O Brasil desassombrado pelas palavras-fantasmas

Como o sonho e a arte podem nos ajudar a acessar a realidade e a romper a paralisia

Exposição 'Osso', em cartaz no Instituto Tomie Othake. (JOÃO CASTELLANO/ Reprodução El País)

Exposição ‘Osso’, em cartaz no Instituto Tomie Othake. (JOÃO CASTELLANO/ Reprodução El País)

O que sonhamos nós neste momento do Brasil? Neste momento em que as palavras não estão proibidas, como no sonho da alemã, mas esvaziadas de substância? Nesta condição, as palavras são como fantasmas que atravessam o corpo do outro sem produzir nenhum efeito. E então voltam para nós, falantes compulsivos, gritadores contumazes, que produzem som, mas não movimento. E esta talvez seja uma versão contemporânea, uma versão dos tempos da Internet, de um outro tipo de censura. E de encarceramento pela linguagem. Palavras-fantasmas, é preciso dizer, não assombram. Desassombram.

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Sobre a crise da palavra no Brasil atual, leia também:

O golpe e os golpeados

Tupi or not to be

Por quem rosna o Brasil

A Lava Jato como purgação e maldição

DIVULGAÇÃO/PF

DIVULGAÇÃO/PF

Para refundar a democracia é preciso bem mais do que combater a corrupção: é preciso produzir justiça e memória dos crimes contra a vida humana cometidos pelo Estado

Se a crise da democracia e da política é um fenômeno global, é preciso compreender o que há de particular na experiência hoje vivida pelo Brasil. Minha hipótese é de que as raízes da nossa atual crise estão no próprio processo de retomada da democracia após 21 anos de ditadura civil-militar. As raízes da nossa crise estão no apagamento dos crimes da ditadura e na impunidade dos torturadores. O Brasil retomou a democracia sem lidar com os mortos e os desaparecidos do período de exceção. Seguiu adiante sem lidar com o trauma. Um país que para retomar a democracia precisa esconder os esqueletos no armário é um país com uma democracia deformada. E uma democracia deformada está aberta a mais deformações. O que se infiltra no imaginário da população é que a vida humana vale pouco qualquer que seja o regime. E este não é um dado qualquer na atual crise.

É neste sentido o uso das palavras “purgação” e “maldição” do título deste artigo para se referir aos significados da Lava Jato. Se a operação é importante e é imperativo que ela continue, porque expõe a relação estabelecida entre governos, partidos e parte do empresariado nacional, a Lava Jato também revela, pelo seu avesso, o pacto do diabo que resultou na alma deformada da nossa democracia. A grande purgação nacional não é pela vida humana, mas pelo dinheiro. Não é pela carne, mas pela matéria inanimada. Quando finalmente combatemos a impunidade, o que nos mobiliza são os bens materiais, enquanto a vida segue sendo ferida de morte.

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Esta é a terceira de uma série de três colunas que se complementam e dialogam entre si. Sobre este tema, leia também:

Cotidiano de Exceção
Como lutar pela democracia aprendendo sobre a tirania

Por que Diretas Já
É preciso interromper a crescente fragilização da democracia para recuperar a capacidade de imaginar um país

 

 

 

Cotidiano de Exceção

Como resistir?

Neste momento de tantas armadilhas, o que se infiltra nas horas é esta sensação de anormalidade que não passa. Convertida num presente contínuo, é como se o dia seguinte nunca chegasse. O risco é que, para recuperar a “normalidade”, qualquer normalidade, se aceite o inaceitável. Quanto maior for o anseio por “normalidade”, mesmo que ilusória, mais as pessoas tornam-se dispostas a conceder e a perder direitos. E é aí que mora o perigo.

Na coluna desta semana, faço uma conversa com um livro que reflete sobre a tirania. Precisamos reagir por reflexão – e não por reflexo. A melhor resistência ainda é o pensamento.

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Cartaz da edição brasileira do livro 'Sobre a tirania' feito por Alceu Chierosin Nunes DIVULGAÇÃO

Cartaz da edição brasileira do livro ‘Sobre a tirania’ feito por Alceu Chierosin Nunes DIVULGAÇÃO

Alien, o passageiro perdido de uma nave sem futuro

Pra quem não sabe, eu sou uma alienmaníaca.

Então… Vou pensando sobre a criatura que tanto conversa com a gente. Sobre a impossibilidade de imaginar um futuro, mesmo um distópico, sobre o feminino feroz dos primeiros filmes, sobre pais e filhos…

Cena de Alien 3 (1992) Reprodução do El País

Cena de Alien 3 (1992) Reprodução do El País

Hoje, nos despedimos da criatura de Ridley Scott na saída do cinema e vamos comer uma pizza. Antes, ele nos fecundava na poltrona e voltava pra casa com a gente. O que aconteceu?

 

“A nave já não é a caravela que nos leva ao novo mundo – ou ao paraíso perdido. A nave é o presente onde estamos confinados. Nos brancos corredores claustrofóbicos viajamos com a destruição que carregamos.”

 

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