Cem dias sob o domínio dos perversos

Os 100 dias do Governo Bolsonaro fizeram do Brasil o principal laboratório de uma experiência cujas consequências podem ser mais destruidoras do que mesmo os mais críticos previam. Não há precedentes históricos para a operação de poder de Jair Bolsonaro (PSL). Ao inventar a antipresidência, Bolsonaro forjou também um governo que simula a sua própria oposição. Ao fazer a sua própria oposição, neutraliza a oposição de fato. Ao lançar declarações polêmicas para o público, o governo também domina a pauta do debate nacional, bloqueando qualquer possibilidade de debate real. O bolsonarismo ocupa todos os papéis, inclusive o de simular oposição e crítica, destruindo a política e interditando a democracia. Ao ditar o ritmo e o conteúdo dos dias, converteu um país inteiro em refém.

A violência de agentes das forças de segurança do Estado nos primeiros 100 dias do ano, como a execução de 11 suspeitos em Guararema (SP), pela polícia militar, e os 80 tiros disparados contra o carro de uma família por militares no Rio de Janeiro, pode apontar a ampliação do que já era evidente no Brasil: a licença para matar. Mais frágeis entre os frágeis, os ataques a moradores de rua podem demonstrar uma sociedade adoecida pelo ódio: em apenas três meses e 10 dias, pelo menos oito mendigos foram queimados vivos no Brasil. Bolsonaro não puxou o gatilho nem ateou fogo, mas é legítimo afirmar que um Governo que estimula a guerra entre brasileiros, elogia policiais que matam suspeitos e promove o armamento da população tem responsabilidade sobre a violência.

Este artigo é dividido em três partes: perversão, barbárie e resistência

Jair Bolsonaro durante cerimônia de promoção de generais no Palácio do Planalto, em Brasília (Foto: Adriano Machado/Reuters/Reprodução do El País)

Jair Bolsonaro durante cerimônia de promoção de generais no Palácio do Planalto, em Brasília (Foto: Adriano Machado/Reuters/Reprodução do El País)

A vida no Brasil de Bolsonaro: um Governo que faz oposição a si mesmo como estratégia para se manter no poder, sequestra o debate nacional, transforma um país inteiro em refém e estimula a matança dos mais frágeis

Leia na minha coluna no El País 

Em português
Em espanhol 

O regresso ao passado que nunca existiu

A falsificação do passado como projeto de governo transforma o Brasil na vitrine radical de um fenômeno mais amplo. Do Brexit ao trumpismo, o debate do presente abandonou o horizonte do futuro para se dedicar a passados que nunca existiram.

 Jair Bolsonaro durante um ato em Jerusalém (Foto: Ronen Zvulun/Reuters/Reprodução do El País)

Jair Bolsonaro durante um ato em Jerusalém (Foto: Ronen Zvulun/Reuters/Reprodução do El País)

El regreso al pasado que nunca existió

 

Solo la política puede articular un esfuerzo global reconociendo la realidad común de una especie que necesita unirse más allá de las fronteras

Leia no El País (em espanhol)

Bolsonaro manda festejar o crime

É possível o Brasil comemorar oficialmente, como ato de governo, a tortura e o assassinato de civis e seguir reconhecido como uma democracia?

Não, não é possível.

Bolsonaro bate continência aos militares (Foto: Esteban Felix/AP/Reprodução do El País)

Bolsonaro bate continência aos militares (Foto: Esteban Felix/AP/Reprodução do El País)

Ao determinar a comemoração do golpe militar de 1964, o antipresidente busca manter o ódio ativo e barrar qualquer possibilidade de justiça

Leia na minha coluna no El País 

Quem mandou matar Marielle? E por quê?

14 de março de 2019: UM ANO DA MORTE DE MARIELLE

Esse artigo no El País Brasil é o que eu quero dizer no dia histórico de hoje, é o meu testemunho e também o meu alerta. Como jornalista, mas também como cidadã brasileira. Como habitante de um país em que o presidente governa pela administração pública do ódio.

Um ano depois do assassinato de Marielle, o Brasil é ainda pior. E é pior também porque NÃO sabemos quem mandou matar Marielle. E por que mandou matar Marielle.

MARIELLE PRESENTE!

Mural em São Paulo em homenagem a Marielle Franco (Foto: F.Bizerra/EFE/Reprodução do El País)

Mural em São Paulo em homenagem a Marielle Franco (F.Bizerra/EFE/Reprodução do El País)

Bolsonaro, que governa o Brasil pela administração do ódio, deveria ser o maior interessado em desvendar o crime

Leia na minha coluna no El País 

Brasil, (des)gobernado por Twitter

Bolsonaro já mostrou que fará qualquer coisa para manter sua popularidade ativa e, assim, permanecer no poder. Poderia ser uma contradição. Afinal, se a situação do Brasil não melhorar, não há popularidade que se sustente. Bolsonaro, porém, faz parte de um fenômeno mais amplo: as escolhas são determinadas pela fé, não pela razão. É o mesmo mecanismo que faz com que as pessoas acreditem, em 2019, que a Terra é plana, que o mundo está ameaçado pelo “comunismo” e que, como garante o chanceler de Bolsonaro, o aquecimento global é um complô de esquerda.

As eleições e o cotidiano têm sido determinados por uma interpretação religiosa da realidade. A adesão pela fé é um fenômeno mais amplo e não necessariamente ligado a um credo, já que há muitos ateus que se comportam como crentes. Na época em que a verdade passou a ser uma escolha pessoal, porém, como fazer a democracia valer?

Foto: Andressa Anholete/Getty Images (Reprodução do El País Madri)

Jair Bolsonaro (Foto: Andressa Anholete/Getty Images /Reprodução do El País Madri)

Al tomar decisiones basándose en los gritos en las redes sociales, Jair Bolsonaro corrompe la democracia

Leia na minha coluna no El País de Madri (em espanhol)

Leia na minha coluna no El País (em português)

Página 2 de 3712345...102030...Última »