiquei imaginando se fosse eu que recebesse aquele diploma lindo, escrito em letras douradas. Eu agradeceria a todos os meus mestres. Ainda preciso perguntar pra Amanda se ela se lembrou dos dela.”

Hustene faz uma pausa molhada. Depois continua: “Sabe, nem o Lula, nem a Dilma agora, nem o Fernando Henrique, que era professor, entenderam a importância da educação. Nenhum deles conseguiu entender de verdade. Por isso a educação nunca foi prioridade, os professores ganham tão pouco e a escola pública ficou tão fraca, prejudicando meus filhos e netos. A educação nunca foi prioridade porque nenhum deles consegue entender, entender mesmo, como a gente entende, o que a educação faz com a vida de uma pessoa.”

Na noite da formatura, o segurança da casa chique de Alphaville entendeu um pouco. “Vai, Corinthians”, brincou com Hustene. “É ‘nóis’ na fita”, respondeu Hustene. Quem não entendeu nada foi o garçom. Amanda nem mesmo tinha sido chamada ao palco quando ele insistiu para que os Costa Pereira pagassem a conta. “É por causa da camisa do Corinthians?”, intimou Hustene. “Não, imagina, é que eu preciso começar a cobrar por aqui”, defendeu-se o garçom. Nervoso, mas plantado ao lado da mesa. Hustene não se abalou. Para as próximas formaturas, ele pretende comprar uma “camisa polo do Corinthians”. Segundo ele, mais “de gala” ainda.

Desde aquela noite, Hustene saracoteia pela vizinhança anunciando para “os quatro cantos da terra de Osasco”: “Sabe, fui na formatura da minha filha”. Assim, como quem não quer nada, entre o preço do pão e a última façanha do Neymar. Mais estufado que um chéster, Hustene explica: “Eu achava que só os imortais tinham filha com diploma. Fiquei pensando…. Agora sou imortal também”. Como ainda é um pouquinho mortal, na manhã seguinte à formatura jogou o número da mesa da cerimônia – “627” – no bicho.

(Publicado na Revista Época em 23/01/2012)

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