Por que os ruralistas querem a extinção da Funai

O ruralista Nilson Leitão (PSDB) defende a extinção da Funai em seu relatório para a CPI da Funai-Incra, dominada por ruralistas, conforme matéria da Folha (leia AQUI). É importante lembrar que ele é também o autor do projeto que altera a legislação para o trabalhador rural (leia AQUI), na qual, segundo matéria do Valor Econômico, poderá se tornar possível pagar o trabalhador com casa e comida, em vez de salário. As propostas são relacionadas – e há bem mais. Elas mostram a visão dos ruralistas para o campo e para as terras indígenas e áreas de proteção ambiental. E os ruralistas hoje dominam o Congresso e o Planalto.

Entre as manipulações do discurso, aparece a velha falsidade de que, por receberem financiamento de fundações internacionais ligadas aos direitos humanos e ambientais, as ONGs que defendem o meio ambiente e os direitos dos povos da floresta estariam a serviço do “estrangeiro”. Quem ainda acredita nisso deveria se perguntar por que estes mesmos atores ou seus pares acham desejável que grandes mineradoras de capital transnacional explorem o subsolo da Amazônia, por exemplo. Aí é “desenvolvimento”.
Dinheiro de fundação internacional para proteger a floresta e os indígenas, para eles, é “suspeito”. Grandes mineradoras estrangeiras e corporações internacionais explorando as riquezas naturais do Brasil é “progresso”.

Em tempo: uma das organizações que o deputado ruralista cita de forma pejorativa é o Cimi (Conselho Indigenista Missionário). Foi justamente o Cimi que denunciou o ataque aos índios Gamela ocorrido no último domingo. Conveniente para muitos que o Cimi não existisse, não?

A outra manipulação é o “marco temporal”. Eles querem impingir à população que só os indígenas que estavam sobre as suas terras ancestrais em 1988, ano da promulgação da Constituição, têm direito a reivindicar demarcação. Isso é de uma enorme perversidade, na medida em que grande parte dos povos tinha sido expulsa de suas terras por grileiros ou por projetos de colonização promovidos pelo Estado.
É mais ou menos assim: você foi expulso da sua casa, parte da sua família foi assassinada, e você está fugindo com o que restou da sua família. E, agora, quando a Constituição reconhece o seu direito de voltar para sua casa e ter a garantia de que não será expulso dela novamente, os mesmos algozes dizem: “Ah, mas você não estava lá em 1988, então não tem mais direito”. É isso o “marco temporal”.

O fato é que as terras indígenas são as mais preservadas exatamente porque são protegidas. Se há floresta em pé ainda, no Brasil, em grande parte isso se deve aos povos da floresta. Mas os ruralistas querem avançar sobre estas terras públicas para obter ganhos privados. E transformar índios e ribeirinhos em pobres urbanos nas periferias das cidades.

Por que precisamos prestar muita atenção nisso e nos posicionarmos?

Eticamente, a garantia da vida dos povos da floresta deveria ser suficiente. Mas, para quem acha que isso não é suficiente, em tempos de mudança climática, se o meio ambiente não for protegido, a vida que já piora vai piorar muito, mas muito mesmo. E vai piorar muito para todos.

O próximo passo é revogar a Lei Áurea

O próximo passo é revogar oficialmente a Lei Áurea, como disse o humorista José Simão. E o pior é que no Brasil de hoje o humor parece não ser mais possível, porque o absurdo e o inacreditável acontecem dia após dia.

A Câmara discute agora as “mudanças específicas para os trabalhadores rurais”. Parem 5 minutos e leiam a proposta (http://www.valor.com.br/…/leis-do-trabalho-rural-devem-mudar), mas leiam com toda atenção, porque querem que o Brasil volte ao tempo em que não havia salário:

1) os trabalhadores podem ser pagos mediante “remuneração de qualquer espécie” e não apenas por salário. Isso significa que as pessoas podem voltar a trabalhar por casa e comida – e isso dentro da lei;

2) aumento de até 12 horas da jornada diária, por “motivos de força maior”;

3) o repouso semanal dos trabalhadores pode ser substituído por um período contínuo de até 18 dias de trabalho seguidos;

4) passa a ser possível a venda integral das férias no caso de trabalhadores que morem no emprego.

Isso tudo é combinado com a restrição do poder da Justiça do Trabalho e do Ministério Público do Trabalho no estabelecimento de novas normas e na interpretação das já existentes.

Imaginem o poder de negociação que um trabalhador terá morando nas terras do patrão.

O autor da proposta é o deputado Nilson Leitão (PSDB), líder da bancada ruralista.

Para os ruralistas, a Princesa Isabel deve ser “esquerdista”.

Na minha coluna desta semana, no El País, abro com a pergunta: Quanto mal o governo-9%-de-aprovação-Temer ainda pode fazer?

A resposta é muito. Mas muito mesmo. Conquistas de décadas estão sendo apagadas de um dia pro outro. E ainda tem muito tempo até 2018.

Prestem muita atenção em quem está chamando trabalhador exercendo seu direito legítimo de greve contra as reformas trabalhistas e da previdência de “vagabundo”.

Estamos voltando ao passado. E conhecemos o rosto dos senhores de escravos, mesmo que agora eles usem botox.

Os que apodrecem

Minha coluna no El País pode ajudar a compreender por que indígenas são feridos e mãos são decepadas no Brasil em que os ruralistas são “donos” da Funai.

Quando os índios descobrem o Brasil do governo 9% de aprovação Temer

Movimentos indígenas protestam em Brasília, na última semana. JOÉDSON ALVES EFE (Reprodução El País)

Movimentos indígenas protestam em Brasília, na última semana. JOÉDSON ALVES EFE (Reprodução El País)

É isso. No Brasil o passado não passa e o futuro já passou.

Leia a coluna completa AQUI.

Laertar-se é verbo

Divulgação

Foto: Divulgação

Amigos,

Aqui vai o meu convite para estarem comigo neste momento ao mesmo tempo tão alegre, ao mesmo tempo tão frágil, ao mesmo tempo tão trêmulo que é o de mostrar algo que se criou (neste caso coletivamente) para o mundo.

Queria muito, mas muito mesmo, garantir o ingresso de cada um de vocês na sessão que escolhessem, mas infelizmente isso não é possível.

Então, aqui vão as coordenadas.

A única oportunidade de assistir ao documentário “Laerte-se” na tela grande é no festival É Tudo Verdade, na mostra O Estado das Coisas.

Aqui, as sessões em São Paulo e no Rio de Janeiro:

A estreia mundial será no próximo sábado, 22 de abril, às 23h15, no Reserva Cultural, em São Paulo.
A segunda e última sessão em São Paulo será no Centro Cultural São Paulo, às 18h, no dia 29 de abril (sábado).
No Rio, haverá duas sessões, ambas no Espaço Itaú Botafogo:
em 25/4 (terça-feira), às 22h, na sala 3
e em 28/4 (sexta-feira), às 19h, na sala 06

Os ingressos são gratuitos e podem ser retirados na bilheteria do cinema uma hora antes de cada sessão.

Mais informações aqui: http://etudoverdade.com.br/br/programacao/?

Em 19 de maio, o filme estará disponível na Netflix para 190 países.

E fico muito contente por isso, porque os documentários têm pouco ou nenhum espaço nos cinemas brasileiros. Meus dois documentários anteriores, “Uma História Severina” e “Gretchen Filme Estrada”, andaram pelo mundo, mas não pelos cinemas brasileiros. Com a Netflix, todos poderão ver. E a gente faz um filme para que ele possa ser visto e debatido, para que ele produza algum movimento interno nas pessoas. Para que ele tenha sua própria aventura no mundo.

Laerte-se é dirigido por mim e por Lygia Barbosa da Silva. O roteiro também é assinado por nós e por Raphael Scire. A montagem é de Nani Garcia. A produção é da Lygia e da Alessandra Côrte. O documentário é uma produção da Tru3Lab para Netflix.

Se puderem ajudar a divulgar, agradeço.

abraços emocionados, porque a gente se emociona quando faz algo que ganha vida.

Me despeço com uma sinopse:

Laertar-se é verbo. Ao mesmo tempo que impele ao movimento, como um imperativo de vida, se volta para si, numa interrogação persistente. Mas aquela que retorna não é o mesmo que foi. E isso a cada volta. Ao acompanhar Laerte Coutinho em seu percurso de investigações sobre o que é ser uma mulher, este documentário também se faz ponto de interrogação. Ou apenas espaço de possíveis.
Neste filme, Laerte conjuga um corpo no feminino, esquadrinha conceitos e preconceitos. Não busca identidade. O que conjura são desidentidades. Laerte é filho e filha, é vó e vô. É também pai, de três filhos, órfão de um. É ainda quem leva a filha ao altar como pai e como mulher. E quem, mesmo sem útero, gesta. Envia suas criaturas para confrontar a realidade na ficção dos quadrinhos como uma vanguarda de si. E, nas ruas, ficciona-se como personagem real.
Laerte, pessoa de todos os corpos e de nenhum, embaralha qualquer binarismo. Ao indagar sobre Laerte, este documentário escolhe vestir a nudez, aquela que vai além da pele que se habita.

 

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